2019
UNIVERSIDADE DE LISBOA
FACULDADE DE CIÊNCIAS
DEPARTAMENTO DE BIOLOGIA ANIMAL
Interações entre cetáceos e a pesca de cerco em Portugal
Continental: o que mudou com as alterações da comunidade de
pequenos peixes pelágicos
Inês Caseiro Dias
Mestrado em Ecologia Marinha
Dissertação orientada por:
Doutora Alexandra Silva
Professora Doutora Isabel Domingos
III
Agradecimentos
Quero agraceder, em primeiro lugar, à Dr.ª Alexandra Silva, pela orientação excecional, pelo apoio e acompanhamento em todo o desenvolvimento deste trabalho e pela enorme ajuda na estatística e modelação.
Agradecer à professora Isabel Domingos pela sua orientação e revisão a nível da escrita.
Um enorme obrigada à Ana Marçalo e à Diana Feijó, pela ajuda imprescidível durante todo o trabalho, deste o fornecimento e tratamento dos dados até ao esclarecimento de dúvidas, foram de facto pessoas excecionais. Toda a aprendizagem e conhecimento adquirido a bordo das embarcações de cerco, deve-se a elas.
Agradecer ao projeto Sardinha 2020 pelo financiamento dos embarques e ao Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) pelo fornecimento da base de dados, recolhidos no âmbito dos projetos PNAB-DCF – Programa Nacional de Amostragem Biológica – Data Collection Framework, Life + MarPro e SafeSea EEAGrants.
Agradecer à Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM) pela cedência de dados relativos à frota de cerco continental.
Agradecer a todos os investigadores do IPMA que embarcaram, por terem contribuído para a recolha de informação e compilação da base de dados.
Um enorme obrigada a todos os mestres e membros da tripulação das embarcações de cerco de todos os portos onde foram realizadas as viagens de 2003 a 2018, por permitirem o embarque dos observadores e pela disponibilidade demonstrada em contribuir para a recolha de informação.
Um enorme obrigada a todos os meus amigos que me acompanharam durante esta importante etapa, pela paciência que tiveram, pela frases motivadoras nos últimos dias e, simplesmente, por terem estado presentes.
Um especial obrigada à Beatriz, pelo mini curso de introdução ao QGIS e pela “brutal” ajuda e paciência que teve, na elaboração dos mapas.
Agradeço a toda a minha família, em especial à minha mãe, ao meu pai, ao meu irmão gémeo Bruno, por estarem sempre presentes e principalmente por aturarem as minhas crises de nervosismo, ansiedade e stress. Um grande obrigada à Joana, pela enorme ajuda nas edições finais da dissertação.
IV
Resumo
Muitas pescarias mundiais têm, como espécies-alvo, as principais presas de alguns predadores de topo, tais como os cetáceos, bem como áreas de pesca sobrepostas às áreas de distribuição de algumas espécies de cetáceos. Esta sobreposição pode resultar em interações diretas entre os mamíferos marinhos e as artes de pesca, provocando perdas económicas para a atividade de pesca e a morte por captura acidental de cetáceos. Em Portugal Continental, a pesca de cerco é considerada uma das artes de pesca mais importantes para o país, sendo responsável por cerca de 50% dos desembarques no continente. Esta arte é considerada por vários autores, como sendo das artes de pesca com elevado nível de interação com cetáceos.Deste modo, este estudo pretende analisar as interações entre cetáceos e a pesca de cerco em Portugal Continental, através de observações a bordo de embarcações de cerco, entre 2003 e 2018. Foram observadas um total de 754 lances de pesca, em 550 viagens de cerco, que correspondeu a 0,3% do esforço realizado pela frota. Em 10% dos lances de pesca realizados foram observadas interações, com a observação de três espécies de cetáceos: o golfinho-comum (Delphinus delphis), o roaz-corvineiro (Tursiops truncatus) e o bôto (Phocoena phocoena), tendo o golfinho-comum sido a espécie mais observada a interagir, com uma ocorrência de 89% do total das interações. A captura acidental e a morte de cetáceos, ocorreu em 1,6% e 0,8% do total de lances de pesca, respetivamente, em que o golfinho-comum foi a única espécie com registo de morte. Recorreu-se ao modelo estatístico GAM, para analisar como é que as variações ao nível da atividade de cerco e da abundância de pequenos pelágicos influenciaram a probabilidade de ocorrência de interações cetáceos-pesca. Os resultados obtidos revelaram que a probabilidade de ocorrência de interações é significativamente influenciada pelo ano, latitude e longitude e pela captura por unidade de esforço da sardinha e biqueirão. Foi observada uma tendência de estabilização da variação anual da probabilidade de ocorrência de interações, com uma influência significativa da captura por unidade de esforço da sardinha. A ocorrência de interações predominou em áreas geográficas de grande abundância de sardinha (latitudes superiores), mas também em zonas do país com conhecimento prévio de reduzida abundância da mesma (latitudes inferiores), o que sugere que as interações cetáceos-pesca não foram apenas influenciadas pela abundância de sardinha, mas sim pela abundância e disponibilidade de outras espécies pelágicas alvo de captura. As estimativas anuais de interações entre os cetáceos e a pesca ao nível da frota continental de cerco, sugerem que o nível de interação pode ser muito superior ao obtido no presente estudo. Torna-se, por isso, necessário prosseguir com a monitorização da atividade de pesca de modo a melhorar e implementar planos de gestão, bem como medidas de mitigação apropriadas, com o objetivo de reduzir as interações e, consequentemente a captura acidental e a morte de cetáceos.
V
Abstract
Many worldwide fisheries have as target species the main prey of some top predators, such as cetaceans, as well as fishing areas overlapping with the distribution areas of some cetacean species. This overlap may lead to direct interactions between marine mammals and fishing gear, causing economic losses to fishing activities and accidental mortality of cetaceans. The purse seine fleet is one of the most important fisheries in mainland Portugal, accounting for 50% of landings on the continent. This gear is also pointed out by various studies as one of the gears with a higher level of interactions with cetaceans. Therefore, this study aims to analyze the interactions between cetaceans and the Portuguese purse seine fishery through on-board observations between 2003 and 2018. A total of 754 hauls was observed in 550 fishing trips corresponding to 0.3% of the fleet effort. Interactions were observed in 10% of the fishing events. Three species of cetaceans were involved: common dolphins (Delphinus delphis), bottlenose dolphins (Tursiops truncatus) and harbor porpoise (Phocoena phocoena). The common dolphin was the most frequently observed species involved in interactions, occurring in 89% of all interactions. Accidental capture and mortality occurred in 1.6% and 0.8% of fishing events, respectively. The common dolphin was the only specie with mortality occurred. A GAM model was used to analyze how the fishing activity and small pelagic fish abundance influenced the probability of occurrence of interactions between cetaceans and fisheries. Results reveal that the probability of interactions is significantly affected by the year, latitude and longitude and catch per unit effort of sardine and anchovy. There was a trend to stabilize of the annual variation in the probability of interactions, which was significantly affected by the sardine catch per unit effort. The occurrence of interactions was higher in geographical areas of high abundance of sardines (higher latitudes), but also in areas where the abundance of sardine was low (lower latitudes), which suggests that the cetacean-fishery interactions were not only affected by the abundance of sardines but also by the abundance and availability of other pelagic fish species targeted by the fishery. Annual estimates of interactions between cetaceans and the purse seine fishery suggest that the level of interaction may be much higher than that obtained in the present study. Therefore, it is necessary to continue monitoring the Portuguese purse seine fishery to improve and implement management plans, as well as appropriate mitigation measures to reduce the interactions and consequently accidental capture and mortality of cetaceans.
VI
Índice
1. Introdução ... 1
1.1. Interações entre cetáceos e as pescarias mundiais ... 1
1.2. Pesca de cerco em Portugal Continental ... 2
1.3. Interações cetáceos-pesca em Portugal Continental ... 4
1.4. Objetivos ... 5 2. Material e Métodos ... 6 2.1. Recolha de Dados ... 7 2.1.1. Atividade de pesca ... 7 2.1.2. Observação de cetáceos ... 8 2.2. Análise estatística ... 8 2.2.1. Atividade de pesca ... 9
2.2.2. Presença e interação com cetáceos ... 9
2.2.3. Modelação das interações entre cetáceos e a pesca de cerco ... 10
2.2.4. Extrapolação ao nível da frota continental ... 11
3. Resultados ... 13
3.1. Esforço de observação e esforço de pesca ... 13
3.2. Capturas, desembarques, desenvases e rejeições ... 15
3.3. Presença de cetáceos nas viagens ... 19
3.4. Interações cetáceos-pesca ... 21
3.4.1. Interação em função do esforço de observação ... 21
3.4.2. Interações em função da abundância das espécies pelágicas... 23
3.4.3. Modelação das interações de cetáceos com a pesca de cerco ... 25
3.4.4. Extrapolação ao nível da frota continental ... 28
4. Discussão ... 29 5. Considerações Finais ... 34 6. Referências Bibliográficas ... 35 7. Anexos ... 40 Anexo I ... 40 Anexo II ... 42 Anexo III ... 43
VII
Índice de Figuras
Figura 1.1. Imagens de deteção de cardumes obtidas com equipamentos diferentes. Imagem obtida através de sonar (esquerda) e de sonda (direita) ...3 Figura 1.2. Operação de pesca, composta pela alagem (esquerda), enxugar da rede (centro) e pelo transbordo do peixe (direita) para bordo da embarcação, com auxílio de um xalavar...4 Figura 2.1. Mapa da área de estudo (Portugal Continental), com a divisão por zonas de pesca (Norte, Centro e Sul), os portos de desembarque da frota de cerco portuguesa e a distribuição dos lances de pesca (pontos pretos) realizados entre 2003 e 2018. Estão representadas as batimétricas de 50, 100 e 200 metros...6 Figura 3.1. Variação média anual do número de lances de pesca realizados por viagem na costa portuguesa, entre 2003 e 2018...13 Figura 3.2. Número de viagens e lances de pesca realizados, por zona (Norte, Centro e Sul) (a) e por estação do ano (Inverno, Primavera, Verão e Outono) (b), entre 2003 e 2018. ...13 Figura 3.3. Variação anual do esforço de pesca, por viagem, entre 2003 e 2018...14 Figura 3.4. Variação anual do esforço de pesca por zona (Norte, Centro e Sul), por viagem, entre 2003 e 2018...15 Figura 3.5. Quantidade média de pescado capturado (a), desembarcado (b), desenvasado (c) e rejeitado (d) e respetivo desvio-padrão, por lance, entre 2003 e 2018. Devido ao valor elevado do desvio-padrão em 2007 (a) e (c) e em 2014 (d), excluiu-se este valor da análise gráfica, para obter uma melhor visualização do comportamento dos gráficos...16 Figura 3.6. Composição percentual das capturas por espécie entre 2003 e 2018. (PIL – sardinha; MAS – cavala; HOM – carapau-branco; ANE – biqueirão; GAR – peixe-agulha; BON – sarrajão; JAA – carapau-negrão; MAC – sarda; BOG – boga, Outros – ex: sargo-legítimo, sargo-safia, besugo, pescada, faneca, choupa, linguados entre outras) ... 17 Figura 3.7. Quantidade média de PIL (a), MAS (b), HOM (c) e ANE (d) capturada, por lance, no período de 2003 a 2018 (PIL – sardinha, MAS – cavala, HOM – carapau-branco e ANE – biqueirão). Removeram-se os valores elevados do desvio-padrão em 2007 (b), 2013 (c), 2016 e 2017 (d). ... 18 Figura 3.8. Quantidade média de PIL, MAS, HOM e ANE capturada e respetivo desvio-padrão, por lance, em função da zona de pesca (a) e da estação do ano (b) (PIL – sardinha, MAS – cavala, HOM – carapau-branco e ANE – biqueirão). ... 19 Figura 3.9. Variação anual do número de viagens realizadas e a frequência de ocorrêcia (%) de viagens com presença de cetáceos, entre 2003 e 2018. ... 20 Figura 3.10. Variação anual do número de lances de pesca observados e a frequência de ocorrência (%) de lances de pesca com interações cetáceos-pesca, em Portugal Continental, entre 2003 e 2018. ... 21 Figura 3.11. Localização dos lances de pesca com e sem registo (+) de interações entre cada espécie de cetáceo e a pesca de cerco, em Portugal Continental, entre 2003 e 2018. Representação dos portos de pesca e as batimétricas de 50, 100 e 200m. ... 22 Figura 3.12. Variação anual da CPUE média e respetivo desvio-padrão, e da frequência de ocorrência (%) de lances de pesca com interações, entre 2003 e 2018: (a) PIL, (b) MAS, (c) HOM e (d) ANE. (PIL – sardinha, MAS – cavala, HOM – carapau-branco e ANE – biqueirão).. ... 24 Figura 3.13. Efeito das variáveis significativas na probabilidade de ocorrência de interação cetáceos-pesca: Ano (a), CPUE.PIL (b), CPUE.ANE (c) e interação entre latitude e longitude, em valores decimais (d). A linha a tracejado nos gráficos de (a) a (c), representa o intervalo de confiança de 95% e os traços verticais no eixo horizontal representam o número de observações. No gráfico (d), está
VIII representado o perfil da costa portuguesa, sendo que os valores apresentados nas linhas do gráfico refletem a probabilidade de interações cetáceos-pesca. As cores mais claras e escuras refletem uma
maior e menor probabilidade de ocorrência de interações,
respetivamente...27
Índice de Tabelas
Tabela 2.1. Amostragem realizada para cada ano do período de estudo entre 2003 e 2018...7 Tabela 3.1. Total de viagens com presença de cada espécie de cetáceo, número de viagens com presença de cetáceos (N) e a respetiva frequência de ocorrência (%) de cada espécie de cetáceo, em função do total de viagens realizadas por zona (Norte, Centro e Sul) e estação do ano (Inverno, Primavera, Verão, Outono), entre 2003 e 2018. Delphinus delphis – Golfinho-comum; Tursiops truncatus – Roaz-corvineiro; Phocoena phocoena – Bôto e Balaenoptera acutorostrata – Baleia-anã ...20 Tabela 3.1. Número total de indivíduos observados (Ind), número de lances de pesca com interações, captura acidental e morte de cetáceos (N) e a respetiva frequência de ocorrência de cada espécie de cetáceo (%), em função do número total de lances de pesca observados entre 2003 e 2018 (n = 754). Delphinus delphis – Golfinho-comum; Tursiops truncatus – Roaz-corvineiro; Phocoena phocoena –
Bôto e Balaenoptera acutorostrata –
Baleia-anã...22 Tabela 3.2. Número de lances de pesca com interação, captura acidental e morte de cetáceos (N) e a respetiva frequência de ocorrência (%), em função do total de lances de pesca realizados por zona (Norte, Centro e Sul) e estação do ano (Inverno, Primavera, Verão, Outono), entre 2003 e 2018...23 Tabela 3.4. Modelo inicial desenvolvido com as variáveis explicativas e modelo final com as variáveis relevantes para a modelação da variável resposta. Para ambos os modelos, é apresentada a respetiva deviance explicada e o valor de AIC (Akaike Information Criterion). Para cada variável explicativa são apresentados os graus de liberdade e o p-value: (***) corresponde a p-value < 0,001; (**) p-value < 0,01 e (*) p-value < 0,05. CPUE.PIL – captura por unidade de esforço de sardinha; CPUE.MAS – captura por unidade de esforço de cavala; CPUE.HOM – captura por unidade de esforço de carapau-branco e
CPUE.ANE – captura por unidade de esforço de
biqueirão...25 Tabela 3.5. Parâmetros utilizados na extrapolação das interações cetáceos-pesca: Nº de viagens amostradas (n), Nº de interações por viagem amostrada (a), Nº de viagens realizadas pela frota de cerco (N), Nº de interações estimadas ao nível da frota (A) e respetivo coeficiente de variação (CV), e a frequência de ocorrência das interações (%) estimadas sobre as viagens realizadas pela frota, anualmente, entre 2003 e 2018...28
Anexo II
Tabela 1. Variáveis recolhidas durante as viagens a bordo das embarcações de cerco, entre 2003 e 2018...42
IX
Lista de acrónimos e abreviaturas
ICES – International Council for the Exploration of the Sea
SCANS II e III – Small Cetaceans in the European Atlantic and North Sea IPMA – Instituto Português do Mar e da Atmosfera
PNAB – Programa Nacional de Amostragem Biológica DCF – Data Collection Framework
SafeSea – Sustainable local fisheries and promotion of a safe sea for cetaceans MarPro – Conservation of Marine protected species in mainland Portugal EEAGrants - Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu
DGRM – Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos GAM – Generalized Additive Models
CPUE – Captura por unidade de esforço (kg/h) AIC – Akaike Information Criterion
g.l – graus de liberdade
1
1. Introdução
1.1. Interações entre cetáceos e as pescarias mundiais
Os mamíferos marinhos são considerados predadores de topo imprescindíveis para a estrutura, dinâmica e manutenção dos ecossistemas marinhos (Escalle et al. 2015). No entanto, o facto de não se encontrarem adaptados a rápidas alterações nas condições do meio e de apresentarem uma maturidade sexual tardia, associada a uma reduzida taxa de reprodução (Hamer 2012), torna-os vulneráveis aos vários impactos provenientes da ação humana. Assim, a sua proteção e monitorização são de extrema importância, para a manutenção das suas populações. Uma das problemáticas conservacionistas associadas aos cetáceos é a interação direta destes com as várias pescarias (Read 2008), razão pela qual diversos estudos sobre esta temática têm sido realizados um pouco por todo o mundo (López 2006; Garrison et al. 2007; Wise et al., 2007; Rogan e Mackey 2007; Hamer 2012; Goetz et al. 2014b; Escalle et al. 2015; Marçalo et al. 2015b).
Muitas das pescarias mundiais têm como espécies-alvo as principais presas de diversas espécies de cetáceos, bem como áreas de pesca sobrepostas às áreas de distribuição de alguns mamíferos marinhos (Goetz et al. 2014a,b; Escalle et al. 2015). Esta competição pelos recursos e a sobreposição das áreas geográficas, resulta em interações entre os mamíferos marinhos e as várias pescarias, que podem ser de dois tipos: operacionais e biológicas. As interações operacionais ocorrem quando o mesmo cardume é detetado pela atividade de pesca e pelos mamíferos marinhos em simultâneo (Hamer et al. 2008), podendo levar a um contacto físico direto dos mamíferos com a arte de pesca (Read et al. 2006; Roche et al. 2007; Hamer et al. 2008; Read 2008; Hamer 2012). As interações biológicas ocorrem quando existe competição pelos mesmos recursos, ou seja, pelo peixe (Roche et al. 2007; Hamer 2012). Contudo, é de referir que a sobreposição de recursos, por si só, não fornece evidências diretas de competição entre os mamíferos marinhos e a pesca, uma vez que os recursos podem ser suficientes para suportar as necessidades de ambos. Para que ocorra competição, os recursos têm de ser limitados e sujeitos a uma elevada pressão pesqueira (Pusineri et al. 2004; Wise et al. 2018). Estes tipos de interações são complexos e difíceis de observar, dificultando a sua caracterização e quantificação direta (Hamer 2012). Maioritariamente, são as interações operacionais que originam consequências adversas para os mamíferos marinhos e para a pesca. A captura acidental ou o aprisionamento de cetáceos na rede, pode provocar lesões graves ou a mortalidade destes indivíduos, bem como a remoção ou dano do peixe capturado resultante da presença dos mamíferos marinhos (depredação) (Goetz et al. 2014b), que contribui para a redução do valor do pescado e a eventual danificação do material de pesca (Read 2008; Hamer 2012). Estas situações podem originar medidas de retaliação por partes dos pescadores, que põem em causa a conservação das espécies (Read 2008). Pode ainda ocorrer a dispersão dos cardumes e, consequentemente, a não realização da pesca ou o atraso na atividade da mesma (Silva et al. 2011). Contudo, também podem ser observadas interações positivas entre os cetáceos e a operação de pesca, quando o avistamento de grupos de cetáceos pode ser indicativo da presença de cardumes nas proximidades e a presença destes pode facilitar o aglomerar dos cardumes (Wise et al. 2007).
A depredação acarreta um risco para os mamíferos marinhos. No entanto, existem situações em que a depredação do peixe presente na rede pode revelar-se benéfica, uma vez que não exige praticamente gasto energético na procura e perseguição da presa (Roche 2007; Read 2008; Hamer 2012). A captura acidental de cetáceos também designada por bycatch (termo inglês), que corresponde à captura não intencional de espécies sem interesse comercial, é considerada uma das principais ameaças para a megafauna marinha (López et al. 2003; Read et al. 2006; Boer et al. 2012; Lassalle et al. 2012; Escalle et al. 2015). A avaliação do impacto da pesca sobre os mamíferos marinhos, realizada através de programas de observação a bordo das embarcações, apresenta algumas dificuldades, uma vez que
2 muitos dos indivíduos capturados acidentalmente podem escapar com vida, ou com material de pesca preso, o qual pode causar ferimentos ou infeções, provocando uma morte lenta e dolorosa (Hamer 2012). A pesca de cerco do atum, no Oceano Pacífico tropical oriental (Gerrodette 2018) e, a pesca de cerco da sardinha no sul da Austrália (Hamer et al. 2008), apresentaram um nível de impacto, sobre as populações de cetáceos, insustentável. Contudo, através de planos de monitorização e sensibilização da comunidade pesqueira, este impacto foi drasticamente reduzido. A pesca de cerco do atum no Oceano Pacífico tropical oriental, com a utilização de embarcações e redes de pesca de dimensões superiores à pesca de cerco de pequenos pelágicos, apresentou entre 1960 e 1970, centenas de milhares de golfinhos mortos por ano, uma vez que a operação de pesca consistia na perseguição e captura, por vezes intencional, de golfinhos, de modo a capturar os atuns. Era uma prática comum, os pescadores utilizarem a presença dos cetáceos como indicador da presença dos cardumes de atum, largando a rede na proximidade dos mesmos. No entanto, através de sensibilização e educação dos pescadores, bem como a modificação das redes e alterações na atividade de pesca, houve uma redução de cerca de 98% na mortalidade dos cetáceos (Gerrodette 2018). Na pesca de cerco no sul da Austrália, implementou-se um Código de Boas Práticas, devido à elevada interação do golfinho-comum (Delphinus delphis) com esta arte. Anteriormente à adoção do Código de Boas Práticas, os programas de observação revelaram elevadas taxas de captura acidental e de mortalidade de golfinho-comum (1,78 e 0,39 indivíduos por lance, respetivamente) em 49 lances de pesca. Com a introdução deste código, em setembro de 2005, foi conduzido um segundo programa de observação, que revelou decréscimos significativos de 87,3% na taxa de captura acidental e de 97,1% na taxa de mortalidade (0,22 e 0,01 indivíduos por lance, respetivamente) em 89 lances de pesca (Hamer et al. 2008).
1.2. Pesca de cerco em Portugal Continental
A pesca de cerco é considerada das artes mais importantes, para Portugal Continental, sendo responsável por cerca de 50% (em peso) dos desembarques no continente (Wise et al. 2007, 2018; Feijó 2013; Feijó et al. 2018). A principal espécie-alvo desta arte de pesca é a sardinha (Sardina pilchardus), no entanto outras espécies são também capturadas em grandes quantidades, como cavala (Scomber colias), carapau-branco (Trachurus trachurus), biqueirão (Engraulis encrasicolus) e a sarda (Scomber scombrus), juntamente com outras em menor quantidade, como carapau-negrão (Trachurus picturatus), boga (Boops boops), sarrajão (Sarda sarda), peixe-agulha (Belone belone), entre outros (Wise et al. 2005, 2018; Feijó 2013; Feijó et al. 2018).
A sardinha foi, até recentemente, a espécie mais desembarcada pela arte de cerco em Portugal Continental e desde sempre considerada de elevada importância socioeconómica para o país (Marçalo 2009). Contudo a sua abundância, e respetivos desembarques sofreram um decréscimo, tendência que se acentuou a partir de 2009 (Feijó 2013; Feijó et al. 2018; ICES 2018), devido à existência de um reduzido recrutamento (Silva et al. 2015). Dada a importância desta espécie para Portugal, foram implementadas medidas de gestão da pesca do cerco, tais como: limitação do número de dias de pesca, fecho temporário de áreas de pesca e imposição de limites diários de captura em alguns portos (Feijó 2013; Silva et al. 2015; Monteiro 2017). Até 2009, não havia regulamentação nem fiscalização dos limites anuais impostos à captura de sardinha e, só a partir de 2010, é que estes limites começaram a ser regulados passando a ser gradualmente mais restritivos (Silva et al. 2015; Monteiro 2017; Feijó et al. 2018), o que se traduziu em decréscimos anuais acentuados dos desembarques. Com o objetivo de manter uma viabilidade económica, a pesca de cerco, foi direcionada para a captura de outras espécies pelágicas, como a cavala, o carapau-branco e o biqueirão (Monteiro 2017). A abundância de cavala tem vindo a aumentar na costa portuguesa, passando a ser considerada a segunda espécie mais desembarcada pela atividade de cerco, e tendo ultrapassado os desembarques de sardinha em 2012 (Martins et al. 2013;
3 Feijó et al. 2018). O carapau-branco, a partir de 2012, apresenta um aumento considerável da sua biomassa (ICES 2018). Por sua vez, o biqueirão é considerado uma espécie de ocorrência esporádica em Portugal Continental, traduzindo-se em grandes variações ao longo dos anos. No entanto, a sua captura apresentou um aumento considerável entre 2015 e 2018 (ICES 2018).
A pesca de cerco é uma pesca costeira que ocorre, geralmente, perto dos portos de origem (Feijó 2013), com viagens diárias e de curta duração (Feijó 2011; Feijó et al. 2018). As viagens no cerco são constituídas por quatro fases: navegação, pesquisa, pesca e paragem de descanso (Feijó 2013). A viagem inicia-se quando a embarcação sai do porto de origem em direção à zona de pesca (navegação) (Feijó, 2013). A pesquisa é iniciada quando se ligam os aparelhos de deteção de cardumes (sonar e sonda) (Figura 1.1) (Marçalo 2009). Durante esta fase, a embarcação encontra-se à procura de cardumes da espécie-alvo pretendida. Dependendo da densidade do cardume e da espécie pretendida, o mestre dará ordem de largada da rede (Feijó 2013), iniciando-se a operação de pesca.
Figura 1.1. Imagens de deteção de cardumes obtidas com equipamentos diferentes. Imagem obtida através de sonar (esquerda) e de sonda (direita).
Sempre que a rede é colocada na água, ocorre um lance de pesca, o qual é composto por quatro etapas: largada da rede, viragem da retenida, alagem e enxugar da rede e, transbordo do peixe (Figura 1.2) (Feijó 2013). Durante a largada da rede, o cardume é cercado rapidamente (rede com 500 a 1000 metros de comprimento e 90 a 150 metros de altura) (Feijó et al. 2018), seguindo-se o fecho da rede, com o auxílio de um cabo (cabo da retenida), que passa num conjunto de argolas, formando e fechando um saco, aprisionando o cardume (Feijó 2013). A alagam da rede é uma das fases mecânicas, que consiste no puxar da rede para dentro da embarcação, com o auxílio de aladores. Posteriormente inicia-se o enxugar da rede, que é realizado, manualmente, por toda a tripulação (Feijó 2013; Feijó et al. 2018). Esta etapa tem como objetivo juntar o peixe numa determinada zona da rede (copejada), preparada para suportar o peso de todo o peixe concentrado (Feijó 2013). Finalmente, procede-se ao transbordo do peixe, que consiste na passagem do peixe da rede para dentro da embarcação, com o auxílio de um xalavar (Feijó 2013).
4
Figura 1.2. Operação de pesca, composta pela alagem (esquerda), enxugar da rede (centro) e pelo transbordo do peixe (direita) para bordo da embarcação, com auxílio de um xalavar.
No final da operação de pesca, a captura pode sofrer três destinos: desembarque no cais do porto e preparação para venda, rejeição, a bordo, de pequenas quantidades de pescado morto e sem valor comercial (fenómeno raro), e slipping i.e., o desenvasar ou destombar de parte da captura (Marçalo 2009; Feijó 2013). Este procedimento consiste na libertação de capturas excessivas ou indesejadas, através da abertura ou rebaixamento da rede, permitindo que o peixe vivo escape por cima da mesma. Estas decisões são tomadas pelo mestre e devem-se a vários motivos: restrições diárias impostas à captura de certas espécies; mistura com espécies não comerciais e consequente desvalorização da captura; e a presença de espécies abaixo do tamanho mínimo de captura permitido (Stratoudakis e Marçalo 2002; Marçalo 2009; Feijó 2013; Feijó et al. 2018).
É durante a largada da rede que ocorre uma maior probabilidade de interação entre a pesca de cerco e os cetáceos, e de estes ficarem presos dentro da rede, caso surjam na proximidade, a competir pelo mesmo cardume detetado pela embarcação.
1.3. Interações cetáceos-pesca em Portugal Continental
Em Portugal Continental, foram realizados dois estudos com o propósito de analisarem a interação de cetáceos com a pesca de cerco. O estudo de Wise et al. (2007), avaliou as interações de pequenos cetáceos com a pescaria de cerco na costa ocidental portuguesa (4 meses), através de observações a bordo de cercadoras e de inquéritos realizados aos pescadores e provou que a ocorrência destas interações se devia a duas razões: o tipo de pesca ser dirigido às principais presas dos pequenos cetáceos e ao facto de operar dentro da área de distribuição dos mesmos. Marçalo et al. (2015b), utilizou um período de amostragem de 2 anos e ao longo de todo o continente português, onde avaliou os níveis de interações entre a pescaria de cerco e os cetáceos, assim como o cálculo dos primeiros índices de by-catch, concluindo que as interações estão relacionadas com o aumento de captura de sardinha e com o esforço de pesca. Estes estudos, bem como outros autores (Goetz et al. 2014a), permitiram concluir que, as espécies de cetáceos que apresentam a sua zona de maior abundância sobreposta à área de operação da pesca de cerco são: o golfinho-comum (Delphinus delphis), o roaz-corvineiro (Tursiops truncatus) e o bôto (Phocoena phocoena), sendo o golfinho-comum a espécie mais abundante (Silva e Sequeira 2003; Wise et al. 2018). Estas espécies de cetáceos encontram-se distribuídas ao longo da costa portuguesa, tanto em zonas de maior profundidade (200m), como em zonas costeiras, apresentando uma alimentação à base de espécies pelágicas e mesopelágicas, o que revela uma elevada probabilidade de
5 interagirem com a pesca de cerco (Santos et al. 2007; Goetz et al. 2014a; Correia et al. 2015; Wise et al. 2018).
Embora a pescaria de cerco em Portugal Continental esteja bem caracterizada ao nível da operacionalidade e quanto às interações cetáceos-pesca (Wise et al. 2007, 2018; Goetz et al. 2014a; Marçalo et al. 2015b), os estudos realizados analisaram um período de amostragem reduzido. Torna-se, assim, importante alargar o período de amostragem, em virtude de ser crucial analisar possíveis tendências temporais das interações entre os cetáceos e a operação de pesca. As restrições de que tem sido alvo a pesca de cerco, nomeadamente ao nível da redução do esforço da frota (número de dias de mar) e da captura de sardinha, pode resultar num decréscimo das interações cetáceos-pesca. Adicionalmente, e devido às alterações da comunidade das espécies pelágicas, nomeadamente o declínio da abundância de sardinha, é necessário averiguar se houve alterações ao nível das interações entre cetáceos e a pesca de cerco, visto a sardinha ser considerada a presa preferencial dos cetáceos, em particular do golfinho-comum.
1.4. Objetivos
Este estudo tem como objetivo principal analisar as interações entre cetáceos e a pesca de cerco em Portugal Continental, com base em dados recolhidos a bordo de embarcações de cerco, no período entre 2003 e 2018. Para compreender essa dinâmica, foram definidos dois objetivos específicos: 1) Analisar a tendência anual, bem como a variação geográfica e sazonal das interações cetáceos-pesca; 2) Investigar se as variações da abundância de peixes pelágicos, em particular a redução da abundância de sardinha, afetaram a intensidade de interações.
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2. Material e Métodos
O presente estudo decorreu na costa continental Portuguesa, tendo sido consideradas três zonas distintas (Figura 2.1): a zona Norte (de Caminha a norte do Canhão da Nazaré), a zona Centro (do canhão da Nazaré ao Cabo de São Vicente) e a zona Sul (do Cabo de São Vicente até Vila Real de Santo António). No âmbito do PNAB (Programa Nacional de Amostragem Biológica), na recolha de dados relativos à atividade de pesca, é comum a divisão da costa portuguesa nestas três zonas definidas com base na localização dos principais portos de desembarque.
Figura 2.1. Mapa da área de estudo (Portugal Continental), com a divisão por zonas de pesca (Norte, Centro e Sul), os portos de desembarque da frota de cerco portuguesa e a distribuição dos lances de pesca (pontos pretos) realizados entre 2003 e 2018. Estão representadas as batimétricas de 50, 100 e 200 metros.
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2.1. Recolha de Dados
O IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera), iniciou um programa de observação a bordo de embarcações de cerco em 2005, no âmbito do PNAB, que se estendeu até aos dias de hoje. Este programa, que se integra no âmbito do Quadro Comunitário da Recolha de Dados ou Data Collection Framework (DCF), contempla, nos seus objetivos, a obtenção de informação sobre a atividade de pesca, a localização dos lances, e a caracterização das capturas, desembarques e rejeições. Mais recentemente, a recolha de informação relativa às interações de cetáceos e aves marinhas com a pesca de cerco, em colaboração com os projetos SafeSea (Sustainable local fisheries and promotion of a safe sea for cetaceans), financiado pelo EEAGrants (Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu), e LIFE+ MarPro (Conservation of Marine protected species in mainland Portugal), financiado pelo programa LIFE (Feijó 2013).
Os dados utilizados no presente estudo, foram recolhidos em viagens de pesca realizadas a bordo de cercadoras ao longo de Portugal Continental, por observadores do IPMA no âmbito do PNAB, no período entre 2003 e 2018. Foram ainda usados dados de 2010 e 2011, recolhidos no âmbito dos projetos SafeSea e MarPro. No decurso do presente trabalho de dissertação, as observações foram intensificadas pela estudante, entre julho e outubro de 2018, tendo-se estabelecido uma periocidade de dois embarques semanais, alternados entre os portos de pesca de Peniche e Sesimbra, o que somou um total de 19 embarques. Não existem dados para 2004, uma vez que não foram realizados embarques. Na tabela 2.1, apresenta-se um resumo do esforço anual de observação realizado durante o período de estudo.
Tabela 2.1. Amostragem realizada para cada ano do período de estudo entre 2003 e 2018
2.1.1. Atividade de pesca
Em todos os embarques realizados no período compreendido entre 2003 e 2018, os observadores utilizaram um protocolo pré-definido no âmbito do PNAB (Anexo I). Este protocolo contempla a informação necessária a recolher durante os lances de pesca. A informação registada foi a seguinte: o
Anos Nº de viagens Nº de lances de pesca Per ío d o d e estu d o 2003 49 75 2004 0 - 2005 8 5 2006 21 19 2007 22 27 2008 22 23 2009 22 28 2010 104 175 2011 58 89 2012 53 65 2013 27 40 2014 27 30 2015 39 53 2016 26 30 2017 25 29 2018 47 66 Total 550 754
8 local de largada da rede (latitude e longitude); a hora de início e fim de cada etapa da viagem de pesca, incluindo a navegação de e para o porto; a pesquisa dos cardumes e a operação de pesca; a caracterização do pescado capturado, pescado desenvasado (slipping) ou alvo de rejeiçãoa respetiva composição por espécies.
2.1.2. Observação de cetáceos
Foi registada a presença e interação com cetáceos durante as viagens e lances de pesca, respetivamente. Considerou-se que os cetáceos estavam presentes, quando estes eram avistados longe da embarcação (aproximadamente > 30 metros das embarcações) ou, quando eram avistados perto da embarcação durante a fase de navegação e pesquisa, sem demonstrar qualquer interferência com a operação de pesca. Considerou-se que havia interação, caso a ocorrência de cetáceos na proximidade da embarcação (5 a 10 metros) ou durante a operação de pesca, conduzisse à dispersão do cardume e, consequentemente à não largada da rede, ao atraso da atividade de pesca, a danos na rede e no peixe capturado ou, ainda, à sua captura acidental e eventual morte (Vingada et al. 2015). Foram tidas em consideração as observações realizadas pelos mestres, relativamente aos efeitos da presença de cetáceos sobre a operação de pesca e sobre o comportamento dos cardumes. Na presença ou interação com cetáceos podem estar envolvidos um ou mais indivíduos. No avistamento de cetáceos, foi registada a fase da viagem ou lance de pesca em que se deu o evento, bem como a espécie envolvida. Em situações de não identificação da espécie ou em situações de avistamento de indivíduos identificados como “toninhas” por parte dos mestres ou tripulação, classificou-se como “Delfinídeo Não Identificado”, uma vez que consoante a zona do país, a designação de “toninhas” pode ser atribuída a golfinhos-comuns ou a bôtos. Em relação ao tamanho do grupo, foi registado o valor exato do número de indivíduos envolvidos. Nos casos em que tal não foi possível, anotou-se um valor máximo e mínimo. Foi também registado o comportamento apresentado pelos indivíduos e, consequentemente, o efeito ou tipo de interação que estes possam ter tido com a pesca, incluindo a captura acidental e, consequentemente, o destino dos indivíduos capturados, i.e., se permaneceram presos na rede acabando por morrer, se escaparam, ou se foram libertados com vida.
2.2. Análise estatística
Os dados foram compilados em tabela, no software Microsoft Office Excel 2016. Para cada lance, foi calculada a duração total e de cada fase da viagem - navegação, pesquisa, pesca e paragem para descanso (horas). As coordenadas geográficas (latitude e longitude) do local de largada da rede, foram convertidas para o sistema decimal. Por último, adicionaram-se quatro variáveis de presença e ausência (0 e 1), indicadoras da presença, interação, captura acidental e morte de cetáceos. O esforço de pesca e a captura por unidade de esforço (CPUE) de cada lance, foram calculados de acordo com Feijó (2013). O esforço de pesca é a soma do tempo despendido na pesquisa e na pesca para realizar um lance, em horas, e a CPUE é o quociente entre o total capturado, em peso, e o esforço de pesca, com unidades em quilogramas por hora. A análise exploratória dos dados foi realizada com recurso a estatística descritiva e representação gráfica. Para a escolha dos testes estatísticos, foi necessário analisar se os pressupostos de normalidade da distribuição e homocedasticidade eram cumpridos. Sempre que o pressuposto de normalidade não era cumprido, recorria-se à utilização de testes não paramétricos.
9 2.2.1. Atividade de pesca
Com o objetivo de descrever as modificações que ocorreram no comportamento da atividade de cerco, realizou-se uma análise gráfica da variação anual do número médio de lances de pesca realizados por viagem. Utilizou-se estatística descritiva para caracterizar o tempo médio despendido, por viagem, e o respetivo desvio-padrão em cada fase de pesca (navegação, pesquisa, pesca e paragem para descanso). Foram excluídas, desta análise, 83 viagens consideradas incompletas por não apresentarem o tempo de navegação e de pesquisa discriminados. Procedeu-se à análise da variação anual do esforço de pesca, uma vez que revela a quantidade de peixe presente de interesse para o mestre, refletindo-se numa menor ou maior rapidez de procura por cardumes numa determinada zona. Nesta análise, foram excluídas as 83 viagens consideradas incompletas.
Para descrever as variações da captura das espécies de peixes pelágicos na costa portuguesa ao longo dos anos, elaboraram-se gráficos de linhas para visualizar a variação média anual das capturas, desembarques, desenvases e rejeições. Analisou-se a quantidade capturada por espécie e por ano, com o objetivo de compreender que espécies apresentaram uma maior captura anual ao longo do período de estudo. Procedeu-se à análise das variações anuais, regionais e sazonais da captura média das quatro principais espécies pelágicas capturadas pela atividade de cerco, i.e., a sardinha (Sardina pilchardus), a cavala (Scomber colias), o carapau-branco (Trachurus trachurus) e o biqueirão (Engraulis encrasicolus).
2.2.2. Presença e interação com cetáceos
A análise da presença de cetáceos foi realizada em função das viagens. Realizou-se uma análise descritiva do número de viagens com presença de cetáceos por ano, zona e estação do ano, bem como a frequência de ocorrência das várias espécies de cetáceos presentes durante as viagens. A análise das interações com cetáceos foi realizada em função dos lances de pesca, uma vez que se considerou que as interações estão associadas aos lances.Deste modo, e de acordo com o objetivo definido no início do trabalho, pretendeu-se avaliar como é que a ocorrência de interações entre cetáceos e os lances de pesca variou ao longo do período de estudo. Analisou-se assim, o número de lances de pesca com interações por ano, zona e estação do ano e a frequência de ocorrência das espécies de cetáceos observadas a interagir durante os lances. Os lances de pesca com e sem interações foram mapeados usando um software de sistema de informação geográfica (QGIS), versão 3.4.12 'Madeira'.
Para visualizar as variações anuais da captura por unidade de esforço das quatro espécies de peixes pelágicos capturadas e a frequência de ocorrência de interações por lance, realizou-se uma análise gráfica. Nesta análise foi calculada a CPUE das quatro principais espécies pelágicas: sardinha, cavala, carapau-branco e biqueirão.
Dado o reduzido número de viagens com registo de presença de cetáceos e o reduzido número de lances de pesca com interações observadas, em cada ano, recorreu-se à realização de um teste de correlação de Kendall, para averiguar se a proporção de presenças por viagem e a proporção de interações por lance de pesca não eram influenciados pelo número de viagens e de lances de pesca realizados em cada ano, respetivamente. Ambos os testes apresentaram um valor de p-value não significativo (p > 0,05), pelo que o número de observações não afetou os resultados obtidos.
10 2.2.3. Modelação das interações entre cetáceos e a pesca de cerco
Para analisar se as variações da abundância das espécies pelágicas, bem como as restrições introduzidas à pesca de cerco afetaram a ocorrência de interações cetáceos-pesca, utilizou-se um modelo estatístico GAM (Generalized Additive Models), por admitir relações não lineares entre a variável resposta e as variáveis explicativas e devido à sua capacidade para modelar estas relações não-lineares utilizando smoothers não paramétricos (Wood 2017). A variável resposta a ser modelada, foi o número de interações com cetáceos (Inter_cet). Sendo esta uma variável binária com dados 0 e 1 (0 para eventos de ausência e 1 para eventos de presença), utilizou-se uma distribuição binomial com a função de ligação logit.
Das variáveis recolhidas durante as viagens de pesca (Tabela 1, Anexo II), optou-se pela escolha das variáveis explicativas com base na relevância anual, regional e sazonal da atividade de pesca e, no facto de refletirem a situação local das espécies pelágicas alvo de captura. Realizaram-se testes de correlação entre as variáveis, de modo a evitar casos de colinearidade. Obtiveram-se p-values significativos (p-value < 2,22e-16) com um coeficiente de correlação reduzido (𝜏 = 0,361), tal acontecimento deveu-se à grande dimensão da base de dados (n = 754). Para tal, optou-se por retirar, aleatoriamente, uma amostra de 100 observações da base de dados original e procedeu-se novamente ao cálculo das correlações. As relações obtidas através deste método foram consideradas como aplicáveis para a restante base de dados. O nível de significância baseou-se na correção de Bonferroni. Este tipo de correção é utilizado quando a mesma variável está envolvida em múltiplas comparações, sendo o nível de significância de 0,05, dividido pelo número de comparações em que a variável está envolvida (Abdi 2010).
As nove variáveis explicativas selecionadas a integrarem o modelo foram as seguintes: Ano, Latitude e Longitude, Estação do ano, Esforço de pesca, CPUE.PIL, CPUE.MAS, CPUE.HOM e CPUE.ANE. A variável Ano (2003 a 2018), traduz a escala temporal utilizada no estudo, tendo sido modelada como variável contínua, pois pretende-se observar uma tendência anual ao longo do período de estudo. As coordenadas geográficas do local de pesca (Latitude e Longitude), refletem o local de realização da operação da pesca. Esta variável foi modelada como uma interação entre a latitude e a longitude, utilizando-se um smooth multi-dimensional – te (tensor product smooth). A Estação do ano, relevante para compreender o papel das variações sazonais na ocorrência de interações,foi modelada como variável categórica com quatro níveis (Inverno, Primavera, Verão e Outono). O Esforço de pesca (em horas), que reflete as alterações ao nível da operacionalidade da pesca, foi modelado como variável contínua e numérica. A CPUE de sardinha (CPUE.PIL), a CPUE de cavala (CPUE.MAS), a CPUE de carapau-branco (CPUE.HOM) e a CPUE de biqueirão (CPUE.ANE), em kg/h, modeladas como variáveis contínuas e numéricas. O cálculo destas quatro variáveis foi obtido, pelo quociente da captura de cada espécie pelo esforço de pesca, por lance de pesca. Estas variáveis refletem, indiretamente, a abundância relativa de cada espécie no meio, um vez que a variação anual da CPUE das quatro espécies pelágicas em estudo, apresentam um padrão anual semelhante às séries anuais de abundância de pequenos pelágicos recolhidas em campanhas de investigação, presentes nos relatórios anuais do ICES (International Council for the Exploration of the Sea) (ICES 2018). Comprovando, que a CPUE é um bom indicador da abundância relativa destas espécies. É, ainda, possível inferir que, o esforço despendido na procura de determinada espécie juntamente com a quantidade capturada, poderá indicar quão abundante essa espécie é numa determinada zona. No entanto, fatores como: mau tempo, rede partida, presença de cetáceos, entre outras, pode resultar na não captura de uma espécie, resultando numa CPUE nula. Estas quatro variáveis apresentavam 7 observações influentes, com uma ordem de grandeza muito elevada comparativamente aos restantes valores. Para um melhor ajuste do modelo, estas observações foram retiradas antes de serem incluídas no modelo. Foram assim analisados um total de 747 observações, no seguinte modelo inicial:
11 Inter_cet = s(Ano, k =12) + te(Longitude, Latitude) + Estação do ano + s(Esforço de pesca) +
s(CPUE.PIL) + s(CPUE.MAS) + s(CPUE.HOM) + s(CPUE.ANE, k = 11)
Os termos s e te, representam o smooth associado a cada termo do modelo, sendo que k representa a dimensão do termo e o seu valor corresponde ao valor máximo dos graus de liberdade para cada termo do modelo. Este valor máximo é dado por k - 1, que representa a dimensão do termo menos um grau de liberdade (Wood 2017). O valor de k deve ser escolhido, de modo a ser suficientemente grande para representar bem o modelo, sem que ocorra a sobrestimação, mas pequeno para manter uma eficiência computacional. A função GAM por norma, estabelece um valor de k padrão igual a 10. Recorreu-se a uma particularidade dos modelos GAM, o gam.check, para verificar se os graus de liberdade eram os indicados. Para a variável Ano e CPUE.ANE, o número de graus de liberdade estabelecido era reduzido, pelo que foi alterado. Estipulou-se assim 11 graus de liberdade (k = 12) para a variável Ano, 10 graus de liberdade (k = 11) para CPUE.ANE e para as restantes variáveis foi utilizado o valor padrão (k = 10), com exceção do smooth te, o valor de k foi obtido pelo produto da dimensão de cada termo, sendo a dimensão para cada um igual a 5, o valor de k para este termo foi de 25 (Wood 2017).
Para a obtenção do modelo, o mais simplificado possível, foram construídos modelos retirando uma a uma, as variáveis não significativas (p-value > 0,05). Quando uma variável era retirada, o modelo resultante era comparado com o anterior, para confirmar se a remoção dessa variável não iria afetar o modelo. Recorreu-se assim ao teste da razão de log-verossimilhança, método que compara a deviance residual do modelo mais simples com o modelo mais completo. Se a diferença entre a deviance residual de ambos for significativa, a variável não deve ser removida. A seleção do modelo final foi realizada com base no teste da razão de log-verossimilhanças e o valor de AIC (Akaike Information Criterion) foi utilizado complementarmente.
2.2.4. Extrapolação ao nível da frota continental
Para a estimativa anual do número de interações entre os cetáceos e a pesca, ao nível de toda a frota de cerco continental, entre 2003 e 2018, recorreu-se a informação cedida pela DGRM (Direção Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos) relativa ao número de vendas-dia das embarcações de cerco, em que uma venda corresponde a uma viagem de cerco. Para ser possível esta extrapolação, o número de interações foi contabilizado em função das viagens de pesca amostradas. Borges et al. (2005), referem que as viagens de pesca são a unidade de amostragem indicada para a extrapolação de bycatch ao nível da frota. Para o cálculo das estimativas, recorreu-se à metodologia utilizada em Cochran (1977). A estimativa anual do número de interações com cetáceos ao nível da frota (A), foi calculada através da seguinte fórmula:
𝐴 = 𝑁𝑝 (2.1)
𝑝 = 𝑎
𝑛 (2.2)
N representa o número total de viagens realizadas pela frota, por ano, p representa a proporção do número de viagens com interações de cetáceos observadas (a) pelo número total de viagens amostradas (n), em cada ano. De seguida, calculou-se o desvio-padrão (sA) associado a cada ano, através da seguinte fórmula:
12 𝑞 = 1 – 𝑝 (2.4)
Por fim, calculou-se o coeficiente de variação (CV) para cada ano: 𝐶𝑉(%) = 𝑠𝐴
𝐴 × 100 (2.5)
A análise estatística foi realizada no software estatístico R (R Development Core Team 2018). O package utilizado para o ajuste do modelo GAM foi mgcv (Wood 2017). Considerou-se ainda um nível de significância de 5%, com exceção das correlações múltiplas, em que o valor de significância foi definido pela correção de Bonferroni.
13
3. Resultados
3.1. Esforço de observação e esforço de pesca
Entre 2003 e 2018, foram monitorizadas um total de 550 viagens nas quais se realizaram 754 lances de pesca, que corresponderam a aproximadamente 0,3% do total de viagens realizadas pela frota continental de cerco (Nfrota = 180 951) no período em causa. Do total das viagens monitorizadas, em 12% (n = 65) não ocorreram lances de pesca. A média do número de lances realizados por viagem apresentou um decréscimo de 1,53 em 2003 para 0,63 em 2005. Seguiu-se um aumento progressivo do número médio de lances por viagem, que atingiu um valor máximo (1,68) em 2010. Até ao final do período de estudo observou-se uma ligeira redução, com a média de lances realizados por viagem a variar entre 1 e 1,5 (Figura 3.1).
Figura 3.1. Variação média anual do número de lances de pesca realizados por viagem na costa portuguesa, entre 2003 e 2018.
O esforço de observação variou por zona e ao longo do ano (Figura 3.2), tendo-se registado um menor esforço na zona Sul (Figura 3.2a) e durante o inverno (Figura 3.2b). Destaca-se a zona Norte e o verão pelo maior esforço global de observações efetuadas.
(a) (b)
Figura 3.2. Número de viagens e lances de pesca realizados, por zona (Norte, Centro e Sul) (a) e por estação do ano (Inverno, Primavera, Verão e Outono) (b), entre 2003 e 2018.
14 As viagens realizadas no período de estudo tiveram uma duração média de 8h 29 min (DP = 3 h 19 min), tendo a viagem mais curta apresentado uma duração de 2 h 11 min e, a mais longa, de 20 h 30 min. Na análise da duração das fases de pesca, excluíram-se 83 viagens consideradas como incompletas, uma vez que apresentavam a navegação e a pesquisa englobadas no mesmo tempo. Das quatro fases de pesca que caracterizam uma viagem de cerco (navegação, pesquisa, pesca e paragem para descanso), foi despendido uma média por viagem de 2 h 32 min (Desvio Padrão = 1 h 35 min) na navegação, 3 h 32 min (DP = 2 h 16 min) na pesquisa, 2 h 06 min (DP = 1 h 20 min) na operação de pesca e 39 min (DP = 1 h 16 min) na paragem para descanso.
No esforço de pesca foram despendidas em média, 5 h 38 min (DP = 2 h 32 min) por viagem ao longo do período de estudo. Da observação da figura 3.3, verifica-se que existe uma diminuição do esforço de pesca entre 2003 e 2005, seguida de um aumento até 2011, ano em que se regista um ligeiro decréscimo que continua até ao final do período de estudo. É o tempo médio despendido na pesquisa por cardumes que provoca, maioritariamente, esta variação anual do esforço de pesca.O tempo médio da pesca mantém-se relativamente constante do longo dos anos, com exceção do ano de 2005.
Figura 3.3. Variação anual do esforço de pesca, por viagem, entre 2003 e 2018.
Comparando as três zonas, observa-se que a variação anual do esforço de pesca médio não foi semelhante, destacando-se a zona Norte com um esforço de pesca superior e com tendência para aumentar ao longo dos anos (Figura 3.4). O valor apresentado para 2005, deve-se ao facto de terem sido realizadas apenas duas viagens no Norte do país com um elevado esforço de pesca despendido, que se traduziu num valor médio superior. Entre a zona Centro e Sul existe uma tendência contrária. Na zona Centro existe um aumento do esforço de pesca até 2011 e uma estabilização nos anos posteriores, contrariamente à zona Sul, onde se observa um decréscimo gradual do esforço de pesca até ao fim do período de estudo (Figura 3.4).
15
Figura 3.4. Variação anual do esforço de pesca por zona (Norte, Centro e Sul), por viagem, entre 2003 e 2018.
3.2. Capturas, desembarques, desenvases e rejeições
Durante o período de estudo, a captura média, por lance, foi de 4 776 kg (DP = 10 516 kg), o desembarque médio foi de 3 435 kg (DP = 4 380 kg), a quantidade média desenvasada foi de 1 162 kg (DP = 9 254 kg) e a rejeição média de pescado correspondeu a 123 kg (DP = 1 087 kg), a qual pode ter ocorrido a bordo da cercadora ou na lota de desembarque.
Em 2007 ocorreu uma captura excecionalmente elevada de cavala de 226 125 kg, num único lance de pesca, a qual foi desenvasada na sua quase totalidade (225 000 kg). Esta situação explica o elevado valor apresentado pelo desvio-padrão nos gráficos presentes ao longo deste capítulo, relativos ao ano de 2007 e à cavala.
Observa-se que a captura média, durante o período de estudo, decresceu progressivamente até 2018 (Figura 3.5a). Com a existência de uma forte correlação entre as capturas e desembarques (𝜏 = 0,74, p-value = 2,22e-16), seria de prever que a diminuição da captura levasse ao decréscimo gradual dos desembarques, o que se pode verificar no gráfico da figura 3.5b. O desenvase médio apresenta valores inferiores a 2 500 kg em todo o período de estudo, com exceção do ano de 2007, como mencionado anteriormente. Observa-se, ainda, uma pequena diminuição de desenvase nos anos mais recentes do período em estudo (Figura 3.5c). Em relação à rejeição média, observa-se que até 2013 não excedeu os 100 kg, no entanto em 2014 esta atingiu um máximo de 938 kg, que decresceu novamente nos anos seguintes (Figura 3.5d).
16 (a)
(b)
(c)
(d)
Figura 3.5. Quantidade média de pescado capturado (a), desembarcado (b), desenvasado (c) e rejeitado (d) e respetivo desvio-padrão, por lance, entre 2003 e 2018. Devido ao valor elevado do desvio-padrão em 2007 (a) e (c) e em 2014 (d), excluiu-se este valor da análise gráfica, para obter uma melhor visualização do comportamento dos gráficos.
17 À exceção do ano de 2007, a sardinha domina as capturas até 2011. Em anos mais recentes, a frequência de ocorrência de cavala e carapau-branco aumentam, ultrapassando, por vezes, a captura de sardinha. É visível, a partir de 2011, uma diminuição clara da quantidade de sardinha e, mais recentemente, a existência de uma captura mais variada em termos de espécies (Figura 3.6).
Figura 3.6. Composição percentual das capturas por espécie entre 2003 e 2018. (PIL – sardinha; MAS – cavala; HOM – carapau-branco; ANE – biqueirão; GAR – peixe-agulha; BON – sarrajão; JAA – carapau-negrão; MAC – sarda; BOG – boga, Outros – ex: sargo-legítimo, sargo-safia, besugo, pescada, faneca, choupa, linguados entre outras).
A quantidade média de sardinha capturada em cada lance, aumentou entre 2003 e 2007, com um máximo de 4 500 kg em 2007, tendo a partir deste ano, exibido pequenas flutuações com uma tendência claramente decrescente até 2018, com uma média capturada de 930 kg (Figura 3.7a). Este decréscimo foi acompanhado pelo aumento da captura média das outras três espécies pelágicas apresentadas (Figura 3.7b, c e d). 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 E sp éc ies ca p tu rad as (%)
18 (a)
(b)
(c)
(d)
Figura 3.7. Quantidade média de PIL (a), MAS (b), HOM (c) e ANE (d) capturada, por lance, no período de 2003 a 2018 (PIL – sardinha, MAS – cavala, HOM – carapau-branco e ANE – biqueirão). Removeram-se os valores elevados do desvio-padrão em 2007 (b), 2013 (c), 2016 e 2017 (d).
19 A quantidade média de sardinha capturada é superior na zona Norte, enquanto que nas zonas Centro e Sul, a cavala é a espécie dominante nas capturas (Figura 3.8a). O carapau-branco e o biqueirão, apresentam capturas médias muito reduzidas para as três zonas. Relativamente às estações do ano, destacam-se os meses de outono, com uma quantidade média de cavala e sardinha superior às restantes estações. Nos meses de inverno, a cavala destaca-se, representando capturas médias superiores às das restantes espécies (Figura 3.8b). O valor excecional do desvio-padrão no Norte e no outono, representa a captura elevada de cavala mencionada anteriormente.
(a)
(b)
Figura 3.8. Quantidade média de PIL, MAS, HOM e ANE capturada e respetivo desvio-padrão, por lance, em função da zona de pesca (a) e da estação do ano (b) (PIL – sardinha, MAS – cavala, HOM – carapau-branco e ANE – biqueirão).
3.3. Presença de cetáceos nas viagens
Das 550 viagens amostradas, registou-se a presença de cetáceos em 21% (n = 115). Na figura 3.9, pode verificar-se que a presença de cetáceos ocorreu durante todos os anos do período em análise, com um aumento da proporção de presenças por viagem até 2010, seguido de um decréscimo com algumas oscilações até 2018.
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Figura 3.9. Variação anual do número de viagens realizadas e a frequência de ocorrência (%) de viagens com presença de cetáceos, entre 2003 e 2018.
Do total de viagens em que se registou a presença de cetáceos, o golfinho-comum foi a espécie mais avistada (83,5%, n = 96), seguindo-se o roaz-corvineiro em 5,2% dos casos (n = 6), o bôto, que esteve presente em 3 viagens (2,6%) e a baleia-anã presente em apenas uma viagem (0,86%). Houve ainda 9 viagens (7,8%), em que não foi possível a identificação da espécie presente, por parte do observador (Tabela 3.1). Considerando o esforço realizado, i.e., o número de viagens, para cada zona, o Norte apresentou a maior frequência de ocorrência de cetáceos, que correspondeu a 28,4%, seguindo-se a zona Sul com 19% e, por fim, com uma menor ocorrência de presenças, a zona Centro com 13,5% (Tabela 3.1). Relativamente às estações do ano, a maior ocorrência de cetáceos registou-se no outono (27,6%), seguindo-se os meses de verão (20,1%), primavera (18,7%) e, por último, o inverno com a menor ocorrência (8,8%) (Tabela 3.1).
Tabela 3.1. Total de viagens com presença de cada espécie de cetáceo, número de viagens com presença de cetáceos (N) e a respetiva frequência de ocorrência (%) de cada espécie de cetáceo, em função do total de viagens realizadas por zona (Norte, Centro e Sul) e estação do ano (Inverno, Primavera, Verão, Outono), entre 2003 e 2018. Delphinus delphis – Golfinho-comum; Tursiops truncatus – Roaz-corvineiro; Phocoena phocoena – Bôto e Balaenoptera acutorostrata – Baleia-anã.
Espécie de
cetáceo Total
Presença de cetáceos
Zona Estação do ano
Norte Centro Sul Inverno Primavera Verão Outono
N (%) N (%) N (%) N (%) N (%) N (%) N (%) Delphinus delphis 96 57 (26,1) 13 (7) 26 (17,7) 2 (5,9) 20 (15,6) 43 (16,9) 32 (23,9) Tursiops truncatus 6 2 (0,91) 3 (1,6) 1 (0,68) 1 (2,9) 1 (0,78) 3 (1,2) 1 (0,74) Phocoena phocoena 3 2 (0,91) 1 (0,54) 0 0 1 (0,78) 2 (0,79) 0 Balaenoptera acutorostrata 1 0 1 (0,54) 0 0 0 1 (0,39) 0 Delfinídeo Não Identificado 9 1 (0,46) 7 (3,8) 1 (0,68) 0 2 (1,6) 2 (0,78) 4 (3) Total 115 62 (28,4) 25 (13,5) 28 (19) 3 (8,8) 24 (18,7) 51 (20,1) 37 (27,6)
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3.4. Interações cetáceos-pesca
3.4.1. Interação em função do esforço de observação
Dos 754 lances de pesca observados ao longo do estudo, 75 registaram interações entre os cetáceos e a operação de pesca (incluindo captura acidental e morte de cetáceos), correspondendo a aproximadamente 10%. O registo de interações ocorreu na maioria dos anos, com exceção de 2005, 2006 e 2009. De salientar os picos de interação nos anos 2008, 2010, 2011 e 2013, cujos valores variaram entre 15% e 17,4% (Figura 3.10).
Figura 3.10. Variação anual do número de lances de pesca observados e a frequência de ocorrência (%) de lances de pesca com interações cetáceos-pesca, em Portugal Continental, entre 2003 e 2018.
O golfinho-comum foi a espécie mais observada a interagir com a operação de pesca, com uma frequência de ocorrência de 89% do total das interações e com uma ocorrência em 8,9% do total de lances de pesca observados. Por sua vez, foi alvo de uma captura acidental superior, com o envolvimento de 22 indivíduos, em 1,3% dos lances observados e, foi a única espécie com registo de mortalidade, em 0,8% dos lances e um total de 12 indivíduos mortos (Tabela 3.2, Figura 3.11). Foram registadas mais duas espécies de cetáceos a interagir com a pesca, o roaz-corvineiro e o bôto, com a captura acidental de um indivíduo de cada espécie, o que correspondeu a 0,13% do total de lances observados. Em 6 lances de pesca, não foi possível a identificação de 10 indivíduos envolvidos na interação, o que correspondeu a 0,8% (Tabela 3.2, Figura 3.11).
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Tabela 3.2. Número total de indivíduos observados (Ind), número de lances de pesca com interações, captura acidental e morte de cetáceos (N) e a respetiva frequência de ocorrência de cada espécie de cetáceo (%), em função do número total de lances de pesca observados entre 2003 e 2018 (n = 754). Delphinus delphis – Golfinho-comum; Tursiops truncatus – Roaz-corvineiro; Phocoena phocoena – Bôto e Balaenoptera acutorostrata – Baleia-anã.
Figura 3.11. Localização dos lances de pesca com e sem registo (+) de interações entre cada espécie de cetáceo e a pesca de cerco, em Portugal Continental, entre 2003 e 2018. Representação dos portos de pesca e as batimétricas de 50, 100 e 200m.
Espécies de cetáceos
Interações
Total observado Captura acidental Mortalidade
Ind N (%) Ind N (%) Ind N (%)
Delphinus delphis 784 67 (8,9) 22 10 (1,3) 12 6 (0,8) Tursiops truncatus 1 1 (0,13) 1 1 (0,13) 0 0 Phocoena phocoena 1 1 (0,13) 1 1 (0,13) 0 0 Balaenoptera acutorostrata 0 0 0 0 0 0 Delfinídeo Não Identificado 10 6 (0,8) 0 0 0 0 Total 796 75 (10) 24 12 (1,6) 12 6 (0,8)
23 Tendo em conta o esforço de observação (lances de pesca) realizado em cada zona, o Norte e o Sul apresentaram uma proporção de lances com interação semelhante, de 12,6% e 12,4%, respetivamente. A zona Centro apresentou uma proporção inferior (5,4%). Relativamente à captura acidental e morte de cetáceos, não houve qualquer registo de interações na zona Centro. Pelo contrário, a zona Norte apresentou os valores superiores, com 2,8% e 1,3% e a Sul com 1,9% e 1,2%, respetivamente (Tabela 3.3). Relativamente à sazonalidade, a maior proporção de interações, predominou durante os meses de outono (14,7%), seguindo-se o verão e a primavera e, por fim, os meses de inverno, em que se registou o menor valor (4,7%) (Tabela 3.3).
Tabela 3.3. Número de lances de pesca com interação, captura acidental e morte de cetáceos (N) e a respetiva frequência de ocorrência (%), em função do total de lances de pesca realizados por zona (Norte, Centro e Sul) e estação do ano (Inverno, Primavera, Verão, Outono), entre 2003 e 2018.
3.4.2. Interações em função da abundância das espécies pelágicas
A figura 3.12 mostra a relação existente entre a captura por unidade de esforço de cada espécie pelágica e a frequência de ocorrência de lances de pesca com interações. É visível um aumento da CPUE.PIL nos primeiros anos, com uma estabilidade até 2009, a partir deste ano observa-se uma diminuição gradual até ao final do estudo. Observa-se que a frequência de ocorrência de interações acompanhou o decréscimo na abundância relativa de sardinha a partir de 2010 até ao fim do estudo (Figura 3.12a). Relativamente à CPUE das restantes três espécies pelágicas, não parece haver uma variação conjunta com a frequência de ocorrência de interações por ano (Figura 3.12b, c e d), exceto no caso da CPUE.MAS que, nos últimos três anos, parece apresentar uma variação conjunta. Não é, no entanto, possível garantir que apresente influência sobre as interações, tendo em conta a restante série temporal. De uma maneira geral, é a abundância relativa de sardinha que parece apresentar uma clara influência sobre a frequência de ocorrência de interações. No entanto, estas relações serão comprovadas mais aprofundadamente através do modelo estatístico desenvolvido, descrito no próximo subcapítulo.
INTERAÇÕES
Zona de pesca Estação do ano
Total Norte Centro Sul Inverno Primavera Verão Outono
N (%) N (%) N (%) N (%) N (%) N (%) N (%)
Total 40 (12,6) 15 (5,4) 20 (12,4) 2 (4,7) 16 (8,2) 32 (9,2) 25 (14,7) 75 Captura
acidental 9 (2,8) 0 3 (1,9) 0 3 (1,5) 6 (1,7) 3 (1,8) 12 Mortalidade 4 (1,3) 0 2 (1,2) 0 0 3 (0,87) 3 (1,8) 6
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Figura 3.12. Variação anual da CPUE média e respetivo desvio-padrão, e da frequência de ocorrência (%) de lances de pesca com interações, entre 2003 e 2018: (a) PIL, (b) MAS, (c) HOM e (d) ANE. (PIL – sardinha, MAS – cavala, HOM – carapau-branco e ANE – biqueirão).
(a)
(b)
(c)