DOURADOS – 2019
Corpos Femininos: Cotidiano, Memória e História de Mulheres Pescadoras no
Pantanal Sul-Mato-Grossense - (1980-2017)
DOURADOS – 2019
Corpos Femininos: Cotidiano, Memória e História de Mulheres Pescadoras no
Pantanal Sul-Mato-Grossense - (1980-2017)
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) requisito para a qualificação na obtenção do título de Doutora em História.
Área de concentração: História, Região e
Identidades. Orientador:
SILVANA APARECIDA DA SILVA ZANCHETT
Corpos Femininos: Cotidiano, Memória e História de Mulheres Pescadoras
no Pantanal Sul-Mato-Grossense - (1980-2017)
TESE PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE DOUTORA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA –
PPGH/UFGD
BANCA EXAMINADORA:
Presidente e orientador:
Losandro Antonio Tedeschi (Dr., UFGD): ________________________________________
1º Examinador Externo:
Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão (Dra., UFRPE): __________________________
2º Examinador Externo:
Marisa de Fátima Lomba de Farias (Dra., UFGD): __________________________________
3º Examinador Interno:
Ana Maria Colling (Dra., UFGD): _______________________________________________
4º Examinador Interno:
Eudes Fernando Leite (Dr., UFGD) : _____________________________________________
Suplente Interno :
Fernando Perli (Dr., UFGD): ___________________________________________________
Suplente Externo:
(...) as mulheres, em primeiro lugar, são vistas, descritas e representadas pelos homens. Trata-se em seguida de imaginar as mulheres através desses depoimentos. Isso implica um trabalho de análise crítica e desconstrução da linguagem e das imagens, que faz parte dos métodos atuais de decifração dos discursos e dos quais a história das mulheres é parte integrante no mais alto ponto. Ela serve-se dos mais contemporâneos materiais e instrumentos para atender a suas próprias necessidades. (Michele Perrot)
Agradecimentos
O primeiro agradecimento é para as mulheres pescadoras, sem elas esse trabalho não existira, além de cederem um pouco do seu tempo para contribuírem com essa pesquisa, abriram suas casas, e seus sentimentos íntimos, me proporcionando um grande aprendizado. Muita gratidão, Marlene, Ivanil, Orlinda, Zeferina, Shirlei, Marilza, Heléia e Vânia, pelos ricos e valorosos conhecimentos.
Agradeço ao querido Prof. Dr. Losandro Antonio Tedeschi orientador e amigo, pelo muito que aprendi trilhando o caminho da pesquisa, sempre muito prestativo, atencioso, compreensível e comprometido. Muito obrigada por suas leituras e seus direcionamentos, um grande mestre a ser seguido.
Um agradecimento especial a Prof. Dra. Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão, que me proporcionou ricas contribuições e reflexões a partir dos seus estudos realizados no Nordeste brasileiro. Obrigada pela disponibilidade de estar presente em minha defesa, ao ter que realizar uma longa viagem, assim, espero que a leitura da tese lhe proporcione conhecimentos das mulheres pescadoras dos Pantanais Sul Mato Grossense.
Um agradecimento especial à querida e especial Prof. Dra. Ana Maria Colling, além de amiga, uma professora instigante, que amei desde o dia em que a conheci, sempre muito comprometida com seus ensinamentos e direcionamentos. Sou muito grata ao professor Losandro por ter proporcionado essa aproximação que só enriqueceu o PPGH e as pesquisas sobre Mulheres, Gênero e Resistências em nosso Estado.
À prof. Dra. Marisa de Fátima Lomba de Farias, professora comprometida e carinhosa, na mesma dosagem, um exemplo a ser seguido por seu trabalho sério e por sua leitura criteriosa, oportunizou ricos direcionamentos após a qualificação.
Ao Prof. Dr. Eudes Fernando Leite, pelas primeiras orientações, ainda no mestrado, gratidão pelas sugestões de leituras e direcionamentos, além de um valoroso mestre, criterioso e preocupado com a escrita da história, é um amigo especial, que me ensinou muito ao longo dos sete anos na UFGD.
Aos professores da FCH/UFGD, que me acolheram e sempre estiveram prontos para auxiliar e orientar na minha formação acadêmica. Ao querido Walace, obrigada pelo auxílio sempre prestativo e atencioso.
Gostaria de agradecer a Deus por me guiar, iluminar e me dar tranquilidade para seguir em frente com os meus objetivos e não desanimar com as dificuldades. Agradeço pela oportunidade de ter uma família linda.Em especial ao meu companheiro Wanderson, gratidão pela compreensão, auxílio, carinho, paciência e amor. Gratidão por ser o maior incentivador dos meus estudos. Aos meus filhos, Andressa e Wanderson Júnior, obrigada por ser os melhores filhos que eu poderia ter tido, amo muito vocês.
Ao meu sogro Messias que sempre me auxiliou, tirando-me dúvidas e de ter me indicando os entrevistados. Em especial a minha sogra Geralda pelo carinho de mãe dedicado a mim, e nos cuidados com os netos em minhas viagens de estudos, congressos enfim. A tia Elizena tão carinhosa e atenciosa por apoio e estímulo nesta longa trajetória acadêmica, foi a primeira incentivadora a formação acadêmica.
Ao meu pai Valdomiro e a minha mãe Neiva [in memória] que sempre me ensinaram os caminhos do bem, os quais me incentivaram o estudo, mesmo depois de casada. Agradeço por ter me presenteado com irmãos maravilhosos, João Batista, Luiz Fernando, Ailson e Rosangela, que tem em mim o exemplo. Não poderia deixar de agradecer cada um da minha família, cunhadas, cunhados e sobrinhos, meu muito obrigado pela força e compreensão ao longo da minha jornada.
Em especial, agradeço ao meu primeiro orientador, ainda na graduação Jiani Fernando Langaro, pelo carinho e dedicação, pois, ensinou-me os primeiros caminhos para uma pesquisa série e compromissada, sendo um profissional, um amigo, e principalmente um grande mestre. Gratidão por ter estado sempre muito presente em minha vida acadêmica.
Em especial também a minha grande amiga/irmã/comadre Eliene Dias pelo carinho, amizade e atenção, puxões de orelha. Sempre muito presentes em vários momentos da minha vida, me auxiliando nas angústias e incertezas. Gratidão às amigas dos cafés e das leituras, Marta e Geovana, vocês são inspirações em minha vida.
A turma do mestrado e doutorado 2015, foi muito rico estar com vocês durante um ano de aulas em especial ao amigo Erasmo, companheiro de viagem até Dourados, que me proporcionou momentos de aprendizados e reflexões.
RESUMO
Esta tese problematizou as especificidades das relações de gênero, no campo do trabalho da pesca profissional artesanal. Assim, historiou narrativas orais construídas no mundo ribeirinho e pantaneiro, evidenciou histórias de vida de mulheres que pescam profissionalmente. Assim, possibilitou publicizar os múltiplos sentidos e significados que a vida ribeirinha lhes proporcionou ao longo de suas trajetórias de vida e ao levantar cada conquista por ser mulher e pescadora. Ainda, analisa suas expectativas, lutas e resistências nas relações tecidas com o rio e a cidade, bem como a construção de modos de vida singulares expressos nas suas vivências laborais e comunitárias. A presente pesquisa evidencia memórias cotidianas de mulheres pescadoras que vivenciam e compartilham práticas e viveres às margens de um rio. Destaca ainda, narrativas carregadas de significados de existências ora vividos, ora imaginados e que careciam de uma análise histórica. A pesquisa utilizou metodologicamente da história oral, em diálogo com fotografias, jornais e ainda com a historiografia relacionadas ao tema mulheres pescadoras em outras regiões do país. Assim, a produção de entrevistas gravadasrealizadas nos municípios de Aquidauana, Miranda, Corumbá e Coxim, retrata experiências de mulheres que se apresentam num contexto de histórias de vida, de superação e de lutas, que integram um ambiente predominantemente masculino. Além de situar no campo da reflexão das teorias feministas, de gênero, da memória, das identidades, das representações, apresentamos os significados que se (re)constroem ao longo de suas vidas. A tese é o estudo da invisibilidade da mulher trabalhadora da pesca artesanal nos Pantanais. Trás elementos das desigualdades sociais intrínsecas ao universo pesqueiro, historia memórias silenciadas no universo pesqueiro. Destaca momentos de encontros e desencontros na maneira de ser mulher e pescadora no Pantanal, localizada no Estado de Mato Grosso do Sul.
Palavras-Chave: Pescadoras, Pantanal, Meio Ambiente, Empoderamentos, Memórias, Oralidades.
ABSTRACT
This thesis has discussed the specificities in gender relations, at the working environment of craft professional fishing. That being, oral narratives built within the riverine and pantanal people were turned into stories, evidenced professional fisher women's life stories. So, it enabled to publish all the multiple meanings and senses that riverine life had provided them along their life trajectories and every achievement for being a woman and a fisher. Yet, it analyzed their expectations, struggles and endurance in the relations with the river and the town, as well as the building of their singular life manners expressed in their labor and community experiences. The present research evidences every day memories from fisher women who live and share experiences and their lives at the river side. It also points out, narratives full of existential meaning some times lived, some times imagined that needed a historical analysis. The research has utilized oral storytelling as a methodology, dialoguing with photos, newspapers and also with the historyography of fisher women theme related in other parts of the country. That being, the production of recorded interviews in the cities of Aquidauana, Miranda, Corumbá and Coxim portrays experiences of women who present themselves in a context of life stories, overcoming and struggling, who are a part of a predominant male environment. Besides staying in the field of reflexión of feminist theories, gender, memory, identities, representation, we have presented the meanings that are (re)built throughout their lives. The thesis is the study of the invisibility of craft fisher women in the Pantanals. It brings elements of intrinsic social disparity within the fishing universe, history
silenced memories in the fishing universe. It highlights meetings and mismatch moments on the manner of being a woman and a fisher in the Pantanal, located in the State of Mato Grosso do Sul.
LISTA DE SIGLAS
COINTA – Consórcio Intermunicipal para o Desenvolvimento Sustentável da Bacia
Hidrográfica do Taquari
CPP – Comissão Pastoral dos Pescadores
DERSUL – Departamento de Estradas de Rodagem de Mato Grosso do Sul. ECOA – Ecologia e Ação
EMATER – Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Mato Grosso do Sul EMBRAPA PANTANAL – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
FEMA – Fundação Estadual do Meio Ambiente.
IBAMA – O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
INAMB – Instituto de Controle e Preservação Ambiental (MT-MS) - (Extinto). INSS – Instituto Nacional do Seguro Social
IPEA – O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada MPP – Movimento de Pescadores e Pescadoras PESCART – Plano de Assistência à Pesca Artesanal PMA – Polícia Militar Ambiental
PRONAF – Programa Nacional de Fortalecimento à Agricultura Familiar SCPESCA/MS – Sistema de Controle da Pesca de Mato Grosso do Sul SEAP – Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca
SEMA/MS – Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Mato Grosso do Sul
SEMACT/MS – Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Cultura e Turismo de Mato Grosso
do Sul
SUDEPE – Superintendência do Desenvolvimento da Pesca
Lista de Imagens
IMAGEM 1 – Localização geográfica das cidades de Coxim, Corumbá, Miranda, Aquidauana
e Porto Murtinho... 23
IMAGEM 2 – Mapa do bioma do Pantanal... 24
IMAGEM 3: Tamanhos de anzol... 40
IMAGEM 4: Fotografia digitalizada: demonstra a pescadora Marlene remando com sua canoa no rio Taquari. ... 45
IMAGEM 5: Pescadora Ivanil pilotando a lancha pesqueira...50
IMAGEM 6: Pescadora Shirlei...54
Imagem 7: Casa da Senhora Marilza em Porto Esperança...64
IMAGEM 8: Mapa do Estado de Mato Grosso do Sul... 65
IMAGEM 9: Pescadora Marilza exibe os troféus conquistados nas Regatas de Canoinhas ... 66
IMAGEM 10: Pescadora Marilza comemorando a vitória da 20ª edição da Regata de Canoinhas ... 67
IMAGEM 11: Bordado a mão, presenteado à senhora Vânia, após ter comprado a lancha pesqueira no ano de 2016...71
Imagem 12: Lancha pesqueira Conceissão Aparecida………..………...72
IMAGEM 13: Reunião entre Presidentes de Colônias de Pesca do Estado de Mato Grosso do Sul e a Secretaria de Produção Familiar (Sepaf), Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer) e Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro)...75
IMAGEM 14: Shirlei com sua filha indo pescar no rio Salobra ... 89
IMAGEM 15: Fotografia da Shirlei em um rico dia de pescaria ... 95
IMAGEM 16: Charge Zumbi: contra as medidas que ameaçam os direitos e modo de vida dos pescadores artesanais brasileiros. ... 119
IMAGEM 17: Folder da Campanha Nacional pela Regularização do Território Pesqueiro... 120
IMAGEM 18: Folder das pescadoras contra o anúncio do Decreto nº 8435... 121
IMAGEM 19: Folder produzido pelo Instituto de Seguridade Social (INSS) ... 130
IMAGEM 21: Votação da aprovação da primeira diretoria da associação de Porto Esperança
ocorrida no dia 11/10/2016... 135
IMAGEM 22: Presidenta da Colônia de Pescadores Heléia ... 138
IMAGEM 23: Fotografia da pescadora Vânia (2017) ... 144
IMAGEM 24: Baía Vermelha. ECOA ...145
IMAGEM 25: Catadoras de Iscas...149
IMAGEM 26: Vânia Sato pilotando seu barco ...155
IMAGEM 27: Vestimenta para pescadora de iscas ... 157
IMAGEM 28: Fotografia de Orlinda ... 166
IMAGEM 29: Orlinda e seu pescado... 169
IMAGEM 30: Canoa da senhora Marilza ...177
IMAGEM 31: Pescadora Zeferina ... 184
IMAGEM 32: Escola Polo São Lourenço no período de vazante ...188
IMAGEM 33: Escola Polo São Lourenço no período de vazante... 188
IMAGEM 34: Pescadora Ivanil (2013)... 191
Tabelas Tabela 1: Número de pescadoras cadastradas no Estado MS...139
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ...
14
CAPÍTULO I – MULHERES PESCADORAS: CORPOS QUE PESCAM ... 36
1.1 – Sra. Marlene: "Aqui a natureza é curadinha" ... 38
1.2 – Sra. Ivanil: "Sou livre e desimpedida"... 47
1.3 – Shirlei Aparecida: “Eu sou guia de pesca” ... 51
1.4 – Sra. Orlinda Vitoria: “pescadora é aquela que está no rio pescando”... 55
1.5 – Sra. Zeferina Marques: "Eu sou uma mulher que homem não manda"... 57
1.6 – Sra. Marilza: A oralidade de uma campeã ... 62
1.7 – Sra. Vânia: "eu sou feliz, não é todo mundo, acho que é porque fui criada na beira do rio" ... 69
1.8 – Sra. Heléia: Liderança e Representatividade ... 73
CAPÍTULO II – ARTE PESQUEIRA: CONQUISTAS, RESISTÊNCIAS E LUTAS COTIDIANAS ... 81
2.1 – Lar e Pesca: Relações de trabalho ... 83
2.2 – Colônia de Pesca: Representação Política da categoria ... 97
2.3 – Legislação: o (des)caminhar dos direitos ...113
CAPÍTULO III – PANTANAL: MULHERES PESCADORAS DOS PANTANAIS ... 124
3.1 – A representação Feminina: Uma luta por direitos às pescadoras ... 126
3.2 – Resistências: Caminhos da organização representativa ... 133
3.3 – A Pescaria: Adversidades e a Natureza ... 143
3.4 – Beleza e saúde: Os (des)cuidados com preventivos ... 153
CAPÍTULO VI - MULHERES PESCADORAS: PARA ALÉM DE UMA HISTÓRIA FEMININA NA PESCA ... 161
4.1 – O Rio e a Casa: O Trabalho Profissional Artesanal ... 162
4.2 – Pantanal: O cotidiano das pescadoras ... 176
4.3 – A vida de pescadora: Caminhos futuros ... 191
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 199
Apresentação
A tese Corpos Femininos: Cotidiano, Memória e História de Mulheres Pescadoras
no Pantanal Sul-Mato-Grossense (1980-2017) emerge enquanto tema de pesquisa ao final do
mestrado (2013). Na dissertação de mestrado1 as mulheres Ivanil (2013) e Marlene (2013) surgem de uma maneira peculiar e me fazem refletir onde estariam as mulheres no cenário da pesca, pensando no âmbito regional, fato esse me fez projetar um novo olhar para as mulheres que cotidianamente exercem a atividade pesqueira como profissão.
A inserção da mulher no mercado de trabalho trouxe novas questões e reflexões sobre a produção do espaço, conforme se verifica com o trabalho da atividade pesqueira, lugar tradicionalmente masculino e atravessado pela cultura patriarcal cujo espaço é (re)construído com a participação das mulheres e o reconhecimento de suas atividades como pescadoras. Apesar das significativas lutas e conquistas das mulheres, há, ainda, determinados trabalhos envolvidos por tradições patriarcais que impõem severos obstáculos à entrada das mulheres e à invisibilidade de suas figuras. Na pesca, é notório o pouco reconhecimento da sociedade de uma forma geral, e da própria categoria de trabalhadoras em relação à arte pesqueira desenvolvida por mulheres, como será discutido ao longo deste trabalho.
Como se sabe, a Constituição Brasileira de 1988 representa um marco legal no acesso aos direitos trabalhistas entre homens e mulheres, contudo ainda presenciamos diferenciações de salário e de acesso em atividades remuneradas marcadas, sobretudo, pelas categorias de gênero, raça e lugar. Segundo o IPEA, “além de estarem menos presentes do que os homens no mercado de trabalho, as mulheres ocupam espaços diferenciados e estão sobrerrepresentadas nos trabalhos precários”2
. Isto também acontece na cadeia produtiva da pesca, cuja divisão social do trabalho estabelece às mulheres atividades de menor remuneração e prestígio social, contribuindo para a sua invisibilidade e sobrecarga laboral.
1 A dissertação de mestrado intitulada Histórias, Memórias, significações e apropriações: Pescadores
Profissionais de Coxim/MS (1967 a 2012), defendida no ano de 2013 problematizou as narrativas e trajetórias de vida de pescadores e pescadoras do município de Coxim/MS. A pesquisa abordou aspectos de suas vivências e das significações construídas no exercício da profissão, ou seja, os embates cotidianos que cada sujeito experiencia em suas histórias de vida, com seus valores, apropriações, particularidades e identidades. Trás uma análise de histórias de vida que proporcionou verificar que estes trabalhadores, ao longo dos anos, vivenciaram transformações e mudanças na maneira de exercer o ofício e de manejar o pescado. A presente dissertação foi pulicada em livro no ano de 2015 pela editora Life.
2 Cf.: BRASIL. Retrato das desigualdades de gênero e raça / Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ... [et al.].
Conforme o estudo de Beck (1979)3 a roça e a pesca são atividades predominantemente masculinas, de modo que todas as decisões relacionadas a estas duas atividades competem ao homem: na roça ao pai, chefe de família e na pesca, ao dono da rede ou, por delegação deste, no patrão de pescaria. Historicamente demarcadas como “do lar” e “ajudantes da pesca”, muitas mulheres conquistaram seus espaços e tornaram-se trabalhadoras profissionais da pesca, documentadas e atuantes diretamente na economia familiar, conforme atestam suas narrativas.
Dialogando com Hirata; Kergoat (2007)4 , observamos que o processo de construção social dos comportamentos atribuídos às mulheres ou aos homens foi elaborado no âmbito do público e privado. Tudo o que se referia às atividades domésticas, ou seja, ao privado, era de responsabilidade da mulher, ao passo que ao homem, eram atribuídos os deveres da rua, da ordem e do público. Enfim, tudo que se imputa ao feminino e masculino estão, a rigor, ligado às profissões a partir da reprodução social, no uso do tempo e na divisão desigual do trabalho doméstico. A desigualdade nas relações de trabalho remunerado e não remunerado tem contribuído na tomada de consciência. Isto porque, “uma enorme massa de trabalho é efetuada gratuitamente pelas mulheres, que esse trabalho é invisível, que é realizado não para elas mesmas, mas para outros, e sempre em nome da natureza, do amor e do dever materno” (HIRATA; KERGOAT, 2007, p. 596).
Ainda, perceptível nas narrativas apresentadas, observamos que temos “corpos que pescam”:
Mais do que um conjunto de músculos, ossos, vísceras, reflexos e sensações, o corpo é também a roupa e os acessórios que o adornam, as intervenções que nele se operam, a imagem que dele se produz, as máquinas que nele se acoplam, os sentidos que nele se incorporam, os silêncios que por ele falam, os vestígios que nele se exibem, a educação de seus gestos [...] enfim, é um sem limite de possibilidades sempre . seus gestos [...] enfim, é um sem limite de possibilidades sempre reinventadas, sempre à descoberta e a serem descobertas. Não são, portanto, as semelhanças biológicas que o definem mas, fundamentalmente, os significados culturais e sociais que a ele se atribuem. (GOELLNER, 2008, p.28).
Neste sentido, a questão principal desta tese é problematizar como se construíram as representações sociais femininas nas relações pesqueiras em Mato Grosso do Sul, sobretudo no Pantanal e, por extensão, historiar a divisão sexual do trabalho na pesca, destacar como a
3
Cf.: BECK, A. Roça, pesca e renda: trabalho feminino e reprodução familiar. Boletim de Ciências Sociais, n. 23, p. 21 – 32, 1981.
4 Cf.: HIRATA, H.; KERGOAT, D. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa,
presença da mulher é fortemente marcada pela separação do espaço público e do privado. Refletindo sobre a categoria do privado, dialogamos com a autora Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão (2008), pesquisadora de trajetórias de mulheres pescadoras do Estado do Pernambuco.
Pretende-se destacar nessa pesquisa que esse lugar público negado às mulheres, nesse caso as pescadoras, ao longo da história invisibilizou a participação feminina, sobretudo nos espaços públicos, proporcionando o resultado de uma presença silenciada como ressalta Leitão; Lima; Furtado (2008) que, ao estudarem o trabalho das mulheres pescadoras na região localizada no nordeste do país, destacam, no texto “Mulheres Pescadoras: A Construção da Resistência em Itapissuma”5, que essas trabalhadoras são:
Inibidas, historicamente, de “conhecer o mundo”, de praticar o poder no âmbito público, as meninas crescem e se desenvolvem influenciadas pela concepção de que existe áreas ou profissões tidas como mais adequadas à condição feminina, que estão ligadas à cuidar do lar, do ensinar e do servir. No entanto, as mulheres também surgem como lideranças e trabalhadoras da pesca por uma ressignificação de atividades que sempre desempenharam, mas que não eram vistas por causa de uma divisão social do trabalho intensamente centrada no masculino, divisão que conceitua o mar como ambiente de homens e posiciona as mulheres na terra. (LEITÃO; LIMA; FURTADO, 2009, p. 9).
Leitão (2008) cita como se a premissa for inegavelmente verdadeira desse fato no seguinte trecho:
Quando os homens as veem circulando de canoa, gritam em tom jocoso, “essa canoa tem motor?” A narrativa demonstra algumas diferenças nas relações de gênero no meio rural e destaca a força das mulheres quando unidas por um objetivo em comum. Aqui no relato “a velocidade” adquirida no manejo do remo pelas mulheres, demonstra a aquisição diferenciada de acesso aos equipamentos para as atividades pesqueiras, já que, os barcos que pertencem aos homens possuem motor. (LEITÃO, 2008, p.49).
Ao olhar masculino, as mulheres “necessitam” realizar uma excelente atuação, precisa ser ágil no remo e em todas as funções que o ofício lhes exige. Além do mais, a atuação dessas mulheres no mundo da pesca destaca-se, mesmo na dupla jornada de trabalho, pois, precisam conciliar afazeres domésticos com atividade produtiva, fato esse notório nas
5
Cf.: LEITÃO, Maria do Rosário de Fátima Andrade; LIMA, Alexandra Silva de; FURTADO, Gilmar Soares. Mulheres pescadoras: a construção da resistência em Itapissuma. XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Curitiba, 2009. Texto completo. Acesso em 19/05/2016:
narrativas orais. Historicamente romper com o silêncio é o desafio de muitas trabalhadoras nos diferentes ambientes de trabalho, na pesca é peculiar, pois, além de exercer a profissão, muitas não são reconhecidas como profissionais. Ainda na contemporaneidade muitas ainda são nominadas de “ajudantes” de seus companheiros, filhos, pais, dentre outros. Nesse sentido, continua a divisão sexual do trabalho, destacado na hierarquia caracterizado na força e no status.
É um corpo capaz de suportar as adversidades naturais de um espaço geográfico peculiar. Para Rose Mary Gerber (2015) em sua obra Mulheres e o Mar: Pescadoras
Embarcadas no litoral de Santa Catarina, Sul do Brasil, destaca que é “preciso ter um corpo
para a pesca”, o qual é construído “na e pela pesca” pelo “adestramento corporal” que se faz na repetição e imitação cotidiana que disciplina o corpo em relação às necessidades diárias. É necessário muito preparo físico para garantir muitas horas expostas ao sol e/ou chuvas, além de altos períodos mergulhados nas águas do rio ou de lagoas em embarcações muitas vezes precárias e sem nenhum conforto ou total segurança no exercício do trabalho.
Ou seja, não se nasce com um “corpo” preparado para a pesca, mas cotidianamente esses corpos são moldados pela realização das tarefas laborais cotidianas. O “corpo é fabricado num contínuo, na experiência da/na pesca: a força, a mão, a coluna vertebral, as pernas, os ombros, os olhos” (p. 162). Nesse sentido, as narrativas dessas pescadoras de água doce, não muito diferentes das pescadoras de águas salgadas, ao longo da pesquisa nos levarão a refletir sobre as condições de trabalho e de vida das mulheres que pescam e que sobrevivem nesses espaços peculiares, demonstram ainda, o quanto estão expostas fisicamente e socialmente num espaço pantaneiro e masculinizado.
A presente tese problematiza a historiografia sobre mulheres e suas atividades relacionadas à pesca profissional e/ou de subsistência no espaço do Pantanal sul-mato-grossense. Pretende-se discutir teórica e criticamente conceitos como os de gênero, poder, empoderamento, cotidiano, memória, trabalho e história das mulheres. Permeada de muitas indagações referentes à presença feminina na pesca propomos, como ponto de partida, o seguinte questionamento: Qual a concepção que predomina nas relações de gênero no trabalho pesqueiro. Esta reflexão justifica-se à medida que encontramos um paradoxo em suas narrativas: mesmo dispondo de carteira assinada como pescadoras, muitas vezes, elas mesmas se autodenominam apenas como ajudantes dos maridos/companheiros pescadores. Isto revela o quanto à identidade dessas mulheres foram constituídas a partir de discursos homogêneos e patriarcais que as impedem de visualizarem suas próprias relevâncias laborais e não se
verem como protagonistas das pesca, sujeitando-se à ideia de serem somente “ajudantes” dos pescadores homens.
Pierre Bourdieu (2005) destaca,
[...] uma espécie de processo natural e passivo de "enchimento", de que as mulheres são, não o agente, mas apenas o local, a ocasião, o suporte, ou melhor, que se localiza na mulher, como na terra, não exige da mulher mais que práticas técnicas ou rituais de acompanhamento, atos destinados a ajudar a natureza em trabalho (como arrancar ervas, ou reuni-las em feixes, para alimento dos animais); com este fato, elas estão duplamente condenadas a permanecer ignoradas, principalmente pelos homens: seus atos, familiares, contínuos, rotineiros, repetitivos e monótonos, ‘humildes e fáceis’, como diz nosso poeta, são em sua maior parte realizados fora da vista, na obscuridade da casa ou nos tempos mortos do ano agrário. (BOURDIEU, 2005, p. 59-60).
Nesse sentido os discursos homogêneos e patriarcais, confere ao homem, o status de ser superior que conduz as narrativas, atos e pensamentos subjetivos dessas mulheres. Nesse sentido, observamos vozes e posturas colonizadas, ou seja,
[...] as próprias mulheres aplicam a toda a realidade e, particularmente, às relações de poder em que se vêem envolvidas esquemas de pensamento que são produto da incorporação dessas relações de poder e que se expressam nas oposições fundantes da ordem simbólica. Por conseguinte, seus atos de conhecimento são, exatamente por isso, atos de reconhecimento prático, de adesão dóxica, crença que não tem que se pensar e se afirmar como tal e que ‘faz’, de certo modo, a violência simbólica que ela sofre. (BOURDIEU, 2005, p. 45).
Através das falas observamos essas violências, essa dominação sobre as mulheres com denominações documentais classificadas como “pescadoras profissionais artesanais” e, assim, afirmam sua identidade profissional. Observa-se que as narradoras trazem consigo experiências compartilhadas com seus familiares, amigos, enfim, fatos contados e que muitas vezes são transmitidos ao longo de suas vidas e tais fatos transformam-se em sentidos, marcando a identidade dessas trabalhadoras, sendo que:
Memória e história conjugam-se também para conferir identidade a quem recorda. Cada ser humano pode ser identificado pelo conjunto de suas memórias; embora estas sejam sempre sociais, um determinado conjunto de memórias só pode pertencer a uma única pessoa. Somente a memória possui as faculdades de separar o eu dos outros, de recuperar acontecimentos, pessoas, tempos, relações e sentimentos, e de conferir-lhes significados. (AMADO, 1995, p. 132).
Portanto, essas pescadoras ao relatarem suas experiências de vida e trajetórias profissionais, a partir de suas lembranças se afirmam como sujeitos históricos, protagonistas de suas histórias. Lutam, assim, por seu espaço como parte importante desses lugares, que vivem, hoje, em meio ao discurso recorrente na esfera do estado, relacionado à “falta de peixes”. Essas cidades pesqueiras confrontam no mesmo espaço épocas diferentes, oferecendo ao olhar, uma história sedimentada dos gostos e das formas culturais.
Neste sentido “os imaginários sociais operam ainda mais vigorosamente, talvez, na produção de visões futuras, designadamente na projecção das angústias, esperanças e sonhos colectivos sobre o futuro” (BAZCKO, 1985, p. 312). Assim, em suas narrativas, as mulheres pescadoras anseiam por melhorias de vida.
Entre a maioria das pescadoras profissionais artesanais, apesar das adversidades vividas, é inegável que existe um apego ao ofício, muitas vezes atribuído as “aventuras” que a profissão proporciona e as “paixões” vivenciadas por estas, que fizeram escolhas e acreditam que foi a melhor para suas vidas. Nesse sentido, dialogamos com Kathryn Woodward (2000), em seu texto “Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual”, destacando que, “A cultura molda a identidade ao dar sentido à experiência e ao tornar possível optar, entre as várias identidades possíveis, por um modo específico de subjetividade [...]” (WOODWARD, 2000, p. 19).
Assim compreendemos as especificidades e particularidades de cada pescadora, entendemos que suas experiências são únicas e ao mesmo tempo são compartilhadas pela categoria. Vivendo diversos problemas e dificuldades estas mulheres continuam encontrando motivos para gostar e praticar tal atividade profissional.
Nesse sentido e parafraseando Paul Ricouer (2007, p.159), destacamos que temos a cidade, “o rio, o pantanal” que se dá ao mesmo tempo a ver e a ler esse lugar. Esses espaços suscitam paixões mais complexas que a própria casa, na medida em que oferece um espaço de deslocamento, de aproximação e de distanciamento. Enfim, é preciso uma atenção em relação a este meio de trabalho, pois, tanto a profissão como o meio em que elas vivem têm grandes significados em suas vidas e na comunidade em que praticam a arte pesqueira.
Se a autoafirmação das identidades ocorre principalmente nos processos organizacionais, nosso intuito é pensar formas e caminhos de fortalecimento destas organizações para que as barreiras impostas pelo discurso masculinizante sejam diluídas. Como se verá adiante, algumas mulheres vêm se organizando, num cenário nacional, na busca pelo reconhecimento e valoração em diferentes frentes de trabalho relacionados à pesca. Ademais, buscam o fortalecimento dessa identidade em relação à acessibilidade a um
conjunto de direitos que dantes lhes fora negado, a exemplo do seguro desemprego no período do defeso6.
Quando falamos de identidades as conceituamos embasados em Tomaz Tadeu da Silva (2005) no texto “A produção social da identidade e da diferença”, que destaca que:
Pouco importa se os fatos assim narrados são verdadeiros ou não: o que importa é que a narrativa fundadora funciona para dar à identidade nacional a liga sentimental e afetiva que lhe garante uma certa estabilidade e fixação, sem as quais ela não teria a mesma e necessária eficácia”. (SILVA, 2005, p. 85).
Nesse sentido, é preciso historiar essas narrativas carregadas de significados e de representações sociais de um grupo de pescadoras, por hora invisibilizadas. Destacamos que:
Na disputa pela identidade está envolvida uma disputa mais ampla por outros recursos simbólicos e materiais da sociedade. A afirmação da identidade e a enunciação da diferença traduzem o desejo dos diferentes grupos sociais assimetricamente situados, de garantir o acesso privilegiado aos bens sociais. A identidade e a diferença estão, pois, em estreita conexão com a relação de poder. (SILVA, 2005, p. 82).
No bojo da construção do conhecimento acerca desse grupo social, a investigação proposta busca perceber por meio de quais práticas, representações e apropriações se reconhecem as mulheres pescadoras profissionais.
Essas conexões e relações de poder, destacadas por Silva (2005), afirmam que:
A identidade é um significado cultural e socialmente atribuído [...] é instável, contraditória, fragmentada, inconsistente, inacabada. A identidade está ligada a estruturas discursivas e narrativas. A identidade está ligada a sistemas de representação. A identidade tem estreitas conexões com relações de poder. (SILVA, 2005, p. 85-97).
A busca desses significados construídos no cotidiano da pesca, com suas trajetórias e com seus viveres familiares e comunitários, evidenciaremos de que maneira essas mulheres elaboram e narram seu passado, seu presente e ainda, como projetam a vida de seus filhos, nessa riqueza e complexidade de se viver no Pantanal Sul-Mato-Grossense.
6 Defeso é uma medida que visa proteger os organismos aquáticos durante as fases mais críticas de seus ciclos de
vida, como a época de sua reprodução ou ainda de seu maior crescimento. Dessa forma, o período de defeso favorece a sustentabilidade do uso dos estoques pesqueiros e evita a pesca quando os peixes estão mais vulneráveis à captura, por estarem reunidos em cardumes. Disponível em: < http://www.mma.gov.br/biodiversidade/biodiversidade-aquatica/recursos-pesqueiros/per%C3%ADodos-de-defeso>. Acesso em: 15/02/2017 às 13h.
Dialogando com Halbwachs (1990), destacamos a relevância de evidenciar essas identidades pelo estudo da memória e da história, observando que essas se conjugam, ao conferir identidade a quem recorda. Cada sujeito pode ser identificado pelo conjunto de suas memórias, visto que estas sejam sempre sociais, esse conjunto de memórias só possa pertencer a uma única pessoa. O estudioso destaca que a consciência individual é:
A sucessão de lembranças, mesmo as mais pessoais, sempre se explica pelas mudanças que se produzem em nossas relações com os diversos ambientes coletivos, ou seja, em definitivo, pelas transformações desses ambientes, cada um tomando em separado, e em seu conjunto. (HALBWACHS, 1990, p.69).
Sendo assim, a memória possui as faculdades de separar o eu dos outros, ela recupera acontecimentos, traz lembranças de pessoas, tempos, realizações, relações e sentidos, enfim, podem evidenciar significados múltiplos. Isso se relaciona à perspectiva de Serge Moscovici (2003), que conceitua:
As representações entidades quase tangíveis. Elas circulam, se entrecruzam e se cristalizam continuamente, através de uma palavra, de um gesto, ou duma reunião, em nosso cotidiano. Elas impregnam a maioria das nossas relações estabelecidas, os objetos que nós produzimos ou consumimos e as comunicações que estabelecemos. Nós sabemos que elas correspondem, de um lado, à prática específica que produz essa substância [...] (MOSCOVICI, 2003, p.10).
Esse conhecimento inscrito nas experiências e nos acontecimentos sustentados por indivíduos e partilhados na sociedade nos permite compreender (des)encontros de aprendizados do mundo da pesca. Porque, para o alcance do objetivo do grupo, há tempos a estrutura cumpre eficientemente o papel de divulgação de suas atividades.
Seguindo o pensamento de Moscovici (2003), destacamos que:
Sempre e em todo lugar, quando nós encontramos pessoas ou coisas e nos familiarizamos com elas, tais representações estão presentes. A informação que recebemos, e à qual tentamos dar um significado, está sob seu controle e não possui outro sentido para nós além do que elas dão a ele. Para alargar um pouco o referencial, nós podemos afirmar que o que é importante é a natureza da mudança, através da qual as representações sociais se tornam capazes de influenciar o comportamento do indivíduo participante de uma coletividade. É dessa maneira que elas são criadas, internamente, mentalmente, pois é dessa maneira que o próprio processo coletivo penetra, como o fator determinante, dentro do pensamento individual. Tais representações aparecem, pois, para nós, quase como que objetos materiais
[...] pois são o produto de nossas ações e comunicações. (MOSCOVICI, 2003, p. 40).
Nesse sentido, as representações sustentadas pelas influências sociais da categoria constituem aprendizados adquiridos na comunidade, que assim, compartilham cotidianamente com o grupo e no lugar onde vivem e trabalham. O conhecimento que move as representações sociais, conforme se observa em Moscovici (2003):
[...] é sempre produzido através da interação e comunicação e sua expressão está sempre ligada aos interesses humanos que estão nele implicados”, portanto, “é produto de um grupo de pessoas que se encontram em circunstâncias específicas, nas quais elas estão engajadas em projetos definidos.” (MOSCOVICI, 2003, p. 9).
As autoras Maneschy, Alencar e Nascimento (1995, p. 82), questionam a invisibilidade da mulher pescadora na cadeia produtiva, sabendo que essas mulheres, geralmente, aprenderam a arte pesqueira em família e que são elas as responsáveis pela transmissão do conhecimento e da familiaridade com a atividade pesqueira às novas gerações. Destacam e também observei no meu espaço de pesquisa, que muitas mulheres necessitam/ram levar seus filhos, para as suas atividades laborais, primeiramente pela ausência de creches nas comunidades, assim detalham que é preciso “rever, questionar e criticar o padrão de relações de gênero e o papel secundário das atribuições femininas é, portanto, tocar em visões de mundo e em atitudes muito arraigadas”. (MANESCHY et al., 1995, p. 82-86).
I - O espaço da pesquisa: O Pantanal Sul-Mato-Grossense
Como recorte espacial da pesquisa, abrangemos as cidades que estão localizadas no Pantanal Sul-Mato-Grossense: Coxim, Corumbá, Miranda, Aquidauana e Porto Murtinho. Nesses municípios há uma concentração de pescadoras e ribeirinhas que vivem da prática pesqueira e no pantanal sul-mato-grossense. Abaixo temos o mapa7 da localização geográfica dessas cidades, observem que esses municípios estão localizados na região do Pantanal Sul-Mato-Grossense.
7 Mapa produzido a pedido da autora dessa pesquisa, visando localizar geograficamente essas mulheres nas
IMAGEM 1 – Localização geográfica das cidades de Coxim, Corumbá, Miranda, Aquidauana e Porto Murtinho.
FONTE: Cartografia Alice Lucas de Souza Gomes 2019.
Os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul detêm a maior reserva de
biodiversidade da América do Sul: O Pantanal. Este fato é abordado por Miguel Vieira da
Silva a partir de observações e pesquisas realizadas em sua atuação no Instituto de Controle e Preservação Ambiental (INAMB). O autor apresenta as potencialidades da região e afirma que “A pesca em Mato Grosso do Sul, principalmente no Pantanal, merece destaque, embora seja vista por muitos como ocupação marginal” (SILVA, 1986, p. 06). Atualmente, cerca de 6.331 pescadores profissionais atuam em todo o Pantanal, sendo: 3.759 pescadores profissionais no Pantanal de Mato Grosso do Sul, sem considerar o segmento de pescadores de iscas, dados registrados no período de cadastramento realizado em 2014 pelo Sistema de Controle da Pesca de Mato Grosso do Sul (SCPESCA/MS).
Nessa extensa área diversificada observamos como essas pessoas se manifestam ao relatar trajetórias de vida, como buscam em suas memórias situações que marcaram suas vidas ao realizarem atividades pesqueiras como profissão.
Abaixo temos o mapa da caracterização do bioma do Pantanal8 MS e MT: IMAGEM 2 – Mapa do bioma do Pantanal.
FONTE: Cartografia Alice Lucas de Souza Gomes 2019.
8 Mapa produzido a pedido da autora dessa pesquisa, visando localizar geograficamente o Pantanal Sul Mato
O Pantanal, segundo ECOA, compreende9:
A área de abrangência total da Bacia do Alto Paraguai — BAP equivale a 496 000 km², ocupando o centro da América do Sul, em territórios do Brasil, Paraguai e Bolívia [...] Em território brasileiro, a BAP ocupa 361 666 km², inteiramente compreendida nos estados de Mato Grosso, ao norte (149.341 km²) e Mato Grosso do Sul, ao Sul (202.325 km²). (ECOA, 2017).
O Pantanal, também conhecido como grande "brejão", é um verdadeiro santuário ecológico, que com a ação de uma pequena chuva, áreas secas convertem-se em grandes lagos de águas claras, com profundidades incertas, em alguns locais passa de um metro de profundidade com uma grande quantidade de plantas aquáticas no interior. Não muito longe das áreas urbanas é possível avistar servos, anhumas, capivaras, ariranhas, filhote de onça, jacarés, seriemas, tatus, entre outros animais silvestres passeando despreocupadamente. Em alguns trechos, principalmente nas baías, podem-se verificar no fundo das águas cardumes de pintado, surubim, piranhas entre outras espécies. Nessas regiões, os peixes nascem e quando ganham tamanhos demandam os rios e, procuram as águas profundas do rio Paraguai, realizando a chamada piracema. Momento rico para o Pantanal, pois representa o ciclo natural desse ecossistema peculiar.
A parte sul-mato-grossense representa aproximadamente 65% do Pantanal brasileiro. O Pantanal é considerado a maior área úmida do mundo. E, a partir da Constituição Brasileira de 1988, foi declarado Patrimônio Nacional. Além disso, a área do Pantanal foi declarada como Reserva da Biosfera, pela Unesco no ano 2000. O Pantanal, contudo, não é um ambiente homogêneo. É possível identificar mais de 10 unidades ambientais diferentes, das quais 6 ficam em Mato Grosso do Sul (Correntes, Taquari, Negro, Miranda, Nabileque e Porto Murtinho). (Relatório MPA, 2010, p. 18)10.
Ainda segundo o relatório do Ministério da Pesca e Aquicultura:
A característica mais marcante do Pantanal é ser uma planície alagável com um regime hidrológico peculiar baseado nos pulsos de inundação ora determinados pelo aumento de vazão dos rios, ora pelo aumento da precipitação pluvial e ora por ambos concomitantemente. É um regime
9
Ecoa – Ecologia e Ação é uma organização não governamental que surgiu em 1989, em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, formada por um grupo de pesquisadores que atuam em diversos segmentos profissionais, tais como: biologia, comunicação, arquitetura, ciências sociais, engenharia e educação. O principal objetivo era, e ainda é, estabelecer um espaço para reflexão, formulações, debates, além de desenvolver projetos e políticas públicas para a conservação ambiental e a sustentabilidade tanto no meio rural, quanto no meio urbano.
Disponível em: <http://riosvivos.org.br/pantanal/>. Acesso: 16/11/2015 às 14h .
10 Relatório do Programa de desenvolvimento sustentável de aquicultura e pesca no território Pantanal Sul.
caracterizado por enchente-seca. A estação das cheias normalmente ocorre de outubro a abril, quando o volume de chuva precipitada aumenta, aumentando a vazão dos rios e ocorrendo extravasamento das águas dos leitos dos rios para as áreas de inundação. De abril a maio é o período da vazante, quando reduz o volume de água no ecossistema e a lâmina d’água recua para o leito dos rios. De junho a outubro se verifica a estação seca. (Relatório MPA, 2010, p. 18).
Como observamos, o Pantanal representa uma enorme diversidade tanto na questão geográfica como uma questão cultural. Nesse sentido, podemos falar em Pantanais, devido essas características marcantes dessa planície, pois não há como se afirmar uma característica única para todo o bioma pantaneiro.
II — Fontes de pesquisa
Priorizarei a discussão da fonte oral para compreender essas construções históricas, vivenciadas e compartilhadas por esse grupo de trabalhadores e trabalhadoras. Isto porque, em conformidade os estudos da oralidade de Alessandro Portelli (2000):
Acredito na história oral precisamente porque ela pesquisa a memória de indivíduos como um desafio a essa memória concentrada em mãos restritas e profissionais. E penso que parte de nosso desafio é o fato de que realmente encaramos a memória não apenas como preservação da informação, mas também como sinal de luta e como processo em andamento. Encaramos a memória como fato da história; memória não apenas como um lugar onde você “recorda” a história, mas memória “como” história. (PORTELLI, 2000, p. 69).
Ao apreendermos a memória "como" história, nosso objetivo é analisar a maneira como essas apropriações memoriadas foram construídas e compartilhadas por tais sujeitos através de um imaginário coletivo e evidenciadas subjetivamente por cada indivíduo em suas práticas sociais. A proposta é relatar as trajetórias de vida, historicizando os embates, enfrentamentos, conquistas e silenciamentos históricos das mulheres pescadoras.
Segundo Verena Alberti (2008) em seu texto sobre história oral, a riqueza da história das oralidades está evidentemente relacionada ao fato de ela permitir o conhecimento de experiências e modos de vida de diferentes grupos sociais. Nesse sentido, o/a pesquisador/a tem acesso a uma multiplicidade de “histórias dentro da história”, que, dependendo de seu alcance e dimensão, permite alterar “hierarquia de significações historiográficas” [...] (ALBERTI, 2008, p.166).
O meu contato com a "riqueza" da história oral da qual fala Alberti (2008) foi constituído, primeiramente, ao estudar trabalhos acadêmicos que utilizam a metodologia da história oral. Ao lê-los, foi possível perceber as riquezas de detalhes que essa fonte pode trazer principalmente no que concerne aos relatos dos/das profissionais da pesca que não encontramos em outras fontes históricas. Com isso, passei a questionar até que ponto estes/estas trabalhadores/as vivenciaram conquistas, lutas e embates em seu cotidiano exercendo a atividade laboral. Defrontei-me, assim, com a necessidade de ir à busca de “fontes vivas”, isto é, memórias que muitas vezes não são questionadas e acabam se perdendo e indo para os túmulos. Nessa convicção, as pescadoras precisavam ser ouvidas e a história oral seria a fonte privilegiada para tal operação.
Uma questão de organização documental para o pesquisador são as coletas de dados, pois os arquivos estão em movimento, no meu planejamento essas entrevistas ocorreriam no decorrer do ano de 2016, no entanto, houve uma enchente na região do Pantanal, dificultando a chegada até essas narradoras. Outra questão é o próprio período de pesca que, entre os meses de março ao final de outubro, não é um período favorável, devido essas mulheres estarem exercendo suas atividades no rio, com horários muito restritos. Muitas nem ficam em áreas urbanas, realizando acampamentos nas margens dos rios em regiões afastadas do perímetro urbano. Para o pesquisador que trabalha com oralidades é preciso ter esse olhar quanto ao momento certo para essa coleta de fontes.
Tal evidência proporciona conhecimentos dentro de uma multiplicidade de fatos, relatos e de experiências expressos através das entrevistas, as quais expõem as interpretações realizadas pelos sujeitos sobre os elementos que compõem suas vidas. Além disso, demonstram as particularidades com que cada pessoa realiza uma (re)construção histórica, como aponta Alessandro Portelli: “Fontes orais contam-nos não apenas o que o povo fez, mas o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e o que pensa que fez. Fontes orais podem não adicionar muito ao que já sabemos, [...], mas contam-nos bastante sobre os seus custos psicológicos” (PORTELLI, 1997, p.31). As falas evidenciam as memórias das pessoas que, apesar de individuais, expressam experiências, embates e lutas socialmente compartilhadas com um grupo mais amplo.
Seguimos o pensamento de Paul Thompson (1992), o qual afirma que a evidência oral contribui para a construção de uma história rica, viva e comovente. Ele destaca que o discurso popular carrega implícitos significados e conotações sociais que costumam não ser reproduzidos em documentos escritos e podem revelar as emoções do narrador, sua participação em determinados processos e como estes os afetaram em suas trajetórias de vida.
A construção da história significa, nesta perspectiva, produzir conhecimentos históricos e científicos, analisados através do diálogo das narrativas populares.
Analisando as narrativas de trabalhadores/as que vivem da pesca, pode-se afirmar que nelas encontram-se elementos que revelam sua relação com o Estado e com os demais membros desta categoria. Dessa maneira, concordo com o que Ana Luíza da Motta afirma, ao trabalhar com os discursos de pescadores na cidade de Cáceres-MT, que o indivíduo tem “[...] uma carga de vestígios que significam no gesto daquele que diz, o lugar que ele, enquanto sujeito ocupa no social” (MOTTA, 2003, p. 76). As experiências particulares das trabalhadoras fazem-me compreender os sentidos que elas conferem à realidade do trabalho, o que nos possibilita identificar suas significações num processo histórico mais amplo. Afirmamos que a experiência cultural das trabalhadoras modifica significativamente as relações que elas estabelecem com a realidade social a qual foram inseridas, portanto, é preciso considerar as trajetórias de vida e as experiências de trabalho que são compartilhadas por elas, observando a relevância da profissão para cada uma. Buscamos, assim, compreender o papel desempenhado por tais trabalhadoras invisibilizadas na escrita histórica no estado de Mato Grosso do Sul.
A metodologia a ser desenvolvida na escrita da tese iniciou com análise historiográfica, tendo como base autores e autoras que discutem historicamente trajetórias de vida de pescadoras profissionais e artesanais, no âmbito nacional. Ainda a produção de fontes a partir da História Oral, tendo com método, a coleta de um conjunto expressivo de entrevistas, além da utilização de outras já produzidas durante o mestrado (2013). Com este recurso procura-se compreender as experiências cotidianas em torno da pesca profissional, na busca por espaços de trabalho, valorização pessoal e profissional, embates e lutas constantes e à forma como estas profissionais respondem aos desafios para a valorização pessoal e profissional.
Através da articulação destas fontes escritas11, oficiais, história oral penso que seja possível identificar vivências e temporalidades que se entrecruzam e se (re)significam num presente cujas expectativas e lutas são travadas em espaços ambíguos de identificação étnica, pertencimento social e luta de classes, de espaço para o trabalho feminino e o principal “Histórias de vida de pescadoras”. Procurando dar conta desse movimento, analisaremos as problemáticas levantadas não como fatos dados, mas, como processos em formação.
11
Ver.: ANDERSON (2007); BECKER (2013); CATELLA (2001); FURTADO (2009); GERBER (2015); GOES (2008); HIRATA (2002); LEITÃO (2008-2012); MANESCHY (2000); MARPOARA, (2010); MORENO (2017); MOTTA-MAUÉS (1999); ROSÁRIO (2008); SILVA (2013); SOARES (2012); SCHERER (2013); STADTLE (2010); WOORTMANN (1992).
Conforme os estudos de Khoury, mais do que trabalhar “fronteiras físicas e imaginárias, o desafio é pensar [...] como as pessoas exploram, constroem e reordenam territórios e fronteiras simbólicas que as unem e as separam, com toda sua ambiguidade e ambivalência”. (KHOURY, 2006, p. 42)
Portanto, é uma construção de narrativas de dizeres que necessitam ser problematizados e analisados historicamente para se compreender essas múltiplas linguagens construídas nesse espaço geográfico e cultural de um grupo de trabalhadoras que buscam permanecer no ofício da pesca mesmo em tempos incertos financeiramente. “Ao narrar, as pessoas expressam elementos próprios de sua cultura e lidar com as narrativas orais significam apreender os significados do que é narrado e lembrado no próprio movimento da realidade social vivida.” (KHOURY, 2006, p. 37).
Salientamos, portanto, a relevância desse recurso metodológico na pesquisa histórica que será priorizado nesse estudo cujo foco é a análise de “memórias e histórias de vidas” das pescadoras profissionais do Estado de Mato Grosso do Sul que relatam esses significados e sentidos diversos em suas vivências. Ao utilizar a ferramenta da história oral, na análise das relações entre memórias e gênero, esta pesquisa ganha um impulso científico e possibilita a expansão das fronteiras da historiografia, do protagonismo da história das mulheres.
Ecléia Bosi (2003), em seu estudo O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia
social, afirma que a memória pessoal é também “social, familiar e grupal” e através da
oralidade, busca-se um tempo, uma cidade, um gênero, uma nacionalidade, enfim, buscam-se memórias invisíveis na escrita da história. Essas memórias transformadas em textos se reconstroem e remetem a uma vida em sociedade, com valores, culturas, apropriações, pertencimentos, consentimentos, entre outros.
Parafraseando Ricoeur (2007), na obra A memória, a história, o esquecimento, destaca que a memória é a representação do passado a partir do hoje, ou seja, ela é uma reconstrução socialmente individual e perpassada pela coletividade.
Da memória compartilhada passa-se gradativamente à memória coletiva e as suas comemorações ligadas a lugares consagrados pela tradição: foi por ocasião dessas experiências vividas que fora introduzida a noção de lugar de memória, anterior às expressões e às fixações que fizeram a fortuna ulterior dessa expressão. (RICOUER, 2007, p.156).
Assim, a partir das narrativas orais é o historiador que trabalhará com as fontes. Este tratamento demonstrará as significações presenciadas e construídas por aqueles e aquelas
que foram esquecidos/as na escrita historiográfica. Ou seja, por este viés o protagonista é o próprio sujeito que narra sua história, no entanto quem dá vida à narração é o historiador que, apesar de não ter vivenciado diretamente a experiência histórica, a historiciza e a publiciza.
Nas palavras de Paul Ricoeur (2007):
A declaração explícita da testemunha, [...] é bem expressiva: “Eu estava lá”. O imperfeito gramatical marca o tempo, ao passo que o advérbio marca o espaço. É em conjunto que o aqui e o lá do espaço vivido da percepção e da ação e o antes do tempo vivido da memória se reencontram enquadrados em um sistema de lugares e datas do qual é eliminada a referência ao aqui e ao agora absoluto da experiência viva. O fato de essa dupla mutação pode ser correlacionada com a posição da escrita à oralidade é confirmada pela constituição paralela de duas ciências, a geografia de um lado [...] e de outro, a historiografia. (RICOEUR, 2007, p. 156).
Nesse sentido, pode-se dizer que sujeito se expressa de uma maneira rica e comovente, pois esses se veem em seu próprio passado e os constroem por meio de suas memórias, revivem os momentos de prazer e as paixões, projetam fatos romantizados, e também as dificuldades de outrora.
São memórias que demonstram as vivências e as principais preocupações que, coletivas, passam a ser compartilhadas, vivenciadas por esses/as trabalhadores/as ao longo de suas vidas. A história da pesca traz muitas memórias diversificadas, em grupo: eles e elas se esforçam para demonstrar que possuem uma relação de harmonia para com o meio ambiente e a consciência de que precisam dele para prover sua sobrevivência e existência. Assim, as mulheres pescadoras, dentro desta reflexão, dialogam e relatam suas experiências, angústias e expectativas referentes aos grandes problemas que enfrentam na vida cotidiana, no exercício da profissão e nos sentidos atribuídos à própria existência.
Na obra As Mulheres ou os silêncios da história, Michelle Perrot (2005) destaca que o desenvolvimento da história oral constituiu uma forma de revanche das mulheres. Tal fato deve-se principalmente a dois aspectos: a longevidade delas, o que as tornam testemunhas de épocas remotas e o mutismo dos homens que:
[...] em um casal, a partir do momento em que se trata de lembranças de infância ou da vida privada, contrasta com a loquacidade muito maior das mulheres, quer seja porque o trabalho e as empreitadas do exterior tenham atrofiado a memória masculina, quer seja porque falar de si mesmo é contrário à honra viril que considera estas coisas
negligenciáveis, abandonando às esposas os lados dos berços e as questões do lar. [...] (PERROT, 2005, p. 41).
Silvia Salvatici (2005), em sua obra Memórias de gênero: reflexões sobre história
oral de mulheres, destaca a ampliação positiva do uso das fontes orais na pesquisa histórica
ao fornecer assunções teóricas e soluções metodológicas. “As vozes de mulheres” captadas pelas entrevistas visibilizaram um passado com o qual as feministas poderiam se identificar, “era como se as palavras de milhares de mulheres fossem as suas palavras, ou as palavras de grupos oprimidos pelos quais estavam lutando”. Nesse sentido, as histórias de mulheres eram tidas como verdades, amalgamando memórias, significados e representações numa perspectiva de gênero (SALVATICI, 2005, p.32).
Analisando a historiografia da pesca relacionada à atuação da mulher, pode-se observar que existem nas Colônias12, mulheres pescadoras que atuam desde a década de 1970 na luta por seus direitos sociais. Participando assiduamente em reuniões no Ministério da Pesca e Aquicultura, nas próprias colônias de pesca e nas federações de pescadores. Para pensar estas questões utilizaremos as obras de Leitão (2012), Furtado e Leitão (2012), Veras e Leitão (2012), Inácio e Leitão (2012), Scherer (2013), Escallier (1999), Medeiros (2012), Amorim (2005), Jesus (2016), Cavalcanti (2010), Maneschy, Alencar e Nascimento (1994), Moreno (2017), Furtado (2010), bem como outras pesquisas que problematizam a história de conquistas de mulheres pescadoras localizadas na região norte do país, observando vivências, trajetórias, trabalho entre ouras categorias de análise. Ainda, problematizaremos as políticas públicas para mulheres pescadoras que lhes possibilitaram o acesso ao registro Geral da
12
Colônia de pesca é uma organização sindical dos trabalhadores da pesca e de representação da categoria pesqueira, tal instituição trabalha juntamente com o Estado na questão organizacional e documental da categoria. Para obter a carteira nacional de pesca no Ministério da Pesca e Aquicultura/MPA é necessário o trabalho das colônias na confirmação desses dados MPA/MS. O surgimento ocorreu quando a Marinha do Brasil, preocupada com a segurança do litoral e dos grandes rios brasileiros, no período das guerras mundiais, resolveu ordenar a vigilância do litoral e dos grandes rios brasileiros. Quem conhece bem o litoral e os rios são os pescadores. Então, o comandante Frederico Villar, depois de uma viagem de estudos aos Estados Unidos e Europa, sai do Rio de Janeiro no Cruzador José Bonifácio, criando as Colônias de Pesca. Isso aconteceu em 1919. Villar veio dividindo o litoral e os rios em “Zonas de Pesca”, combinando distância e número de pescadores. Então, onde havia em torno de 200 pescadores criava uma Colônia de Pesca. Por isso, as Colônias têm o “Z” - Colônia Z-1, Z-2 e assim por diante e, em cada estado começa de novo comZ-1. Porém, as Colônias não foram criadas como Sindicatos e sim como uma associação de pessoas ligadas à pesca, tanto que, no início, eram chamadas de Colônias de Pesca e não Colônias de Pescadores. Na viagem de volta, Frederico Villar e outros oficiais elaboram o estatuto das Colônias e todo o sistema nacional de representação dos pescadores. Os militares tinham como objetivo principal organizar os pescadores para contribuir no sistema de defesa costeiro, mais do que para defender os interesses econômicos e sociais da categoria. No dia 1º de janeiro de 1923, foi assinado o Estatuto para as Colônias de Pesca, em forma de aviso, pela Marinha. As Colônias eram definidas como agrupamentos de pescadores ou agregados associativos. Cf.: < http://coloniadepescadoresz1se.blogspot.com.br/2016/02/origem-das-colonias-de-pescadores.html>. Acesso: 12/11/2016.
Pesca, aos espaços de poder dentro das Colônias de Pescadores/as e, ainda, a criação e legitimação do movimento social de Articulação de Mulheres Pescadoras no âmbito regional.
III - Estrutura da Obra
Primeiramente, a pesquisa problematizará fontes de pesquisas historiográficas realizadas no campo da história, geografia, antropologia, ciências sociais e psicologia, analisando a literatura que contempla o conceito de história das mulheres que realizam o ofício da pesca em regiões do Brasil e estudos históricos realizados em Portugal, Escallier (1999), Amorim (2005). Posteriormente, queremos problematizar a região pantaneira destacando elementos físicos, históricos e socioculturais, refletindo, assim, sobre o espaço e o ofício da pesca e as múltiplas concepções a partir de pesquisas realizadas nessa região do Estado.
Ao longo do trabalho debateremos as categorias relacionadas ao gênero e a história das mulheres e, ainda, as relações de poder no mundo do trabalho da pesca. Pretende-se, historiar a história das mulheres nas representações sociais enquanto pescadoras que vivem às margens dos rios da bacia pantaneira, bem como os sentidos atribuídos à vida, ao trabalho e à família e ao trabalho pesqueiro, seja ele profissional e ou de subsistência.
Problematizar o trabalho das mulheres e a legislação, observando o conhecimento e a abrangência da lei; o trabalho familiar e o acesso a direitos legais das ribeirinhas, parece-nos um argumento indispensável para uma pesquisa responsável acerca desta categoria pouco reconhecida. Além disso, destacaremos, a configuração da atividade pesqueira e do/da profissional da pesca, como referência às publicações, leis, projetos de Lei em órgãos responsáveis observando a (in)visibilidade mulher no: o Ministério da Marinha, Federação Estadual da Pesca; Legislações nacionais e estaduais; Como por exemplo: Decreto-lei n.º 221, de 28 de fevereiro de 1967; Lei n.º 8212, de 24 de julho de 1991; Lei n.º 9605, de 12 de fevereiro de 1998; Lei n.º 10 779, de 25 de novembro de 2003; Projeto de lei nº 6697 de 2006, ainda, observar ao longo da pesquisa a visibilidades das pescadoras em encontros e conferências estaduais e nacionais de Trabalhadoras da Pesca.
A tese prima historiar os enredos dessas mulheres pescadoras frente às representações sociais, econômicas, culturais de mulheres protagonistas no campo de trabalho da pesca no Pantanal. Acerca da caracterização das mulheres que trabalham no setor pesqueiro pantaneiro problematizará suas trajetórias em diálogo com os referenciais teóricos Ricoeur (2007), Foucault (2005), Perrot (2005), Bosi (2003), Certeau (2013), entre outros
autores que fundamentarão esses múltiplos significados atribuídos pelas narradoras no seu ofício, bem como os sentimentos expressos em relação ao vivido no lugar “Pantanal”, com a profissão, no lar, na colônia, enfim. Refletindo que as representações sociais, segundo Chartier13 (2002), constroem identidades; marcam diferenças; constroem sujeitos. Destacando o dia-a-dia das trabalhadoras da pesca e das ribeirinhas, busca-se o sentido do trabalho e do lazer e a relação das mulheres com o meio ambiente: como se dá a configuração das identidades das mulheres pantaneiras. Ainda por este viés, quero investigar a transmissão e circulação de saberes da arte pesqueira pensando a comunidade: continuidades e ou descontinuidades? Finalmente, por intermédio das fontes imagéticas analisarei e observarei as pescadoras questionando se as relações de gênero as invisibiliza.
A rede de entrevistadas foi pensada a partir da atuação de cada pescadora, buscando abranger a pescadora de iscas, de peixes, a piloteira14, a que pilota canoas e as que pilotam lanchas. Ao todo foram realizadas 08 entrevistas com mulheres pescadoras profissionais, computando em média 7 horas de gravações. Após a coleta foi realizada a transcrição, transformando as falas em textos conforme o método abordado por Portelli (1996), no processo de transcrição, essas falas foram brevemente editadas, retirando vícios de linguagem, repetições e excessos, oportunizando uma melhor compreensão do dito, sinalizando silêncios, os não ditos, sabendo que nem sempre é preciso dizer com palavras, mas com olhares e gestos.
No primeiro capítulo: Mulheres pescadoras: corpos que pescam, historiamos a rede de pescadoras profissionais que fazem parte desse estudo. No sentido de, situar o leitor para a compreensão da rede de mulheres que pescam e que contribuíram para que essa pesquisa fosse realizada.
No segundo capítulo: Arte pesqueira: Conquistas, Resistências e Lutas Cotidianas, analisou-se os caminhos legais e a transformação das frentes representativas da categoria, bem como a configuração das Colônias de Pesca em Mato Grosso do Sul. Propôs uma reflexão acerca das lutas e apresenta-se as conquistas da categoria nas questões do direito trabalhista e ainda as lutas feministas, como a relevância da Marcha das Margaridas (2015), na luta por direitos sociais e previdenciários, pelo direito de exercer atividades ligadas à pesca e pela manutenção de direitos conquistados.
13
Cf.: CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre certezas e inquietude. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2002.
14 Piloteira ou Pirangueira é uma classificação dada às mulheres que pilotam embarcações pesqueiras, tanto para