UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL - UNIJUÍ DHE DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE PSICOLOGIA

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Texto

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UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL - UNIJUÍ

DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE PSICOLOGIA

DEISE TAÍS UECKER

O LUGAR DOS PAIS NA CLÍNICA PSICANALÍTICA COM CRIANÇAS

IJUÍ/RS 2018

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2 DEISE TAÍS UECKER

O LUGAR DOS PAIS NA CLÍNICA PSICANALÍTICA COM CRIANÇAS

Trabalho de conclusão apresentado ao Curso de Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Psicologia.

Orientadora: Dra. Solange Castro Schorn

IJUÍ/RS 2018

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3 O LUGAR DOS PAIS NA CLÍNICA PSICANALÍTICA COM CRIANÇAS

BANCA EXAMINADORA

_____________________________________________ Profª Doutora Solange Castro Schorn

______________________________________________ Profª Mestre Elisiane Schonardie

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4 AGRADECIMENTOS

Agradeço, primeiramente à Deus, pelo dom da vida, por me dar saúde e força para enfrentar as dificuldades.

De forma muito especial agradeço aos meus pais Neiva e Daltro, pelo amor, carinho, compreensão e por possibilitarem a realização do sonho de cursar psicologia. Muito obrigada Stéfani, por ser a melhor irmã do mundo, pelo amor, por acreditar e apostar em mim.

Ao meu marido, Leandro, pelo amor, companheirismo, incentivo, constante apoio e compreensão das minhas ausências.

Sou muito grata à professora Solange, que antes de ser minha orientadora, apresentou-me à psicologia, encorajou-me, incentivou e mostrou caminhos, obrigada pela paciência, pelo carinho e pelas importantes contribuições na realização deste trabalho.

À professora Elisiane, supervisora de estágio em psicologia e processos educacionais, agradeço de coração por aceitar participar da banca deste trabalho, pela amizade, incentivo e valiosos ensinamentos durante meu percurso acadêmico.

Aos supervisores de estágio, professora Cristian e professor Nilson, pelas importantes reflexões e aprendizagens no percurso prático.

Queridas amigas e colegas, Ângela, Jani e Vera, muito obrigada pela amizade e por estarem sempre por perto.

Agradeço aos professores do curso de Psicologia que com muita paciência e dedicação proporcionaram momentos importantes de aprendizagens e reflexões.

A todos os amigos que direta ou indiretamente participaram da minha formação, meu muito obrigado.

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5 RESUMO

O presente trabalho tem como objetivo abordar alguns aspectos da clínica psicanalítica de crianças, em especial sobre o lugar e a importância dos pais no tratamento do filho. Para isso, utiliza-se como referencial a teoria psicanalítica, percorrendo conceitos fundamentais como inconsciente, transferência, demanda e desejo, além de abordar o percurso histórico de tratamento psicanalítico de crianças iniciado por Freud com o caso do pequeno Hans (1909). Posteriormente, avança-se às principais contribuições de Melanie Klein, Donald Winnicott e Françoise Dolto no que tange à teoria e técnica da clínica psicanalítica com crianças. Busca-se, a partir dessas considerações, abordar sobre o lugar dos pais para o tratamento clínico dos filhos, uma vez que eles, inicialmente demandam o tratamento e o sustentam a partir da transferência que, também, se implica a eles.

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6 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ... 7 1 CONCEITOS FUNDAMENTAIS ... 10 1.1 Inconsciente ... 10 1.2 Transferência ... 12 1.3 Demanda e Desejo ... 15

2 SOBRE A CLÍNICA PSICANALÍTICA COM CRIANÇAS ... 18

2.1 Sobre o Pequeno Hans ... 20

2.2 Contribuições para a clínica com crianças ... 22

2.2.1 Melanie Klein ... 22

2.2.2 Donald Winnicott ... 27

2.2.3 Françoise Dolto ... 32

3 DEMANDA E TRANSFERÊNCIA DOS PAIS ... 39

3.1 Entrevistas preliminares: o tempo de compreender ... 41

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 46

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7 INTRODUÇÃO

A clínica psicanalítica com crianças tem seu início com os trabalhos de Freud no tratamento do pequeno Hans (1909). É desde esse caso que se pode pensar a escuta clínica da criança, ainda que Freud tenha apontado, num primeiro momento, suas limitações. Para o autor, o tratamento não deveria ser realizado pelo pai, contudo, era importante conciliar a autoridade paterna e a médica na proposta terapêutica. Essa junção abriu possiblidades para a psicanálise com crianças, conduzindo outros psicanalistas ao reconhecimento dessa prática. Assim, esses profissionais começaram a sistematizar um método de análise infantil. Anna Freud e Melanie Klein destacam-se como precursoras dessa prática clínica oferecendo contribuições significativas às primeiras compreensões da clínica com crianças.

Em sua proposta teórica Anna Freud aponta para um viés pedagógico combinando analisar e educar em uma só função. Melanie Klein inaugura uma nova metodologia com a utilização de jogos e brincadeiras procurando preservar os princípios da psicanalise freudiana. Posteriormente, Françoise Dolto, com base na teoria lacaniana, propõe um método de escuta do inconsciente da criança enfatizando a importância dos pais no tratamento do filho, considerando imprescindível a escuta destes no sentido de ressituá-los em relação à própria história, uma vez que entende que o sintoma familiar implica no sintoma da criança.

Conhecer e compreender essas posições teóricas, assim como a presença e o lugar que os pais ocupam no tratamento da criança, pairaram como interesse no percurso formativo no Curso de Psicologia. Esse interesse surgiu a partir das experiências de atendimento de crianças por meio dos estágios em ênfase clínica e educacional. Cabe destacar o interesse pessoal em aprofundar conhecimentos sobre a clínica psicanalítica com crianças. Considerando que os estudos realizados no percurso de formação acadêmica e as práticas de estágios foram pautadas pela teoria psicanalítica, e percebendo as significativas contribuições que essa linha teórica tem para o trabalho clínico com crianças, é que foi tomada como norteadora desta investigação. É, portanto, por identificação com esse mesmo trabalho e sua proposta teórica que este estudo tem seu lugar.

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O propósito deste trabalho, então, é compreender a especificidade da clínica psicanalítica com crianças, especialmente, no que diz respeito ao lugar dos pais no tratamento do filho. Considerando que a clínica é espaço de elaboração, ressignificações e tratamento de questões psíquicas que se apresentam como barreiras no desenvolvimento do sujeito, salienta-se essa possibilidade, também, no que tange ao atendimento de crianças. Ressalta-se que ao longo do tempo ocorreram importantes modificações no entendimento dessa especificidade, tendo diferentes produções e teorizações sobre a prática. O que se destaca é que a criança também sofre e pode ser tratada pelo viés psicanalítico. Portanto, sendo reconhecido o sofrimento psíquico de crianças, evidencia-se a importância de pensar e estudar sobre essa clínica psicanalítica e suas especificidades.

Compreende-se que grande parte das demandas para atendimento psicológico com crianças ocorre a partir do momento em que elas não respondem aos ideais dos pais ou mesmo da escola, quando o comportamento e/ou desenvolvimento não correspondem ao esperado. Os adultos de referência para as crianças são de grande importância para sua constituição psíquica e, nesse viés, propõe, neste estudo, pensar no lugar que esses adultos, geralmente os pais, ocupam no tratamento psicanalítico dos filhos. Uma vez que são eles que buscam o tratamento para a criança e o sustentam no decorrer do tempo.

Para dar conta deste estudo, foram realizadas leituras na obra de Freud, especialmente nos textos que remetem ao pequeno Hans e recomendações sobre a técnica da psicanálise. Esses textos contemplam discussões sobre o primeiro tratamento psicanalítico com crianças e a importância das entrevistas preliminares, respectivamente. A escolha por esses textos remete à ênfase dada nesta pesquisa sobre a escuta dos pais na direção do tratamento da criança.

Contemplando o percurso metodológico deste estudo, buscou-se contribuições de psicanalistas clássicos como Melanie Klein, Donald Winnicott e Françoise Dolto, que pensaram e desenvolveram suas teorias sobre a clínica psicanalítica com crianças. Sobre Klein, uma das primeiras psicanalistas a aprofundar a especificidade desse fazer clínico, é importante mencionar que, no decorrer de seu trabalho, não deu destaque ou lugar de escuta aos pais, compreendendo ser fundamental o encaminhamento destes quando demandavam espaço de fala para que assim não

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interferissem no tratamento do filho. Winnicott salientou a importância da mãe na constituição do sujeito realçando o lugar dos pais no tratamento dos filhos, pois para ele era essencial a implicação da família nesse tratamento.

No decorrer deste estudo, foram tecidas algumas considerações sobre o caso da menina Piggle, atendida por Winnicott em sua prática clínica, a fim de perceber a importância que o autor concede aos pais no atendimento clínico. Aborda-se, também, as contribuições de Dolto, que esclarece sobre a importância dos pais no tratamento dos filhos e tece importantes considerações sobre as entrevistas preliminares com a família, determinando espaços de fala para a mãe, para o pai e para a criança.

Portanto, ancorado pelas ideias desses autores, o trabalho está estruturado em três capítulos sendo adotado o seguinte percurso. No primeiro capítulo, Conceitos fundamentais, apresenta-se quatro importantes conceitos que sustentam e organizam a clínica psicanalítica, pensados e compreendidos no trabalho com crianças, a saber, inconsciente, transferência, demanda e desejo. Tais conceitos são importantes para se compreender a constituição da criança, seus aspectos subjetivos e as possibilidades do trabalho clínico.

No segundo capítulo, Sobre a clínica psicanalítica com crianças, expõe-se a especificidade da clínica com crianças a partir do caso do Pequeno Hans (1909), desdobrando para as contribuições de Melanie Klein, Donald Winnicott e Françoise Dolto referentes à presença e o lugar dos pais no tratamento psicanalítico com crianças. No terceiro capítulo, Demanda e transferência dos pais, são retomadas as elaborações dos capítulos anteriores possibilitando uma reflexão sobre o lugar dos pais na clínica psicanalítica com crianças. Por fim, esse percurso de escrita permitiu compreender que os pais exercem papel fundamental desde a constituição de sujeito, fazendo parte de uma rede de significantes que possibilitam à criança constituir-se e subjetivar-se, definitivamente.

Contudo, este trabalho constitui um estudo bibliográfico de natureza qualitativa e do tipo descritivo e exploratório tendo como norte a teoria psicanalítica com base nos escritos freudianos e, principalmente, naqueles autores que sustentam a clínica com crianças.

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10 1 CONCEITOS FUNDAMENTAIS

Inicialmente, considera-se importante apontar para algumas características que permeiam o fazer clínico, como os conceitos de inconsciente, transferência e demanda, para que seja possível pensar o espaço, a dinâmica e o trabalho na clínica psicanalítica com crianças, além de considerar a importância e o lugar dos pais no tratamento de seus filhos. Neste sentido, destaca-se que a “psicanálise de crianças é a psicanálise” (MANNONI, 1999, p. 9), sendo portanto, necessário situar a clínica psicanalítica para posteriormente pensa-la na sua especificidade do trabalho com crianças.

A clínica psicanalítica surge com Sigmund Freud (1856-1939), quando este deixa de lado o uso da hipnose e da teoria da sedução, dando lugar para a escuta de uma fala em associação livre. A introdução deste método possibilitou-lhe desvendar o inconsciente e cunhar este conceito que, posteriormente, teria sua presença reconhecida em toda ação humana. A associação livre tornou-se, então, a regra fundamental da prática clínica e o inconsciente a especificidade do sujeito na psicanálise.

Ao considerar o trabalho clínico com crianças nessa abordagem, cabe mencionar que esses conceitos permanecem em presença demarcando um campo de experiência que, para além da psicologia, visa uma mudança na posição subjetiva do sujeito da qual aquilo que é por ele vivido (comportamento, atitudes, aprendizagem) corresponde a uma consequência dessa posição. Portanto, é fundamental ter claro conceitos que norteiam a clínica de adultos, pois a partir destes será possível compreender a especificidade da clínica com crianças que se desdobra a partir da psicanálise clássica.

1.1 Inconsciente

A clínica psicanalítica destaca o inconsciente como conceito importante a ser compreendido, pois além de ser o primeiro conceito fundamental da psicanálise, demarca a especificidade do sujeito nessa abordagem. No decorrer da obra freudiana, esse conceito ganha força como algo existente e em operação em cada sujeito.

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Procurando dar conta da realidade psíquica, Freud (1915) elaborou seus Artigos sobre a Metapsicologia situando o inconsciente como o ponto central de seus escritos. Suas concepções apontam para a existência de processos mentais inconscientes como algo fundamental na teoria psicanalítica, o que leva autores como Laplanche e Pontalis (2001, p. 236) a afirmar que “se fosse preciso concentrar numa palavra a descoberta freudiana, essa palavra seria incontestavelmente na palavra inconsciente”.

No inconsciente são registrados os desejos impróprios e insuportáveis pela consciência moral do sujeito e, a proposta terapêutica da psicanálise, inscreve-se na ação da palavra, o que significa dizer que é na clínica psicanalítica que esse trabalho encontra seu sentido ocorrendo a partir da fala do paciente e da escuta desta pelo analista. A clínica, consiste, então, em um espaço de endereçamento, onde o sujeito fala sobre o que lhe é mais difícil e penoso, tornando consciente aquilo que é inconsciente e que se manifesta por meio de sintomas, atos falhos, lapsos, chistes e sonhos (FREUD, 1901/2016).

A técnica psicanalítica da associação livre, apresentada por Freud (1912/2010), tem como principal premissa tornar consciente o que está recalcado e que tenta emergir como formações inconscientes. Desse modo, o paciente liberta-se das representações que lhe causam sofrimento e angústia. O que se leva em consideração para o tratamento pela palavra são as associações que o paciente consegue fazer. A intervenção do analista, como trabalho interpretativo, torna-se necessária, pois é o que leva o paciente à compreensão do seu sintoma, resistências e recalcamentos.

Freud (1904/2016) destaca ser importante que os pacientes relatem tudo o que lhes passar pela cabeça, ainda que pareça insignificante ou sem sentido, enfatizando, sobretudo, que não excluam qualquer pensamento ou associação que sintam ser penoso ou vergonhoso. Compreende-se, então, que o trabalho analítico ocorre a partir daquilo que emerge do inconsciente e que, por sua vez, consiste no resultado de ideias e desejos considerados inoportunos à consciência ou mesmo responsáveis por sofrimento e angústia. Portanto, é através da associação livre que o inconsciente pode emergir.

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De acordo com Freud (1915/1996, p. 191, grifo do autor) “o núcleo do Ics consiste em representantes instintuais que procuram descarregar sua catexia; isto é, consiste em impulsos carregados de desejo”. No inconsciente estão recalcadas as experiências, lembranças e sentimentos que se estivessem no sistema consciente causariam dor e sofrimento ao sujeito. Sobre isso, Garcia-Roza (2009) afirma que o processo de recalque ocorre entre o sistema inconsciente e pré-consciente/consciente, tendo como principal função proteger a consciência daquelas representações que estão atreladas às pulsões e ao inconsciente. Pelo fato destas representações serem investidas pela pulsão precisam permanecer no inconsciente, se ocorrer delas terem acesso ao sistema pré-consciente acabarão sendo expulsas novamente ao inconsciente.

Portanto, compreende-se que o recalcamento é um processo psíquico pelo qual o sujeito rejeita determinadas representações, desejos, pensamentos, enfim, ideias que possam causar angústia, ficando no inconsciente. É, através das suas formações que essas representações podem retornar à consciência, o que Freud (1915) denomina de retorno do recalcado, terceiro momento na operação do recalque, em que os elementos recalcados retornam por ligarem-se a uma experiência atual.

Contudo, as associações ocorrem no âmbito da transferência que corresponde ao vínculo estabelecido na relação terapêutica. É por este vínculo que as coisas na vida do paciente vão se deslocando.

1.2 Transferência

Nos fundamentos da clínica, o conceito de transferência participa dos mesmos pressupostos que dão sentido e organizam a realidade psíquica, sendo fundamental e necessária ao tratamento psicanalítico. Constitui a mola propulsora da análise e pode ser responsável pelas resistências que dificultam o trabalho analítico (FREUD, 1912/2010).

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A partir dos estudos sobre a histeria, especificamente o caso Dora1, Freud

(1905/2016) iniciou suas reflexões sobre o conceito de transferência, afirmando tratar-se de “novas edições, reproduções dos impulsos e fantasias que são despertados e tornados conscientes à medida que a análise avança, com a substituição – característica da espécie – de uma pessoa anterior pela pessoa do médico” (p. 180). Neste sentido, compreende-se que a transferência acontece a partir de imagos infantis, em que o analista é inserido numa série psíquica formada pelo paciente na infância. É interessante comentar que o tratamento de Dora durou três meses, sendo interrompido pela própria paciente. Como afirmou Freud (1905/2016, p. 182), “ela atuou uma parte essencial de suas lembranças e fantasias, em vez de reproduzi-las no tratamento”. Considerou, ainda, que “a solução dessa transferência teria permitido a análise o acesso a novo material, provavelmente de lembranças reais”. O abandono do tratamento, segundo Freud (1905/2016), deve-se, portanto, à atuação da paciente, que transferiu ao seu analista os sentimentos sentidos pelo Sr. K. e abandonou seu médico da mesma maneira que abandonou o Sr. K. É importante destacar o fato de que não é apenas a reprodução dos sentimentos, mas a atualização dos mesmos na cena atual, como observa Freud (1905/ 2016, p. 180) ao afirmar que “toda uma série de vivências psíquicas anteriores é reativada, mas não como algo passado, e sim na relação atual com o médico”.

No texto A dinâmica da transferência Freud (1912/2010, p. 78) escreve sobre a resistência que se coloca diante do paciente em decorrência da transferência, no sentido de que “quando as associações livres de um paciente falham, a interrupção pode ser eliminada com a garantia de que no momento ele se acha sob o domínio de um pensamento ligado à pessoa do médico ou a algo que lhe diz respeito”. Freud (1912/2010) considera importante classificar esses afetos revividos na transferência como positivos e negativos a fim de perceber onde se encontra a resistência nesse percurso. A transferência positiva pode representar laços de amizade e relações afetivas admissíveis ao consciente e ainda, em prolongamentos desses sentimentos no inconsciente que “via de regra remontam a fontes eróticas” (p. 80). Portanto, o autor considera que as resistências que emergem na relação entre paciente e analista são

1 Paciente atendida por Freud quatro anos antes da publicação. Mais detalhes ver “Fragmento da

análise de um caso de histeria (1905 [1901])” in: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, v. VII, 1996.

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decorrentes da “transferência negativa, ou transferência positiva de impulsos eróticos reprimidos” (p. 81).

Em Recordar, repetir e elaborar Freud (1914/2010) tece importantes considerações sobre o que ocorre na análise e afirma que “o analisando não recorda absolutamente o que foi esquecido e reprimido, mas sim o atua. Ele não o reproduz como lembrança, mas como ato, ele o repete, naturalmente sem saber o que faz” (p. 116). Menciona, ainda, que está no manejo da transferência a possibilidade do paciente não apenas atuar e sim recordar aquilo que está permeado pela resistência. De acordo com o autor “a superação das resistências tem início quando o médico desvela a resistência jamais reconhecida pelo paciente e a comunica a ele” (p. 119).

A transferência, portanto, é condição para que o tratamento psicanalítico possa acontecer. Por meio dela há uma repetição daquilo sobre o qual o paciente fala, o que significa dizer que sua história se reatualiza na relação com o analista e este pode interpretá-la possibilitando a elaboração das recordações que anteriormente estavam recalcadas. Desse modo, o paciente pode dar sequência ao seu tratamento.

Cabe salientar que é por meio da transferência que o trabalho analítico se torna possível, pois concomitante a esta ocorre a demanda, compreendida como implicação do sujeito no seu tratamento e que permite sua saída de uma posição passiva para uma posição que lhe permita questionar sobre a produção do seu sintoma. Sobre a transferência na clínica com crianças, cabe mencionar o valor dado por Melanie Klein a esse fenômeno, compreendendo ser possível desde a mais tenra idade. Para a autora, do ponto de vista do inconsciente a criança não difere do adulto, assim, no que diz respeito à transferência, considerada a partir da primeira sessão, é análoga à que se realiza na terapia de adultos, desde que seja tomada preservando o espaço analítico e a atitude terapêutica. Assim, a transferência deve ser analisada e interpretada da forma que na clínica de adultos.

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15 1.3 Demanda e Desejo

A demanda é, também, um dos conceitos fundamentais da psicanálise e está ligada ao conceito de desejo. Para essa compreensão é interessante verificar o que Freud (1895/1996) entende por desejo, necessidade e satisfação, o que implica retomar a passagem, descrita no Projeto para uma psicologia científica, do estado de necessidade para a demanda e, logo, para o desejo. Para o autor a essência do desejo está na satisfação oriunda de uma necessidade. Assim, a criança que se encontra em estado de necessidade busca, primeiramente, a satisfação desta, porém, num segundo momento, essa necessidade transformada em demanda coloca o sujeito na condição de desejante.

O Projeto para uma psicologia científica (1895) foi uma tentativa freudiana de colocar a teoria psicológica numa linguagem neurológica que pudesse ser compreendida e comprovada cientificamente, portanto, nesse texto encontram-se os principais termos apresentados pelo autor no decorrer da sua obra. Ao apresentar a teoria da satisfação, Freud (1895/1996) destaca que esta é a eliminação de tensões internas causadas por um estado de necessidade do bebê que, nesse tempo, depende absolutamente do outro para lhe proporcionar alívio das tensões. Na satisfação da fome, por exemplo, a criança não demanda, o que sente é puramente necessidade. Após a amamentação, no seio materno, a criança tem o alívio da sua tensão e essa primeira experiência deixa registros mnésicos tanto do objeto que lhe proporcionou a satisfação quanto do movimento que aliviou a tensão. Posteriormente a essa primeira experiência, a criança desejará novamente o alívio da tensão correspondente à primeira satisfação de uma necessidade. Assim, ela alucina o objeto (seio) que, não estando no campo da realidade, causa-lhe decepção. Esse tempo de alucinação e espera do objeto permite que o sujeito demande.

Sobre essa primeira satisfação, Joël Dör (1992) afirma que o desejo está ligado a um processo pulsional em que, inicialmente, há a necessidade e, posteriormente, o reinvestimento pulsional. O autor exemplifica a partir da satisfação alimentar que na primeira experiência a criança tem satisfeita apenas a necessidade orgânica, num segundo momento a satisfação da necessidade liga-se a uma representação mnésica que remete o sujeito à lembrança da satisfação anterior.

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A dimensão do desejo, de acordo com Lacan (apud Dör, 1992, p. 142) surge como “intrinsecamente ligada à uma falta que não pode ser preenchida por nenhum objeto real”. A satisfação, portanto, acontece na ordem da pulsão em que o objeto do desejo é aquele que se refere à lembrança mnêmica da primeira satisfação da necessidade. Assim, o autor esclarece que a satisfação da pulsão, na necessidade alimentar, não corresponde ao objeto alimentar e sim ao prazer da boca.

É importante considerar que uma criança pequena precisa da intermediação de um adulto para satisfazer suas necessidades orgânicas, pois é incapaz de supri-las sozinha. Desse modo, em suas manifestações corporais precisa do Outro para compreendê-las. É a partir do sentido que o Outro vai dando a essas manifestações que a criança pode simbolizar as necessidades de fome, sede, frio, calor, reconhecendo-as como próprias do seu desejo. Nesse sentido, Joel Dör (1992,) afirma que o desejo em garantir à criança, ser submetido à lógica da necessidade, a promoção do estádio de objeto ao de sujeito, levando em consideração que “o desejo parece só poder inscrever-se no registro de uma relação simbólica com o Outro e através do desejo do Outro” (Ibid., p. 144).

Sobre isso, cabe lembrar que a entrada do sujeito no universo simbólico, que possibilita à criança desejar, ocorre a partir dos significantes do Outro. Especificamente quando o Outro reconhece algum sentido nas experiências da criança e oferece a ela um objeto, por exemplo, o alimento, capaz de responder ao que ele supôs como uma demanda da criança (DÖR, 1992). Assim, “não se pode deixar de tomar esta demanda suposta como projeção do desejo do Outro” (p. 144) pelo fato de que esse Outro interpretou as necessidades da criança a partir dos seus próprios significantes e desejos.

Após a primeira experiência de satisfação, mediada pelo Outro, a criança poderá reconhecer as manifestações do seu corpo como uma demanda esperada pelo Outro. Portanto, as manifestações da ordem da necessidade manifestas no corpo da criança referem-se à uma demanda de satisfação. Com esta demanda, coloca-se em cena a comunicação simbólica com o Outro. Por meio desta demanda, a criança vivencia sua inserção no universo de desejo, o qual se inscreve sempre entre a demanda e a necessidade”.

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Importa, nesse momento, abordar alguns pontos fundamentais do Complexo do Édipo, compreendido pela teoria psicanalítica como o tempo de entrada do sujeito no mundo da linguagem e no campo simbólico em que a falta é uma constante. Falta, esta que possibilita o desejo.

Lacan (1999), no Seminário 5, sobre as Formações do Inconsciente, afirma que o Complexo de Édipo se organiza em três tempos. No primeiro tempo há uma relação simbiótica entre a criança e a mãe, estando, a criança, numa posição de ser o objeto de desejo da mãe. No segundo tempo ocorre a entrada do pai nessa relação dual entre mãe e filho, instalando, assim, a falta em ambos. Nesse tempo, a criança percebe que não é ela quem completa a mãe, mas o pai como detentor do falo. Assim, ocorre a castração simbólica que remete à uma falta, a partir da qual a criança é inserida no campo da linguagem sendo capaz de desejar. O terceiro tempo refere-se ao declínio do Complexo de Édipo com a simbolização da castração e da falta, logo, a internalização da lei.

Portanto, compreende-se que o desejo é possibilitado a partir da falta. E para além disso, a demanda como expressão do desejo é sempre endereçada a alguém. Ainda, além de ser uma demanda de necessidade é, também, uma demanda de amor “na qual a criança deseja ser o único objeto do desejo do Outro que satisfaz suas necessidades” (DÖR, 1992, p. 145). A busca do sujeito é com aquela primeira experiência de satisfação em que “a criança foi totalmente satisfeita sob a forma de um gozar que não demandou nem esperou” (p. 146).

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18 2 SOBRE A CLÍNICA PSICANALÍTICA COM CRIANÇAS

Alba Flesler (2012) apresenta no livro A psicanálise de crianças e o lugar dos pais, a ideia de que a criança não deve ser abordada do mesmo modo que o adulto, mas não estabelece, por isso, uma especialidade. Contudo, continua a autora, “sua atenção supõe uma especificidade que, assentada no reconhecimento dos diferentes tempos do sujeito, guiará operatórias diversas na prática analítica” (p. 8).

Na 34ª Conferência das Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, Freud (1933/1996) destaca a possibilidade do tratamento analítico em crianças, afirmando que “os resultados são seguros e duradouros” (p. 146). Porém esclarece que a técnica utilizada em adultos precisa ser diferenciada para ser aplicada em crianças pelo fato de esta não possuir superego.

Compreende-se, então, que a técnica psicanalítica não é exclusiva dos adultos podendo, também, ser utilizada no tratamento de crianças, desde que sejam consideradas algumas especificidades, como por exemplo, a técnica que para o adulto é a associação livre e para a criança a fala, mas também o brincar, desenhos, jogos e modelagens, destacando-se, também, a especificidade e importância dos pais no acompanhamento clínico dos filhos.

De acordo com a literatura psicanalítica, não é possível considerar o trabalho clínico com crianças sem considerar os pais. Deve-se levar em conta que é, primeiramente, a eles que o sintoma da criança causa desconforto ou incômodo. Para além disso, ressalta-se que o sintoma da criança pode, inclusive, estar refletindo algo da relação e da problemática dos pais ou mesmo da estruturação familiar.

A propósito do caso do pequeno Hans, Freud (1909/2015) enfatizou a importância da “união da autoridade paterna e da autoridade médica numa só pessoa” (p. 70), sugerindo com isso a possibilidade do tratamento e educação da criança pelo pai, o que remete à importância deste nesse processo. Tal afirmação freudiana é, literalmente, considerada por Anna Freud2 que, tendo uma formação como professora

primária e interesse na psicanálise, trouxe contribuições significativas à psicanálise

2 Filha de Sigmund Freud, desde muito cedo manifestava interesse pela psicanálise. Proibida de cursar

a faculdade de medicina devido a questões da época, pois não era uma profissão para mulheres, tornou-se professora primária agregando à essa formação uma base psicanalítica.

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de crianças considerada por ela como uma tarefa pedagógica (COSTA, 2007). Sua experiência de análise foi, efetivamente, realizada pela junção da autoridade paterna e médica, considerando ter sido feita com seu pai, Sigmund Freud, uma vez que a análise pessoal, desde aquela época, constitui condição necessária à formação psicanalítica. Do mesmo modo, pode-se lembrar, como afirma Costa (2007), que Melanie Klein, nos primórdios dos seus estudos sobre o trabalho com crianças, realizou a análise dos seus três filhos.

A partir de leituras realizadas na obra desses psicanalistas ficou evidente que há divergências entre os autores no que se refere à importância e o lugar que os pais ocupam na análise de crianças. Volnovich (1991) e Costa (2007) apresentam em seus estudos reflexões dos clássicos psicanalistas da clínica de crianças anunciando que Anna Freud, considerava, assim como seu pai, a importância da união da autoridade paterna e médica na mesma pessoa, abordando o tratamento de crianças como uma técnica pedagógica. Melanie Klein compreendia a importância dos pais para o tratamento do filho, porém não lhes dava lugar de fala, considerava somente o discurso do paciente, nesse caso a criança. Françoise Dolto afirmava ser fundamental a escuta dos pais, uma vez que considera o sintoma da criança como sintoma da estrutura familiar. Sobre Anna Freud, é importante mencionar que a partir dos seus estudos a análise de crianças foi diferenciada da análise de adultos.

Costa (2007) escreve que a criança não tem consciência do seu sintoma ou que tem problemas para resolver. Segundo a autora, de modo geral, são os pais que têm preocupações e angústias com as dificuldades dos filhos, afirmando que “falta à criança o elemento fundamental para a entrada de um paciente em análise, que é o mal-estar em relação a seu sintoma e a necessidade de tratamento” (Ibid., p. 24). De acordo com Costa (2007), Anna Freud entendia como essencial para o tratamento da criança que a mesma tivesse consciência da sua doença e admitisse que precisava de ajuda, o que não acontecia de maneira natural. Considerava ser fundamental as entrevistas preliminares para que nesse tempo pudesse conscientizar a criança sobre sua doença e sobre a necessidade de ser ajudada a se livrar do seu sintoma. Em A psicanálise depois de Freud (1992), Anna reconhece que na infância não há neurose de transferência com o analista porque as transferências da criança estão inteiramente ligadas aos pais reais.

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Refletindo, então, sobre o lugar dos pais na clínica com crianças, é importante considerar o percurso e os diferentes entendimentos sobre essa especificidade da clínica psicanalítica, portanto, na sequência desse estudo, será apresentado o caso do pequeno Hans, por compreende-lo como o primeiro atendimento psicanalítico de uma criança, tendo sido realizado pelo pai da psicanálise.

2.1 Sobre o Pequeno Hans

No texto Análise da fobia de um garoto de cinco anos (FREUD, 1909/2015) conhecido na literatura psicanalítica como “o pequeno Hans”, encontra-se o primeiro caso de análise de uma criança no campo da psicanálise. É a partir desse trabalho que Freud passa a considerar a possibilidade do trabalho psicanalítico com crianças. Inicialmente, o autor não confiava na possibilidade da análise de crianças, pois acreditava que estas não responderiam à técnica da associação livre. Essa possibilidade passa a ser aceita após a experiência no tratamento do pequeno Hans. Trata-se do caso de um menino de 5 anos, analisado por ele a partir de observações que o pai lhe confiava. Freud esteve com Hans apenas uma vez, o suficiente para compreender que uma criança também pode ser escutada na clínica psicanalítica.

Considerando, então, esse caso clínico, um fato importante a ser observado é sobre o nascimento de sua irmãzinha Hanna quando Hans tinha exatamente três anos e meio de idade. A partir do nascimento dessa irmã o menino passa a sentir medo de cavalos, tendo, então, dificuldades em sair de casa. Hans referia-se ao medo de que os cavalos o mordessem. Freud (1909/2015) relacionou esse temor do menino à fantasia de castração, levando em consideração que desde muito cedo Hans demonstrava grande interesse pela parte do seu corpo que chamava de “faz-pipi”, mas em geral, interessava-se e questionava-se sobre os “faz-pipis” de todos os seres e coisas. Ao ver que a irmãzinha não tinha um “faz-pipi”, Hans passou a questionar se ela algum dia teria, logo, se a mãe tinha ou não e se ele, que tem um “faz-pipi”, poderia perdê-lo em algum momento. Sobre esse medo, Freud (1909/2015) lembra uma situação ocorrida na vida de Hans quando tinha três anos e meio de idade em que a mãe, ao vê-lo tocando seu pênis, ameaçou-o de castração se continuasse a toca-lo.

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Considerando o Complexo de Édipo, Freud (1909/2015) ressalta que Hans sente prazer em estar junto de sua mãe, mas ao mesmo tempo há alguém que faz uma interdição entre ele e a mãe, sendo esse alguém a figura paterna. Nesse sentido, Freud (1909/2015) interpreta que o cavalo, como objeto fóbico, representa o pai e o medo que Hans tem da castração simbólica. Ao mesmo tempo em que Hans tem sentimentos afetuosos e de valor para com o pai, tem, também, de forma inconsciente, sentimentos hostis, o que se tornou insuportável para ele recorrendo, então, a um objeto fóbico como possibilidade de simbolizar esse medo. Ao tempo em que as interpretações sobre os medos são realizadas, Hans vai modificando-os, passando a temer que os cavalos caiam, que morram; teme cavalos que puxam grandes e pesadas carroças. Isso faz parte do processo de análise e, como tal, o sintoma vai se modificando e logo, com o sonho do encanador, Hans consegue simbolizar a castração e curar-se da sua fobia. De acordo com Costa (2007), a interpretação da fobia como medo da represália paterna, devido aos desejos eróticos que o menino nutria pela mãe, possibilitou a cura da neurose de Hans.

Volnovich (1991) comenta que, a partir do caso Hans, foi possível observar a existência de características pertinentes à análise de crianças, sendo, a demanda, a transferência e a eficácia da interpretação, algumas delas. Para além disso, o caso também possibilitou reflexões acerca da importância e do lugar dos pais no tratamento dos filhos, considerando o fato de que foi o próprio pai de Hans que conduziu o processo de análise e, também, porque as questões psíquicas que deram causa à fobia do menino, foram decorrentes de conflitos estruturantes edípicos, portanto, com relação direta à dinâmica familiar e seu relacionamento com os pais.

No início do tratamento de Hans, Freud (1909/2015) vê uma impossibilidade de a análise ser conduzida pura e simplesmente pelo pai. No entanto, reconhece a importância que este teve no tratamento do filho e aponta para a fundamental junção de duas figuras, paterna e médica, em uma só pessoa, afirmando que “a combinação de carinho e de interesse científico tornou possível, neste caso, fazer do método uma utilização para a qual ele normalmente não se prestaria” (Ibid., p. 70). Esclarece, ainda, que o tratamento de Hans foi possível pela intervenção de seu pai, considerando que outra pessoa não conseguiria levar o menino a fazer suas

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confidências. É, então, a partir desse momento, que passa a reconhecer que os pais têm lugar importante e necessário no tratamento psicanalítico dos filhos.

Esse caso, destacou e introduziu questões acerca do lugar dos pais na estruturação psíquica da criança e, para além disso, no sintoma e sofrimento que podem ser desencadeados a partir da conflitiva edípica. É possível observar, então, que a neurose fóbica desenvolvida por Hans se referenciava à uma tentativa de se organizar na conflitiva edípica e castração.

2.2 Contribuições para a clínica com crianças

Partindo das elaborações anteriores, é inegável que a clínica psicanalítica com crianças tenha originado da análise de Hans, atribuída a Sigmund Freud. Pois ficou evidente que após esse evento, outros psicanalistas se dedicaram a esse estudo elaborando suas teorias e fomentando a prática clínica com crianças. Melanie Klein, Donald Winnicott e Françoise Dolto, autores clássicos dessa vertente, desenvolveram estudos e técnicas de trabalho trazendo contribuições significativas a esse campo. Os autores apontaram características e especificidades da clínica com crianças compreendendo a importância da presença dos pais e seu lugar nesse processo.

2.2.1 Melanie Klein

Melanie Klein3 foi uma psicanalista que desenvolveu e fomentou a possibilidade

de análise de crianças. Natural de Viena, nasceu em 30 de março de 1882 em uma família judia muito humilde; teve duas irmãs e um irmão; casou-se aos 21 anos com Arthur Klein, com quem teve três filhos, Melitta que mais tarde tornou-se psicanalista, Hans e Erich. Logo após o casamento o casal deixou Viena em razão dos compromissos de trabalho do marido, passando a residir em diferentes cidades até chegar a Budapeste no ano de 1910. Divorciou-se do marido em 1927.

3 As informações que seguem foram retiradas de COSTA, Teresinha. Psicanálise com crianças. Rio

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Durante sua vida, Klein vivenciou perdas significativas de pessoas queridas. Aos quatro anos enfrentou a morte de uma irmã à qual era muito ligada; aos dezoito anos seu pai faleceu e aos vinte anos perdeu seu irmão. Além disso, enfrentou, também, a morte de sua mãe no ano de 1914, quando tinha trinta e dois anos, a morte acidental do filho Hans, em 1934, e o distanciamento de sua filha Melitta por divergências teóricas. Esta demonstrou grande interesse pela psicanálise, mas não concordava com as teorias desenvolvidas pela mãe. No mesmo ano da morte de sua mãe, Klein teve seu primeiro contato com a psicanálise ao ler o texto de Sigmund Freud sobre A interpretação dos sonhos (1900). Nessa época encontrava-se em estado de depressão e iniciou sua análise com Ferenczi.

No ano de 1921, Melanie mudou-se para Berlin apenas acompanhada do filho Erich. Ingressou como membro-associada da Sociedade Psicanalítica de Berlim e, em 1924, iniciou uma segunda análise com Karl Abraham que faleceu em 1925. Ano que a psicanalista se mudou para a Inglaterra e sofreu duras críticas à teoria desenvolvida sobre a psicanálise de crianças. Em 1927 ingressou como membro da Sociedade Britânica; teve seu trabalho reconhecido e faleceu aos 78 anos.

O primeiro caso apresentado por Melanie foi sobre seu filho Erich, ao qual atribuiu o pseudônimo de Fritz. A experiência com esse caso levou-a a desenvolver a tese de que “é a vida fantasística que modela a realidade, e não o contrário” (COSTA, 2007, p. 30). Melanie considera que a clínica com crianças utiliza o mesmo corpo conceitual e teórico psicanalítico: o inconsciente, a transferência e a pulsão. Para ela, a única diferença entre a análise de adultos e de crianças estava no método de trabalho, sendo este em cada análise a associação livre e o brincar, respectivamente. Portanto, no que tange à técnica da psicanálise com crianças, refere-se ao brincar, que corresponde à atividade natural das crianças, como equivalente à associação livre do adulto, considerando-o como” expressão simbólica da fantasia inconsciente” (COSTA, 2007, p. 31). Nas palavras de Klein (1997, p. 27) “a criança expressa suas fantasias, seus desejos e suas experiências reais de um modo simbólico, através de brincadeiras e jogos”.

Klein (1997) inicia suas reflexões sobre o brincar, como possibilidade da criança se expressar em tratamento, ao se dar conta que consiste no meio mais importante

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de expressão da criança, afirmando que “com muita frequência as crianças expressam na brincadeira as mesmas coisas que estiveram há pouco nos contando através de um sonho ou produzem associações a um sonho na brincadeira que o sucede” (Ibid., p 28). Sobre a transferência, escreve que esta ocorre logo no início do trabalho analítico, nas primeiras sessões e que, naturalmente destaca ao analista sua natureza positiva, pois se a transferência for de ordem negativa a criança dará indicativos de desconforto e ansiedade. Em razão da transferência ser instalada imediatamente, a autora afirma a importância de iniciar as interpretações sem pestanejar, especialmente se a transferência for negativa. Neste caso, a interpretação precisa ser feita para vencer as resistências que o paciente apresenta ao tratamento.

Afirma, ainda, que as interpretações do conteúdo que a criança apresenta na clínica, devem ser feitas na profundidade e momento certo, para que a ansiedade e o sentimento de culpa da criança sejam resolvidos. A interpretação “tem o efeito de mudar o caráter do brincar da criança e de possibilitar que a representação do seu material se torne mais clara” (Ibid., p. 47), portanto, deve ser realizada a partir dos significantes e modos de falar da criança.

Melanie Klein (1997) sempre se considerou seguidora da psicanálise freudiana, porém, elaborou e aprofundou alguns conceitos que a levaram a não ser reconhecida dessa forma por Freud que, devido às divergências teóricas entre ela e sua filha Anna Freud, optou por defender as ideias da filha no que refere à clínica psicanalítica com crianças. Assim, Melanie criou sua própria escola que foi reconhecida como kleiniana. Outra importante contribuição de Melanie Klein (1997) à clínica psicanalítica consiste na sua teoria das posições com a elaboração dos conceitos de posição esquizo-paranóide e posição depressiva. De acordo com a autora, essas posições correspondem a momentos normais no desenvolvimento de toda criança. A posição esquizo-paranóide diz respeito à primeira fase do desenvolvimento psíquico da criança e o primeiro organizador do psiquismo. Corresponde aos primeiros seis meses de vida e tem como características a fragmentação do ego, a divisão do objeto externo em seio bom e seio mau, a agressividade e a realização de ataques sádicos dirigidos à figura materna devido à angústia persecutória.

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Após a elaboração e superação desses sentimentos emerge a posição depressiva que tem início entre os três e seis meses de vida. Nessa posição ocorre a angústia depressiva em que o ego da criança sente culpa pelos danos causados pelas pulsões agressivas dirigidas ao objeto amado. Nesse período, a criança reconhece a mãe como objeto total, experimentando sentimentos ambivalentes de amor e ódio decorrentes dos ataques realizados contra o objeto, na posição anterior (KLEIN, 1997; COSTA, 2007).

Melanie Klein (1991) também desenvolve o conceito de inveja primária, presente no desenvolvimento psíquico do bebê, compreendendo a inveja como a expressão de impulsos destrutivos “dirigidos ao seio da mãe, com o desejo de danificar os aspectos bons e protetores que o objeto nutritivo oferece” (BLEICHMAR & BLEICHMAR, 1992, p. 107). Portanto, a inveja diz respeito à relação dual da criança com a mãe que se estabelece na relação com o seio materno que é, para a criança, o objeto externo que possui tudo aquilo que ela necessita e deseja, porém, também sente ressentimento e ódio por esse objeto que às vezes lhe priva da satisfação.

Klein (1991) diferencia os sentimentos de inveja, ciúme e voracidade. A inveja decorre de uma relação dual em que um sujeito deseja algo que é do outro. O ciúme envolve uma relação triangular em que o sujeito quer possuir a pessoa amada e destruir o rival. E por fim, a voracidade quer destruir tudo aquilo que o objeto possui de bom. A esse conceito Klein (1991) associa o seio bom que é compreendido como resultado dos cuidados que a mãe tem com a criança, “se a criança é ou não adequadamente alimentada e cercada de cuidados maternais, se a mãe frui plenamente ou não os cuidados com a criança, ou se ela é ansiosa e tem dificuldades psicológicas com a amamentação” (p. 210), esses cuidados influenciam no modo como a criança internaliza o seio bom e aceita o leite materno. A psicanalista entende que a inveja acontece tanto pelo seio privador, que se torna mau por reter para si o leite, o amor e os cuidados, quanto pelo seio satisfatório, pois este representa um dom inatingível de proporcionar o leite à criança.

Bleichmar & Bleichmar (1992) entendem que ataques de inveja podem ser causadores da transferência negativa, pois a partir de uma interpretação que causa alívio ao paciente, este lhe ataca com críticas e comentários destrutivos. Em

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consequência da inveja, ocorre a culpa, que Melanie Klein (1991, p. 226) considera decorrente da “inveja ao seio nutridor e ao sentimento de haver estragado sua “bondade” por meio de ataques invejosos”.

Os conceitos elaborados por Melanie podem ser compreendidos a partir da explanação do caso Dick4, um dos mais conhecidos de sua obra. Na época em que

iniciou seu trabalho, era comum um psicanalista fazer a análise dos próprios filhos, dos filhos dos colegas, como também dos colegas e amigos. Os pais de Dick, por exemplo, eram membros da Sociedade Britânica de Psicanálise e colegas de Melanie. Porém, não tiveram um lugar importante no tratamento do filho, considerando, inclusive, que a criança era levada à terapia pela babá. Nesse caso fica evidente que Melanie Klein não leva em consideração a fala dos pais no tratamento da criança, pois para a psicanalista somente o discurso da criança interessa (COSTA, 2007).

2.2.1.1 Sobre o caso Dick

Dick nasceu numa família pouco amorosa e desde muito cedo teve dificuldades na alimentação, apesar das tentativas da mãe em amamenta-lo recusava, assim como, também, resistiu em aceitar alimentos sólidos quando estes lhe foram oferecidos. Sofria de problemas digestivos, aos cinco meses defecar ou urinar eram para ele uma tortura. A família percebeu melhoras das dificuldades do menino aos seus dois anos, quando sua avó o acolheu em sua casa e dedicou cuidados especiais com muito afeto e paciência, junto com uma babá recentemente contratada. Nesse período o menino aprendeu a andar, controlar os esfíncteres e muitas palavras novas. Com quatro anos, foi levado ao consultório de Melanie Klein pela babá, não manifestando qualquer sentimento quando ela se retirou da sala deixando-o sozinho com uma senhora desconhecida, até então. Ele parecia estranho à realidade, “ficava ausente para as pessoas e objetos que o cercavam e que, para ele, eram como que transparentes, desprovidos de sentido”. Não expressou preocupação ao entrar na sala de atendimento, não questionou e não brincou nas primeiras sessões. Demonstrou

4 Não serão apresentados detalhes sobre o caso Dick, uma vez que este trabalho está centrado na questão do

lugar dos pais na clínica psicanalítica com crianças. Esse breve escrito segue na direção de situar a pouca consideração que Melanie Klein atribui à fala dos pais.

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interesse apenas na porta dupla do consultório, na maçaneta e nos trens de brinquedo (GARCIA-FONS; VENEY-PEREZ, 2001, p. 72).

Embora Melanie Klein considere importante o lugar dos pais na clínica com crianças, não enfatiza a importância destes no tratamento, no sentido de dar pouco destaque à realidade na qual a criança vive. Na leitura de Costa (2007), Melanie não tem necessidade das informações dos pais, considerando que, para ela, essas informações parecem distorcidas pelos próprios conflitos. Assim, no acompanhamento clínico da criança, “os pais deixam de ocupar o lugar de mensageiros da fala infantil” (Ibid., p. 41).

2.2.2 Donald Winnicott

Donald Winnicott5 nasceu na Inglaterra em 7 de abril de 1896, teve duas irmãs

mais velhas, com as quais brincou muito durante sua infância. Em 1916 iniciou os estudos de medicina, interessando-se especialmente pela pediatria, tendo trabalhado no Paddington Green Hospital em Londres até pouco tempo antes de sua morte, ocorrida em decorrência de problemas cardíacos no ano de 1971. Seu interesse pela psicanálise surgiu após a leitura do livro de Sigmund Freud, A interpretação dos sonhos (1900). Em 1923 iniciou sua análise pessoal com James Strachey (1887-1967), tradutor das obras de Freud para o inglês. Nesse mesmo ano casou-se com Alice Taylor de quem se divorciou no ano de 1951, tendo se casado, novamente, no mesmo ano, com Clare Nimmo Britton. Em 1927 foi aceito como candidato a analista na Sociedade Britânica de Psicanálise, efetivando-se em 1934 e, no ano seguinte, tornou-se analista de crianças.

Durante quatro anos supervisionou seus casos clínicos com Melanie Klein a qual influenciou o desenvolvimento de suas teorias. Havia entre eles forte laço transferencial, o que fez com que Melanie pedisse a ele que analisasse seu filho Erich, o qual foi tratado por ela na infância. Winnicott havia demonstrado interesse em ser analisado por Melanie Klein, porém, declinou-se dessa vontade em razão de aceitar analisar seu filho. Iniciou, então, análise com Joan Rivière, seguidora de Klein, e mais

5 As informações que seguem foram retiradas de SAFRA, Gilberto. Psicanálise: Klein e Winnicott. In:

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tarde acabou distanciando-se do pensamento Kleiniano tomando rumo independente ao se intensificarem os conflitos entre ela e Anna Freud (COSTA, 2007).

Durante a 2ª Guerra Mundial, Winnicott atuou como consultor psiquiátrico de crianças transtornadas que tinham sido separadas de suas famílias. Essa experiência deu destaque ao seu trabalho analítico com crianças. Ainda que esse trabalho tenha sido realizado com crianças separadas de suas famílias, enfatizou a importância dos pais no tratamento dos filhos.

De acordo com Bleichmar & Bleichmar (1992), Winnicott considera que a criança nasce indefesa e, portanto, precisa da sustentação da mãe para seu desenvolvimento psíquico ser sadio. Destaca que a criança percebe de maneira desorganizada os diversos estímulos que vêm do exterior, mas nasce com um potencial inato para o desenvolvimento. Segundo os autores, para Winnicott, “o ser humano nasce como um conjunto desorganizado de pulsões, instintos, capacidades perceptivas e motoras que, conforme progride o desenvolvimento, vão se integrando, até alcançar uma imagem unificada de si e do mundo externo” (apud BLEICHMAR & BLEICHMAR, 1992, p. 223). Nesse sentido, compreende-se que Winnicott ressalta a importância do ambiente no desenvolvimento da criança. Esse ambiente, inicialmente, é a mãe que tem a importante tarefa de oferecer ao filho suporte adequado à sua constituição.

Sobre a dependência da criança ao meio e aos cuidados maternos, Costa (2007) ressalva que esta é absoluta do nascimento aos seis meses de vida. Observa, ainda, que a criança, num primeiro momento, não se dá conta dessa dependência, pois entende que ela e o meio não se diferenciam. Entre os seis meses e dois anos de idade a criança encontra-se numa dependência relativa e passa a perceber que ela e a mãe não são um só e, portanto, ela é um ser separado do meio que precisa da mãe para a satisfação das suas necessidades fisiológicas, uma vez que, ainda não se encontra em total independência.

Bleichmar & Bleichmar (1992) fazem considerações sobre outro conceito importante desenvolvido por Winnicott, a sustentação. Este conceito diz respeito à importância dos cuidados fisiológicos que a mãe tem com o bebê, principalmente o carinho e amor com que a mãe os faz. Com o cuidado adequado à criança será capaz

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de integrar os estímulos e as representações externas. Considerando a situação de desintegração do ego da criança, a mãe funciona como um ego auxiliar que sustentará seu desenvolvimento.

Para Winnicott (apud BLEICHMAR & BLEICHMAR 1992), durante os meses de gestação a mãe adquire capacidade especial para se identificar com as necessidades do filho. O que é importante para o desempenho de sua função de auxiliar à criança na integração do seu ego que, ao nascer, está em estado de não-integração, mas com o tempo a mãe, gradativamente, perde essa capacidade, o que é fundamental para o desenvolvimento do sujeito. Assim, a mãe, ao oferecer a sustentação adequada à criança, está emprestando seu ego a ela, o que Winnicott denomina de ego auxiliar. Se não houver essa sustentação, a criança precisará criar por si mesma um ego auxiliar, um falso self. Portanto, aquela que oferece sustentação adequada ao filho é compreendida por Winnicott como mãe suficientemente boa, e aquela que não provê adequadamente a sustentação da criança como mãe má (BLEICHMAR & BLEICHMAR, 1992).

Outro conceito importante na obra de Winnicott consiste nos fenômenos e objetos transicionais, compreendidos como a ponte entre o mundo interno da criança e o externo. Os objetos transicionais representam um papel fundamental no processo de maturação da criança, pois eles não estão nem dentro, nem fora do bebê. Assim, os objetos transicionais auxiliam a criança na demarcação do que é interno ao seu corpo e o que é externo à ela. A manipulação do objeto transicional possibilita sensações que auxiliam a criança no estabelecimento dos limites corporais (BLEICHMAR & BLEICHMAR, 1992).

De acordo com a teoria winnicottiana, a primeira relação da criança com o mundo externo acontece através do seio materno que lhe provoca uma ilusão de onipotência por compreender o seio como parte de si mesma, como parte do próprio corpo. O objeto transicional corresponde a esse lugar de ilusão e é a partir dele que a criança elabora o que é interno e o que externo, uma vez que ele está ao seu alcance quando quiser, o que não ocorre com o seio. No momento em que não precisar mais desta representação ela o deixa de lado, o que significa dizer que a criança compreendeu e elaborou o que é interno e externo a ela. Esse objeto desempenha,

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ainda, uma função significativa na elaboração da perda frente à separação da mãe. Esse objeto é vivenciado como se fosse a mãe e, por isso, sentido como um objeto bom. Quando, dentro da criança, a imagem da mãe está danificada ela tende a não recorrer ao objeto transicional (BLEICHMAR & BLEICHMAR, 1992).

De acordo com Bleichmar & Bleichmar (1992), a técnica de análise utilizada pelo Winnicott era de regressão, em que o paciente retorna a etapas que estiveram falhas no seu desenvolvimento emocional. O objetivo da análise seria dar ao paciente uma sustentação suficientemente boa que, de algum modo, problematizou-se na mais tenra infância. Sendo assim, a criança teria uma segunda chance para seu desenvolvimento. O psicanalista compreendia, também, que em alguns casos era importante o acompanhamento clínico dos pais para oferecer suporte terapêutico, especialmente, às mães, a fim de que estas pudessem corrigir seus erros e ajudar o filho a superar seus problemas.

2.2.2.1 Sobre o caso Piggle

Um importante caso clínico trabalho por Winnicott (1987) foi conhecido como o caso da pequena Piggle6. Trata-se de uma menina chamada Gabrielle que chega até

o psicanalista com 2 anos e 4 meses de idade. Esse caso permite uma reflexão sobre o lugar dos pais no tratamento da filha, a qual havia tido problematizações na sustentação ambiental, portanto, materna.

O tratamento psicanalítico de Piggle, estendeu-se por dois anos e meio, sendo considerado incomum para a época. Nesse acompanhamento, Winnicott afirmou a importância da participação dos pais por considerar que as sessões ocorriam conforme a demanda e não quatro ou cinco vezes na semana, pois a família de Gabrielle morava longe de Londres o que impossibilitava idas regulares à clínica. Eles enviavam cartas ou telefonavam para Winnicott a fim de lhe comunicar o estado da filha. Assim, durante o tratamento da menina foram realizados 16 atendimentos presenciais. Os sintomas destacados pelos pais foram insônia, facilidade em

6 As informações sobre este caso foram retiradas de SERRALHA, C. A. Winnicott com Gabrielle e

seus pais. Nat. hum. [online]. 2009, vol.11, n.1, pp. 149-164. ISSN 1517-2430. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-24302009000100007. Acesso em: 23 nov de 2018.

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se, angustiar-se e sentimentos de ciúme. Tais sintomas apareceram, especialmente, após o nascimento da irmã quando Gabrielle tinha 21 meses.

O lugar que Winnicott (1987) deu aos pais no tratamento da filha foi chamado pelo autor de psicanálise compartilhada em que eles trocaram informações, falaram das preocupações e hipóteses através de cartas e telefonemas. É importante destacar que a mãe de Gabrielle participou pessoalmente apenas na primeira consulta, nas demais somente o pai acompanhou a menina, inclusive participou das sessões. Winnicott (1987) deixou algumas anotações não elaboradas em forma de texto ou escrito sobre sua maneira de trabalhar com os pais de Gabrielle, que dizem “dividir o material com os pais – terapia de família não – estudo de caso não – psicanálise partagé (compartilhada). Nenhuma quebra de confiança da parte deles e eles não interferiram” (p. 10).

Vale mencionar que na sua produção teórica, o psicanalista não acreditava na possibilidade de tratamento da criança mantendo os pais afastados, especialmente no caso de Gabrielle que não seguiu orientações clássicas de atendimento psicanalítico, uma vez que os encontros eram realizados com espaços temporais relativamente longos entre uma sessão e outra. Gabrielle precisava de sustentação emocional entre os atendimentos o que, devido às circunstâncias, era importante que a família desse. Além disso, o pai participou ativamente das sessões, servindo, inclusive na transferência, conforme exemplo citado pelo psicanalista, “Enquanto fazia acrobacias no colo do pai, contava-lhe todos os detalhes. (...) ‘Eu também sou um bebê’, anunciou. E desceu de cabeça por entre as pernas do pai até o chão” (WINNICOTT, 1987, p. 39). Nesse fragmento a menina usava o corpo do pai na transferência fazendo referência à mãe.

Para Winnicott (1987), geralmente, os sintomas apresentados pela criança referem-se à uma falha na sustentação do ambiente, consiste numa questão estrutural da família. Portanto, a implicação dos pais no tratamento do filho é fundamental para que algo na dinâmica familiar se movimente e a criança encontre meios de continuar seu desenvolvimento de forma mais saudável e adequada.

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32 2.2.3 Françoise Dolto

Françoise Dolto7 nasceu em Paris no dia 6 de novembro de 1908. Teve uma

educação muito rígida e foi marcada pelas duras críticas proferidas pela mãe que a culpou pela morte da irmã mais velha quando tinha 12 anos. Casou-se em 1942 com Boris Dolto. Interessava-se pela medicina, mas não tendo permissão para fazer esse curso superior, acabou atuando como enfermeira por alguns anos e, mais tarde, formou-se em medicina.

Analisou-se com René Laforgue, conheceu Sophie Morgenstern, ingressou na Sociedade Psicanalítica de Paris em 1938 e iniciou os trabalhos como psicanalista. Nos Hospitais que trabalhou, atuou diretamente com crianças. No ano de 1953 devido a desacordos na Sociedade Psicanalítica de Paris, criou juntamente com Daniel Lagache, Juliette Favez-Boutonnier e Jacques Lacan, a Sociedade Francesa de Psicanálise. Anos mais tarde, houve a cisão dessa sociedade e Lacan criou a Escola Freudiana de Paris a qual Dolto aderiu. A partir do ano de 1978 Françoise Dolto dedicou-se a publicar artigos e textos e escrever livros. Um ano depois inaugurou a “Casa Verde”, local em que realizou atendimentos à crianças de uma creche. No ano de 1988 foi a óbito por uma afecção pulmonar.

De acordo com Nasio (1995), Dolto defendia a ideia de que o nascimento de uma criança se relaciona a três desejos, o da mãe, o do pai e da própria criança. Afirmava que a escolha dos pais ocorria pela criança e defendia a ideia da relação precoce entre mãe-filho em que, nos primeiros meses de vida, a criança precisa ter uma única pessoa que lhe seja referência em sua constituição psíquica, e essa pessoa é essencialmente a mãe. Dolto afirma que “o bebê é um ser desejante à procura de um outro” (apud NASIO, 1995, p. 211). A criança necessita de mediação entre ela e o mundo e entre as outras pessoas. Nesse sentido, compreende que o bebê precisa da mãe garantindo que “o “infans” só fundamenta sua existência na e através da relação com um outro. Ele sente-se íntegro quando a mãe está presente e fala com

7 As informações que seguem foram retiradas de NASIO, J.-D. Introdução às obras de Freud, Ferenczi,

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ele” (DOLTO apud NASIO, 1995, p. 211). A mãe, como outro, é que humaniza, que lhe oferece condições de entrar na linguagem.

Dolto compreende ser fundamental o conceito de triangulação, pois coloca em cena um terceiro que faz a separação da relação entre a criança e a mãe. Esse terceiro que intervém na díade, afirma à criança a existência de um outro para além do materno que representa a lei, impondo limites na relação entre mãe e filho. Em sua proposta teórica, Françoise Dolto tira a criança do lugar de objeto a ser investigado colocando-a como sujeito do próprio discurso, abrindo espaço para sua fala. Inaugura, então, um reconhecimento da fala da criança, em que não mais, apenas, se fala dela e por ela, mas sim escuta-se o que tem a dizer sobre si e sobre seu sintoma.

Entendendo que a criança está inserida numa estrutura desejante da família, afirma que, seu sintoma é, também, sintoma dessa família (VOLNOVICH, 1991). Em sua prática clínica, na primeira entrevista com os pais, procurava detectar nessa estrutura a situação problemática, “aquela que seria pervertedora ou denegatória da humanização da criança, fazendo a intervenção em função desta situação” (Ibid., p. 25). Assim, deu significativa importância aos pais e seus discursos na clínica com crianças, possibilitando a eles um lugar para expressar suas impressões sobre o filho, além de falar sobre si mesmos. Afirmou que “nada melhor que um analista de crianças escutar o pai ou a mãe de uma criança sobre o que tem a dizer sobre seu filho” (VOLNOVICH, 1991, p. 25), pois dessa fala seria possível perceber como a questão da família está estruturada O que importa não é quem tratar, mas como e o que esses pais expressam da sua dinâmica familiar. Sobre as entrevistas preliminares, Nasio (1995) escreve que Dolto lhes atribui grande destaque, considerando que possibilitam ao analista perceber de onde vem a demanda, quem realmente sofre para além de situar-se sobre a dinâmica familiar, que lugar a criança ocupa no narcisismo dos pais e quais as projeções que estes fizeram a ela.

Com a entrada dos pais nas sessões de atendimento às crianças, acentuou-se algumas dificuldades pertinentes à transferência que passou a ser cruzada, não ocorrendo apenas com a criança, mas também com os pais. Para além disso, o que importa no tratamento da criança, não é somente considerar aquilo que os pais têm a dizer, mas devolver à criança o que lhe é próprio. A criança não pode ficar imersa à

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sintomática familiar, é preciso dar a ela espaço para a própria palavra e sentidos (VOLNOVICH, 1991). Sobre o tratamento realizado em uma família, Dolto afirma que este “não resolve o sintoma da criança, mas o tratamento da criança, sem dúvida, dá conta diretamente da atividade fantasmática dos pais” (apud VOLNOVICH, 1991, p.27). Nesse sentido, é pertinente destacar que o sintoma está no lugar de um fantasma, portanto, o que a criança apresenta através dos seus sintomas refere-se à palavra dos pais.

Dolto enfatiza a necessidade de o adulto contar para a criança a verdade sobre sua história, ainda que seja doloroso para ela ou para os próprios pais/adultos, e isso deve ser feito em uma linguagem que permita à criança sua compreensão. Para além disso, Dolto (1959/2008) salienta a importância da criança estar de acordo com seu tratamento e ter consciência do motivo pelo qual os pais a levam para análise. A psicanalista considera fundamental que a criança seja escutada e dado o devido valor à sua opinião e ao que tem a dizer sobre si, sobre a família e suas dificuldades (COSTA, 2007).

As técnicas por ela utilizadas eram principalmente a fala, desenhos e modelagem. O uso dessas técnicas se justificavam por ser um meio de fazer a criança falar em análise, pois Dolto (2017) questionava sobre a produção das crianças, fazendo com que elas dessem sentido e pudessem falar de si através do desenho ou modelagens. Segundo a autora, as “produções da criança são, assim, verdadeiros fantasmas representados, de onde são decodificáveis as estruturas do inconsciente” (Ibid., p. 2). Ressalta, ainda, a importância do desenho na clínica com crianças por considerar que o mesmo “faz existir concretamente a imagem inconsciente do corpo em sua função mediadora” (DOLTO; NASIO, 2008, p. 30). O desenho, de acordo com a autora, possibilita à criança articular sua relação com o mundo, pois ela se conta através do que projetou no desenho. Por esse motivo é fundamental, na análise de uma criança, ouvir o que ela tem a dizer sobre seu desenho e perceber de que modo ela se coloca naquela produção, pois ali, expressa o que lhe é próprio. Neste sentido, Dolto introduziu “o pagamento simbólico (pedrinhas, selos, pedaços de papel colorido) para demarcar o registro do tratamento, colocando a criança numa posição de sujeito desejante e, portanto, responsável por suas dificuldades” (COSTA, 2007 p. 71).

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Referências

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