Aves e Linhas de Transmissão - Um Estudo de Caso

Texto

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Organizador:

Organizador:

Marcos A. Raposo

Marcos A. Raposo

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U M E S T U D O D E C A S O U M E S T U D O D E C A S O

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Arapaçu-do-cerrado,

Arapaçu-do-cerrado,

Lepidocolaptes angustirostris 

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Arte Ensaio Editora Ltda.©

COORDENAÇÃO EDITORIAL

Silvana Monteiro de Carvalho Paula FeresPaixão Maria Duprat

PROJETO GRÁFICO

Retina 78

TEXTO

Marcos André Raposo, Claydson Pinto de Assis, Daniel Figueira, Érico Demari, Gabriella Regis Frickes, Gabriela Araújo, Daniel Honorato Firme, Nelson Buainain Neto, Lorian Cobra Straker, Rafael Martins Russo, Felipe de Carvalho Cid, Gisiane Lima, Guilherme Renzo Rocha Brito, Leonardo Pessanha Alves e Patrícia Alexandre Formozo.

FOTOGRAFIAS MarcosAndréRaposo,ClaydsonPintodeAssis,DanielFigueira,ÉricoDemari, GabriellaRegisFrickes,GabrielaAraújo,DanielHonoratoFirme,Nelson BuainainNeto,LorianCobraStraker,RafaelMartinsRusso,FelipedeCarvalho Cid,GisianeLima,GuilhermeRenzoRochaBrito eLeonardoPessanhaAlves. PetersonA.Bachin-fotodoColhereiro(Plataleaajaja) REVISÃO DE TEXTO Sonia Cardoso CARACTERIZAÇÃO FLORÍSTICA

Leonardo Pessanha Alvese Renato da Silva Nunes

REVISORA TÉCNICA

Renata Stopiglia

CAPTAÇÃO DE RECURSOS

ArteMídia Marketing Cultural

IMPRESSÃO E ACABAMENTO

Gráfica Santa Marta

ArteEnsaioEditora Ltda.©,2013 Tel//Fax:(21) 2259-8282/ (11) 2307-8777 www.arteensaio.com.br arteensaio@arteensaio.com.br

Todososdireitos reservadospara Arte Ensaio Editora Ltda. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ F442n

Ferreira, Marcos André Raposo,

1969-Aves & Linhas de Transmissão - um estudo de caso / Marcos André Raposo Ferreira. - 1. ed. - Ri o de Janeiro : Arte Ensaio, 2013.

128 p. : il. ; 23 cm. ISBN 978-85-60504-43-5

1. Energia elétrica - Aspectos ambientais. 2. Ave - Comportamento. 3. Ave - Proteção. 4. Tecnologia - Aspect os sociais. 5. Natureza - Influência do homem. I. Título.

13-03215. CDD: 363.7 CDU: 502.1 22/07/2013 22/07/2013

Assinado deforma digital por Gestão P&DTaesa

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AGRADECIMENTOS

Agradecemos aos funcionários da Taesa e da Ecology and Environment do Brasil, os quais ajudaram direta ou indiretamente em nossos trabalhos de campo e no escritório. Em es-pecial, agradecemos a: Gliender Mendonça, Geyza Rigo, Juliano Ameno Faria, Artur Hoff, Rodrigo de Carvalho Dantas, Ivy Rocha e Couto, Rodrigo Pereira Faria, Luis Semensato, Wilson Gomes, Paulo Botelho, Sérgio Teixeira, Luis Solis, José Manuel Aguirre, Daniel da Silva Lagos e da Camila Freire Barcellos – todos contribuíram, de uma forma ou de outra, com o desenvolvimento deste projeto. Por fim, nosso muito obrigado à Aneel (Agência Na-cional de Energia Elétrica) pelo estímulo à execução desta pesquisa, por meio de seu pro-grama de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).

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AVES & LINHAS DE TRANSMISSÃO 

:

CONHECER PARA PRESERVAR

Um dos maiores desafios globais da atualidade é fazer com que as empresas cresçam, s e fortaleçam e contribuam para o desenvolvimento das sociedades, sem, no entanto, deixar de se preocupar com a sustentabilidade e com o bem-estar social.

Conciliar o crescimento empresarial com a proteção e a sustentabilidade ambiental é uma das metas que a Transmissora Aliança de Energia Elétrica S.A. (“TAESA”) busca rotineiramente, focando seu desenvolvimento na condução de projetos sólidos e bem estruturados, que prese rvem ao máximo o meio ambiente e seus recursos naturais, agregando, assim, valores aos seus empregados, acionistas e à socied ade como um todo.

Por estar presente em todas as regiões do país, a Companhia possui uma visão estratégica de expansão, focada na preservação dos ambientes e ecossistemas nos quais suas linhas de transmissão são construídas e suas subes-tações de energia elétrica são operadas.

Assim, a TAESA executa, sistematicamente, vários programas de Educação Ambiental e Responsabilidade So-cial, de forma a destacar a importância e o cuidado com o Meio Ambiente, como, por exemplo, fomentando cam-panhas de combate a queimadas, e incentivando a preservação de nascentes e a despoluição de córregos e rios. A preocupação incondicional com o atendimento às leis, normas e regras ambientais emanadas por enti dades e órgãos governamentais é de importância primordial para a TAESA, que busca, incessantemente, a melhoria dos seus processos e procedimentos necessários à integridade de suas instalações de transmissão, incluindo a limpeza e a manutenção de suas faixas de servidão para passagem de linhas, visando sempre causar o menor impacto possível ao meio ambiente.

Esse convívio harmonioso entre as estruturas metálicas e a fauna e a flora garante à TAESA o reconhecimento do setor elétrico como uma empresa responsável e focada na sustentabilidade corporativa.

Apoiar projetos de Pesquisa e Desenvolvimento (“P&D/ANEEL”) executados sob a ótica ambiental, como é o caso do projeto “Análise da relação entre aves e linhas de transmissão 500 KV no Brasil e desenvolvimento de técnicas para a predição de impactos”, somente reforça a visão e a estratégi a da Companhia.

Desejamos que os leitores possam extrair d esta pesquisa um aprendizado singular acerca da convivência entre as aves e as linhas de transmissão, aprimorando seus conhecimentos sobre um tema tão importante, a cada dia mais difundido no setor elétrico, sobretudo em razão da magnitude e relevância das obras que têm sido publi-cadas com foco no setor de transmissão de energia.

Façam uma excelente leitura!

JOSÉ ALOISE RAGONE FILHO

Diretor Superintendente Geral  Transmissora Aliança de Energia Elétrica S.A.

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CRESCIMENTO SUSTENTÁVEL:

A HARMONIA ENTRE EMPRESAS E MEIO AMBIENTE

A velocidade de transformação e modernização que estamos vivenciando exige que várias ações empresariais estejam constantemente projetadas e conectadas à visão de futuro e aos anseios do mercado no qual as compa-nhias estão inseridas.

O segmento de transmissão de energia elétrica, negócio principal da Transmissora Aliança de Energia Elé-trica S.A. (“TAESA”), é hoje considerado um dos maiores desafios estruturais que compõem o cenário de de-senvolvimento e planejamento energético brasileiro. A interligação de todas as regiões, por meio de linhas de transmissão que transportam milhares de megawatts, provenientes de várias fontes de geração de energia vem acontecendo paulatinamente, e traz consigo um grande desafio: efetuar essa implementação com o zelo e o cui-dado que o meio ambiente merece.

Nesse sentido, a TAESA, por ser uma das maiores empresas privadas de transmissão de energia elétrica do Brasil, com foco na construção, operação e manutenção de ativos de transmissão, assume um papel relevante  junto à socie dade na bus ca de inovaçõe s tec nológi cas e de al ternati vas té cnicas e ope raciona is qu e contr ibuam

com a proteção e a sustentabilidade do meio ambiente e de seus recursos naturais, seguindo sempre os critérios de qualidade, confiabilidade e continuidade.

Assim, a TAESA incentivou, nos últimos anos, por meio do Programa de Pesquisa e Desenvolvimento (“P&D/ ANEEL”), a execução de vários projetos acadêmicos, pulverizados em diversos temas de pesquisa, como o deno-minado “Análise da relação entre aves e linhas de transmissão 500 KV no Brasil e desenvolvimento de técnicas para a predição de impactos”, que, pelos resultados alcançados e, principalmente, pela publicação da obra em pauta, consolida o sucesso da pesquisa.

Os excelentes resultados do projeto foram atingidos em função das parcerias estabelecidas com a Ecology and Environment do Brasil, a Associação de Amigos do Museu Nacional (SAMN) e o Museu Nacional (da Universi-dade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ). A pesquisa em específico colaborará substancialmente com a agregação de dados e informações acerca dos tipos de aves que permeiam as linhas de transmissão estudadas, bem como ampliará o entendimento técnico e acadêmico sobre o comportamento destas aves, ao presenciarem as estrutu-ras físicas que compõem os empreendimentos de transmissão de energia elétrica.

Enfim, os nossos agradecimentos ao Professor Doutor Marcos Raposo, do Museu Nacional/UFRJ, e a toda a equipe do projeto, os quais se empenharam nesta pesquisa e dedicaram seu tempo e atenção a um tema tão im-portante para o meio ambiente e para as empresas do setor elétrico nacional. Com toda certeza, o livro  Aves & Linhas de Transmissão contribuirá, de modo significativo, para o entendimento teórico e prático da relação entre as aves e as linhas de transmissão em alta tensão espalhadas por todo o país.

Boa leitura!

GLIENDER PEREIRA DE MENDONÇA

Gerente Regulatório, Institucional e do Programa de P&D Transmissora Aliança de Energia Elétrica S.A.

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Guaracava, Elaenia sp .

APRESENTAÇÃO

Este livro é fruto do intuito de difundir o conhecimento adquirido no escopo do projeto de Pesquisa e De-senvolvimento (P&D) intitulado “Análise da relação entre aves e linhas de transmissão 500 kV no Brasil e desenvolvimento de técnicas para a predição de impactos”. Esse projeto é resultado da colaboração entre a Transmissora Aliança de Energia Elétrica S.A. (Taesa), a Ecology and Environment do Brasil, a Associação de Amigos do Museu Nacional (SAMN) e o Museu Nacional.

Em um período de expansão de nossa rede elétrica, o encaixe ambiental de empreendimentos como linhas de transmissão (LT), redes de distribuição de energia e hidrelétricas é de fundamental importância. O Brasil passa, entretanto, por uma situação dúbia. De um lado, há uma grande produção de informações em processos de licenciamento ambiental e, por outro, há uma imensa carência de informações publicadas na forma de artigos científicos e livros sobre a relação entre esses empreendimentos e o meio ambiente.

O projeto que gerou este livro enfoca a relação entre as aves e as linhas de transmissão no Brasil e se fez em duas frentes principais: um estudo de campo enfocando duas Linhas de Transmissão da TAESA; e um levanta-mento bibliográfico que permiti u uma síntese abrangente e compreensível do “estado da arte” do conhecilevanta-mento nessa área. Adicionalmente, muitos dados primários sobre as aves e a vegetação das regiões estudadas foram levantados e ficam acessíveis ao público por meio deste trabalho.

Para a melhor visualização do material levantado no campo e em bibliografia, divi dimos o livro em três par-tes. A primeira é um histórico geral sobre o assunto, que inclui a síntese d o conhecimento disponível em litera-tura sobre a relação entre as aves e as linhas de transmissão ou de di stribuição de energia. A inclusão no escopo deste livro do conhecimento disponível também sobre a relação entre aves e linhas de transmissão de outras po-tências (baixa e média) teve o objetivo de, além de aproveitar a oportunidade única de fazer uma revisão abran-gente do assunto, individualizar claramente quais as reais preocupações associadas a linhas de transmissão de alta tensão e quais são aquelas que surgiram em função das relações entre aves com li nhas de menor tensão.

A segunda parte do livro, cujo texto é bem mais técnico e, portanto, de leitura mais árida para o não especia-lista, apresenta os dados brutos do projeto específico gerador desse P&D. Nessa parte são incluídas fotografias inéditas, todas provenientes dos trabalhos de campo, de várias espécies de aves e dos ambientes cruzados pelos empreendimentos.

A terceira e última parte inclui uma série de conclusões gerais sobre a relação entre aves e linhas de trans-missão no Brasil, assim como sugestões para futuros estudos e reflexões gerais sobre o assunto.

Por fim, não se pode deixar de mencionar o quão feliz foi a decisão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em promover seu Programa Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento, estimulando empresas do se-tor elétrico a investir recursos de seus orçamentos em ciência e inovação tecnológica. Estudos como este, que seriam muito dificilmente custeados por órgãos públicos, dada a sua magnitude, são oportunidades raras de, simultaneamente, estudar aspectos da relação entre o homem e o meio ambiente que tenham reflexos práticos; levantar informações importantes sobre a nossa fauna e flora em áreas ainda pouco conhecidas; estimular e via-bilizar a formação de jovens cientistas que participaram do projeto e di videm a autoria deste livro; e fomentar a geração de conhecimento científico sobre o tema.

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O EMPREENDEDOR E OS EMPREENDIMENTOS

A TAESA

A TAESA é uma empresa privada, listada na BM&FBovespa a Nível 2 de Governança Corporativa, contro-lada pela CEMIG e pelo FIP COLISEU, sendo um dos maiores grupos privados de transmissão de energia elétrica do Brasil. A empresa é exclusivamente dedicada à construção, operação e manutenção de Linhas de Transmissão e Subestações de energia elétrica

Atualmente a TAESA detém o controle integral e/ou parcial de 24 concessões, sendo 22 concessões/ participações adquiridas no mercado secundário e duas concessões outorgadas em leilões federais, e com 9.407 km de linhas de transmiss ão e ativos em 60 subestações com nível de tensão entre 230 e 525 kV, com presença em todas as regiões do país, nos seguintes estados, a saber: Bahia; Tocantins; Maranhão; Goiás; Pernambuco; Rio Grande do Sul; Santa Catarin a; São Paulo; Rio Grande do Norte; Paraíba; Mato Grosso; Minas Gerais; Alagoas; Paraná; Piauí; Pará; e Distrito Federal.

OS EMPREENDIMENTOS

A história das Concessões TSN e Novatrans

A Transmissora Sudeste Nordeste S.A. (“TSN”), foi criada pela Enelpower S.p.A. (“Enelpower”) e pela Inepar Energia S.A. (“Inepar”), em outubro de 2000, p ara a exploração da concessão de serviço público de transmissão de energia elétrica e a implantação, operação e manutenção das instalações da Interligação Sudeste Nordeste. O empreendimento compreende aproximadamente 1.069 km de li nhas de transmissão em 230 e em 500 kV, que se estendem da Subestação Serra da Mesa, em Goiás, até a Subestação de Sape-açu, na Bahia, com sete Subestações, sendo quatro delas de sua propriedade.

Em junho de 2006, a TSN foi transferida p ara a Terna Participações S.A. (“TERNA”), que, por sua vez, foi adquirida pela Transmissora Aliança de E nergia Elétrica (“ TAESA”) em novembro de 2009.

Objetivando sua consolidação no mercado de transmissão, em março de 2006, a TERNA, adquiriu a Munirah Transmissora de Energia S.A. (“Munirah”), que dispunha de 107 km adicionais de linhas de transmissão de 500 kV e mais uma Subestação compartilhada. A aquisição da Munirah interligou a Subes-tação de Sapeaçu (Bahia) com a SubesSubes-tação de Camaçari II (Bahia), fechando assim o anel d e transmissão Norte-Nordeste.

Em novembro de 2007, outras oportunidades d e crescimento foram abraçadas pela TERNA, por meio da TSN a Companhia adquiriu e incorporou mais duas outras concessões: a Goiânia Transmissora de Energia S.A. (“GTESA”), Linha de Transmissão de 230 kV, denominada Goianinha - Mussuré Circuito 3, que interliga a Subestação de Goianinha, no Estado de Pernambuco à Subestação de Mussuré, no Estado da Paraíba, e a Paraíso-Açu Transmissora de E nergia S.A. (“PATESA”), Linha de Transmissão Santa Cruz - Paraíso-Açu II de 230 kV, com extensão de 135 Km que interlig a a Subestação Açu, no Município de Açu à Subestação Paraíso, no Município de Santa Cruz, ambos localizados no Rio Grande do Norte.

A NOVATRANS Energia S.A. (“Novatrans”) – Interligação Norte-Sul II, simi larmente à TSN, foi cons-tituída em outubro de 2000, para a exploração da concessão de ser viço de transmissão de ene rgia elétrica, implantação, operação e manutenção das instalações da Rede Básica. As empresas Civ ilia Engenharia S.A. (“Civilia”), Construções e Comércio Camargo Corrêa S.A. (“CCCC”) e a Camargo Corrêa Equipamentos (“CCES”), organizadas sob forma de consórcio, foram as vencedoras no processo licitatório, que resultou na outorga da concessão de transmissão à Novatrans.

A interligação Norte-Sul II iniciou sua operação comercial em abril de 2004, tendo origem na Subesta-ção de Imperatriz, no Maranhão, e término na SubestaSubesta-ção de Samambaia, no Distrito Fe deral, compreen-dendo aproximadamente 1.278 km de linhas de 500 kV e seis Subestações, todas compartilhadas.

As concessões acima descritas foram incorporadas pela TAESA em novembro de 2010, quando deixa-ram de existir as razões sociais, passando a ser denominadas simplesmente TAESA, cada qual, refletindo o seu contrato de concessão e empreendimento.

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Mapa de localização das Linhas de Transmissão estudadas

(Interligação LT 500 kV Norte-Sul II e Interligação LT 500 kV Sudeste-Nordeste).

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INTRODUÇÃO

Ao longo da história recente, o impacto ambiental relacionado a linhas de transmissão tem gerado a necessi-dade de estudos mais aprofundados sobre os reflexos desses empreendimentos em comuninecessi-dades zoológicas, particularmente sobre as aves (Avery et al., 1976; Avery et al., 1980). Os impactos mais relatados são casos de eletrocussão e a morte de espéci mes de aves nativas por colisão d ireta com os cabos de alta tensão.

A relevância relativa de cada um desses tipos de acidente dependerá de uma grande gama de fatores. O mo-delo das torres de transmissão (ou distribuição), o ambiente interceptado pelo empreendimento, o tipo fitofi-sionômico e o grau de conservação desse ambiente, a localização geográfica, o relevo, as condições atmosféricas (por exemplo, a ocorrência ou não de neblina ou vento, vide Sundar & Choudhury, 2005), a sazonalidade, as condições de luminosidade (noite/dia) e os próprios grupos taxonômicos presentes na área (Guyonne & Janss, 2000) são fatores que exercem influência sobre o risco de impactos negativos para a comunidade de aves rela-cionadas a esse tipo de empreendimento.

Se por um lado há evidências de que linhas de transmissão impactam pouco as aves, por outro, em locais onde há grande movimentação de aves, como grandes áreas pantanosas, já foram relatados casos significativos de mortandade relacionados a linhas de transmissão. Como ilustração, pode-se mencionar um caso ocorrido entre 1980 e 1981 em uma área pantanosa de Montana, Estados Unidos, onde, sob uma linha de transmissão de 230 kV, foram encontradas cerca de 4 mil carcaças de aves com evi dentes sinais de morte por colisão com os cabos. Posteriormente, a degradação dos seus cadáveres nas áreas alagadas provocou, segundo Malcolm (1982), a morte por botulismo de mais 5 mil espécimes em apenas um ano. Não é possível, hoje, afirmar o quão raros são esses eventos de maior magnitude.

Também são relatadas colisões diretamente contra as torres das linhas de transmissão, embora essas coli-sões pareçam ser mais comuns em torres de comunicação (televisão, rádio, telefone etc.) ( e.g. Crawford, 1981; Kemper, 1996; Nearing, 1998; Ornithological Council, 1999), talvez por essas torres ocuparem, frequentemente, áreas altas e sujeitas a neblina.

Entretanto, grande parte dos acidentes e impactos negativos d e aves sobre linhas de transmissão, assim como de linhas de transmissão sobre aves, são reportados em outros continentes, como Europa, África e América do Norte (e. g . Savereno et al., 1996; Jenkins et al., 2010; Shaw et al., 2010a). Nesses continentes, o fluxo de espé-cies migratórias, como gansos, cegonhas e grous, é muito elevado. Isso se dá, em parte, devido a uma questão histórico-zoogeográfica, que é o maior número, em termos qualitativos e quantitativos, de representantes dessas famílias de aves migratórias (e. g . Anatidae e Gruidae) nesses continentes. Também contribuem para isso algu-mas questões ecológicas, como ser maior o efeito da sazonalidade sobre as aves na América do Norte, onde há grandes flutuações de temperatura e consequentes variações na disponibilidade de recursos.

No Brasil, o conhecimento sobre eventuais colisões de aves em linhas de transmissão limita-se ainda a espe-culações não publicadas em estudos de impacto ambiental. Nesse sentido, as diferenças na estrutura das comu-nidades de aves brasileiras cer tamente terão influência na magnitude dos impactos sofri dos pelas aves no Brasil,

o mesmo sendo esperado para outras partes da América d o Sul. Como exemplo mais claro disso, os movimentos migratórios continentais de grandes bandos de aves são, em geral, menos comuns no Brasil. Da mesma forma, as espécies migratórias continentais brasileiras são, em boa parte, de pequeno porte.

Em relação aos impactos de linhas de transmissão sobre as aves brasileiras, existem hoje, portanto, mais dúvidas que respostas. Qual a incidência de colisão de Passeriformes com linhas de transmissão que cruzam os Cerrados, Caatingas e outros biomas com ambientes florestais brasileiros? Aves de sub-bosque se chocam com linhas de transmissão em áreas florestadas? Há aves g randes o suficiente para serem eletrocutadas em linhas de alta tensão? Os pântanos brasileiros (e.g . Pantanal) apresentam índices de mortandade semelhantes aos apre-sentados pelos pântanos da América do Norte, onde grandes acidentes já foram registrados? Quais espécies brasileiras mais frequentemente se chocam com linhas de transmissão e suas torres? Em que período do dia isso acontece? Todas essas questões são apenas insatisfatoriamente respondidas e justificam estudos cuidadosos com tais tipos de empreendimentos no nosso território.

Enquanto não temos respostas objetivas e conclusivas para essas questões, dados bibliográficos tornam-se ferramentas importantes, mesmo que colhidos em outros países e continentes, como referenciais teóricos razo-áveis para planejarmos a melhor inserção ambiental possível para os nossos empreendimentos.

Desta forma, a incorporação das informações disponíveis fora do Brasil nos processos de licenciamento nacionais são de grande importância. Um exemplo claro disso é a grande preocupação de órgãos ambientais brasileiros com linhas de transmissão de alta tensão e a pouca atenção dada às linhas de distribuição (baixa e média tensão), de natureza mais local. Em muitos aspectos, está claramente demonstrado pela literatura que essas pequenas linhas de distribuição podem ter efeitos catastróficos para rapinantes (gaviões e águias), que morrem eletrocutados, ao passo que a morte por eletrocussão em uma linha de transmissão de 500 kV é muito improvável, para não dizer impossível, pela d istância existente entre os condutores de fase.

Em alguns países, a perda de filhotes de espécies predadoras de topo de cadeia, por eletrocussão, em torres de linhas de baixa e média tensão chega a mais de 60%. Diante do conhecimento hoje existente sobre essas linhas de baixa tensão e do conhecimento disponível sobre os modelos de postes (torres) menos perigosos para as aves, muito se poderia progredir com um esforço mínimo na adequação desses empreendimentos aos diferentes ambientes (vide Ollendorff et al., 1981).

Da mesma forma, a adequada difusão do conhecimento sobre quais fatores atuam de fato sobre o risco de colisão de aves sobre linhas de transmissão de alta tensão poderia favorecer o melhor planejamento de empre-endimentos desde a fase da def inição de seu traçado até eventuais decisões sobre hierarquização de áreas para a instalação de sinalizadores para aves. A instalação inteligente desses dispositivos, sem dúvida, gerará no futuro uma otimização do uso do recurso disponível.

Este estudo inseriu-se ne sse contexto, tentando, por um lado, fazer uma análise crítica d a literatura existente e, por outro lado, investigar as relações entre as aves e duas linhas de transmissão da Taesa.

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23 22 Rabo-branco-rubro, Phaethornis ruber 

CAPÍTULO 1

HISTÓRICO

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HISTÓRICO

1.1 COLISÕES

Uma ampla gama de estudos realizados por todo o mundo enfoca os reflexos nas populações de aves sobre as colisões sofridas contra linhas de transmissão. Nossa intenção aqui é, além de ilustrar alguns desses estudos, chamar a atenção para o que há de real em relação ao assunto e apresentar um “estado da arte” do tema.

Há uma imensa quantidade de apresentações, textos, relatórios e opiniões disponíveis sobre o assunto na in-ternet e em órgãos ambientais. Aqui, entretanto, optamos por focar em estudos que foram publicados em revistas científicas ou livros, com o intuito de apresentar apenas informações que sejam, mais seguramente, correspon-dentes à realidade. Nesse sentido, apresentamos uma seleção de estudos que cobriram vários aspectos relacio-nados ao tema. A partir deles, o leitor mais interessado poderá se aprofundar no assunto e buscar novas referên-cias e abordagens.

Particularmente, as mortes causadas por colisões de aves sobre linhas de alta tensão têm sido relatadas des-de muito tempo (Cornwell & Hochbaum, 1971; Riegel & Winkel, 1971; Scott et al., 1972; Fiedler & Wissner, 1980; Heijnis, 1980; McNeil et al., 1985; Faanes, 1987), sendo a maioria dos acidentes (mais de 80%, vide Savereno et al., 1996) diretamente associada à colocação dos cabos para-raios, bastante finos e difíceis de serem vistos pelas aves (Krapu, 1974; Meyer, 1978; James & Haak, 1979; Be-aulaurier, 1981).

McNeil et al. (1985) demonstraram que boa parte das mortes por colisão acontece nas horas mais escuras do dia (ao escurecer e antes d o nascer do sol), em um e studo conduzido na Venezuela, em uma linha de transmissão da ilha Margarita, que passa por grandes corpos d’água.

Ao todo, Erickson et al. (2005) estimam que, só nos Estados Unidos, mais de 100 milhões de aves morrem anualmente por impacto com linhas de transmissão. Os números apresentados por Manville (2005) são ainda mais preocupantes por estimarem o número de indiví-duos mortos por colisão em cabos em até 175 milhões por ano. Rubolini et al. (2005), por sua vez, fazendo um inventário mais geral dos acidentes e nvolvendo linhas de transmissão e aves na Itália, apontam as aves aquáticas como altamente propensas a colisões. Segundo eles, os impactos são maiores quando os empreendimentos são construídos próximo ao ambiente natural, onde se con-centram essas espécies de aves, e indicam que gaviões e corujas são apenas minimamente afetados por colisões, sendo, entretanto, fortemente propensos a eletrocussões em linhas de média tensão (1 a 40 kV).

Desde essa constatação, várias medidas vêm sendo propostas em diferentes países, incluindo o melhor pla-nejamento das rotas das linhas de transmissão, a remo-ção de cabos para-raios ou a sua sinali zaremo-ção, tornando-os mais visíveis às aves (há uma revisão sobre o assunto dis-ponível em Beaulaurier, 1981).

Já Allonso et al. (1994) demonstraram cabalmente a eficiência do uso de espirais de PVC pintadas em evitar acidentes por colisão. Esses autores compararam crite-riosamente colisões e comportamentos evasivos de aves que cruzavam uma linha de transmissão de 380 kV em trechos sinalizados e não sinalizados. Seus resultados apontaram para a redução em mais de 60% no número de colisões após a instalação dos sinalizadores, quando comparados a trechos não sinalizados da mesma linha. Esses resultados são fortemente sugestivos sobre a efici-ência dessas medidas. Ao mesmo tempo, eles relataram

Essa rara fotografia mostra um colhereiro ( Platalea ajaja ) e o cordão de fezes que, caracteristicamente, provoca desligamentos em linhas de transmissão. Essa foto foi tirada por Peterson A. Bachin em Tremembé, Estado de São Paulo, em 19 de janeiro de 2013.

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que, após a sinalização, as aves passaram a optar por não cruzar o espaço entre os cabos, mas sim, ultrapassar a linha de transmissão passando sobre os cabos, a uma dis-tância segura.

Savereno et al. (1996) conduziram um trabalho seme-lhante na Carolina do Sul e chegaram a conclusões quase idênticas aos autores supracitados, confirmando a efici-ência da sinalização. Combinando a observação direta do comportamento das aves em voo e a busca de carcaças de espécimes mortos, esses autores constataram uma redução de 53% nas mortes causadas por impacto após a instalação de sinalizadores em uma linha de transmissão de 115 kV. Janns & Ferrer (1998), comparando as colisões de aves com cabos das redes de distribuição e linhas de alta

ten-são na Espanha (380 kV, 132 kV e 13 kV) demonstraram, por sua vez, que sinalizadores podem não ser eficientes para alguns grupos taxonômicos específicos e que as co-lisões se distribuem homogeneamente em diferentes li-nhas, independentemente de sua potência ou altura.

Também nesse sentido, as informações bibliográficas revelam interessantes pontos quando abordadas de uma forma mais ampla. Mathiasson (1993), ao estudar coli-sões na Suécia, levantou questões e respostas raras em outros artigos até então. Primeiramente, informando que mais de 30% dos cisnes anilhados mortos na Suécia co-lidiram com cabos de alta tensão, o que é, certamente, um número espantoso. Esses números são corroborados pelas informações levantadas por Frost (2008) em rela-ção às mortes de cisnes na Inglaterra. Por outro lado, ele indicou que as mortes não estavam tão relacionadas ao

número de linhas de transmissão, mas sim à má escolha do local onde eram instaladas. Outro dado interessante é o de que boa parte das aves que colidiram contra cabos morreram em decorrência da queda após o impacto e não em função das fraturas geradas no momento da colisão. Outros fatores importantes apontados por esse autor são a influência da experiência individual (idade) do cisne na possibilidade de impacto com fios de alta tensão e a própria potência de decolagem das aves. Ou seja, aves com voos mais explosivos têm maior chance de morrer colidindo com linhas de distribuição.

Janss (2000), na importante revista científica “Biolo-gical Conservation”, chamou a atenção novamente para o fato de que as aves mais susceptíveis a impactos seriam

aquelas com menor poder de sustentação de voo. Segun-do ele, gaviões e águias (família Acciptridae), por exem-plo, por voarem muito bem e planarem bastante, sofre-riam pouco com colisões, mas estasofre-riam muito expostos a eletrocussões. Esse autor chegou a sugerir, inclusive, um modelo matemático para avaliar o risco de impacto e ele-trocussões de aves em linhas de transmissão.

Shaw et al. (2010b), analisando colisões e eletrocus-sões em diversas linhas na Á frica do Sul, demonstraram a importância de se estudar esse tipo de relação e chamam a atenção para o fato de que não s omente aves com pouca habilidade de voo morrem em fenômenos de colisão. Em uma linha similar, Martim & Shaw (2010) procuram no campo visual das aves uma explicação para os impactos, chamando a atenção para a importância da “binoculari-dade” da visão de alguns grupos para o aumento de seu

Após a sinalização, as aves passaram a optar por não cruzar o

espaço entre os cabos, mas sim, ultrapassar a linha de transmissão

passando sobre os cabos, a uma distância segura.

Bagageiro, Phaeomyias murina 

(16)

28AVES E LINHAS DE TRANSMISSÃO Pararu-azul,

Claravis pretiosa 

29

Além disso, esses autores voltam a chamar a atenção para a

relevância da escolha apropriada dos traçados das linhas de

transmissão na diminuição do impacto sobre as aves e para a

relevância conservacionista desse tipo de empreendimento.

risco de colisão com cabos. Além de analisarem grous e cegonhas, esses autores apontam as aves de rapina como tendo campos visuais propensos a aumentarem sua chan-ce de colisão, o que, de chan-certa forma, é contraditório com os dados da literatura, que apontam essas aves mais como vítimas de eletrocussão do que de colisão.

Bevanger & Broseth (2001), estudando o impacto de aves sobre linhas de 300, 66 e 22 kV, concluíram que a re-tirada dos cabos para-raios reduziriam as mortes de aves em mais de 50% em relação às colisões. Esses autores acre-ditam que o desenvolvimento de tecnologias que permi-tam a supressão desses cabos é emergencial, um resultado também alcançado por Raab et al. (2011), que avaliaram o efeito da retirada de cabos para-raios e da sinalização de linhas de transmissão de 380 kV na Áustria e na Hungria. Em experimento conduzido na Inglaterra, Frost (2008)

acompanhou a instalação de sinalizadores em linhas de transmissão com alto índice de morte de cisnes ( Cygnus olor ). Esse autor levantou duas informações realmente re-levantes: a primeira foi a constatação da redução drástica das mortes de cisnes após a sinalização das linhas; a segun-da foi a geração de segun-dados que indicam a distância em que cada indivíduo morto foi encontrado após a colisão com a linha de transmissão, o que pode servir d e referencial para futuros estudos que tenham o objetivo de encontrar car-caças de aves recém-colididas com linhas de transmissão. Eles demonstraram que alguns espécimes caem muito lon-ge das faixas de supressão, o que implica em grande difi-culdade de se encontrar carcaças, particularmente no caso de aves de pequeno porte e com cores menos conspícuas.

Dois anos depois, em “Avian collisions with power li-nes: a global review of causes and mitigation with a South African perspective”, Jenkins et al. (2010) tentaram esta-belecer qual o real conhecimento dos estudos sobre coli-sões de aves em linhas de transmissão. Nesse estudo, uma referência quase obrigatória na área, os autores comparam as tentativas históricas de se mitigar o impacto de linhas de transmissão sobre aves e as diferentes estratégias utili-zadas para sinalizar os cabos para-raios. Comparando os percentuais de sucesso entre as estratégias utilizadas em todo o mundo, esses autores demonstram claramente que: os cabos para-raios representam o maior risco de colisão; e os diferentes métodos de sinalização dos cabos têm p oder de reduzir entre 50 e 76% o número de colisões. Nesse sen-tido, os autores apresentam uma interessante comparação entre a eficiência de diferentes modelos de sinalizadores,

também abordando a sua eficiência conforme o espaça-mento escolhido entre os dispositivos. Além disso, esses autores voltam a chamar a atenção para a relevância da es-colha apropriada dos traçados das linhas de transmissão na diminuição do impacto sobre as aves e para a relevância conservacionista desse tipo de empreendimento.

Jenkins et al. (2010) também alertam para a impor-tância, na hora da escolha dos traçados das linhas de transmissão, de se levar em conta fatores como a topo-grafia (e.g . presença de vales, penhascos, acidentes de relevo), as condições climáticas (propensão à formação de nevoeiros e presença de correntes fortes de ventos) e os ambientes (áreas alagadas). Cada um desses fatores incidirá de maneira dramática sobre os números de

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espé-31 30

cimes mortos por colisão e devem ser considerados tam-bém na hora de priorizar áreas no caso de s e desejar sina-lizar linhas pré-existentes. Dessa escolha dependerão as taxas de acidente com aves, historicamente entre 0,1 e 80 mortes anuais por quilômetro de linha na Á frica do Sul.

Martin (2011) fez uma revisão de possíveis causas de colisão de aves contra obstáculos antropogênicos ligadas à visão e ao comportamento das aves. Apesar de ter uma abordagem superficial do problema, aponta questões que ainda não haviam sido levantadas pela literatura, como a constatação de que as medidas adotadas terão sempre efi-ciência desigual entre os diferentes grupos de aves. Dessa forma, algumas medidas apropriadas para papagaios e araras (Psittacidae), poderiam ser ineficientes para fal-cões (Falconidae), e assim por diante.

Todo esse conhecimento acumulado pode ser utiliza-do de diversas formas, que vai desde um planejamento adequado de traçado até uma perspectiva de predição de colisões ao longo do traçado, conforme as condições topográficas, climáticas e ambientais das áreas cruzadas por linhas de transmissão novas e pré-existentes, além de considerar a comunidade de aves de potencial ocorrência na região de inserção da linha de transmissão. Da mes-ma formes-ma, sabemos hoje que as aves paludícolas, como os Anseriformes, de voo explosivo ou que voam em grandes bandos, como os pombos (Columbiformes), estão entre as principais vítimas de colisão.

1.2 ELETROCUSSÕES

Todo o histórico levantado a partir de referências biblio-gráficas aponta para o fato de não haver problemas sérios associados à eletrocussão de aves em linhas de transmissão de alta potência, pelo simples fato de a distância mínima entre as fases condutoras ser mais de duas vezes maior que a maior envergadura de uma ave brasileira. Como o escopo

deste livro inclui uma abordagem mais geral, cabe, entre-tanto, apresentar um histórico resumido mais representa-tivo do conhecimento hoje existente sobre esses acidentes em redes de distribuição de energia como um todo.

Em uma pequena nota publicada em 1922, em uma das principais revistas de ornitologia (ramo da zoologia que enfoca as aves), um autor chamado Thomas Halli-nan, morador da Flórida, nos Estados Unidos, relatava singelamente a sua experiência pessoal observando os acidentes de eletrocussão de aves, particularmente os urubus-caçadores (Cathartes aura) e uma espécie de pas-sarinho (“Shrike” – Lanio ludovicianus).

Observando essas aves e suas relações com linhas de transmissão de energia de 13 kV, Hallinan relatou a eletro-cussão dos urubus que encostavam as asas em duas fases das linhas ao pousar nos postes. Ao mesmo tempo, relatava que os passarinhos “Shrikes” eram eletrocutados de modo diferente. O autor, já naquela época, narrava que essa es-pécie era eletrocutada quando decidia que a ponta nua do fio de alta tensão era o local ideal para comer suas presas recém-caçadas. Assim que a ave chegava perto dos fios “vi-vos”, a descarga elétrica não só a d estruía como também os fusíveis, causando prejuízos a ambos os lados, meio am-biente e empreendimento. É interessante notar que essas observações fizeram com que o autor ponderasse se algum dia as aves seriam capazes de aprender sobre os perigos das linhas de transmissão. Quase 100 anos depois, veremos que são poucos os dados existentes que nos indiquem pos-síveis caminhos para responder a essa dúvida.

Logo em seguida, em outra das maiores revistas de ornitologia, Michener (1928) relatava o quão conhecidos eram, por parte dos engenheiros, os acidentes com aves eletrocutadas em linhas de transmissão, particularmente por causa do contato que fazem com fios condutores ao pousar ou passar entre os mesmos.

Desde então, muitos estudos demonstraram os efeitos nocivos e os perigos de eletrocussão sobre aves, princi-palmente sobre predadores como gaviões, águias e falcões

Bico-virado-da-caatinga,   Megaxenops parnaguae 

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32 Tico-tico-rei-cinza, Lanio pileatus 

33

(Benson, 1980, 1982; Haas, 1980; Ledger & Annegan, 1981; Olendorff, 1981; Van Daele, 1980). Isso foi particularmente claro no caso de postes distribuidores de energia elétrica, como estudado por Ferrer et al. (1991), que concentrou-se em postes de 16 kV e apresentou, inclusive, os modelos de postes mais perigosos, no que diz respeito a aves de rapina. Nesse sentido, ressalta-se que, como demonstrado por Ledger & Hobbs (1999), gaviões e águias não são comu-mente vítimas de colisão contra linhas de transmissão, mas sim, mortos por eletrocussão. Isso foi fortemente corroborado e exaltado pelos trabalhos de Frost (2008) e Janss (2000). Ainda segundo aqueles autores,

entretan-to, linhas de distribuição de energia com baixa voltagem (11-22 kV) são os maiores problemas, o que também foi reportado na Espanha por Tintó et al. (2002), que estuda-ram linhas de 13, 15 e 66 kV.

Harness & Wilson (2001), por sua vez, detalharam o tipo de estruturas em linhas de distribuição que se re-lacionam com a morte de grandes predadores. Apontam que mais de 50% das aves de rapina mortas por eletro-cussão são jovens inexperientes e que os equipamentos mais perigosos são os postes ou torres que apresentam transformadores do tipo trifásico.

Sergio et al. (2004) levantaram dados estarrecedores so-bre a eletrocussão de corujas ( Bubo bubo) nas redes de dis-tribuição de energia na Europa (Alemanha, Noruega e Itá-lia). Após alertarem para o fato de que boa parte dos jovens (às vezes mais de 50%) dessa espécie de coruja morrem eletrocutados dada a grande envergadura de suas asas,

es-ses autores demonstraram que as densidades populacionais têm relação inversa à presença de postes elétricos (15 a 30 kV), mais uma vez apontando para o problema das linhas de transmissão de baixa tensão na conservação das aves.

Nesse sentido, todos os estudos deixam claro que a maior parte dos acidentes por eletrocussão ocorrem em linhas com voltagem entre 4 e 34.5 kV (vide APLIC & US-FWS, 2005) e que toda a preocupação em relação a linhas de transmissão de alta voltagem deve se concentrar no risco de colisão. Por outro lado, fica claro também que, em países nos quais o conhecimento sobre as relações en-tre aves e linhas de transmissão é ainda escasso e pouco

incorporado aos processos construtivos, como no Brasil, a falta de controle e licenciamento ambiental de linhas distribuidoras de energia (4 a 110 kV) pode representar uma verdadeira catástrofe ambiental. Isso poderia ser facilmente evitado com o ajuste estrutural dos postes/ torres para modelos menos perigosos (já apontados pela literatura, por exemplo, em Ferrer et al., 1991 ou Neves & Infante, 2008) ou modificações/adaptações simples em postes, como demonstrado por Kalunga et al., (2011) para postes de 110 kV na Polônia, e corroborado também por Rubolini et al., (2005), que apontaram as linhas de média tensão (1 a 40 kV) como as maiores responsáveis por eletrocussão de aves na Itália, não apontando qual-quer caso ligado a linhas de alta tensão.

Gerdzhikov & Demerdzhiev (2009), estudando os im-pactos relacionados a linhas de distribuição (40kV) na Bulgária, mostraram que essas linhas de baixa tensão,

Nesse sentido, todos os estudos deixam claro que a maior parte

dos acidentes por eletrocussão ocorrem em linhas com voltagem

entre 4 e 34.5 kV e que toda a preocupação em relação a linhas de

transmissão de alta voltagem deve se concentrar no risco de colisão.

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34

além de altamente perigosas por eletrocutarem muitas aves, também oferecem perigo de colisão, principalmente para Passeriformes, talvez em função de sua baixa altura. Outras constatações importantes desses estudos é o fato de acidentes de eletrocussão e colisão terem sido muito comuns em áreas cultivadas, possivelmente em função da formação de bandos de passeriformes oportunistas e pelo fato de os postes serem, em áreas abertas, poleiros mais atraentes. Ao mesmo tempo, os autores não encontraram aves mortas em florestas, o que é muito discutível, uma vez que é notavelmente mais difícil encontrar animais mortos em florestas do que em áreas abertas.

Lasch et al. (2010), com base no acompanhamento de linhas de transmissão no Cazaquistão, demonstraram mais uma vez a problemática das linhas de baixa e méd ia tensão, relatando centenas de mortes de aves, sendo cerca de 50% de aves de rapina. Como as mortes de rapineiros se concentraram no verão, eles as associaram à presença de jovens, deduzindo, portanto, que boa parte das carca-ças seria de espécimes ainda inexperientes.

Dessa forma, o histórico apresentado demonstra, de forma consistente, que a estreita relação entre aves e li-nhas de baixa tensão é problemática, uma vez que pode afetar drasticamente populações de aves de grande porte, frequentemente predadoras de topo de cadeia. Voltare-mos a esse assunto na terceira parte deste livro, na qual discutiremos a possível aplicação dessas noções às roti-nas do processo de licenciamento ambiental de empreen-dimentos de pequeno porte.

1.3 EFEITOS INDIRETOS:

A FRAGMENTAÇÃO DE

REMANESCENTES VEGETAIS

Além dos impactos diretos sobre as aves, por meio de co-lisão e eletrocussão, alguns impactos indiretos vêm sendo

apontados por pesquisadores que abordam o assunto. A própria fragmentação ambiental provocada pelo corte se-letivo da vegetação ou do corte raso para a instituição de uma pequena faixa de serviço pode gerar impactos sobre as comunidades nativas de aves. Evidentemente, esse im-pacto, quando existente, será bastante relacionado ao cui-dado na hora de efetuar a supressão vegetal, o que, por sua vez, apresenta forte variação ao longo da história recen-te, de região para região e de empresa para empresa. Há poucos anos, faixas de supressão de vegetação de até 60m eram feitas com o corte raso o que, seguramente, impac-tava muito mais a fauna do que os métodos modernos de supressão de vegetação. A posição de estradas de acesso para as torres, frequentemente situadas abaixo das linhas também gera impactos e seu planejamento pode se refletir positivamente sobre as comunidades de aves.

A comunidade de aves sofre diversos outros tipos de impacto indiretos com a construção e implantação das linhas de transmissão, como: a perda de habitat; os dis-túrbios associados à constante penetração de fogo na faixa de servidão recém-aberta e à invasão de espécies exóticas nas áreas alteradas ou degradadas pela faixa de serviço; a abertura de acesso a áreas mais inatingíveis, aumentando a facilidade de acesso para caçadores; e o próprio efeito de borda ocasionado quando as linhas de transmissão cortam remanescentes florestais. Tintó et al. (2002) demonstraram, inclusive, que corpos de aves em chamas após eventos de eletrocussão foram causadores de diversos incêndios na vegetação associados a linhas de transmissão na Espanha.

O efeito de borda, muito estudado no contexto da fragmentação florestal, por sua vez, nada mais é que a mudança das condições físicas normalmente encontra-das no interior da floresta, tornando-as mais s ecas, quen-tes e vulneráveis ao vento, à medida que se aproximam das bordas do fragmento (Tanizaki & Moulton, 2000). A supressão vegetal sempre gerará algum efeito que po-derá, como já visto, ser maior ou menor conforme uma

35 U M E S T U D O D E C A S OArapaçu,

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36A V E S E L I N H A S D E T R A N S M I S S Ã O Surucuá-variado,

Trogon surrucura 

série de fatores, como grau de isolamento e tamanho e forma dos fragmentos. Essa mudança provoca alterações na comunidade de aves, como a predominância de algu-mas espécies menos sensíveis à degradação ambiental em detrimento de outras mais sensíveis (geralmente aves florestais de bosque e sub-bosque), diminuindo assim a diversidade e a riqueza de espécies da área. Outro efeito negativo frequentemente encontrado na literatura é o au-mento na predação de ninhos, promotor da diminuição ou mesmo do desaparecimento de certas espécies.

Geralmente, quanto mais florestal e original for o am-biente, mais impactado pela linha de transmissão espera--se que ele seja. O já mencionado dimensionamento da faixa de supressão vegetal também gerará efeitos sobre o grau de impacto provocado pela passagem da linha de transmissão. As empresas, por exemplo, ao utilizarem o corte seletivo para a manutenção das faixas de servidão, como é o caso da Taesa, provocarão, naturalmente, muito menos danos que aquelas que fizerem uso do corte raso da vegetação. Assim, as estratégias cons-trutivas podem ser também decisivas.

Kroodsma (1982), em estudo raro, enfocou o efeito de borda causado por uma linha de transmissão 500 kV nas comunidades de aves no East Tennessee, Estados Unidos. O autor encontrou mudanças claras nas abun-dâncias e tamanhos de territórios de espécies de aves especializadas em borda de mata e em interior de mata, que se estenderam a até cerca de 120m para o interior do remanescente impactado. Essencialmente, o efeito encontrado refletiu o esperado, ou seja, houve invasão de espécies de borda de mata nas áreas imediatamente próximas à linha de transmissão e redução das popula-ções de interior de mata. Essas espécies de aves oportu-nistas não penetraram muito no remanescente florestal, que voltou às suas concentrações normais a partir dos

primeiros 100m de mata para o interior do fragmento. Outro ponto interessante foi o desaparecimento de aves de interior de mata nas bordas ter sido estatisticamen-te “compensado” pela entrada de espécies de borda. Isso mostra, claramente, que estrapolações gerais devem ser substituídas por análises pontuais, uma vez que espécies florestais mais exigentes agregam, em última instância, um maior valor conservacionista. A questão da eventual repelência causada pelos ruídos e campo eletromagné-tico ligado diretamente à passagem da linha de trans-missão também foi abordada por Kroodsma (1982), que apontou o aumento de algumas populações de espécies de borda como argumento na minimização da ênfase nesse tipo de impacto indireto.

Niemi & Hanowski (1984) também analisaram a inter-ferência indireta de uma linha de 500 kV sobre populações de aves, testando a repulsão de aves em relação às linhas de transmissão, às eventuais diferenças em suas abundâncias individuais e aos efeitos nas comunidades de aves em dife-rentes ambientes cruzados. Seus estudos foram, no entan-to, inconclusivos, dada a aparente pequena influência dos efeitos da linha de transmissão sobre as aves e também so-bre o fato de que eventuais efeitos tenham sido eclipsados pela variação natural entre os ambientes estudados e suas áreas-controle. Porém, esses autores constataram a clara influência gerada pela proliferação da vegetação arbustiva na faixa de serviço da linha de transmissão.

Outro tipo de efeito indireto de linhas de transmissão sobre comunidades faunísticas é a forte mudança na dis-ponibilidade de poleiros para aves de rapina que caçam partindo diretamente de seus pontos de pouso. Stahle-cker (1978) relatou um aumento significativo nas popu-lações de águias, gaviões e falcões nos Estados Unidos (Colorado) após a passagem de uma li nha de transmissão de 230 kV. Obviamente, o aumento das populações de predadores de topo de cadeia tem grande repercussão so-bre pequenos mamíferos, aves e répteis das regiões trans-passadas por empreendimentos, uma vez que interfere

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39 38

no suposto equilíbrio predador-presa alcançado por tais populações ao longo da evolução de ambientes, embora esse efeito “colateral” não tenha ainda sido testado satis-fatoriamente para nenhum empreendimento.

Fernie & Reynolds (2005) focaram seu estudo na explo-ração da influência dos efeitos dos campos eletromagné-ticos de linhas de transmissão sobre aves com resultados inconclusivos. Relatam que não foi possível correlacionar positivamente o eletromagnetismo com qualquer alte-ração sobre a comunidade de aves e que somente mais estudos poderão apresentar cenário mais confiável para essa questão. O fato de muitas aves utilizarem áreas des-matadas embaixo das linhas de transmissão, assim como as estruturas das torres em suas nidificações, também é tido por muitos autores como uma evidência contrária à relevância desse efeito.

1.4 IMPACTOS NEGATIVOS DE AVES

SOBRE EMPREENDIMENTOS

Em contrapartida, as aves são também consideradas causa-doras de problemas técnicos em linhas de transmissão, par-ticularmente em áreas onde as populações de aves são gran-des. Esses problemas são, em geral, diretamente associados com as suas fezes, causadoras de diversos tipos de falhas na operação de linhas de transmissão (McCann, 2005).

Michener, em seu artigo “Onde engenheiros e ornitó-logos se encontram: problemas em linhas de transmiss ão causados por aves”, de 1928, enfocou os efeitos negativos

sobre os empreendimentos e os prejuízos operacionais causados por aves.

Durante anos, além das falhas na operação já conhe-cidas, um tipo ligeiramente diferente de problema em linhas de transmissão foi, definitivamente, considerado ser ocasionado por aves. Em seu relato, Michener dis-corre sobre um tipo de problema, o “ flashov er   isolador”, que vinha ocorrendo nas linhas de Big Creek da Southern Company California Edison, entre Big Creek, a cerca de 70 milhas a nordeste de Fresno, e Los Angeles. Essas li-nhas operavam a 150 kV quando foram construídas em 1913, tendo a tensão elevada para 220 kV em 1923. Por alguma razão desconhecida, durante muito tempo, um arco voltaico era estabelecido através de um isolador. O arco persistia até que a tensão fosse suficientemente re-duzida e causasse uma ruptura, o que, frequentemente,

interrompia a transmissão de energia. Muitas teorias sur-giram para explicar a causa destes flashov ers.

Uma das primeiras hipóteses levantadas foi a de que a acumulação de excrementos nos isoladores de alguma forma provocaria tal efeito, mas ela foi considerada in-satisfatória por não explicar plenamente a flutuação de energia. Os engenheiros então apelavam para algo que apelidaram de “surtos de tensão”. De acordo com essa nova hipótese, os impulsos de alta tensão seriam produ-zidos, de alguma forma, por ligação de linhas ou talvez por relâmpagos. Essas tensões seriam suficientemente elevadas para provocar um arco através de uma cadeia de isoladores em condição normal. Mas a ocorrência de

Não foi possível correlacionar positivamente o eletromagnetismo

com qualquer alteração sobre a comunidade de aves e que

somente mais estudos poderão apresentar cenário mais confiável

para essa questão.

Rabo-branco-rubro, Phaethornis ruber 

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41 40

 flashov ers não coincidia com a mudança da tensão da li-nha ou com as tempestades locais.

Muitos instrumentos foram então desenvolvidos e medições desses picos de tensão foram feitas. Nada foi encontrado de magnitude suficiente para causar uma descarga isolante. Outra teoria era a de “rios de íons” que poderiam ser retratados como correntes de ar fortemen-te carregadas de íons. Quando um desses “rios” envol-via uma sequência de isolantes, os íons causavam uma corrente elétrica em torno dos isoladores e um  flashov er  seria o resultado.

Outra tese então levantada como tentativa de explicar as flutuações de corrente e os  flashov ers que provocavam prejuízos às linhas foi a de que teias de aranhas poderiam ser responsáveis pelos problemas. Como muitas torres apresentavam grandes quantidades de teias de aranha passou-se a imaginar que, em determinadas condições de umidade, elas poderiam acabar servindo de condutores e provocariam os referidos danos às linhas de transmiss ão. Essa hipótese, no entanto, demonstrou sua inviabilidade após alguns testes realizados.

A questão foi ficando cada vez mais séria, porque o tempo necessário para voltar às condições normais de funcionamento após um  flashov er  tornou-se maior à me-dida que o tamanho do sistema aumentava. Além disso, o aumento da tensão de funcionamento e da adição simul-tânea do escudo de anéis de 28 polegadas de diâmetro na extremidade do condutor de todas as cadeias d e isola-dores pareceu provocar um avanço marcado no número de  flashov ers. A situação ficava gradativamente pior e a necessidade de se entender o problema aumentava. Um ou dois anos antes da potência da linha chegar a 220 kV, um dos homens responsáveis pelas linhas viu uma ave grande, talvez uma águia, enquanto saía da torre, soltar um fluxo de excrementos pegajoso que se estendia desde o membro da torre acima do isolante até um ponto tão

baixo ou mais baixo que o condutor. O observador teve receio da ocorrência de um  flashov er , mas o fluxo caiu longe da torre sem entrar em contato com o condutor (Michener, 1928).

A partir dessa observação, passou-se a procurar e en-contrar, em quase todas as torres onde  flashov ers ocor-riam, a evidência direta de que a substância pegajosa, ou seja, os excrementos semi-líquidos de aves, eram os cau-sadores do problema. Por vezes, uma faixa branca de 1 a 3cm de largura no comprimento total da cadeia de isolan-te era encontrada. Às vezes, apenas uma mancha branca na torre e outra no anel de blindagem podiam ser obser-vadas. De um modo geral, constatou-se que, se as aves estavam empoleiradas a alguma distância a barlavento do isolador, o vento poderia soprar a extremidade inferior da sequência de excrementos contra o anel de escudo, ou perto o suficiente (por volta de 13cm) para estabelecer o arco ao longo da sequência de excrementos. O vento poderia, aparentemente, soprar o arco para o lado oposto da cadeia de isoladores, a extremidade superior do arco vagando ao longo da parte inferior da parte superior da torre e a extremidade inferior do arco viajando em torno do anel de blindagem. Muitas vezes, a evidência de todo esse processo foi encontrada, com manchas brancas nas torres e sobre o anel de blindagem, quase sempre coinci-dindo com uma queimadura no metal.

Michener (1928) relata que, resolvida a questão, pas-sou-se a elaborar estratégias que impedissem grandes ga-viões e águias de pousarem nas torres. Mas antes disso, houve resistência a acreditar que aves poderiam causar tal impacto sobre linhas. Um dos motivos disso era o fato de que aves não eram encontradas mortas em locais onde tivessem ocorrido flashov ers. Acreditava-se que uma ave não poderia causar um arco e fugir viva. Michener rela-ta ainda que, depois de aceirela-ta a hipótese, algumas aves machucadas foram encontradas. Em uma das torres onde

40

ocorrera um flashov er , por exemplo, foi encontrada uma garça andando no chão e em outra, um pequeno gavião, com cauda e penas traseiras totalmente queimadas.

Uma vez que o maior número de problemas ocorreu ao longo dos isoladores do centro, a primeira tentativa de manter as aves afastadas consistiu na colocação de um “V” invertido de aço acima dos isoladores, além d e outras estruturas semelhantes em locais que, aparentemente, eram favoritos das aves para pouso. Tal medida começou a ser adotada em junho de 1923, mas os  flashov ers, em vez de diminuírem em número, surpreendentemente, au-mentaram sensivelmente.

As indicações eram de que as aves, tendo sido for-çadas a sair dos seus lugares habituais, passaram a se empoleirar no anel superior do escudo dos isoladores, causando, assim, mais problemas do que antes. Como um novo teste, 60km de linha foram equipados com pla-cas de ferro galvanizado na cruzeta, acima dos isolado-res centrais. Eram chapas de cerca de 4m x 8m, com os centros acima dos isoladores. Na época, houve a percep-ção de que, quando essas placas de metal eram colocadas muito distantes dos isoladores, os gaviões entravam de-baixo delas e provocavam igualmente  flasho vers . Outra questão interessante é que a companhia instalou tais pla-cas somente sobre os isoladores centrais, protegendo os externos com dentes de metal instalados sobre os dispo-sitivos. Esses, supostamente, teriam também o objetivo de evitar o pouso de gaviões, mas eles não foram efetivos na redução de acidentes.

Desde então, uma série de pesquisas vêm demonstran-do serem esses acidentes extremamente comuns e onero-sos para as empresas que administram linhas de trans-missão. Quase 70 anos depois, Burnham (1995) detalhou os mecanismos pelos quais tais interrupções ocorrem em função dos jatos de fezes de aves em isoladores de linhas de transmissão de 500 e 220 kV, enquanto Frazier &

Bo-nham (1996) revisaram os acidentes e falhas provocados por esses e outros fatores ligados aos demais vertebrados. Bekker & Hoch (2002) atribuem boa parte das falhas em uma linha de transmissão na África do Sul aos jatos de fezes de aves, enquanto Harness & Carlton (2001) des-tacam a tomada de medidas preventivas para evitar cus-tos com interrupções de energia em linhas de transmis-são. Ao mesmo tempo, Van Rooyen et al. (2002 e 2003) estudaram o papel das aves e reportaram os resultados de um projeto que tentou, de forma bem-sucedid a, redu-zir os problemas de interrupções em linhas da E skom, na África do Sul.

Smallie & Rooyen (2005) conduziram um estudo em uma linha de transmissão de 400 kV, na qual as águias de grande porte eram as principais causadoras de inter-rupções de energias decorrentes de  flashov ers. As torres em forma de “VVV” foram as mais afetadas. Métodos mitigadores foram testados por esses autores, enquanto no Novo México, estudando a linha de transmissão de 345 kV, que vai de Bernalillo a Blackwater, Acklen et al. (2004) constataram que o maior motivo de problemas no circuito de energia eram os famosos bird streamers, que poderiam ser traduzidos como “cordões fecais”, particu-larmente de gaviões e de garças.

Um amplo conhecimento dessas questões pode exer-cer grande repercussão financeira sobre empreendimen-tos, afinal algumas decisões acertadas podem resultar em grande economia. Esses problemas, os famosos  flasho -vers, são responsáveis por falhas até hoje, e por falta de conhecimento no assunto, cada companhia, individual-mente, é obrigada a investigar suas interrupções d e ener-gia a fundo até descobrirem a participação das aves em todo o processo.

Nos resultados de nosso estudo de caso voltaremos a enfocar este tema, especificamente no que diz respeito a seus reflexos sobre as li nhas de transmissão da Taesa.

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43 42

Choca-barrada-da-caatinga, Thamnophilus capistratus 

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CAPÍTULO 2

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47 46

IRAMAIA / BA

Mapa com a localização da área de amostragem no município de Iramaia, Bahia, sob as coordenadas 13°24’49.15”S e 41°9’36.79”O.

ESTUDO DE CASO

O projeto “Análise da Relação entre Aves e Linhas de Transmissão 500 kV no Brasil e Des envolvimento de Técnicas para a Predição de Impactos”

2.1 OBJETIVOS DO PROJETO

O objetivo deste estudo foi a realização de uma análise ampla das relações entre aves e linhas de transmissão no Brasil. Para isso, partiu-se d e um estudo de caso, ou seja, o estudo da relação entre aves e duas linhas de transmis-são da Taesa (veja descrição a seguir) para depois atingir perspectivas mais gerais.

Como subproduto deste projeto, além do levantamen-to de informações preciosas relacionadas diretamente ao assunto “Aves e li nhas de t ransmissão”, houve a ampliação de um centro de pesquisa pela entrada de recursos para material e a formação de especialistas no nível de inicia-ção científica, mestrado e doutorado.

2.2 ABORDAGEM CONCEITUAL

E METODOLOGIA

2.2.1 A escolha dos pontos amostrais O primeiro passo prático deste estudo foi uma pros-pecção realizada a partir da necessidade da definição de pontos amostrais que atendessem aos pré-requisitos de interesse à pesquisa em questão. A grande extensão das concessões Interligação LT 500 kV Norte-Sul II e Interligação LT 500 kV Sudeste-Nordeste, aliada à am-pla diversidade de ambientes e biomas observada ao longo de seus traçados, exigiram a seleção de pontos

notáveis passíveis de serem classificados e hierarquiza-dos. Primeiramente, os pontos notáveis foram escolhi-dos a partir da análise de cartas-imagem provenientes de imagens do processo de licenciamento ambiental das concessões supracitadas, às quais os traçados das linhas foram sobrepostos. Essa análise resultou na se-leção de 93 pontos, sendo 66 na concessão Interligação LT 500 kV Norte-Sul II e 27 na concessão Interligação LT 500 kV Sudeste-Nordeste. Dada a grande quantida-de quantida-de pontos e a quantida-desatualização das imagens analisadas, foram adquiridas imagens recentes Landsat/Geocover (Nasa) das áreas correspondentes, a fim de conferir o estado de conservação dos remanescentes de vegetação pré-selecionados. As cartas-imagem atualizadas possi-bilitaram a hierarquização dos pontos notáveis, tendo sido avaliadas as características dos fragmentos de ve-getação presentes, tais como o provável bioma repre-sentado, o habitat, a área (tamanho), a conectividade com outras áreas naturais e o uso do solo nos arredores (matrizes antrópicas).

Dessa forma, foi possível selecionar os pontos no-táveis que atendessem, hoje, a um maior número de pré-requisitos (e. g . maiores áreas de remanescentes de vegetação, maior conectividade, maior distância em relação aos maiores centros urbanos regionais). Essa análise destacou um total de 36 pontos, sendo 14 na concessão Interligação LT 500 kV Norte-Sul II e 22 na concessão Interligação LT 500 kV Sudeste-Nordeste. A primeira campanha de campo foi planejada e executada em dezembro de 2009, procurando restringir ao máxi-mo os pontos amáxi-mostrais a serem investigados quanto à avifauna. A primeira fase de campo foi uma reunião de apresentação do projeto, realizada na sede da Gerência Regional de Manutenção da Taesa, situada em Brasília. A reunião viabilizou o perfeito entendimento das con-dições que seriam encontradas em campo pela equipe do projeto. As principais informações abordadas foram:

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PRESIDENTE KENNEDY / TO

Mapa com a localização da área de amostragem no município de Presidente Kennedy,

Tocantins, sob as coordenadas 08°31’34.69”S e 48°28’10.64”O. Mapa com a localização da área de amostragem em São Félix do Coribe,Bahia, sob as coordenadas 13°21’59.86”S e 43°56’31.82”O.

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trafegabilidade e facilidade de acesso em cada ponto; nome e contato dos proprietários; percepção do tipo de vegetação predominante pelas equipes de manutenção (cerrado, caatinga, floresta); indicação de várzeas, bre jos exten sos ou áreas com aglo meraç ão de aves; exis -tência de outras áreas preservadas que despertassem a atenção das equipes de manutenção; e contatos dos su-pervisores das linhas de transmissão.

Isso permitiu um refinamento das informações pre-viamente adquiridas a partir do sensoriamento remoto e o início da segunda fase da campanha, que foi constituí-da pela prospecção de campo propriamente dita, na qual os pontos notáveis foram caracterizados in loco. Como será visto mais adiante, essa campanha exploratória pos-sibilitou o detalhamento dos pontos selecionados em la-boratório com a análise das imagens Landsat/Geocover (Nasa). O norteamento na escolha dos pontos amostrais a serem prospectados foi realizado dando-se peso diferen-ciado aos maiores fragmentos de cada um dos três prin-cipais biomas interceptados pelas concessões: Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica.

As características dos fragmentos de vegetação pu-deram ser avaliadas, minuciosamente, analisando-se as fitofisionomias presentes, o estágio sucessional, a presen-ça de clareiras, dentre outros, assim como a presenpresen-ça de alterações antrópicas que não puderam ser notadas pela avaliação das imagens de sensoriamento remoto. A rotina de caracterização dos pontos notáveis incluiu, além do preenchimento da ficha de campo utilizada para a carac-terização da paisagem, a utilização de GPS, marcando-se o ponto de acesso a cada área e um novo ponto de

refe-rência para a amostragem nos locais onde a vegetação se encontrava em melhor estado de conservação.

Além das características muito preliminares da vege-tação (o seu detalhamento foi feito posteriormente, pela equipe de botânica), também foram avaliadas as condi-ções das vias de acesso, a largura e a cobertura vegetal da faixa de servidão, o estado de conservação dos corpos d’água e áreas alagadas próximas, assim como a presença de aves por meio de busca visual, busca auditiva e utili-zação de playback .

Essas análises resultaram na seleção de três pontos amostrais definitivos, que passariam a ser estudados no escopo do P&D a partir daquele momento:

A - Área de amostragem em São Félix do Coribe, Bahia, está localizada nas coordenadas 13°21’59.86”S e 43°56’31.82”O, próxima ao Rio São Francisco, e cortada pelo Trecho LT RDE-BJL (subestação Rio das Éguas a su-bestação Bom Jesus da Lapa). A cobertura vegetal onde o estudo foi executado é essencialmente de caatinga ar-borizada, com altura variando entre 5 e 10m (Figura 1). Próxima à área de estudo são encontrados alguns rema-nescentes de caatinga florestada, que de alguma forma podem influenciar a avifauna da área de amostragem.

B - Área de amostragem no município de Iramaia, Bahia, está localizada nas coordenadas 13°24’49.15”S e 41°9’36.79”O e cortada pelo Trecho LT IBI-SAP (subesta-ção Ibicoara a subesta(subesta-ção de Sapeaçu). A vegeta(subesta-ção pre-dominante é de mata atlântica com influência de cerrado, compondo, estruturalmente, um cerradão. A altura flo-restal varia entre 10 e 20m (Figura 2).

C - Área de amostragem no município de Presiden-te Kennedy, Tocantins, está localizada nas coordenadas 08°31’34.69”S e 48°28’10.64”O e cortada pelo Trecho LT COL-MIR2 (subestação Colinas a subestação Miracema 2). A vegetação predominante é de cerrado com influência amazônica. A altura florestal varia entre 10 a 15m (Figura 3). A descrição fitofisionômica completa dos pontos é apresentada no item Resultados deste capítulo.

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FIGURA 1 (acima) Foto ilustrando a área de amostragem no Município de São Felix do Coribe, Bahia. A vegetação predominantemente de Caatinga arbórea, com altura variando entre 5 e 10 metros.

FIGURA 2 (abaixo) Foto ilustrando a área de amostragem no Município de Iramaia, Bahia. A vegetação predominantemente é o cerradão com influências fortes dos biomas Mata Atlântica e Cerrado, e com altura variando entre 10 e 20 metros.

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Referências