Thiago Henrique Sampaio
Continuidades e rupturas nas constituições
brasileiras de 1934 e 1937
Graduando do último ano do curso de História na Faculdade de Ciências e Letras da UNESP/Assis, bolsista pela FAPESP e desenvolve pesquisas na área de Imperialismo, Colonialismo, Discurso Político e Colonial, Portugal, Moçambique.”
Resumo
O presente trabalho visa analisar em que medidas a Constituição de 1937 foi uma ruptura e/ou continuidade da Constituição de 1934, visto que ambas as constituições foram elaboradas sobre o regime do mesmo governante, no caso, Getúlio Vargas.
Introdução
O período conhecido como Era Vargas (1930 – 1945) caracteriza-se por ser emblemático na história brasileira. A ascensão de Getúlio Vargas ao poder, bem como o regime político adotado (principalmente a partir de 1937), trouxe manifestações diversas, um exemplo disso é a Revolução Constitucionalista de 1932.
Um dos efeitos imediatos da Revolução Constitucionalista foi a formação de uma Assembleia Constituinte (1933) que formulou a Constituição de 1934, a segunda constituição brasileira no período republicano e a primeira da era Vargas. A Constituição de 1934 trouxe algumas novidades no meio político brasileiro, tais como: ensino básico obrigatório, voto secreto, aprovação do voto feminino e leis trabalhistas. Esta mesma Constituição estabeleceu que o primeiro presidente, após a sua aprovação, seria eleito de forma indireta pelos membros da Assembleia Constituinte e Vargas saiu vencedor.
No dia 10 de novembro de 1937, o Senado e a Câmara dos Deputados foram cercados por soldados que impediram a entrada de seus membros sem que houvesse nenhuma manifestação de contestação. Os ministros militares da época divulgaram não haver tomado a iniciativa do movimento e alegaram apenas apoiar a decisão tomada do chefe de Estado, no caso, Getúlio Vargas1.
No mesmo dia, Vargas fez um pronunciamento a Nação pelo programa “A Hora do Brasil”, sobre as alterações efetuadas na ordem constitucional. Em seu discurso, afirmou:
O homem de Estado, quando as circunstâncias impõem uma decisão excepcional, de amplas repercussões e
profundos efeitos na vida do país, acima das deliberações ordinárias da atividade governamental, não pode fugir do dever tomá-la2.
Segundo Paulo Sérgio da Silva, naquele momento, Vargas, levado pelo interesse coletivo, adotou medidas de transformação institucional com vistas a fornecer ao governo meios adequados de enfrentamento dos graves problemas que perturbavam a ordem pública. Na ocasião, Vargas criticou a Constituição de 1934 e censurou o Congresso qualificando-o de despreparado; apoio ao estado de guerra solicitado pelas Forças Armadas para enfrentar o ressurgimento de movimentos comunistas. Para Vargas, a organização constitucional de 1934, alicerçadas nos moldes do liberalismo e do sistema representativo, destinava-se a uma realidade dissolvida no conjunto de ações políticas anteriores; portanto, para evitar a dissolução da nação, a instauração do Estado Novo era uma necessidade inexorável3.
As constituições da Era Vargas e o Golpe
de 1937 na Historiografia
Segundo Pesavento, a ditadura do Estado Novo foi implantada em uma sociedade já preparada para a decretação de um golpe, pois parecia haver o consenso de que a melhor forma de realizar o progresso econômico e social era por meio de um regime autoritário. Paralelamente, tinha-se a impressão de que a verdadeira democracia poderia apenas se concretizar por um governo forte: só o Estado Novo moralizaria as instituições, livrando-as de seus antigos vícios, permitindo uma guinada para a democracia4.
Silvana Goulart assinala que o cerne da implantação do Estado Novo esteve vinculado, essencialmente, ao aumento dos conflitos políticos e sociais, ligados à emergência de uma sociedade industrial. Assim, era necessário reorganizar a sociedade, visando o controle da crise econômica e a neutralização de novas forças sociais emergentes na política, de modo a possibilitar o processo de expansão das forças produtivas5. Ela ainda completa
que o Estado Novo foi a desmobilização do que restava da autonomia regional e que garantiu a primazia dos interesses ligados a cafeicultura6.
Nelson Werneck Sodré afirma que, na ocasião do golpe de 1937, “o bonapartismo colonialista foi assumido de forma específica, levando a uma ditadura pretoriana, aquele tipo de ditadura em que a fonte de poder provém de forças militares”7.
Boris Fausto assinala que o Golpe de 1937 se deu em decorrência da crise mundial do final da década de 1920, sendo um fato crucial para o cenário político e econômico subsequente a ela. O Estado Novo solapou uma série de pressupostos do capitalismo liberal, fornecendo justificativas no plano político para a crítica à liberdade de expressão e à liberdade partidária, tidas como elementos que conduziam o Brasil para o caos8.
Aspásia Camargo afirma que a visão oficial e ideológica do novo regime é, na verdade, a de que o golpe de 1937 foi o desdobramento natural, inevitável, de outro acontecimento decisivo, a Revolução de 1930. Portanto, em 1937 ocorreu o desfecho da revolução que levou Vargas ao poder, se em 1930 o país reclamou uma nova ordem política ajustada às suas condições de existência, essa necessidade foi posta novamente em 37. Em face da extrema fragilidade do sistema institucional,
fortemente abalado pela crise econômica e por sucessivas crises políticas, a partir de 1930, os atores políticos individualmente considerados expressaram, a natureza, a composição e o desenvolvimento de tais conflitos, e nos acertos e desacertos individuais – na disputa entre lideranças – desvelaram e conduziram as questões cruciais em jogo naquele período. Desta e nesta fragmentação política houve um “jogo” deliberado cujo objetivo estratégico, de antemão fixado, foi fortalecer o poder e racionalizar as decisões de governo, reduzindo assim a extrema fragmentação do sistema político, pouco eficaz e controlado pelo poder dos Estados. A tática utilizada teria sido, por um lado, minar o antigo sistema internamente, em seu próprio território e com suas próprias regras, esvaziando o poder das oligarquias e introduzindo novos atores no cenário político e, por outro, operar com grupos mais dinâmicos das sociedade civil, não inseridos formalmente no espaço oficial da política9.
De acordo com Raymundo Faoro, o golpe de 1937 assinalou a definitiva incorporação das classes médias e do proletariado à estrutura política brasileira como fontes de apoio ao governo e encerrou definitivamente a política dos governadores empregada na República Velha10.
Segundo João Paulo Rodrigues, a imprensa, com a formação da Assembleia Constituinte de 1933, ecoava num regionalismo vitorioso - mesmo com os resultados da Revolução Constitucionalista de 1932 – que o Estado de São Paulo havia vencido11. Ele
completa ainda que a promulgação da Constituição de 1934, o retorno da bancada paulista ao Estado e até a nomeação de um representante paulista para a Pasta da Justiça do governo de Getúlio Vargas corroboraram para fixar a Revolução Constitucionalista como um marco na história de São Paulo12. O retorno do país
à legalidade constitucional representava a coroação dos esforços paulistas realizados durante a Revolução de 1932 e esta serviu para corrigir os descaminhos da Revolução de 1930 e reverter o país para a ordem democrática13.
Para Paulo Sérgio Pinheiro, a necessidade da formação de uma Assembleia Constituinte e a promulgação da Constituição de 1934 devia-se aos poderes discricionários concernentes as funções executivas e legislativas que o governo provisório havia investido. Assim, Getúlio Vargas “mandava com seus ministros, legislava com eles e com eles julgava num tribunal; sem códigos, substantivos e nem adjetivos, sem constituição, sem nada que não fosse sua livre vontade e a de seus ministros, legisladores e juízes ao mesmo tempo”14.
Alguns intelectuais do período, como Alberto Torres, Oliveira Viana e Azevedo Amaral, deram atenção especial à implantação do Estado Novo e defenderam com veemência o novo regime instaurado.
O Estado Novo, segundo Oliveira Viana era uma “democracia autoritária”, defendendo os poderes instaurados por Getúlio Vargas. Para ele o Brasil necessitava de um presidente forte que não dividisse com ninguém sua autoridade, fazendo com que a nação só a ele se subordinasse e só dele dependesse15.
Alberto Torres sublinhava a desorganização e decomposição social, entendidas como conseqüência da imigração e das minorias estrangeiras, da diferenciação social, psicológica e cultural entre os tipos humanos presentes nas várias regiões do país, do antiurbanismo individualista e do antisolidarismo, derivados da formação colonial, da diversidade das religiões; dos conflitos entre os setores da economia:
indústria, comércio e agricultura; da autonomia dos Estados no tocante às relações comerciais, vinculando-se diretamente ao exterior; do movimento migratório para os centros urbanos e da dispersão presente na política local. Alberto Torres antevia que os únicos capazes de levar a cabo um projeto de unificação e de construção da nacionalidade seriam indivíduos de boa vontade e com sentido patriótico, ou seja, a solução só podia vir de uma elite intelectual, politicamente comprometida com a nacionalidade, agindo por meio da imprensa, da educação, da opinião pública e por meio do Estado16.
Azevedo Amaral afirmava que a preeminência de combater o extremismo da direita representado pelo Integralismo, e a possibilidade de reaparecimento do comunismo, justiçavam perfeitamente o golpe. Para ele, em 10 de novembro protegeu-se o Brasil dos perigos da demagogia estimulada pela campanha presidencial e salvou-se o regime democrático por um golpe, entendido como a única forma de salvaguardar as “condições da realidade nacional e os imperativos das tradições brasileiras”. O novo regime era tão somente uma “democracia autoritária”, um modelo perfeitamente adequado a realidade e às tradições nacionais, no qual o autoritarismo e a democracia não eram conceitos contraditórios, eram complementares, pois “somente uma forma de governo autoritário seria capaz de permitir o desenvolvimento da democracia e das suas instituições”17.
Paralelos entre as Constituições de 1934 e
1937
Em 16 de julho de 1934 a Assembleia Nacional Constituinte promulgou a Constituição,
que segundo o próprio preâmbulo, foi redigida “para organizar um regime democrático, que assegure à Nação, a unidade, a liberdade, a justiça e o bem-estar social e econômico”. Foi a constituição que menos tempo durou, oficialmente vigorou apenas por um ano, sendo suspensa pela Lei de Segurança Nacional. Ela foi importante por institucionalizar a reforma da organização social brasileira, não com a exclusão das oligarquias rurais, mas com a inclusão de novos setores da sociedade.
Em 1933, o Governo Provisório havia criado uma comissão de juristas, a Comissão do Itamaraty, que recebeu este nome porque se reunia no Palácio do Itamaraty, para a elaboração de um anteprojeto de constituição. Este anteprojeto previa um poder executivo forte e centralizador, porém a Constituição de 1934 acabou sendo descentralizadora e estatizante dando grande autonomia aos Estados federados. Por esta nova constituição, foram extintos os senados estaduais que jamais voltaram a existir.
A Constituição de 1934 sofreu influência da Constituição Alemã de 1920 (República de Weimar) que estabelecia uma república federalista com um poder executivo forte; apoderou-se de alguns pontos da constituição da Espanha de 1931 (na época era uma república federalista) e até a política do New Deal serviu de base para seus aspectos econômicos18.
A Constituição manteve a forma de governo republicano com o sistema presidencialista e a capital do Brasil continuou a ser o Distrito Federal, com sede no Rio de Janeiro. Mesmo sendo invocado em seu preâmbulo o nome “Deus” permaneceu a inexistência de uma religião oficial para o país.
A divisão dos poderes permaneceu a mesma que a constituição de 1891 estabelecia, destacou-se apenas a oficialização da Justiça Eleitoral, e a
diferenciação acerca do tempo de mandato dos deputados (aumentado para 4 anos) e dos senadores (diminuído para 8 anos).
Getúlio Vargas foi um dos principais críticos a Constituição de 1934 desde sua elaboração. Ele afirmava que a Carta de 1934 foi:
Uma constitucionalização apressada, fora de tempo, apresentada como panacéia de todos os males, traduziu-se numa organização política feita ao sabor de influências pessoais e partidarismo faccioso, divorciada das realidades existentes. Repetia os erros da Constituição de 1891 e agravava-os com dispositivos de pura invenção jurídica, alguns retrógrados e outros acenando a ideologias exóticas. Os acontecimentos incumbiram-se de atestar-lhe a precoce inadaptação!19
Os poderes da União foram ampliados na constituição, nos capítulos referentes à ordem econômica e social, procedeu à nacionalização de minas, jazidas minerais, quedas d’água, bancos de depósito e empresas de seguro20. Uma novidade foi
a introdução de um capítulo destinado a família, inserido devido à pressão da bancada católica da Constituinte.
No Executivo, a Assembleia Constituinte buscou definir mecanismos de controle eficazes sobre o Executivo, que sempre tivera tendência centralizadora e autoritária. Foi definido cuidadosamente e de maneira estrita os poderes de seu chefe, determinando que, salvo a eleição inicial, feita pela Assembleia, o presidente da República deveria ser escolhido pelo voto direto dos cidadãos, para um mandato de quatro anos, sem possibilidade de reeleição.
Em relação ao Legislativo, a constituição contemplava a existência de duas câmaras: Senado e Câmara dos Deputados. O Senado seria constituído
por dois representantes de cada Estado, eleitos para um mandato de oito anos, e a eles reservou-se o papel de “guardiões da Constituição”, cabendo-lhe agir na “coordenação” dos poderes governamentais. Estava entre suas atribuições autorizar e/ou suspender o emprego de força federal nos Estados, assim como permitir que Estados e municípios captassem empréstimos no exterior21.
A Constituição trouxe consigno reformas eleitorais importantes: concedeu-se o direito de voto às mulheres, a idade mínima para o cumprimento das obrigações eleitorais foi fixada em dezoito anos (em vez dos anteriores 21 anos), porém manteve-se a proibição de votos aos analfabetos que representavam 75% dos brasileiros adultos, em uma população de 41,5 milhões de habitantes. Apesar das mudanças eleitorais, não houve grande alteração na participação das discussões em torno da organização política que continuaram restritas a uma minoria22.
A Constituição contemplava as reivindicações liberais, matriz das contestações da década de 1920; as eleições seriam livres, submetidas à supervisão judicial e com voto secreto; com as interventorias e os partidos manipulados pelos agentes do governo federal, o coronelismo, embora não houve desaparecido foi anulado, ficando restrito à esfera dos governos estaduais. Em contrapartida, acenava ao movimento tenentista prometendo-lhe a nacionalização dos bancos, das minas e outros recursos naturais. Finalmente nas esferas social, trabalhista e eleitoral, estipulava a assistência às necessidades dos novos atores sociais: classe média e trabalhadores urbanos23.
Na perspectiva econômica, a Constituição incentivou o desenvolvimento de uma Indústria Nacional e o desenvolvimento agrícola, a partir da
fundação e criação de institutos de pesquisas.
Na Educação estabelece o Ensino Primário gratuito e obrigatório; cresce o interesse no desenvolvimento do Ensino Médio e Superior com o objetivo de formar mão de obra qualificada para as indústrias que se instalavam no país; defende o Ensino Religioso nas escolas (mesmo com a separação entre Igreja e Estado); estabelece grades curriculares diferenciadas para os diferentes sexos. Segundo Zélia Lopes da Silva, na Assembleia Constituinte, a crítica ao atraso da sociedade brasileira aparece formulada por diferentes setores da classe dominante, ganhando força na convicção de que para superar tais problemas, o país teria que ser transformado, cabendo à Escola um papel preponderante nesse processo, por ser o espaço capaz de criar uma mentalidade nova, sintonizada com os valores da modernidade, sob a égide da racionalidade e do cientificismo24.
No âmbito trabalhista foi criado o salário mínimo; a carga horária de trabalho foi reduzida para oito horas diárias; indenização para trabalhadores demitidos por justa causa; assistência remunerada a trabalhadoras grávidas; assistência média e dentária; previa uma lei especial para regulamentar o trabalho no campo e suas relações; reduzia o prazo de aplicação de usucapião a um terço do tempo anterior (30 anos); institui-se o repouso semanal remunerado; regulamenta o trabalho das mulheres e dos menores: proibição do trabalho para menores de 14 anos; trabalho noturno proibido a menores de 16; em indústrias insalubres proibido a menores de 18 anos e a mulheres; proibição de distinção de salários tendo como critérios sexo, cor, religião, estado civil, nacionalidade ou idade. Zélia Lopes da Silva afirma que, os direitos do trabalhador ganham espaço significativo como forma de evitar as injustiças sociais
e a preponderância de classes privilegiadas. Para isso, foi proposta a inserção de princípios que não consideravam o trabalhador uma simples mercadoria sujeita a lei da oferta e da procura, buscando o estabelecimento da dimensão humana no tratamento da questão25.
Já a Constituição de 1937 foi outorgada em 10 de novembro de 1937 pelo presidente Getúlio Vargas. A partir desta constituição tem início o período conhecido como Estado Novo, sendo esta a quarta Constituição do Brasil e a terceira do período republicano. Ficou conhecida como Polaca por ter sido baseada na Constituição da Polônia e foi redigida pelo jurista Francisco Campos, ministro da Justiça do Estado Novo.
A Carta de 1937 possui texto curto, se inicia com um preâmbulo e contém 187 artigos - mantinha a mesma quantidade de artigos que a constituição anterior, alguns dos quais, com diversos incisos. Não apresenta subdivisões em seções ou capítulos, os artigos estão dispostos da seguinte maneira: organização nacional (37 artigos), do poder legislativo (8 artigos), câmara dos deputados (4 artigos), conselho federal (7 artigos), conselho de economia nacional (7 artigos), leis e resoluções (3 artigos), elaboração orçamentária (6 artigos), Presidente da República (11 artigos), responsabilidade do Presidente da República (3 artigos), ministros de Estado (2 artigos), poder judiciário (7 artigos), Supremo Tribunal Federal (6 artigos), justiça dos Estados, do Distrito Federal e dos territórios (11 artigos), Justiça Militar (3 artigos), Tribunal de Contas (1 artigo), da nacionalidade e da cidadania (7 artigos), direitos e garantias individuais (2 artigos), família (4 artigos), educação e da cultura (7 artigos), ordem econômica (21 artigos), funcionários públicos (4 artigos), militares de terra e mar (1
artigo), segurança nacional (5 artigos), defesa do Estado (8 artigos), emendas à Constituição (1 artigo) e disposições transitórias e finais (13 artigos). Em seu preâmbulo é expresso o seguinte:
O Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil.
Atendendo às legítimas aspirações do povo brasileiro à paz política e social, profundamente perturbada por conhecidos fatores de desordem resultantes da crescente agravação dos dissídios partidários, que uma notória propaganda demagógica procura desnaturar em luta de classe, e da extrema ação de conflitos ideológicos, tendentes, pelo seu desenvolvimento natural, a resolver-se em termos de violência, colocando a Nação sob a funesta eminência da guerra civil. Atendendo ao estado de apreensão criado no país pela infiltração comunista, que se torna dia a dia mais extensa e profunda, exigindo remédios de caráter radical e permanente; Atendendo a que, sob as instituições anteriores, não dispunha o Estado de meios normais de preservação e de defesa da paz, da segurança e do bem-estar do povo; Com o apoio das Forças Armadas e cedendo às aspirações da opinião nacional, umas e outras justificadamente apreensivas diante dos perigos que ameaçavam a nossa unidade e da rapidez com que vem processando a decomposição de nossas instituições civis e políticas;
Resolve assegurar à Nação a sua unidade, a respeito a sua honra e a sua independência, e ao povo brasileiro, sob um regime de paz política e social, as condições necessárias à sua segurança, ao seu bem-estar e a sua prosperidade;
Decretando a seguinte constituição, que se cumprirá desde hoje em todo o país26.
Segundo Paulo Sérgio da Silva, de acordo com tal preâmbulo, no tenebroso caos social e político daquele momento no país, capaz de gerar uma guerra social e/ou a desintegração nacional, surge a figura de
um homem providencial, o presidente da República, incorporando toda a extensão do poder constituinte. Síntese da vontade nacional, ele outorga uma Constituição que tutela o povo contemplando seus presumidos interesses e vontades, com o objetivo primordial de alcançar bem-estar, tranqüilidade social e prosperidade nacional. Utiliza-se do discurso da “ameaça comunista”, habilmente manipulado desde 1935, para o fechamento político, como um perigo iminente que seria necessário eliminar em definitivo. Caso a proposta de proteção e salvaguarda dos interesses do povo não fosse suficiente para convencer todos os brasileiros, o preâmbulo informa que a nova Constituição dispunha do apoio das Forças Armadas, ou seja, além de representar as aspirações da opinião pública, contemplar os fins nobres de uma política nacional salvacionista, a Constituição contava ainda com os potentes “argumentos” do fuzil, da baioneta e das grades das celas27.
A Constituição de 1937 investia ao presidente da República poderes praticamente ilimitados, na condição de chefe supremo da nação, concentrava poderes tão extensos quanto extraordinários, englobando a vida política e social brasileira. O Executivo foi constitucionalmente definido como a autoridade suprema do Estado que “coordena as atividades dos órgãos representativos, de grau superior, dirige a política interna e externa, promove ou orienta a política legislativa de interesse nacional, e superintende a administração do país”28. No artigo 74,
em sua primeira alínea, cabia ao presidente sancionar, promulgar e fazer publicar as leis e expedir decretos, lei e regulamentos para sua execução. Uma vez que pelo artigo 178 havia sido dissolvido o Senado Federal e a Câmara dos Deputados, enquanto não houvesse um plebiscito convocado pelo Presidente
para a formação de um novo Parlamento, cabia ao executivo o poder de expedir leis sobre matérias de competência legislativa da União, dessa forma o presidente tinha autoridade para expedir decretos sobre todas as competências da Federação.
Os direitos e garantias individuais cercearam o agir do cidadão em nome da nação e da decantada paz social aliada à ordem e ao progresso. Mas assegurava formalmente aos brasileiros residentes no país a liberdade religiosa, a segurança individual e a propriedade. Assegurou aos indivíduos a liberdade de culto e de formação de associação religiosa, reservando-se a estas o direito de adquirir bens, observadas as disposições do direito comum, desde que atendessem às exigências da ordem pública e dos bons costumes29, ao passo que os cemitérios
passariam a ter caráter secular e a ser administrados pelas autoridades municipais30. Mas, como se vivia
sob a égide de um Estado de Emergência à época, as garantias individuais estavam sujeitas às prerrogativas do Executivo.
A Constituição trouxe alguns avanços em termos de direitos sociais, com maior destaque para as áreas de educação e trabalho. Na área trabalhista firmou-se como preceitos da legislação do trabalho, entre outros: o direito ao repouso semanal aos domingos e, nos limites das exigências técnicas da empresa, aos feriados civis e religiosos, de acordo com a tradição local; licença anual remunerada, indenização proporcional aos anos de serviço pela cessação de relação de trabalho a que o trabalhador não haja dado motivo; salário mínimo; jornada de trabalho de oito horas; adicional noturno; proibição de trabalho a menores de catorze anos; de trabalho noturno a menores de dezesseis e, em indústrias insalubres, a menores de dezoitos anos e a mulheres,
e finalmente a instituição de seguros de vida por velhice, invalidez e para os casos de acidente de trabalho.
Em relação ao direito sindical, a associação profissional ou sindical era livre em sindicados reconhecidos pelo Estado31; determinou-se a
criação da Justiça do Trabalho, a ser regulada em lei posterior, e à qual não se aplicariam as disposições constitucionais relativas à competência, ao recrutamento e às prerrogativas da justiça comum, com a finalidade de dirimir os conflitos oriundos das relações trabalhadores e empregador. Mas proibiram-se as greves, consideradas recurso anti-social, nocivos ao trabalho e ao capital, e incompatíveis com os superiores interesses do Estado32.
A educação integral foi elevada à categoria de dever e de direito natural do país, sendo também encampada como dever do Estado, o qual colaboraria de maneira principal ou subsidiária para facilitar sua execução ou suprir as deficiências e lacunas da educação particular33. Se faltassem recursos
necessários a educação, a União, os Estados e os municípios deveriam assegurar, por meio de instituições públicas de ensino em todos os seus graus, uma educação adequada às tendências, aptidões e faculdades do cidadão34.
Estabeleceu-se como obrigatório e gratuito o ensino primário, sendo instituída a caixa escolar, contribuição dos mais favorecidos para os mais necessitados35. O ensino de educação cívica, de
educação física e de trabalhos manuais tornaram-se obrigatórios em todas as escolas primárias, normais e secundárias, sendo sua implantação condição necessária e reconhecimento de unidades escolares36.
Em relação a nacionalidade, a Constituição reconhecia como brasileiros os nascidos no Brasil,
ainda que de pai estrangeiro, não estando este a serviço do governo de seu país; os filhos de pai ou de mãe brasileira, nascidos em país estrangeiro, estando os pais a serviço do Brasil e afora esses casos, se atingida a maioridade, optassem pela nacionalidade brasileira, assim como aqueles que tivessem adquirido nacionalidade brasileira, também foi estipulado casos em que o cidadão poderia perder a nacionalidade brasileira.
No caso de direitos políticos, foram considerados eleitores todos os brasileiros de ambos os sexos, desde que maiores de 18 anos e que se alistassem segundo a forma da lei, excluindo-se os analfabetos, os militares em serviço ativo, os mendigos e aqueles que estivessem privados, temporária ou definitivamente dos seus direitos políticos.
As Forças Armadas pela Constituição de 1937 assumiram a condição de instituições nacionais permanentes, tendo uma base de disciplina hierárquica e de fiel obediência à autoridade do presidente37.
Cabia ao presidente da República exercer a chefia suprema das Forças Armadas, administrando-as por intermédio dos órgãos do alto comando38, assim
como lhe foi atribuída a direção geral da guerra, sendo as operações militares da competência e da responsabilidade dos comandantes chefes de sua livre escolha39.
Sobre a questão da Segurança Nacional resolveu-se que todas as questões relativas a esse tema seriam estudadas por um Conselho de Segurança Nacional, a ser formado pelos ministros de Estado, pelo chefe do Estado Maior do Exército e da Marinha e presidido pelo presidente da República, e pelos órgãos especiais criados para atender à emergência da mobilização40.
Considerações Finais
A Constituição de 1934 foi resultado direto da Revolução Constitucionalista de 1932, ela trouxe enormes inovações na área trabalhista, eleitoral e educacional. Mesmo após a promulgação da República, a Constituição de 1891 não havia garantido direitos a uma grande parcela da população brasileira, isso veio a acontecer somente após a promulgação da Carta Constituinte de 1934.
Já a Constituição de 1937 foi emergente e imersa no contexto histórico político do qual surge e no qual deveria atuar. O Estado Novo deixou clara e evidente as escolhas do centralismo político (na figura do presidente da República) e do intervencionismo estatal, assim como a opção pela primazia do interesse nacional sobre os interesses individuais.
Ela (a Constituição de 1937) fundou um regime centrado na figura do presidente da República, investido de uma força decisória praticamente ilimitada e elevado à condição de chefe supremo da nação, concentrando poderes extensos, os quais englobavam efetivamente todas as esferas da vida política e social brasileira. O Executivo Federal era o centro de vontade do novo regime através da figura do Presidente da República. Os poderes Legislativo e Judiciário eram figuras secundárias neste regime, pois o centro de tomada de decisões encontrava-se na figura do chefe da nação, no caso, Getúlio Vargas.
Nesta época a sociedade civil sofreu sem as garantias de seus direitos de liberdade e de opinião quanto ao regime instaurado. Ela foi responsável por estabelecer um modelo de atuação política a ser implantado na sociedade brasileira, tornando público um plano de ação que determinou os fins a serem
alcançados e programou tanto os agentes do regime quanto os cidadãos.
Notas:
1 DULLES, John W. F. Getúlio Vargas: biografia política. Rio de
Janeiro: Renes, 1976, p. 183.
2 DULLES, John W. F. op. cit., p. 185.
3 SILVA, Paulo Sérgio da. A Constituição Brasileira de 10 de novembro de 1937: um retrato com luz e sombra. São Paulo:
Editora Unesp, 2008, p. 100.
4 PESAVENTO, Sandra Jatahy. Historiografia do Estado
Novo: visões regionais. SILVA, José Werneck (Org.) O feixe e o prisma: uma revisão do Estado Novo. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 1991, v. 1, p. 132.
5 GOULART, Silvana. Sob a verdade oficial: ideologia,
propaganda e censura no Estado Novo. São Paulo: Marco Zero, 1990, p. 15.
6 GOULART, Silvana. Op. cit. , p. 17.
7 SODRÉ, Nelson Werneck. A História militar do Brasil. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p. 270.
8 FAUSTO, Boris. O Estado Novo no Contexto Internacional.
PANDOLFI, Dulce (Org.) Repensando o Estado Novo. Rio de
Janeiro: FGV, 1999, p. 19.
9 CAMARGO, Aspásia. O golpe silencioso: as origens da República
corporativa. Rio de Janeiro: Rio Fundo, 1989, p. 11-13.
10 FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato
político brasileiro. São Paulo: Globo, 2000, v. II, p. 332.
11 RODRIGUES, João Paulo. 1932 Pela força da tradição: do
confronto bélico à batalha pela memória (1932 – 1934). São Paulo: Annablume, 2012, p. 391.
12 RODRIGUES, João Paulo. op. cit., p. 409. 13 RODRIGUES, João Paulo. op. cit., p. 411.
14 PINHEIRO, Paulo Sérgio. Estratégias da ilusão: Revolução
Mundial e o Brasil (1922 – 1935). São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 269 – 271.
15 VIANA, Oliveira. O idealismo da Constituição. São Paulo:
Companhia Editoria Nacional, 1939, p. 207.
16 BEIRED, José Luis Bendicho. Autoritarismo e nacionalismo: o
campo intelectual da nova direita no Brasil e na Argentina (1924 – 1945). Tese de Doutorado. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1996, p. 37 – 39.
17 AMARAL, Antônio José de Azevedo. O Estado autoritário e a realidade nacional. 1938, p. 177.
18 SILVA, Paulo Sérgio da. A Constituição Brasileira de 10 de novembro de 1937: um retrato com luz e sombra. São Paulo:
Editora Unesp, 2008, p. 60.
19 VARGAS, Getúlio. A nova política do Brasil. Rio de Janeiro: José
Olympio Editora, 1940, p. 47.
20 SILVA, Zélia Lopes da. A república dos anos 30. A sedução do moderno: novos atores em cena: industriais e trabalhadores
na Constituinte de 1933 – 1934. Londrina: Editora da UEL, 1999, p. 83 – 85.
21 DULLES, John W. F. op. cit., p. 148; SILVA, Paulo Sérgio da.
Op. cit., p.61.
22 PINHEIRO, Paulo Sérgio. Op. cit., p. 270. 23 FAORO, Raymundo. Op. cit., p. 325-326. 24 SILVA, Zélia Lopes da. Op. cit, p. 126. 25 SILVA, Zélia Lopes da. Op. cit., p. 111 – 112. 26 Preâmbulo da Constituição Brasileira de 1937. In:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ constitui%C3%A7ao37.htm Acessado em 01 de janeiro de 2014.
27 SILVA, Paulo Sérgio da. Op. cit., p. 140.
28 Artigo 73. In: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
constituicao/constitui%C3%A7ao37.htm Acessado em 01 de janeiro de 2014.
29 Artigo 122, 4. In: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
constituicao/constitui%C3%A7ao37.htm Acessado em 01 de janeiro de 2014.
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