Vivências inclusivas: a participação do aluno com síndrome de Down em seminários literários

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Texto

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Vivências inclusivas: a participação do aluno com síndrome de Down em

seminários literários

Eixo temático: Propostas Curriculares, interdisciplinaridade e Educação Inclusiva

Autores: Jucelaine da Silveira (EMEF Portugal/Cachoeirinha);61 Naira Teresinha Abech Silveira (EMEF Portugal/Cachoeirinha)

Resumo: Vivemos a expansão da educação especial nos últimos tempos. Muito mais do que

discutir sobre a implantação da educação especial inclusiva, que já é um fato consolidado, hoje a preocupação está focada em como efetivá-la dentro das instituições escolares regulares. De acordo com o paradigma contemporâneo de inclusão, entende-se que é a escola que precisa se ajustar às necessidades dos alunos com deficiência, a fim de atender com respeito, honestidade, justiça e responsabilidade pedagógica essa parcela de seus constituintes. Nossa prática adentra o universo escolar da turma 81, 8º ano de uma escola da rede pública municipal de Cachoeirinha, para entender como ocorrem os ajustes curriculares na disciplina de Língua Portuguesa em prol da inclusão. Os agentes facilitadores desse processo, bem como os percalços estampados no dia a dia dessa turma, serão relatados para que possamos compreender qual é o caminho trilhado por essa realidade. A escola tem feito movimentos para implantar a educação especial inclusiva. Entre as preocupações está a adequação curricular nas turmas regulares de ensino. A necessidade de construir um território mais significativo para a educação de alunos com deficiência intelectual conduz a constantes acertos e erros nas práticas pedagógicas. Incluir este aluno nas classes regulares requer repensar a proposta político pedagógica, adaptando o currículo à sua condição cognitiva, social e cultural. Sob essa ótica, uma vez que abre suas portas para uma clientela segregada, se depara com uma realidade a ser repensada para uma atuação responsável, que contribua na aprendizagem de cada aluno; portanto, adequando seu funcionamento, ritmo e linguagem para garantir o direito à educação que toda pessoa tem.

Palavras-chave: inclusão, deficiência intelectual, escola regular, adaptação curricular.

INTRODUÇÃO

A diversidade é um valor e acredita-se que ela fortaleça ainda mais a escola e ofereça a todos os seus membros, maiores oportunidades de aprendizagem. Esse movimento parte da transformação do ambiente escolar, de mudanças paradigmáticas, onde o foco é a prática pedagógica e a potencialidade do sujeito e não sua deficiência. Educação inclusiva não quer dizer somente aceitar a diferença, mas também potencializar os sujeitos para as transformações sociais, assim a inclusão,

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não somente na escola, mas em todos os âmbitos da sociedade pressupõe participação efetiva dos sujeitos nos processos sociais, exercendo seus direitos e cumprindo com seus deveres, enfim, exercendo sua cidadania e o respeito aos direitos e liberdades humanas é o primeiro passo para a construção dessa cidadania. Nesse sentido, torna-se necessário que se empreenda a possibilidade de conceber o atendimento escolar baseado na compreensão do ser humano em suas diferentes formas de existir.

Preservar a diversidade apresentada na escola, encontrada na realidade social, representa oportunidade para o atendimento das necessidades educacionais com ênfase nas capacidades e potencialidades do educando.

1 PROBLEMA

Sublinhamos que é o aspecto das práticas inclusivas dentro da atmosfera escolar a grande problemática atual. As instituições se deparam com uma demanda singular amparada legalmente e que precisa ser atendida. Ocorre que, diferentemente da legalidade que é construída e posteriormente posta, a prática é simultânea, é vivida todos os dias e, portanto, construída no fazer cotidiano. Não obstante, a conjuntura nacional frustra em alguns pontos por apresentar discrepâncias ao se comparar as leis com a realidade. E é justamente neste nó, que o relato de nossa prática irá acontecer para mostrar como a escola pública se coloca frente a essa situação em busca de uma Educação Inclusiva efetiva. Dentre as preocupações, está a adequação curricular para alunos com deficiência intelectual nas turmas regulares de ensino. A necessidade de construir um território mais significativo para a educação de alunos com deficiência intelectual conduz a constantes acertos e erros nas práticas pedagógicas. Incluir o aluno com deficiência intelectual nas classes regulares requer repensar a proposta político pedagógica, adaptando o currículo à condição do aluno cognitiva, social e cultural. Entretanto, algumas perguntas são fundamentais: Como o aluno com deficiência intelectual pode desenvolver-se em grupos regulares? Qual ou quais as definições de currículo adaptado? Quem o constrói? Como e porque construí-lo? Quais os serviços que podem e devem auxiliar no seu desenvolvimento? Como têm ocorrido as adequações curriculares no que diz respeito à metodologia, conteúdos, temporalidade, aprendizagem, planejamento e avaliação dos alunos com deficiência intelectual?

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2 OBJETIVOS

Apontar os tipos de adaptações curriculares que ocorrem nas escolas regulares de ensino fundamental da rede pública e como se desenvolvem tais adaptações. Identificar como são realizadas as adaptações curriculares nas salas de aula, as dificuldades e facilidades encontradas neste contexto. Reconhecer quais são os serviços que podem e devem auxiliar na construção e no desenvolvimento do currículo adaptado.

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Para possibilitar nosso relato, adotaremos a metodologia qualitativa e, dentro desta vertente, elegeremos o caráter etnográfico. Descreveremos, a partir de uma abordagem combinada, vários métodos de coleta, como: observação, entrevista, análise de documentos e mídias; também contará com apoio bibliográfico, ferramenta indispensável que norteará os três principais eixos da mesma: a educação especial inclusiva e seu percurso histórico na sociedade ocidental, a epistemologia referente a currículo, conhecimento e aprendizagem e as definições sobre adaptação curricular. Com este conjugado de aportes faremos nosso percurso para tornar possível o relato fidedigno desta experiência.

4 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Conhecer a história da inclusão e, mais especificamente, da educação especial na sociedade brasileira é imprescindível para compreender a conjuntura atual, suas concepções, intenções e ações. O desenvolvimento histórico da educação especial no Brasil inicia-se no Século XIX, quando os serviços dedicados a esse segmento de nossa população, inspirados por experiências norte-americanas e europeias, foram trazidos por alguns brasileiros que se dispunham a organizar e a implementar ações isoladas e particulares para atender a pessoas com deficiências físicas, mentais e sensoriais.

Essas iniciativas não estavam integradas às políticas públicas de educação e foi preciso o passar de aproximadamente um século para que a educação especial passasse a ser uma das

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componentes de nosso sistema educacional. De fato, no início dos anos de 1960 é que essa modalidade de ensino foi instituída oficialmente, com a denominação de "educação dos excepcionais". Podemos, pois, afirmar que a história da educação de pessoas com deficiência no Brasil está dividida entre três grandes períodos: de 1854 a 1956 – marcado por iniciativas de caráter privado; de 1957 a 1993 – definido por ações oficiais de âmbito nacional; de 1993 até os dias de hoje – caracterizado pelos movimentos em favor da inclusão escolar.

No primeiro período enfatizou-se o atendimento clínico especializado, mas incluindo a educação escolar e nesse tempo foram fundadas as instituições mais tradicionais de assistência às pessoas com deficiências mental, físicas e sensoriais que seguiram o exemplo e o pioneirismo do Instituto dos Meninos Cegos, fundado na cidade do Rio de Janeiro, em fins de 1854.

Entre a fundação desse Instituto e os dias de hoje, a história da educação especial no Brasil foi se estruturando, seguindo quase sempre modelos que primam pelo assistencialismo, pela visão segregativa e por uma segmentação das deficiências, fato que contribui ainda mais para que a formação escolar e a vida social das crianças e jovens com deficiência aconteçam em um mundo à parte. Esse paradigma inicial pode ser usado, por um lado, para perpetuar a segregação das pessoas com deficiência, cristalizando uma concepção que não contribui para a participação ativa na sociedade dessa parcela de cidadãos. Mas, por outro lado, pode provocar a inquietação para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária que preserve nas suas bases uma matriz verdadeiramente inclusiva. Além disso, nenhuma sociedade se constitui bem-sucedida se não favorecer, em todas as áreas da convivência humana, o respeito à diversidade. Cada um é diferente do outro, nas suas características físicas, sociais, culturais e também no seu funcionamento mental.

Ao revermos o fazer da escola e a ideia contemporânea de inclusão, refletimos, também, sobre a importância que a individualidade e a subjetividade ocupam no processo de aprendizagem, já que tornam cada aluno peculiar em suas características e necessidades. Ao refletir sobre tudo isso, enxergamos com clareza que cada aluno tem peculiaridades específicas e especiais, e que para atendê-las temos, às vezes, que fazer ajustes e adaptações no currículo regularmente proposto para garantir as respostas educacionais que lhes são necessárias para acessar o conhecimento disponível como qualquer um de seus demais colegas. Tais ações são essenciais para a construção de um sistema educacional inclusivo, ou seja, para construir uma escola que esteja aberta e preparada para responder educacionalmente a todos.

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Ações inclusivas devem sempre permear a sociedade, todavia, infelizmente isso ainda não é respeitado por todos. Sabe-se que a escola é a instituição que deve garantir, ou pelo menos mostrar aos educandos o quão são necessárias palavras e ações que demonstrem o valor e a capacidade de cada ser humano.

É extremamente imprescindível que os alunos, sem exceção, tenham suas peculiaridades e individualidade respeitadas e o âmbito escolar é, sim, um dos lugares em que isso deve ser trabalhado.

Com a universalização da escola, o conceito de currículo passa a ter a necessidade de ser reconfigurado. Alunos com particularidades, características singulares como consequência das suas condições, passam a ocupar os bancos escolares e têm todo o direito de participar deste lugar como qualquer outro aluno. Junto a esse processo inclusivo, vem o desafio de fazer valer todo esse caminho. Tem-se aí uma necessidade iminente de resposta educativa a esse sujeito de oferecer a ele aprendizagens, interatividade e conexão com seus pares. Há muito a percorrer neste sentido, as propostas curriculares devem ser minuciosamente pensadas de maneira sensível e responsável, com o compromisso pedagógico.

Definindo hoje o que é inclusão, podemos afirmar que é a nossa capacidade de entender e reconhecer o outro extraindo dessa relação o privilégio de compartilhar com pessoas diferentes de nós. É interagir, e a partir da relação com o outro, desenvolver-se. O atual paradigma de inclusão escolar deixa claro que é necessário que a escola se molde para atender a necessidade de cada aluno. Implica reconhecer que todos estão abrangidos, isto é, o princípio da prática educativa se aplica a todos. Essa definição é oriunda de uma trajetória histórica que foi delineando a inclusão com uma questão pública que vem tomando forma e exigindo novas práticas sociais e educacionais. A psicanalista Maud Mannoni afirma que o estigma da pessoa com deficiencia é apreendido pelo próprio deficiente. Manonni abre o questionamento em relação a deficiência ao fugir do diagnótico clínico que estigmatiza e cristaliza a condição patológica da pessoa.

A pergunta que me faço a mim mesma como pessoa e como profissional docente é: Será débil ou não? É antes da seguinte ordem: Que tem de perturbado a nível de linguagem, na relação mãe e filho, que se reproduz por uma vía separada, paralisando o indivíduo no estado social que lhe é conferido, paralisando a mãe no papel que ela atribuiu a si mesma? Não busco reintroduzir uma classificação diferente. Pelo contrário, me limito, partindo de um veredito a ser posto em questão. Deixando, apesar de tudo, o retrato do atrasado em

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uma penumbra, porque, neste estado da investigação, um passeio nas trevas é preferível a segurança da luz. (MANONNI, 1977, p. 41).

A psicanálise a partir dos trabalhos de Maud Manonni veio introduzir um questionamento de aplicação direta do conceito de deficiência, assim como veio estabelecer a luta pelo direito da pessoa com deficiência de ser respeitada. Revelou que cada pessoa é muito mais do que o quadro clínico onde nós tentamos encaixá-la.

A deficiência intelectual é um fenômeno com origem em fatores orgânicos ou sociais definida hoje como uma limitação significativa no funcionamento intelectual e na conduta adaptativa de uma pessoa. No que diz respeito ao funcionamento intelectual, significa que a pessoa aprenda e se desenvolva de forma mais lenta e ou encontrando muitas dificuldades nesse percurso. Já a conduta adaptativa refere-se a um conjunto de habilidades conceituais, sociais e práticas de uma pessoa. As condutas adaptativas conceituais são a linguagem, a leitura, a escrita, o raciocínio lógico. As condutas adaptativas sociais incluem as interações, percepção de regras, autoestima e, por fim, as condutas adaptativas práticas correspondem às tarefas cotidianas, desde o vestir-se até fazer um trajeto sozinho.

Segundo D. Antino, deficiência intelectual corresponde a um funcionamento significativamente abaixo da média, coexistindo com outras limitações relativas a duas ou mais das seguintes áreas de habilidades adaptativas: comunicação, autocuidado, habilidades sociais, participação familiar e comunitária, autonomia, saúde e segurança, funcionalidade acadêmica, lazer e trabalho manifestando-se antes dos 18 anos de idade.

Considerando a escola como um terreno fértil para se tratar de inclusão e, de fato, praticá-la, assume-se hoje esse compromisso: uma prática que efetivamente contemple a inclusão e suas múltiplas questões. Começam a ganhar espaço novos paradigmas sobre a relação entre deficiência, aprendizagem e desenvolvimento. Percebe-se que o educando com deficiência tem seu desenvolvimento condicionado a fatores sociais, culturais, políticos, psicológicos; a deficiência passa a ser vista como uma força impulsionadora para a aprendizagem a medida que o mesmo é encorajado a romper as barreiras e perceber suas potencialidades e possibilidades para aprender.

Leva-se em conta o grau de comprometimento funcional e não a classificação que leva em conta o QI, qual seja leve, moderado, severo ou profundo. Segundo Ballone (2003), o importante é saber em que área a pessoa com deficiência intelectual necessita de apoio. Acredita-se que as

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limitações maiores não estão relacionadas com a deficiência em si, mas com a credibilidade e as oportunidades que são oferecidas às pessoas com deficiência intelectual. Nessa linha, pode-se dizer que, mais que conveniente, é observar e valorizar em que área ou o que a pessoa com deficiência faz bem, gosta, se identifica que possa contribuir para sua autoestima, autovalorização, desenvolvimento e ampliação do seu mundo.

Conforme Vygotsky, as interações sociais são fundamentais para qualquer pessoa se desenvolver. O pensador usa a sócio-gênese como condição esencial para desenvolver estruturas humanas como o pensamento e a linguagem. Desse modo, fica claro que as limitações da pessoa com deficiencia intelectual são de orden biológica e social uma vez que seu desenvolvimento depende diretamente da representação que essa sociedade faz dessa pessoa. Para Vigotsky (1989), a capacidade não é uma função íntegra, mas uma série de funções e fatores que estão unidos num todo. Assim, se a pessoa com deficiência é tratada por toda a sua vida como uma eterna criança, assim ela se enxergará, mas, por outro lado, se é encorajada a reconhecer suas limitações na tentativa de superá-las desenvolvendo-se, amadurecendo seu pensamento, sua conduta e suas escolhas, assim será.

Discutir a estruturação escolar para atender as pessoas com deficiência intelectual requer repensar seu currículo. Este deve ser pensado na sua concepção mais ampla. Etimologicamente, currículo tem sua raiz na palavra curriculum, derivada do verbo currere que significa caminho, percurso. Coll (1996) discute em seu livro Psicologia e Currículo a finalidade da educação estabelecendo um elo entre educação e currículo escolar. Segundo ele, a elaboração de uma proposta curricular deve ser flexível, operacional, concreta e fácil de ser utilizada, em um período plausível de tempo. Portanto, currículo é organizado de forma a oferecer múltiplos espaços de experiências e elaboração de conhecimentos, utilização de diferentes linguagens, construção da identidade, processo de socialização e desenvolvimento da autonomia, elemento que se constituem em aprendizagens essenciais, das quais todos os alunos devem participar mesmo aqueles que necessitam de apoio e suporte efetivo e contínuo.

Muitos consideram currículo apenas a grade curricular, ou seja, a divisão em disciplinas e os conteúdos trabalhados por elas, porém este deve contemplar todo o processo vivido na escola como parte integrante do currículo. Gimeno (1992, p. 179) define currículo como:

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Conjunto de experiências de aprendizagem planejadas, bem como de resultados de aprendizagem previamente definidos, formulando-se umas e outras mediante reconstrução sistemática da experiência e conhecimento humanos, sob os auspícios da escola e em ordem ao desenvolvimento permanente do educando nas suas competências pessoais e sociais.

Segundo Morin, o currículo tem que ter muitas dúvidas e poucas certezas, ou seja, dentro de uma única realidade há múltiplas lógicas, valores, significados que estão sempre se reconstruindo e se transformando razão pela qual o currículo necessita de análise constante e atenção as dúvidas, as ações porque elas é que de fato, traduzem a realidade e estampam como essa realidade é encarada e vivida.

O projeto curricular formulado deve ser concreto, garantindo continuidade através da estruturação ordenada e coerente de cada disciplina, respeitando as diferenças de cultura locais (ou regionais), bem como os diferentes níveis ou etapas da escolarização considerada obrigatória. O pesquisador dá preferência à concepção aberta de elaboração curricular, uma concepção que valoriza a discussão e o repensar relativos a metodologias, objetivos, práticas e demais elementos pedagógicos, por apresentar flexibilidade, permitindo ao professor mudar suas estratégias se assim considerar necessário. Para Coll uma proposta aberta é aquela que valoriza aprendizagem significativa. Segundo Maclaren (1998), o currículo representa muito mais do que um programa de estudos, um texto em sala de aula.

5 RESULTADOS

Após observarmos o seminário de literatura e conversarmos com o coletivo de alunos, com o aluno com síndrome de down e professora de língua portuguesa, percebemos que o professor tem em suas mãos a possibilidade de fazer valer todo o percurso feito até aqui para que os alunos com deficiência possam participar efetivamente das aulas regulares. É evidente que sabemos de todos os percalços e falhas existentes quanto à estrututa, condições de trabalho quando se fala em educação pública. Mas o que neste relato queremos ressaltar é que a sensibilidade, a vontade e o esforço para incluir de fato, tornam possível que um aluno com uma condição diferente desenvolva e muito suas potencialidades. A turma mostrou empatia com o colega que relatou sua leitura, fez suas críticas e em nenhum momento notou-se desrespeito, muito pelo contrário, havia um clima de total atenção

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ao que o colega discursava. A professora a todo o tempo o incentivava e ele se enchia de segurança. Sem dúvida, nossa observação veio reafirmar o que nossos aportes teóricos mostraram.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Uma sociedade que se reconheça como inclusiva precisa estar aberta as diferenças e, principalmente, deve estar atuando de forma propositiva a fim de gerar ideias e práticas em prol da valorização da diversidade humana. Favorecer o respeito, a convivência e a experiência a partir da relação com o outro é de fundamental relevância para o desenvolvimento de qualquer pessoa em muitas áreas da sua vida. Tendo em vista que os princípios para o desenvolvimento das pessoas com deficiência são os mesmos aplicados aos demais seres humanos e isso se refere também no seu funcionamento mental, deve-se garantir os suportes necessários para que todos usufruam da vida em comunidade.

Concluindo essa análise, o respeito aos direitos e liberdades humanas é o primeiro passo para a construção da cidadania. Neste sentido, torna-se necessário que se empreenda a possibilidade de conceber o atendimento escolar baseado na compreensão do ser humano em suas diferentes formas de existir.

Educação inclusiva, portanto, significa educar todos em um mesmo contexto escolar. A opção por este tipo de educação não significa negar as dificuldades dos estudantes, pelo contrário, com a inclusão, as diferenças não são vistas como problemas, mas como diversidade. Essa variedade, a partir da realidade social, que pode ampliar a visão de mundo e desenvolver oportunidades de convivência.

Preservar a diversidade apresentada na escola, encontrada na realidade social, representa oportunidade para o atendimento das necessidades educacionais com ênfase nas capacidades e potencialidades do educando.

O grande divisor de águas em toda a trajetória da educação especial está no fato de ir além da integração no espaço escolar comum do aluno com deficiência, de identificar o CID (classificação internacional de doenças) correspondente a sua condição e aceitá-lo, de legislar a respeito; significa focar na transposição das barreiras, na preocupação frente às barreiras que este aluno enfrenta e que

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o impedem de desenvolver suas potencialidades. Nesta perspectiva, há uma política de ações para incluir esse sujeito no contexto escolar e social otimizando sua participação.

O foco não é a deficiência em si, mas quais as pessoas, as propostas, os serviços e os recursos envolvidos que irão dar sustento e continuidade ao trabalho com este aluno. O atendimento educacional passa a ser um aliado acolhedor, atento, observador e analítico que articulado com a família, escola e outros serviços pode promover o desenvolvimento.

Os professores e demais envolvidos no contexto escolar devem primar por uma intervenção pedagógica personalizada tendo em vista atingir as necessidades de cada aluno. Isso traduz o que é inclusão: uma ideia profunda sobre a vida, a natureza peculiar e diferente de cada pessoa; natureza esta que além de ser respeitada, precisa ser valorizada. A inclusão muito mais do que proporcionar o acesso, representa o combate a segregação, a exclusão.

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