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Interpretação constitucional
Luiz Carlos Saldanha Rodrigues Junior *
Como citar este artigo: JUNIOR, Luiz Carlos Saldanha Rodrigues. Interpretação constitucional. Disponível em http://www.iuspedia.com.br 08 maiio. 2008.
I - métodos de interpretação constitucional: a) Existência de um método ideal de interpretação; b) os métodos de interpretação constitucional são mutuamente excludentes; c) se métodos diferentes levam a resultados necessariamente contraditórios; d) se o fim visado pelo interprete condiciona a escolha do método; e) se é correto dizer que a pluralidade de métodos é veículo da liberdade do interprete.
Considerando a proposição sob o ângulo do material doutrinário, chegamos à conclusão que a atividade interpretativa é fruto de um processo experimental, que avalia um objeto e sua utilidade, conforme resultados havidos.
A atividade interpretativa parte do pressuposto de que o interprete é quem testará seus conceitos e impressões pessoais sobre um objeto, fazendo uma escolha fundamental, sobre qual o método e quais os resultados que deseja ou pode esperar.
O método hermenêutico-clássico, traduzido na idéia de verdade como conformidade, não exclui ou invalida os demais métodos de interpretação constitucional; nem mesmo se contrapõe a qualquer deles; todavia o método tópico-problemático, é o que responde melhor aos conteúdos que devam guardar uma proximidade temporal com o momento
criativo daquele objeto estudado; são ajustes sutis, mais pertinentes ao método hermenêutico-concretizador do que o método científico-espiritual que os visualiza, como instrumento de sua integração, tornando válida a escolha referida inicialmente[1].
É possível assim, que dependente da escolha de um método, o fim visado ou esperado não se confirme. Mas isso não invalida a experiência, podendo ser reiniciada pelo interprete pelo manejo de outro método ainda não empregado, ou, ainda, que a técnica ou os pré-conceitos iniciais, influenciaram na própria expectativa do interprete.
"A interpretação de algo como algo, funda-se, essencialmente, numa posição prévia, visão prévia e concepção prévia. A interpretação nunca é a apreensão de um dado preliminar isenta de pressuposições. (...) Em todo princípio de interpretação, ela se apresenta como sendo aquilo que a interpretação necessariamente já "põe", ou seja, que é preliminarmente dado na posição prévia, visão prévia e concepção prévia[2]."
Com essas considerações iniciais e baseando-se na reflexão acerca da escolha do método, a própria opção torna-se um ato de vontade do interprete e, por lógico, que os resultados tenderão a seguir os motivos da dessa escolha, porquanto, só o interprete será capaz de antever os resultados de sua busca.
Afinal, o próprio conhecimento se exterioriza de uma determinada forma e a ela chamamos de compreensão.
Deste modo, há de se notar que a interpretação se funda existencialmente na compreensão, de forma que as palavras e seus significados têm toda a relevância. O que ocorre é que o interprete já inicia sua pesquisa possuindo uma pré-compreensão daquilo que vai interpretar, inclusive dos métodos que irá usar para este ou aquele resultado.
Essa pré-compreensão está adstrita a sua visão contemplativa do todo; primeiro dele próprio e à medida que se chega ao compreendido -objeto-, este revela sua essência e estrutura, a interpretação.
Assim, toda perspectiva tem em si mesma uma compreensão e uma interpretação. E, ambas partem de uma estrutura prévia, uma concepção prévia, ambas adstritas à visão do interprete, como se ele fosse um único ponto estático nessa relação, ou o núcleo de um sistema concêntrico onde, os objetos são explicados conforme suas orbitas, tanto mais conhecidos quanto mais próximo do observador.
Gadamer professou que a verdadeira compreensão da coisa e a correta interpretação desta, não têm limite na ciência empregada, mas na experiência humana, especialmente sob o ângulo da linguagem[3].
Assim, para aquele autor, há que identificar diferenças e semelhanças entre o comportamento do historiador jurídico do jurista, diante do mesmo texto.
Seu interesse, ao menos sob esse aspecto, estava em estabelecer se havia qualquer diferença entre o interesse dogmático e o interesse histórico e se eles constituíam uma diferença unívoca, concluindo que:
"O jurista toma o sentido da lei a partir de e em virtude de um determinado caso dado. O historiador jurídico, pelo contrário, não tem nenhum caso de que partir, mas procura determinar o sentido da lei na medida em que coloca construtivamente a totalidade do âmbito de aplicação da lei diante dos olhos. Somente no conjunto dessas aplicações torna-se concreto o torna-sentido de uma lei[4]."
Na lição do livre-docente Raimundo Bezerra Falcão:
"O intérprete, desse modo, não tem como ser reduzido ao servilismo da forma, mas precisa libertar-se nos alargamentos permitidos pelo conteúdo, onde está a principal matéria do sentido que ele tem a responsabilidade de extrair, com sensibilidade para com aquela força, interna e quase sempre tácita, que atua ao influxo do sistema, força que, entretanto, não tem como impor ao intérprete a abdicação de sua natureza de ser pensante e criador de cultura,
na mesma medida em que o legislador o é, e efetivamente o foi, no momento de produzir a norma.[5]" (FALCÃO, 1997, p. 215).
Sobre o tema professa igualmente Karl ENGISH que "o problema central da interpretação é o problema central da Metodologia Jurídica"[6].
Por essas importantes observações acima, uma escolha responsável do método é crucial para o desenvolvimento da compreensão e do próprio conhecimento, não havendo um método ideal de interpretação, mas um que apenas coincida com a pré-compreensão do interprete.
Sob esse prisma, a escolha do método A em relação ao B, não exclui os resultados da interpretação, apenas que tal resultado reproduz, com fidelidade, a experiência conforme o método empregado.
Não fosse por isso, a escolha de um método de interpretação sequer seria posta a prova, bastando que a compreensão do objeto fosse estática e indelével.
Como observa o Professor Inocêncio Mártires Coelho [7], "o primeiro e grande problema com que se defrontam os intérpretes da constituição parece residir, de um lado e paradoxalmente, nessa riqueza de possibilidades e, de outro, na inexistência de critérios que possam validar a escolha dos seus instrumentos de trabalho e resolver os seus eventuais conflitos..."
Noutras linhas, se o objeto é compreendido e, portanto, conhecido, qual é o papel do método? O método é, igualmente, o produto do conhecimento do interprete, pois, ele mesmo passou por um momento de prova ou teste, quando de sua escolha. Seja aquela para validar uma interpretação, seja para justificar o próprio estudo do objeto; toda escolha pressupõe uma variedade de caminhos, todos voltados para resultados próprios e adequados, mas que, para o interprete somente um será validamente aceito.
Portanto a escolha de métodos distintos apesar de gerarem resultados distintos, mas não necessariamente contraditórios.
A eventual contradição nos resultados, são elementos que o próprio objeto revela ao conhecimento do interprete, por exemplo: a afirmativa de que a terra é redonda levou diversos filósofos ou místicos para a fogueira no passado. Em tempos modernos e com o emprego de distintas tecnologias, provou-se que a terra era mesmo redonda!
Em todo o caso, seja na primitiva concepção seja a atual, a terra (planeta terra) nunca deixou de representar uma figura geométrica conhecida, o círculo.
Por fim, e diante do conteúdo do material, não é incorreto afirmar que a pluralidade dos métodos seja um veículo da liberdade do interprete, mesmo porque, se há escolha e se há voluntariedade do interprete no exercício de uma escolha, não há que se falar em qualquer limite ou restrição para ele.
1. Cf. COELHO, Inocêncio Mártires. Métodos e princípios da interpretação constitucional. Os limites da interpretação constitucional e as chamadas mutações da Constituição. Material da 3ª aula da Disciplina Teoria da Constituição e Hermenêutica Constitucional, ministrada no Curso de Especialização Telepresencial e Virtual em Direito Constitucional – UNISUL - IDP – REDE LFG.
2. Heidegger, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis, Vozes, 1988, vol. I, pág. 207.
3. Cf. GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método – Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Tradução de Paulo Meurer. Petrópolis: Editora Vozes, 1997, p. 483.
4. Cf. GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método – Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Tradução de Paulo Meurer. Petrópolis: Editora Vozes, 1997, p. 483.
5. Cf. FALCÃO, Raimundo Bezerra. Hermenêutica. São Paulo: Malheiros, 1997.
6. Cf. ENGISH, Karl. Introdução ao Pensamento Jurídico. 6. ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1977.
7. Cf. COELHO, Inocêncio Mártires. Métodos e princípios da interpretação constitucional. Os limites da interpretação constitucional e as chamadas mutações da Constituição. Material da 3ª aula da Disciplina Teoria da Constituição e Hermenêutica Constitucional, ministrada no Curso de Especialização Telepresencial e Virtual em Direito Constitucional – UNISUL - IDP – REDE LFG.
* Advogado e Professor Universitário
Disponível em:
http://www.wiki-iuspedia.com.br/article.php?story=20080508150921802 . Acesso em: 26 agosto 2008.