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Vista do A diversidade do conceito de circulação nos estudos em Comunicação

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A diversidade do conceito de circulação nos estudos em

Comunicação

Thales Vilela Lelo Mestrando em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Integrante do Grupo de Pesquisa “Jornalismo, Narrativas e Linguagens” (CNPq). E-mail: [email protected] Rafael Grohmann Doutorando e Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Professor dos cursos de graduação em Comunicação Social do Complexo Educacional FMU-FIAM-FAAM. Integrante do Centro de Pesquisas em Comunicação e Trabalho (CPCT / ECA-USP). E-mail: [email protected].

Resumo

O artigo discute características do conceito de circulação nos estudos em Comunicação através de três abordagens: 1) a semiolinguística de Patrick Charadeau; 2) as perspectivas predominantemente britânicas de escopo institucionalista e construtivista; 3) os trabalhos dos pesquisadores brasileiros Antônio Fausto Neto e José Luiz Braga, fundados de uma vertente sociossemiótica e construtivista, respectivamente. A partir da discussão dos elementos conceituais, são mostrados alcances e limites em cada proposta, de modo a destacar as conexões e os distanciamentos que se apresentam entre elas, bem como os impasses de nível metodológico que se apresentam quando a noção de circulação é posta em um primeiro plano da pesquisa.

Palavras-chave

Circulação; midiatização; interação; comunicação; conceito.

Abstract

This article discusses features of the concept of circulation in Communication studies through three approaches: 1) the semiolinguisticts of Patrick Charadeau, 2) the predominantly british prospects in institucionalist and construtivist scope; 3) the work of Brazilian researchers Antônio Fausto Neto and José Luiz Braga, founded in a sociosemiotics and constructivist sides, respectively. From the discussion of the conceptual elements, the limits and scopes of each proposes will be shown, in order to highlight the connections and contrasts that arise between them, as well as the impasses in methological level that arise when the notion of circulation is putted in a foreground of the research.

Keywords

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Introdução

No cenário contemporâneo dos estudos em Comunicação, noções como a de “circulação” vêm ganhando a tônica nas empreitadas de teorização e em investimentos empíricos recentes, associada em muitos casos a outros conceitos próximos, como o de “mediação” e “midiatização”1. É evidente que estes termos não despontaram de súbito na

história das teorias da Comunicação, mas o fato é que a retomada destas discussões e a proposição de outras de mesmo escopo é marca constante nas publicações atuais. A partir disso, o objetivo deste artigo é compreender como o conceito de circulação é construído em alguns autores e/ou tradições teóricas, de modo a demarcar semelhanças e diferenças, alcances e limites. Não se trata, aqui, de desqualificar uma ou outra abordagem do conceito, mas de entender suas aplicações e implicações de seu uso, no sentido de não naturalizar o uso da palavra como se fosse algo único. Mas em que contexto o conceito de circulação entra em cena?

Sonia Livingstone (2009) chama atenção para um quadro complexo de ressignificações nas pesquisas acadêmica no campo de comunicação e mídia atrelada à expansão das tecnologias de comunicação e informação. Para a autora, a emergência das redes digitais implica outro entendimento do processo comunicacional: se a televisão e o cinema apontavam, a nível puramente quantitativo, uma experiência coletiva de consumo, na era da internet a apropriação dos conteúdos se realiza majoritariamente no âmbito privado. Além desta mutação na prática de recepção, a própria ideia de consumo atrelada comumente aos “usuários da mídia” (lendo jornal, vendo televisão em família, nas sessões de cinema) entra em suspeição: partilhando da inquietação de Denise Cogo e Liliane Brignol, “como denominar um sujeito que, a um só tempo, acessa um portal de notícias, cria uma mensagem em um fórum de discussão, envia um e-mail para um amigo e lê uma mensagem postada em um site de relacionamentos?” (2010, p. 12).

Já para Manuel Castells (2009), com o advento da “auto-comunicação de massa” as pessoas passam a ser ao mesmo tempo leitores, espectadores e internautas, e isso gera uma dificuldade para conceituar os “sujeitos” que outrora eram aglutinados na alcunha de “audiência”. As tentativas são várias: prossumidor, produsuário, receptor-ator, ou simplesmente usuário. Esta miríade de noções alternativas indica, tal qual exploram Sonia Livingstone e Ranjana Das (2009), que as leituras da audiência não podem ser presumidas pelo conhecimento de um texto específico da mídia avaliado de maneira isolada, que estas leituras são plurais e que, sobretudo, as táticas cotidianas de apropriação do texto redesenham os textos midiáticos e as tecnologias.

Antes de tudo, é importante frisar que não estamos aqui advogando que foram as novas mídias as responsáveis pela proposição de um modelo adequado para análise dos processos comunicativos, mas sim que em sua emergência elas catalisaram a convergência das críticas que já estavam sendo tecidas ao modelo hegemônico, como será visto adiante. O conceito de circulação emerge por vezes como uma alternativa a apreensões engessadas do circuito que se estabelece entre a mídia a vida cotidiana, tentando resgatar, em seus diferentes desenhos, a complexidade das práticas comunicativas.

Nas próximas seções, refletiremos sobre três abordagens do conceito de circulação que se tornaram (e vêm se tornado) “moeda corrente” em pesquisas da área de Comunicação: a) a ideia de “discurso circulante” traçada por Patrick Charaudeau da Nova Análise do Discurso Francesa; b) as perspectivas majoritariamente britânicas sobre a circulação; c) as

1 Apesar de reconhecermos as aproximações entre os conceitos, nesse trabalho em particular privilegiaremos um investimento sobre a noção de “circulação” sem explorar com maior profundidade “mediação” ou “midiatização” – que já vêm sendo exaustivamente tratadas em uma ampla safra de obras.

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contribuições nacionais de Antônio Fausto Neto de José Luiz Braga, que buscam operacionalizar a dinâmica da circulação por uma via sociossemiótica e construtivista, respectivamente. Este conjunto de investimentos não será aqui trabalhado com uma pretensão

de esgotamento da discussão, mas sim na tentativa de mostrar as

continuidades/descontinuidades que podem ser percebidas nas diferentes propostas, não desconsiderando a maneira como o conceito de “circulação”, esboçado por cada uma destas vias, favorece desenhos metodológicos peculiares.

Patrick Charaudeau e o “Discurso Circulante”

Patrick Charaudeau (2006), pertencente à chamada “Nova Análise de Discurso Francesa”, parte de uma perspectiva semiolinguística para a compreensão dos “contratos de comunicação” e dos “atos de comunicação”. O autor considera que o ato de comunicação é construído a partir de lugares demarcados: produção, recepção e produto. Sua premissa é a de que as mídias não transmitem o que acontece na realidade social, mas sim impõem o que constroem do espaço público, e isto porque os acontecimentos que ela relata só adquirem significado quando inseridos em sua trama narrativa e em seu discurso estruturado. Charaudeau pensa o funcionamento do ato de comunicação então através dos lugares de construção de sentido da máquina midiática, sendo: 1) produção: as condições socioeconômicas e as condições semiológicas que orientam as práticas de organização sócio profissionais e as práticas de realização de um produto; 2) recepção: o alvo imaginado pela instância midiática (efeitos supostos) e o público como instância de consumo do produto (efeitos produzidos); 3) produto: a organização estrutural semiodiscursiva que permite refletir sobre efeitos possíveis do enunciador sobre o destinatário, de modo que toda análise de produto é pensada como uma análise de “possíveis interpretativos”.

Nesta configuração, caberia então ao pesquisador compreender o “lugar das condições” de cada instância, em níveis diferentes, tomando nota de que em cada uma destas fases é preciso considerar as restrições ocorridas nas situações de comunicação, seja de espaço, tempo, de relações e de palavras. Por este prisma, a ideia de contrato de comunicação, calcado na concepção dialógica bakhtiniana (PIRES, 2010), é um contrato tácito atualizado nos atos de comunicação. Este acordo prévio se encontra “na situação de dever subscrever, antes de qualquer intenção e estratégia particular, a um contrato de reconhecimento das condições de realização da troca linguageira em que estão envolvidos”, (CHARAUDEAU, 2006, p.68).

A partir destas restrições, entra em cena outro conceito central em seu arcabouço teórico: o de dispositivo, que segundo Foucault é

(...) um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode tecer entre estes elementos (2000, p. 244)

Patrick Charaudeau atualiza esta conceituação de dispositivo a partir da mídia. Segundo o autor, “o dispositivo é o que determina variantes de realização no interior de um mesmo contrato de comunicação” (CHARAUDEAU, 2006, p.70). É este conceito que permite pensar a articulação entre os vários elementos comunicativos, de modo que se coloca em

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primeiro plano uma atenção às circunstâncias materiais onde um discurso midiático está circunscrito.

Os conceitos de “dispositivo” e de “contrato de comunicação” ancoram a noção de circulação dada pelo autor. A circulação em sua visada é viabilizada a partir do conceito de “discurso circulante”, que é “uma soma empírica de enunciados com visada definicional sobre o que são os seres, as ações, os acontecimentos, suas características, seus comportamentos e os julgamentos a eles ligados” (CHARAUDEAU, 2006, p. 118). São enunciados e discursos que circulam pelos diferentes dispositivos, mostrando determinados enquadramentos em detrimento de outros e regulando os próprios contratos de comunicação. Charaudeau (2006) atribui como propriedades deste tipo de discursos a capacidade de instituir jogos de poderes e contra poderes entre vozes situadas em locais distintos da ordem social, a possibilidade de regular o cotidiano social por meio de discursos definidores dos comportamentos que os sujeitos devem (ou deveriam) assumir em suas práticas diárias, e a função de dramatização, que é a competência de um discurso que reflete sobre os dilemas da existência concreta em suas especificidades.

Apesar da ideia de “discurso circulante” na proposta semiolinguística de Charaudeau (2006) sugerir um entendimento mais dilatado do processo comunicacional e de seus entrelaçamentos com os discursos midiáticos na constituição da sociedade, seu entendimento segmentado da dinâmica estabelecida entre produção e a recepção de produtos midiáticos nos leva a concluir que para o autor a recepção e a circulação são vistas somente como indícios dos discursos e de quais discursos e enunciados predominam nesta circulação. Se esta perspectiva, por um lado, permite compreender as “convocações dos dispositivos midiáticos” (AIDAR PRADO, 2013), e como estas “convocações” circulam pelas diferentes instâncias sociais, por outro, ao focar toda a análise no aspecto linguageiro, não se chega até os sujeitos2, sendo estes somente vestígios de discursos, alvos de efeitos imaginados que para Charaudeau são impossíveis de serem averiguados em sua experiência concreta de recepção – experiência esta que para o autor ocorreria de maneira por vezes inesperada e ainda contraditória se tomada através do referente da “leitura presumida” de uma narrativa midiática específica.

Circulação no contexto britânico: entre organização institucional

e construção interativa

Se a proposta anterior se limita a entrever os sinais de interação entre os domínios isolados da produção e da recepção (mutilando em grande medida as contribuições trazidas pela ideia de “discurso circulante”), na tradição dos Estudos Culturais Britânicos, desde o clássico ensaio Codificação/Decodificação de Stuart Hall (2003), escrito na década de 1970, já se falava em abarcar a “totalidade” do processo de comunicação: “a produção capitalista é definida nos termos de Marx como um circuito. Esse circuito explica não apenas a produção e o consumo, mas também a reprodução – ou seja, como as condições que mantêm o circuito em movimento são sustentadas” (HALL, 2003, p. 273). Inicialmente, Hall não aplicou seu “modelo”, e deixou para que outros estudiosos o fizessem, como David Morley (1980) a partir do “Nationwide”, noticiário exibido pela BBC. Morley, de certa forma, é pioneiro no contexto britânico das chamadas “etnografias de audiência”, ao compreender as inter-relações entre televisão, espaço doméstico e vida cotidiana, inclusive, atualmente, tentando rastrear o papel das tecnologias móveis neste cenário (MORLEY, 2007)3.

2 Não se trata aqui de questionar se a concepção de sujeito em Charaudeau é de um sujeito assujeitado ou não, mas de observar que sua perspectiva não compreende o processo comunicativo em suas nuances.

3 Posteriormente (e mais significativamente nos anos de 1990), Hall (1997) repensa as bases de seu modelo inicial, elaborando uma noção de “circuito de cultura” que procura atender não só os intercâmbios entre a mídia

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Mas no contexto britânico, como Nick Couldry e Andreas Hepp (2013) frisam, foi a partir dos anos de 1990 que despontaram de forma mais extensa abordagens visando desenvolver uma linguagem adequada para apreender as consequências amplas da inserção da mídia na vida cotidiana. Neste horizonte, uma miríade de trabalhos buscou explicitar inicialmente a maneira como a ideia de circulação estaria restringida em um modelo do processo comunicativo definido a partir de três instâncias seminais (produção, texto, recepção). Dentre os muitos críticos desta maneira de ajuizar o trânsito de sentidos entre mídia e vida cotidiana, Caroline Dover (2007) alvitra que a segmentação do processo comunicativo em fases resvalaria sempre em uma lógica linear, na qual os produtores seriam responsáveis por criar e divulgar um texto (sob um enquadramento econômico e político); a mensagem existiria como uma entidade autônoma para análise e os consumidores/leitores poderiam realizar escolhas limitadas em suas interpretações dos textos assistidos/lidos. Para a autora, esta visada só prejudicaria um entendimento da circulação de sentidos no processo comunicativo que vão além do encontro preciso da mensagem com a audiência.

Nick Couldry (2003), a seu turno, é ainda mais duro nas críticas, salientando incongruências nos três momentos do circuito: contrariando as teorias literárias, problematiza que não necessariamente todos os detalhes de um texto em específico, quando inserido no fluxo comunicativo, podem ser relevantes ou fazer diferença a ponto de serem recortados para um investimento particular de apreciação; em contraposição as correntes da economia política da comunicação, aponta que à atenção as instâncias de produção podem bloquear a percepção dos usos sociais dos produtos midiáticos nas teias sociais concretas; e por fim, a ênfase nas etnografias de audiência não seria tão frutífera se ainda se mantivesse atada as situações específicas de consumo de mídia.

Esta composição de críticas que foi se adensando ao longo das últimas décadas desgastou a maneira como a noção de “circulação” se acomodava nos modelos sob a égide das três instâncias consideradas até então fulcrais no entendimento do processo comunicativo (principalmente aqueles pautados em entender como as produções culturais da mídia se inseriam na esfera social). Um dos grandes expoentes das novas tendências de pesquisa inglesas é Roger Silverstone, cuja produção tem seu age nos anos 1990 e no início dos anos 2000. Em uma entrevista à Veneza Ronsini, (SILVERSTONE, 2005), o autor defende que um estudo adequado da circulação deve retirar os termos “consumo” e “produção” de uma dicotomia, sofisticando as pesquisas, e, ao mesmo tempo, compreendendo a tessitura dos textos. Em suas palavras, a “mídia é, se nada mais, cotidiana, uma presença constante em nossa vida diária, enquanto ligamos e desligamos, indo de um espaço, de uma conexão midiática, para outro” (SILVERSTONE, 2002, p. 20). Portanto, é preciso compreender esta mídia enquanto uma atividade contínua de engajamento e desengajamento, observando a circulação de discursos e significados - significados estes que mudam a todo o instante implicando por parte do pesquisador uma sutileza para vasculhar estas mutações. Silverstone irá afirmar que a penetração da mídia nas atividades diárias se configura por meio da filtragem e da modelagem de suas “representações singulares e múltiplas, fornecendo critérios, referências para a condução da vida diária, para a produção e a manutenção do senso comum” (2002, p.20).

Já nos anos 2000, Elizabeth Bird publica a obra pioneira The audience in everyday

life: living in a media world (2003), sugerindo então que a circulação não seria mais um

elemento a ser verificado nas pesquisas empíricas, mas sim um conceito-guia para apreender como indivíduos e mídia se intersectam no seio das tramas cotidianas. No livro, a autora aponta que o horizonte dos estudos de mídia deve ser o das práticas concretas - espaços nos

e seus receptores, mas particularmente a trilha alargada de fluxos (não-linear) nos quais a cultura adquire destaque em sua potência de produção de identidades, de regulação das práticas e de edificação das representações sociais.

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quais seria possível explorar os momentos “difusos” de penetração das produções midiáticas por uma visada mais holística e compreensiva da cena contemporânea (cena esta em que a experiência particular de cada indivíduo com os media não se descola de outras experiências que este sujeito vivencia em seu dia-a-dia). Neste sentido, a questão de fundo que serviria para nortear os investimentos de pesquisa é: “como a mídia é incorporada nas práticas comunicativas e culturais cotidianas?”.

Já Nick Couldry (2003), buscando operadores analíticos para articular as especificidades deste programa de pesquisa que se inaugura, irá discorrer sobre o fato de que mesmo diante ao aparelho televisor ou de um jornal impresso nem sempre o ator social estará envolvido diretamente com o que se apresenta para ele. Assim sendo, “ser audiência” aos moldes do modelo “E-T-R”, só se desenha como uma atividade prática em situações nos quais assistir ou ler algo é propriamente um elemento central que estimula a atenção total do sujeito em uma ocasião dada. No mais das vezes, os atores estão envolvidos em um emaranhado de práticas sobrepostas nas quais a mídia se articula conjuntamente, ganhando em contextos específicos o credenciamento para ancorar outras práticas por meio das representações que ela oferece.

Para Andreas Hepp (2013), estas reconsiderações a respeito da forma como circulam os sentidos que percorrem ambientes midiáticos e as esferas da cotidianidade edificaram duas correntes de pesquisa interligadas, mas com abordagens diferenciadas, de modo a enfatizar aspectos diversos do processo. De saída, uma primeira via de investigação é a descampada por David Altheide e Robert Snow (1979)em uma obra no qual os autores elaboram a noção de “lógica da mídia” (obra de inspiração para trabalhos posteriores). Em sua perspectiva, a mídia como uma forma de comunicação é responsável por alterar nossa forma de percepção e interpretação da sociedade. Neste sentido, a ubiquidade invasiva da mídia nas práticas diárias é derivada não da disseminação de conteúdos pelas emissoras de televisão, por exemplo, mas sim na proeminência de sua lógica em diferentes esferas sociais que precisam cada vez mais se adequar às suas especificidades para operar com sucesso em uma cultura midiatizada. Altheide e Snow estão aqui falando de uma ampla transformação cultural e social que ocorre através de uma fonte única e de um direcionamento comum, em outras palavras: uma transformação da sociedade pela mídia.

À posteriori das proposições destes autores, John Thompson (2009) e Stig Hjarvard (2012) irão cristalizar esta via de apreensão por um ângulo institucional. Assim, nas palavras de Hjarvard, “a sociedade contemporânea está permeada pela mídia de tal maneira que ela não

pode mais ser considerada como algo separado das instituições culturais e sociais” (2012,

p.54), de modo que “uma parte significativa da influência que a mídia exerce decorre do fato de que ela se tornou uma parte integral do funcionamento de outras instituições, embora também tenha alcançado um grau de autodeterminação e autoridade que obriga essas instituições, em maior ou menor grau, a submeterem-se a sua lógica” (idem).

Hjarvard entende a lógica da mídia como a sua função “organizacional, tecnológica e estética, incluindo as vias nas quais a mídia aloca recursos simbólicos e materiais e trabalha através de regras formais e informais” (2007, p.3). Por este caminho, a circulação de sentidos que opera e é fundada por meio das instituições midiáticas transcorre por duas trilhas: uma primeira que se volta à replicação, ou seja, ao espraiamento das formas da mídia em espaços da vida contemporânea que são reconstruídos pelo formato midiático; e uma segunda pela via da colonização, que, como expõe Sonia Livingstone, implica que a “mídia não se situa só entre todos os participantes da sociedade mas também, crucialmente, anexa uma dimensionável parte do poder mediatizando – subordinando – os antigos representantes do poderio do governo, da educação, da igreja, da família, etc” (2009, p.5). Este procedimento de colonização também indica que quaisquer atores que estejam fora do círculo midiático precisam se conformar a “logica da mídia” se anseiam ser representados nos media ou se esperam resultado satisfatório em suas atividades práticas.

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Dentre os críticos desta visada, Nick Couldry (2013) aponta, por exemplo, que a apreensão das relações entre mídia e vida social catalisadas pela “lógica da mídia” poderia restringir o campo de pesquisa. Isto porque o conceito reduziria a multiplicidade de influências heterogêneas que se estabelecem na circulação de sentidos, homogeneizando-os por um nexo de causalidade linear (eficácia da mídia em moldar as esferas sociais sedimentadas). A generalidade destas empreitadas também deixaria algumas lacunas pouco esclarecidas: como as autoridades tradicionais são anexadas à mídia? “Por qual base acreditamos que o mundo social é passível de ser transformado tão facilmente, ou ao menos tão diretamente, pelos materiais da mídia ou por processos baseados na mídia?” (COULDRY, 2013, p.5).

Ana Carolina Escosteguy ainda salienta que nas pesquisas com este escopo institucional (que ela trata como concernentes a uma “sociologia da prática”),

O poder da mídia é de tal ordem que a maioria das narrativas dos atores sociais tende a ser vista, por um lado, do prisma de seu ponto de partida, distribuição ou mesmo produção – ou seja, a partir das instituições midiáticas - e, por outro, mediante uma ênfase no seu caráter socialmente fundado, isto é, como experiências e atividades muito mais de um coletivo do que como narrativas pessoais que compartilham uma base social. Isto quer dizer que esta abordagem está mais preocupada com mudanças macro-históricas geradas pelas interações dos atores sociais com a mídia (2011, p.205).

O outro corredor de investigação, enfatizado por Andreas Hepp e Nick Couldry (2013), se delineia por um enfoque “construtivista”, no qual, segundo os autores, a circulação de sentidos entre os terrenos em midiatização ascendente e as atividades sociais é averiguada no horizonte dos diferentes processos comunicativos de construção da realidade, avaliando o status que a mídia ocupa nestes setores. Segundo Andreas Hepp e Uwe Hasebrink (2013), esta linha oferece maior abertura do que a envolta sob o conceito de “lógica da mídia”, por enfatizar que a construção comunicativa da cultura e da sociedade não repousa em um único meio, mas em uma variedade de mídias trabalhando conjuntamente de modo indireto e espraiadas difusamente nas ações concretas dos atores sociais.

A pesquisa de Caroline Dover (2007) com jovens de escolas multiétnicas de Londres é um exemplo deste tipo de investimento. Para ela, a mídia deve ser estudada como um recurso para interação e para construção de identidades, de forma que os agentes utilizem seus conhecimentos para apropriarem-se de referências culturais da mídia de uma maneira que possam as empregar futuramente em contexto práticos. O sucesso contínuo na menção a estas referências por parte dos indivíduos pode os atribuir um capital cultural que os distingue dos demais parceiros de interação. Dover associa seu método de investigação a uma etnografia do consumo da mídia, que averigua como discursos da mídia se reproduzem espontaneamente no dia-a-dia. Sua indagação central é: “Quais referências da mídia foram repetidas num período de tempo, quais variações são discerníveis em diferentes situações e há uma coerência narrativa entre elas?” (DOVER, 2007, p.8).

Na mesma direção, Mark Allen Peterson (2005) discorre sobre uma “etnografia da intertextualidade”, que privilegia analisar a maneira como as pessoas utilizam recursos da mídia em suas performances e ações concretas para edificarem suas subjetividades. Também Sonia Livingstone (2009) parece caminhar por esta trilha quando avalia o fenômeno que ela denomina de “infância mediada”. Para a autora, a mídia se infiltrou nas relações que as crianças possuem com seus jogos e brincadeiras, atribuindo novos valores a elas, e mesmo as

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maneiras como estas crianças se expressam em seus perfis virtuais representam novas maneiras de desenvolvimento e maturação da juventude. No caso brasileiro, a pesquisa recente empreendida por Ana Carolina Escosteguy (2012, 2013) com foco nas “narrativas pessoais midiatizadas” de mulheres que experimentam contextos de opressão simbólica (por serem negras, desprovidas de empregos com alto status simbólico, etc), procura identificar, de um lado, “distintos produtos culturais que constituem uma rede de sentidos dominantes e, de outro, no que esses mesmos valores, sentidos e ideias em circulação estão produzindo em especial junto a mulheres de uma determinada classe social” (ESCOSTEGUY et al, 2013, p.156).

Apesar das valorosas contribuições dos autores acima referidos no entendimento de uma circulação de sentidos que não se restringe a um entendimento linear do processo comunicativo e da presença da mídia na organização das práticas sociais e construção social da realidade, parece-nos que na operacionalização deste tipo de pesquisa ainda há uma carência de correspondência dos resultados com as premissas de referência. Como as notas metodológicas de Ana Carolina Escosteguy et al (2012) no estudo de “narrativas pessoais midiatizadas” deixam entrever, na prática de investigação é difícil para o pesquisador definir quais práticas estão apropriadamente relacionadas à mídia organizando as identidades e as relações dos sujeitos, e quais delas não possuem quaisquer diálogo com a proposta de estudo. Outro risco deste tipo de investimento é o de recair em um “descritivismo entusiástico” das práticas dos atores observados. Esta incongruência pode supervalorizar a capacidade de agência dos sujeitos em organizar as práticas sociais inserindo aí recursos midiatizados, desconsiderando relações assimétricas de poder entre os indivíduos imersos em contextos históricos específicos - contextos estes que podem constranger determinadas maneiras de construir identidades nas cenas de interlocução concretas. Por fim, a mera listagem das ações dos sujeitos em um recorte temporal de investigação estipulado pode incorrer em uma indefinição do lugar o qual a mídia ocupa na ordenação das práticas sociais, deixando, por conseguinte, escapar os processos de circulação que colocam em intercâmbio mídia e vida cotidiana em um mundo “saturado pela mídia”.

Duas abordagens da circulação no cenário brasileiro

Dentre os muitos autores nacionais que vêm alargada a compreensão do conceito de circulação buscando no processo a elaboração de um conjunto de operadores metodológicos satisfatórios para as investigações empíricas (a exemplo da pesquisa supracitada de Ana Carolina Escosteguy), duas contribuições se revelam a nosso ver particularmente profícuas: a primeira desenvolvida por Antônio Fausto Neto de um viés sociossemiótico e a segunda proveniente dos estudos de José Luiz Braga, ancorados em uma perspectiva construtivista que prima por um entendimento de como a comunicação, caracterizada por um processo de circulação, estabelece a organização social.

O trabalho de Antônio Fausto Neto é marcadamente influenciado pelas teorizações do argentino Eliseo Verón. Verón traz contribuições para compreender a passagem da “sociedade dos meios” para a “sociedade em vias de midiatização”. Para Fausto Neto (2011), esta passagem para a “sociedade em vias de midiatização” gera enunciações inéditas, transformando os receptores em “coprodutores de atividades discursivas midiáticas” (FAUSTO NETO, 2011, p. 37), e exigindo a elaboração de novos dispositivos analíticos para o entendimento das problemáticas de efeito de sentido.

Os modelos comunicativos tradicionais tinham, em sua visão (FAUSTO NETO, 2010a), uma compreensão nula do conceito de circulação (ou ainda sugerindo que ele seria um elemento “insondável” nas pesquisas). Neste horizonte a noção de circulação era

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condicionada de uma atividade tecno-discursiva desferida pelas instâncias de produção - uma zona automática de passagem de discursos. Posteriormente, a circulação foi entendida como um terceiro elemento, de ordem interdiscursiva, com predomínio da noção de enunciação – o ato de enunciar. Em um terceiro momento, a circulação já poderia ser entendida como “zonas de interdeterminação”, seja enquanto dispositivos seja enquanto espaços geradores de potencialidades. “A soberania das gramáticas – em produção e em reconhecimento – teve suas marcas dissolvidas pela força de co-enunciações que se constituem no contexto (e pelos efeitos) deste novo dispositivo circulatório” (FAUSTO NETO, 2010b, p. 9).

A forma mais apropriada para apreender a circulação se dá, para Antônio Fausto Neto (2010b), por meio lógica das diferenças (e não somente das convergências). Não há contratos de comunicação duradouros, mas “pontos ou zonas de articulação” entre produção e recepção, como jogos complexos de oferta e reconhecimento. A circulação é então um dispositivo constituinte das interfaces. A relação com o conceito de dispositivo, por sua vez, se nuança através das mudanças tecnológicas, alterando a configuração dos meios e as discursividades na “arquitetura comunicacional”. O conceito de circulação, portanto, deve ser tomado como um “dispositivo central, uma vez que a possibilidade e a qualidade das interações sócio-discursivas se organizam cada vez mais em decorrência da natureza do seu trabalho em dar forma à arquitetura dos processos comunicacionais” (FAUSTO NETO, 2010b, p. 12).

Para nomear este cenário, são centrais, para o autor, os conceitos de “zonas de contato” e “zonas de interpenetração”. Ambos estão ancorados na teoria dos sistemas de Niklas Luhmann e em sua compreensão da interpenetração entre sistema e meio. O que Fausto Neto busca é as articulações e os contatos entre estas instâncias. Assim, “um sistema penetra com suas lógicas no meio e esse meio, simultaneamente, insere-se com suas lógicas no sistema fazendo com que ambos se influenciem, mutuamente” (FAUSTO NETO; SGORLA, 2013, p. 3). Neste momento da circulação em que ocorrem as interpenetrações, o receptor é o operador/programador do seu consumo multimediático (VERÓN, 2009). A ambiência da midiatização e as novas condições de circulação levam as empresas de comunicação a redesenhar seus protocolos de interação com os sujeitos-consumidores. “Tais injunções circulatórias não deixam de ser novas formas de situar os receptores junto ao âmbito do próprio sistema de produção tecno-discursiva das mídias” (FAUSTO NETO, 2010b, p. 13).

São efeitos contraditórios da circulação, pois são colocados em xeque velhos “contratos de leitura”: “o receptor não se fecha em torno da ‘lógica da convergência’, mas também não assina cheque em branco solicitado pela fidelização” (FAUSTO NETO, 2010a, p. 65). O leitor não adere à convergência de modo não problemático: há tensões e conflitos neste trabalho interacional, que permanece em aberto às possibilidades de interpenetrações e fundação de zonas inéditas de contato. Produção e recepção, portanto, não desaparecem, “mas atualizam suas condições segundo novas dinâmicas de contatos animadas pela tensão acesso/fixação/dissipação - elementos que vão configurando novas possibilidades interacionais” (FAUSTO NETO; SGORLA , 2013, p.14). Em resumo, o desafio da circulação, para Fausto Neto, é entender estes deslocamentos interacionais e as zonas de contato que emergem, buscando investigar a complexidade da circulação para além da mera afirmação de sua existência, como ocorria nos empreendimentos teóricos tradicionais supracitados (o autor fala de uma visada que perceba a circulação além de suas bordas (FAUSTO NETO, 2010b).

José Luiz Braga, por sua vez, aborda a circulação do ponto de vista de um processo interacional. Para ele, a mídia é um importante objeto de referência dos estudos em Comunicação, mas as pesquisas não podem se bastar ao estudo dela. Se “a sociedade constrói a realidade através e processos interacionais pelos quais os indivíduos e grupos e setores da sociedade se relacionam” (BRAGA, 2007, p. 143), pensar “mídia” e “sociedade” como uma dualidade é incoerente, já que a inserção dos media nos contextos cotidianos concretos

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extravasa as interações pontuais e diretas com produtos midiáticos específicos (tal qual teóricos britânicos já haviam pontuado), de modo que as práticas interacionais envolvem recursos extraídos de processos midiatizados na constituição da trama social.

Neste ângulo de abordagem, para Braga (2006), os subsistemas de “produção” e “recepção” não dão conta da complexidade das interações4, e mesmo dos processos

midiáticos, pois a sociedade interage com a mídia a partir do que o pesquisador denomina de sistema de “interação social sobre a mídia”/“falas sobre a mídia”. Este sistema possui uma circulação difusa e diferida. “Os sentidos midiaticamente produzidos chegam à sociedade e passam a circular nesta, entre pessoas, grupos e instituições, impregnando e parcialmente direcionando a cultura. Se não circulassem, não estariam ‘na cultura’” (BRAGA, 2006, p. 27). Como o autor posteriormente desenvolve (BRAGA, 2012), o produto midiático não está no ponto de partida de um fluxo que corre em direção a um polo de recepção. Ele pode ser sim apreendido como consequência de uma gama de “processos, de expectativas, de interesses e de ações que resultam em sua composição como ‘um objeto para circular’ – e que, por sua vez, realimenta o fluxo da circulação” (BRAGA, 2012, p.41), mas não é o produto em si que circula. Ele adentra em um sistema de circulação o qual preexistia a sua inserção no fluxo, e que o viabiliza e alimenta. Com estas ressalvas, Braga não visa desconsiderar a pertinência de se avaliar o produto enquanto um momento da circulação, isto porque, em sua forma simbólico-material (um texto, uma revista, um vídeo), ele pode transitar e repercutir indefinidamente em outros espaços. O que sua observação leva a ponderar é sobre os limites de uma análise focada exclusivamente em um produto cultural particular, sem que se tome nota das possíveis inferências sobre processos mais gerais nos quais ele se insere (uma “realidade complexa” que deve ser vislumbrada).

As produções midiáticas, para Braga (2012), quando adentram no sistema de circulação, sofrem inevitavelmente a moldagem e as influências dos espaços interacionais pelos quais eles transitam, ganhando colorações e afetando práticas que muitas vezes transcendem aquilo que inicialmente era esperado pelos agentes responsáveis por sua realização enquanto uma série em vídeo, por exemplo. “Os produtos circulantes da ‘mídia de massa’ são retomados em outros ambientes, que ultrapassam a situação de recepção (o espectador diante da tela)” (BRAGA, 2012, p. 39), como um “fluxo adiante”.

Esta circulação que se dá no sistema de “interação sobre a mídia” deve ser diferenciada, na visão de Braga, da circulação de bens, no sentido econômico. O que importa mais é a circulação posterior à recepção dos bens simbólicos, isto é,

[...] uma vez completada a processualidade mais diretamente ‘econômica’ (ou comercial) do processo, do ‘fazer chegar’, os produtos não são simplesmente ‘consumidos’ (no sentido de ‘usados’ e ‘gastos’). Pelo contrário, as proposições ‘circulam’, evidentemente trabalhadas, tensionadas, manipuladas, reinseridas nos contextos mais diversos. O jornal pode virar papel de embrulho e lixo, no dia seguinte, mas as informações e estímulos continuam a circular. O sistema de circulação interacional é essa movimentação social dos sentidos e dos estímulos produzidos inicialmente pela mídia (BRAGA, 2006, p. 28).

4 Para Braga (2012), não é simples diferenciar “pontos inicias” e “pontos de chegada” como algo estanque, o que mostra que a distinção de papeis entre “produtor” e “receptor” não é da “natureza” própria do processo interacional. As diferentes lógicas interacionais por conseguinte definem outros papeis para os participantes.

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Este sistema de “circulação interacional” (outra denominação para “interação sobre a mídia”) também não pode ser confundido com a “circulação midiática”, tomada como a exposição à mídia de determinados assuntos (ou, em certa medida, próximo à concepção de circulação em Charaudeau), pois interessa menos o que a mídia veicula do que o que circula na sociedade após ter sido veiculado pela mídia. “Nesse tipo de circulação que nos interessa é que vamos encontrar o que a sociedade faz com sua mídia: é, portanto, uma resposta” (BRAGA, 2006, p. 29).

A resposta ou interação com os produtos midiáticos gera processos interativos, fazendo o produto circular. A circulação, neste sentido, não pode ser tomada como uma descrição abstrata, pois ela se manifesta na sociedade na geração de circuitos, “que são culturalmente praticados, são reconhecíveis por seus usuários e podem ser descritos e analisados por pesquisadores” (BRAGA, 2012, p. 41). Cada setor da sociedade participa de múltiplos circuitos, sendo que “cada circuito compõe diferentes articulações entre o massivo e o digital, engastando ainda, aí, o presencial e a escrita” (BRAGA, 2012, p. 47). Neste trajeto, a circulação e os seus circuitos que são marcas da midiatização do social atravessam campos sociais já estabelecidos (como ocorre com o campo dos media) os redesenhando.

Em suma, as perspectivas de Fausto Neto e Braga, com algumas semelhanças, avançam na tentativa de refinar o conceito de circulação e compreendê-lo em sua complexidade, com novos dispositivos analíticos, seja pela via das “zonas de interpenetração/contato” ou pelos “sistemas de interação” e seus “circuitos”. Em comparação aos investimentos britânicos, os trabalhos destes dois autores brasileiros parecem se aproximar da esteira construtivista de discussões, contudo a aproximação não pode ser feita sem as devidas ressalvas e problematizações. Em um primeiro nível, a concepção de “circulação” em Fausto Neto, operacionalizada pela ideia de “zona de contato”, apesar de avançar na apreensão empírica da dinâmica de conexão/desconexão entre público e a esfera de produção e as mutações propiciadas pelas novas tecnologias de comunicação e informação, está bastante atada às instituições midiáticas já cristalizadas (em detrimento da inserção difusa da mídia nas práticas sociais encetadas pelos construtivistas ingleses).

Isto fica patente em texto recente do autor (FAUSTO NETO; SGORLA, 2013), no qual ele examina as atualizações da relação entre leitores/produtores no campo do jornal diário ao longo da transformação de uma “sociedade midiática” para uma “sociedade em vias de midiatização”, destacando as formas originais de co-enunciação neste cenário contemporâneo. Em determinado momento, o autor pontua que “a apropriação tecnológica, discursiva e a habilidade em trabalhar com os mecanismos de mídia, tanto por parte dos produtores e quanto receptores tem gerado mais autonomia, mas, ao mesmo tempo, novas relações entre eles” (FAUSTO NETO; SGORLA, 2013, p.14). Esta asserção revela que a ideia de “zonas de contato” permanece sustentada por uma perspectiva segmentada do processo de circulação comunicacional, mantendo uma problemática divisão entre produtos e receptores (ainda que eles se interseccionem na ambiência de um dispositivo). Fora isto, o desentranhamento da mídia de sua penetração mais profunda nas práticas sociais nos leva a uma separação inquietante das práticas de interação dos quadros mais gerais de organização social: uma “sociedade midiática” se transformaria em uma “em vias de midiatização” exclusivamente em função de uma variação tecnológica?

Neste sentido José Luiz Braga parece dar um passo além, pensando na circulação enquanto instância que age juntamente as práticas de comunicação viabilizando a instituição tentativa e criativa de novos dispositivos interacionais que atuam na construção da realidade social. Assim, se a “sociedade se constrói tentando organizar possibilidades de interação” (BRAGA, 2006, p.143), a observação das características da midiatização enquanto um processo interacional de referência pode indicar uma dinâmica de circulação e organização de sentidos na trama social, e mais incisivamente, uma maneira que a sociedade emprega para se

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construir recursivamente (lançando mão de sentidos já assentados/ os remodelando em função dos fluxos e circuitos de comunicação).

Considerações Finais

Este artigo foi um esforço inicial de se compreender a noção de circulação no campo da Comunicação em algumas vertentes teóricas, como um empenho didático de observar alcances e limites teórico-metodológicos. Os olhares elencados ofertam distintos entendimentos sobre a circulação, de modo que nenhuma das perspectivas deve ser “jogada fora” - cada uma pode ser abarcada, com os devidos cuidados epistemológicos e metodológicos, no intuito de compreender a complexidade da circulação.

Entendemos que o campo da Comunicação é conformado por teorias advindas de duas matrizes: uma discursiva e outra social. Não se compreende as relações e produções de sentido dadas por enunciados e interações sem compreender, em alguma medida, o “discurso” ou a “linguagem”, signos estes que são a “obra-prima” da Comunicação. É a linguagem que nos torna humanos, e nos forma como “sujeitos sociais”, como defende Maria Aparecida Baccega (1995). Do mesmo modo que a linguagem se encontra na origem da sociedade humana, não se pode compreender comunicação – que se dá a partir da atividade de homens – sem entender a sociedade onde se vive, seja a partir de uma matriz antropológica, histórica, filosófica ou econômica.

Destarte, se para os estudos britânicos analisados, primordialmente os de escopo construtivista (e também para José Luiz Braga), a força está no rastreamento de como os sujeitos imersos em práticas concretas se enredam aos recursos extraídos de produtos midiáticos na circulação e instituição de sentidos sociais, para Charaudeau e Fausto Neto (resguardadas as devidas diferenças entre os autores), a compreensão se dá mais a partir da constituição e da pesquisa de “sujeitos discursivos” (mesmo quando Fausto Neto pesquisa as “zonas de interpenetração” na ambiência jornalística (FAUSTO NETO; SGORLA, 2013)).

Acreditamos, por fim, que a apreensão das inter-relações entre estas abordagens pode favorecer não só um entendimento mais alargado do conceito de circulação em sua emergência histórica nas pesquisas em Comunicação (e mesmo seus impactos nos modelos comunicacionais vigentes até então, amparados por um entendimento segmentado da interação entre produtores e seus públicos), bem como pode nos permitir refletir com maior cuidado os desafios que se apresentam a nível metodológico em caso de convocação deste conceito para o primeiro plano da pesquisa.

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