MARIA DA GKACA GONZAi.F" BRI Z
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OS ESTORiS 1 BttO / 1 í) 3 O
Tese do Mo:îtrado om Fĩ \ ;;t<'iria da Ar *.;;
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LISBOA U.N.L./F.C.S.H. líîííU „>,.'►.: ■• ■■í|"LA PRISE DE PCSSESSION' DES RIVAGES MARĨNS FUT UNE COLONISATTCN.
IMAGINÊE
ET RZALISEE COMME TELLE.DE LIEUX INCONNUS QU'IL FALLAXT NOMMEE. DISTRIBUER ET ORDONER. AUSSI CETTECONQUÊTE
N 'A PAS SEULEMENT ETE UNE OPÊRATION IMMOBILIÊRE MENEE A UN RYTHME
ACCÊLÊRE,
MAI3 BIEN PLUS LETHESTP.E
DE LA FONDATION ET DE L 'ED IFICATĨON DE "VĨLLES NOUVELLES" :
LES STATIOMS BALNEAIRES."
Dorainique Rouillard
Nos ano-3 de 1850, a beira-mar r.ão pa:sa
ainda de terras inabitadas, onde domina o movimento assustador das ondas. Sô vinte anos mais tarde ela
comecar?. a ser "domes t icada" , estabi1 i zadas as
margens e as dunas . construidas as
primeiras
povoacSes
em torno da praia-tinha nascido a moda da viiefiatura maritima em toda a Europa.
Também em Porrugal , uma eiite cui La e
viajada, encabecada
peio
prôprio rei. vai importar rapidamente a nova ideia de que o mar é saudavel eproporciona
um lazer muitoespecial.
Comecam asprimeiras
instalagães
, inicialmen*.e em cítios jã hãmuito habitados. como é o caso de Cascais. velha e decadente vi'a de pescadores. 0 passo seguinte, naturalmente. vai ser a
colonizacão
de novos locais,que pela sua
situagão
e condigoes estruturais,oferegam boas
prespectivas
de sucesso.São estas estâncias. concebidas desde a
origem para a vilegiatura balnear . que fazem o
objecto central do nosso estudo, limitado a um pequeno conjunto da maior importãncia no contexto nacionai
-os chamados Es toris : Monte Estoril. Estoril (Santo
Antônio),
Alto E-storii. S. João do Estorii e S. Pedro do Estoril,0 que se
pretende
definir é. sobretudo. aforma de
colonizagão
einstalagão
feitas nestes locais e. por isso, o periodo de tempo escolhido abrangerá os últimos vinte anos do século passado e os primeiros trinta deste século. 0 ano de 1880 marca o início da primeira instalagao sistemãtica noEstoril.
quando
a moda e o prestígio da vizinhapraia de Cascais jã estavam fortemente instituidos
pela
preferência
do rei . No outro extremo, o ano de1930, marca também uma viragem s ignif icativa na vida do Estoril a
construcão
do casino-destacando def init i vamente uraa das novas
povoagães
. desde entaosúmula representativa de todos os "Estoris".
- 4
balnear vai ter necessidade de modelos: de sociedace, com as suas
práticas
-aristocrãt icas ,
burguesas , artísticas. etc.
-de arquitectura tradic ional . nacional, exôtica. etc.
-de urbanismo
pitoresco,
empirico, racional izado . . . A partidaexistem os exemplos das vilegiaturas já bem conhecidas
-o campo, a montanha e as termas
-e
sempre a imagem presente da cidade a cujas
populacães
de destinavam,pref
erencialmente . asnovas
estagSes
ce banhos ,A verdade é que a imagem inicial nao procede duma única representagao e não é também um projecto ideai , totaimente
programado
. Elabora-se sobrefragmentos construidos e sobre outros da
ideologia
urbanĩstica dominante. Assim, junta pedagoo dispersos do país e do estran§eiro, da montanha e do mar , da cidade e do campo , e elementos de
ideologias,
sobre o mundo moderno. aristocrãtico,cosmopolita, da vilegiatura, das viagens, do exotismo, etc. . £ a imagem sintétioa durn centro
urbano imaginário feita de
palavras.
de nomes . detr.icos. <ie silhuetas, de cores, de "estilos", mas tambem de gestos, de ritmos e de ritos.
Os modelos mais
prôximos
vão ser as termas e a montanha, uma vez que. a estancia de banhos de mar será, antes de mais, uma estância de cura. 0 banho de mar adquire,pela
propaganda , umpoder
semeihanteao das águas mais célebres. é uma hidroterapia de
qualidade irapar , e o ar do mar tão revigorante como
o da montanha. Da í que a nova estância de lazer e de cura se encha. por
reprodugão,
deequipamentos
cujo uso e forma são conhecidos e reconhecidos .Antes de mais , uma soma de ediflcios que se tornarão
indispensaveis
, para que um bocado de costaurbanizada possa ser denominada de estancia balnear.
Serão essencialmente : o Estabelecimento de Banhos
(ou de Hidroterapia ) , o Casino, o Grande Hotel. o
molhe. as cabinas, a praga. o jardim inglSs e. acessoriamente . o pon
tão-passe
io e certos tipos de"villas". Rápidamente se juntam também a estes os
moda . Por vezss as
fur.gSes
sobrepĩjem-se
ou nãoexistem referer. tes , corno é o caso dos casinos. cuja
imagem
arqui
tec tonica e social levará muito tempo a instituir. De sLa sínteserepresentativ
a fazem também parte as escolhas arquitectônicas das casasparticulares
-chalel. suigo,
paiacete,
"cottage". "castelo medieval"-numa diversidade de estilos
•apresentadas como um caialo&o, umas ao pt' uau outras. Sô ao fim de trint.a anos de "cosmopolit ismo arqui tectônico" as
tipologias
urbanas dequaiidade
se instaiam maior itariamente á beira-mar. Do mesmo modo os modelos de urbanismo misturam imagens que têm a ver com a montanha, asgrandes
prespectivas da cidade e aorganizagão
rudimentar dos subũrbios. Masaqui
intervem aorganizacão
do territôrio que depende de modos deespeculagao
diferentes-levado a cabo, nuns casos . por um pequeno grupo de forma
global . noutros casos, difusa, sem
plano
deconjunto.
Urbanismo.
arquitectura
particular
eequipamentos procuram uma forma "moderna" para um conceito novo
-a praia
-importando ou naciona1izando
experiências
aiheias. com oobjectivo
de dar resposta a uma sociedade que se transforma rapidamente. Sociedade que também se alarga. antes de mais para fora das elites das vilegiaturas tradicionais , e depois, para além das fronteiras. Êo turismo internacional que comega a ganhar uma
importância cada vez maior nas
preocupagães
dospaíses europeus e que vai estar serapre presente nas
intengães
dos promotores mais esc larec idos .Daqui
aexploragao de um outro conceito conhecido
-a
vilegiatura climãtica
-que , sobretudo os ingleses.
tinham divulgado, escolhendo locais amenos como o sul de Franga , ou a Ilha da Madeira. para passar os
meses mais frios. A costa portuguesa, mais ainda nas
proximidades de Lisboa, tinha uma vantagem assinalãvel para se tornar uma "rival" das grandes estâncias internacionais . A estância balnear
excelente, juntavam-se as condigoes para ser também estância de inverno.
-b
Sob as suas diferentes componentes. procura-se encontrar uma imagem de
partida,
"ideal".que inclue representagoes anteriores
já
construidas. mas também sistemas de ideias não espacializados,como o dinamismo ou o "movimento" da era moderna. 0 resul tado concreto desta sintese de modelos é o que nos ocupa neste trabalho. Diferente em cada urn dos casos , ele é sempre
quaiquer
coisa que fica
-a
-Para os homens do Romantismo. a
vilegiatura
por excelência era a montanha. tal como no Renascimento era moda de elite possuir uma "villa" na nossa muito "toscana" margem sul :io
Te^o.
Estapaixão
maior do sũculo dezanove , materializou-seentre ncs. de forma suolime. na serra de oin'ra, sĩtio de veihos pergammhos que vêem do comego da
nacionalidade. Admirada pur Byron, como vnlen.io sô por si um pa1s inteiro. ganhou uma aura mitica com a
geragâ'o
romãntica que , iongamente. perdurarâ.Tradicionalment.e looal de vi
legiatura
real. torna-secom D. Fernando e o seu castelo, o sonho realizado, aqui. ás portas de Lisboa,
E no final do periodo romântico que surge a nova moda da vilegiatura marítima. 0 mar .
inicialmente amado pela sensibi 1 idade propria do tempo, pelo seu carãcter simultaneamente belo e
trágico, fascinante e medonho. imensa forga da natureza com que os espíritos sensiveis ou artísticos gostavam de se identificar , vai ser
apropriado pe1a sociedade
burguesa
do fim do século em moldes bem diferentes-a praia prcporciona fêrias saudãveis e a
exploragão
de locais priveligiados é um factor de progresso econômico.Para além disso,
pãe-se
ainda uma outra questao que se reveste da maiorimportância:
as vilegiaturas tradicionais são extremamente f echadas , acessíveis apenas a um pequeno grupo social e economico. enquanto a praia abria novas possibi 1 idades ãs classes médias citadinas. As estâncias recéra construidas, sem histôria e semtradigão.
são mais"
democrá t icas"
, multipl icam-se ao longo da costa,
oferecendo inúmeras hipôteses de escolha para o descanso e divertimento de uma sociedade que trabalha e deseja os benefícios da nova era.
É. portanto, num movimento conjunto que vemos toda uma sociedade, ao longo dos últimos trinta anos
populagão
de Lisboa vao ser,pref
erencialmente aspraias
que se estendem de Belem ate Cascais. comopara o centro o maior ponto Jo encontro será a
Figueira
da Foz , ou para os portuenses. a Pôvoa doVarzira ou a Granja. Iniciaimente sao os portos com areal e ájuas calmas que se transformarn . pela r.ova
procura. em locais de vilegiatura balnear. Mas . -í
semelhanga do que acontecia por toda a
Europa
, novaspovoagSes
nascem exclusivamente em fur.gao dosveraneantes. Tanto para estas últiraas como para as
primeiras,
no encanto, haveraprofundas
diferengasde
prestígio
social, em resultado, em primeirolugar , da forma de
colonizagão
inicial. Cascais êuma
praia
de elite porque recebe os favores da cortee da aris tocracia que veraneava habitualmente em Sintra. Do mesmo modo a Granja d is r. inguia-se das restantes
praias
do norte porque é ■_>continuagão
domeio feohado e res'.rito da alta sociedade do Porto.
Esta
vocagâ'o
elitista de Cascais, impostapela escolha de uma classe, é observada por Ramalho Ortigao il). em 1888. da seguinte maneira:
"Com os primeiros dias de Setembro. terminou o periodo
consagrado
pela moda âvilegiatura
de Sintra. Desde que o mês de Agosto f inda. ate que S.Carlos comega , prescrevem as praxes que a estagao
marítima suceda å estagao de montanha. Enchem-se nesta época, até deitar por fora . as praias de
banhos da baía do Tejo e do litoral, desde Setúbal até Sncora. Lisboa inteira debanda. (...) Mas , de
todas as praias portuguesas, é principalmente
Cascais a que herda de Sintra a el i te do seu verão."
Apesar desta
pref
erência, Ramalho. que tinha ideiasbem defenidas do que deveria ser uma estância balnear, nao deixa de acrescentar a sua crítica:
"Para correspoder ã posse deste privilégio de chique balnear , Cascais , alêm da serenidade azul da
sua baía e da cidadela em que por algum tempo reside a família real,
dispSe
apenas de um mediocre hotel.-10 -oe um pacato ;1ube de c o m o o de sport :- um casi no de uma botica hospitalei ra ,
0
aspec to
onde ã
piano. :oor -: ing
noite se joga ou se bailarica ao
Club instalou-se no recinto anteriormente ccntiecido
pelo nome de pa r ada . e deu ao
lugar
um arzinho decivilizagão,
que nao deixa desurpreender
um pouccnuma
prai-a
nacîonal . (...) Desde que o casino seas salas fechaai-se, e a convivência faz-se abre ,
nessa e ;ua
espécie de praga
pública.
coberta por um tecto r.ec :.da de um certo nũmero d<;< cadeiras ."
'■-Juas'î vinte anos depois. a mesma transferência d-_> locais na moda contir.ua, c:rn a única diferenca de Cascais aparecor
"alar?ado"
ateaos "Estoris" . como nos inforraa o interessante
; •ncao a r r igg ■.: "Sintrii Vi ie.-?ia*u r a "Com a saida Cast-=lo da Pena . e1esante . ror t u~ue coni í ;uio da Ncbreza" :
de sua
magestade
a Rainha dogrande
parte dossapopulagão
qu e ha três m e s e s está a nira,.indo c o m os seus raoiits , as suas garden-part ies e os seus
pic-nics a uormosa vila de Sintra, prinoipia a acud
diau
a tasoais e a o s
a
vilegiatura
def initivamen te para a heráldica de S. Carlos
passará
para a paisagementre a poeira do Monte
Estoris. Dent.ro de poucos da corte transfore-se
beira-mar ( . . . 1 a Lisboa
e das rc-cepgoes ce g-ala africana do litoral. para Estoril, em frente ã toalha de águas cintilantes, (...) que desde a fortaleza de S. Julião da Barra se desdobra até a cidadela. num arco de circulo imenso, emoldurado de povoagoes de
luxo e de recreio.
A essas duas paisagens diferent.es corresponde
um modo de vida diverso. Sintra é um centro de
reunião
t radicionalmente exclus i vis ta . (...) Acentenária vila ficou sempre aristocrática, atra\ es os tempos e as
revolugSes.
Sintra é ainda hoje. com rarasexcepgães.
apanágio de uma casta. (...) Sintra é, hereditar iamente , umapropriedade
particular: apropriedade
de uma classe. A vida de Sintra é aindauraa vida senhorial, uma vida de quinta. ao abrigo de muros heráldicos. (...) Em Cascais nada resta que
lembre o passado. (...) esta
grar.de
familia mundana. que habita Sintra de Julho a Setembro, dando-se oluxo de um exclusivismo que estã longe de raanter
logo a
seguir
em Cascais. essa pequena socied-jJt;elegante e formalista. que faz escola de boas
maneiras, nâ'o e, a bem dizer, uma nata fidaiga, que
se retrai ã convivência do intruso com receio de desmerecer na sua nobreza inacessí vei . A nobreza,
hoje. é mais de
educagão
que de sangue . Associedades privi 1
igiadas
são hojeaglomoragoes
heterogeneas. onde ha um pouco de tudo : do
fidaigo
e do banoueiro . do grande senhor e do par venu , dojanota e do
politico.
(...) Sintra conservou-se,pela sua natureza topográfica. uma vilegiatura de
proprietár ios . Os seus hotéis lão apenas de almogar
aos lisboetas nos domingos e quase sô hospedam
ingieses.
Não há uma praia, um parque , um casino, umclub, que favorega a reuniâ'o de elementos estranhos
(
. . .)
Sintra. como mais parte alguma
-a não ser talvez na pretenciosa
Granja,
onde se reune umsimulacro de grande sociedade , no fundo
inofensivamente burguesa,
-presta-se. pelo seu
regime de
propriedade.
a essa selegao.impossível
de obter hoje em diapela
imposigão
depreconceitos
declaradamente aristocrãticos (...) e de que faria parte integrante aligagão
elêctrica com os Cascais f lorescente e animado dos bailes, dos concertos e dajogatina.
(...)
Seria necessário banir as famíliasdas suas
propriedades,
entregar a quinta do Duqueaos croupiers . o
palãcio
de Seteais a um empresário(etc.) para fazer de Sintra uma colmeia cosmopolita de jouisseurs : espécie de Mônaco de que os Estoris e Cascais seriam a Nice dos gran-duques e dos
ingleses, das rainhas destronadas e dos
aventureiros. " (2)
0
perspicaz
autor do texto dá-nos uma imagemmuito clara de aspectos fundamentais
-a
complementaridade entre Sintra e Cascais, agora alargado ao Monte Estoril. para a vilegiatura de uma certa classe; a diferenga do modo de vida entre a montanha e a praia, sendo esta mais aberta ãs
-
1-misturas sociais em
cosequência
quer da forma deinstalagão,
quer das suas actividaces prôprias; oretrato correcto da sociedade
privilegiada
que efect ivamente povoava as eståncias ua moda-e uma
previsao que se veiu a realisar quanto ao
refũgio
escolhido pelascabegas
coroadas caidas em desgi'aga.Lisboa. Sintra, Cascais
-acsim se
constituiu, pelo bom gosto dos nossos reis, o
"triângulo
turístico" que , ainda hoje. funciona ccmoum dos r.ossos mais fortes cartoes de visita para o
estrangeiro.
Cascais iniciava uma nova era como centro do
cosmopo1 i tismo snob, como estância privi
legiada
, queguardará
para sempre. Tudo comegou uuando D. Luis,amante da marinharia, decidiu escolher a velha
cidadela para passar o fim do verão e o comego do
outono. As
instalagSes
militares foram sumariamente adaptadas ã sua nova fungao e. até ao fim da monarquia, apesar dascondigSes
precárias que posteriores obras nao alteraram. a familia real lâirá habitar dois meses por ano.
Atrás do rei e da rainha vem a corte. os aristocratas e. naturalmente, os novos senhores do dinheiro que se querem promover pela
proximidade
do poder. Como o secretário de el-rei D, Carloj , oconde de Arnoso, ou o 'oem sucedido
Jorge
O'Neill. são sobretudo estes grupos que vão construir as suas residências de veraneio era Cascais. Porém. a moda do veraneio balnear e o prestĩgio da vila aumentamrápidamente e, ao núcleo restrito inicial, junta-se
ura número cada vez maior de veraneantes que serão obrigados a instalar-se em casas alugadas dentro do velho burgo: "Ao núcleo primitivo. vieram juntar-se o resto da sociedade e os snobs . os que queriam
dizer aos amigos . aos conhecidos:- Estou em Cascais.
( .
. . ) Hã reduzido número de famílias que habita
prédios confortáveis .
(...)
Em regra, em Cascais .ninguém tem casa para receber. (...) Floresce ali , a
clássica casa de praia , com môveis
primitivos,
espelhos que guardam ciosamente as imagens e não as refletem. camas claudicantes, colchoes
inospi taleiros.
"
( 3 )
Mas fagamos uma paragem nas
principais
construgSes
realizadas já que "operiodo
inauguraldo veraneio em Cascais legou a vila um valioso patrimônio arqui tec tôn ico que. para essa época. sô
com Sintra pode ser comparado" (4i e, acima de tudo.
porque elas consti .uem um conjunto hetero-géneo de modelos que marcarâ as escolhas das estâncias vizinhas. Quase tcdas
debrugadas
sobre o mar. estascasas pcléraicas encontram-se ainda sob a influência do Palácio da Pena . exemplo maior do ecletismo
nacional, que longimente funcionou como raodelo acabado da residência secundária, onde os valores da fantasi.a e do sonho se sobrepunham aos pragmáticos
da
habitagão
urbana. "Num tempo em %;ue aarqui tec tura of iciosamente se pautav.a peio gosto ecléctico das escolas de Belas-Artes de
filiagão
parisiense.
e uma prãtica empolada do desenhorecalcava os desafios modernos da engenharia. elas foram. na sua tolerada liberdade, o outro lado da
norma, presas ai:s mesmos dúbios enredos (...) 0
gcsto d-a diferenga e a capacidade de surpreender invadiram a convencional beleza sensata da arquitectura,
exprimindo
assim a crise do fim doséculo que. com idêntica ou raaior violência, se
manifestava na pintura e na literatura, através da definitiva ul t rapassagera dos realismos natural istas"
(5) .
A primeira destas residências de qualidade foi encomenda dos duques de Palmela que , em 1868, compraram o forte da
Conceigão.
iogo á entrada da vila. Dominando a baía. do lado oposto ã cidadela-pago
real , a casa dos duques teve projectodo arquitecto
inglês
Thomas Henry Wyatt e. em 1873, dela diz Pedro Barruncho:"(...) å beira-mar, no local do forte da
Conceigão.
está o sr. duque construindo um palácio,cujo risco se diz ser sumamente curioso e obra de um dos melhores arquitectos ingleses. Há de conter. segundo dizem, um pavimento abaixo do nível do solo, rez-de-chaussêe , andar nobre , e mansarda, devendo
-11-mostrar. ■:■ tcdo exterior da edificaoao, a aparenoia de uma Aoadia em ruinas"v6).
A luxuosa residência
(fig.l)
pertence, de facto, ãtipologia
do cha1e t rústico, com umaplanta
extremameri te eiaborada num jogo de corpos diferentesque multiplica as pe
rspecti
vas. Numa mesma atitudeestétic:i, o raodelo
completa-se
peĩo revestimento de pedra rúatica. os teihados de duas águas ccra águas i'urtadas e uma entrada deângulo.
onde se concentra a decoracao, fiiiada na arquitectura revivalista in^Tesa ,Nestes mesmos anos é concluĩdo o
palace*e
doDuque
de Loulê, sobre o promontorio oĸosto ã casaPaimela, fechando a ocidente a praia da
Concsigão
. Eum projecto de L.u is Caet.ano Pedro de Aviia, arquitecto que estudara em Paris com Garnier e. por isso, assegurava a capacidade decorativa que agradava ã nova aris tocracia. A casa, já pronta em 1873. é assim descrita. mais uma v e z por Pedro
Barr uncho i 7 ) :
"0 palâcio do sr. conde de V'ale dos ileis esta em seguiía ao do sr. duque de Palmela (...}. Assente sobre rochas , e, pela origina1 idade da sua forma
arqui tec tonica , a
edificagão
que mais prende aatengå'o
de todas as pessoas que visitamCascais,
onde . até hoje, não tem rival, e mesmo não :onsta que no país haja outra seraelhante.
Vê-se que foi obra tragada e dirigida por um verdadeiro artista. porque toda ela obedece a um pensamento artístico. A arquitectura faz sobressair no fundo o estilo de Luís XIII, mas ornamentada com rerainiscênc ias da antiguidade grega e árabe ,
harmoniosamen te combinadas. 0 palácio apresenta pois
um aspecto ao mesmo tempo alegre e magestoso, o que
condiz com o lugar em que foi levantado. â beira do Oceano, e dominando um panorama ora festivo ora severo.
Ocupa
uma área talvez de duzentos metros quadrados. sendo dividido em três andares : rés-do-ciiao . primeiro e mansardas . Asparedes
exteriores apresentam um bonito xadrez de tijolo encarnado. A cantaria das portas e janelas é
alternada de pedras
grandes
e pequer.as , conforme oestilo de Luís XIII. A cobertura superior do edificio abriga engenhosaraente as mansardas, e é toda pintada de cor de ardcsia. Forma anteriormanle cinco
pavilhoes.
dos quais os três mais salientes terminam em graciosas agulhas áouradas. com cataventos !...)." Moradia emole:natio;i(fig.2).
tantopeio
iesenho elaborado como peia suaimplantagão,
i'uncionou com o ch ale: Palmela deniodêlo inici.nl mul t
ipi
icado , de maneira menoserudita. por Cascais e Estoris .
A terceira residencia que nos ocupa é. novamente . uma encomenda da famiiia Palmela. a Casa
Faial, edificada em 1896
segundo
um projecto de mestre José Luís Monteiro, a ocidonte ua anterior moradia(fig.3).
Mais simples de meios e de programa ê, no entanto, profundamenteinspirada
no raodelo de Wyatt,adoptando
a mesma voluraetriacompôsita, o mesmo ti po de revest imen to rústico e a mesma cobertura de telhados de duas aguas .
mu1 t
ipl
icadcs nas águas furtadas.Do mesrao ano de 1896, e sempre sobre o mar , é
uma curiosa casa mandada construir por Joaquim da
Silva Leitão na Avenida D. Carlos I. que liga a
praia da Ribeira â cidadela. 0 projecto é de Antônio José Dias da Silva. autor eclêtico da Praga de Touros do Canipo Pequeno em Lisboa, e nada tem a ver
com os
exemplos
anteriores. Trata-se de um programarauito prôximo das
tipologias
urbanas. com planta convencional organizada sobre o fundo do estreitolote , e uma
distribuigão
generosa de aberturas nafachada virada ao mar . As marcas da diferenga estão
apenas na cobertura e, sobretudo. no corpo de
varandas de ferro que acompanha o algado principal e
que , alterando a leitura do edifício, destaca este
elemento, estética e funcionaimon te diferente
(fig.4)
. Esta casa foi modelo de uma longa série emCascais, sobretudo para as zonas de limitado espago ,
e continuará o seu sucesso nos Estoris .
Em 1899 , e na mesma zona de maior
ocupacão
do
-16
-ã
tipologia
do palacete de cioade. Falamos dos doisedificios que se erguem em frente ã entrada da
cidadela, autênticas fachadas de aparato para os percursos do rei
(fig-5).
A priraeira foi encomenda do conselheiro Luís Augusto Perestrelo e a vizinha de Trindade Baptista. Sao duas luxuosas residências, cje planta convencional , mas de "rosto" muitoelaborado, cheias de frisos, frontoes , molduras,
mísulas. etc. . como num catálogo de desenhos das
Be ias-Artes.
Mas voltemos ao mar e contcrnemos a velha cidadela para chegarmos âs
proximidudes
do farol de Santa Marta. or.de se erguem três ca.sas d,a maior import.ancia para a nossaquostão
-a
arqui
tec turu deveraneio.
A primeira que encontramos é a residância do Conde de Arnoso, construida cerca de 1890. e
designada
pelo seu proprietário por "casa minhota"( fig . 6 e 7 ) . Na
pol
émica estil istica do fim doséculo. esta casa introduzia ern Cascais j questao da "casa portuguesa". Acerca dela escreveu Ramalho Or t
igão
:"Com o seu pequeno eirado sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de
alpendre
num patamar de escada extericr, ao lado do retábulo emazulejo
do santo padroeiro da famĩlia. as janelas de peizo guarnecidas de rotulas entre cachorros de pedra. destinados ãs varas do estendal. e sorvindo de misula os vasos de craveiros e mangericos, em frente do pogo de roldana. no mais doce e tranquilo sorriso de outrora." (8)E curioso constatar que Ramalho, homem culto e sempre pronto ã crítica arquitectônica . admire
este edificio mais
pelos
seus valores decorativos e exteriores do portuguesismo que pela sua dinâraica estrutural encontrada na arquitectura tradicional. Este erro grosseiro será dificilmente corrigido e os anos de dominio quase absoluto do gostoportuguês
irá
prová-lo.
A "Casa de S. Bernardo" é umaexperiência
precoce , conduzidapelo
seu proprietãriorevivalismos da época , desde o "Tudor" ingles até
aos classicismos irancês e italiano. De
composigão
rigorosa. ccm um rés-do-chão de arcadas , um
primeiro
andar com
alpendrados
ejanelas
deângulo,
numa evídente eficácia nacaptagão
e filtragem da luz.não îeve o poier de
sugestcio
que a suaqualidade
merecia.0 mesmo não acontece com a ca:sa que Jorge O'Neill mandou ccnstruir para lá da pequna ponte e meia sobre a praia de Santa Marta.
Segundo
Pedro Faicac :9) a ideia doprojecto
teriasurgido
de um escorgo de Manini ,cenôgrafo
e pintor italianoprest
igi.ado
. que teve algumasprestagSes
arqui
tec tonicas importantes. Talvez por isso,O'Neill escolheu Francisco Vilaija, também pintor que, recentemente deser.hara a casa do Dr
. Manuel
Duarte no Monte Estril. A "Torre de São Sebastiao"
(fig.8)
é uma luxuosa e eclética mansâ'ocuja
principai
qunlidade
é amagnífica
insergão
no local.No entanto. ela foi a residência de veraneio de Cascai.v que maior irapacte teve , mesmo em espĩritos
esclarecidos como Carlos Malheiro Dias:
"( . . ,
)E
á beira desta estrada (Guia.) , deincomparável beleza, com os seus dilatados panoramas marítimos e agrestes, entre serra e raar. que o sr. Jcrge O'NeiIl erigiu a mais teatral v i 1 Ia de verlo.
que a
imaginagão
de um artista possa idealizar emhoras de
inspirada
fantasia, empleno
delírio degrandezas .
Quando . dobrada a última muralha da cidadela,
passado o recinto do tiro aos pombos e ,a linda casa minhota do sr. conde de Arnoso , se descobre o
primeiro
lango de mar para aesquerda
e a casaO'Neill para a direita. o mais apaixonadc admirador da natureza voltará, sem hesitar, as costas ao oceano. quedando na
contemplagão
embevecida dessepalácio
de drama histôrico (...) a casa do sr. JorgeO'Neill é,
digamo-lo
sem demora, conjuntamente com opalácio
do sr.marquês
da Foz , era Torres Novas , umdos mais belos. dos mais harmoniosos . dos mais
-18
-o gosto requintad is3ira-o de ura artista e a c lênc ia de
um arquiteoto tem ncs últimos cinquer.ta anoc
levantado em terra portuguesa. Nada se pode
comparar . entre os centos de edi f
icagSes
pretenciosas
com que se enfeitaram Cascais e osEstoris, a esta morida ae príncipo, teatralmente &r'icia r,i sua escarpa. e onde se vê-'sm reunidos o: mais originais raotivos ar-jui tectôn icos
compiiadcs
pelo
alemáo Albrechr. Haupt no seu tratado da Renascenga era Portugai . í . . . ; Projecto de Vilaga
-um
pintor
-. a torre de S. Sebasti'ao deve a esracolabor a
:lo
ilustre, tão in te1igentemen t e soiicitada. a s:.;n impress ionante beleza decorativa. Com a sua tor:"sla de menagem, os seus minaretes, assuas adufas, o seu
alpendre
d.i "Sempre N'oiva", a sua ■-'aranda românica, as suas cúpulas de azulejos. os seus telhados mouriscos. as suasjanelinhas
de colunasgeminadas.
essa casa ficou sendo .mi raculosamente . mais do que um edifício, uma
pintura.
Aadaptagão
de estilos diversos a um mesmoconjunto harmônico.
guiada
por um notibilissimo talento seiecionador,alcungou
produzir
. namu 1 tiplic idade . na variedade e no pitoresco, uma
obra prima. Duvido que um arquitecto tivesse pcdido combinar elementos na
aparência
tão heterogeneos emcomposigao tão harmoniosamente ornamenta1 . Para que
a casa û'Neill assim resultasse bela. foi
indispensável
ao autor doprojecto
o ĩibertar-se dasfárrauias consagradas á arte de construir e
insurgir-se contra os preconceitos clássicos, que
imobilizam a imaginagao, mesmo a mais ousada, de um
arquitecto ( . . . )". (10)
0 texto de 1906 é
prof
undamente esclarecedordaquilo
que aqui mais nos interessa
-nestes anos em
que nasceram as nossas principais estâncias balneares, é crenga
generalizada
que arenovagSo
daarquitectura está nos revivalismos . combinados de
forma eclética e original pelas novas técnicas construt ivas : a casa de veraneio é um espago
priveligiado
para as mais "ousadas" experiências e o-vijectivos "mara'.'ilhoso" .
"?i
tcresco" . "teatral".são ainda sintomas duma sensibi 1 idade tardn-romântica,
cujo
modelo era ainda. em últirna anaiise, o Palácio ja Pena; îinaimente, o probiemasempre presenta e sô
ultrapassado
pcr rarosarquitectos e depois
pelo
modernismo. que é o dos valores ornanientais sesobreporem
aos valores estruturais .Fazendo parte desses poucos arquitectos está llaul Lino. autor da terceira casa de Santa Marta.
tarabém p-ara
Jorge
O'Neill, que é a mais beia •=;importante pega do patrimônio arqui tectonico de Cascais. Construida sobre as rochas que separam a pequena
praia
do farol, a "Casa d>> Santa Maria", e um edificio alongado, composto organicamen
te numdiálogo permanínre entre exterior e inter.or. Utilizando com mestria os elementos mais diversos do vocabulário tradicional - aberturas
pouco
dimensionadas . formas da
arquitectura
mediterrânicado sul do país, arcos ue ferradura arabizantes,
espagos
alpendrados.
pombal
, ameias, ccrucheuscônicos. telhados esoalonados e beirais
-o
arquitecto produziu uma síntase do seu er.tendimento da "casa
portuguesa"
ern que a rica decoragao nunca faz perder de vista os valores prôprios ao habitar(fig.9).
Regressemos ás águas da praia da
Conoeigão
para admirarmos mais um
exemplo
curioso de revivalismo. também construido nessesprimeiros
anos do século. Trata-se da casa de Antônio Lencastre,estrategicamente erguida entra o chalet Faial e a casa Louĩé. e atribuida por Pedro Falcão a "um
a.-quitecto italiano" (11). Procura ainda afirmar a
diferenga e provocar a
admiragão,
utiiizando a voiumetria tradicional de chalet com torreão lateral e a sugestao de palacete i tal ianizante no corpoprincipal
(fig.10).
Os elementos decorativosarabizantes.
neogôticos
e manuelinos. a estranhaguarita
e os telhados araarelos , raarcam o ecletismoelaborado e fantasista que presidiu a este projecto. Até 1910, Cascais tornara-se vila de Corte, e
-30
-"Casa
Portuguesa"
que . como vimos. tivera umaprimeira
reaiizagião
excepcional
logo em 18l*3.0 modelo arquitectbnico por excelência deixou
de ser o dos
chalets-palacetes
para se materializarna "Casa S. Paulo". no n°35 da Av . Marques Leal . Foi
edii'icado em 1911 para Benedicta Aives de M«llo Nogueira, natural do Brasil. e desconhecemos o seu desenhador. E um enorme oasarão de gosto
português,
levantado num dos melhores locais sobrar.ceiros ao mar . dominando toda a baia , ao c imo de um alto
paredao
ccm terragos sobre a praia. Conserva ainda.como marca do local , um torre'.ao oitavado de
cobertu:-.:
pcntiaguda,
mas inserido numa volumetria ondeada epcntuada
por todos os elementos tipicos Oogosto
português
alpendres
sobre colunatas. beirais. águus furtadas-reforgado ainda
pelos
p.iinéis
de azulejos azuis e bnr.cos que, nos painéisda fachada poente
(fig.
. .). evocam achegada
deP'ĩdro Alvares Cabr.il ao Brasil e a prime.ra missa ai
realizada. E. evi den temente . um exemplo
excepcional
mus que dá o "inote" a
grande
parte d.a arquitectura posterior. A casa pertenceudepois
ao Dr. AzeredoPerdigao
e. ern 1943, Branca de Gonta considera-a o"exemplar
mais decorativo" de todos os"palacetes
ostentosos" que em S. Joao se erguem "para as bandps do mar
"
.
Em 1912, e å semelhanga do que vimos
acontecer no Monte Estoril. aparcce o primeiro
exemplo de um gosto extremamente decorativo. tiranoo
partido
dos frisos de azulejos coloridos eutilizando
pref
erer:ialmente o arco redondo nas aberturas. Estamos a falar do projecto encomendadopor Maria Amália Pereira Lopes para a Av. Marques Leal, ao arquitecto Tertuliano Lacerda Marques. Veraneante em S. João do Estoril, o seu nome está
ligado a uma série de
construgSes
posteriores onde .contrariamente ao que acontece neste primeiro
exemplo,
se veioula o gos'.oportuguês.
Esta casafoi publicada em Janeiro de 1913 em A Construgao Moderna (19) onde se atribui a autoria ao arquitecto
viu edificar nas suas mais belas cenografias uni
conjunto de oxperiências arquitectônicas . mui to
diferentes na forma. que nem sempre no espirito. que
îuncionaram. naturaimente . como modelos máximos das
capacidades
de uraa época.Mas . passados os priraeiros anos da
Repúblioa.
em que Cascais sofreu oom as conotagoes reais de que
há rauito vivia, não ê uma verdade ira novidade que
vemos surgir para dar corpo ås casas de veranoio.
Vejarnos
dois exempios. 0 primeiro. e a casa dosccndes de Monte Real
ífig.li),
construida em 1920 peio arquiteoto Guilherme Gomes, sobre a Av . D.Carlos I. Ela demonstra, sobretudo, o triuní'o do gosto da casa portuguesa ,
prof
undamente inspirado namagnifica
prestagão
de Raul Lino. masaprovei
tando- lhe apenas alguns valores semânticosque as
reprodugSes
incontãveis vao norraalizar eempobrecer .
0 segundo edificio é o
palcete
Seixas. ".ambêm de 1920, construidc junto â praia da Ribeira comprojecto de Ncrte Jũnior
(fig.li'i.
Com a suacomplicada composigao, as suas empenas de pedra, o seu torreão de cobertura pontiaguda. nada parece ter
que o distinga das primeiras
edificagoes
de trinta a n o s antes.Agarrada ainda aos princípios da excepgao e do anti-urbano, a arquitectura de veraneio em Cascais não se deixou penetrar pelos rigores do primeiro modernismo que sô no novo
"palco"
oe veraneio do Es to ri 1puderam
surgir.Habitando a residência dos seus sonhos ou
precariaraente instalada ern casas alugadas, esta sociedade de "eleitos" onde pontificava o prôprio rei. vai também criar regras de vivência para o veraneio balnear que as novas estâncias não podiam deixar de copiar. A aura aristocrática e cosmopolita de Cascais, durante o
periodo
em que a cidadela ostentava opavilhão
real . funcionava para todascomo símbolo de inultrapassâve1 bom gosto. De acordo com a Gazeta dos Caminhos-de-Ferro
(12)
em 1899
-21
-Cascais tinha tudo para ;er uma estância "elegar.te:
"Para forraar uma estagao d*-. banhos , hã que
ter
liirg.îs
avenidas ensombradas de árvores . bonitospasseios com banoos. elegantes chalets entremeando com outras edif
icagães
ma is modestas, hotéis razoáveis onde se encontre boa comida epousada
coní'ortave1 , iluminagao nas ruas e pragas , asseiopor toda a purte , um ou dois clubes elegar. tes para
as valsas e os jogos ã noite, um parque para os
passeios á tarie e um estabe Ieoimercto de banhos de ãgua doce .
Ora tudo isto se encontra em Cascais. a1■■>m de muitos outros atractivos que fazem daquela viia uma
estagão
de ãguas a vaier.A Avenida Maria Pia (...) é um dos passeios favoritos dos banhistas (...). L'ma nova aveniUa.
aberta ha poucos dias . parte directamente da
estagão
do caminho-de-ferro até ao centro da vila. Be:n proximo encontra-se o ridente parque . a praga Serpa
Pinto, moderno jardim embelezado por um lugo
artístico, um coreto, canteiros ie fiores.
grandes
tapetes de gar.on , tendo ao centro o elegante
Soort ing-'.'lub. centro de reunião da sociedade raais elegante que frequenta Cascais ( . . . ) .
Numa terra onde o grande atractivo e o mar
que a banha. e onde esse mar se abriza numa
maravilhosa bacia que permite os exercîcios de sport nautico, um clube com uma vasta galeria sobre a:.:
águas é acessôrio ind
ispensável
. E o terrago docasino de Cascais satisfaz a este requesito complet amente , sendo de um belo efeito quando . em
dia de regata, uma populagao imensa o enche em toda a sua grande extensão.
No género de
edificagSes
elegantes
tem Cascais jã grande quantidade e degrande
valor.( . . . )
Para os que vão passar ali. algum tempo. Cascais oferece todas as comodidades. Não sô hã casas que se alugarn por pregos econômicos, como estabelec imentos fornecidos de todos os géneros,
Para os que r•->n rn■*.m que vir â cidado com
frequencia ha oito coraboios descendentes e oito •ascendentes por dia.
(...)
Beios
passeios
se podem realizar aos arredorcs dagalante
vila. 0principal,
o mais nctável, é ao famigerado sítio. a Boca do ĩnferno,grandicsa
caverna onde o mar se deba-ce r'ar iosamente .fazendo o raais magestoso efeito. (...)
Iluminagão
eiéctrica ê o que fulta iinda aCasoais!
"
Na verdade, Cascais não
correspondia
ao retrato ideai descrito no inicio do texto. As "iargas avenidas" que se haviam aberto eram as D. Carlos I e Valbom, que articulavam a praia da Ribeira com a estagao do oaminho-de- fer ro e a cidadeia. A "Aveniia Maria Pia" era umaesplanada.
assim como a Principe Real D. Luís Filipe, dispostas sobre o mar. entre a praia e a cidadela. Os "hotéis razoáveis" eram pratioamente inexisten'.es e, como vereraos , so o aparecimento dos hotéis dos "Estoris"veio proporcionar cômodo alojamento e
restauragão
de bom nível, Pela imprensa da épooa sabemos cambém queo saneamento deixava muito a desejar raas , apesar de
tudo . Cascais mantinha a sua imagem de
excepgão
. Era
lá que se introduziam os jogos da moda , oomo o
lawn-tennis ,
principal
atracgão
desportiva doSport
ing-Club
. no sítio conhecido por parada , ondeos reis muitas vezes se deslocavam. Também aqui se realizavam as festas de caridade
promovi
Jaspelas
senhoras da aristocracia a que a rainha dava o seu contributo. Além do clube real era o parque dasenhora duquesa de Palmela que servia, habitualmente , para estas actividades caritativas. 0
outro clube de Casoais era o casino da Praia
(fig.13).
considerado por Ramalho. como vimos, umbarracao sem ambiente, mas que servia para "as valsas e os jogos ã noite", em
construgão
já em1873, e onde
aqueles
que nião tinham entrada no selecto Sporting. podiam gozar os atractivosprôprios da praia. Também este equipamento típico
-23
-1900, se tornarâ o .-grande centro do jogo na regiao. Cascais possuia. no entanto. duas
opgSes
de entretenimento que nunca foram copiadas: uma pragade touros. onde lidavam os mogos da mais fina
linhagem,
e um teatro autônomo-o teatro Gil Vicente
-construido em 1863 por um negoeiante de Lisbca. e que servia a apresen t
agão
de companhias io Lisboa nMS tambem a saraus organizados pela sociedj'ie elegante da estancia. 0 rei. amador dedespor'os
viris. promevia, por sua vez, duasgrandtis
atracgSes
para a colonia: as regatas realizadas nabaia e as
cagadas
nospinhais
da Marinha, queconfirmavam a Cascais o título de vi 1a de c o rte .
Para esta sociedade de ritos, os passeios nos arredores constituiam também uraa quase ubrig
jgão
. Ospic-nios nos pinhais vizinhos. as caminhadas
pelas
dunas do Guincho ou a visita ao local por excelêncĩa
das
sensagSes
fortes e inesquec iveis-a Boca do Inferno. Ainda em 1324, no Guia de
Portugal
(13), Raul Proenga se extasia com o locai:"A Boca do Inferno é uma
grande
cova aberta na rocha , com escarpas de 20 m de alt. , que ameagamdesabar. As rochas negras. rajadas de estrias ,
parece que foram agora mesmo golpeadas, e que v-artssn laivos de sangue . Pode-se admirar esta caverna em
todos os dias do ano , mas há que vir em dias de
temporal, com ventos de 30 e maré cheia, para gozar
toda a grandeza do
espectâculo.
Então o negro pogoavermalhado é uma verdadeira caldeira do Inferno,
uma terrível cratera refervente."
Cascais, vila de pescadores todo o ano e estancia balnear por três meses , prestigiada pela
presenga da melhor sociedade portuguesa, permitindo
uma convivência social difícil nos centros tradicionais . não deixou de ser. no entanto, uma
pacata vilegiatura e não conheceu o
cosmopol
i t ismo frenético das mais célebres estâncias internac ionais . A sua caracteri sticaespecífica,
queera a de ser real e aristocrática, não foi suf iciente para a transformar num dos pontos de encontro da sociedade mundana europeia, apesar dos
esforgos de activos dirigentes como Cost.a longos anos a frente da C.M.C. . Esse
papel
tentado por
algumas
das estânciasestudaremos. cora resultados que nunca promessas dos seus promotores.
"Mas quando chega o verao l . . . i
alegra ( . . . '• A vila anima-se com o
carru.igens quo passam a fortes de automôveis (... Praia abrem-se. os terr.agos Sporting arranjam-se jogos
praia
( de Pinto . v ai ser que adiante cumpri rão as tudo rocar oas tem ruidos f 1 i r t s comcgados n£ Cascais de burgo trote (...), ) ; a s s a1a s do C ĩub da encnem-se de ^ente î no onde vão continuar os. . . ) .
pescacores transforma -se
entao num cantinho animado onde se
refugiu
a corte. A etiuueta é palavra vã na corte portuguesa; demons'ra-o bem a vilegiatura de SS . MM. nessapraiazinha
de arrabalde. que se va i enchendo decha1cts e de casinhas portuguesas, como a do s r .
bem típica com a sua conde de Arnoso, que
alpendrada
e ospoiais
para vazinhos ,rexas. a velha
gelosia
mouriscacom
singeios o
parreiral
â portajanelas
decom os teihados os cachos a ser-sin
de estagao taz-se porém. o luxo náo oraia bursuesa onde mordidos peio sol.
Em Cascais por este fim como um torvelinho de diversaes existe ali, e oomo se fosse uma
chefes de repartigao curassem os achaques , nâo se vê
uma toi 1e1 1e raais extravagante nem um
jaquetâo
maisinglesado nem um monoculo mais
petulante.
A única coisa que indica ser Cascais a praia da aristocraciasao essas festas do Sport ing , por vezes cheias de
gosto e originais. (...)
A existência ali tem a mesma serenidade e a mesma mansitude, apesar de lá viverem as primeiras familias portuguesas. Não há ali a ruidosa
agitagão
da verde Nice, nem a barulheira com ventos de tragédia da loura Monte Carlo, nem ascavalgadas
estranhas de Aix nem mesmo o luxopretencioso
deVichy. (...)
E ali que se vê a
despretensão
da corte. do
-25
-que se entretêen
jogando
o ter:n:s e a raalha. essejogo plebeu e nacional *,...) e numa grande serenidcde ali se passam dois meses entre o banho da m.anhâ e a diversao do Soorting ã tarde e os concertos do Club da Praia ã noite. dist-inte do mar.
(...)
A mocida-iê elegante essa vai enoontrar-se er.i
Lisboa, em trajos de praía e bebendo bocks no Suico .
"
'■ 1 ! •
"cantinho animadu" não o era suf icientemente para saîisfazer a gente mais nova cora o seu "torvelir.ho de di versr.es" . . .
lĩoas
condigães
naturiis e Loca1izagão
nãopodiam chegar para fazer de Cascais uma estância importante. Como pragma t icamente afirmava Pedro Barruncho, são as vias de
comunicagão
que promovem odesenvolvimento de qualquer povoagao. Na verdade . a
velha vila pisoatoria e desnecessár ia praga militar,
esta'-a há muito em decadencia e dando azo ã
expressao comum
-"uma vez a Cascais e nun-r.a mais". As vias de acesso encontravam-se pratioamente intrans itáveis jã que desde o tempo do senhor marquês de Pombal não eram alteradas. S6 muito lentamente. ao longo do séc . XIX, esta situagao se
modifica, tanto pela iniciativa de "
benemér i tos" como da prôpria Camara. 0 primeiro destes mei horamentos foi a estrada de Cascais para Oeiras,
devida ao empenho do director das Obras Púbiicas,
Joaquim
Antônio Vellez Barreiros, visconde da Luz ,grande apaixonado pela vila que ainda hoje o recorda na sua toponimia. Considerada por Pedro Barruncho corao a verdadeira
"regeneragão
de Cascais", foi concluida em 1864 e depressa "percorrida por trens, chars-á-banc e o rani bu s que faziam aligagão
entre olargo
da Câmara e a praga do Pelourinho, em Lisboa,era duas viagens diárias
-cerca de cinco horas em cada sentido, num percurso acidentado, com mũltiplas paragens . assegurado por cocheiros competente e
afaraados e cinco cavalos por carro" (15). Quatro
para Sintra. des'a vez ã custa dos dinheir-os públicos, "me Ihoramen to nao menos úii1 e importante" já que articulava os dois núcleos mais destacados do veraneio cortesao. "Estas duas estradas", conciuia P'îdro Barruncho, em 1973. "foram as artérias por
onde se injectou o novo sangue que veio dar vida a Cas c ais" :
"Comegaram
as visitas a vila, não a acharamfeia, notaram a pureza do seu ar . descobriram que a
praia tinha beĩezas, encontraram serenas as ondas do oceano que ali vem quebrar-se,
pareceu-lhes
boni taa cos'.a, deparou-se-lhes a boci Jo inferno, de que não tiveram medo , acharam excelente a
comunicagúo
para Sintra. viram nos moradores a bondade e ihaneza do trato, e finalmente concluiram que todas estas
condigoes recomendavam Cascais , maximê n.i estigao de
banhos . como ôptimo local para gozar a vida." (16)
Nos primeiros anos da moda da ■•' i legiatura na
vila, havia ainda 1
igagão
por mar até Lisboa. emviagens regulares, onde se celebrizaram os vapores
de rodas , prirae iramente so entre o Terreiro dc Pago
e Belém. e depois até Cascais, com salão de fumo e cadeiras estofadas . É numa destas viagens de barco que Ramalho
Ortigiao
recolho muitas dasimpressães
que aqui reproduzimos.No ano
longínquo
de 1873, já Pedro Barrunchor-eclamava o caminho-de-fe r ro que ligasse Cascais ã
capital,
melhoraraento considerado indispensável
paraum verdadeiro desenvolvimento . Porém, sô no fim da
década seguinte serã inaugurado o primeiro trogo entre Pedrougos e Cascais, numa extensão de 19 km e servido por 11 estagoes. A
inauguragão
foi feita ãs 16 horas de 30 de Setembro de 1889. Até Pedrougos ospassageiros tinham de servir-se dos jã referidos vapores de rodas . de Frederico Burnay que partiam do
Aterro. Na segunda fase da linha de Cascais, ja com via dupla, os comboios seguiam até Alcântara e
daqui . pelo túnel de Campolide, iam os nossos avôs
até ao Rossio. primeiro terminus que houve no centro
da
capital.
S6 a 4 de Setembro de 1895 é completado
-27
-Cai s do Sodré .
"(...) 0 comboio iniciou de facto uma nova
era.
Desapareceram
para sempre nesse longínquo anode 188 9 os char s
-ã
-barics e o s omnibus e foram desaparecendo os barcos das carrei ras como os
caiques de velas latinas que pertenciam a José Luís d<> Miran-.ia. Subsistiram pois. ainda.
alguns
anos . os vípores de rodas que resistiram até aos primeirosanos do noíso século" (17).
0 comboio, veio dar um indiscutívei dinamisrao á vila mas . sobretudo. possibilitou o aparecimento
das estiãncias vizinhas que aqui nos ocupam. Ate 1889. Cascais continuava praticamente isolada, única praia frequentada do concelho, horizonte quase inaoessivel para a maioria dos lisboetas. Até entao, os banhos de mar tomavam-se nas praias dentro ou muito perto de Lisboa, numa hierarquia de categorias
que aumentava na
relagão
directa da distância. Muitos desses frequentadores faziam a sua época de banhos . deslocando-se de manhâ bem cedo ãs praiasmais prôximas nos transportes pũblicos. sem deixar as suas residências habituais. Pago d'Arcos era a última e mais
"chique"
desta correntez.a de praias onde a populagao de Lisboa i'azia a sua "cura" de mar . Sô com o aparecimento do comboio comegaram aser colonizadas as margens, ro-aimente mari timas,
para lá de S. Julião da Barra. £ na década de 1890 que comega a histôria balnear dcs "Estoris" como da Parede . Carcavelos, etc. . Num espirito de competigao
com Cascais , como o Monte Estoril, ou em
oposigão
âssuas
pretensSes
aristocrát icas . como S. João doEstoril, as novas estâncias tiveram então possibi1idade de crescer:
"0 caminho de ferro escancarou as portas desse Eden . primitivo como o da Biblia. 0 Monte
Estoril, risonho, civilizado, encheu-se de gente
elegante.
Abriram-se casinos, apareceram toilettes ."
NOTAS
'l) Ramaiho Ortigao . "0 ?ai s e a Sooiedade
Portuguesa"
in As Farpas . vol . VI, Lisboa, 1943. p.297
í i) "Sintra
-Vi
legiatura
da Nobreza".tĩustracâ'o Portugues a . n2 31, 24/9/1906
(3)
AntônioMesquita
deFigueiredo,
"Cascais Praia de Corte". Ilustragao Portuguesa, n2 35, 22/10/1906(4) Raquel Henriques da Silva. Casoa is ,
Lisboa. 1988. p. 62
( 5 ) Idem . pp. 62-63
(6) Pedro Barruncho. Apontamentos para a Histôria da Vila e Concelho de Cascais. Lisboa.
1873, p. 143
(7) Idem. pp. 151-152
(8) Ramalho
Ortigão,
Praias de Portugal, trans . in Guia de Portugal. Lisboa e Arredores .Lisboa. 1982. p. 620
(9) Pedro Falcão. Cascais Menino, Cascais, 1970. p. 186
(10)
Carlos Malheiro Dias. "A Casa O'Neill",ĩlustragão
Portuguesa, . n2 30. 17/9/1906(11)
Pedro Falcão. op , cit . . p. 203
-29
trans. in Ferreira de Andrade , Cascais V i i a de
Corte . Cascais. 1964, p.p. 346-349
( 13 ) Rau I
Proenga.
"Aos Estoris e Cascais" in Guia de Portugal. Lisboa e Arredores. Lisboa, 1982.pp. 621-622
(14) "Praias de
Portugal
-Casciĩs" .
[lustragão
Portuguesa. n2 51. 24/10/190458
15) Raquel Hc-nriques da Silva, op. c i t . . p.
16) Pedro Barruncho, op. cit . , pp. 145-145 17) Ferreira de Andr ade (d i r . ) . Mo r. cgr af ia de Cascais, Cascais, 1963, pp. 112-113 (13) "Cascais -Praia de Corte". 1 1 u ztr '■>gŨo
Portuguesa,
n2 35, 22/10/1906-31 3.1. 1330 -TORREZXO -"0 PRIMEÍRO CENáGRAFO" DO MONTE ESTORIL
Quancio Cascais comega'-u a tornar-se uraa v i i.i
de Corte, com a presen.;a da família real e do seu circulo. nos meses de Setembro e Outubro, a encosta sooranceira ao raar , irnediatamente a nascento da
vila. teve o seu primeiro "amante desinieressado" : Josê Jorge de Andrade Torrezão.
Os anos imediatamente anteriores , tinham
visto surgir os primeiros cha1e ts e palacetes, imitando o que se construia noutras zonas de veraneio da
Europa
. escolhenio os locais maispitorescos, quer a nascente quer a poente da baía de Cascais. Destes. um dos mais notãveis ê, sem dũvida,
o que o
arquitecto
inglês
Thomas Henry Wyattprojectou
para a família Palmela. "com aaparência
de uma abadia em ruinas". era 1873. Os duques
ocupavam não sô a zona junto ao mar , onde se ergue o
edifício. mas todo o vale que ainda ho.je separa as
duas
povcagSes,
com o seu magmfico parque ,actualmente muito reduzido. mas que trouxe uma abertura natural á
ocupagão
do territorio vizinho. Alguns anos mais tarde, em 1896, siao os herdeiros da casa Palmela que farão edificar o seu chale t , coraprojecto de José Luis Monteiro, ainda dentro dos
terrenos do parque mas raais perto da vila. Desde
então,
os dois edificios e o parque Palmela separamas duas
povoagSes
. A nascente do Monte , são osterrenos do convento de Santo Antônio que fazera a
separagão
do Estoril. onde em 1880, Jose Viana daSilva Carvalho mandara alargar o edifício dos banhos . de quinze para trinta tinas, sem que estes
melhoramentos chegassem para prestigiar a estância
que continuou a ser conhecida pelo "Pátio do Viana" a que apenas se ia a águas e onde não era
possível
encontrar conforto e menos ainda a ambiência de umaAo norte, e numa
lôgica
de ciesenvolvimento urbano em fungao da pequena montanha. o Monte Estoril acabava no sítio do Lago , ou seja. no pontomais aito da sua topografia.
Entre a vida mundana o cortesâ de Cascais e a
simplicidade quase campestre das termas do Estoril, Torrez-ĩo,
capitalista
lisoceta. escolheu o mar "nuns pinhais selvaticos, mandou construir umapequena oasa de recreio. esooihendo-lhe para poiso
umas ribas sobranceiras ao mar'Ml) e chaniou
-lhe estrani'.araente "Cas.a da Serra". No
Porĩugal
Antigo e Moderno , >ie 1874, o descrito como "um lir.do chaletao gosto suigo com belo
jardim
e cercado depinheiros".
Pedro Barruncho. em1373(2),
refere-se aTorrezão nos seguintes termos: "depois do Visconde •ia Luz . foi o sr . José de Anorade Torrezão o
primeiro edificador. construindo no alto de um
morro. junto ao forte de S. Roque perto do convento do Es'.oril, um 1 indo chaI :•t . com quatro frentes,
apresentando de todas elas uma encantadora vista, tanto para o mar como para a terra. E cerc*ado de pinheiros e de
agradável
jardim era roda da montanha,tudo sumamente pitoresco. Chama-se Casa da Serra esta 1 inda
habitagão".
Mais adiante acrescenta ainda: "Estaconstrugão
comegada em dezembro de 1869 e concluida em junho de 1870, deu incentivo ås deque falaremos em seguida, e por isso, o nome do sr.
Torrezão é justamente bemquisto em Cascais". Pedro Barruncho refere-se ãs casas do duque de Palmela e do conde de V'ale dos Reis, mais conhecido
pelo
seu titulo de duque de Loulê (hoje hotel Albatroz) quelhe så'o posteriores.
Apesar de Torrezão ter construido ainda mais três chalets , nao conseguiu conquistar muita gente
para esses locais belos e
selvagens
, em que o únicoatractivo ainda era o mar . A "Casa da Serra" foi
vendida ao grande
capitalista
Seixas. Este. por sua vez. passou-a para as mãos da Companhia Portuguesa de Hotéis. na ocasião era que esta sepropunha
construir. sobre o terreno que margina a praia. um hotel maravilhoso ao qual se daria o nome de
-J o
"Splendid
Hotei". 0 projecto sra da responsabi1 i dadede Ventura Terra e constituiu -a esperanga derradeira
de fazar renascer a Companhia Monte estoril. A "vilia do Rio" vendeu-a Torrezai, -x Jcão José Bastos. Anos depois a propriedade passou ãs mãos da viuva de Joao Franco. Foi esta senhora ciuem a vendeu a Fausto de Figueiredo. o qual se apressou a fazê-la demolir. 0 terceiro chaîet a sair das maos expeditas de Torr-e:'.,?•-• , era a "Villa Flora", também demolida. e
que se erguia no iocal onde está a moradia do Dr .
Manuel Duarte, em frente do Hctel Atlântioo. A últiraa das ca^as de Torrezao chamada "Villa Maria", foi construida nas vizinhangas do sitio onde mais tarde se ergueu o Hotel de Icalia. Também a demoliram por dcmasiado raodesta. Nada resta da obra de Torrezao: o panorama que criou no Mcnte Estoril desapareceu
-"o primeiro cenôgrafo da paisagem maraviihosa morreu pobre , desgostosc dos seus
entusiasmos de esteta" í 3 I .
A revista 0 Ocidente (4! dá-nos mais aigumas indjcagoes sobre este priraeiro periodo da histor ia do Monte Estoril: "Esta moderna mas já bastante roputada estância de verão, que hoje atinge um notável desenvolvimen to . era ainda há bem pouoos
anos um lugar rochoso e selvático, coberto de pinheirais e quase desconhecido . Situado entre o
iugar de Santo Antônio do Estoril e a vila de Cascais, quem passava pela antiga estrada real não lhe notava as proprias belezas.
Um antigo proprietário duns terrenos â beira do monte lembrou-se há bastantes anos de construir uma grande casa de campo, com belii vista para o oceano. e esse foi o primeiro cha1et que ali se viu. Chamava-se Torrezão e, até que o sr . Carlos Eugénio
de Almeida o adquirisse. sempre o referido chalet
conservou o nome do seu possuidor. Seguiu-se mais tarde o chalet Bastos. e pouco depois o
opulento
proprietário sr . Carlos Anjos construiu
sucessivamente no Monte alguns chalets de madeira,
com os nomes de suas filhas.
núm e r•
o de chalots.
3.2. 1890
-INSTALACĩO
/COLONIZACXO
-A "COMPANHIA MONTE ESTORIL"
Como acabãmos de ver, jã em 18 90 Curĩos A.'ijos tir.ha construido no Monte Estoril
aiguns
dos chalels tac "modestos" como os anteriores levantados porAndrade Torrezao, Porém. o sonho comum aos dois homens, terá agora novas possibilidades de r'.'j1 i
zagão
. Em 1383 erainaugurada
a linha íérreaFedrougos-Cascais
e, na sua sequcncia directa, écriada a Companhia Monte Estoril oom um
capital
de 225 contos. 0objectivo
dcs seus accionistas maioritários-Conde de Moser, presidente da
Companhia
dos Caminh'js de Ferro. e Carlos Anjoser-a civilizar a aridez do Monte Estoril.
0 Correio de Cascais, em 1899(5). num artigo sobre o Monte faz esta breve hisxôria: "A linha férrea entre Lisboa e Cascais veio dar um
grande
impulso ãquela nova , mas então ja encar.tadora
estância de
verão,
dando lugar a que germinasse a ideia da Companhia Mont' Estoril para a construgao de chalet.s, aformoseamento do locai, etc.Foram comprados terrenos , abertas ruas ,
metendo-se ombros ã simpática obra.
Sobrevieram, é certo, dif iculdades , quo foram
agravadas pela crise
geraĩ
aberta em 1891; mas de 1894 para cá. depois de uma fundaremodelagão
da administragão
daCompanhia,
o Mont'Estoril marca um extraordi nár io desenvo 1 viraento , tornando-so* aquelaformosa estância de verão, que em breve será também estância de inverno, afamada e citada não sô em todo o país. mas até no estrangeiro.
(...)
ao belo Mont 'Estoril(...)
que possui a par disso ummagnífico clima, está reservado um futuro bri 1 han t í ssimo ,
podendo
desde já afirmar-se que viráa rivalizar com as rnais afamadas estâncias até hoje
-35
-o iv i I i zado .
Para sermos justos, é bom que lembremos
muito que o Mont
'
F.-t tori i deve ao sr. 0 sr. Condo de Moser e as
na sua iniciativa. promoveram
Carlos An.jos pessoas que
■au:\i 1 iaram na sua iniciat
desenvolvimento das
construgSes
na localidade, mas o sr. Carlos Anjos dotou o Monte com o maisprecioso
elemento da sua pros peridade , a âgua . que ali eratão escassa. e que hoje é relativamente abundante .
"
Ao contrário de Torrezão, quo se limitara a construir chalets isolados. em locais pitorescos. a
companhia vai abrir ,-stradas,
plantar
árvores. ins talar luz eléctrica, canalizar ãgua visando "afundagão
de uma estância de verão que deveria reuniros atractivos usados nas outras praias do est range i ro" ( 6 ) . A partir de então. e durante quinze
anos , o Monte Estoril vai conhecer o seu periodo de
glôr
ia.0 projecto urbanístioo da
Companhia
era demasiado ambicioso. qu-^r para as su.jl;possibilidades econômicas, quer para o pa is , mesmo
tratando-se dura locai que . desde logo, teve a
preferência
da arist ocracia e d.a alta finangaportuguesas .
Branca de Gonta Colago , em 1943.
este sonho de grandeza, e também a sua
seguinte maneira: "Mas até então sô se urbanizar a parte do Monte Estoril que estrada de Cascais. (...) A Companhia Estoril aparecia entretanto. com um verdade ir araente revoluc ionár io
-luxuosamente . em grande estilo turístico
Mcn te Estoril.
Ante o espanto de Lisboa, o
plano
modernista foi iniciado e as suas obras abriram na mata asprimeiras
clareiras. (...) No local onde é hoje oBairro Escolar do Monte Estoril pensou-se em criar um lago, um lago enorme (...) uma espécie de cratera em semi-círculo .
Nesse mesmo pino do Monte . (...) abriram-se
os caboucos do hotel (...) caboucos que foram
desc r e ve 'queda" , da pensara em ladeava a do Monte projec to urban izar o alto do