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PRIMÓRDIOS DA MOTORIZAÇÃO NO EXÉRCITO BRASILEIRO 1919 a 1940 (I)

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PRIMÓRDIOS DA MOTORIZAÇÃO NO

EXÉRCITO BRASILEIRO

1919 a 1940 (I)

Introdução

Com o fim da primeira guerra mundial (1914-18) e a consolidação do uso de veículos para fins militares, nos principais exércitos do mundo, o Exército Brasileiro não fugiu à regra, pois essa novidade passou a exercer um certo fascínio junto à jovem oficialidade, o mesmo ocorrendo com as Forças Públicas.

Os primeiros veículos incorporados ao Exército foram pequenos caminhões modelos FORD T, (foto 1) isso no início dos anos 20, não só devido ao fato da Ford ter sido a primeira montadora de veículos a se instalar no Brasil em 1919, mas também pelo fato de serem produzidos em grande quantidade. Esses veículos eram montados no país, através do sistema chamado CKDs (completely knocked down); praticamente todos os componentes do veículo vinham da matriz no exterior, tratando-se principalmente de veículos civis. A marca Ford não foi a única, mas ela sempre esteve presente ao lado de outras, tanto americanas como européias.

Foto 1 – Coluna de Caminhões FORD modelo T transportando tropas do 2º Batalhão de Caçadores em

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Um antigo instrutor do C.I.M.M. (Centro de Instrução de Motorização e

Mecanização do Exército) em palestra proferida no ano de 1941, num ciclo de

conferências sobre a Cavalaria Moderna assim se expressou:

“O Motor existe para a cavalaria sob duplo aspecto: materiais de transporte, tração e ligação, e materiais de combate.

No primeiro grupo se incluem as viaturas auto comuns, os veículos qualquer terreno, os tratores e as motocicletas; é a chamada motorização.

Ao segundo grupo, materiais de combate, pertencem os veículos couraçados, de duas categorias: os Auto metralhadoras, engenhos destinados a missões de procura de informação e de segurança e os Auto metralhadoras de Combate, capazes de combater seriamente, e que desempenham as ações de força; eis a mecanização.”

O presente artigo visa mostrar a motorização dentro e próximo ao Exército Brasileiro em vários momentos da vida nacional.

Um longo aprendizado

Em 1923 foi criado no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, o Serviço Central de

Transportes do Exército (S.C.T.), equipado com diversos modelos de caminhões e

veículos para uso militar. A estrutura montada era impressionante para os padrões da época, pois em relação aos veículos, estes eram adquiridos somente o chassi, o motor e a parte dianteira, sendo posteriormente encarroçados na própria unidade que possuía um parque para montagem e manutenção, com serviços de carpintaria para cabines e carrocerias, borracharia, funilaria, serviços para baterias e mecânica em geral, além de postos de combustível e até elevadores hidráulicos para efetuarem manutenção e lavagem. (foto 2, 3,

4 e 5) Isto dificulta um pouco a identificação destes veículos, pois eles sempre apresentam

grandes diferenças com os modelos comercializados e produzidos em série por seus fabricantes em seus países de origem.

Foto 2 – Chevrolet do S.C.T. no elevador hidráulico Foto 3 - S.C.T. Seção de Carpintaria (Col.Autor)

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Havia uma pequena quantidade de veículos motorizados no Exército, mas boa parte das unidades ainda estava equipada com viaturas hipomóveis, tracionadas por cavalos, e no caso da artilharia os canhões muitas vezes o eram por junta de bois, coisa comum até próximo do final dos anos 30.

A primeira grande utilização de veículos automotores para fins militares ocorre durante a Revolução de 1924, principalmente na frente do Paraná, onde o General Rondon, comandante daquele setor empregou diversos veículos civis e militares nesta campanha, em diversas funções, desde ambulâncias para transporte de feridos a pequenos caminhões para transporte de tropas, muito embora o suporte logístico de víveres, combustível e outros itens fosse todo feito por enormes carroças puxadas por seis cavalos, denominadas de

carroção tipo colonial, muito empregado naquela região. (fotos 6, 7, e 8) Foi especialmente

montada um oficina para adaptar veículos civis e caminhões em ambulâncias. Também é comum vermos tropas na capital de São Paulo sendo transportadas em caminhões civis Ford, requisitados de empresas como a Serraria União, por exemplo. (foto 9)

Foto 6 – Carroção Tipo Colonial do Paraná para Foto 7 – Ambulâncias FORD modelo TT em

transporte. primeiro plano, atrás Caminhões FORD T. Fotos Cap. Thomaz Reis – Col. Autor.

Foto 8 – Oficina de construção de ambulâncias e Foto 9 – FORD TT 1923, civil, da Serraria União caminhões para o Exército em Ponta Grossa –PR. usado para transporte de pessoal e cargas em São Na realidade um adaptadora de veículos. Paulo na revolução de 1924.

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Uma experiência curiosa

Dentre as diversas experiências vividas pelo General Bertholdo Klinger, narradas em seu livro “Parada e Desfile duma vida de voluntário do Brazil na primeira metade

do século”, a mais curiosa e que nos dá uma dimensão do que foi o início da motorização

no Exército Brasileiro, ocorreu em de julho de 1925. Está contida nas páginas 254/255 abaixo transcritas:

“...Desde Rio Verde tive minha atenção voltada para a questão dos caminhões, relativamente numerosos, que iam ficando soçobrados pela estrada. Em parte era culpa dos motoristas, mas em mínima parte.

A deficiência de pessoal habilitado fazia recrutar, quase a força, entre as praças condutoras para os carros; faziam eles, em geral e com raríssimas exceções, o melhor de seus esforços. Muito sofreram esses pobres ‘barbeiros’, como os apelidavam; e muito foram caluniados. A culpa maior dos danos cabe à defeituosa organização do serviço de reparações de urgência. Também, por inexperiência dos chefes do Serviço de Autotransporte, centralizavam-se eles em 2 ou 3 carros, batizados de ‘carros-socorro’, e toda a ferramenta e sobressalentes para reparos ligeiro, suscetíveis de serem feitos na estrada. Era impossível haver sempre um carro-socorro onde houvesse um comboio viajando e, como os carros foram despidos, em geral, das mais rudimentares ferramentas, tinham que ficar na estrada às vezes com avarias insignificantes. Todo carro que assim ficasse, passava inevitavelmente a servir de ‘agência’ para os que por ele cruzavam, de modo que em poucos dias o naufrago ficava reduzido à carcaça.

Comuniquei a 17 de julho ao sr. General MALAN que eu incumbira o maj. Int. CÓVA, do Q.G., de vender os caminhões inutilizados, espalhados na esteira do meu Dst., em GOIÁS, e lhe solicitei autorização para igual providência quanto aos que haviam soçobrado no trecho anterior, em MATO GROSSO. Respondeu-me o Chefe do Serviço de Auto do Q.G. de CAMPO GRANDE, que desde o dia 11 partira de RIBEIRÃO CLARO uma turma de mecânicos para recuperar o material abandonado à beira da estrada e que conviria reunir para tal fim o de GOIÁS, em RITAGUAIA. Retruquei: ...Considero a recuperação ideada espessa teoria. É ultradispendioso e quando findar será desnecessário, pois governo não necessita de parque de caminhões. Alargando as vistas: esta região também é BRASIL e este lucrará com o aumento de seus meios de transporte, mesmo que não façamos gordo negócio (em vender os destroços).

Na tal turma de reparação figurava um mecânico-chefe que vencia diária fabulosa. Os poucos carros assim recuperados saíram ao preço de ‘carros de ouro’.

Os que soçobraram no território goiano foram efetivamente vendidos conforme referi, mediante concorrência entre pessoas da região, idôneas e disposta a recuperá-los e pô-los a serviço da mesma.”

O texto acima nos dá uma dimensão do que foi a motorização numa região precária em todos os sentidos, com veículos modernos para a época e com grave problemas logísticos para qualquer tipo de reparo, dependendo de mão de obra qualificada que existia em pequena quantidade e muito longe daquela região.

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A década de ouro no emprego dos veículos automotores

Nos anos 30 o Exército empregou uma grande variedade de veículos militares e militarizados sobre rodas e lagartas de diversas marcas como Ford, Chevrolet, Dodge,

International, todos de origem norte-americana, Tornycroft, Commer, de origem

inglesa, Citroën, Renault, de origem francesa, Henschell, Krupp, de origem alemã.

Durante a revolução de 1930 foram empregados diversos modelos de veículos para fins militares, desde veículos adquiridos pelo Exército, até uma grande variedade de veículos civis requisitados de firmas e particulares, desde o Rio Grande do Sul até Minas Gerais, principalmente, muito embora seja comum encontrarmos larga utilização de veículos nos estados do Nordeste. Consultando jornais e revistas da época é possível vermos esta gama variada de veículos que desta forma se consolidam de vez na mentalidade do novo Exército pós-revolução. (fotos 10, 11, 12 e 13) O fascínio provocado pelos veículos chegou a tal ponto que alguns foram totalmente blindados e armados operando em diversas frentes, fruto da influência da Primeira Guerra Mundial, onde este tipo de veículo atinge sua maioridade e consolidação nos Exércitos que participaram daquele conflito. (foto 14 e 15)

Foto 10 - Caminhão Chevrolet á esquerda eFord á Foto 11 – Diversos caminhões civis Chevrolet sendo direita, em Porto Alegre –RS transportando usados por tropas do Exército no Rio de Janeiro, na canhões de 75mm na Revolução de 1930. Revolução de 1930.

Fotos Coleção do autor

Foto 12 - Tropas na Paraíba num caminhão Chevrolet Foto 13 – Caminhão civil Renault usado na tomada

preparando-se para embarcar para a Bahia. Revolução do Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro em 1930. de 1930. Seção de Periódicos - Coleção do Autor

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Foto 14 – Blindado construído sobre chassi de carro Foto 15 – Blindado construído sobre chassi de

Chevrolet em Palmyra, MG durante a revolução de caminhão Thornycroft 1926, em Uberaba – MG, 1930. Uma improvisação comum nesta época. Lembra em muito um blindado inglês da 1ª Foto coleção do autor. Guerra Mundial. Coleção do autor.

Foram empregados veículos de diversos tipos, desde carros civis e militarizados usados como comando, ambulâncias, veículos para transporte de água, combustível, tropas e equipamentos diversos, sem qualquer padronização.

Outro fator relevante foi a melhora na manutenção que se dispensou aos veículos, recuperando os com problemas mecânicos e acidentados de que forma que estes pudessem retornar à ativa, numa árdua e difícil tarefa. (fotos 16, 17 )

Foto 16 – Caminhão Thornycroft (eixo duplo traseiro) Foto 17 – Caminhão Ford T transportando recuperando caminhão Chevrolet acidentado na estrada a carcaça de um automóvel acidentado no que liga Curitiba a Ribeira, no Paraná. Revolução de 1930. Paraná – Revolução de 1930.

Foto Seção de periódicos - Coleção do autor

Vale lembrar que em setembro de 1931 o General Bertholdo Klinger efetuou manobras no Mato Grosso, ao longo do rio Nioaque, onde empregou em situação bastante crítica diversos veículos em uso no Exército naquele período, enfrentando uma região sem estradas e com rios onde foi necessária uma grande criatividade para transpô-los, sendo necessário muitas vezes atravessar diretamente o rio com os veículos ou usar diversos caminhões sobre o seu leito para nivelar as margens e usando suas carrocerias como ponte

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para outros veículos e tropas de infantaria com todos os seus apetrechos, uma verdadeira odisséia para a época. (fotos 18 e 19)

Foto 18 - Veículos Chevrolet atravessado o rio Foto 19 – Caminhões Chevrolet dispostos lado a lado Nioaque no Mato Grosso, em 1931. Notar as no leito do rio Nioaque, em Mato Grosso, nas manobras correntes na roda traseira do caminhão. efetuadas pelo Gen. Klinger, do Exército em 1931.

Fotos Arquivo Histórico do Exército

Outro período de ouro no emprego de veículos para fins militares se deu na nossa maior guerra civil, a Revolução Constitucionalista de 1932, deflagrada por São Paulo em julho daquele ano. (fotos 20, 21 e 22) Nos seus três meses de duração ambos os lados empregaram em larga escala todos os tipos de veículos militares e civis requisitados para diversas finalidades bélicas, desde viatura de comando, transporte de tropas, ambulâncias, até veículos blindados armados com metralhadoras pesadas, de rodas e lagartas, para confronto direto com os adversários. A título de curiosidade, registra-se que um jornalista que cobria aquele conflito chegou inclusive a camuflar seu veículo na frente de combate para tentar evitar ataques aéreos das forças governistas. (foto 24)

Foto 20 – Caminhões Chevrolet pertencente ao Foto 21 – Tropas Constitucionalistas em comboio 1º Grupo de Artilharia Pesada (1º GAP) em plena de caminhões Chevrolet em 1932. A sigla DCM operação. Forças Governistas em 1932. significa Departamento Central de Munições. Foto Arquivo Paulo Fellows, Rio de Janeiro. Foto Miguel Falleti

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Foto 22 – Caminhões Ambulâncias prontos para partirem para as frentes de combate das Forças

Constitucionalista em São Paulo. Alguns dos caminhões são Chevrolet e outros Ford. Foto seção de periódicos – Coleção do autor

É importante mencionar que usaram além dos caminhões, vários automóveis civis e muitos tratores agrícolas de rodas e lagartas foram transformados em veículos blindados para as mais variadas finalidades, principalmente pelas forças contrárias ao governo de Vargas (foto 23). Também foram empregados carros de combate leves Renault FT 17, os mesmos que haviam sido empregados nas revoluções de 1924 e 1930, onde em menor escala construiu-se os nossos primeiros blindados com pouco sucesso.

Foto 23 – Auto blindado construído sobre um Foto 24 - Automóvel civil Ford devidamente automóvel Chevrolet. Notar a camuflagem de três camuflado para evitar ataque aére o. Este veículo tons, verde, marrom e cinza, tipicamente francesa da pertencia ao Jornal A GAZETA de São Paulo. 1ª Guerra Mundial. Foto Escola Politécnica – SP Foto Miguel Falleti

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Talvez o ato que mais demonstra a importância da motorização para as forças

constitucionalistas, seja a reabertura da fábrica da General Motors do Brasil em São Caetano do Sul, SP, fechada pela diretoria ao eclodir a revolução.

O governo paulista adquiriu todo o estoque de veículos da empresa, mesmo os modelos de comercialização mais difícil.

A seguir, fez retomar toda a produção, dentro das limitações do momento, passando então a funcionar durante as 24 horas, em diversos turnos, efetuando a manutenção e reparos nos veículos danificados, inclusive adaptando veículos civis para uso militar e serviços diversos.

A presença constante de oficiais das forças constitucionalistas, nas dependências da fábrica, praticamente a tornou uma extensão dos quartéis revolucionários.

Muito poderia ter sido aprendido, mas os vencedores não compreenderam muito bem tais ensinamentos, levando mais tempo para consolidar de vez a motorização no Exército Brasileiro.

Referências

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