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Efeitos de desordem e ruído em modelos de formação de opiniões

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(1)

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

INSTITUTO DE F´

ISICA

ALLAN RODRIGUES VIEIRA

EFEITOS DE DESORDEM E RU´IDO EM MODELOS DE

FORMAC

¸ ˜

AO DE OPINI ˜

OES

Niter´

oi

2017

(2)

ALLAN RODRIGUES VIEIRA

EFEITOS DE DESORDEM E RU´IDO EM MODELOS DE

FORMAC

¸ ˜

AO DE OPINI ˜

OES

Tese

apresentada

ao

programa

de P´

os-gradua¸c˜

ao em F´ısica da

Universidade Federal Fluminense

como requisito parcial para

ob-ten¸c˜

ao do grau de doutor em

F´ısica.

Orientador: Prof. Dr. Nuno Miguel Melo Crokidakis

Peregrino

(3)

V657 Vieira, Allan Rodrigues.

Efeitos de desordem e ruído em modelos de formação de opiniões / Allan Rodrigues Vieira ; orientador: Nuno Miguel Melo Crokidakis Peregrino. –- Niterói, 2017.

87 p. : il.

Tese (Doutorado) – Universidade Federal Fluminense, Instituto de Física, Niterói, 2017.

Bibliografia: p. 82-87.

1.FÍSICA ESTATÍSTICA. 2.SISTEMAS COMPLEXOS. 3.DINÂMICA DE OPINIÃO. 4.TRANSIÇÃO DE FASE. 5.SISTEMAS SOCIAIS.

I.Peregrino, Nuno Miguel Melo Crokidakis, orientador. II.Universidade Federal Fluminense. Instituto de Física, Instituição responsável. III. Título.

(4)
(5)

Resumo

Neste trabalho utilizamos modelos de agentes para estudar a forma¸c˜ao de opini˜ao

em sociedades artificiais na presen¸ca de ru´ıdo e desordem. Estes modelos apresen-tam estados estacion´arios fora do equil´ıbrio, ou seja, n˜ao obedecem `as regras de balan¸co detalhado. Analisamos as transi¸c˜oes de fases fora do equil´ıbrio utilizando o ferramental de f´ısica estat´ıstica para estudar a criticalidade e a universalidade dos sistemas. Chegamos em resultados num´ericos atrav´es de simula¸c˜oes de Monte Carlo e em alguns casos tamb´em foi poss´ıvel obter resultados anal´ıticos.

(6)

Abstract

In this work we use agent-based models in order to study opinion formation in artificial societies, in presence of noise and disorder. These models exhibit nonequi-librium stationary states which means that they do not obey the rules of detailed balance. We analyze nonequilibrium phase transitions with statistical physics tools and study their criticality and universality. We obtain numerical results by Monte Carlo simulations and in some cases we also find out analytical results.

(7)

Agradecimentos

Muito do que sou hoje certamente ´e fruto das diversas intera¸c˜oes que tive com

pessoas e ideias ao longo de minha vida.

N˜ao caberia aqui nem todos os nome nem todos os fatos vividos. Ent˜ao, antes

de mais nada, aproveito para me desculpar com aqueles que n˜ao foram textualmente

lembrados, mas ainda assim tenho um grande carinho. Agrade¸co

• `a minha esposa Luiza e ao meu filho Theo;

• ao meu pai, Pedro Paulo, e `a minha m˜ae, Rute;

• `as minhas irm˜as, todas mais velhas do que eu;

• ao meu avˆo Bernadino, por me parabenizar tantas vezes por estar fazendo o

doutorado em f´ısica;

• aos meus amigos dos tempos de gradua¸c˜ao em f´ısica no IF-UFF: Antonio,

Leonardo, Rosembergue e tantos outros amigos e amigas do cora¸c˜ao;

• ao Caio, `a Rebecca, `a tia Marisa e ao tio Antonio pela amizade de longa data; • ao meu orientador Nuno Miguel Melo Crokidakis Peregrino, que topou orientar

meu doutorado tendo 2 anos e meio para finalizar;

• ao pessoal do grupo de F´ısica Estat´ıstica e Sistemas Complexos do IF-UFF, professores e alunos; e tamb´em pelas rodadas de cerveja nas comemora¸c˜oes de artigos publicados;

(8)

• `a Celia Anteneodo, ao J¨urgen Stilck, ao Paulo Murilo e ao S´ılvio Manuel

Duarte Queir´os, membros da banca.

• aos amigos e professores do Laborat´orio de ´Otica Quˆantica da UFF que

esti-veram comigo durante boa parte da minha vida acadˆemica;

• aos funcion´arios e `as funcion´arias do IF-UFF;

• `as funcion´arias da biblioteca que t˜ao gentilmente sempre nos auxiliavam tanto

nas buscas por itens quanto no gerenciamento dos prazos de devolu¸c˜ao;

• aos professores e `as professoras do IF-UFF e da UFF com quem tive aulas ou

tive a oportunidade de conhecer;

• `as agˆencias de fomento CAPES e CNPq por finaciarem meu projeto de

(9)

Roteiro

1 Introdu¸c˜ao 13

2 Metodologia 16

2.1 Introdu¸c˜ao . . . 16

2.2 Teoria cin´etica de Landau . . . 18

2.3 Expoentes cr´ıticos . . . 21

2.4 Homogeneidade das fun¸c˜oes termodinˆamicas ou hip´otese se escala . . 21

2.5 An´alise de tamanho finito . . . 23

2.6 Classes de universalidade . . . 25

2.7 Modelos . . . 26

2.7.1 Trocas cin´eticas de opini˜oes . . . 26

2.7.2 Votante majorit´ario . . . 30

3 Transi¸c˜ao de fase para estados absorventes em um modelo de forma¸c˜ao de opini˜oes 33 3.1 Introdu¸c˜ao . . . 33

3.2 Modelo e Resultados . . . 34

3.3 Conclus˜oes . . . 43

4 Transi¸c˜ao de fase no modelo do votante majorit´ario na presen¸ca de dois ru´ıdos 46 4.1 Introdu¸c˜ao . . . 46

4.2 Modelo e Resultados . . . 48

(10)

4.2.2 Rede quadrada - 2D . . . 54

4.3 Conclus˜ao . . . 56

5 Efeitos de convic¸c˜ao e independˆencia em modelos com opini˜oes cont´ınuas 59 5.1 Introdu¸c˜ao . . . 59

5.2 Modelo . . . 60

5.3 Resultados . . . 63

5.3.1 Intera¸c˜oes competitivas e independˆencia . . . 64

5.3.2 Convic¸c˜oes heterogˆeneas e independˆencia . . . 69

5.4 Conclus˜oes . . . 73

(11)

Lista de Figuras

3.1 Fra¸c˜ao de opini˜oes +1 no estado estacion´ario contra q para valores

t´ıpicos de p obtida pela equa¸c˜ao (3.9). Para um valor fixo de p,

escolhendo q < qc(p) temos duas possibilidades para f1. A curva em

preto f1 = f−1 representa a solu¸c˜ao de f1 na fase paramagn´etica. . . . 38

3.2 Parˆametro de ordem O contra o ru´ıdo q para valores t´ıpicos de p. Os

pontos foram obtidos atrav´es de simula¸c˜oes num´ericas e as linhas s˜ao dadas pela equa¸c˜ao (3.13). Para p > pc= 1/4 o sistema n˜ao apresenta

transi¸c˜ao de fase ferro-paramagn´etica. Para p > 0 o modelo apresenta uma transi¸c˜ao ferro-paramagn´etica nos pontos dados pela equa¸c˜ao

(3.7) e uma transi¸c˜ao paramagn´etica-absorvente em qc = 1/2. Em

detalhe, vemos que O = 0 para q ≥ 1/2 para todos valores de p. O tamanho da popula¸c˜ao ´e N = 104, e os resultados s˜ao tomados em

m´edias sobre 100 simula¸c˜oes independentes. . . 41

3.3 Gr´afico de algumas quantidades de interesse para p = 0.1. (a)

Sus-ceptibilidade V pr´oximo da transi¸c˜ao ferro-paramagn´etica para valo-res t´ıpicos do tamanho da popula¸c˜ao N . O melhor colapso foi obtido para os valores γ ≈ 1, 1/ν ≈ 1/2 e qc ≈ 0.33, considerando as rela¸c˜oes

(3.20) e (3.21). (b) Parˆametro de ordem O para N = 105 para

dife-rentes valores de q pr´oximo da transi¸c˜ao de fase para-absorvente. O melhor colapso foi obtido para os valores δ ≈ 1, 1/ν|| ≈ 1 e qc ≈ 0.5,

considerando as rela¸c˜oes (3.22) e (3.23). Todos dados foram obtidos

(12)

3.4 Diagrama de fases do modelo no plano q contra p. A regi˜ao em azul representa a fase absorvente, e a curva em vermelho representa divisa entre as fases ferromagn´etica e paramagn´etica, equa¸c˜ao (3.7).

Note que para p = 0 o sistema apresenta um transi¸c˜ao de fase

ativo-absorvente. . . 44

4.1 Parˆametro de ordem m como fun¸c˜ao da probabilidade de independˆencia

p para valores t´ıpicos do ru´ıdo q, considerando o modelo formulado em campo m´edio. Os s´ımbolos s˜ao resultados num´ericos para popula¸c˜oes com N = 104 indiv´ıduos, com m´edias tomadas em 100 simula¸c˜oes

in-dependentes, e as linhas s˜ao dadas pelo resultado anal´ıtico da equa¸c˜ao (4.13). Repare que para valores suficientemente grandes de p e q o sistema est´a desordenado, o que corresponde `a solu¸c˜ao anal´ıtica m = 0. 51

4.2 Diagrama de fases para o modelo formulado em campo m´edio, no

plano p (probabilidade de independˆencia) contra q (ru´ıdo usual).

Po-demos ver as fases Ordenada e Desordenada. Os quadrados s˜ao

esti-mativas num´ericas para os pontos cr´ıticos pc(q) e a curva ´e a previs˜ao

te´orica, equa¸c˜ao (4.14). As barras de erro s˜ao menores que os pontos. 52 4.3 An´alise de tamanho finito da transi¸c˜ao de fase para o modelo na rede

completamente conectada, para q = 0.05. O melhor colapso foi obtido para pc≈ 0.2555, β ≈ 1/2, γ ≈ 1 e ν ≈ 2. . . 53

4.4 Parˆametro de ordem m como fun¸c˜ao da probabilidade de independˆencia

p para valores t´ıpicos do ru´ıdo q, para o modelo definido na rede quadrada com L = 100. Observe que para valores suficientemente

grandes de p e q, o sistema est´a desordenado. Cada ponto foi obtido

atrav´es de m´edias sobre 100 simula¸c˜oes independentes. As linhas s˜ao guias para os olhos. . . 55

4.5 An´alise de tamanho finito da transi¸c˜ao para o modelo na rede

(13)

4.6 Diagrama de fases para o modelo definido na rede quadrada, no plano p contra q, separando as fases ordenada e desordenada. Os quadrados s˜ao as estimativas num´ericas dos pontos cr´ıticos pc(q), obtidos pela

an´alise do cumulante de Binder. As barras de erro s˜ao menores que

os pontos no gr´afico, e a linha tracejada ´e uma descri¸c˜ao qualitativa da fronteira que separa as duas fases, como discutido no texto. . . 57

5.1 Parˆametro de ordem contra a probabilidade de independˆencia q, para

alguns valores da fra¸c˜ao p de intera¸c˜oes negativas, com ci = 1 para

todo i. Pode-se observar transi¸c˜oes em diferentes pontos qc(p), por´em

o valor m´aximo de O diminui com p e a transi¸c˜ao ´e eliminada para um

valor suficientemente grande de p. As popula¸c˜oes possuem N = 104

indiv´ıduos e as m´edias foram feitas sobre 100 simula¸c˜oes independentes. 65 5.2 An´alise de tamanho finito para a transi¸c˜ao como fun¸c˜ao de q, para

p = 0.1 e ci = 1 para todo i. O melhor colapso foi obtido para

qc≈ 0.173, β ≈ 1/2, γ ≈ 1 e ν ≈ 2. . . 66

5.3 Diagrama de fase no plano q (probabilidade de independˆencia)

con-tra p (probabilidade de intera¸c˜oes negativas), quando ci = 1 , ∀i. Os

s´ımbolos s˜ao as estimativas num´ericas dos pontos de transi¸c˜ao, en-quanto que a linha tracejada foi obtida pela equa¸c˜ao (5.5). As barras de erro s˜ao estimadas via ATF. . . 67

5.4 Histograma normalizado de opini˜oes, no estado estacion´ario, para

q = 0.0 (no quadro ao topo `a esquerda), q = 0.05 (no quadro ao

topo `a direita), e q = 0.2 (no quadro a baixo), para v´arios valores de

p, quando ci = 1 , ∀i. Os s´ımbolos vazios (preenchidos) representam

os estados ordenados (desordenados). Nos detalhes aumentados os

resultados excluindo-se os agentes extremistas com as opini˜oes

majo-rit´arias. As popula¸c˜oes tˆem N = 104 indiv´ıduos, e os dados foram

tomados sob m´edias de 100 simula¸c˜oes independentes, como explicado no texto. . . 68

(14)

5.5 Parˆametro de ordem contra a probabilidade de independˆencia q, para v´arios valores da fra¸c˜ao w de convic¸c˜oes negativas, quando p = 0.

Pode-se observar transi¸c˜oes ordem-desordem para diferentes pontos

qc(w), mas a transi¸c˜ao ´e suprimida para um valor suficientemente

grande de w. As m´edias foram feitas sobre 100 simula¸c˜oes em

po-pula¸c˜oes de N = 104 indiv´ıduos. . . 70

5.6 An´alise de tamanho finito da transi¸c˜ao de fase para w = 0.2 e p = 0.0.

O melhor colapso foi encontrado para qc ≈ 0.079, β ≈ 1/2, γ ≈ 1 e

ν ≈ 2. . . 71

5.7 Diagrama de fase para o modelo no plano q (probabilidade de

inde-pendˆencia) versus w (probabilidade de convic¸c˜oes negativas), quando

p = 0. Os s´ımbolos s˜ao as estimativas num´ericas dos pontos de

transi¸c˜ao, enquanto que a linha tracejada foi obtida pela substitui¸c˜ao

de p por w na equa¸c˜ao (5.5), como explicado no texto. As barras de

erro s˜ao estimadas via ATF. . . 72 5.8 Histograma normalizado de opini˜oes, no estado estacion´ario, para q =

0.0 (no quadro ao topo `a esquerda), q = 0.05 (no quadro ao topo `a

direita), e q = 0.1 (no quadro a baixo), para v´arios valores de w

(e p = 0). Os s´ımbolos vazios (preenchidos) representam os estados ordenados (desordenados). As popula¸c˜oes tˆem N = 104 indiv´ıduos, e

os dados foram tomados sob m´edias de 100 simula¸c˜oes independentes, como explicado no texto. . . 73 5.9 Fra¸c˜ao m´edia de agentes com opini˜oes extremas como fun¸c˜ao de w

(probabilidade de convic¸c˜oes negativas) para valores t´ıpicos de q

(pro-babilidade de independˆencia), quando p = 0. Pode-se ver que o

n´umero de agentes extremistas na popula¸c˜ao reduz-se (at´e mesmo a

zero) para valores suficientemente grandes de w. A popula¸c˜ao possui

(15)

Cap´ıtulo 1

Introdu¸

ao

O estudo de sistemas sociais por f´ısicos, apesar de incomum, n˜ao ´e t˜ao estranho a esse

ramo da ciˆencia. Embora Maxwell e Boltzmann tenham se guiado em estat´ıstica de

sistemas sociais para desenvolverem a teoria cin´etica dos gases, tais sistemas n˜ao fo-ram alvo de pesquisa de f´ısicos por muito tempo [1, 2]. Recentemente, abordagens de alguns fenˆomenos em uma sociedade utilizando-se ferramentas da f´ısica estat´ıstica,

ao negligenciar a complexidade dos indiv´ıduos, tˆem sido capazes de explicar

com-portamentos coletivos conhecidos [2].

Uma das defini¸c˜oes mais comuns para um sistema complexo ´e tal que a soma das

partes isoladas que comp˜oem o sistema (unidades, indiv´ıduos ou elementos) n˜ao

cor-responde ao todo, ou seja, tais sistemas apresentam um comportamento coletivo n˜ao

linear. Sistemas Complexos vˆem sendo utilizados para descrever diversos fenˆomenos

fora da f´ısica e al´em disso em sistemas sociais, tais como: dinˆamica de pedestres

e multid˜oes, sistemas socio-econˆomicos e modelos econˆomicos, redes de

transpor-tes, redes de telecomunica¸c˜oes, dinˆamica entre culturas, evolu¸c˜ao de linguagens e dinˆamica de opini˜oes [2].

A dinˆamica de opini˜oes busca compreender quais s˜ao os ingredientes necess´arios

para uma sociedade atingir, por exemplo, o consenso, polariza¸c˜oes ou mesmo

frag-menta¸c˜oes entre os indiv´ıduos que a comp˜oem. Entendemos por consenso: o estado

onde todos indiv´ıduos possuem a mesma opini˜ao, por polariza¸c˜oes: duas ou mais

(16)

es-tado onde todas as opini˜oes s˜ao igualmente prov´aveis naquela sociedade, isto ´e, n˜ao h´a nenhuma opini˜ao majorit´aria.

Compreender como um indiv´ıduo, um grupo de pessoas ou uma popula¸c˜ao se

comporta diante de um debate (quest˜ao s´ocio-econˆomica, pol´ıtica, sobre uma

dou-trina ou uma quest˜ao moral) tem um impacto direto em nossa sociedade. N˜ao ´e por

acaso que somos bombardeados por in´umeras propagandas (publicit´aria, pol´ıtica,

doutrin´aria e etc.) diariamente. Algumas ´areas da ciˆencia visam entender como um

indiv´ıduo/grupo se portam ao formar uma opini˜ao e o que acontece em suas vias

cognitivas, como por exemplo psicologia, a sociologia e a neurociˆencia [3, 4, 5, 6, 7]. O termo opini˜ao pode se referir tanto a um conjunto de cren¸cas ou conhecimentos

referentes a um ´unico indiv´ıduo quanto a um consenso coletivo, dito senso comum.

De fato, a diferen¸ca entre um comportamento individual e um comportamento

co-letivo ´e um dos pontos-chave para esta tese. Os modelos de dinˆamica de opini˜ao

apresentados aqui tratam um indiv´ıduo de maneira bastante simplificada. Por um lado, isto pode n˜ao representar a realidade, por outro lado, tais simplifica¸c˜oes

permi-tem que os modelos de agentes apresenpermi-tem resultados macrosc´opicos contundentes,

como por exemplo a emergˆencia de comportamentos coletivos.

O objetivo da modelagem computacional de sistemas sociais n˜ao ´e reproduzir um

ser humano e toda sua complexidade. Muito pelo contr´ario, os modelos de agentes

visam reproduzir cen´arios onde uma ou poucas caracter´ısticas de um indiv´ıduo sejam relevantes para o comportamento coletivo.

Em F´ısica, esta premissa se baseia na Teoria de Escala e Grupo de Renorma-liza¸c˜ao, onde caracter´ısticas macrosc´opicos de sistemas n˜ao dependem de detalhes

microsc´opicos do mesmo, apenas de caracter´ısticas globais tais como simetrias,

di-mens˜ao, leis de conserva¸c˜ao do sistema [8].

Seguindo o desenvolvimento deste texto, no cap´ıtulo 2 apresentamos uma breve revis˜ao sobre alguns assuntos como: transi¸c˜ao de fase, fenˆomenos cr´ıticos, expoentes cr´ıticos, an´alise de tamanho finito. Tamb´em apresentamos uma descri¸c˜ao de dois

(17)

do votante majorit´ario.

Nos cap´ıtulos 3, 4 e 5 apresentamos resultados para diferentes modelos de forma¸c˜ao de opini˜ao publicados nas referˆencias [9], [10] e [11], respectivamente. Sua

orga-niza¸c˜ao n˜ao segue a ordem cronol´ogica em que os artigos foram publicados, mas

segue uma organiza¸c˜ao did´atica.

No cap´ıtulo 3 analisaremos um modelo de troca cin´etica com opini˜oes discretas. Al´em da transi¸c˜ao de fase ordem-desordem encontrada em outros modelos deste tipo,

ao adicionarmos no modelo um ru´ıdo de indecis˜ao observamos mais duas transi¸c˜oes

de fases para um estado absorvente, uma partindo de uma fase ferromagn´etica e

outra da fase paramagn´etica.

No cap´ıtulo 4 apresentamos outro modelo com opini˜oes discretas (com duas

opini˜oes apenas, σ = ±1), o modelo do votante majorit´ario. Investigamos este

sistema na presen¸ca de dois ru´ıdos: a hesita¸c˜ao e a independˆencia. Al´em disso, analisaremos o sistema em duas topologias distintas, em redes completamente

co-nectadas e em redes quadradas. Tamb´em apresentamos alguns resultados anal´ıticos

para uma aproxima¸c˜ao de campo m´edio simples.

No cap´ıtulo 5 voltamos ao modelo de trocas cin´eticas de opini˜ao, agora com

opini˜oes cont´ınuas. Inclu´ımos o ru´ıdo de independˆencia e duas formas diferentes

de desordem, e por isso apresentaremos duas vers˜oes para o modelo. Al´em de

in-vestigarmos as transi¸c˜oes de fases no modelo trazemos uma an´alise mais detalhada

atrav´es de histogramas para alguns estados estacion´arios do sistema. Nesta an´alise, mostramos que o modelo apresenta alguns resultados mais realistas.

Na conclus˜ao, faremos um breve resumo dos resultados e indicamos algumas

(18)

Cap´ıtulo 2

Metodologia

Neste cap´ıtulo faremos uma revis˜ao te´orica sobre transi¸c˜oes de fase cont´ınuas, expo-entes cr´ıticos, an´alise de tamanho finito classes de universalidade e de dois modelos de dinˆamica de opini˜ao.

2.1

Introdu¸

ao

As transforma¸c˜oes nos estados f´ısicos da ´agua est˜ao entre os exemplos mais cotidi-anos e qualitativos de transi¸c˜oes de fase: fus˜ao, ebuli¸c˜ao e sublima¸c˜ao. Por outro lado, o diagrama de fases da ´agua ´e bem mais complexo do que a vers˜ao apresentada

nos livros de ensino m´edio: o gelo, por exemplo, apresenta mais de 16 fases

dife-rentes. Tamb´em observamos diferentes fases termodinˆamicas para diversas outras

substˆancias, como por exemplo o ferro fundido − muitas vezes usado na ind´ustria.

H´a por´em diversos outros exemplos de transi¸c˜oes de fase na natureza:

1. entre as v´arias fases magn´eticas (ferromagnetismo, paramagnetismo,

antifer-romagnetismo, ferrimagnetismo e vidros de spin);

2. nos metais que apresentam uma fase supercondutora em baixas temperaturas; 3. nos compostos que apresentam a superfluidez;

(19)

Estas transi¸c˜oes podem ser controladas externamente atrav´es de alguns parˆametros

como: termperatura, press˜ao, volume, etc. Mas a transi¸c˜ao em si pode ser abrupta

ou suave. Uma transi¸c˜ao abrupta (por exemplo a transi¸c˜ao s´olido-l´ıquido da ´agua), apresenta coexistˆencia de fases, isto ´e, durante a transi¸c˜ao teremos as duas fases

(´agua l´ıquida e gelo) coexistindo simultaneamente. Por outro lado, se tal

passa-gem entre as duas fases for suave n˜ao teremos coexistˆencia de fases. Na transi¸c˜ao

l´ıquido-vapor da ´agua, no entanto a passagem de uma fase para a outra pode ser

feita havendo a coexistˆencia de fases ou n˜ao.

A classifica¸c˜ao de Ehrenfest para as transi¸c˜oes de fase de ordem n est´a associada `

a descontinuidade na derivada de ordem n da energia livre do sistema com respeito `

a suas vari´aveis termodinˆamicas [12]. As transi¸c˜oes de primeira ordem apresentam um descontinuidade na primeira derivada, por exemplo

S = − ∂F (T, V, N ) ∂T ! V,N , V = ∂G(T, P, N ) ∂P ! T,N , M = ∂G(T, H, N ) ∂H ! T ,N ,

onde F e G s˜ao as energias livres de Helmholtz s Gibbs, respectivamente. Logo

espera-se uma descontinuidade na entropia S, no volume V (ou densidade) e na magnetiza¸c˜ao M (para sistemas magn´eticos) na transi¸c˜ao de fase de primeira ordem.

Consequentemente, tais grandezas s˜ao cont´ınuas na transi¸c˜ao de segunda ordem,

uma vez que a segunda derivada da energia livre deveria ser descont´ınua. No entanto,

neste caso a derivada de primeira ordem ´e cont´ınua enquanto a derivada de segunda

ordem diverge, por exemplo

C = T∂ 2F ∂T2, κ = − (1/V ) ∂2G ∂P2, χ = − ∂2F ∂H2,

onde C ´e a capacidade t´ermica, κ ´e a compressibilidade e χ ´e a susceptibilidade. A classi¸c˜ao moderna substitui transi¸c˜oes de primeira e segunda ordem por transi¸c˜oes de fase descont´ınua e cont´ınua, respectivamente [12]. Esta classifica¸c˜ao pode se refe-rir `a derivada (descont´ınua ou cont´ınua) de primeira ordem da energia livre ou ainda

(20)

vai a zero continuamente ou apresenta uma descontinuidade, ou seja, as duas fases

coexistem no ponto cr´ıtico. Um parˆametro de ordem escalar ´e identicamente nulo

quando o sistema apresenta alguma simetria (fase desordenada) e diferente de zero

quando h´a uma assimentria (fase ordenada) [13, 14]. Como exemplos de parˆametro

de ordem temos a magnetiza¸c˜ao em um magneto simples ou a diferen¸ca entre as

densidades de l´ıquido e vapor no processo de ebuli¸c˜ao da ´agua.

Al´em disso, diversos sistemas apresentam transi¸c˜oes de fase fora do equil´ıbrio termodinˆamico ou mesmo fora da f´ısica tradicional. Muitas vezes esses sistemas n˜ao possuem hamiltonianas ou fun¸c˜ao de parti¸c˜ao, e s˜ao definidos apenas pelas taxas de transi¸c˜ao entre seus estados [15].

Daremos mais aten¸c˜ao `as transi¸c˜oes de fases cont´ınuas devido ao carater de universalidade de seus expoentes. Todos os resultados apresentados nos cap´ıtulos 3, 4 e 5 s˜ao relativos a transi¸c˜oes cont´ınuas.

2.2

Teoria cin´

etica de Landau

O conceito de parˆametro de ordem para um sistema, introduzido por Landau para

a descri¸c˜ao de transi¸c˜oes de fase de segunda esp´ecie [13, 14, 16], ser´a associado `as

fases do sistema. Apresentaremos um modelo para um sistema com um parˆametro

de ordem (m) e a transi¸c˜ao de fase ser´a induzida por um parˆametro de controle p. De

tal modo que para p acima de um ponto cr´ıtico pc o estado estacion´ario do sistema

apresentar´a m = 0 caracterizando uma fase desordenada do sistema enquanto para

p < pc o estado estacion´ario ter´a m 6= 0 indicando uma fase ordenada. O sistema ´e

definido em um reticulado e a cada s´ıtio ´e associada uma vari´avel estoc´astica σi cuja

m´edia hσii pode ser identificada com o parˆametro de ordem. A evolu¸c˜ao temporal

da distribui¸c˜ao de probabilidade que governa o sistema ´e descrita por uma equa¸c˜ao

mestra [14]. Portanto podemos apresentar a evolu¸c˜ao temporal do parˆametro de

ordem como

dm

(21)

onde f = f (m) por constru¸c˜ao.

Supondo que o sistema apresente apenas a simetria de invers˜ao, ou seja, o sistema permanece invariante sob a opera¸c˜ao de invers˜ao σi → −σi em todas as vari´aveis do

sistema. Sob esta opera¸c˜ao, temos m → −m, f → −f e

d

dt(−m) = −f (m). (2.2)

Comparando as equa¸c˜oes (2.1) e (2.2) vemos que f (−m) = −f (m), ou seja uma

fun¸c˜ao ´ımpar. Supondo que f (m) possa ser desenvolvida em uma s´erie de potˆencias de m temos

f (m) = c1m + c3m3+ c5m5+ · · · , (2.3)

que pode ser aproximada tomando-se apenas os primeiros termos da expans˜ao, ou

seja,

dm

dt = −am − bm

3, (2.4)

onde a e b dependem de p, a pode ser positivo, negativo ou mesmo nulo e b

estrita-mente positivo. Multiplicando ambos os membros da equa¸c˜ao (2.4) por m teremos

1 2

d dtm

2 = −am2− bm4. (2.5)

Resolvendo a equa¸c˜ao (2.5) chegamos `a seguinte solu¸c˜ao (para a 6= 0)

m2 = a

ce2at− b, (2.6)

onde c ´e uma constante obtida a partir da condi¸c˜ao inicial. Para t → ∞ a equa¸c˜ao (2.6) apresentar´a duas solu¸c˜oes distintas de acordo com o sinal de a. Se a > 0

teremos m → 0, correspondente ao estado desordenado. Se a < 0 ent˜ao m → ±m∗

onde m∗ = q|a|/b, correspondente ao estado ordenado. Admitindo que a depende

de p tal que a = A(p − pc) para valores pr´oximos de pc, onde A > 0, quando p

(22)

e quando p < pc, a < 0 e teremos o estado estacion´ario ordenado tal que

m∗ ∼ (pc− p)1/2. (2.7)

Podemos reescrever a equa¸c˜ao (2.7) como (pc− p)β, onde β = 1/2. Este valor para

o expoente β ´e tipicamente encontrado em aproxima¸c˜oes de campo m´edio [14]. Ainda na vizinhan¸ca da transi¸c˜ao de fase, na regi˜ao desordenada, para tempos

longos, podemos aproximar a equa¸c˜ao (2.6) para

m =

ra

c e

−t/τ

, (2.8)

ou seja, um decaimento exponencial com tempo caracter´ıstico τ = 1/a. Portanto, temos

τ ∼ (p − pc)−1. (2.9)

O mesmo se d´a na regi˜ao p < pc (a < 0), onde m decai exponencialmente para seu

valor estacion´ario m∗. No entanto, para p = pc (a = 0) o decaimento deixa de ser

exponencial. Da equa¸c˜ao (2.4), com a = 0 temos

dm

dt = −bm

3

, (2.10)

cuja solu¸c˜ao ´e da forma m = 1/√2bt + c. Assim, o comportamento assint´otico de m para tempos longos ´e alg´ebrico, tal que

m ∼ t−1/2. (2.11)

Isto ´e, fora do ponto cr´ıtico o parˆametro de ordem decai exponencialmente para seu valor estacion´ario com um tempo caracter´ıstico, o tempo de relaxa¸c˜ao τ . Aproximando-se do ponto cr´ıtico o tempo de relaxa¸c˜ao cresce indefinidamente e diverge em pc. Esse

(23)

2.3

Expoentes cr´ıticos

Na vizinhan¸ca do ponto cr´ıtico, podemos descrever uma fun¸c˜ao termodinˆamica tal

que

f (t) = Atλ(1 + Btx+ . . .) , (2.12)

onde t ´e o parˆametro de controle externo, A, B, x s˜ao constantes e x > 0. Podemos definir o expoente cr´ıtico λ

λ = lim

t→0

ln f (t)

ln t , (2.13)

e assim podemos associar a cada grandeza f´ısica um expoente cr´ıtico. O

compor-tamento assint´otico de algumas grandezas pode ser expresso em termos de leis de

potˆencia, por exemplo:

1. a magnetiza¸c˜ao a campo nulo m ∼ |Tc− T |β, onde Tc´e a temperatura cr´ıtica,

2. a magnetiza¸c˜ao no ponto cr´ıtico m(H, Tc) ∼ H1/δ,

3. a susceptibilidade magn´etica χ ∼ |Tc− T |−γ,

4. o calor espec´ıfico C(T ) ∼ |Tc− T |−α

5. o comprimento de correla¸c˜ao espacial ξ ∼ |Tc− T |−ν,

6. o tempo de relaxa¸c˜ao τ ∼ ξz, etc.

2.4

Homogeneidade das fun¸

oes termodinˆ

amicas

ou hip´

otese se escala

Seja a energia livre na vizinhan¸ca de um transi¸c˜ao de fase em um magneto uniaxial

simples g = g(t, h), onde t ´e a temperatura reduzida

t = Tc− T Tc

(24)

e h ´e o campo magn´etico externo. Supondo que g(t, h) ´e uma fun¸c˜ao homogˆenea generalizada [18] temos g(t, h) = λg(λat, λbh). (2.15) Usando λat = 1 → λ = t−1/a (2.16) na equa¸c˜ao (2.15), teremos

g(t, h) = t−1/ag(1, λ−b/ah) = t−1/aF h tb/a

!

. (2.17)

Tomando a magnetiza¸c˜ao m para o valor de λ dado pela equa¸c˜ao (2.16) temos

m = ∂g ∂h ! t = t−a1− b aF0 h tb/a ! . (2.18)

Para campo nulo, h = 0, teremos a express˜ao assint´otica em lei de potˆencia e

identificamos o valor de β para os parˆametros a e b

m(t, h = 0) = t−1a− b aF0(0) ∼ tβ ⇒ β = −1 a − b a. (2.19)

Podemos descrever a susceptibilidade como a derivada segunda da energia livre

ou como a derivada primeira da magnetiza¸c˜ao com respeito ao campo

χ = ∂ 2g ∂h2 ! t = ∂m ∂h ! t = t−1a− 2b aF00 h tb/a ! . (2.20)

A campo nulo temos

χ(t, h = 0) = t−1a− 2b aF00(0) ∼ t−γ ⇒ γ = 1 a + 2b a. (2.21)

(25)

g(t, h) com rela¸c˜ao `a temperatura Ch ∼ ∂2g ∂t2 ! h=0 ∼ t−1a−2F (0) ∼ t−α ⇒ α = 1 a + 2. (2.22)

Dos valores encontrados para os expoentes β, γ e α nas equa¸c˜oes (2.19), (2.21)

e (2.22), respectivamente, encontramos o limite inferior da rela¸c˜ao de Rushbrooke

[18]

α + 2β + γ = 2 (2.23)

Existem outros expoentes cr´ıticos e outras rela¸c˜ao entre eles, por exemplo

δ − 1 = γ

β (2.24)

e

2 − α = dν. (2.25)

2.5

An´

alise de tamanho finito

Na vizinhan¸ca da transi¸c˜ao, algumas quantidades apresentam comportamento cr´ıtico, como por exemplo o parˆametro de ordem O, suas flutua¸c˜oes V (∼ [hO2i − hOi2]),

o cumulante de Binder U = 1 − hO

4i

3hO2i2 [19], o comprimento de correla¸c˜ao ξ, etc.

Podemos escrever da seguinte forma:

O ∼ (p − pc)β, (2.26)

V ∼ (p − pc)−γ, (2.27)

ξ ∼ (p − pc)−ν, (2.28)

onde p ´e o parˆametro de controle do sistema (temperatura reduzida, ru´ıdos em

geral) e pc ´e o valor cr´ıtico deste parˆametro. Podemos ver que V e ξ apresentam

comportamentos divergentes na vizinhan¸ca da transi¸c˜ao. O cumulante de Binder,

(26)

No entanto, estes comportamentos s˜ao esperados no limite termodinˆamico, ou

seja, para sistemas com tamanho N → ∞. Logo, as rela¸c˜oes (2.26−2.28) precisam

ser ajustadas. Como o comprimento de correla¸c˜ao ξ diverge em um sistema infinito

podemos associ´a-lo ao tamanho N de um sistema finito tal que ξ ∼ N . Al´em disso,

em um sistema finito a flutua¸c˜ao V atinge um valor m´aximo para p = pc(N ) (dito

ponto pseudo-cr´ıtico), ou seja, espera-se um valor de V cada vez maior a medida que aumentamos N e no limite termodinˆamico teremos V divergindo tal que pc(N ) → pc.

Assim, da equa¸c˜ao (2.28) na vizinhan¸ca da transi¸c˜ao temos

(p − pc) = pc(N ) − pc∼ N−1/ν. (2.29)

Portanto, para sistemas finitos, reescreveremos as rela¸c˜oes (2.26,2.27) e o cumulante de Binder:

O(N ) ∼ N−β/ν, (2.30)

V (N ) ∼ Nγ/ν, (2.31)

U (N ) ∼ constante. (2.32)

O gr´afico da quantidade U (N ) contra p para alguns tamanhos N vai nos fornecer

uma estimativa para o ponto cr´ıtico pc na regi˜ao onde as curvas U (N ) se cruzam.

Se analisarmos o gr´afico de U (N ) contra (p − pc)N1/ν na vizinhan¸ca de pc para

diferentes tamanhos do sistema veremos apenas uma curva universal (para a escolha

correta do expoente ν) pois eliminamos a dependˆencia com o tamanho do sistema

no eixo horizontal.

Realizando a mesma estrat´egia para as quantidades O(N )Nβ/ν e V (N )N−γ/ν

contra (p − pc)N1/ν obteremos estimativas para os expoentes β e γ. O conjuntos

dos trˆes expoentes β, γ e ν nos indicam a que classe de universalidade este sistema

(27)

2.6

Classes de universalidade

Dentre as caracter´ısticas mais surpreendentes das transi¸c˜oes de fase cont´ınuas e sua fenomenologia, est´a a universalidade dos expoentes cr´ıticos. Isto ´e, alguns sistemas completamente diferentes apresentam os mesmos expoentes cr´ıticos.

N˜ao aprofundaremos esta discuss˜ao neste trabalho, contudo as bases para tal

identidade em um conjunto de expoentes cr´ıticos remonta `a Teoria de Grupo de

Renormaliza¸c˜ao [18]. Nela identificamos os ingredientes em um modelo que

deter-minam seus expoentes cr´ıticos, como por exemplo: simetrias, dimens˜ao, alcance de

intera¸c˜ao e a dimensionalidade do parˆametro de ordem.

Dessa forma, uma transi¸c˜ao de fase est´a associada a uma classe de universalidade, ou seja, um conjunto de expoentes cr´ıticos que caracterizam aquela classe.

Al´em disso, em uma dada classe de universalidade encontramos tanto transi¸c˜oes de fase para sistemas f´ısicos no equil´ıbrio termodinˆamico quanto fora deste. E mais, tamb´em encontram-se sistemas que sequer possuem atributos cl´assicos da descri¸c˜ao

de qualquer sistema f´ısico, como por exemplo hamiltoniana (a¸c˜ao), ou fun¸c˜ao de

parti¸c˜ao. expoente CM d = 1 d = 2 d = 3 d = 4 β 1 0.276486(8) 0.584(4) 0.81(1) 1 ν⊥ 1/2 1.096854(4) 0.734(4) 0.581(5) 1/2 ν|| 1 1.733847(6) 1.295(6) 1.105(5) 1 z 2 1.580745(10) 1.76(3) 1.90(1) 2

Tabela 2.1: Tabela apresentando os expoentes da Percola¸c˜ao Direcionada [20].

Nas tabelas (2.1) e (2.2) encontramos alguns dos expoentes para a Percola¸c˜ao

Direcionada [20] e para o modelo de Ising [16, 21], respectivamente. Os expoentes s˜ao classificados pela dimens˜ao do sistema d = 1, 2, 3, ≥ 4 e CM (sigla para campo m´edio).

Como notamos, nas tabelas, os expoentes em campo m´edio − discutiremos seu

significado a seguir − s˜ao idˆenticos aos expoentes para a dimens˜ao d = 4, tanto no

(28)

expo-expoente CM d = 1 d = 2 d = 3 d = 4

β 1/2 – 1/8 0.326419(3) 1/2

ν 1/2 – 1 0.629971(4) 1/2

γ 1 – 7/4 1.237075(10) 1

δ 3 – 15 4.78984(1) 3

Tabela 2.2: Tabela apresentando os expoentes do modelo de Ising (ferromagn´etico

com intera¸c˜ao de primeiros vizinhos) [16, 21].

entes cr´ıticos n˜ao se alteram para uma dimens˜ao d ≥ 4, denomina-se que a dimens˜ao

cr´ıtica superior ´e dc = 4. Por outro lado, o modelo de Ising em dimens˜ao d = 1

n˜ao apresenta transi¸c˜ao de fase. E por fim, os expoentes em campo m´edio (tamb´em

chamados de expoentes cl´assicos) s˜ao obtidos em abordagens que apresentam

in-tera¸c˜oes de campos efetivos ou ainda em aproxima¸c˜oes que negligenciam partes das correla¸c˜oes entre os elementos do modelo [14, 16]. Al´em da teoria cin´etica de Landau

j´a mencionada, tamb´em podemos citar a teoria de Van der Waals, a aproxima¸c˜ao

de Bethe-Peierls e o campo molecular de Curie-Weiss como exemplos de regime de campo m´edio [14, 16].

2.7

Modelos

Apresentaremos uma breve revis˜ao dos modelos explorados nos cap´ıtulos 3, 4 e 5 :

o modelo de trocas cin´eticas de opini˜ao [22] e o modelo do votante majorit´ario [23].

2.7.1

Trocas cin´

eticas de opini˜

oes

Para apresentar as trocas cin´eticas de opini˜oes devemos introduzir o modelo LCCC

[24]. O modelo LCCC, batizado com as iniciais dos nomes de seus autores, por sua

vez ´e inspirado em modelos de transa¸c˜oes financeiras. Nele, cada agente i em uma

sociedade artificial (completamente conectada) de N indiv´ıduos possui uma opini˜ao

oi, onde −1 ≤ oi ≤ 1. Para um dado instante t, selecionam-se dois indiv´ıduos i e j.

(29)

instante t + 1 para

oi(t + 1) = λ[oi(t) + toj(t)] , (2.33)

oj(t + 1) = λ[oj(t) + 0toi(t)] , (2.34)

onde λ representa a convic¸c˜ao (0 ≤ λ ≤ 1) e n˜ao se altera com o tempo (parˆametro congelado), e por outro lado  ´e um parˆametro estoc´astico uniformemente distribu´ıdo entre [0, 1] e muda com o tempo. As rela¸c˜oes (2.33) e (2.34) s˜ao lineares, no entanto uma n˜ao-linearidade ´e introduzida no modelo quando tais rela¸c˜oes levam a |oi,j| ≥ 1.

No caso de o ≥ 1 (o ≤ −1) faz-se o = 1 (o = −1). Outro ponto importante sobre o modelo LCCC est´a na n˜ao conserva¸c˜ao da soma das opini˜oes referentes `as equa¸c˜oes (2.33) e (2.34), ou seja, em princ´ıpio oi(t) + oj(t) 6= oi(t + 1) + oj(t + 1).

Em simula¸c˜oes num´ericas, introduzindo-se o parˆametro de ordem

O = 1 N N X i=1 oi , (2.35)

mostra-se que o sistema apresenta duas fases, uma para 0 ≤ λ ≤ λc tal que oi = 0

para todos agentes i, o que implica em O = 0, e outra para λ > λc, onde o sistema

apresenta O > 0.

Este modelo pode ser associado a um mapa iterativo para a vari´avel o(t) tal que

o(t + 1) = λ(o(t) + to(t)) = λ(1 + t) o(t) (2.36)

onde 0 ≤ o(t) ≤ 1. Aproximando t por seu valor m´edio t ' hi = 1/2, podemos

mostrar que o∗ = 0 ´e ponto fixo para λ ≤ 2/3, isto ´e λc = 2/3. Al´em disso, os

resultados num´ericos e o mapa iterativo mostram que para λ > λc todos os agentes

possuem uma opini˜ao positiva (negativa) no estado estacion´ario, de acordo com as

condi¸c˜oes iniciais, tal que O > 0.

Dentre as diversas varia¸c˜oes propostas ao modelo LCCC, chegamos ao modelo

(30)

intera¸c˜oes negativas podem ser associadas `a dissidˆencia, similarmente ao

compor-tamento dos contr´arios de Galam [25, 26]. Al´em disso, este modelo tem duas

for-mula¸c˜oes, em uma as opini˜oes dos agentes s˜ao n´umeros reais entre [−1, +1] e na

outra as opini˜oes pertencem a um conjunto de trˆes estados {−1, 0, +1}. Em ambas

formula¸c˜oes, a opini˜ao de um indiv´ıduo i ser´a atualizada no instante de tempo t + 1

levando-se em conta a opini˜ao do indiv´ıduo j no instante t de modo que

oi(t + 1) = oi(t) + µijoj(t), (2.37)

onde µij ´e um termo de acoplamento entre os agente i, j e −1 ≤ µij ≤ +1 para o

modelo com opini˜oes cont´ınuas e µij = ±1 para o modelo com opini˜oes discretas. O

valor de µij ´e determinado de acordo com um parˆametro externo p, associado `a fra¸c˜ao

de intera¸c˜oes negativas. No primeiro caso, com uma probabilidade p o termo µij

ser´a identificado a um n´umero sorteado em uma distribui¸c˜ao uniforme no intervalo

[−1, 0] e complementarmente com probabilidade 1−p teremos µij sendo sorteado em

uma distribui¸c˜ao uniforme agora no intervalo [0, +1]. No segundo caso (modelo com

estados discretos) com probabilidade p → µij = −1 e com probabilidade (1 − p) →

µij = +1.

No modelo com opini˜oes discretas, definimos as fra¸c˜oes das popula¸c˜oes de in-div´ıduos com opini˜ao +1, −1 e 0 como f1, f−1 e f0, respectivamente. Desse modo,

podemos contabilizar as intera¸c˜oes entre dois agentes i e j que aumentam, diminuem

ou n˜ao alteram o parˆametro de ordem O. Por exemplo:

1. dois indiv´ıduos com opini˜ao o = +1 interagem negativamente (µ < 0) tal

que um deles passa para o estado neutro o = 0. Essa intera¸c˜ao decresce o

parˆametro de ordem de um taxa pf1f1;

2. dois indiv´ıduos com opini˜ao o = −1 interagem positivamente, logo ambos

permanecem com suas mesmas opini˜oes. Portanto esta intera¸c˜ao n˜ao aumenta

(31)

positivamente (µ > 0) de tal modo que o indiv´ıduo i passa a ter opini˜ao oi = −1 tamb´em. Ent˜ao, esta intera¸c˜ao decresce o parˆametro de ordem com

uma taxa (1 − p)f0f−1.

Se contabilizarmos todas as taxas poss´ıveis podemos escrever uma equa¸c˜ao mestra

para o parˆametro de ordem

dO

dt = {taxas que aumentam} − {taxas que diminuem}. (2.38)

No estado estacion´ario teremos

dO dt = 0 = (1 − p)f−1f1+ pf 2 −1+ (1 − p)f0f1+ pf0f−1 − (1 − p)f1f−1+ pf12+ pf0f1+ (1 − p)f0f−1  . (2.39)

Usando a normaliza¸c˜ao, f1+ f−1+ f0 = 1, chegamos no seguinte resultado

(f1− f−1) (p − f0(1 − p)) = 0, (2.40)

isto ´e, ou f1 = f−1 (o que implica em uma fase desordenada), ou

f0 =

p

(1 − p) (2.41)

na fase ordenada.

Contabilizando agora as taxas que aumentam e diminuem a fra¸c˜ao f0 temos

df0

dt = pf

2

1 + (1 − p)f1f−1+ (1 − p)f−1f1+ pf−1f−1 (2.42)

− ((1 − p)f0f1 + pf0f1 + (1 − p)f0f−1+ pf0f−1) . (2.43)

Para o estado estacion´ario da fase desordenada (f1 = f−1 = 1−f2 0) teremos

(32)

que admite duas solu¸c˜oes, ou f0 = 1 ou f0 = 1/3. Descartando a primeira solu¸c˜ao

pois o modelo n˜ao apresenta uma fase absorvente, teremos f0 = 1/3 para a fase

desordenada. Como esta solu¸c˜ao e a equa¸c˜ao (2.41) valem no ponto cr´ıtico, igualando as duas encontramos pc= 1/4 como valor cr´ıtico para o parˆametro p.

Continuando esta an´alise, a equa¸c˜ao mestra no estado estacion´ario para a fra¸c˜ao f1 nos fornece f1 = −(2p − 1) ±√1 − 4p 2(1 − p) . (2.45) Usando O = f1− f−1 = 2f1− 1 + f0, (2.46)

pelas equa¸c˜oes (2.41) e (2.45) temos

O = ± √

1 − 4p

1 − p . (2.47)

Logo podemos descrever o comportamento do parˆametro de ordem na vizinhan¸ca

da transi¸c˜ao de fase como O ∼ (p − pc)β com pc = 1/4 e β = 1/2. Analisando as

grandezas V e U na vizinhan¸ca de pcchegamos aos expoentes γ ' 1 e ν ' 2, obtidos

numericamente atrav´es da an´alise de tamanho finito, que s˜ao os expoentes para o

modelo de Ising em campo m´edio (usando ν = dν0 onde ν0 = 1/2 e d = 4 representa

uma dimens˜ao efetiva para o modelo com intera¸c˜ao de longo alcance) [22].

O sistema com opini˜oes cont´ınuas apresenta os mesmos expoentes da vers˜ao

discreta, no entanto o ponto cr´ıtico aumenta para pc≈ 0.34.

2.7.2

Votante majorit´

ario

O modelo do votante majorit´ario [23] ´e definido em uma rede quadrada onde os

elementos possuem simetria de invers˜ao [27] (muitas vezes chamada de simetria de

Ising). Nele, cada agente possui uma opini˜ao σ = ±1 e sua opini˜ao ser´a atualizada de acordo com a opini˜ao majorit´aria de seus primeiros vizinhos. Al´em disso,

(33)

majorit´aria. Desse modo dizemos que q representa a fra¸c˜ao de indiv´ıduos hesitantes no modelo ou a probabilidade de um agente agir hesitantemente.

A taxa de transi¸c˜ao wi ´e dada por

w(σi)i = 1 2 ( 1 − (1 − 2q)σiS X δ σi+δ !) , (2.48)

onde S(x) d´a o sinal de x, e a soma ´e feita sobre os 4 primeiros vizinhos de i. Embora este modelo possua simetria de invers˜ao (σi → −σi) ele n˜ao obedece as

regras de balan¸co detalhado, isto ´e, o modelo n˜ao ´e revers´ıvel microscopicamente. Consequentemente, seus estados estacion´arios n˜ao s˜ao estados de equil´ıbrio

termo-dinˆamico, diferentemente do modelo de Ising, por exemplo.

Mesmo assim, o modelo do votante majorit´ario apresenta uma transi¸c˜ao de fase

fora do equil´ıbrio na rede quadrada para um valor cr´ıtico do ru´ıdo de hesita¸c˜ao

qc ≈ 0.075 [23]. Utilizando a mesma defini¸c˜ao para o parˆametro de ordem

m = 1 N N X i=1 σi , (2.49)

para valores q < qc o sistema apresenta uma fase ordenada em regime estacion´ario

onde m > 0. Quando q ≥ qc teremos m = 0, representando uma fase desordenada.

N˜ao h´a uma solu¸c˜ao para o modelo em rede quadrada. Uma maneira de se obter

alguns resultados anal´ıticos est´a em uma aproxima¸c˜ao de campo m´edio simples [14]. Podemos descrever a evolu¸c˜ao temporal da m´edia hσii atrav´es da equa¸c˜ao mestra

d

dthσii = −2hσiwi(σ)i. (2.50)

Adotando σ0 para o agente central e σ1,2,3,4 para seus vizinhos, usando (2.48),

tere-mos d dthσ0i = −hσ0i + 3 8(1 − 2q) (hσ1i + hσ2i + hσ3i + hσ4i) − (1 − 2q) 8 (hσ1σ2σ3i + hσ1σ2σ4i + hσ1σ3σ4i + hσ2σ3σ4i) . (2.51)

(34)

At´e aqui n˜ao realizamos nenhuma aproxima¸c˜ao. No entanto para determinar a evolu¸c˜ao de hσ0i precisamos ter de antem˜ao as correla¸c˜oes de trˆes pontos, como por

exemplo de hσ1σ2σ3i. Por isso, vamos desprezar as correla¸c˜ao fazendo hσ1σ2σ3i =

hσ1ihσ2ihσ3i. Al´em disso, vamos considerar o sistema invariante translacionalmente,

tal que hσ0,1,2,3,4i = m. Desse modo a equa¸c˜ao (2.51) fica

d

dtm = − m −

(1 − 2q)

2 m

3, (2.52)

onde  = 1 − 32(1 − 2q). Multiplicando-se a equa¸c˜ao por m e integrando temos

m2(t) = 2m0

e2t(2 + (1 − 2q)m2

0) − (1 − 2q)m20

. (2.53)

No regime estacion´ario (tempo t → ∞) a equa¸c˜ao (2.54) fornece duas solu¸c˜oes. Se  > 0 ent˜ao m2(t) = 0, ou seja, fase desordenada. No entanto se  < 0 ent˜ao

m2(t) = m∗ = s 2|| 1 − 2q = s 1 − 6q 1 − 2q . (2.54)

Portanto, podemos descrever o parˆametro de ordem do sistema como m∗ ∼ (qc−q)β,

onde qc = 1/6 e β = 1/2. Novamente, encontramos o mesmo expoente da equa¸c˜ao

(35)

Cap´ıtulo 3

Transi¸

ao de fase para estados

absorventes em um modelo de

forma¸

ao de opini˜

oes

3.1

Introdu¸

ao

Nos ´ultimos anos, tem-se dado muita aten¸c˜ao aos chamados modelos de troca

cin´etica de opini˜ao (do inglˆes kinetic exchange opinion models) (MTCO) [22, 24,

28, 29], inspirados nos modelos de transa¸c˜oes financeiras [30, 31, 32]. O modelo

LCCC foi o primeiro a considerar trocas cin´eticas entre pares de agentes com

esta-dos (opini˜oes) cont´ınuos [24]. Neste caso, o modelo apresenta uma transi¸c˜ao de fase

cont´ınua entre um estado absorvente, onde todos os agentes possuem opini˜ao nula,

e uma fase onde todos os agentes tˆem opini˜ao positiva (negativa) − vide cap´ıtulo

2. Posteriormente, algumas extens˜oes desse trabalho foram analisadas para opini˜oes tanto cont´ınuas quanto discretas. Por exemplo, a adi¸c˜ao de intera¸c˜oes competitivas [22], intera¸c˜oes entre trˆes agentes [29], dinˆamica envolvendo convic¸c˜oes pr´oprias (do inglˆes dynamic self-confidence) [33], presen¸ca de agentes inflex´ıveis [34], entre

ou-tras, similarmente ao que foi feito anteriormente em outros modelos de dinˆamica de

(36)

O processo de tomada de decis˜ao tem sido investigado em diversos trabalhos em Psicologia [3, 4] e Neurociˆencia [5, 6, 7]. J´a em dinˆamicas de opini˜ao, encontramos v´arios modelos f´ısicos que explicam o processo de tomada de decis˜ao ou de troca de opini˜oes atrav´es da intera¸c˜ao entre agentes [2]. Utilizando trocas cin´eticas (MTCO [22, 24, 28, 29]), imita¸c˜ao (modelo do votante - “voter model” [36], o modelo Sznajd

[37]) ou ainda a persuas˜ao de uma maioria local (modelo da regra da maioria [25],

modelo do votante majorit´ario [23]), dentre outros. Contudo, a inclus˜ao de ru´ıdo e

desordem tamb´em pode ser considerada nesses modelos [2, 38, 39, 40].

Usualmente, os modelos de dinˆamica de opini˜oes discretas consideram dois posici-onamentos ou opini˜oes diferentes o = ±1 (sim ou n˜ao, direita ou esquerda, candidato A ou candidato B). Eles podem ser enriquecidos incluindo-se um terceiro estado, o = 0, representando o estado neutro ou indeciso. A indecis˜ao ´e um fenˆomeno atual

e crescente que pode afetar tanto democracias novas ou consolidadas [41]. V´arios

motivos podem levar um indiv´ıduo a se tornar indeciso ou neutro, pode ser

associ-ado, por exemplo, a um anticonformismo/inconformismo `as propostas de ambos os

lados do debate. O impacto da indecis˜ao/neutralidade foi considerado recentemente

em v´arios trabalhos [22, 29, 34, 41, 42, 43, 44, 45, 46].

Neste cap´ıtulo consideraremos um MTCO discretas na presen¸ca de ru´ıdo e de-sordem. Al´em da intera¸c˜ao de pares aleat´oria, incluiremos um ru´ıdo de indecis˜ao

que afeta significativamente a dinˆamica do sistema. Nosso objetivo ´e analisar o

comportamento cr´ıtico do sistema. Neste caso, baseados em resultados anal´ıticos e num´ericos, encontramos trˆes transi¸c˜oes de fase diferentes, a chamada transi¸c˜ao de fase ferro-paramagn´etica usual, e duas transi¸c˜oes distintas para um estado absor-vente: a partir de um estado ferromagn´etico e a partir de um estado paramagn´etico. Os resultados deste cap´ıtulo est˜ao publicados na referˆencia [9].

3.2

Modelo e Resultados

(37)

positi-completamente conectada. No instante t cada agente i possui uma de trˆes opini˜oes oi(t) = +1, −1, 0. Os agentes v˜ao interagir de acordo com as regras microsc´opicas:

1. escolhemos dois agentes ao acaso, i e j, de forma que o agente j vai influenciar o agente i;

2. com probabilidade 1 − q o agente i vai atualizar sua opini˜ao no instante t + 1 segundo a regra de intera¸c˜ao cin´etica: oi(t + 1) = sgn[oi(t) + µijoj(t)];

3. com probabilidade q, o agente i torna-se neutro: oi(t + 1) = 0.

Na regra 2 acima, sgn(x) ´e a fun¸c˜ao sinal tal que sgn(0) = 0, garantindo que os

agentes est˜ao restritos ao conjunto de opini˜oes do modelo [22, 29, 34]. O termo

de acoplamento µij ´e uma vari´avel aleat´oria do tipo congelada (“quenched ” - se

mant´em constante em uma simula¸c˜ao) que segue a distribui¸c˜ao de probabilidades

F (µij) = p δ(µij+ 1) + (1 − p) δ(µij− 1). Logo o parˆametro p representa a fra¸c˜ao de

intera¸c˜oes negativas. Sabe-se que a inclus˜ao de intera¸c˜oes negativas produz um efeito similar `a introdu¸c˜ao dos contr´arios de Galam na popula¸c˜ao [25, 26]. Al´em disso, intera¸c˜oes competitivas tamb´em j´a foram estudadas em modelagem de forma¸c˜ao de coliga¸c˜oes [47]. Enfatizamos que o produto µijoj(t) n˜ao ´e uma soma sobre j. J´a a

probabilidade q age como um ru´ıdo no sistema, ela permite que um indiv´ıduo tome

uma decis˜ao autˆonoma para se tornar neutro [48, 49]. Este comportamento pode ser

relacionado com uma volatilidade onde um indiv´ınduo espontaneamente muda de opini˜ao. Em um cen´ario de vota¸c˜ao com dois candidatos (Trump x Hillary ou ainda

Crivella x Freixo, em exemplos recentes), se um dado agente n˜ao concorda com

os argumentos apresentados por ambos, este pode decidir n˜ao votar em nenhum

dos dois candidatos, e assim tornar-se neutro. Neste caso, a indecis˜ao deve ser

desassociada dos ru´ıdos usuais, como por exemplo a independˆencia, uma vez que

prioriza apenas o estado neutro.

Fazendo q = 0, o sistema apresenta uma transi¸c˜ao de fase fora do equil´ıbrio em

pc = 1/4 [22]. Na fase ordenada/ferromagn´etica os agentes com opini˜oes extremas

(38)

os trˆes estados s˜ao igualmente populados com 1/3 da popula¸c˜ao total.

Sejam f1, f−1, f0 as densidades de indiv´ıduos com opini˜oes +1, −1, 0,

respecti-vamente. E ainda, seja O o parˆametro de ordem do sistema definido da seguinte

forma O = * 1 N N X i=1 oi + , (3.1)

onde h. . .i representa m´edias temporais e m´edias de realiza¸c˜oes tomadas no estado estacion´ario. A evolu¸c˜ao temporal de O ´e obtida atrav´es das probabilidades que

aumentam e diminuem o parˆametro de ordem do sistema, como feito em [22, 29].

Por exemplo, a probabilidade de um agente com opini˜ao −1 tornar-se neutro pelo

ru´ıdo q ´e dada pelo produto qf−1, al´em disso, esta mudan¸ca do estado o = −1 para

o = 0 faz O aumentar. Como outro exemplo, se dois agentes ambos com opini˜ao +1

interagirem negativamente (µij = −1), a probabilidade ser´a dada por (1 − q)pf12, e

portanto nesta intera¸c˜ao O diminui. Assim, podemos escrever uma equa¸c˜ao mestra

para O considerando todas as transi¸c˜oes poss´ıveis entre as opini˜oes,

d dtO = qf−1+ (1 − q)[(1 − p)f1f−1+ pf 2 −1+ (1 − p)f0f1+ pf0f−1] − − qf1− (1 − q)[(1 − p)f1f−1+ pf12+ (1 − p)f0f−1+ + pf0f1] = 0 . (3.2)

No estado estacion´ario, dO/dt = 0, e encontramos duas solu¸c˜oes para a equa¸c˜ao

acima. Usando a condi¸c˜ao de normaliza¸c˜ao f1+ f−1+ f0 = 1, temos 2f1+ f0 = 1

que implica em f1 = f−1 = (1 − f0)/2 (solu¸c˜ao na fase desordenada), ou

f0 =

q + p(1 − q)

(1 − p)(1 − q) , (3.3)

que nos d´a a fra¸c˜ao de indiv´ıduos indecisos na fase ordenada. Caso q = 0

recu-peramos f0 = p/(1 − p), como na referˆencia [22]. Analogamente ao procedimento

(39)

diminuem a densidade f0. Assim obtemos: d dt f0 = q(f1+ f−1) + p(1 − q)(f 2 1 + f 2 −1) + 2(1 − p)(1 − q)f1f−1− − (1 − p)(1 − q)f0(f1+ f−1) − p(1 − q)f0(f1+ f−1) . (3.4)

No estado estacion´ario, temos df0/dt = 0, o que nos d´a na fase paramagn´etica (onde

f1 = f−1 = 1−f20) (1 − q) 1 − f0 2 !2 = [(1 − q)f0− q] 1 − f0 2 ! , (3.5)

onde obtemos duas solu¸c˜oes: ou f0 = 1 que vamos descartar para analisar as outras

duas fra¸c˜oes f1 e f−1 [22], ou

f0 =

1 + q

3(1 − q). (3.6)

A equa¸c˜ao acima representa a densidade de agentes neutros na fase paramagn´etica.

Igualando as solu¸c˜oes de f0 na fase ferromagn´etica e paramagn´etica temos:

qc(p) =

1 − 4p

2(1 − p) . (3.7)

A express˜ao qc(p) separa as fases ferromagn´etica e paramagn´etica. Al´em disso

recu-peramos f0 = 1/3 e pc = 1/4 quando q = 0 [22].

Para obter uma express˜ao anal´ıtica para o parˆametro de ordem, vamos analisar

as taxas envolvendo a popula¸c˜ao de agentes com opini˜ao o = +1. A equa¸c˜ao mestra para f1 ´e d dt f1 = (1 − q) [(1 − p)f0f1+ pf0f−1] − (1 − q) h pf12+ (1 − p)f1f−1 i − − qf1 . (3.8)

(40)

0 0.2 0.4 0.6 0.8 1 0 0.1 0.2 0.3 0.4 0.5 0.6 0.7 f1 q p = 0.0 p = 0.1 p = 0.2 f1 = f-1

Figura 3.1: Fra¸c˜ao de opini˜oes +1 no estado estacion´ario contra q para valores t´ıpicos de p obtida pela equa¸c˜ao (3.9). Para um valor fixo de p, escolhendo q < qc(p) temos

duas possibilidades para f1. A curva em preto f1 = f−1 representa a solu¸c˜ao de f1

na fase paramagn´etica.

Usando a normaliza¸c˜ao e a express˜ao de f0 na fase ferromagn´etica, equa¸c˜ao (3.3),

obtemos uma equa¸c˜ao para f1 no estado estacion´ario,

f1 =

(2p − 1)[1 − 2(p + q − pq)] ±√∆

2(1 − p)(2p − 1)(1 − q) , (3.9)

onde

∆ = (1 − 2p)[1 − 2(p + q − pq)][1 − 2(2p + q − pq)] . (3.10)

A express˜ao para f1 pode ser observada na figura 3.1. Al´em disso, como a

equa¸c˜ao (3.9) prediz, h´a dois resultados poss´ıveis (referentes aos sinais ±) onde se um representa a fra¸c˜ao f1 ent˜ao o outro representa fra¸c˜ao f−1, quando q < qc(p).

Isto ´e, ou f1 = −B +√∆ 2A e f−1 = −B −√∆ 2A , (3.11) ou f1 = −B −√∆ 2A e f−1 = −B +√∆ 2A , (3.12) usando B = −(2p − 1)[1 − 2(p + q − pq)] e A = (1 − p)(2p − 1)(1 − q). Ainda na

(41)

f−1) n˜ao ser´a populada quando p = 0.

Uma outra forma de obter o parˆametro de ordem, equa¸c˜ao (3.1) ´e O = |f1−f−1| =

|2f1+ f0− 1|. Considerando as equa¸c˜oes (3.3) e (3.9) para f0 e f1, respectivamente,

obtemos

O =

q

[1 − 2(p + q − pq)] [1 − 2(2p + q − pq)]

(1 − p)(1 − q)√1 − 2p . (3.13)

A partir da equa¸c˜ao (3.13) pode-se ver que o consenso s´o ´e alcan¸cado quando p = q = 0, ou seja, na ausˆencia de intera¸c˜oes negativas e ru´ıdo de indecis˜ao todos os

agentes do sistema v˜ao compartilhar a mesma opini˜ao +1 ou −1 (veja as figuras

3.1 e 3.2). Para obter o expoente cr´ıtico β que governa o parˆametro de ordem na

vizinhan¸ca da transi¸c˜ao de fase ordem-desordem, vamos simplificar a express˜ao para O usando as equa¸c˜oes (3.3) e (3.7). Neste caso,

O = v u u t 2(1 − f0)(q − qc) (1 − q)(2p − 1) , (3.14)

onde f0 ´e dado pela equa¸c˜ao (3.3), logo esta solu¸c˜ao ´e v´alida na fase ferromagn´etica.

Ou seja, podemos escrever o parˆametro de ordem da forma usual O ∼ (q − qc)β,

onde β = 1/2, um expoente t´ıpico de Ising em campo m´edio em uma transi¸c˜ao

de fase ferro-paramagn´etica, sugerindo que nosso modelo est´a na mesma classe de

universalidade do modelo de Ising em campo m´edio, como era de se esperar devido

ao car´ater das intera¸c˜oes em campo m´edio.

Por outro lado, para p = 0 o sistema apresenta outro comportamento. Fazendo p = 0 na equa¸c˜ao (3.3) obtemos

f0(p = 0) =

q

1 − q . (3.15)

Usando este resultado, qc(p = 0) = 1/2 obtido na equa¸c˜ao (3.7) e colocando p = 0

na equa¸c˜ao (3.14), o parˆametro de ordem pode ser reescrito como

O(p = 0) = 2q − 1

(42)

portanto, O(p = 0) ∼ (q − qc)β, onde β = 1 e qc = 1/2. Al´em disso, usando

q = qc = 1/2 na equa¸c˜ao (3.15), teremos f0 = 1, o que implica em f1 = f−1 = 0 por

causa da normaliza¸c˜ao. Este resultado nos diz que para q > 1/2 e p = 0 todos os

agentes v˜ao estar no estado neutro o = 0. Observando as regras microsc´opicas que

definem o modelo, vemos que o sistema vai permanecer neste estado para sempre,

o que indica uma fase absorvente. Portanto, com p = 0 teremos uma transi¸c˜ao de

fase ativo-absorvente (ferromagn´etico-absorvente), ou seja, o comportamento cr´ıtico

´e afetado e o sistema pode ser mapeado na classe de universalidade da percola¸c˜ao

direcionada (ou processo de contato) [15, 20, 50].

Como foi discutido anteriormente, se p 6= 0 ent˜ao o parˆametro de ordem vai

a zero com β = 1/2, indicando uma transi¸c˜ao de fase no ponto cr´ıtico qc(p) dado

pela equa¸c˜ao (3.7). Continuando nossa an´alise, para q > qc(p) a solu¸c˜ao de f0,

equa¸c˜ao (3.3), na fase ferromagn´etica deixa de ser v´alida. Sendo assim, a solu¸c˜ao v´alida para f0 passa a ser dada pela equa¸c˜ao (3.6), v´alida na fase paramagn´etica.

Ent˜ao podemos reescrever a express˜ao para as densidades de indiv´ıduos na fase

paramagn´etica, f1 = f−1= (1 − f0)/2, obtendo

f1 = f−1 =

1 − 2q

3(1 − q) , (3.17)

ilustrado na figura 3.1 como resultado para f1 = f−1. ´E poss´ıvel observar na equa¸c˜ao

(3.17) que f1 < 0 e f−1 < 0 para q > 1/2. Por´em estes resultados n˜ao s˜ao f´ısicamente

aceit´aveis, portanto a solu¸c˜ao v´alida para q > 1/2 ´e f1 = f−1 = 0 e f0 = 1. Al´em

disso, como O = 0 na fase paramagn´etica, usaremos outro parˆametro de ordem para

analisar o sistema na vizinhan¸ca de q = 1/2,

¯

O = 1 − f0

2 =

1 − 2q

3(1 − q) , (3.18)

onde usamos a equa¸c˜ao (3.6). Neste caso, temos ¯O = 0 na fase absorvente (onde

(43)

0 0.2 0.4 0.6 0.8 1 0 0.1 0.2 0.3 0.4 0.5 0.6 0.7 O q p = 0.0 p = 0.1 p = 0.2 p = 0.3 0 0.03 0.06 0.09 0.12 0.3 0.4 0.5 0.6

Figura 3.2: Parˆametro de ordem O contra o ru´ıdo q para valores t´ıpicos de p. Os

pontos foram obtidos atrav´es de simula¸c˜oes num´ericas e as linhas s˜ao dadas pela equa¸c˜ao (3.13). Para p > pc= 1/4 o sistema n˜ao apresenta transi¸c˜ao de fase

ferro-paramagn´etica. Para p > 0 o modelo apresenta uma transi¸c˜ao ferro-paramagn´etica nos pontos dados pela equa¸c˜ao (3.7) e uma transi¸c˜ao paramagn´etica-absorvente em

qc = 1/2. Em detalhe, vemos que O = 0 para q ≥ 1/2 para todos valores de p. O

tamanho da popula¸c˜ao ´e N = 104, e os resultados s˜ao tomados em m´edias sobre 100

simula¸c˜oes independentes.

o sistema vai para o estado absorvente com todos agentes no estado neutro o = 0

(ou ainda f0 = 1), independentemente de p. Logo, podemos ter uma transi¸c˜ao do

tipo ativo-absorvente para p = 0, ou paramagn´etico-absorvente para p > 0, ambas

em qc = 1/2 e pertencentes `a classe de universalidade da percola¸c˜ao direcionada

(expoente cr´ıtico β = 1) [15, 20, 50]. Esta ´e a primeira vez que uma transi¸c˜ao

para-absorvente aparece em modelos de trocas cin´eticas de opini˜oes.

Para complementar os resultados, realizamos simula¸c˜oes num´ericas para

po-pula¸c˜oes com N = 104 indiv´ıduos. Obtivemos o parˆametro de ordem via equa¸c˜ao

(3.1). Os resultados para O contra q para valores t´ıpicos de p podem ser observados na figura 3.2, juntamente com o resultado anal´ıtico dado pela equa¸c˜ao (3.13). H´a

transi¸c˜oes de fase em diferentes pontos qc dependendo do valor de p, com efeito

de tamanho finito usual para p = 0.1, 0.2 e 0.3 (veja no detalhe da figura 3.2).

Al´em disso, podemos ver que o parˆametro de ordem vai exatamente para zero para

q ≥ 1/2, independentemente do valor de p, confirmando a transi¸c˜ao para um estado

(44)

Finalmente, n´os estimamos outros expoentes cr´ıticos via simula¸c˜oes num´ericas, uma vez que nosso resultado anal´ıtico nos d´a somente os pontos cr´ıticos e o expoente β. Para a transi¸c˜ao de fase ferro-paramag´etica, n´os utilizamos as rela¸c˜oes usuais para an´alise de tamanho finito (ATF),

O(N ) ∼ N−β/ν , (3.19)

V (N ) ∼ Nγ/ν , (3.20)

q − qc ∼ N−1/ν , (3.21)

onde V = N [< O2 > − < O >2], que s˜ao v´alidas na vizinhan¸ca da transi¸c˜ao. E para

as transi¸c˜oes com estados absorventes (ferro-absorvente e para-absorvente), usamos

as rela¸c˜oes dinˆamicas para ATF [15, 20],

O(t) ∼ t−δ , (3.22)

q − qc ∼ t−1/ν|| . (3.23)

Na figura 3.3 h´a resultados para p = 0.1 como exemplo. No quadro (a) vemos o

resultado do colapso para a susceptibilidade V (N ) nas proximidades da transi¸c˜ao

ferro-paramagn´etica, onde os valores obtidos foram expoentes de Ising em campo

m´edio γ ≈ 1 e ν ≈ 2, que s˜ao os expoentes padr˜ao para modelos com troca cin´etica

de opini˜oes na aproxima¸c˜ao de campo m´edio [22, 24, 29, 34]. Na figura 3.3 (b)

vemos a evolu¸c˜ao temporal do parˆametro de ordem (em detalhe) na vizinhan¸ca da

transi¸c˜ao de fase para-absorvente e o resultado do colapso (na figura principal), para

valores pr´oximos ao ponto cr´ıtico qc = 1/2. Nossas estimativas para os expoentes

cr´ıticos δ e ν||est˜ao de acordo com os valores para percola¸c˜ao direcionada (e processo

de contato), δ ≈ 1 e ν|| ≈ 1 [15, 20]. Esses expoentes tamb´em podem ser obtidos

analiticamente, como discutido no Apˆendice.

Em resumo, na figura 3.4 n´os apresentamos o diagrama de fases para o modelo

(45)

0 0.05 0.1 0.15 0.2 -5 0 5 10 V N − γ / ν (q − qc) N 1 / ν N = 1000 N = 2000 N = 5000 N = 10000 0 5 10 15 0 0.2 0.4 0.6 V q 10-3 10-2 10-1 100 101 102 103 104 10-2 10-1 100 101 102 103 104 t δ O(t) t1/ν|| (q - q c) 10-6 10-4 10-2 100 100 101 102 103 O(t) t

Figura 3.3: Gr´afico de algumas quantidades de interesse para p = 0.1. (a)

Sus-ceptibilidade V pr´oximo da transi¸c˜ao ferro-paramagn´etica para valores t´ıpicos do

tamanho da popula¸c˜ao N . O melhor colapso foi obtido para os valores γ ≈ 1,

1/ν ≈ 1/2 e qc ≈ 0.33, considerando as rela¸c˜oes (3.20) e (3.21). (b) Parˆametro de

ordem O para N = 105 para diferentes valores de q pr´oximo da transi¸c˜ao de fase

para-absorvente. O melhor colapso foi obtido para os valores δ ≈ 1, 1/ν|| ≈ 1 e

qc ≈ 0.5, considerando as rela¸c˜oes (3.22) e (3.23). Todos dados foram obtidos a

partir de m´edias sobre 100 simula¸c˜oes independentes.

q > ¯qc = 1/2 representa a fase absorvente, para todos os valores de p, e tamb´em ´e

poss´ıvel ver a transi¸c˜ao ferro-absorvente no eixo p = 0.

3.3

Conclus˜

oes

Estudamos como a inclus˜ao das intera¸c˜oes de pares negativas (desordem) e indecis˜ao (ru´ıdo) afeta o comportamento cr´ıtico do modelo com trocas cin´eticas de opini˜oes.

O agente pode estar em um dos trˆes estados (opini˜oes) poss´ıveis, representados

por vari´aveis discretas o = +1, −1 e o = 0. A topologia da sociedade ´e dada por

uma rede completamente conectada. A desordem ´e governada pelo parˆametro p,

representando a fra¸c˜ao de intera¸c˜oes negativas, e o ru´ıdo ´e controlado pelo parˆametro q, representando a probabilidade de uma troca espontˆanea para o estado neutro. N´os

analisamos o comportamento cr´ıtico do sistema nos estados estacion´arios.

O consenso relativo a uma das opini˜oes extremas +1 ou −1, onde todos agentes

possuem a mesma opini˜ao o = 1 (o = −1), ´e alcan¸cado somente quando os dois

ingredientes, desordem e ru´ıdo, s˜ao completamente ausentes (p = q = 0). Para um

(46)

0 0.1 0.2 0.3 0.4 0.5 0.6 0.7 0 0.05 0.1 0.15 0.2 0.25 0.3 q p Absorvente Paramagnética Ferromagnética

Figura 3.4: Diagrama de fases do modelo no plano q contra p. A regi˜ao em azul

representa a fase absorvente, e a curva em vermelho representa divisa entre as fases

ferromagn´etica e paramagn´etica, equa¸c˜ao (3.7). Note que para p = 0 o sistema

apresenta um transi¸c˜ao de fase ativo-absorvente.

(ordenada), onde uma das duas opini˜oes extremas +1 ou −1 ´e compartilhada pela

maioria da popula¸c˜ao. Este estado representa a situa¸c˜ao onde um dos dois t´opicos

em debate vence, e apresenta um parˆametro de ordem 0 < O < 1. N´os tamb´em

encontramos os pontos qc(p) que separam a fase ferromagn´etica (ordenada) da fase

paramagn´etica (desordenada). Nesta ´ultima fase, as fra¸c˜oes de opini˜oes extremas

s˜ao iguais e temos um parˆametro de ordem nulo, O = 0. Neste caso o debate

n˜ao apresenta um lado vencedor. O expoente cr´ıtico associado ao parˆametro de

ordem foi obtido analiticamente como β = 1/2, e encontramos via simula¸c˜ao de

Monte Carlo estimativas para os outros expoentes, γ ≈ 1 e ν ≈ 2, t´ıpicos expoentes

de campo m´edio pertencentes `a classe de universalidade do modelo de Ising. Neste

caso, nossos resultados apresentam os efeitos de tamanho finito t´ıpicos no parˆametro

ordem quando o sistema passa pela trasi¸c˜ao de fase ordem-desordem.

Por outro lado, para p = 0, ou seja, na ausˆencia das intera¸c˜oes negativas, o

sistema ´e governado apenas pelo ru´ıdo q. Neste caso, nossos resultados num´ericos

e anal´ıticos mostram que h´a um ponto cr´ıtico em qc(p = 0) = 1/2 acima do qual o

sistema est´a em um estado absorvente. Neste estado, todos os agentes se tornam

(47)

os efeitos de tamanho finito usuais de transi¸c˜oes ordem-desordem. Nosso resultado

anal´ıtico prediz um expoente β = 1 para o parˆametro de ordem na vizinhan¸ca

da transi¸c˜ao, e numericamente n´os estimamos outros expoentes, δ ≈ 1 e ν|| ≈ 1.

Os valores desse conjunto de expoentes s˜ao tipicamente encontrados em percola¸c˜ao

direcionada em campo m´edio, um prot´otipo de transi¸c˜ao de fase para um estado

absorvente. [15, 20, 50].

E finalmente, considerando o caso p 6= 0 e q ≥ qc(p), quando o sistema est´a em

estado paramagn´etico, n´os observamos outra transi¸c˜ao. Nesse caso, para q > 1/2 o

sistema sempre estar´a no estado absorvente, ∀p. Esta fase ´e a mesma observada no

caso p = 0, mas agora o sistema parte de uma fase paramagn´etica com parˆametro

de ordem nulo para um estado absorvente tamb´em com O = 0. Neste caso, para

calcularmos o expoente cr´ıtico β, definimos outro parˆametro de ordem baseado na

fra¸c˜ao estacion´aria f0 de agentes indecisos, dado por ¯O = (1 − f0)/2. Temos ¯O 6= 0

na fase paramagn´etica, com opini˜oes as extremas +1 e −1 coexistindo com o estado

neutro 0, e temos ¯O = 0 na fase absorvente, com f0 = 1. Nesse caso, tamb´em

observamos um expoente β = 1, e a transi¸c˜ao paramagn´etico-absorvente tamb´em

(48)

Cap´ıtulo 4

Transi¸

ao de fase no modelo do

votante majorit´

ario na presen¸

ca de

dois ru´ıdos

4.1

Introdu¸

ao

O modelo do votante majorit´ario vem sendo estudado intensamente nos ´ultimos 20

anos [23]. Em sua formula¸c˜ao original, cada s´ıtio de uma rede quadrada possui uma

vari´avel que assume os estados ±1 (spin de Ising) associados com as opini˜oes de um indiv´ıduo em um dado grupo social. A evolu¸c˜ao temporal do modelo ´e governada por uma dinˆamica centralizadora, onde o s´ıtio central ´e influenciado por seus vizinhos

mais pr´oximos: um indiv´ıduo localizado no s´ıtio central adota o sinal da maioria

dos spins em sua vizinhan¸ca com probabilidade 1 − q ou o sinal oposto ao sinal

da maioria dos spins com probabilidade q. Os resultados num´ericos indicam que o

modelo exibe uma transi¸c˜ao de fase fora do equil´ıbrio no ru´ıdo cr´ıtico qc ≈ 0.075,

e os expoentes cr´ıticos obtidos s˜ao os mesmos para o modelo de Ising em 2D no

equil´ıbrio, ou seja, β ≈ 0.125, γ ≈ 1.75 e ν ≈ 1.0 [23]. A transi¸c˜ao separa uma fase

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