EFICIÊNCIA DO SILÍCIO NO CONTROLE DE ÁCAROS EM
MORANGUEIRO
Gleberson Guillen Piccinin1; Anderson Carlos Versari1; Cláudia R. Dias-Arieira1; Cleison Guillen Piccinin1
1
Universidade Estadual de Maringá, Estrada da Paca, s/n, 87508-210, Umuarama, PR.
RESUMO
Os ácaros são pragas primarias na cultura do morango. Eles caracterizam-se por serem de difícil controle, principalmente pelas limitações que os métodos isolados apresentam. Assim, o trabalho teve como objetivo avaliar a eficiência de diferentes dosagens de silício no controle do ácaro, sob infestação natural. O silício nas concentrações de 0, 53,5, 107,0, 160,5, 214,0 e 267,5 g de i.a.ha-1 foi aplicado no morangueiro infestado com ácaro e avaliou-se o número de ácaros por 4 cm2, após três dias da aplicação. O experimento foi em blocos ao acaso com quatro repetições. Observou-se que o silício foi eficiente em controlar o ácaro, independente da concentração. No entanto, a eficiência do controle foi diretamente proporcional ao aumento da dosagem, chegando a 97% de redução, quando utilizou-se 267,5 g de ia.ha-1.
PALAVRAS-CHAVE: ácaro, silício, morango,
controle cultural.
ABSTRACT
Efficiency of silicon in the mites control in strawberry.
The mites are primary pests in strawberry crop. They are characterized by difficult control, mainly by limits that the isolated methods present. Then, the objective of this resource was to evaluate different dosages of silicon in mite control, in natural infestation. The silicon in the concentration of 0, 53.5, 107.0, 160.5, 214.0 e 267.5 g de ai.ha-1 was applied in strawberry crop infested with mite and a number of mites in 4 cm2 was evaluated after three days of application. The experiment was conduced in random blocks with four repetitions. The silicon was efficient in mite control, in all concentration. The efficiency on control was directly proportional to dosages, with 97 % of reduction, when utilized 267.5 g of ai.ha-1.
KEY WORDS: mite, silicon, strawberry, cultural
control.
INTRODUÇÃO
Os ácaros são considerados pragas primárias da cultura do morangueiro. Durante o processo de alimentação, os ácaros causam injúrias devido à perfuração das células da epiderme inferior das folhas. Por alimentar-se do conteúdo intracelular das folhas, causam morte das células atacadas e provocam o aparecimento de manchas ou áreas descoradas (Fadini et al., 2004). Além das folhas, os ácaros podem atacar os frutos quando estes estão verdes. Quando em altas densidades os ácaros podem reduzir a taxa fotossintética das plantas do morangueiro por causarem danos às células do mesófilo foliar e o fechamento dos estômatos, acarretando redução no número e no peso dos frutos.
Inúmeras espécies de ácaro são importantes para o morangueiro. Segundo Chiavegato & Mischan (1981) o ácaro-rajado (Tetranychus urticae) é a principal praga da cultura e pode causar redução de até 80% na produção de frutos quando o controle não é feito de forma adequada. Os principais sintomas observados são manchas inicialmente avermelhadas que posteriormente secam e caem (Nakano et al., 1992). Sintomas semelhantes são provocados pelo ácaro vermelho (Tetranychus desertorum).
O ácaro do enfezamento (Steneotarsonemus pallidus) é de difícil visualização, devido ao tamanho reduzido. Tal espécie caracteriza-se por causar enrugamento na face superior das folhas que, quando jovens, não se abrem completamente, ficam pequenas e tornam-se amarelecidas a bronzeadas e endurecidas. Está espécie pode promover também queda de flores e frutos.
O controle do ácaro na cultura do morangueiro é complexo. O controle químico é limitado pelo número reduzido de acaricidas registrados para a cultura. Outro fator limitante é o surgimento de populações resistentes (Gould, 1973). Desta forma, é necessária a busca por medidas alternativas para a redução de tais populações. Segundo Fadini et al. (2004) o controle cultural consiste em tornar o ambiente menos favorável as populações de fitófagos reduzindo seu potencial reprodutivo e explorando ainda as defesas constitutivas e induzidas das plantas. Neste contexto, o silício pode tornar-se uma importante ferramenta para o controle de ácaros. O silício é absorvido a partir do solo pelas plantas na forma de ácido monossilícico (H
4SiO4), e acumula-se principalmente na parte aérea, junto à cutícula, como ácido silícico
polimerizado. A deposição de sílica na parede das células torna a planta mais resistente ao ataque de pragas, nematóides, doenças e ácaros (Pozza et al., 2004). Isso ocorre pela associação da sílica com constituintes da parede celular, tornando-as menos acessíveis às enzimas de degradação (resistência mecânica) dos invasores. Assim, o presente trabalho teve como objetivo avaliar o efeito de diferentes doses de silício no controle de ácaro na cultura do morangueiro.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi realizado no mês de maio de 2006, em uma propriedade agrícola do Município de Campo Mourão, a qual se encontrava com grandes problemas de ácaros na cultura do morango.
O trabalho foi realizado com a pulverização do produto comercial com concentração de 10,7% de silício. Os tratamentos consistiram na aplicação de silício nas concentrações de 53,5 g de i.a./ha (500 g do produto/ha), 107,0 g de i.a./ha (1000 g do produto/ha), 160,5 g de i.a./ha (1500 g do produto/ha), 214 g de i.a./ha (2000 g do produto/ha) e 267,5 g de i.a./ha (2500 g do produto/ha). Plantas não pulverizadas foram utilizadas como testemunha.
A calda foi preparada numa proporção equivalente a 500 l/ha, sendo esta a recomendação do fabricante. A pulverização foi feita pela manhã, usando um pulverizador costal com capacidade para 5 l, sendo a calda aplicada até o ponto de escorrimento.
A avaliação foi realizada três dias após a aplicação, através da amostragem, a qual consistiu na coleta de folhas verdes, que foram acondicionadas em sacos de papel e encaminhadas ao laboratório. A contagem foi realizada com auxílio de lupa específica para contagem de ácaros com aumento de vinte vezes.
Cada unidade experimental apresentou 1 m2, com bordas laterais de 0,50 m entre os tratamentos. O delineamento experimental foi em blocos casualizados, com quatro repetições para cada tratamento. As médias obtidas foram comparadas pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Durante a avaliação do experimento, observou-se que duas espécies de ácaros ocorriam na área: ácaro rajado e ácaro vermelho.
Os resultados apontam para a eficiente do silício em reduzir o número de ácaros, independente da concentração aplicada. Para o tratamento com 53,5 g de i.a./ha o número de ácaros recuperados em 4 cm² foi de 57,00, contra 96,50 observados para a testemunha (Tabela 1), o que equivale a redução de 40,9%. O número de ácaro chegou a 2,75 por 4 cm², quando utilizou-se a concentração de 267,5 g de i.a./ha. Neste caso, a redução da população de ácaro foi de 97,2% quando comparado ao controle (Tabela 1).
Observando a Tabela 1 nota-se que a redução na população de ácaro foi diretamente proporcional ao aumentou na dosagem do produto. Segundo a análise, as médias observadas para as dosagens de 214 g de i.a./ha e 267,5 g de i.a./ha foram estatisticamente iguais. Bem como as dosagens de 160,5 e 214 g de i.a./ha produto. Resultados positivos do uso de silício no controle de pragas já foram obtidos por outros pesquisadores e, em geral, o melhor controle está relacionado às dosagens elevadas de silício na planta (Savant et al., 1994, Salim & Saxena, 1992). Segundo Datnoff et al. (1991) a silificação da epiderme impede a penetração e a mastigação pelos insetos devido ao endurecimento da parede das células vegetais.
Na cultura do arroz o silício foi eficiente em controlar, entre outros insetos, Chilo
suppressalis, Scirpophaga incertulas (Savant et al., 1994), Nilaparvata lugens (Sujatha et al.,
1987), Sogetella furcifera (Salim & Saxena, 1992) e Elasmopalpus lignosellus (Nakano et al., 1961). Em trigo, o silício controlou o pulgão verde (Schizaphis graminum), reduzindo tanto a reprodução quanto a longevidade dos insetos (Costa & Moraes, 2006). Resultados semelhantes tinham sido observados por Carvalho et al. (1999) quando a produção de ninfas de S. graminum foi em média 32% menor em genótipos de sorgo submetidos à aplicação de silício do que na testemunha.
Além do controle de pragas, o silício tem sido bastante pesquisado para o controle de doenças em plantas. Pozza et al. (2004) apresentam uma revisão detalhada a respeito do assunto e, apesar da maioria dos trabalhos centrarem-se no controle de doenças em monocotiledôneas, como arroz e cana-de-açúcar, há inúmeras evidências do controle eficiente de doenças em dicotiledôneas, como pepino, cafeeiro, soja, citros e videira.
O silício, apesar de não ser considerado um elemento essencial ou funcional para o crescimento das plantas, representa uma importante ferramenta para o manejo integrado, principalmente pela gama de pragas e patógenos que comprovadamente são controlados pelo uso deste nutriente. Ele promove a formação de barreira física nas células epidérmicas e afeta os sinais entre o hospedeiro e o patógeno, resultando em uma ativação mais rápida e extensiva dos mecanismos de defesa da planta (Samuels et al., 1991). Além disto, o uso de silício aumenta a nodulação de leguminosas (Ma et al., 2001).
Devido às inúmeras vantagens da adubação com silício, conclui-se que tal elemento pode ser utilizado para o controle de ácaros na cultura do morangueiro.
LITERATURA CITADA
CARVALHO SP; MORAES JC; CARVALHO JG. 1999. Efeito do silício na resistência do sorgo (Sorghum bicolor) ao pulgão-verde Schizaphis graminum (Rond.) (Homoptera: Aphididae).
Anais da Sociedade Entomológica do Brasil 28: 505-510.
CHIAVEGATO LG; MISCHAN MM. 1981. Efeito do Tetranychus (T.) urticae (Koch, 1836) Boudreaux & Dosse, 1963 (Acari, Tetranychidae) na produção do morangueiro (Fragaria sp) cv. Campinas. Científica 9: 257-266.
COSTA RR; MORAES JC. 2006. Efeitos do ácido silícico e do acibenzolar-S-methyl sobre
Schizaphis graminum (Rondani) (Hemiptera: Aphididae) em plantas de trigo. Neotropical Entomology 35: 834-839.
DATNOFF LE; RAID RN; SNYDER GH; JONES DB. 1991. Effect of calcium silicate on blast and brown spot intensities and yields of rice. Plant Disease 75: 729-732.
FADINI MAM; PALLINI A; VENZON M. 2004. Controle de ácaros em sistema de produção integrada de morango. Ciência Rural 34: 1271-1277.
GOULD HJ. 1973. Laboratory and field investigations with organophosphorus resistant
Tetranychus urticae on strawberries. Annual Applied Biology 74: 17-23.
MA JF; MIYAKE Y; TAKAHASHI E. 2001. Silicon as a beneficial element for crop plants. In: DANTNOFF IE; SNYDER GH; KORNDORFER GH. (eds). Silicon in Agriculture. Elsevier Science B.V. Amsterdam 17-39.
NAKANO K; ABE G; HIRANO C. 1961. Silicon as an insect resistance component of host plant, found in relation between the rice stem borer and rice plant. Japanese Journal of Applied
Entomology and Zoology 5: 17-27.
NAKANO O; PARRA JRP; MARCHINI LC. 1992. Pragas das hortaliças e ornamentais. In: FEALQ. Curso de Entomologia Aplicada a Agricultura. Piracicaba: FEALQ 441-476.
PALLINI A; MATOS CHC; HATANO E; VENZON M. 2002. Manejo integrado de ácaros em fruteiras tropicais e subtropicais. In: ZAMBOLIM L. Manejo Integrado de Fruteiras Tropicais
Doenças e Pragas. Universidade Federal de Viçosa: UFV: 579-614.
POZZA AAA; POZZA EA; BOTELHO DMS. 2004 O silício no controle de doenças de plantas.
Revisão Anual de Patologia de Plantas, 12: 373-402.
SALIM M; SAXENA RC. 1992. Iron, silica and aluminum stress and varietal resistance in rice: Effects on white backed plant hopper. Crop Science 32: 212-219.
SAMUELS AL; GLASS ADM; ERHET DL; MENZIES JG. 1991. Mobility and deposition of silicon in cucumber plants. Plant, Cell and Environment 14: 485-492.
Tabela 1. Número de ácaros em 4 cm² de área foliar de morangueiro, após três dias de aplicação de silício em
diferentes concentrações. Médias seguidas pela mesma letra não diferem entre si pelo teste Tukey a 5% de probabilidade.
Tratamentos
Número de ácaros Redução em relação à testemunha
(g de i.a./ha) (%) 0 (Testemunha) 96,50 a -53,5 57,00 b 40,9 107,0 38,50 c 60,1 160,5 23,00 d 76,2 214,0 10,75 de 88,9 267,5 2,75 e 97,2
SAVANT AS; PATIL VW; SAVANT NK. 1994. Rice hull ash applied to seedbed reduces deadhearts in transplanted rice. International Rice Resources Notes 19: 21-22.
SUJATHA G; REDDY GPV; MURTHY MMK. 1987. Effect of certain biochemical factors on expression of resistance of rice varieties to brown plant hopper (Nilaparvata lugens Stal).