• Nenhum resultado encontrado

A Bíblia em português corrente e seus paratextos

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "A Bíblia em português corrente e seus paratextos"

Copied!
125
0
0

Texto

(1)

1 Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do

grau de Mestre em Edição de Texto, realizada sob a orientação científica do Prof. Doutor Fernando Cabral Martins

(2)

2 Ao meu Deus, o Deus de Abraão de Isaac e de Jacob,

o Deus dos Apóstolos, pois “tudo veio de Deus e tudo existe por ele e para ele”.

Aos meus pais que me educaram na doutrina e nos ensinos do Senhor Jesus Cristo e continuam a ser um modelo pelo seu exemplo de vida.

Aos meus irmãos e amigos, aqueles cuja fé também me inspira, e que percorrem comigo este caminho.

(3)

3 A minha gratidão é extensiva

à Sociedade Bíblica de Portugal, na pessoa no seu Secretário-Geral, pelo acesso aos recursos da biblioteca e arquivos, e também ao Paratext, programa

de edição do texto bíblico, de onde extraí muitos dos dados que constam deste trabalho.

ao Doutor Lénart J. de Regt, Global Translation Advisor das United Bible Societies por aconselhamento de bibliografia e provisão de

(4)

4

Dissertação de Mestrado em Edição de Texto

A Bíblia em Português Corrente e seus Paratextos

Rute Peregrina Soares Nunes

Resumo

O distanciamento linguístico e cultural dos textos bíblicos – textus receptus – requer por si só uma abordagem editorial explicitadora de ideias e conceitos com os quais o leitor comum não está familiarizado. Uma breve abordagem histórica, de enquadramento, ajudar-nos-á a perceber quando e como surgem os vários paratextos bíblicos nos seus sistemas mais básicos, como divisões numéricas dos textos em capí-tulos e versículos, tícapí-tulos e perícopes, notas e glossários. O modelo da nossa análise é A Bíblia para Todos, Edição Comum, da Sociedade Bíblica de Portugal.

Numa ótica de evolução histórica, iremos também tentar perceber como as mudanças socioculturais e as novas tecnologias determinam o grafismo dos textos e os títulos e capas atribuídos ao livro sagrado, no contexto alargado do fenómeno de mas-sas iniciado com descoberta da imprensa e com a reforma da Igreja no século XVI, des-de então responsáveis pela tradução e disponibilização da Bíblia em quase todas as línguas do mundo.

As modernas traduções são feitas a pensar nos vários públicos leitores o que tem implicações ao nível da língua e dos enunciados. Os paratextos, não sendo textos canónicos, ajudam a explicitar questões do foro linguístico e cultural, sublinhando e explicando vocábulos e conceitos difíceis de entender, ou que não puderam ser explici-tamente traduzidos, porque nenhuma tradução é capaz, de por si só, abarcar todos os aspetos linguísticos e culturais de um texto.

Palavras-chave

: Bíblia, paratextos, tradução, linguagem, editorial, leitor, linguístico, língua.

(5)

5

A Bíblia em Português Corrente e seus Paratextos

Rute Peregrina Soares Nunes

Abstract

Language idioms and the cultural gap since textus receptus require a very spe-cific approach to explain concepts and ideas the average reader is not able to compre-hend because they are not familiar with Bible texts. A brief historical approach will provide a background to help us understand how various paratexts from most basic to more complex systems such as chapter numbers and versification, section headings, footnotes and glossaries. The model of our analysis is the Bible in modern Portuguese, known as A Bíblia para Todos, the common edition of the Bible Society of Portugal.

From an historical point of view we will also be seeking to understand how so-ciological and cultural changes and new technologies determine the design, cover and titles when we talk Bible in the broader context of the masses phenomena brought about by press invention and the religious reforms in the 16th century, responsible for Scriptures translations into all the languages of the world.

Modern Bible translations are made in view of different audiences with conse-quences on language and discourse issues. Paratexts are non canonical texts which help to clarify language meanings and cultural issues, underlying aspects of the text or explaining words and concepts that are difficult to understand or were not explicitly translated, because no single text is able to embrace and convey all the cultural and linguistic aspects of a text.

KEYWORDS: Bible, paratexts, translation, language, edition, reader, linguistic, lan-guage, Scriptures.

(6)
(7)

7

Índice

Índice...7 Introdução ...9 Metodologia ...12 1. Textos e Paratextos ...14 2. Os Paratextos Bíblicos ...19 3. Paratextos e Canonicidade ...22 4. Paratextos e Tradução ...26 5. Capítulos e Versículos...31 6. Perícopes e Títulos ...40 7. Notas de Rodapé ...45 8. O Glossário ...52 9. A Concordância ...57 10. Modelos de Edição ...61 11. Outros Paratextos ...64 a. Introduções ...64

b. Introduções aos livros ...65

c. Mini Introduções ...66

d. Mapas e Tabelas cronológicas ...66

12. O Título e a Capa ...67 Conclusão ...69 Bibliografia ...73 Apêndice 1 ...75 Apêndice 2 ...76 Apêndice 3 ...82 Apêndice 4 ...92 Apêndice 5 ...119 Apêndice 6 ...125

(8)
(9)

9

Introdução

Sendo várias as traduções da Bíblia em português, pensamos que fará todo o sentido uma explicação relativamente à escolha da obra que serve de base à nossa análise, enquanto projeto editorial – A Bíblia para Todos – Edição Comum – e que, no momento em que escrevemos a nossa dissertação, continua a ser a mais recente tra-dução em português corrente do texto milenar realizada em Portugal.

A Bíblia em Português Corrente surge, como o próprio nome indica, como um ecuménico ou interconfessional, como a Sociedade Bíblica de Portugal (SBP), a princi-pal impulsionadora deste projeto, lhe prefere chamar. Uma obra que surge num con-vergir de mudanças conjunturais sociológicas, religiosas e políticas. A nível global, uma maior secularização das sociedades ditas cristãs; a nível religioso o Concílio do Vatica-no II1, a nível político, a revolução de Abril de 1974.

A tradução interconfessional foi algo inédito em Portugal, resultado de um movimento de cooperação e de diálogo entre as várias igrejas cristãs, também conhe-cido por movimento ecuménico, que alastrara a toda a Europa e ao mundo. Várias sociedades bíblicas europeias pertencentes à fraternidade das Sociedades Bíblicas Unidas,2 de que a SBP é membro, estavam a realizar ou tinham realizado projetos

semelhantes.3 É neste contexto de mudanças e alteridade que surge em Portugal uma

tradução moderna da Bíblia, comungada por católicos e protestantes. O projeto incor-porou teólogos e linguistas de diferentes quadrantes das igrejas cristãs, uma equipa jovem e dinâmica que queria ver surgir uma obra verdadeiramente inovadora e sem paralelos no nosso país.4 Estávamos no ano de 1972 e trabalho de tradução em equipa e de edição estender-se-ia ao ano de 1993, ano em que a primeira edição desta Bíblia seria publicada na íntegra, já que o Novo Testamento teria algumas edições anteriores à concretização de todo o projeto.

1 Realizado entre 1962-1965, este concílio veio encetar o diálogo entre a igreja católica e as outras

igre-jas cristãs.

2

Em inglês, United Bible Societies, organização para a divulgação da Bíblia com origem no Reino Unido em 1809, fruto do movimento missionário protestante da era moderna com início no século XIX.

3

No Reino Unido The Good News Bible, em Espanha, Biblia Dios Habla Hoy, em França, La Bonne

Nou-velle en Français Courrant e na Alemanha a Guten Nachricht Bibel.

4 Os pormenores sobre a formação desta equipa e o seu trabalho vêm descritos na Introdução Geral à

(10)

10 Em 1999, sentindo-se a necessidade de alguns ajustes teológicos e linguísticos numa obra bastante divulgada em Portugal e em países de língua oficial portuguesa, especialmente em Angola e Moçambique, a casa editora decide encetar o processo de revisão deste longo texto, que ficaria concluído exatamente dez anos depois, em 2009. O nosso envolvimento neste projeto surge no âmbito das nossas competências enquanto Assistente de Direção da Sociedade Bíblica, integrando a comissão de traba-lho constituída, primeiro, como assistente editorial e mais tarde como coordenadora técnica do projeto.

Pensamos ser importante referir, dada a importância histórica e sociológica dos dados, que tanto a mais antiga como a mais recente tradução da Bíblia em língua por-tuguesa são edições da Sociedade Bíblica de Portugal. A primeira data dos finais do século XVII, mais precisamente de 1681,5 em Amesterdão. A primeira Bíblia em língua portuguesa foi traduzida em terras do Oriente por João Ferreira Annes d’ Almeida, um português convertido ao protestantismo calvinista holandês, nascido em Torre de Tavares, no concelho de Mangualde, que viria a integrar os quadros eclesiais da Igreja Reformada Holandesa em Malaca e Batávia, e que explica o facto de a primeira Bíblia em português ter sido impressa na Holanda. A primeira Bíblia de edição católica, uma tradução do Padre Pereira de Figueiredo, só apareceria exatamente 100 anos mais tarde. Seguiram-se muitas outras traduções, como a Bíblia do Padre Matos Soares, ainda hoje a mais divulgada no meio católico brasileiro. Em meados do século XX surgi-ra a conhecida Bíblia dos Capuchinhos, uma obsurgi-ra dos fsurgi-rades desta congregação em Portugal. A tradução de João Ferreira de Almeida continua a ser, no entanto, a mais impressa e, consequentemente, a mais lida no espaço lusófono, devido à grande divul-gação que esta tradução tem no Brasil, onde em 2011 atingiu um total de 7 milhões de cópias nas suas várias edições para os diferentes públicos leitores.

Como dissemos, o nosso trabalho irá debruçar-se sobre a mais moderna tradu-ção da Bíblia na língua portuguesa, e o trabalho que teve lugar com a revisão deste texto. As questões linguísticas de tradução estão fora do foro das nossas competên-cias, mas iremos debruçar-nos sobre alguns aspetos editoriais ligados ao texto, numa

5 O Novo Testamento, João Ferreira A D’Almeida, Viúva de J. V. Someren, Amesterdão, 1681, com fac-simile na Biblioteca Nacional Digital.

(11)

11 ótica de análise dos discursos, que nos ajudará a compreender que o texto bíblico qua-se nunca vem só, e que está rodeado de outros textos ou paratextos que acompanham a grande panóplia de procedimentos editoriais, num texto já de si extenso, escrito ori-ginalmente nas línguas hebraica, aramaica e grega, sendo muito o material adicional que acompanha a edição que serve de estudo de caso.

(12)

12

Metodologia

Escolhemos para tema da nossa dissertação os Paratextos Bíblicos, textos que não sendo considerados Escritura, por não serem canónicos, complementam, explici-tam e faciliexplici-tam a leitura dos textos bíblicos.

Sendo a Bíblia um livro tão divulgado e ao mesmo tempo tão desconhecido do público em geral, e sendo este um projeto do Mestrado em Edição, pensámos oportu-no e interessante que o mote de cada capítulo fosse dado por um pequeoportu-no excerto do texto bíblico, em epígrafe, que servisse de trampolim para as considerações e observa-ções que nos propomos tecer sobre os vários paratextos.

A escolha de um texto bíblico como epígrafe, para além de constituir uma abordagem editorial possível, tem um duplo objetivo. Em primeiro lugar, estabelecer algum tipo de autoridade ao nível da crítica interna, para um texto que se propõe modelar para as várias áreas da vida. Em segundo lugar, 2 dos textos das epígrafes, um do Antigo e outro do Novo Testamento, servirão de modelos da análise da edição de textos e paratextos que apresentamos no capítulo 10.

Do ponto de vista da estrutura dos conteúdos de cada módulo ou capítulo, faremos uma abordagem tripartida que pensamos coadunar-se com a lógica deste trabalho. Cada capítulo será introduzido com informação de nível mais diacrónico, podendo ser de índole mais histórica ou teórica seguida de um enquadramento do tema no projeto, dando conta de alguns aspetos do processo e escolhas editoriais. Quando oportuno, procederemos à comparação das escolhas editoriais da tradução e da revisão. Uma conclusão funcionará em cada capítulo como resenha do tema e de problemáticas relacionadas, mas apenas a conclusão virá graficamente assinalada.

Como foi adiantado na Introdução, o objeto do nosso trabalho é o trabalho de edi-ção que tem lugar com a revisão da Bíblia Sagrada em Português Corrente, que ficou conhecida como A Boa Nova, e que com a revisão viria a chamar-se A Bíblia para Todos. Esta tradução teve a sua primeira publicação na íntegra em 19936 e

6 Esta tradução Ficou conhecida como A Bíblia Sagrada, A Boa Nova em Português Corrente, Sociedade

(13)

13

va apenas o cânone protestante.7 Embora a revisão tenha contemplado também uma

edição católica com os livros deuterocanónicos, conhecida como A Bíblia para Todos, Edição Interconfessional, por questões de metodologia o nosso projeto circunscrever-se-á apenas à Edição Comum,8 visando estabelecer as comparações possíveis.

7 O cânone da Bíblia protestante contém um total de 66 livros: 39 no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento. O cânone católico contém mais alguns livros no Antigo Testamento, conhecidos como livros

deuterocanónicos, por serem do segundo cânone, ou apócrifos ou pseudo-canónicos, pois não são acei-tes como inspirados por todos os quadranacei-tes da igreja cristã.

8

(14)

14

1. Textos e Paratextos

No princípio era a Palavra. A Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus. Aquele que é a Palavra estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada foi criado.

Evangelho Segundo João 1,1

Falar da Bíblia, significa falar de textos e inevitavelmente de paratextos. Uns e outros preenchem os nossos dias, sendo compostos por palavras com diferentes signi-ficados. Os textos e as palavras acompanham os nossos atos, fazem parte dos nossos pensamentos e exprimem os nossos sentimentos. Fazem parte do processo de comu-nicação que seria tornado bem mais difícil se não existissem. Sobre as palavras mar-cou-me na infância um poema de Egito Gonçalves.

Com palavras me ergo em cada dia! Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto E saio para a rua.

Com palavras — inaudíveis — grito Para rasgar os risos que nos cercam.

Ah!, de palavras estamos todos cheios. Possuímos arquivos, sabemo-las de cor Em quatro ou cinco línguas.

Tomamo-las à noite em comprimidos Para dormir o cansaço.

As palavras embrulham-se na língua. As mais puras transformam-se, violáceas, Roxas de silêncio. De que servem

(15)

15 Possuímos, das palavras, as mais belas;

As que seivam o amor, a liberdade... Engulo-as perguntando-me se um dia As poderei navegar; se alguma vez Dilatarei o pulmão que as encerra.

Atravessa-nos um rio de palavras: Com elas eu me deito, me levanto, E faltam-me palavras para contar...

No momento em que escrevo esta dissertação as notícias revolvem em torno da descoberta do Bosão de Higgs, o que levanta um novo véu sobre a ciência e uma enorme quantidade de perguntas. Numa coisa os cientistas parecem concordar: o bosão é diferente de tudo o que se conhecia até agora, e formula-se mesmo a hipótese de que esta descoberta nos venha permitir um dia viajar para trás no tempo.

Achei interessante que o grupo de estudo do CERN tenha resolvido chamar ao bosão a “Partícula de Deus”. Por ser diferente de tudo o que se conhecia até agora? Por ser a força propulsionadora que traz todas as coisas à existência? – Pergunto, por acreditar que há uma razão por detrás de tudo e ser levada a pensar no Deus que as Escrituras definem como o Deus da Palavra e consequentemente falarmos das mes-mas como Palavra de Deus.

Ao pensar em partículas, não consigo evitar a analogia e penso em fones e seus alofones; penso nos fonemas que formam as palavras. Penso na Palavra que, de acor-do com o Génesis, o livro acor-dos começos, é a força, ou poder, que traz todas as coisas à existência. É por meio de Deus e das suas palavras que o universo é criado. Também aqui não consigo deixar de estabelecer paralelos numa analogia perfeita à função ape-lativa ou conativa da linguagem; linguagem sem ruídos ou interferências, capaz de provocar efeitos tão extraordinários como o aparecimento da luz e das galáxias, da vida em geral e de cada ser vivo em particular, conforme a narrativa da criação, que resume os atos performativos de Deus, atos ilocutórios cujos efeitos perlocutórios são imensos.

(16)

16 No princípio, quando Deus criou o céu e a terra, a terra estava sem forma e sem ordem. Era um mar profundo coberto de escuridão; mas sobre as águas pairava o Espírito de Deus. Então Deus disse: «Que a luz exista!» E a luz começou a existir. Deus achou que a luz era uma coisa boa e separou-a da escuridão.

E Deus chamou à luz dia e à escuridão, noite. Passou uma tarde e veio a manhã: o dia um.

Depois Deus disse: «Que exista um firmamento entre as águas, para as separar umas das outras.»

E Deus fez então o firmamento, separando assim as águas que estão do lado de baixo das que estão do lado de cima. E assim aconteceu. Deus chamou céu a este firmamen-to. Passou uma tarde e veio a manhã: o segundo dia.

Deus disse então: «Que as águas que estão debaixo do céu se juntem num único lugar e que fique à vista a terra firme.» E assim aconteceu. Deus chamou terra à terra

firme e chamou mar às águas assim reunidas. E achou que tudo aquilo eram coisas boas. Deus disse ainda: «Que a terra produza ervas e plantas que deem semente e

árvores que deem fruto, cada uma conforme a sua qualidade e que o fruto contenha a semente própria.» E assim aconteceu. A terra produziu toda a espécie de ervas, que

dão semente, conforme a sua qualidade, e árvores de fruto, com a semente própria de cada uma. E Deus achou que aquilo eram coisas boas. Passou uma tarde e veio a manhã: o terceiro dia.

Deus disse então: «Que existam luzeiros no firmamento, para distinguirem o dia da noite; e que eles sirvam de sinal para marcar as divisões do tempo, os dias e os anos. E que esses luzeiros, colocados no céu, sirvam também para iluminar a terra.» E

assim aconteceu. Deus fez os dois grandes luzeiros: o maior deles, o sol, para presidir ao dia, e o mais pequeno, a lua, para presidir à noite, e ainda as estrelas.

Colocou-os no firmamento, para iluminarem a terra e presidirem ao dia e à noite, fazendo assim a separação entre a luz e a escuridão. E Deus achou que aquilo eram coisas boas. Passou uma tarde e veio a manhã: o quarto dia.

Deus disse depois: «Que as águas sejam povoadas de seres vivos e que entre a terra e o firmamento haja aves a voar.» E Deus criou os grandes cetáceos e toda a espécie

(17)

17 de seres vivos que se movem e povoam as águas e ainda todas as espécies de aves. E Deus achou que eram coisas boas e abençoou-os desta maneira: «Sejam férteis e cres-çam; encham as águas do mar e que, em terra, as aves se multipliquem também.» Pas-sou uma tarde e veio a manhã: o quinto dia.

Depois Deus disse: «Que a terra produza toda a espécie de seres vivos: animais domésticos, animais selvagens e todos os bichos, conforme as suas diferentes espé-cies.» E assim aconteceu. Deus criou todas as espécies de animais selvagens, de

ani-mais domésticos e todos os bichos. E achou que todos eram coisas boas. Deus disse

ainda: «Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança. Que ele tenha poder sobre os peixes do mar e as aves do céu; sobre os animais domésticos e selvagens e sobre todos os bichos que andam sobre a terra.» Deus criou então o ser humano à sua

imagem; criou-o como verdadeira imagem de Deus. E este ser humano criado por Deus é o homem e a mulher9.

De acordo com o texto de abertura do Evangelho Segundo João, em epígrafe, Deus cria por meio da Palavra, Jesus Cristo, a expressão suprema do Verbo ou Palavra

Divina. Como sabemos, as palavras cumprem funções.10 Nem só de pão vive o homem,

mas de toda a palavra que sai da boca de Deus11 – foram palavras de Jesus

celebriza-das ao citar um texto que bem conhecia do Antigo Testamento,12 que nos remete para

o campo da intertextualidade na própria Bíblia. Jesus convida-nos a comer da Palavra, porque as palavras constroem-nos, as palavras edificam-nos. Somos o produto daquilo que lemos e daquilo que ouvimos, porque as palavras difundem ideias e alimentam o espírito e a mente. As palavras formam-nos e nós somos formados por palavras e tam-bém pela Palavra. Estabelecendo as analogias possíveis, não deixa de ser irónico que a ciência tenha descoberto que o nosso código genético é um sofisticado sistema de linguagem formado por letras e palavras.

9Génesis 1,1-27. A atualização conforme novo acordo ortográfico é nossa.

10

Roman Jakobson definiu essas funções como fáticas, emotivas, metalinguísticas, conativas ou poéti-cas.

11

Evangelho Segundo Mateus 4,4.

12

Citação de Deuteronómio 8,3: “Depois de te fazer passar privações e fome, alimentou-te com o maná que, nem tu nem os teus antepassados conheciam. Foi para te mostrar que não é só de pão que o homem vive, mas que pode viver de tudo o que Deus lhe proporcionar com uma palavra sua.”

(18)

18

O ser humano comunica por meio de palavras formando textos ou enunciados

que revelam o seu interior, a sua identidade, os seus pensamentos. A Bíblia comunica os textos de Deus, as suas palavras, a sua Palavra, pois é desta forma que muitos auto-res bíblicos se referem à informação que procede de Deus, como sendo una. As pala-vras fazem parte de nós e dos nossos dias e Deus, no uso da palavra, emite enunciados capazes de trazer o universo à existência, porque o poder das suas palavras, a sua cria-tividade, não tem limites.

(19)

19

2. Os Paratextos Bíblicos

No quarto ano do reinado de Joaquim, filho de Josias, rei de Judá, o SENHOR deu a seguinte ordem a Jeremias: «Pega num pergaminho e escreve nele tudo o que te disse acerca de Judá e de Israel e das outras nações. Escreve tudo quanto te revelei, desde que comecei a falar-te, desde o tempo em que Josias era rei, até hoje. […] E pergunta-ram-lhe ainda: «Diz-nos como é que escreveste isto tudo! Foi Jeremias quem to ditou?» Baruc respondeu: «Jeremias ditou-me todas estas palavras e eu escrevi-as com tinta neste rolo»

Jeremias 36, 1-2;17-18.

O homem também escreve os seus textos e paratextos.Uns e outros também

dependem da sua criatividade, uma criatividade mais ou menos eficaz, que resulta de competências inatas ou competências adquiridas, linguísticas e técnicas, que resumem afinal o conjunto das suas competências. Os textos são as nossas ideias, os conceitos organizados por meio de vocábulos e estruturas sintáticas. Os paratextos são as nossas leituras desses textos, isto é, a descodificação de mensagens, e não há textos sem paratextos.13 Assim, relativamente ao texto bíblico gostaríamos de distinguir dois tipos de paratextos a que chamaremos paratextos estruturais e paratextos linguísticos. A paginação do livro, as margens, os alinhamentos, as indentações e a numeração de capítulos inserem-se na categoria de paratextos estruturais. Introduções, notas de rodapé, índices e glossários entram na categoria de paratextos linguísticos e podem ser de natureza factual ou ideológica. No caso da Bíblia são também de natureza teo-lógica.

Se tivermos em conta que as Escrituras foram escritas ao longo de 1.500 anos por cerca de 40 autores, autógrafos ou alógrafos, e tivermos também em conta não só

13Segundo Gérard Genette, “[…] o texto literário recorre muitas vezes a elementos de carácter

paratex-tual como forma de se integrar num contexto cultural em que pode constituir-se como obra literária […]”. In O Conhecimento da Literatura, Carlos Reis, p. 213.

(20)

20 o intervalo de tempo, mas também as realidades históricas, culturais, geográficas e religiosas dessas vivências, podemos compreender que os paratextos seja uma neces-sidade obrigatória, no sentido de ajudarem o leitor a inteirar-se dos contextos para melhor compreender a mensagem. Os paratextos bíblicos são sempre alógrafos, no sentido em que são da autoria de outros. Um olhar mais demorado levar-nos-á facil-mente a perceber que os livros que constituem a Bíblia não estariam estruturados da forma como estão hoje, por capítulos e versículos, até porque os manuscritos surgem como documento isolados, em diferentes locais, e diferentes épocas, com objetivos bem definidos, fossem as Crónicas dos reis de Israel, fossem as epístolas apostólicas ou as narrativas do Evangelho. Seguindo a mesma lógica, podemos compreender que as Escrituras não estavam estruturadas por perícopes ou temas, com títulos, como hoje as conhecemos, embora os estudiosos das línguas semíticas tenham vindo a perceber que certas marcas alfabéticas foram sendo introduzidas em alguns manuscritos, com fins utilitários, ao longo do tempo, como veremos quando abordarmos o tema das perícopes ou secções temáticas.

Conclusão: Os paratextos remetem-nos muitas vezes para outros textos e contextos e, por isso, também para o campo da intertexualidade, como podemos verificar nas várias notas de rodapé, introduções, glossário e concordância, onde as referências a outros textos se multiplicam. Se tivéssemos de categorizar os paratextos linguísticos por áreas do conhecimento, diríamos que podem versar sobre matéria de índole histó-rica, cronológica, teológica, geográfica, cultural e linguística.

A abordagem estrutural de carácter utilitário dos textos tem início ainda nos tempos bíblicos, com a atividade dos escribas, pois alguns manuscritos hebraicos reve-lam algum tipo de marcas que ajudariam à localização de determinados textos, pelo menos dos mais emblemáticos, como os que eram utilizados em leituras públicas em sinagogas. Com a tradução da Bíblia para o grego, e depois para o latim, e com a intro-dução do códex, as estruturas dos textos, isto é, a organização da “mancha gráfica” foi mudando. A agregação dos livros do cânone bíblico num ou vários volumes, veio exigir outro tipo de organização nas estruturas dos textos, processo que teve lugar ao longo dos séculos.

(21)

21 Pensamos não haver paratextos perfeitos e as várias tentativas de apresenta-ção quer do texto, quer dos paratextos ou textos explicativos, são apenas esforços no sentido de adequar cada vez mais a informação aos novos públicos e às exigências dos formatos dos novos suportes.

(22)

22

3. Paratextos e Canonicidade

Quando chegou o sétimo mês, já os israelitas estavam nas suas respetivas povoações, todo o povo se reuniu como um só homem na praça que está em frente da porta da Água, e pediu-se ao escriba Esdras para trazer o livro da Lei de Moisés, que o SENHOR tinha dado a Israel.

Neemias 8,1

Não faz parte do objeto do nosso trabalho empreender uma explicação exaus-tiva sobre a formação do cânone das Escrituras. No entanto, abordar os paratextos bíblicos requer a perceção de alguns conceitos implícitos em canonicidade.

Desde logo, é importante que percebamos que canonicidade e inspiração andam sempre de mãos dadas, quando falamos da Bíblia. A inspiração é um conceito veiculado pelas próprias Escrituras, sendo Escrituras o termo usado pelos escritores do Novo Testamento para se referirem ao Antigo Testamento. Ambos compõem as duas grandes secções temáticas da Bíblia. O Antigo Testamento é mais antigo e é constituí-do por 39 livros14. Trata-se exatamente dos mesmos textos que compõem o cânone judaico. No entanto, como os judeus mantiveram alguns dos escritos unidos, estes constituem apenas 22 livros.

Para uma resposta breve à questão – Como foram esses livros reunidos e acei-tes como canónicos? – Daremos também uma resposta concisa: cada um dos livros

canónicos possui uma qualidade que determinou a sua aceitação.15 Também devemos

perceber que não se tratou de um acontecimento estanque, mas que estes livros foram sendo gradualmente acrescentados e aceites como pertencentes ao cânone judaico e posteriormente ao cânone cristão.

Os primeiros livros a serem reunidos e aceites como canónicos é o conjunto conhecido como Pentateuco ou Livros da Lei – a história e as leis de Israel enquanto nação emergente. Estes livros formaram a primeira coleção de livros reconhecidos

14 No caso da Bíblia Protestante. 15

(23)

23 como tendo autoridade divina, e eram lidos em ocasiões como na sugerida pela narra-tiva em epígrafe. De resto, são centenas as referências internas aos Livros da Lei16 ou Lei de Moisés (ver apêndice 1), que assumiam especial relevância no contexto da nação de Israel. O cânone sagrado e o cânone da literatura sagrada hebraica não devem, no entanto, ser confundidos. O cânone das Escrituras, enquanto autoridade religiosa, surge precisamente no momento é que é feita a distinção entre uma e outra literatura.

Um dos princípios que presidiu à escolha dos livros do cânone sagrado foi o reconhecimento de que o ensino desses livros era divino, possuindo, por isso, autori-dade em matéria religiosa. Alguns destes livros tinham, no entanto, ampla aceitação literária, como é o caso do Livro dos Salmos, que na nossa literatura corresponderia a uma espécie de cancioneiro-geral. No século II o cânone judaico-cristão já estaria completo, como somos levados a concluir devido a um importante depoimento do historiador judeu Flávio Josefo, do ano 90 da nossa era.

Porque nós não temos (como têm os gregos) miríades de livros discordantes e contraditórios entre si, mas apenas vinte e dois, em que justamente se acredita. Cinco destes livros são de Moisés, que compreendem as leis e as tradições da origem da humanidade até à sua morte. Os profetas que foram depois de Moisés escreveram em treze livros o que sucedeu no tempo em que viveram. Os restantes quatro livros encer-rem hinos a Deus e os preceitos para a conduta do homem17.

Ao nível da crítica interna, torna-se evidente que o cânone do Antigo Testa-mento já estava completo muito antes do ano 90, pelas leituras do Evangelho e das inúmeras citações que se fazem desses textos. Embora alguns digam que seria impos-sível traçar os limites dos livros que seriam aceites como tendo autoridade em matéria religiosa naquela altura, e que a Bíblia dos apóstolos seria o texto hoje conhecido

16 Na nossa pesquisa encontrámos 10 referências textuais ao “Livro da Lei” e 58 à “Lei de Moisés”. A “Lei

de Deus”, correspondem 15 ocorrências e a “Leis de Deus”, forma plural, apenas 2. “Palavra de Deus” ocorre 34 vezes e o seu plural, “Palavras de Deus”, apenas 1 vez. O vocábulo “Mandamentos” regista 209 ocorrências. Se considerássemos “Lei e Leis” enquanto palavras isoladas, “Estatutos” “Palavra do Senhor” “Decretos”, etc., as referências multiplicar-se-iam exponencialmente. Os dados referem-se exclusivamente ao texto em si, estando excluídas quaisquer ocorrências em paratextos.

(24)

24

como Septuaginta,18 que contém os chamados livros apócrifos, a verdade é que nem

os evangelhos nem os escritos apostólicos, que mais tarde haveriam de integrar o cânone, citam ou fazem qualquer referência a algum dos textos apócrifos.

O princípio que norteou a escolha tríplice dos livros que integrariam o Antigo Testamento foi que “[…] a Lei e os Profetas, mas também os Hagiógrafos, foram reco-nhecidos por Cristo e seus apóstolos como Escrituras Sagradas, e que a Palavra de Deus que alimentou a sua vida, formou os seus pensamentos e inspirou a sua

mensa-gem ao mundo, era o Antigo Testamento hoje em nossas mãos […]”.19 Relativamente

ao Novo Testamento, assim chamado porque enceta uma nova era com o nascimento de Jesus Cristo, o princípio basilar que presidiu à seleção dos livros que deveriam com-por o cânone do Novo Testamento foi o mesmo: ser reconhecido como tendo inspira-ção divina. Por outro lado, e tendo em conta o carácter literário, deveriam ter […] ori-gem apostólica, do mesmo modo que se prova que são de Xenofonte, de Cícero e de Plutarco as obras que têm os seus nomes. […] o grande interesse religioso e a impor-tância dos livros obstariam a que fossem recebidos sem um forte fundamento da sua autenticidade […]”.20

Não se pode datar com exatidão o período de formação do cânone do Novo Testamento. Os manuscritos apareciam em diversas localidades e eram guardados pelas igrejas. De acordo com o texto do Evangelho Segundo Lucas muitos escritores tinham empreendido reproduzir por escrito o primitivo evangelho oral.21 No entanto, são apenas 4 os Evangelhos universalmente reconhecidos pela igreja, com base na autoridade apostólica, estabelecida pelo testemunho dos Pais da Igreja: Taciano, Justi-no Mártir, Policarpo, Ireneu, TertuliaJusti-no, Atanásio de Alexandria e outros que Justi-nos

18

A Septuginta é uma tradução grega do cânone religioso hebraico, realizada em Alexandria entre os anos entre os séculos III e I a.C.

19Joseph Angus, História, Doutrina e Interpretação da Bíblia, p. 36.

20 História, Doutrina e Interpretação da Bíblia, p. 49. 211

Já muitos procuraram narrar, na devida ordem, 2 o que nos foi transmitido por aqueles que assisti-ram a tudo, desde o princípio, e se tornaassisti-ram servos da palavra. 3 Também eu, depois de averiguar cui-dadosamente tudo o que se passou desde o começo, achei conveniente escrever tudo isso para ti, ilus-tre Teófilo, 4 para que fiques seguro de quanto te ensinaram. Transcrição do Evangelho Segundo Lucas 1,1-4.

(25)

25 xaram o seu testemunho. Além disso, muitos dos escritos vêm autenticados com o nome do autor, como acontece com as 13 cartas paulinas, cujo nome do remetente é desde logo anunciado na saudação inicial, embora fossem geralmente ditadas para um amanuense, testemunha também desse facto. A este propósito, não deixa de ser curioso que Paulo tenha referido numa das suas cartas que a tinha escrito pela sua própria mão, e com grandes letras,22 talvez porque geralmente não o fizesse.

Conclusão: Uma leitura atenta da Bíblia deixa perceber, desde logo, uma estrutura coesa e uniforme num texto tão extenso e diversificado onde vários estilos literários coexistem e interagem com vista à divulgação de uma mensagem ou tema central: Deus é criador e deseja ser conhecido e tornar conhecidos os seus propósitos para a humanidade. Ficamos ainda mais surpreendidos com essa coesão em termos temáti-cos se pensarmos que os 66 livros que constituem a Bíblia foram escritos por cerca de 40 autores durante um período de 1.500 anos.

Não cabe aqui explicar como os textos foram sendo preservados, embora perce-bamos que houve uma tradição e uma forte determinação que manteve firme o pro-pósito de conservar a integridade das Escrituras. Os mais antigos manuscritos foram escritos em papiro. No século IV o papiro daria lugar ao pergaminho e o códex veio substituir os rolos, o que levou a que as Escrituras fossem pela primeira vez reunidas num único volume. O mais antigo e conhecido códex do Novo Testamento data preci-samente desse mesmo século é o conhecido como Códex Sinaiticus, mas são conheci-dos mais de 4.000 manuscritos só do Novo Testamento. Os manuscritos mais antigos que se conhecem do Antigo Testamento, os Manuscritos do Mar Morto, descobertos em 1947, têm 3.000 anos de existência.

22 Textualmente: “Vejam com que grandes letras vos escrevo pela minha própria mão.” Texto bíblico de

(26)

26

4. Paratextos e Tradução

Toda a Escritura é inspirada por Deus e serve para ensinar, convencer, corrigir e educar, segundo a vontade de Deus, a fim de que quem serve a Deus seja perfeito e esteja pronto para fazer tudo o que é bom.

2 Timóteo 3,16-17

Traduzir sem trair23 foi uma frase que ficou célebre relativamente à tradução dos textos bíblicos. A ideia implícita é que um texto traduzido deverá ter o mesmo sen-tido ou significado na língua de chegada que tinha na língua de partida. A questão da ética é um dever ou obrigação em qualquer trabalho de tradução, e no caso da Bíblia, texto que se impõe, desde logo, de inspiração divina, não poderá ser diferente.

Manter a integridade do texto, o mais possível, a sua forma e os idiotismos das línguas de origem ou optar por expressões equivalentes na língua de chegada são abordagens que têm sido muito discutidas. A questão que se levanta relativamente aos modernos modelos de tradução é se será lícita uma abordagem livre para que tex-to seja mais acessível em termos de legibilidade aos novos públicos leitex-tores e também mais aceitável nos novos formatos digitais em que o texto perde importância. Será a tradução por equivalência semântica adequada? Que princípios devem proceder à tra-dução dos textos bíblicos: legibilidade, fiabilidade ou a eficácia do mercado?24

Contrariamente ao que aconteceu durante séculos, a tradução da Bíblia é vista cada vez mais como uma atividade realizada tendo em vista o público a que se destina e as modernas traduções da Bíblia inserem-se nesta categoria. O texto deixa de ser traduzido em função de si próprio e dos elementos linguísticos que o constituem, em função dos leitores. Nenhuma tradução, por si só, pode abarcar todos os aspetos da

23 Jean Claude Margot, Traduire sans Trahir, La Théorie de la Traduction e son Application aux textes

Bibliques.

24Phiilip A. Noss, Current Trends in Scripture Translation, Definitions and Identity, UBS Bulletin 198/199,

(27)

27 fonte, por isso, o tradutor é muitas vezes levado a fazer escolhas, havendo aspetos da tradução que, sendo importantes, morfológico ou estrutural, terão de ser remetidos para algum tipo de paratexto, isto é, notas, introduções, glossário, ou outros. Como os textos têm sempre várias possibilidades de tradução, as escolhas do tradutor refletem muitas vezes as escolhas da editora ou os princípios da entidade que promove a tradu-ção, bem como o público-alvo.

Entre os vários modelos de tradução bíblica, o paradigma que prevaleceu durante muitos séculos foi o da equivalência formal. A tradução era uma operação de ordem linguística em que o texto fonte e o texto traduzido podiam ser comparados formalmente, quer a nível das escolhas semânticas, quer ao nível das estruturas sintá-ticas. No entanto, uma abordagem do tipo skopos25 considera também o público leitor a que a tradução se destina. As traduções em linguagem moderna ou corrente, como a do nosso estudo, têm como principais destinatários um público secular, muito diferen-te do habitual conjunto de leitores religiosos, habituados mesmo a algumas fórmulas fixas, não porque os textos bíblicos não as contenham, mas porque foram sendo como que fixadas ou canonizadas pelo uso e tradição. Darei apenas a título de exemplo o

vocábulo bem-aventurado,26 recorrente tanto no Livro dos Salmos como nos

Evange-lhos, nas traduções tradicionais, e que fora de círculos religiosos ninguém ousaria tra-duzir desse modo. Sendo o 2.º exemplo (ver nota) e toda a perícope em que se insere um dos mais conhecidos trechos do Evangelho, ainda hoje é conhecido como As Bem-Aventuranças ou Beatitudes.

Por outro lado, há formas linguísticas de cariz teológico, próprias dos textos bíblicos, que se vão perdendo e não podem ser apreendidas no seu perfeito significa-do, se os vocábulos não forem traduzidos de acordo com essa equivalência formal ou sentido teológico. Vocábulos como justificação e graça foram deixados de fora

25 Lourens de Vries, Paratext and Skopos of Bible Translations, p. 176. 26

aventurado o varão que não anda segundo o conselho dos ímpios.” Salmos 1,1. “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.” Mateus, 5,6-11. Ambos os textos são citações de A Bíblia Sagrada, João Ferreira de Almeida, Tradução Revista e Corrigida, SBB, 1988. A Bíblia em português corrente traduz a expressão “bem-aventurado” por “feliz”.

(28)

28 do da tradução da Bíblia para o português corrente, mas foram de novo contemplados com a revisão e inseridos quer no texto quer no glossário e concordância27.

As traduções modernas parecem contemplar os diferentes skopos e há Bíblias para crianças e para jovens, há Bíblias para alfabetização, e há edições inteiramente dedicadas a um público mais académico, as chamadas Bíblias de estudo, para mencio-nar apenas algumas. Contudo, há correntes que defendem que apenas um certo estilo literário se adequa às Escrituras, dada a sua origem divina. Será ético não traduzir lite-ralmente o sentido de um texto para este seja mais compreensível ao público? Por outras palavras, deverá a tradução ser feita em função do público leitor?

Outras questões pertinentes poderiam ser aqui levantadas. Como sabemos, nem sempre o sentido de um texto é claro para um tradutor e há tradutores que por causa do horror vacui28 preferem encontrar um sentido para o texto. Será uma prática aceitável? E deverá uma tradução basear-se em mais do que um texto? Apesar da escolha de uma edição crítica, muitas traduções introduzem excertos da Septuaginta29 ou de outros textos antigos, no sentido de explicar sentidos, tornando alguns textos amálgamas ou híbridos. No caso da Bíblia em Português Corrente30 optou-se pela explicitação de sentidos alternativos, por meio de notas, muitas vezes não por serem questões do interesse geral, mas para salvaguardar as competências do tradutor e idoneidade da casa editora.

As especificidades dos textos sagrados continuam, no entanto, a constituir um enorme desafio para os tradutores da Bíblia, devido ao distanciamento linguístico e toda uma mundividência e quadros de referência que são estranhos ao homem do século XXI. Embora o trabalho de tradução das Escrituras esteja facilitado pelo acesso às muitas fontes e recursos técnicos, as questões que se colocam para se conseguir um

27Também conhecida pelo nome de chave-bíblica.

28 Christer Asberg, Current Trends in Scripture Translation, Definitions and Identity, UBS Bulletin

198/199, p. 205.

2929

Versão grega do texto hebraico, traduzido em Alexandria por 72 rabinos, conhecida como Versão dos Setenta.

30

As edições críticas usadas na tradução e revisão deste texto foram a Biblia Hebraica Sturrgartensia, Editio quinta emendate, Deutsche Bibelgesellschaft, 1997, Estugarda. The Greek New Testament, Fourth Revised Edition, Deutsche Bibelgesellshaft, United Bible Societies, 1998, Estugarda. Septuaginta, Deuts-che Bibelgesellschaft, 1979, Estugarda.

(29)

29 equilíbrio entre o texto fonte e o texto moderno, o da tradução, não deixam de ser menos exigentes em termos da análise do discurso. Nem sempre os textos fazem sen-tido e os textos híbridos, aqueles que recorrem a mais do que um texto fonte, podem não ser aceitáveis do ponto de vista da crítica textual.

No contexto da tradução bíblica estão implícitas não só normas e formas lin-guísticas desconhecidas, obsoletas ou caídas em desuso, devido ao intervalo de tempo que nos separa dessas épocas, mas também conceitos culturais de tradições geografi-camente distantes. Quer se opte por uma tradução mais literal ou formal, ou por uma tradução de equivalência mais livre, ou literária, a necessidade de paratextos de ordem linguística31 parece-nos fazer sentido devido à necessidade de explicitações de opções de tradução. As notas de rodapé serão porventura o recurso mais óbvio, podendo o tradutor explicar de forma concisa e direta, por meio de um simples apontamento, a razão de ter optado por determinada via e não por outra, ou quanto à possibilidade de uma tradução alternativa.

A necessidade de adequação da linguagem bíblica é uma questão não só do foro da tradução, mas também do foro editorial, pois de tempos-a-tempos poderá ser necessário adequar a linguagem dos textos às novas gerações de leitores. Foi este, de alguma forma, o princípio que esteve na génese da tradução da Bíblia em Português Corrente, há 30 anos, ao procurar-se uma certa democratização do texto bíblico, tendo em conta os novos públicos leitores que se procurava atingir. Foi também essa a razão que esteve na base da não utilização de certo jargão bíblico ou teológico, excluindo-se vocábulos como justificação e graça (de Deus). De resto, uma comparação da tradu-ção, prior à revisão, irá revelar uma grande liberdade linguística. Essa democratizatradu-ção, como lhe resolvemos chamar, é vista principalmente na introdução duma partícula, um determinante que na altura estava muito em voga – o vocês. Pensamos que para evitar o tratamento vós e suas conjugações, muito mais distanciadas no tempo, espe-cialmente nas regiões a sul do Mondego. Com a revisão do texto o uso deste determi-nante, que tinha sido exaustivamente utilizado, desceu drasticamente, para cerca de

31 Conforme distinção feita entre paratextos estrutrurais e paratextos linguísticos propostos no capítulo

(30)

30

metade das ocorrências.32 O texto atual contém um total de 289 ocorrências: 173 no

Antigo Testamento e 116 no Novo Testamento.

Conclusão: Muitos séculos volvidos desde os tempos em que escribas e copistas se concentravam na fastidiosa e fascinante tarefa de escreverem o texto sagrado, a aten-ção e o cuidado permanecem, motivados não só pelo sentido ético de profissionalismo e precisão que o trabalho nos merece, mas também pela convicção da importância e autoridade de que os textos bíblicos se revestem.

Colocar a Palavra de Deus, textos milenares, na língua de um povo é uma tarefa extremamente exigente, não apenas por causa das especificidades linguísticas destes textos antigos, mas também devido às muitas especificidades editoriais que apresenta. Estamos cientes, porém, de que as escolhas e decisões mais difíceis já foram sendo tomadas ao longo dos séculos. Comparativamente, e dado os meios técnicos de que dispomos, estamos cientes de que as exigências estruturais são menos significativas, ainda que os desafios linguísticos possam ser constantes. O caminho da textualidade, isto é, de tornar o texto legível tem sido percorrido, vezes sem conta, ao longo dos séculos, num esforço incessante de tornar o texto sagrado mais compreensível, isto é, mais vocacionado para a leitura, acompanhando as evoluções linguísticas que acom-panham os tempos.

Pensamos ser importante referir que os paratextos não são textos canónicos, não apresentando, por isso, qualquer autoridade a nível da doutrina e da fé. Relativamente à tradução, as notas de rodapé são, devido à eficácia de posicionamento, os paratextos de que os tradutores e editores mais se socorrem para esclarecerem uma opção de tradução, ou fornecerem uma outra via, como veremos no capítulo dedicado a este assunto.

32

Não tivemos acesso ao ficheiro da tradução, antes da revisão. A nossa estimativa é feita com base do grande número de vocábulos que lembramos terem sido eliminados durante as leituras dos textos em reuniões da comissão de revisão.

(31)

31

5. Capítulos e Versículos

Foi em seguida para Nazaré, a terra onde se tinha criado. No sábado foi à sinagoga, como era seu costume, e pôs-se de pé para ler as Escrituras. Deram-lhe o livro do profe-ta Isaías. Ele abriu-o e encontrou o lugar onde esprofe-tava escrito assim: Espírito do Senhor tomou posse de mim, por isso me escolheu para levar a boa nova aos pobres. Enviou-me para anunciar a libertação aos prisioneiros, para dar vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos e para proclamar o tempo favorável da parte do Senhor.

Evangelho Segundo Lucas 4,16-19

Reportando-nos ao excerto da epígrafe, é interessante notar que na sinagoga Jesus recebeu o livro do profeta Isaías e encontrou o lugar onde estava escrito o trecho que devia ler. Naquela altura, os livros eram em forma de rolo o que tornava a tarefa de localização de um trecho extremamente difícil. Contudo, ainda assim, pensa-se que os judeus usavam algum tipo de marcas para assinalar um texto de acordo com a importância ou tema tratado.33

Uma das características que distingue o texto bíblico de outros textos é a sua estrutura. A Bíblia não está necessariamente organizada de forma cronológica, como se poderia pensar, mas temática. Em primeiro lugar, a Lei, depois os livros da História de Israel, depois a Literatura Poética e depois os Profeta, isto para o Antigo Testamen-to. No caso do Novo Testamento, que tem início com o nascimento de Jesus Cristo, sucedem-se primeiramente os Evangelhos, depois um livro de caracter historiográfico, os Atos dos Apóstolos, as Epístolas e finalmente o Apocalipse, livro profético das reve-lações ou narrativa escatológica dos acontecimentos que terão lugar nos últimos dias. Um olhar mais atento e percebemos que cada um destes livros está organizado por capítulos e versículos. Contudo, sabemos que a divisão dos livros em capítulos e

33 J. Hong, The Bible Translator, Practical Papers Vol. 48, No. 4, October 1997, Chapter and Verse

(32)

32 versículos, tal como hoje a conhecemos, não fazia parte dos antigos manuscritos hebraicos, aramaicos ou gregos, embora faça parteedição crítica que serviu de base à tradução e revisão dos textos. Será, por isso, pertinente que façamos uma pergunta tríplice: Quando, quem e por que razão se procedeu à divisão dos textos bíblicos em capítulos e versículos? Como se chegou ao modelo editorial que hoje conhecemos?

Sabe-se que a presente forma de estruturação dos textos bíblicos é antiga, mas parece não haver consenso relativamente às datas precisas em que acontece. Como já foi dito, os manuscritos antigos não continham a divisão por capítulos e versículos que hoje conhecemos. Não houve da parte dos autores bíblicos a intenção de estruturarem os seus escritos de acordo com um modelo previamente estabelecido, embora possa-mos argumentar que houve uma intencionalidade estrutural de ordem literária da par-te dos autores ao escreverem os seus par-textos. Por exemplo, os livros que constituem o Pentateuco (Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio) cuja autoria é atribuí-da a Moisés, denotam uma estrutura interna e uma sequência lógica que serviam um propósito comunitário, historiográfico e legislativo, sendo ainda hoje conhecidos pelos judeus como Lei ou Torah. Do mesmo modo, as cartas Paulinas, ainda que estruturadas como epístolas, servem também um propósito doutrinário, estando os seus enuncia-dos organizaenuncia-dos de forma a fazerem passar uma mensagem com objetivos bem defini-dos.

Ainda ao nível da organização interna, assunto que não cabe verdadeiramente no âmbito do presente trabalho, mas que nos ajudará a reiterar o nosso ponto de vis-ta, podemos perceber que toda a literatura bíblica está estruturada de acordo com modelos literários da época. Seja os Salmos ou o Cântico dos Cânticos, estes poemas foram construídos de acordo com padrões da poesia hebraica e denotam o estilo pró-prio dos seus autores. Sendo cerca de 40 os autores bíblicos, alguns com múltiplos escritos nesta coletânea de 66 livros34 a intencionalidade dos textos é contudo perfei-tamente definida através da sua estrutura internas. Contudo, as estruturas numéricas concertadas e intencionais, ou divisão dos textos em capítulos e versículos não faziam parte dos textos antigos ou manuscritos, embora percebamos que as estruturas for-mais tivessem sido tidas em conta na introdução de capítulos e versículos.

34

(33)

33 O sistema numérico de divisão em capítulos e versículos como aquele que encontramos na Bíblia não é uma característica apenas de textos religiosos35 e parece remontar a épocas muito antigas. Textos gregos e latinos clássicos foram divididos em secções e parágrafos, assim como os escritos dos Pais da Igreja-36 No entanto, os tex-tos hebraicos antigos não continham divisões numéricas, ou títulos ou mesmo pontua-ção. Às vezes nem as palavras estavam separadas “[…] mas uma certa noção de estru-tura temática, visando a leiestru-tura em assembleias ou ekklesias, parecia existir já no sécu-lo I da era cristã. Parece haver indicação no próprio texto bíblico que nos tempos de Jesus haveria algum tipo de divisão em certos textos que seriam conhecidos por títulos que aludiam aos temas-37

Quadro 1: Textos que sugerem algum tipo de divisão nos textos antigos.

“Não conhecem aquela passagem da Sagrada Escritura em que Elias faz queixa a Deus contra Israel?”

Romanos 11,2b

Referência a um texto do Antigo

Tes-tamento: 1 Reis 19,10-18

“E quanto aos mortos e à ressurreição não leram no livro de Moisés aquele trecho acerca do arbusto donde Deus lhe falou assim: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob?”

Marcos 12,26

Referência a um texto do Antigo

Tes-tamento:

Êxodo 3,2-6

“Até o próprio Moisés, naquele trecho acerca do arbusto, nos deu a entender que os mortos ressuscitam quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob.”

Lucas 20,37 Texto paralelo de Evangelho Sinótico 35

O Corão está dividido em capítulos, que tomam o nome de suras, que se subdividem em versículos ou

âya.

36 Pensa-se que Jerónimo e Agostinho subdividiram os seus escritos em capítulos e secções. Este parece

ser um recurso antigo, usado não apenas em textos gregos e latinos clássicos, como nos escritos dos Pais da Igreja ou mesmo de S. Jerónimo e Sto Agostinho.

37 J. Hong, The Bible Translator, Practical Papers Vol. 48, No. 4, October 1997, Chapter and verse divison,

(34)

34 Havia textos que eram lidos publicamente e cujas divisões ou marcações terão sido pensadas tendo em vista essa prática, possibilitando a sua rápida localização. Esse tipo de circunstâncias é referido no próprio texto bíblico:

Quadro 2: Textos de leitura pública que revelam algum tipo de estrutura.

“Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Ele abriu-o e encontrou o lugar onde estava escrito assim: O Espírito do Senhor tomou posse de mim, por isso me escolheu para levar a boa nova aos pobres.”

Lucas 4,17-18

O livro de Isaías apresenta-se como uma unidade. Jesus localiza o trecho que vai ler.

“Depois da leitura da lei de Moisés e dos livros dos profetas, os chefes da sinagoga mandaram-lhes dizer: Irmãos, se têm algu-ma palavra de edificação par ao povo, falem.”

Atos dos Apóstolos 13,15

A lei de Moisés e os livros dos profe-tas são lidos na sinagoga.

“Porque a lei de Moisés é anunciada em todas as cidades desde os tempos antigos, e é lida todos os sábados nas sinagogas.”

Atos dos Apóstolos 15,21

A lei de Moisés é lida todos os sába-dos na sinagoga.

“Eles tinham o entendimento fechado. Ain-da hoje, quando leem os livros Ain-da antiga aliança, esse mesmo véu continua por levantar, pois só com Cristo é que ele desa-parece.” 2 Coríntios 3,14 Livros da antiga aliança, é uma referência à lei e aos profetas.

Existiram formas primitivas de dividir os textos bíblicos antes da atual divisão em capítulos e versículos. Os Manuscritos do Mar Morto38, por exemplo, parecem con-ter algum tipo de instrumentos para assinalar divisões nos livros do Antigo

38

(35)

35 to, como espaços entre trechos, parágrafos introduzidos por outra linha ou mesmo notas adicionadas nas margens.39 Entre as várias tradições antigas podemos identificar o parashoth que consistia na divisão do texto hebraico em secções mais extensas. Jesus parece ter feito alusão a essas secções no comentário ao texto sobre o arbusto. (Ver Quadro 1).

O manuscrito mais antigo do Novo Testamento, datado do século IV, o Códex Vaticanus, dividia o texto grego de acordo com o sentido. Há também a Kephalaia e titloi, divisões do texto encontradas no Códex Alexandrinus.40 Por volta dos séculos VI-VII o sistema de divisão em capítulos pode ser observado no Tours Pentateuch, em Espanha e Norte de África. No século XI, este sistema parece estar sistematizado na Vulgata de Lanfranc, arcebispo de Cantuária. O stichoi era um sistema de divisão baseado num número fixo de sílabas ou caracteres. Com o tempo, estas unidades tex-tuais foram dando lugar a linhas de texto usadas como medida padrão para obras lite-rárias. Será importante salientar que a palavra verso ou versículo vem do latim versus que significa linha ou fila. O côla e commata – uma e outra palavra significam uma uni-dade estrutural ou uniuni-dade semântica – foi um tipo de divisão primeiramente utilizado nos livros poéticos da Septuaginta e que pode ser identificado no Códex Vaticanus e no Códex Sinaiticus.41

A tradição judaica constitui uma das fontes mais importantes quando se fala da divisão do texto bíblico em versículos, e parece remontar à época em que porções das Escrituras foram traduzidas para o aramaico. Estes versículos tinham o nome de pesu-qim. O seu uso foi variando ao longo dos séculos, mas só no século IX ficou totalmente estabelecido. Os dois pontos – soph pasuq – colocados no final do versículo, e que assinalavam o seu final, só começaram a ser usados após o ano 500 da nossa era.42 A

39 J. Hong, The Bible Translator, Practical Papers, Vol. 48, No. 4, October 1997, p. 403.

40 Manuscrito do Novo Testamento datado do século V que pode ser visto no Museu Britânico em

Lon-dres. Pensa-se que o seu uso remonta ao século V, coincidindo com a sua datação.

41O mais antigo manuscrito completo do Novo Testamento, datado do século IV.

42

The Bible Translator, Practical Papers Vol. 48, No. 4, October 1997, J. Hong, Chapter and verse divison, p. 403.

(36)

36 atual divisão dos textos bíblicos em capítulos e versículos parece remontar à Idade Média, respetivamente aos séculos XIII e XVI, com duas propostas que nem sequer contemplavam a atual divisão numérica. Ambas surgiram devido à necessidade de localização e citação de um texto.

Os números, capítulos e versículos, que hoje vemos nos textos bíblicos aparece-ram primeiaparece-ramente num texto latim de 1509, com o nome de Quincuplex Psalterium de Lefèvre d’Etaples. A Bíblia completa com versificação numérica seria impressa em 1528, em Lyon, uma edição da autoria de um dominicano italiano de nome Sanctes Pagninus, que adotou a versificação do Antigo Testamento existente, e a sua própria versificação do Novo Testamento, tendo colocado os números na margem da sua Bíblia em latim. Pagninus (1470-1541) foi a primeira pessoa a imprimir a Bíblia completa com versificação numérica.

O atual modelo de divisão em capítulos e versículos é atribuído a duas pessoas: um teólogo inglês, lente da Universidade de Paris, no início do século XIII, Stephen Langton.43 Langton dividiu a Vulgata em capítulos de extensão idêntica entre 1203 e 1207. A sua obra teve de imediato grande impacto, numa altura em que havia uma grande procura de Bíblias no meio académico parisiense. Mais tarde, o modelo da Bíblia Parisiense seria adotado tendo como o modelo a Vulgata com versificação do arcebispo inglês Langton. A Bíblia Parisiense teve grande impacto na produção de Bíblias, nos séculos seguintes, tendo este modelo sido adotado por outras Bíblias lati-nas e noutras línguas.

Outro responsável pelo atual modelo de Bíblias foi um impressor francês de nome Robert Estienne (1503-1559), a quem é atribuída a atual divisão em versículos. Em 1551, pouco tempo depois de se ter mudado para Genebra, Robert Estienne publi-cou o Novo Testamento Grego-Latim, dividindo ele mesmo todo o texto em versículos, fazendo acompanhar essa edição de um aparato crítico. Em 1555 Estienne imprime a Vulgata com a versificação do Antigo Testamento do Rabi Nathan com a sua própria divisão de versículos para o Novo Testamento. O trabalho de Estienne alcançou grande sucesso e foi adotado para outras traduções: o Novo Testamento Francês, por ele

43

(37)

37 impresso, em 1552, a tradução inglesa do Novo Testamento de 1557 e posteriormente pela famosa Bíblia de Genebra em 1560.

A Bíblia de Genebra foi a primeira Bíblia em língua inglesa a apresentar simulta-neamente a divisão em capítulos e versículos. As anteriores só contemplavam a divisão por parágrafos. As várias traduções passaram a incluir esta divisão, incluindo a Tradu-ção de João Ferreira de Almeida de 1681, a primeira traduTradu-ção em língua portuguesa, impressa na Holanda. As divisões de Langton e Estienne foram adotadas por todas as traduções modernas das Escrituras. Embora estes modelos revelem um bom equilíbrio em termos de extensão dos capítulos e número de versículos, não são de modo algum modelos perfeitos e muitas vezes a lógica do discurso perde-se pela tentativa de intro-duzir uma quebra por meio da introdução de um novo capítulo ou versículo.

Entretanto, traduções modernas, como a Bíblia em Português Corrente,

opta-ram por manter alguns versículos unidos por questões de coerência do discurso.Esta

opção levantava, no entanto, alguns problemas, por ser uma solução híbrida num tex-to que seguia um modelo de versificação constante, revelando-se inconsistente. A experiência revelou que amálgamas de versículos dificultam certas leituras e que não fazia sentido mantê-los unidos, não sendo essa a lógica da edição.

A nível de consulta e investigação este sistema híbrido revela também alguns problemas relativamente a livros de referência e manuais de consulta, por não coinci-dir com a numeração tradicional. Por essa razão, com a revisão do texto os tradutores e editores decidiram proceder à fragmentação dos versículos que se tinham mantido unidos, o que resultou também na fragmentação dos discursos que tiveram de ser reorganizados. No quadro 3 apresentamos a divisão dos versículos e consequente reorganização dos discursos. A cores iguais correspondem discursos iguais. A cor ver-melha assinala a introdução de um novo discurso ou enunciado.

(38)

38

Quadro 3: Relação de textos que se mantiveram unidos durante a tradução e que foram separados com a revisão do texto.

Juízes 16,24-25

Em ambos os casos a infor-mação mantêm-se assinalada assinalada por 3 cores, de acordo com a reorganização de conteúdos.

24-25 E, na sua euforia, diziam uns para os outros: “Mandemos chamar Sansão para vir entreter-nos!”Quando tiraram Sansão da prisão para os ir entreter, ele ficou de pé entre as colu-nas do templo. O povo viu-o e pôs-se a entoar louvores ao seu deus: “O nosso deus deu-nos a vitória sobre o nosso inimigo, que devastava a terra e matou tantos dos nossor!”

24 O povo viu-o e pôs-se a entoar lou-vores ao seu deus: «O nosso deus deu-nos a vitória sobre o deu-nosso inimigo, que devastava a terra e matou tantos dos nossos!» 25E na sua euforia diziam uns para os outros: «Mandemos chamar Sansão, para vir entreter-nos!»Quando tiraram Sansão da prisão, para os ir entreter, ele ficou de pé, entre as colu-nas do *templo.

Ester 9,7-10

Em ambos os casos a infor-mação mantém-se, assinala-da por 4 cores, de acordo com a reorganização dos conteúdos.

7-10 Entre os mortos contavam-se os dez filhos de Haman, filho de Hameda-ta, o inimigo dos judeus: Parchandata, Dalfon, Aspata, Porata, Adalia, Aridata, Parmasta, Arisai, Aridai e Vaizata. Mas não se apoderaram dos seus bens.

7Entre os mortos contavam-se Par-chandata, Dalfon, Aspata, 8Porata, Adalia, Aridata, 9Parmasta, Arisai, Aridai e Vaizata, 10os dez filhos de Haman, filho de Hamedata, o inimigo dos judeus. Mas não se apoderaram dos seus bens.

Jeremias 41,17-18

Em ambos os casos a infor-mação mantém-se, assinala-da por 3 cores, de acordo com a reorganização dos conteúdos.

17-18 Mas ficaram cheios de medo dos babilónios, por causa de Ismael ter assassinado a Godolias, a quem o rei da Babilónia nomeara governador do país. E fugiram para o Egito, a fim de escapar aos babilónios. No caminho detiveram-se em Guerut- Quimean, que fica perto de Belém.

17No caminho, detiveram-se em Gue-rut-Quimeam, que fica perto de Belém, ao fugirem para o Egito, 18 a fim de escapar aos babilónios. Mas ficaram cheios de medo deles por causa de Ismael ter assassinado a Godolias, a quem o rei da *Babilónia nomeara governador do país.

Ezequiel 40,42-43

Esta reorganização parece oferecer um novo membro ao enunciado e também alguma informação adicional, Ambos vêm assinalados a vermelho.

42-43 As quatro mesas que se encon-travam no anexo eram usadas para preparar os sacrifíciosem que os ani-mais eram oferecidos. Eram de pedra e tinham cinquenta centímetros de lado.

A carne que devia ser oferecida em sacrifício era posta sobre as mesas. À volta da sala havia rebordos com um palmo de largura, onde eram colocados os utensílios para matar as vítimas.

42 As quatro mesas que se encontra-vam no anexo eram usadas para prepa-rar os sacrifíciose colocar os utensílios para matar as vítimas. Eram de pedra e tinham cinquenta centímetros de altura

e setenta e cinco centímetros de lado.

43 À volta da sala havia rebordos com um *palmo de largura. A carne que devia ser oferecida em sacrifício era posta sobre as mesas.

(39)

39

Conclusão: Há desde há muito a necessidade de organizar os textos de forma lógica e funcional, isto é utilitária. Os textos bíblicos, como qualquer outro texto, não são alheios a essa necessidade organizativa estrutural ou temática. A divisão da Bíblia em capítulos e versículos, depois do códex, terá sido a revolução ao nível da organização que mais veio simplificar a localização de um texto. Lembramos que durante séculos a leitura dos textos hebraicos e gregos era dificultada por uma escrita contínua, sem pontuação, que podia gerar grande confusão.

Algumas traduções em linguagem corrente tendem a fundir um ou mais versí-culos ou a reestruturar o texto, ignorando a atual divisão em capítulos ou versíversí-culos, por 3 razões: a atual divisão em capítulo e versículos não é perfeita; a necessidade de reorganização do texto para que a tradução faça sentido de acordo com os modelos sintáticos e regência verbal das línguas de chegada; porque às vezes o texto se repete a si mesmo, como nos textos em que existem extensas listas de nomes.

Aquando da tradução, mantiveram-se unidos 4 grupos de versículos em 4 tex-tos do Antigo Testamento, o que nos parece francamente pouco para um texto exten-so e complexo como os textos hebraicos. A razão comummente invocada pelos tradu-tores das modernas versões, incluído A Bíblia para Todos, é a colagem a um modelo de tradução com base na análise dos discursos. Parece-se-nos, no entanto, que só por si esta não será uma razão suficientemente forte, até porque, com a revisão foi possível proceder à separação destes versículos, e reorganização dos diversos enunciados.

A divisão dos textos bíblicos em capítulos e versículos facilita não só a localização de um texto, mas funciona também como unidades de leitura, unidades de referência para recursos de consulta como comentários, dicionários e chaves bíblicas, e mesmo em notas de rodapé, sendo possível referenciar com precisão o texto citado.

Referências

Documentos relacionados