• Nenhum resultado encontrado

A arquitectura de veraneio : os Estoris 1880-1930

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "A arquitectura de veraneio : os Estoris 1880-1930"

Copied!
156
0
0

Texto

(1)

MARIA DA GKACA GONZAi.F" BRI Z

j\ ARQU 1 I

'

E O'J. U 11 A 1 > E V E R.A N £1 I O

OS ESTORiS 1 BttO / 1 í) 3 O

Tese do Mo:îtrado om Fĩ \ ;;t<'iria da Ar *.;;

— 3fS^--'. .1, **■...-■' 'V'-J--.-.-. • ■■_■■_--• . :=*.'.,

__,.*

,..-■..'::

■,*■>"<

íjv.": ":*,%..

;

n,'**:

",.V

--'•.'.-v-.v-

---^fiK*;.**

W':*f^^tt^':

■**

'

'i--'vv:

'■•■■ ■;

f:t

:'

:.y$%-s^jW$'~

.,':*^r-^!:-^feí«

LISBOA U.N.L./F.C.S.H. líîííU „>,.'►.: ■• ■■í|

(2)

"LA PRISE DE PCSSESSION' DES RIVAGES MARĨNS FUT UNE COLONISATTCN.

IMAGINÊE

ET RZALISEE COMME TELLE.DE LIEUX INCONNUS QU'IL FALLAXT NOMMEE. DISTRIBUER ET ORDONER. AUSSI CETTE

CONQUÊTE

N '

A PAS SEULEMENT ETE UNE OPÊRATION IMMOBILIÊRE MENEE A UN RYTHME

ACCÊLÊRE,

MAI3 BIEN PLUS LE

THESTP.E

DE LA FONDATION ET DE L '

ED IFICATĨON DE "VĨLLES NOUVELLES" :

LES STATIOMS BALNEAIRES."

Dorainique Rouillard

(3)
(4)

Nos ano-3 de 1850, a beira-mar r.ão pa:sa

ainda de terras inabitadas, onde domina o movimento assustador das ondas. Sô vinte anos mais tarde ela

comecar?. a ser "domes t icada" , estabi1 i zadas as

margens e as dunas . construidas as

primeiras

povoacSes

em torno da praia

-tinha nascido a moda da viiefiatura maritima em toda a Europa.

Também em Porrugal , uma eiite cui La e

viajada, encabecada

peio

prôprio rei. vai importar rapidamente a nova ideia de que o mar é saudavel e

proporciona

um lazer muito

especial.

Comecam as

primeiras

instalagães

, inicialmen*.e em cítios jã hã

muito habitados. como é o caso de Cascais. velha e decadente vi'a de pescadores. 0 passo seguinte, naturalmente. vai ser a

colonizacão

de novos locais,

que pela sua

situagão

e condigoes estruturais,

oferegam boas

prespectivas

de sucesso.

São estas estâncias. concebidas desde a

origem para a vilegiatura balnear . que fazem o

objecto central do nosso estudo, limitado a um pequeno conjunto da maior importãncia no contexto nacionai

-os chamados Es toris : Monte Estoril. Estoril (Santo

Antônio),

Alto E-storii. S. João do Estorii e S. Pedro do Estoril,

0 que se

pretende

definir é. sobretudo. a

forma de

colonizagão

e

instalagão

feitas nestes locais e. por isso, o periodo de tempo escolhido abrangerá os últimos vinte anos do século passado e os primeiros trinta deste século. 0 ano de 1880 marca o início da primeira instalagao sistemãtica no

Estoril.

quando

a moda e o prestígio da vizinha

praia de Cascais jã estavam fortemente instituidos

pela

preferência

do rei . No outro extremo, o ano de

1930, marca também uma viragem s ignif icativa na vida do Estoril a

construcão

do casino

-destacando def init i vamente uraa das novas

povoagães

. desde entao

súmula representativa de todos os "Estoris".

(5)

- 4

balnear vai ter necessidade de modelos: de sociedace, com as suas

práticas

-aristocrãt icas ,

burguesas , artísticas. etc.

-de arquitectura tradic ional . nacional, exôtica. etc.

-de urbanismo

pitoresco,

empirico, racional izado . . . A partida

existem os exemplos das vilegiaturas já bem conhecidas

-o campo, a montanha e as termas

-e

sempre a imagem presente da cidade a cujas

populacães

de destinavam,

pref

erencialmente . as

novas

estagSes

ce banhos ,

A verdade é que a imagem inicial nao procede duma única representagao e não é também um projecto ideai , totaimente

programado

. Elabora-se sobre

fragmentos construidos e sobre outros da

ideologia

urbanĩstica dominante. Assim, junta pedagoo dispersos do país e do estran§eiro, da montanha e do mar , da cidade e do campo , e elementos de

ideologias,

sobre o mundo moderno. aristocrãtico,

cosmopolita, da vilegiatura, das viagens, do exotismo, etc. . £ a imagem sintétioa durn centro

urbano imaginário feita de

palavras.

de nomes . de

tr.icos. <ie silhuetas, de cores, de "estilos", mas tambem de gestos, de ritmos e de ritos.

Os modelos mais

prôximos

vão ser as termas e a montanha, uma vez que. a estancia de banhos de mar será, antes de mais, uma estância de cura. 0 banho de mar adquire,

pela

propaganda , um

poder

semeihante

ao das águas mais célebres. é uma hidroterapia de

qualidade irapar , e o ar do mar tão revigorante como

o da montanha. Da í que a nova estância de lazer e de cura se encha. por

reprodugão,

de

equipamentos

cujo uso e forma são conhecidos e reconhecidos .

Antes de mais , uma soma de ediflcios que se tornarão

indispensaveis

, para que um bocado de costa

urbanizada possa ser denominada de estancia balnear.

Serão essencialmente : o Estabelecimento de Banhos

(ou de Hidroterapia ) , o Casino, o Grande Hotel. o

molhe. as cabinas, a praga. o jardim inglSs e. acessoriamente . o pon

tão-passe

io e certos tipos de

"villas". Rápidamente se juntam também a estes os

(6)

moda . Por vezss as

fur.gSes

sobrepĩjem-se

ou não

existem referer. tes , corno é o caso dos casinos. cuja

imagem

arqui

tec tonica e social levará muito tempo a instituir. De sLa síntese

representativ

a fazem também parte as escolhas arquitectônicas das casas

particulares

-chalel. suigo,

paiacete,

"cottage". "castelo medieval"

-numa diversidade de estilos

•apresentadas como um caialo&o, umas ao pt' uau outras. Sô ao fim de trint.a anos de "cosmopolit ismo arqui tectônico" as

tipologias

urbanas de

quaiidade

se instaiam maior itariamente á beira-mar. Do mesmo modo os modelos de urbanismo misturam imagens que têm a ver com a montanha, as

grandes

prespectivas da cidade e a

organizagão

rudimentar dos subũrbios. Mas

aqui

intervem a

organizacão

do territôrio que depende de modos de

especulagao

diferentes

-levado a cabo, nuns casos . por um pequeno grupo de forma

global . noutros casos, difusa, sem

plano

de

conjunto.

Urbanismo.

arquitectura

particular

e

equipamentos procuram uma forma "moderna" para um conceito novo

-a praia

-importando ou naciona1izando

experiências

aiheias. com o

objectivo

de dar resposta a uma sociedade que se transforma rapidamente. Sociedade que também se alarga. antes de mais para fora das elites das vilegiaturas tradicionais , e depois, para além das fronteiras. Ê

o turismo internacional que comega a ganhar uma

importância cada vez maior nas

preocupagães

dos

países europeus e que vai estar serapre presente nas

intengães

dos promotores mais esc larec idos .

Daqui

a

exploragao de um outro conceito conhecido

-a

vilegiatura climãtica

-que , sobretudo os ingleses.

tinham divulgado, escolhendo locais amenos como o sul de Franga , ou a Ilha da Madeira. para passar os

meses mais frios. A costa portuguesa, mais ainda nas

proximidades de Lisboa, tinha uma vantagem assinalãvel para se tornar uma "rival" das grandes estâncias internacionais . A estância balnear

excelente, juntavam-se as condigoes para ser também estância de inverno.

(7)

-b

Sob as suas diferentes componentes. procura-se encontrar uma imagem de

partida,

"ideal".

que inclue representagoes anteriores

construidas. mas também sistemas de ideias não espacializados,

como o dinamismo ou o "movimento" da era moderna. 0 resul tado concreto desta sintese de modelos é o que nos ocupa neste trabalho. Diferente em cada urn dos casos , ele é sempre

quaiquer

coisa que fica

(8)
(9)

-a

-Para os homens do Romantismo. a

vilegiatura

por excelência era a montanha. tal como no Renascimento era moda de elite possuir uma "villa" na nossa muito "toscana" margem sul :io

Te^o.

Esta

paixão

maior do sũculo dezanove , materializou-se

entre ncs. de forma suolime. na serra de oin'ra, sĩtio de veihos pergammhos que vêem do comego da

nacionalidade. Admirada pur Byron, como vnlen.io sô por si um pa1s inteiro. ganhou uma aura mitica com a

geragâ'o

romãntica que , iongamente. perdurarâ.

Tradicionalment.e looal de vi

legiatura

real. torna-se

com D. Fernando e o seu castelo, o sonho realizado, aqui. ás portas de Lisboa,

E no final do periodo romântico que surge a nova moda da vilegiatura marítima. 0 mar .

inicialmente amado pela sensibi 1 idade propria do tempo, pelo seu carãcter simultaneamente belo e

trágico, fascinante e medonho. imensa forga da natureza com que os espíritos sensiveis ou artísticos gostavam de se identificar , vai ser

apropriado pe1a sociedade

burguesa

do fim do século em moldes bem diferentes

-a praia prcporciona fêrias saudãveis e a

exploragão

de locais priveligiados é um factor de progresso econômico.

Para além disso,

pãe-se

ainda uma outra questao que se reveste da maior

importância:

as vilegiaturas tradicionais são extremamente f echadas , acessíveis apenas a um pequeno grupo social e economico. enquanto a praia abria novas possibi 1 idades ãs classes médias citadinas. As estâncias recéra construidas, sem histôria e sem

tradigão.

são mais

"

democrá t icas"

, multipl icam-se ao longo da costa,

oferecendo inúmeras hipôteses de escolha para o descanso e divertimento de uma sociedade que trabalha e deseja os benefícios da nova era.

É. portanto, num movimento conjunto que vemos toda uma sociedade, ao longo dos últimos trinta anos

(10)

populagão

de Lisboa vao ser,

pref

erencialmente as

praias

que se estendem de Belem ate Cascais. como

para o centro o maior ponto Jo encontro será a

Figueira

da Foz , ou para os portuenses. a Pôvoa do

Varzira ou a Granja. Iniciaimente sao os portos com areal e ájuas calmas que se transformarn . pela r.ova

procura. em locais de vilegiatura balnear. Mas . -í

semelhanga do que acontecia por toda a

Europa

, novas

povoagSes

nascem exclusivamente em fur.gao dos

veraneantes. Tanto para estas últiraas como para as

primeiras,

no encanto, havera

profundas

diferengas

de

prestígio

social, em resultado, em primeiro

lugar , da forma de

colonizagão

inicial. Cascais ê

uma

praia

de elite porque recebe os favores da corte

e da aris tocracia que veraneava habitualmente em Sintra. Do mesmo modo a Granja d is r. inguia-se das restantes

praias

do norte porque é ■_>

continuagão

do

meio feohado e res'.rito da alta sociedade do Porto.

Esta

vocagâ'o

elitista de Cascais, imposta

pela escolha de uma classe, é observada por Ramalho Ortigao il). em 1888. da seguinte maneira:

"Com os primeiros dias de Setembro. terminou o periodo

consagrado

pela moda â

vilegiatura

de Sintra. Desde que o mês de Agosto f inda. ate que S.

Carlos comega , prescrevem as praxes que a estagao

marítima suceda å estagao de montanha. Enchem-se nesta época, até deitar por fora . as praias de

banhos da baía do Tejo e do litoral, desde Setúbal até Sncora. Lisboa inteira debanda. (...) Mas , de

todas as praias portuguesas, é principalmente

Cascais a que herda de Sintra a el i te do seu verão."

Apesar desta

pref

erência, Ramalho. que tinha ideias

bem defenidas do que deveria ser uma estância balnear, nao deixa de acrescentar a sua crítica:

"Para correspoder ã posse deste privilégio de chique balnear , Cascais , alêm da serenidade azul da

sua baía e da cidadela em que por algum tempo reside a família real,

dispSe

apenas de um mediocre hotel.

(11)

-10 -oe um pacato ;1ube de c o m o o de sport :- um casi no de uma botica hospitalei ra ,

0

aspec to

onde ã

piano. :oor -: ing

noite se joga ou se bailarica ao

Club instalou-se no recinto anteriormente ccntiecido

pelo nome de pa r ada . e deu ao

lugar

um arzinho de

civilizagão,

que nao deixa de

surpreender

um poucc

numa

prai-a

nacîonal . (...) Desde que o casino se

as salas fechaai-se, e a convivência faz-se abre ,

nessa e ;ua

espécie de praga

pública.

coberta por um tecto r.ec :.da de um certo nũmero d<;< cadeiras .

"

'■-Juas'î vinte anos depois. a mesma transferência d-_> locais na moda contir.ua, c:rn a única diferenca de Cascais aparecor

"alar?ado"

ate

aos "Estoris" . como nos inforraa o interessante

; •ncao a r r igg ■.: "Sintrii Vi ie.-?ia*u r a "Com a saida Cast-=lo da Pena . e1esante . ror t u~ue coni í ;uio da Ncbreza" :

de sua

magestade

a Rainha do

grande

parte dossa

populagão

qu e ha três m e s e s está a nira,.indo c o m os seus raoiits , as suas garden-part ies e os seus

pic-nics a uormosa vila de Sintra, prinoipia a acud

diau

a tasoais e a o s

a

vilegiatura

def initivamen te para a heráldica de S. Carlos

passará

para a paisagem

entre a poeira do Monte

Estoris. Dent.ro de poucos da corte transfore-se

beira-mar ( . . . 1 a Lisboa

e das rc-cepgoes ce g-ala africana do litoral. para Estoril, em frente ã toalha de águas cintilantes, (...) que desde a fortaleza de S. Julião da Barra se desdobra até a cidadela. num arco de circulo imenso, emoldurado de povoagoes de

luxo e de recreio.

A essas duas paisagens diferent.es corresponde

um modo de vida diverso. Sintra é um centro de

reunião

t radicionalmente exclus i vis ta . (...) A

centenária vila ficou sempre aristocrática, atra\ es os tempos e as

revolugSes.

Sintra é ainda hoje. com raras

excepgães.

apanágio de uma casta. (...) Sintra é, hereditar iamente , uma

propriedade

particular: a

propriedade

de uma classe. A vida de Sintra é ainda

uraa vida senhorial, uma vida de quinta. ao abrigo de muros heráldicos. (...) Em Cascais nada resta que

(12)

lembre o passado. (...) esta

grar.de

familia mundana. que habita Sintra de Julho a Setembro, dando-se o

luxo de um exclusivismo que estã longe de raanter

logo a

seguir

em Cascais. essa pequena socied-jJt;

elegante e formalista. que faz escola de boas

maneiras, nâ'o e, a bem dizer, uma nata fidaiga, que

se retrai ã convivência do intruso com receio de desmerecer na sua nobreza inacessí vei . A nobreza,

hoje. é mais de

educagão

que de sangue . As

sociedades privi 1

igiadas

são hoje

aglomoragoes

heterogeneas. onde ha um pouco de tudo : do

fidaigo

e do banoueiro . do grande senhor e do par venu , do

janota e do

politico.

(...) Sintra conservou-se,

pela sua natureza topográfica. uma vilegiatura de

proprietár ios . Os seus hotéis lão apenas de almogar

aos lisboetas nos domingos e quase sô hospedam

ingieses.

Não há uma praia, um parque , um casino, um

club, que favorega a reuniâ'o de elementos estranhos

(

. . .

)

Sintra. como mais parte alguma

-a não ser talvez na pretenciosa

Granja,

onde se reune um

simulacro de grande sociedade , no fundo

inofensivamente burguesa,

-presta-se. pelo seu

regime de

propriedade.

a essa selegao.

impossível

de obter hoje em dia

pela

imposigão

de

preconceitos

declaradamente aristocrãticos (...) e de que faria parte integrante a

ligagão

elêctrica com os Cascais f lorescente e animado dos bailes, dos concertos e da

jogatina.

(...)

Seria necessário banir as famílias

das suas

propriedades,

entregar a quinta do Duque

aos croupiers . o

palãcio

de Seteais a um empresário

(etc.) para fazer de Sintra uma colmeia cosmopolita de jouisseurs : espécie de Mônaco de que os Estoris e Cascais seriam a Nice dos gran-duques e dos

ingleses, das rainhas destronadas e dos

aventureiros. " (2)

0

perspicaz

autor do texto dá-nos uma imagem

muito clara de aspectos fundamentais

-a

complementaridade entre Sintra e Cascais, agora alargado ao Monte Estoril. para a vilegiatura de uma certa classe; a diferenga do modo de vida entre a montanha e a praia, sendo esta mais aberta ãs

(13)

-

1-misturas sociais em

cosequência

quer da forma de

instalagão,

quer das suas actividaces prôprias; o

retrato correcto da sociedade

privilegiada

que efect ivamente povoava as eståncias ua moda

-e uma

previsao que se veiu a realisar quanto ao

refũgio

escolhido pelas

cabegas

coroadas caidas em desgi'aga.

Lisboa. Sintra, Cascais

-acsim se

constituiu, pelo bom gosto dos nossos reis, o

"triângulo

turístico" que , ainda hoje. funciona ccmo

um dos r.ossos mais fortes cartoes de visita para o

estrangeiro.

Cascais iniciava uma nova era como centro do

cosmopo1 i tismo snob, como estância privi

legiada

, que

guardará

para sempre. Tudo comegou uuando D. Luis,

amante da marinharia, decidiu escolher a velha

cidadela para passar o fim do verão e o comego do

outono. As

instalagSes

militares foram sumariamente adaptadas ã sua nova fungao e. até ao fim da monarquia, apesar das

condigSes

precárias que posteriores obras nao alteraram. a familia real lâ

irá habitar dois meses por ano.

Atrás do rei e da rainha vem a corte. os aristocratas e. naturalmente, os novos senhores do dinheiro que se querem promover pela

proximidade

do poder. Como o secretário de el-rei D, Carloj , o

conde de Arnoso, ou o 'oem sucedido

Jorge

O'Neill. são sobretudo estes grupos que vão construir as suas residências de veraneio era Cascais. Porém. a moda do veraneio balnear e o prestĩgio da vila aumentam

rápidamente e, ao núcleo restrito inicial, junta-se

ura número cada vez maior de veraneantes que serão obrigados a instalar-se em casas alugadas dentro do velho burgo: "Ao núcleo primitivo. vieram juntar-se o resto da sociedade e os snobs . os que queriam

dizer aos amigos . aos conhecidos:- Estou em Cascais.

( .

. . ) Hã reduzido número de famílias que habita

prédios confortáveis .

(...)

Em regra, em Cascais .

ninguém tem casa para receber. (...) Floresce ali , a

clássica casa de praia , com môveis

primitivos,

espelhos que guardam ciosamente as imagens e não as refletem. camas claudicantes, colchoes

(14)

inospi taleiros.

"

( 3 )

Mas fagamos uma paragem nas

principais

construgSes

realizadas já que "o

periodo

inaugural

do veraneio em Cascais legou a vila um valioso patrimônio arqui tec tôn ico que. para essa época. sô

com Sintra pode ser comparado" (4i e, acima de tudo.

porque elas consti .uem um conjunto hetero-géneo de modelos que marcarâ as escolhas das estâncias vizinhas. Quase tcdas

debrugadas

sobre o mar. estas

casas pcléraicas encontram-se ainda sob a influência do Palácio da Pena . exemplo maior do ecletismo

nacional, que longimente funcionou como raodelo acabado da residência secundária, onde os valores da fantasi.a e do sonho se sobrepunham aos pragmáticos

da

habitagão

urbana. "Num tempo em %;ue a

arqui tec tura of iciosamente se pautav.a peio gosto ecléctico das escolas de Belas-Artes de

filiagão

parisiense.

e uma prãtica empolada do desenho

recalcava os desafios modernos da engenharia. elas foram. na sua tolerada liberdade, o outro lado da

norma, presas ai:s mesmos dúbios enredos (...) 0

gcsto d-a diferenga e a capacidade de surpreender invadiram a convencional beleza sensata da arquitectura,

exprimindo

assim a crise do fim do

século que. com idêntica ou raaior violência, se

manifestava na pintura e na literatura, através da definitiva ul t rapassagera dos realismos natural istas"

(5) .

A primeira destas residências de qualidade foi encomenda dos duques de Palmela que , em 1868, compraram o forte da

Conceigão.

iogo á entrada da vila. Dominando a baía. do lado oposto ã cidade

la-pago

real , a casa dos duques teve projecto

do arquitecto

inglês

Thomas Henry Wyatt e. em 1873, dela diz Pedro Barruncho:

"(...) å beira-mar, no local do forte da

Conceigão.

está o sr. duque construindo um palácio,

cujo risco se diz ser sumamente curioso e obra de um dos melhores arquitectos ingleses. Há de conter. segundo dizem, um pavimento abaixo do nível do solo, rez-de-chaussêe , andar nobre , e mansarda, devendo

(15)

-11-mostrar. ■:■ tcdo exterior da edificaoao, a aparenoia de uma Aoadia em ruinas"v6).

A luxuosa residência

(fig.l)

pertence, de facto, ã

tipologia

do cha1e t rústico, com uma

planta

extremameri te eiaborada num jogo de corpos diferentes

que multiplica as pe

rspecti

vas. Numa mesma atitude

estétic:i, o raodelo

completa-se

peĩo revestimento de pedra rúatica. os teihados de duas águas ccra águas i'urtadas e uma entrada de

ângulo.

onde se concentra a decoracao, fiiiada na arquitectura revivalista in^Tesa ,

Nestes mesmos anos é concluĩdo o

palace*e

do

Duque

de Loulê, sobre o promontorio oĸosto ã casa

Paimela, fechando a ocidente a praia da

Concsigão

. E

um projecto de L.u is Caet.ano Pedro de Aviia, arquitecto que estudara em Paris com Garnier e. por isso, assegurava a capacidade decorativa que agradava ã nova aris tocracia. A casa, já pronta em 1873. é assim descrita. mais uma v e z por Pedro

Barr uncho i 7 ) :

"0 palâcio do sr. conde de V'ale dos ileis esta em seguiía ao do sr. duque de Palmela (...}. Assente sobre rochas , e, pela origina1 idade da sua forma

arqui tec tonica , a

edificagão

que mais prende a

atengå'o

de todas as pessoas que visitam

Cascais,

onde . até hoje, não tem rival, e mesmo não :onsta que no país haja outra seraelhante.

Vê-se que foi obra tragada e dirigida por um verdadeiro artista. porque toda ela obedece a um pensamento artístico. A arquitectura faz sobressair no fundo o estilo de Luís XIII, mas ornamentada com rerainiscênc ias da antiguidade grega e árabe ,

harmoniosamen te combinadas. 0 palácio apresenta pois

um aspecto ao mesmo tempo alegre e magestoso, o que

condiz com o lugar em que foi levantado. â beira do Oceano, e dominando um panorama ora festivo ora severo.

Ocupa

uma área talvez de duzentos metros quadrados. sendo dividido em três andares : rés-do-ciiao . primeiro e mansardas . As

paredes

exteriores apresentam um bonito xadrez de tijolo encarnado. A cantaria das portas e janelas é

(16)

alternada de pedras

grandes

e pequer.as , conforme o

estilo de Luís XIII. A cobertura superior do edificio abriga engenhosaraente as mansardas, e é toda pintada de cor de ardcsia. Forma anteriormanle cinco

pavilhoes.

dos quais os três mais salientes terminam em graciosas agulhas áouradas. com cataventos !...)." Moradia emole:natio;i

(fig.2).

tanto

peio

iesenho elaborado como peia sua

implantagão,

i'uncionou com o ch ale: Palmela de

niodêlo inici.nl mul t

ipi

icado , de maneira menos

erudita. por Cascais e Estoris .

A terceira residencia que nos ocupa é. novamente . uma encomenda da famiiia Palmela. a Casa

Faial, edificada em 1896

segundo

um projecto de mestre José Luís Monteiro, a ocidonte ua anterior moradia

(fig.3).

Mais simples de meios e de programa ê, no entanto, profundamente

inspirada

no raodelo de Wyatt,

adoptando

a mesma voluraetria

compôsita, o mesmo ti po de revest imen to rústico e a mesma cobertura de telhados de duas aguas .

mu1 t

ipl

icadcs nas águas furtadas.

Do mesrao ano de 1896, e sempre sobre o mar , é

uma curiosa casa mandada construir por Joaquim da

Silva Leitão na Avenida D. Carlos I. que liga a

praia da Ribeira â cidadela. 0 projecto é de Antônio José Dias da Silva. autor eclêtico da Praga de Touros do Canipo Pequeno em Lisboa, e nada tem a ver

com os

exemplos

anteriores. Trata-se de um programa

rauito prôximo das

tipologias

urbanas. com planta convencional organizada sobre o fundo do estreito

lote , e uma

distribuigão

generosa de aberturas na

fachada virada ao mar . As marcas da diferenga estão

apenas na cobertura e, sobretudo. no corpo de

varandas de ferro que acompanha o algado principal e

que , alterando a leitura do edifício, destaca este

elemento, estética e funcionaimon te diferente

(fig.4)

. Esta casa foi modelo de uma longa série em

Cascais, sobretudo para as zonas de limitado espago ,

e continuará o seu sucesso nos Estoris .

Em 1899 , e na mesma zona de maior

ocupacão

do

(17)

-16

tipologia

do palacete de cioade. Falamos dos dois

edificios que se erguem em frente ã entrada da

cidadela, autênticas fachadas de aparato para os percursos do rei

(fig-5).

A priraeira foi encomenda do conselheiro Luís Augusto Perestrelo e a vizinha de Trindade Baptista. Sao duas luxuosas residências, cje planta convencional , mas de "rosto" muito

elaborado, cheias de frisos, frontoes , molduras,

mísulas. etc. . como num catálogo de desenhos das

Be ias-Artes.

Mas voltemos ao mar e contcrnemos a velha cidadela para chegarmos âs

proximidudes

do farol de Santa Marta. or.de se erguem três ca.sas d,a maior import.ancia para a nossa

quostão

-a

arqui

tec turu de

veraneio.

A primeira que encontramos é a residância do Conde de Arnoso, construida cerca de 1890. e

designada

pelo seu proprietário por "casa minhota"

( fig . 6 e 7 ) . Na

pol

émica estil istica do fim do

século. esta casa introduzia ern Cascais j questao da "casa portuguesa". Acerca dela escreveu Ramalho Or t

igão

:

"Com o seu pequeno eirado sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de

alpendre

num patamar de escada extericr, ao lado do retábulo em

azulejo

do santo padroeiro da famĩlia. as janelas de peizo guarnecidas de rotulas entre cachorros de pedra. destinados ãs varas do estendal. e sorvindo de misula os vasos de craveiros e mangericos, em frente do pogo de roldana. no mais doce e tranquilo sorriso de outrora." (8)

E curioso constatar que Ramalho, homem culto e sempre pronto ã crítica arquitectônica . admire

este edificio mais

pelos

seus valores decorativos e exteriores do portuguesismo que pela sua dinâraica estrutural encontrada na arquitectura tradicional. Este erro grosseiro será dificilmente corrigido e os anos de dominio quase absoluto do gosto

português

irá

prová-lo.

A "Casa de S. Bernardo" é uma

experiência

precoce , conduzida

pelo

seu proprietãrio

(18)

revivalismos da época , desde o "Tudor" ingles até

aos classicismos irancês e italiano. De

composigão

rigorosa. ccm um rés-do-chão de arcadas , um

primeiro

andar com

alpendrados

e

janelas

de

ângulo,

numa evídente eficácia na

captagão

e filtragem da luz.

não îeve o poier de

sugestcio

que a sua

qualidade

merecia.

0 mesmo não acontece com a ca:sa que Jorge O'Neill mandou ccnstruir para lá da pequna ponte e meia sobre a praia de Santa Marta.

Segundo

Pedro Faicac :9) a ideia do

projecto

teria

surgido

de um escorgo de Manini ,

cenôgrafo

e pintor italiano

prest

igi.ado

. que teve algumas

prestagSes

arqui

tec tonicas importantes. Talvez por isso,

O'Neill escolheu Francisco Vilaija, também pintor que, recentemente deser.hara a casa do Dr

. Manuel

Duarte no Monte Estril. A "Torre de São Sebastiao"

(fig.8)

é uma luxuosa e eclética mansâ'o

cuja

principai

qunlidade

é a

magnífica

insergão

no local.

No entanto. ela foi a residência de veraneio de Cascai.v que maior irapacte teve , mesmo em espĩritos

esclarecidos como Carlos Malheiro Dias:

"( . . ,

)E

á beira desta estrada (Guia.) , de

incomparável beleza, com os seus dilatados panoramas marítimos e agrestes, entre serra e raar. que o sr. Jcrge O'NeiIl erigiu a mais teatral v i 1 Ia de verlo.

que a

imaginagão

de um artista possa idealizar em

horas de

inspirada

fantasia, em

pleno

delírio de

grandezas .

Quando . dobrada a última muralha da cidadela,

passado o recinto do tiro aos pombos e ,a linda casa minhota do sr. conde de Arnoso , se descobre o

primeiro

lango de mar para a

esquerda

e a casa

O'Neill para a direita. o mais apaixonadc admirador da natureza voltará, sem hesitar, as costas ao oceano. quedando na

contemplagão

embevecida desse

palácio

de drama histôrico (...) a casa do sr. Jorge

O'Neill é,

digamo-lo

sem demora, conjuntamente com o

palácio

do sr.

marquês

da Foz , era Torres Novas , um

dos mais belos. dos mais harmoniosos . dos mais

(19)

-18

-o gosto requintad is3ira-o de ura artista e a c lênc ia de

um arquiteoto tem ncs últimos cinquer.ta anoc

levantado em terra portuguesa. Nada se pode

comparar . entre os centos de edi f

icagSes

pretenciosas

com que se enfeitaram Cascais e os

Estoris, a esta morida ae príncipo, teatralmente &r'icia r,i sua escarpa. e onde se vê-'sm reunidos o: mais originais raotivos ar-jui tectôn icos

compiiadcs

pelo

alemáo Albrechr. Haupt no seu tratado da Renascenga era Portugai . í . . . ; Projecto de Vilaga

-um

pintor

-. a torre de S. Sebasti'ao deve a esra

colabor a

:lo

ilustre, tão in te1igentemen t e soiicitada. a s:.;n impress ionante beleza decorativa. Com a sua tor:"sla de menagem, os seus minaretes, as

suas adufas, o seu

alpendre

d.i "Sempre N'oiva", a sua ■-'aranda românica, as suas cúpulas de azulejos. os seus telhados mouriscos. as suas

janelinhas

de colunas

geminadas.

essa casa ficou sendo .

mi raculosamente . mais do que um edifício, uma

pintura.

A

adaptagão

de estilos diversos a um mesmo

conjunto harmônico.

guiada

por um notibilissimo talento seiecionador,

alcungou

produzir

. na

mu 1 tiplic idade . na variedade e no pitoresco, uma

obra prima. Duvido que um arquitecto tivesse pcdido combinar elementos na

aparência

tão heterogeneos em

composigao tão harmoniosamente ornamenta1 . Para que

a casa û'Neill assim resultasse bela. foi

indispensável

ao autor do

projecto

o ĩibertar-se das

fárrauias consagradas á arte de construir e

insurgir-se contra os preconceitos clássicos, que

imobilizam a imaginagao, mesmo a mais ousada, de um

arquitecto ( . . . )". (10)

0 texto de 1906 é

prof

undamente esclarecedor

daquilo

que aqui mais nos interessa

-nestes anos em

que nasceram as nossas principais estâncias balneares, é crenga

generalizada

que a

renovagSo

da

arquitectura está nos revivalismos . combinados de

forma eclética e original pelas novas técnicas construt ivas : a casa de veraneio é um espago

priveligiado

para as mais "ousadas" experiências e o

(20)

-vijectivos "mara'.'ilhoso" .

"?i

tcresco" . "teatral".

são ainda sintomas duma sensibi 1 idade tardn-romântica,

cujo

modelo era ainda. em últirna anaiise, o Palácio ja Pena; îinaimente, o probiema

sempre presenta e sô

ultrapassado

pcr raros

arquitectos e depois

pelo

modernismo. que é o dos valores ornanientais se

sobreporem

aos valores estruturais .

Fazendo parte desses poucos arquitectos está llaul Lino. autor da terceira casa de Santa Marta.

tarabém p-ara

Jorge

O'Neill, que é a mais beia •=;

importante pega do patrimônio arqui tectonico de Cascais. Construida sobre as rochas que separam a pequena

praia

do farol, a "Casa d>> Santa Maria", e um edificio alongado, composto o

rganicamen

te num

diálogo permanínre entre exterior e inter.or. Utilizando com mestria os elementos mais diversos do vocabulário tradicional - aberturas

pouco

dimensionadas . formas da

arquitectura

mediterrânica

do sul do país, arcos ue ferradura arabizantes,

espagos

alpendrados.

pombal

, ameias, ccrucheus

cônicos. telhados esoalonados e beirais

-o

arquitecto produziu uma síntase do seu er.tendimento da "casa

portuguesa"

ern que a rica decoragao nunca faz perder de vista os valores prôprios ao habitar

(fig.9).

Regressemos ás águas da praia da

Conoeigão

para admirarmos mais um

exemplo

curioso de revivalismo. também construido nesses

primeiros

anos do século. Trata-se da casa de Antônio Lencastre,

estrategicamente erguida entra o chalet Faial e a casa Louĩé. e atribuida por Pedro Falcão a "um

a.-quitecto italiano" (11). Procura ainda afirmar a

diferenga e provocar a

admiragão,

utiiizando a voiumetria tradicional de chalet com torreão lateral e a sugestao de palacete i tal ianizante no corpo

principal

(fig.10).

Os elementos decorativos

arabizantes.

neogôticos

e manuelinos. a estranha

guarita

e os telhados araarelos , raarcam o ecletismo

elaborado e fantasista que presidiu a este projecto. Até 1910, Cascais tornara-se vila de Corte, e

(21)

-30

-"Casa

Portuguesa"

que . como vimos. tivera uma

primeira

reaiizagião

excepcional

logo em 18l*3.

0 modelo arquitectbnico por excelência deixou

de ser o dos

chalets-palacetes

para se materializar

na "Casa S. Paulo". no n°35 da Av . Marques Leal . Foi

edii'icado em 1911 para Benedicta Aives de M«llo Nogueira, natural do Brasil. e desconhecemos o seu desenhador. E um enorme oasarão de gosto

português,

levantado num dos melhores locais sobrar.ceiros ao mar . dominando toda a baia , ao c imo de um alto

paredao

ccm terragos sobre a praia. Conserva ainda.

como marca do local , um torre'.ao oitavado de

cobertu:-.:

pcntiaguda,

mas inserido numa volumetria ondeada e

pcntuada

por todos os elementos tipicos Oo

gosto

português

alpendres

sobre colunatas. beirais. águus furtadas

-reforgado ainda

pelos

p.iinéis

de azulejos azuis e bnr.cos que, nos painéis

da fachada poente

(fig.

. .). evocam a

chegada

de

P'ĩdro Alvares Cabr.il ao Brasil e a prime.ra missa ai

realizada. E. evi den temente . um exemplo

excepcional

mus que dá o "inote" a

grande

parte d.a arquitectura posterior. A casa pertenceu

depois

ao Dr. Azeredo

Perdigao

e. ern 1943, Branca de Gonta considera-a o

"exemplar

mais decorativo" de todos os

"palacetes

ostentosos" que em S. Joao se erguem "para as bandps do mar

"

.

Em 1912, e å semelhanga do que vimos

acontecer no Monte Estoril. aparcce o primeiro

exemplo de um gosto extremamente decorativo. tiranoo

partido

dos frisos de azulejos coloridos e

utilizando

pref

erer:ialmente o arco redondo nas aberturas. Estamos a falar do projecto encomendado

por Maria Amália Pereira Lopes para a Av. Marques Leal, ao arquitecto Tertuliano Lacerda Marques. Veraneante em S. João do Estoril, o seu nome está

ligado a uma série de

construgSes

posteriores onde .

contrariamente ao que acontece neste primeiro

exemplo,

se veioula o gos'.o

português.

Esta casa

foi publicada em Janeiro de 1913 em A Construgao Moderna (19) onde se atribui a autoria ao arquitecto

(22)

viu edificar nas suas mais belas cenografias uni

conjunto de oxperiências arquitectônicas . mui to

diferentes na forma. que nem sempre no espirito. que

îuncionaram. naturaimente . como modelos máximos das

capacidades

de uraa época.

Mas . passados os priraeiros anos da

Repúblioa.

em que Cascais sofreu oom as conotagoes reais de que

há rauito vivia, não ê uma verdade ira novidade que

vemos surgir para dar corpo ås casas de veranoio.

Vejarnos

dois exempios. 0 primeiro. e a casa dos

ccndes de Monte Real

ífig.li),

construida em 1920 peio arquiteoto Guilherme Gomes, sobre a Av . D.

Carlos I. Ela demonstra, sobretudo, o triuní'o do gosto da casa portuguesa ,

prof

undamente inspirado na

magnifica

prestagão

de Raul Lino. mas

aprovei

tando- lhe apenas alguns valores semânticos

que as

reprodugSes

incontãveis vao norraalizar e

empobrecer .

0 segundo edificio é o

palcete

Seixas. ".ambêm de 1920, construidc junto â praia da Ribeira com

projecto de Ncrte Jũnior

(fig.li'i.

Com a sua

complicada composigao, as suas empenas de pedra, o seu torreão de cobertura pontiaguda. nada parece ter

que o distinga das primeiras

edificagoes

de trinta a n o s antes.

Agarrada ainda aos princípios da excepgao e do anti-urbano, a arquitectura de veraneio em Cascais não se deixou penetrar pelos rigores do primeiro modernismo que sô no novo

"palco"

oe veraneio do Es to ri 1

puderam

surgir.

Habitando a residência dos seus sonhos ou

precariaraente instalada ern casas alugadas, esta sociedade de "eleitos" onde pontificava o prôprio rei. vai também criar regras de vivência para o veraneio balnear que as novas estâncias não podiam deixar de copiar. A aura aristocrática e cosmopolita de Cascais, durante o

periodo

em que a cidadela ostentava o

pavilhão

real . funcionava para todas

como símbolo de inultrapassâve1 bom gosto. De acordo com a Gazeta dos Caminhos-de-Ferro

(12)

em 1899

(23)

-21

-Cascais tinha tudo para ;er uma estância "elegar.te:

"Para forraar uma estagao d*-. banhos , hã que

ter

liirg.îs

avenidas ensombradas de árvores . bonitos

passeios com banoos. elegantes chalets entremeando com outras edif

icagães

ma is modestas, hotéis razoáveis onde se encontre boa comida e

pousada

coní'ortave1 , iluminagao nas ruas e pragas , asseio

por toda a purte , um ou dois clubes elegar. tes para

as valsas e os jogos ã noite, um parque para os

passeios á tarie e um estabe Ieoimercto de banhos de ãgua doce .

Ora tudo isto se encontra em Cascais. a1■■>m de muitos outros atractivos que fazem daquela viia uma

estagão

de ãguas a vaier.

A Avenida Maria Pia (...) é um dos passeios favoritos dos banhistas (...). L'ma nova aveniUa.

aberta ha poucos dias . parte directamente da

estagão

do caminho-de-ferro até ao centro da vila. Be:n proximo encontra-se o ridente parque . a praga Serpa

Pinto, moderno jardim embelezado por um lugo

artístico, um coreto, canteiros ie fiores.

grandes

tapetes de gar.on , tendo ao centro o elegante

Soort ing-'.'lub. centro de reunião da sociedade raais elegante que frequenta Cascais ( . . . ) .

Numa terra onde o grande atractivo e o mar

que a banha. e onde esse mar se abriza numa

maravilhosa bacia que permite os exercîcios de sport nautico, um clube com uma vasta galeria sobre a:.:

águas é acessôrio ind

ispensável

. E o terrago do

casino de Cascais satisfaz a este requesito complet amente , sendo de um belo efeito quando . em

dia de regata, uma populagao imensa o enche em toda a sua grande extensão.

No género de

edificagSes

elegantes

tem Cascais jã grande quantidade e de

grande

valor.

( . . . )

Para os que vão passar ali. algum tempo. Cascais oferece todas as comodidades. Não sô hã casas que se alugarn por pregos econômicos, como estabelec imentos fornecidos de todos os géneros,

(24)

Para os que r•->n rn■*.m que vir â cidado com

frequencia ha oito coraboios descendentes e oito •ascendentes por dia.

(...)

Beios

passeios

se podem realizar aos arredorcs da

galante

vila. 0

principal,

o mais nctável, é ao famigerado sítio. a Boca do ĩnferno,

grandicsa

caverna onde o mar se deba-ce r'ar iosamente .

fazendo o raais magestoso efeito. (...)

Iluminagão

eiéctrica ê o que fulta iinda a

Casoais!

"

Na verdade, Cascais não

correspondia

ao retrato ideai descrito no inicio do texto. As "iargas avenidas" que se haviam aberto eram as D. Carlos I e Valbom, que articulavam a praia da Ribeira com a estagao do oaminho-de- fer ro e a cidadeia. A "Aveniia Maria Pia" era uma

esplanada.

assim como a Principe Real D. Luís Filipe, dispostas sobre o mar. entre a praia e a cidadela. Os "hotéis razoáveis" eram pratioamente inexisten'.es e, como vereraos , so o aparecimento dos hotéis dos "Estoris"

veio proporcionar cômodo alojamento e

restauragão

de bom nível, Pela imprensa da épooa sabemos cambém que

o saneamento deixava muito a desejar raas , apesar de

tudo . Cascais mantinha a sua imagem de

excepgão

. Era

lá que se introduziam os jogos da moda , oomo o

lawn-tennis ,

principal

atracgão

desportiva do

Sport

ing-Club

. no sítio conhecido por parada , onde

os reis muitas vezes se deslocavam. Também aqui se realizavam as festas de caridade

promovi

Jas

pelas

senhoras da aristocracia a que a rainha dava o seu contributo. Além do clube real era o parque da

senhora duquesa de Palmela que servia, habitualmente , para estas actividades caritativas. 0

outro clube de Casoais era o casino da Praia

(fig.13).

considerado por Ramalho. como vimos, um

barracao sem ambiente, mas que servia para "as valsas e os jogos ã noite", em

construgão

já em

1873, e onde

aqueles

que nião tinham entrada no selecto Sporting. podiam gozar os atractivos

prôprios da praia. Também este equipamento típico

(25)

-23

-1900, se tornarâ o .-grande centro do jogo na regiao. Cascais possuia. no entanto. duas

opgSes

de entretenimento que nunca foram copiadas: uma praga

de touros. onde lidavam os mogos da mais fina

linhagem,

e um teatro autônomo

-o teatro Gil Vicente

-construido em 1863 por um negoeiante de Lisbca. e que servia a apresen t

agão

de companhias io Lisboa nMS tambem a saraus organizados pela sociedj'ie elegante da estancia. 0 rei. amador de

despor'os

viris. promevia, por sua vez, duas

grandtis

atracgSes

para a colonia: as regatas realizadas na

baia e as

cagadas

nos

pinhais

da Marinha, que

confirmavam a Cascais o título de vi 1a de c o rte .

Para esta sociedade de ritos, os passeios nos arredores constituiam também uraa quase ubrig

jgão

. Os

pic-nios nos pinhais vizinhos. as caminhadas

pelas

dunas do Guincho ou a visita ao local por excelêncĩa

das

sensagSes

fortes e inesquec iveis

-a Boca do Inferno. Ainda em 1324, no Guia de

Portugal

(13), Raul Proenga se extasia com o locai:

"A Boca do Inferno é uma

grande

cova aberta na rocha , com escarpas de 20 m de alt. , que ameagam

desabar. As rochas negras. rajadas de estrias ,

parece que foram agora mesmo golpeadas, e que v-artssn laivos de sangue . Pode-se admirar esta caverna em

todos os dias do ano , mas há que vir em dias de

temporal, com ventos de 30 e maré cheia, para gozar

toda a grandeza do

espectâculo.

Então o negro pogo

avermalhado é uma verdadeira caldeira do Inferno,

uma terrível cratera refervente."

Cascais, vila de pescadores todo o ano e estancia balnear por três meses , prestigiada pela

presenga da melhor sociedade portuguesa, permitindo

uma convivência social difícil nos centros tradicionais . não deixou de ser. no entanto, uma

pacata vilegiatura e não conheceu o

cosmopol

i t ismo frenético das mais célebres estâncias internac ionais . A sua caracteri stica

específica,

que

era a de ser real e aristocrática, não foi suf iciente para a transformar num dos pontos de encontro da sociedade mundana europeia, apesar dos

(26)

esforgos de activos dirigentes como Cost.a longos anos a frente da C.M.C. . Esse

papel

tentado por

algumas

das estâncias

estudaremos. cora resultados que nunca promessas dos seus promotores.

"Mas quando chega o verao l . . . i

alegra ( . . . '• A vila anima-se com o

carru.igens quo passam a fortes de automôveis (... Praia abrem-se. os terr.agos Sporting arranjam-se jogos

praia

( de Pinto . v ai ser que adiante cumpri rão as tudo rocar oas tem ruidos f 1 i r t s comcgados n£ Cascais de burgo trote (...), ) ; a s s a1a s do C ĩub da encnem-se de ^ente î no onde vão continuar os

. . . ) .

pescacores transforma -se

entao num cantinho animado onde se

refugiu

a corte. A etiuueta é palavra vã na corte portuguesa; demons'ra-o bem a vilegiatura de SS . MM. nessa

praiazinha

de arrabalde. que se va i enchendo de

cha1cts e de casinhas portuguesas, como a do s r .

bem típica com a sua conde de Arnoso, que

alpendrada

e os

poiais

para vazinhos ,

rexas. a velha

gelosia

mourisca

com

singeios o

parreiral

â porta

janelas

de

com os teihados os cachos a ser-sin

de estagao taz-se porém. o luxo náo oraia bursuesa onde mordidos peio sol.

Em Cascais por este fim como um torvelinho de diversaes existe ali, e oomo se fosse uma

chefes de repartigao curassem os achaques , nâo se vê

uma toi 1e1 1e raais extravagante nem um

jaquetâo

mais

inglesado nem um monoculo mais

petulante.

A única coisa que indica ser Cascais a praia da aristocracia

sao essas festas do Sport ing , por vezes cheias de

gosto e originais. (...)

A existência ali tem a mesma serenidade e a mesma mansitude, apesar de lá viverem as primeiras familias portuguesas. Não há ali a ruidosa

agitagão

da verde Nice, nem a barulheira com ventos de tragédia da loura Monte Carlo, nem as

cavalgadas

estranhas de Aix nem mesmo o luxo

pretencioso

de

Vichy. (...)

E ali que se vê a

despretensão

da corte. do

(27)

-25

-que se entretêen

jogando

o ter:n:s e a raalha. esse

jogo plebeu e nacional *,...) e numa grande serenidcde ali se passam dois meses entre o banho da m.anhâ e a diversao do Soorting ã tarde e os concertos do Club da Praia ã noite. dist-inte do mar.

(...)

A mocida-iê elegante essa vai enoontrar-se er.i

Lisboa, em trajos de praía e bebendo bocks no Suico .

"

'■ 1 !

"cantinho animadu" não o era suf icientemente para saîisfazer a gente mais nova cora o seu "torvelir.ho de di versr.es" . . .

lĩoas

condigães

naturiis e Loca1

izagão

não

podiam chegar para fazer de Cascais uma estância importante. Como pragma t icamente afirmava Pedro Barruncho, são as vias de

comunicagão

que promovem o

desenvolvimento de qualquer povoagao. Na verdade . a

velha vila pisoatoria e desnecessár ia praga militar,

esta'-a há muito em decadencia e dando azo ã

expressao comum

-"uma vez a Cascais e nun-r.a mais". As vias de acesso encontravam-se pratioamente intrans itáveis jã que desde o tempo do senhor marquês de Pombal não eram alteradas. S6 muito lentamente. ao longo do séc . XIX, esta situagao se

modifica, tanto pela iniciativa de "

benemér i tos" como da prôpria Camara. 0 primeiro destes mei horamentos foi a estrada de Cascais para Oeiras,

devida ao empenho do director das Obras Púbiicas,

Joaquim

Antônio Vellez Barreiros, visconde da Luz ,

grande apaixonado pela vila que ainda hoje o recorda na sua toponimia. Considerada por Pedro Barruncho corao a verdadeira

"regeneragão

de Cascais", foi concluida em 1864 e depressa "percorrida por trens, chars-á-banc e o rani bu s que faziam a

ligagão

entre o

largo

da Câmara e a praga do Pelourinho, em Lisboa,

era duas viagens diárias

-cerca de cinco horas em cada sentido, num percurso acidentado, com mũltiplas paragens . assegurado por cocheiros competente e

afaraados e cinco cavalos por carro" (15). Quatro

(28)

para Sintra. des'a vez ã custa dos dinheir-os públicos, "me Ihoramen to nao menos úii1 e importante" já que articulava os dois núcleos mais destacados do veraneio cortesao. "Estas duas estradas", conciuia P'îdro Barruncho, em 1973. "foram as artérias por

onde se injectou o novo sangue que veio dar vida a Cas c ais" :

"Comegaram

as visitas a vila, não a acharam

feia, notaram a pureza do seu ar . descobriram que a

praia tinha beĩezas, encontraram serenas as ondas do oceano que ali vem quebrar-se,

pareceu-lhes

boni ta

a cos'.a, deparou-se-lhes a boci Jo inferno, de que não tiveram medo , acharam excelente a

comunicagúo

para Sintra. viram nos moradores a bondade e ihaneza do trato, e finalmente concluiram que todas estas

condigoes recomendavam Cascais , maximê n.i estigao de

banhos . como ôptimo local para gozar a vida." (16)

Nos primeiros anos da moda da ■•' i legiatura na

vila, havia ainda 1

igagão

por mar até Lisboa. em

viagens regulares, onde se celebrizaram os vapores

de rodas , prirae iramente so entre o Terreiro dc Pago

e Belém. e depois até Cascais, com salão de fumo e cadeiras estofadas . É numa destas viagens de barco que Ramalho

Ortigiao

recolho muitas das

impressães

que aqui reproduzimos.

No ano

longínquo

de 1873, Pedro Barruncho

r-eclamava o caminho-de-fe r ro que ligasse Cascais ã

capital,

melhoraraento considerado indi

spensável

para

um verdadeiro desenvolvimento . Porém, sô no fim da

década seguinte serã inaugurado o primeiro trogo entre Pedrougos e Cascais, numa extensão de 19 km e servido por 11 estagoes. A

inauguragão

foi feita ãs 16 horas de 30 de Setembro de 1889. Até Pedrougos os

passageiros tinham de servir-se dos jã referidos vapores de rodas . de Frederico Burnay que partiam do

Aterro. Na segunda fase da linha de Cascais, ja com via dupla, os comboios seguiam até Alcântara e

daqui . pelo túnel de Campolide, iam os nossos avôs

até ao Rossio. primeiro terminus que houve no centro

da

capital.

S6 a 4 de Setembro de 1895 é completado

(29)

-27

-Cai s do Sodré .

"(...) 0 comboio iniciou de facto uma nova

era.

Desapareceram

para sempre nesse longínquo ano

de 188 9 os char s

-barics e o s omnibus e foram desaparecendo os barcos das carrei ras como os

caiques de velas latinas que pertenciam a José Luís d<> Miran-.ia. Subsistiram pois. ainda.

alguns

anos . os vípores de rodas que resistiram até aos primeiros

anos do noíso século" (17).

0 comboio, veio dar um indiscutívei dinamisrao á vila mas . sobretudo. possibilitou o aparecimento

das estiãncias vizinhas que aqui nos ocupam. Ate 1889. Cascais continuava praticamente isolada, única praia frequentada do concelho, horizonte quase inaoessivel para a maioria dos lisboetas. Até entao, os banhos de mar tomavam-se nas praias dentro ou muito perto de Lisboa, numa hierarquia de categorias

que aumentava na

relagão

directa da distância. Muitos desses frequentadores faziam a sua época de banhos . deslocando-se de manhâ bem cedo ãs praias

mais prôximas nos transportes pũblicos. sem deixar as suas residências habituais. Pago d'Arcos era a última e mais

"chique"

desta correntez.a de praias onde a populagao de Lisboa i'azia a sua "cura" de mar . Sô com o aparecimento do comboio comegaram a

ser colonizadas as margens, ro-aimente mari timas,

para lá de S. Julião da Barra. £ na década de 1890 que comega a histôria balnear dcs "Estoris" como da Parede . Carcavelos, etc. . Num espirito de competigao

com Cascais , como o Monte Estoril, ou em

oposigão

âs

suas

pretensSes

aristocrát icas . como S. João do

Estoril, as novas estâncias tiveram então possibi1idade de crescer:

"0 caminho de ferro escancarou as portas desse Eden . primitivo como o da Biblia. 0 Monte

Estoril, risonho, civilizado, encheu-se de gente

elegante.

Abriram-se casinos, apareceram toilettes .

"

(30)

NOTAS

'l) Ramaiho Ortigao . "0 ?ai s e a Sooiedade

Portuguesa"

in As Farpas . vol . VI, Lisboa, 1943. p.

297

í i) "Sintra

-Vi

legiatura

da Nobreza".

tĩustracâ'o Portugues a . n2 31, 24/9/1906

(3)

Antônio

Mesquita

de

Figueiredo,

"Cascais Praia de Corte". Ilustragao Portuguesa, n2 35, 22/10/1906

(4) Raquel Henriques da Silva. Casoa is ,

Lisboa. 1988. p. 62

( 5 ) Idem . pp. 62-63

(6) Pedro Barruncho. Apontamentos para a Histôria da Vila e Concelho de Cascais. Lisboa.

1873, p. 143

(7) Idem. pp. 151-152

(8) Ramalho

Ortigão,

Praias de Portugal, trans . in Guia de Portugal. Lisboa e Arredores .

Lisboa. 1982. p. 620

(9) Pedro Falcão. Cascais Menino, Cascais, 1970. p. 186

(10)

Carlos Malheiro Dias. "A Casa O'Neill",

ĩlustragão

Portuguesa, . n2 30. 17/9/1906

(11)

Pedro Falcão. op , cit . . p. 203

(31)

-29

trans. in Ferreira de Andrade , Cascais V i i a de

Corte . Cascais. 1964, p.p. 346-349

( 13 ) Rau I

Proenga.

"Aos Estoris e Cascais" in Guia de Portugal. Lisboa e Arredores. Lisboa, 1982.

pp. 621-622

(14) "Praias de

Portugal

-Casciĩs" .

[lustragão

Portuguesa. n2 51. 24/10/1904

58

15) Raquel Hc-nriques da Silva, op. c i t . . p.

16) Pedro Barruncho, op. cit . , pp. 145-145 17) Ferreira de Andr ade (d i r . ) . Mo r. cgr af ia de Cascais, Cascais, 1963, pp. 112-113 (13) "Cascais -Praia de Corte". 1 1 u ztr '■>gŨo

Portuguesa,

n2 35, 22/10/1906

(32)
(33)

-31 3.1. 1330 -TORREZXO -"0 PRIMEÍRO CENáGRAFO" DO MONTE ESTORIL

Quancio Cascais comega'-u a tornar-se uraa v i i.i

de Corte, com a presen.;a da família real e do seu circulo. nos meses de Setembro e Outubro, a encosta sooranceira ao raar , irnediatamente a nascento da

vila. teve o seu primeiro "amante desinieressado" : Josê Jorge de Andrade Torrezão.

Os anos imediatamente anteriores , tinham

visto surgir os primeiros cha1e ts e palacetes, imitando o que se construia noutras zonas de veraneio da

Europa

. escolhenio os locais mais

pitorescos, quer a nascente quer a poente da baía de Cascais. Destes. um dos mais notãveis ê, sem dũvida,

o que o

arquitecto

inglês

Thomas Henry Wyatt

projectou

para a família Palmela. "com a

aparência

de uma abadia em ruinas". era 1873. Os duques

ocupavam não sô a zona junto ao mar , onde se ergue o

edifício. mas todo o vale que ainda ho.je separa as

duas

povcagSes,

com o seu magmfico parque ,

actualmente muito reduzido. mas que trouxe uma abertura natural á

ocupagão

do territorio vizinho. Alguns anos mais tarde, em 1896, siao os herdeiros da casa Palmela que farão edificar o seu chale t , cora

projecto de José Luis Monteiro, ainda dentro dos

terrenos do parque mas raais perto da vila. Desde

então,

os dois edificios e o parque Palmela separam

as duas

povoagSes

. A nascente do Monte , são os

terrenos do convento de Santo Antônio que fazera a

separagão

do Estoril. onde em 1880, Jose Viana da

Silva Carvalho mandara alargar o edifício dos banhos . de quinze para trinta tinas, sem que estes

melhoramentos chegassem para prestigiar a estância

que continuou a ser conhecida pelo "Pátio do Viana" a que apenas se ia a águas e onde não era

possível

encontrar conforto e menos ainda a ambiência de uma

(34)

Ao norte, e numa

lôgica

de ciesenvolvimento urbano em fungao da pequena montanha. o Monte Estoril acabava no sítio do Lago , ou seja. no ponto

mais aito da sua topografia.

Entre a vida mundana o cortesâ de Cascais e a

simplicidade quase campestre das termas do Estoril, Torrez-ĩo,

capitalista

lisoceta. escolheu o mar "nuns pinhais selvaticos, mandou construir uma

pequena oasa de recreio. esooihendo-lhe para poiso

umas ribas sobranceiras ao mar'Ml) e chaniou

-lhe estrani'.araente "Cas.a da Serra". No

Porĩugal

Antigo e Moderno , >ie 1874, o descrito como "um lir.do chalet

ao gosto suigo com belo

jardim

e cercado de

pinheiros".

Pedro Barruncho. em

1373(2),

refere-se a

Torrezão nos seguintes termos: "depois do Visconde •ia Luz . foi o sr . José de Anorade Torrezão o

primeiro edificador. construindo no alto de um

morro. junto ao forte de S. Roque perto do convento do Es'.oril, um 1 indo chaI :•t . com quatro frentes,

apresentando de todas elas uma encantadora vista, tanto para o mar como para a terra. E cerc*ado de pinheiros e de

agradável

jardim era roda da montanha,

tudo sumamente pitoresco. Chama-se Casa da Serra esta 1 inda

habitagão".

Mais adiante acrescenta ainda: "Esta

construgão

comegada em dezembro de 1869 e concluida em junho de 1870, deu incentivo ås de

que falaremos em seguida, e por isso, o nome do sr.

Torrezão é justamente bemquisto em Cascais". Pedro Barruncho refere-se ãs casas do duque de Palmela e do conde de V'ale dos Reis, mais conhecido

pelo

seu titulo de duque de Loulê (hoje hotel Albatroz) que

lhe så'o posteriores.

Apesar de Torrezão ter construido ainda mais três chalets , nao conseguiu conquistar muita gente

para esses locais belos e

selvagens

, em que o único

atractivo ainda era o mar . A "Casa da Serra" foi

vendida ao grande

capitalista

Seixas. Este. por sua vez. passou-a para as mãos da Companhia Portuguesa de Hotéis. na ocasião era que esta se

propunha

construir. sobre o terreno que margina a praia. um hotel maravilhoso ao qual se daria o nome de

(35)

-J o

"Splendid

Hotei". 0 projecto sra da responsabi1 i dade

de Ventura Terra e constituiu -a esperanga derradeira

de fazar renascer a Companhia Monte estoril. A "vilia do Rio" vendeu-a Torrezai, -x Jcão José Bastos. Anos depois a propriedade passou ãs mãos da viuva de Joao Franco. Foi esta senhora ciuem a vendeu a Fausto de Figueiredo. o qual se apressou a fazê-la demolir. 0 terceiro chaîet a sair das maos expeditas de Torr-e:'.,?•-• , era a "Villa Flora", também demolida. e

que se erguia no iocal onde está a moradia do Dr .

Manuel Duarte, em frente do Hctel Atlântioo. A últiraa das ca^as de Torrezao chamada "Villa Maria", foi construida nas vizinhangas do sitio onde mais tarde se ergueu o Hotel de Icalia. Também a demoliram por dcmasiado raodesta. Nada resta da obra de Torrezao: o panorama que criou no Mcnte Estoril desapareceu

-"o primeiro cenôgrafo da paisagem maraviihosa morreu pobre , desgostosc dos seus

entusiasmos de esteta" í 3 I .

A revista 0 Ocidente (4! dá-nos mais aigumas indjcagoes sobre este priraeiro periodo da histor ia do Monte Estoril: "Esta moderna mas bastante roputada estância de verão, que hoje atinge um notável desenvolvimen to . era ainda há bem pouoos

anos um lugar rochoso e selvático, coberto de pinheirais e quase desconhecido . Situado entre o

iugar de Santo Antônio do Estoril e a vila de Cascais, quem passava pela antiga estrada real não lhe notava as proprias belezas.

Um antigo proprietário duns terrenos â beira do monte lembrou-se há bastantes anos de construir uma grande casa de campo, com belii vista para o oceano. e esse foi o primeiro cha1et que ali se viu. Chamava-se Torrezão e, até que o sr . Carlos Eugénio

de Almeida o adquirisse. sempre o referido chalet

conservou o nome do seu possuidor. Seguiu-se mais tarde o chalet Bastos. e pouco depois o

opulento

proprietário sr . Carlos Anjos construiu

sucessivamente no Monte alguns chalets de madeira,

com os nomes de suas filhas.

(36)

núm e r•

o de chalots.

3.2. 1890

-INSTALACĩO

/

COLONIZACXO

-A "COMPANHIA MONTE ESTORIL"

Como acabãmos de ver, em 18 90 Curĩos A.'ijos tir.ha construido no Monte Estoril

aiguns

dos chalels tac "modestos" como os anteriores levantados por

Andrade Torrezao, Porém. o sonho comum aos dois homens, terá agora novas possibilidades de r'.'j1 i

zagão

. Em 1383 era

inaugurada

a linha íérrea

Fedrougos-Cascais

e, na sua sequcncia directa, é

criada a Companhia Monte Estoril oom um

capital

de 225 contos. 0

objectivo

dcs seus accionistas maioritários

-Conde de Moser, presidente da

Companhia

dos Caminh'js de Ferro. e Carlos Anjos

er-a civilizar a aridez do Monte Estoril.

0 Correio de Cascais, em 1899(5). num artigo sobre o Monte faz esta breve hisxôria: "A linha férrea entre Lisboa e Cascais veio dar um

grande

impulso ãquela nova , mas então ja encar.tadora

estância de

verão,

dando lugar a que germinasse a ideia da Companhia Mont' Estoril para a construgao de chalet.s, aformoseamento do locai, etc.

Foram comprados terrenos , abertas ruas ,

metendo-se ombros ã simpática obra.

Sobrevieram, é certo, dif iculdades , quo foram

agravadas pela crise

geraĩ

aberta em 1891; mas de 1894 para cá. depois de uma funda

remodelagão

da adminis

tragão

da

Companhia,

o Mont'Estoril marca um extraordi nár io desenvo 1 viraento , tornando-so* aquela

formosa estância de verão, que em breve será também estância de inverno, afamada e citada não sô em todo o país. mas até no estrangeiro.

(...)

ao belo Mont 'Estoril

(...)

que possui a par disso um

magnífico clima, está reservado um futuro bri 1 han t í ssimo ,

podendo

desde já afirmar-se que virá

a rivalizar com as rnais afamadas estâncias até hoje

(37)

-35

-o iv i I i zado .

Para sermos justos, é bom que lembremos

muito que o Mont

'

F.-t tori i deve ao sr. 0 sr. Condo de Moser e as

na sua iniciativa. promoveram

Carlos An.jos pessoas que

■au:\i 1 iaram na sua iniciat

desenvolvimento das

construgSes

na localidade, mas o sr. Carlos Anjos dotou o Monte com o mais

precioso

elemento da sua pros peridade , a âgua . que ali era

tão escassa. e que hoje é relativamente abundante .

"

Ao contrário de Torrezão, quo se limitara a construir chalets isolados. em locais pitorescos. a

companhia vai abrir ,-stradas,

plantar

árvores. ins talar luz eléctrica, canalizar ãgua visando "a

fundagão

de uma estância de verão que deveria reunir

os atractivos usados nas outras praias do est range i ro" ( 6 ) . A partir de então. e durante quinze

anos , o Monte Estoril vai conhecer o seu periodo de

glôr

ia.

0 projecto urbanístioo da

Companhia

era demasiado ambicioso. qu-^r para as su.jl;

possibilidades econômicas, quer para o pa is , mesmo

tratando-se dura locai que . desde logo, teve a

preferência

da arist ocracia e d.a alta finanga

portuguesas .

Branca de Gonta Colago , em 1943.

este sonho de grandeza, e também a sua

seguinte maneira: "Mas até então sô se urbanizar a parte do Monte Estoril que estrada de Cascais. (...) A Companhia Estoril aparecia entretanto. com um verdade ir araente revoluc ionár io

-luxuosamente . em grande estilo turístico

Mcn te Estoril.

Ante o espanto de Lisboa, o

plano

modernista foi iniciado e as suas obras abriram na mata as

primeiras

clareiras. (...) No local onde é hoje o

Bairro Escolar do Monte Estoril pensou-se em criar um lago, um lago enorme (...) uma espécie de cratera em semi-círculo .

Nesse mesmo pino do Monte . (...) abriram-se

os caboucos do hotel (...) caboucos que foram

desc r e ve 'queda" , da pensara em ladeava a do Monte projec to urban izar o alto do

Referências

Documentos relacionados

O valor da reputação dos pseudônimos é igual a 0,8 devido aos fal- sos positivos do mecanismo auxiliar, que acabam por fazer com que a reputação mesmo dos usuários que enviam

Ninguém quer essa vida assim não Zambi.. Eu não quero as crianças

Our contributions are: a set of guidelines that provide meaning to the different modelling elements of SysML used during the design of systems; the individual formal semantics for

Nessa situação temos claramente a relação de tecnovívio apresentado por Dubatti (2012) operando, visto que nessa experiência ambos os atores tra- çam um diálogo que não se dá

O presente trabalho tem como objetivo geral caracterizar as comunidades de invertebrados terrestres associadas a nove cavidades naturais localizadas no município

De seguida, vamos adaptar a nossa demonstrac¸ ˜ao da f ´ormula de M ¨untz, partindo de outras transformadas aritm ´eticas diferentes da transformada de M ¨obius, para dedu-

Com relação à concentração de sedimentos da bacia do rio Piancó Piranhas Açu observamos que manteve-se relativamente ajustado aos níveis de vazão, apresentando

Declarada a licitante classificada em primeiro lugar, qualquer licitante poderá manifestar no prazo de 15 (quinze) minutos, a intenção de recorrer, devidamente