IMPORTÂNCIA DO ADVOGADO NAS CAUSAS DE NULIDADE MATRIMONIAL CANÔNICA
Marcel Rodrigues Bighetti Advogado
O advogado é uma pessoa que ajuda em juízo com seus conselhos e defende uma das partes em causa. O advogado, portanto, dá assistência à parte; o procurador a substitui. Não há nenhum dispositivo jurídico que impeça que as funções de advogado e do procurador sejam acumuladas pela mesma pessoa, e isto é comum e cada vez mais freqüente nos tribunais eclesiásticos, conforme veremos nos seguintes cânones.
Cân. 1481 – §1. A parte pode livremente constituir para si advogado ou procurador, mas, além dos casos estabelecidos nos §§ 2 e 3, pode também agir e responder pessoalmente, salvo se o juiz tiver julgado necessário a ajuda de procurador ou advogado.
[...]
§3. Em juízo contencioso, tratando-se de menores ou de juízo que afeta o bem público, com exceção de causas matrimoniais, o juiz constitua ex officio um defensor para a parte que não o tiver.
Podendo o advogado ser contrato pela parte à sua livre escolha. Mas na prática, ao contrário do que ocorre na justiça comum, os advogados não são contratados pelas partes interessadas, mas sim pelo próprio Tribunal Eclesiástico, que possui uma lista de advogados credenciados a atuar naqueles procedimentos adotados por este.
O credenciamento do advogado não consta no processo. No entanto, a lista de advogados credenciados é registrada no próprio Tribunal. Para o credenciamento é necessário comprovação por título (pós-graduação latu ou stricto sensu) ou por indicação (experiência e conhecimento na área).
Cân. 1490 – Em cada tribunal, quando possível, constituam-se patronos estáveis, remunerados pelo próprio tribunal, para exercer o ofício de advogado ou procurador, principalmente nas causas matrimoniais, em favor das partes que preferirem escolhe-los.
Conforme observamos no Cânon anterior, não se trata do patrocínio gratuito, a não ser que tenham o benefício de pobreza. Caso contrário, devem pagar as custas ao tribunal, evitando assim os honorários excessíveis dos advogados e procuradores. Aqui no Brasil dificilmente se conseguirá este ideal.
Em sede de processo, de requerimento de nulidade matrimonial, o advogado deve ser pessoa idônea, católica, e perito em Direito Canônico, seja por título ou por experiência.
Cân. 1483 – O procurador e o advogado devem ser maiores de idade e ter boa reputação; além disso, o advogado deve ser católico, salvo permissão contrária do Bispo diocesano, e doutor em Direito Canônico, ou então verdadeiramente perito e aprovado pelo Bispo.
A função primordial e essencial do advogado em sede de nulidade matrimonial consiste na aplicação do Direito Canônico sobre o fato concreto, analisando o contexto probatório desde os fatos narrados pelo demandante, quanto pelo demandado, testemunhas e perícias, tipificando o Cânon apropriado a cada caso concreto.
A importância do advogado não advém apenas nos casos de nulidade matrimonial, mas sim da própria história desta nobre profissão em todos os outros ramos do direito. Sua importância básica é a defesa dos direitos de seu cliente perante a autoridade eclesiástica. Sendo que todos têm direito a defesa segundo os princípios que regem o ordenamento canônico.
O advogado escreverá o suplice libelo, ou seja, sua petição inicial, juntada com todos os documentos trazidos pelo demandante, o histórico escrito por ele e o rol de testemunhas. Tudo isso será encaminhado para o Tribunal, que analisará os fatos e encaminhará o caso para uma Câmara eclesiástica, que é, segundo alguns padres que atuam na área, um “braço do tribunal” com o intuito de agilizar o processo na oitiva das partes e testemunhas.
O libelo (exposição dos fatos e tipificação) é direcionado ao tribunal competente. As câmaras são responsáveis apenas pela instrução processual (depoimento pessoal das partes e oitiva das testemunhas).
Todos os documentos juntados no libelo pelo advogado são remetidos com cópia para o tribunal, e os originais ficam guardados em seu poder (do advogado), isso ocorre para que, caso haja extravio de correspondência a caminho do Tribunal, o processo não fique sem provas.
Quando da necessidade do encaminhamento do processo para a Câmara para agilização do caso, ocorre o seguinte: por exemplo, se as partes casaram-se
em Bauru e suas testemunhas também são ali residentes, e como Bauru não possui um tribunal eclesiástico, a Câmara recebe uma rogatória (que equivale a carta precatória do processo Civil) para providenciar a oitiva das testemunhas e das partes envolvidas, não havendo a necessidade das pessoas se locomoverem até o Tribunal para prestarem depoimento.
Ainda sobre o exemplo dado, cabe ressaltar que o Tribunal competente para receber o processo de nulidade matrimonial é o de Tribunal Eclesiástico de Botucatu com sede em Assis, onde o processo ganha forma. Com isso o Tribunal nomeia um advogado e este faz o libelo, junta os documentos, arrolam-se as testemunhas e remetem junto com o libelo o questionário a arrolam-ser feito para as testemunhas para Bauru, para que seja feita a oitiva das testemunhas. Logo que finalizado, este procedimento devolve o processo para Assis onde será decretada a sentença.
Tecnicamente o advogado atua apenas em duas fases do processo, ou seja, uma em primeira instância e uma em segunda instância. Em primeira instância quando da propositura do libelo que contém a identificação das partes (informações pessoais civis e religiosas das partes e do matrimônio), os fatos e a tipificação da nulidade, bem como o rol de testemunhas a serem ouvida. Já em segunda instância somente em recurso, quando improcedente o pedido em primeira instância (sentenças procedentes são remetidas a segunda instância ex officio, sem contra-razões de recurso apenas para homologação).
Faz-se necessário apontar, antes de continuar o andamento do trabalho, as causas mais requeridas em sede de declaração de nulidade matrimonial na esfera eclesiástica, quais sejam aquelas dispostas nos cânones 1095, 1101 e 1103.
Cân. 1095 – São incapazes de contrair matrimônio: 1º os que não têm suficiente uso da razão;
2º os que têm grave falta de discrição de juízo a respeito dos direitos e obrigações essenciais do matrimônio, que se devem mutuamente dar e receber;
3º os que não são capazes de assumir as obrigações essenciais do matrimônio, por causas de natureza psíquica.
[...]
Cân. 1101 – §1. Presume-se que o consentimento interno está em conformidade dom as palavras ou com os sinais empregados na celebração do matrimônio.
§2. Contudo, se uma das partes ou ambas, por ato positivo de vontade excluem o próprio matrimônio, algum elemento essencial do matrimônio ou alguma propriedade essencial contraem invalidamente. [...]
Cân. 1103 – É inválido o matrimônio contraído por violência, ou medo grave proveniente de causa externa, ainda que incutido não
propositalmente, para se livrar do qual alguém seja forçado a escolher o matrimônio.
Todas estas causas que se fazem freqüentes nos dias atuais estão preservadas no estudo que trata de cada causa separadamente, constante neste trabalho.
Dando prosseguimento ao trabalho, pegamo-nos parados numa dúvida: um advogado civil pode patrocinar tanto a causa canônica quanto civil e as duas concomitantemente? A resposta é simples. É amplamente possível a defesa dos interesses do mesmo cliente em sede de anulação de casamento (esfera cível) e pedido de declaração de nulidade (esfera eclesiástica). Não deixando dúvida quanto a sua prática forense.
Atente-se que não existe nulidade relativa na esfera canônica, somente nulidade absoluta, ao contrário da esfera cível, onde existem as nulidades relativas e absolutas.
Com isso não se deve confundir, sobre esse ângulo, nulidade com anulação. Não existe anulação na esfera eclesiástica, mas sim nulidade ou inexistência do ato (consentimento matrimonial).
Os honorários do advogado, quando este não for contratado pela parte, são pagos diretamente pelo Tribunal, sem qualquer contato com o outorgante, assim como os honorários dos peritos, que também são credenciados pelo Tribunal.
Cân. 1649 – §1. O Bispo, a quem cabe supervisionar o tribunal, estabeleça normas:
1º sobre a condenação das partes ao pagamento ou à compensação das despesas judiciais;
2º sobre os honorários dos procuradores, advogados, peritos e intérpretes, bem como sobre a indenização das testemunhas;
3º sobre a concessão do gratuito patrocínio ou da redução das despesas;
4º sobre reparação dos danos, não só por quem perdeu em juízo, como também por quem litigou temerariamente;
5º sobre o depósito de dinheiro ou prestação de caução, referentes ao pagamento das despesas e à reparação dos danos.
§2. Contra a decisão referente às custas, honorários e reparação dos danos, não se admite apelação distinta, mas, dentro do prazo de quinze dias, a parte pode recorrer ao juiz, que poderá corrigir o cálculo.
Os valores destes honorários não são tabelados, variando assim de acordo com cada Tribunal. Haja vista que no Direito Romano era comum a compra da ação, que passava a ser propriedade do procurador ou advogado. As legislações modernas tendem a eliminar não só a compra, mas também os outros pactos que
não contribuem para uma justiça eficiente.
Cân. 1488 – §1. Proíbe-se a ambos comprar a lide ou negociar para si honorários excessivos ou parte da coisa em litígio. Se o tiverem feito, o negócio é nulo, e poderão ser multados pelo juiz com pena pecuniária. Além disso, o advogado pode ser suspenso do ofício, ou mesmo, no caso de reincidência, ser excluído do rol dos advogados pelo Bispo que preside o tribunal.
§2. Do mesmo modo, podem ser punidos os advogados e procuradores que, em fraude à lei, subtraírem causas dos tribunais competentes, para serem julgadas por outros de modo mais favorável.
Temos no ordenamento canônico as sanções aplicadas ao advogado que ultrapassa sua competência, causa dano ao seu cliente ou ao tribunal, e, como o tribunal eclesiástico busca uma verdade dos fatos para melhor sentenciar, não se faz justo que na esfera haja corrupção ou exagero por parte do advogado.
Com isso podemos concluir que o advogado canônico credenciado ao Tribunal Eclesiástico, e que garanta seus requisitos mínimos para estar presente no processo, deva prestar todo seu conhecimento para auxiliar na causa, sendo idôneo, pois caso contrário receberá sanções que podem excluí-lo da profissão canônica por qualquer motivo previsto em lei e determinado pelo Tribunal.