MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL Procuradoria da República em Minas Gerais

Texto

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PR-MG-MANIFESTAÇÃO-17071/2020

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL Procuradoria da República em Minas Gerais

Inquérito policial nº 21077-53.2017.4.01.3800 - SIGILOSO IP nº 391/2017 - SR/DPF/MG

Promoção de Arquivamento

5ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal

Exmos. Membros da 5ª Câmara,

Trata-se de inquérito policial instaurado em 29/03/2017 por iniciativa da Superintendência Regional da Polícia Federal em Minas Gerais para inicialmente investigar a suspeita da prática do crime previsto no art. 312, do Código Penal, cometido durante a concepção e execução do Projeto Memorial da Anistia Política no Brasil (MAP), em convênio firmado em 2009 pelo Ministério da Justiça (MJ) com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Como primeira diligência, a autoridade policial determinou: (i) a realização de pesquisas e diligências veladas a fim de identificar a existência de acervo destinado a

“Exposição de longa duração do Memorial da Anistia Política no Brasil”; (ii) a expedição de ofício à Secretaria de Controle Externo do TCU em Minas Gerais (SECEX/TCU/MG) solicitando informações sobre eventuais apurações dos contratos firmados pela UFMG, especialmente os contratos nº 121/2010, com a Fundação de Desenvolvimento e Pesquisa (FUNDEP) e nº 24/2012, firmado com a Construtora JRN Ltda. e (iii) a expedição de ofício à Controladoria-Geral da União, por meio de seu órgão regional de representação (CRU/MG) solicitando informações sobre eventuais apurações dos contratos firmados pela UFMG, especialmente os contratos nº 121/2010, com a Fundação de Desenvolvimento e Pesquisa (FUNDEP) e nº 24/2012, firmado com a Construtora JRN Ltda. (fl. 82).

Às fls. 87/122, juntadas informações da CGU/CRU/MG, dentre as quais a Nota Técnica nº 639/2017, que lista supostas irregularidades na execução do contrato nº 121/2010, firmado entre a UFMG e a fundação de pesquisa vinculada, a FUNDEP.

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Às fls. 123/130, veio aos autos a Informação policial nº 762/2017, em cumprimento à ordem de realização de diligências veladas a fim de identificar a existência de acervo destinado a “Exposição de longa duração do Memorial da Anistia Política no Brasil”.

Às fls. 166/180, juntada prestação de contas da FUNDEP, em meio eletrônico, referente ao Contrato nº 121/2010.

Às fls. 197/217, veio aos autos a Informação policial nº 862/2017, em que se analisou a prestação de contas da FUNDEP, referente ao Contrato nº 121/2010.

Às fls. 227/228, juntado ofício da SECEX/TCU/MG, com cópia do Relatório de Fiscalização 372/2016 (peça 2 do TC 003.410/2017-0, originado do TC 024.413/2016-0), em meio eletrônico.

Às fls. 229/242, veio aos autos planilha orçamentária da Construtora JRN Ltda., concorrência nº 06/2012, bem como a Nota Técnica nº 1009/2017, ambos documentos apresentados pela CGU/CRU/MG.

Às fls. 243/257, juntada a Informação policial nº 1535/2017.

Às fls. 263/264, veio aos autos ofício da CGU/CRU/MG, com a relação dos responsáveis pela gerência financeira do projeto do Memorial da Anistia Política na FUNDEP.

Às fls. 273/274, encaminhados pela CGU/CRU/MG quatro pendrives contendo os produtos produzidos até então para o Projeto Memorial da Anistia Política.

De ordem da autoridade policial, foi determinado a abertura de apensos para abarcar os documentos referentes a requerimentos de bolsas de pesquisa/extensão e ordens de pagamento (apenso I, vol. I e apenso II, vol. I, fls. 307/308), bem como juntadas notas técnicas da CGU/CRU/MG (fls. 276/306).

E m maio de 2017, a autoridade policial representou pelo afastamento do sigilo bancário das empresas SANTA ROSA BUREAU CULTURAL e CONSTRUTORA

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JRN LTDA., bem como da FUNDEP, além de requerer o compartilhamento de provas com a CGU e o TCU (fls. 03/36 dos autos nº 21079-23.2017.4.01.3800, em anexo).

O Ministério Público Federal manifestou-se favoravelmente, tendo o Juízo Federal da 9ª Vara deferido os pedidos (fls. 37/38 e 39/44 dos autos nº 21079- 23.2017.4.01.3800, em anexo), sendo mais tarde ampliada a quebra para outras contas da FUNDEP (fls. 71/74 dos autos nº 21079-23.2017.4.01.3800, em anexo) e para os investigados HELOÍSA MARIA MURGEL STARLING, RAFAEL DA CRUZ ALVES e WILKIE BUZATTI ANTUNES (fls. 100/102 dos autos nº 21079-23.2017.4.01.3800, em anexo), ambas as ampliações com pareceres favoráveis deste MPF (fls. 68/70 e 93-v., dos autos nº 21079-23.2017.4.01.3800, em anexo).

Também foram realizadas interceptações telefônicas (autos nº 21081- 90.2017.4.01.3800 e nº 42917-97.2017.4.01.3800).

E m outubro de 2017, a autoridade policial representou pela prisão temporária de ANTÔNIO DE ASSIS, pela condução coercitiva de HELOÍSA MARIA MURGEL STARLING, JAIME ARTURO RAMIREZ, SANDRA REGINA GOULART ALMEIDA, ROCKSANE DE CARVALHO NORTON, SILVANA MARIA LEAL COSER, ALFREDO GONTIJO DE OLIVEIRA, SANDRA REGINA DE LIMA e MARIA ELEONORA BARROSO SANTA ROSA, além de busca e apreensão em endereços indicados na petição de fls. 02/70 dos autos nº 45490-73.2017.4.01.3800, em anexo.

O MPF manifestou-se pelo indeferimento da prisão temporária e das conduções coercitivas e pelo deferimento da busca e apreensão (fls. 72/80 dos autos nº 45490-73.2017.4.01.3800, em anexo).

O Juízo Federal da 9ª Vara indeferiu a prisão temporária e deferiu as condições coercitivas, bem como a busca e apreensão (fls. 85/94).

A s conduções coercitivas foram realizadas em 06/12/2017, com a deflagração da denominada Operação Esperança Equilibrista, conduzida no bojo desse inquérito, onde foram inquiridos JAIME ARTURO RAMIREZ (fls. 329/332), SANDRA REGINA GOULART ALMEIDA (fls. 333/335), HELOÍSA MARIA MURGEL STARLING (fls. 337/341), ROCKSANE DE CARVALHO NORTON (fls. 344/346), SILVANA MARIA LEAL COSER (fls. 349/357), ALFREDO GONTIJO DE OLIVEIRA (fls. 360/363),

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SANDRA REGINA DE LIMA (fls. 366/368) e em 14/12/2017, compareceu MARIA ELEONORA BARROSO SANTA ROSA (fls. 423/427).

Laudo de perícia criminal veio às fls. 434/467.

Após, foram inquiridos ANTÔNIO DE ASSIS (fls. 500/502), ALBERTO ANTÔNIO DE OLIVEIRA (fls. 507/508), LEOCIMAR MARCOS DOS SANTOS (fl. 509), MARCUS DE QUEIROZ FERREIRA (fl. 511), ROSÂNGELA DA SILVA SANTOS (fls.

513/514), SÉRGIO RENATO DINIZ ARAÚJO (fl. 515), THOBILA GABRIELA DE LIMA COSTA SOUZA (fl. 517), VERA LÚCIA MAGALHÃES SILVA (fl. 519), LEDA MARIA MARTINS (fls. 521/523), SANDRA REGINA DE LIMA (fls. 525/526), ROSSILENE AZEVEDO ROSSI DIANA (fl. 532).

Às fls. 535/546, juntada informação da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e Segurança Pública, informando, dentre outras solicitações da Polícia Federal, a instauração de sindicância administrativa em 26/06/2017.

Relatório de análise de material apreendido veio às fls. 552/554.

À fls. 585/592, juntada Nota técnica nº 134/2018 da CGU/CRU/MG, em que analisa a conduta de servidores ativos e inativos (aposentados) da UFMG.

Laudo de perícia contábil financeira veio às fls. 629/640.

Após, foram inquiridos ISABELA ROCHA NUNES DE LIMA (fls. 661/662), LÍVIA SPINOLA DE ANDRADE (fl. 664), FLÁVIA CRISTINA PACHECO PAES (fl. 666), PATRÍCIA MARIA OLIVEIRA RODRIGUES ACÁCIO (fl. 668), EID SOUZA REIS (fl.

670), CAIO PYLRO DE GOUVÊA (fls. 672/673), MARIANA FERREIRA ESTRELA (fls.

701/702), ANA EMÍLIA DE CARVALHO (fls. 704/705), CARLOS EDUARDO FRANKIW DE ANDRADE (fls. 712/713), MÁRCIO DOS SANTOS RODRIGUES (fls. 713/714), LEONARDO DE SOUZA ARAÚJO MIRANDA (fls. 750/751), TACIANA ALMEIDA GARRIDO DE RESENDE (fls. 757/758), PEDRO DE CASTRO LUSCHER (fls. 760/761), JULIANA VENTURA DE SOUZA FERNANDES (fls. 763/764), RONALDO SOARES MENDES JÚNIOR (fls. 766/767), AUGUSTO CARVALHO BORGES (fls. 769/770), THIAGO LENINE TITO TOLENTINO (fl. 772) e ALDA BATISTA (fls. 774/775).

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Laudo de perícia de informática juntado às fls. 777/786.

Inquiridos AMANDA DINIZ FERREIRA (fls. 812/813), MARCO AURÉLIO CROCCO AFONSO (fls. 815/816), PAULIANE DE CARVALHO BRAGA (fls. 818/819), BRUNO VIVEIROS MARTINS (fls. 827/828), MARCELA TELLES ELIAN DE LIMA (fls.

830/831), DANILO ARAÚJO MARQUES (fls. 833/834), LÍGIA BEATRIZ DE PAULA GERMANO (fls. 836/837), RAFAEL DA CRUZ ALVES (fls. 839/841), WILKIE BUZATTI ANTUNES (fls. 843/845) e EMÍLIO PELUSO NEDER MEYER (fls. 847/848).

E m 10/01/2019, a autoridade policial indiciou: (i) HELOÍSA MARIA MURGEL STARLING (artigos 288, 171, 312 e 316 do Código Penal); (ii) WILKIE BUZATTI ANTUNES (artigos 288, 171, 312 e 316 do CP); (iii) RAFAEL DA CRUZ ALVES (artigos 288, 312 e 316 do CP); (iv) LEONARDO SOUZA DE ARAÚJO MIRANDA (artigos 288 e 312 do CP); (v) ROCKSANE DE CARVALHO NORTON (artigos 288, 312, §2º, do CP); (vi) SANDRA REGINA GOULART DE ALMEIDA (artigos 288, 312 e 319 do CP); (vii) JAIME ARTURO RAMIREZ (artigos 288, 312 e 319 do CP);

(viii) SILVANA MARIA LEAL COSER (artigos 288 e 312 do CP); (ix) ALFREDO GONTIJO DE OLIVEIRA (art. 299 do CP); (x) SANDRA REGINA DE LIMA (art. 299, do CP) e (xi) ISABELA ROCHA NUNES DE LIMA (artigos 288 e 312 do CP) (fls. 877/893).

Após sucessivos pedidos de vistas dos investigados/indiciados, solicitei ao Juízo da 9ª Vara Federal o compartilhamento das provas desta investigação com o IC nº 1.22.000.000415/2015-55, bem como requisitei o desmembramento das investigações com a instauração de novos inquéritos policiais para investigação dos contratos firmados entre a UFMG e as empresas SANTA ROSA BUREAU CULTURAL e CONSTRUTORA JRN LTDA., bem como determinei a continuidade das investigações pela autoridade policial (fl.

1033).

O Juízo federal deferiu o pedido de compartilhamento de provas, bem como o desmembramento do feito e continuidade das investigações, em decisão de 16/05/2019 (fls. 1041/1042).

Às fls. 1112/1191, a autoridade elaborou novo relatório de indiciamento, em setembro de 2019, mantendo os mesmos indiciados do despacho anterior.

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Os autos retornaram a este Ofício em 16/09/2019 (fl. 1209), com pedido de vistas (fls. 1210/1211) e, após, ofício da 9ª Vara Federal em que encaminhou solicitação do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos de compartilhamento de provas para fins de instrução de procedimento disciplinar daquele ministério e do Delegado Leopoldo Soares Lacerda, em que solicitava levantamento de sigilo, tendo em vista convite para participar de reunião perante a Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal (fls.

1213/1220).

Este MPF manifestou-se favoravelmente ao requerimento do Ministério e contrariamente ao pedido do delegado, tendo em vista perda de objeto (fl. 1221). O juízo federal deferiu o compartilhamento, bem como levantou parcialmente o sigilo das investigações, em atendimento ao pedido do delegado, por meio da decisão de fls. 1227/1228, de 03/10/2019.

E m 29/10/2019, compareceu a esta Procuradoria, o advogado Maurício de Oliveira Campos Júnior, defensor da investigada HELOÍSA MARIA MURGEL STARLING, oportunidade na qual apresentou memorial juntado aos autos (Doc. PR-MG-67952/2019), em que narra a existência de uma PAD junto à CGU/CRU/MG, onde teriam sido colhidos depoimentos em vídeos dos envolvidos nesta investigação.

Assim, requisitei à CGU/CRU/MG, com base no artigo 47 do CPP, por meio do servidor DERLAN CLEMENTE ARAÚJO, presidente do PAD nº 00190.104825/2018-40, cópia em meio eletrônico dos depoimentos prestados no referido procedimento, bem como das demais provas produzidas na fase de instrução que reputasse relevantes (Doc. PR-MG-67968/2019).

A requisição foi atendida em 06/11/2019 (Doc. PR-MG-69293/2019), sendo os documentos fornecidos pela CGU/CRU/MG, totalizando 60,1 GB, copiados diretamente do HD externo portado pelo servidor da CGU/CRU/MG para o computador patrimônio 081.416 do MPF, localizado no gabinete deste 12º Ofício, conforme certidão (Doc. PR-MG- 69271/2019).

Mais tarde, requisitei, em 18/11/2019, cópia das defesas apresentadas após o relatório de indiciação da CGU/CRU/MG, bem como relatório conclusivo do PAD, tão logo fosse produzido (Doc. PR-MG-71371/2019).

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A requisição foi integralmente cumprida em 06/02/2020 (Doc. PR-MG- 6431/2020).

É o relatório.

1. CONTEXTUALIZAÇÃO DOS FATOS

O Projeto Memorial da Anistia Política (MAP), formalizado pela Portaria n° 904, de 5 de maio de 2009, do Ministério da Justiça, visava “implementar o Memorial da Anistia Política no Brasil, nas edificações do Coleginho da FAFICH, localizado em terreno de 3.778,00 m², situado à Rua Carangola, n° 288, na cidade de Belo Horizonte/MG”, sendo

“parte integrante do projeto desenvolvido pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, criado por meio da Portaria n° 858, de 13 de maio de 2008, com vistas à preservação e difusão da memória política dos períodos de repressão contemplados pela atuação da referida Comissão, previstos na Lei 10.559/2002” (fl. 75 do SEI 08802.004224/2009-11, contido no DVD de fl. 547, certidão PR-MG-33221/2020).

Formalizado o projeto, o Ministério da Justiça (MJ), por meio do então Ministro TARSO GENRO, celebrou com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por intermédio do então Reitor RONALDO TADÊU PENA, o Termo de Cooperação (TC) n° 001, de 16 de junho de 2009, que previu o custeio inicial do projeto, a envolver obras e projeto de museografia, no valor de R$ 5.150.000,00, com previsão de desembolso de R$ 2.030.000,00 para o exercício 2009 e R$ 3.120.000,00 para o exercício de 2010 (fls. 62/70 do SEI 08802.004224/2009-11, contido no DVD de fl. 547, certidão PR- MG-33221/2020).

Segundo consta do referido termo de cooperação, cabia ao Ministério da Justiça, dentre outras funções, o custo financeiro, o controle e gerenciamento do projeto, bem como a análise das prestações de contas parciais e finais apresentadas pela parceira. A seu turno, caberia a UFMG a execução das despesas financeiras, a contratação de pessoas e empresas para execução do projeto, a manutenção de registros contábeis específicos, bem como a prestação de contas parciais e finais ao crivo da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, dentre outras funções.

Inicialmente previsto para execução de 16/06/2009 a 10/11/2010, ou seja, 17 (dezessete) meses, nos termos da cláusula quarta do TC n° 001/2009, mas com sinalização de

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continuidade, segundo o parágrafo segundo, da cláusula primeira, do referido termo, o projeto teve seis aditivos, o último com previsão de gastos elevada para R$ 28.817.864,48, firmado para o período de 31/12/2015 a 31/12/2018 (doc. 25 do SEI 08802.004224/2009- 11, contido no DVD de fl. 547, certidão PR-MG-33221/2020).

Com o fim de concretizar o projeto museográfico, a UFMG contratou, por meio do Procedimento de inexigibilidade de licitação n° 006/2009, o qual gerou o Contrato n° 18, de 06 de outubro de 2009, a empresa SANTA ROSA BUREAU CULTURAL LTDA., inscrita sob o CNPJ n° 02.818.374/0001-44, pelo valor de R$ 7.058.369,45, sendo rescindido, em 01 de junho de 2010 (fl. 89).

A p ó s rescisão amigável com a empresa SANTA ROSA BUREAU CULTURAL LTDA., no valor de R$ 1.524.642,44, a UFMG, por meio de dispensa de licitação, firmou com a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (FUNDEP), instituição vinculada à própria universidade o Contrato n° 121, de 30 de dezembro de 2010, no valor de R$ 6.899.819,93, sendo R$ 4.599.819,93 destinados a serviços do projeto e R$

2.300.000,00 para aquisição de materiais permanentes (certidão PR-MG-33917/2020).

E para concretizar a reforma do espaço do antigo Coleginho da FAFICH e construção do MAP, a UFMG contratou, por meio de procedimento licitatório na modalidade concorrência, a Construtora JRN LTDA.

Assim sendo, para concepção e execução da museografia, que envolveria resumidamente a coleta e tratamento de material para o memorial, bem como a concepção do espaço em si, a Universidade primeiramente contratou a empresa SANTA ROSA BUREAU CULTURAL LTDA., com rescisão da avença após 07 (sete) meses e posterior contratação da fundação de apoio vinculada, a FUNDEP, em 30/12/2010, mais de 06 (seis) meses após a rescisão.

A investigação conduzida a partir de 29 de março de 2017, com deflagração da Operação Esperança Equilibrista em dezembro do mesmo ano, com colheita de provas por meio de conduções coercitivas e buscas e apreensões (autos nº 45490- 73.2017.4.01.3800), quebras de sigilos bancários e interceptações telefônicas (autos nº 21079- 23.2017.4.01.3800, 21081-90.2017.4.01.3800 e 49217-97.2017.4.01.3800), além de perícias, pesquisas em fontes abertas, interrogatórios e do apoio do Tribunal de Contas da União e da Controladoria-Regional da União em Minas Gerais permitiu a depuração do Contrato nº 121/2010 (FUNDEP), sendo os contratos celebrados com a SRBC e Construtora JRN ainda

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objeto de investigação, conforme requisição deste MPF e decisão proferida pelo Juízo federal da 9ª Vara em 16/05/2019 (fls. 1041/1043).

2. ANÁLISE DAS IMPUTAÇÕES

A autoridade policial concluiu pelas seguintes imputações:

(i) HELOÍSA MARIA MURGEL STARLING (artigos 288, 171, 312 e 316 do Código Penal);

(ii) WILKIE BUZATTI ANTUNES (artigos 288, 171, 312 e 316 do CP);

(iii) RAFAEL DA CRUZ ALVES (artigos 288, 312 e 316 do CP);

(iv) LEONARDO SOUZA DE ARAÚJO MIRANDA (artigos 288 e 312 do CP);

(v) ROCKSANE DE CARVALHO NORTON (artigos 288, 312, §2º, do CP);

(vi) SANDRA REGINA GOULART DE ALMEIDA (artigos 288, 312 e 319 do CP);

(vii) JAIME ARTURO RAMIREZ (artigos 288, 312 e 319 do CP);

(viii) SILVANA MARIA LEAL COSER (artigos 288 e 312 do CP);

(ix) ALFREDO GONTIJO DE OLIVEIRA (art. 299 do CP);

(x) SANDRA REGINA DE LIMA (art. 299, do CP) e,

(xi) ISABELA ROCHA NUNES DE LIMA (artigos 288 e 312 do CP).

A gestão administrativa do Projeto MAP em Belo Horizonte ficou a cargo da Vice-Reitoria da UFMG, sendo tal cargo ocupado por HELOÍSA MARIA MURGEL STARLING entre março de 2006 e março de 2010, sucedida por ROCKSANE DE CARVALHO NORTON, entre março de 2010 e março de 2014 e SANDRA REGINA GOULART DE ALMEIDA, no período de março de 2014 a março de 2018, sendo esta a atual Reitora da universidade.

Ademais, a Portaria de implantação do MAP (fl. 76 do doc. 1, SEI 08802.004224/2009-11, contido no DVD de fl. 547, certidão PR-MG-33221/2020) instituiu HELOÍSA MARIA MURGEL STARLING como integrante do Comitê Executivo de implantação (art. 7°, III), sendo ainda indicada pelo então Reitor RONALDO TADÊU PENA, por meio da Portaria n° 09, de 26 de janeiro de 2010, ao lado de SANDRA REGINA GOULART DE ALMEIDA, e de outros professores da universidade, para presidir a Comissão para implantação do MAP, no prazo inicial de 24 (vinte e quatro) meses (fl. 76 do doc. 2, SEI 08802.004224/2009-11, contido no DVD de fl. 547, certidão PR-MG-33221/2020).

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A contratação da FUNDEP se deu por meio do Processo de dispensa de licitação n° 23.072.048988/2010-20, que gerou o Contrato n° 121, de 30 de dezembro de 2010, cuja justificativa de dispensa e o projeto de extensão foram assinados pela então Vice- Reitora, ROCKSANE DE CARVALHO NORTON, coordenadora administrativa do Projeto MAP àquela época, com previsão de 20 (vinte) meses para execução e o montante de R$

6.899.819,93, sendo R$ 4.599.819,93 destinados a serviços do projeto e R$ 2.300.000,00 para aquisição de materiais permanentes, conforme previsão (certidão PR-MG-33917/2020).

Dentre os R$ 4.599.819,93 destinados a serviços do projeto, foram previstos R$ 1.163.320,67 para serviços de pesquisa de conteúdo, dentre gastos com pesquisas bibliográfica, documental, iconográfica, fílmica, edição de textos, viagens de pesquisa e diárias, além de material de consumo, tudo a cargo do Projeto República do Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, criado e coordenado por HELOÍSA MARIA MURGEL STARLING desde 2001.

O Projeto República[1], segundo informações de fonte aberta:

O Projeto República: núcleo de pesquisa, documentação e memória foi criado em 2001, está vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais e é coordenado pela professora Heloísa Maria Murgel Starling, (Titular Livre de História do Brasil da UFMG). O Projeto República tem como foco principal o período histórico republicano brasileiro, o percurso da história das idéias e dos conceitos no Brasil e o estudo da temática do republicanismo. A produção de conhecimento gerada no interior do Projeto República: núcleo de pesquisa, documentação e memória está ancorado por duas áreas principais de investigação. A primeira área de investigação concentra a pesquisa direcionada para construção de um campo historiográfico interessado em desenvolver e estimular a incorporação de tecnologias interativas sustentadas por linguagens estéticas e artísticas e em veículos materiais de mídia. A segunda área está voltada tanto para o estudo de temporalidades recentes, com ênfase para o período que compreende o experimento republicano brasileiro, quanto para a investigação e análise de determinados temas próprios à tópica do republicanismo, tais como: estudo das condições históricas de esvaziamento da esfera pública e constituição das formas políticas de repressão e autoritarismo na República brasileira; identificação de elementos históricos próprios à constituição do espaço público, do interesse público, da vida pública; identificação dos mecanismos de fundação da comunidade política ou formadores de cultura cívica e de práticas de cidadania; análise e interpretação de conceitos e vocabulários específicos da linguagem política e social do republicanismo, tais como: virtude, liberdade, corrupção, pátria, periferia, bem comum, tirania, justiça; análise e reconstrução das tradições intelectuais, das

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idéias e da imaginação cultural brasileira produzida por atores históricos direta ou indiretamente engajados na ação política de seu tempo. As atividades de ensino e pesquisa desenvolvidas pelo Projeto República: núcleo de pesquisa, documentação e memória estão distribuídas em seis linhas principais de investigação que trabalham de maneira integrada para obtenção de resultados. São elas: República, história e imagem; Memórias: resistência e ditadura na República brasileira; Linguagens do republicanismo; Decantando a República: um inventário histórico e político da moderna canção popular brasileira; Sentimento de reforma agrária, sentimento de República; UFMG: história e ofício. O Projeto República: núcleo de pesquisa, documentação e memória possui os certificados UFMG; CNPq; FAPEMIG e conta com uma equipe de 18 estudantes bolsistas e pesquisares em níveis acadêmicos distintos – de Iniciação Científica ao Pós Doutorado. A formação da equipe incluindo estudantes das áreas de história, ciência da informação, belas artes, comunicação social, filosofia e ciências sociais, indica sua natureza interdisciplinar e de trabalho integrado principalmente no sentido de induzir à inovação, transferir informações, catalisar mudanças e interferir na produção do conhecimento. A equipe é assessorada por um corpo de professores associados ao projeto, também de natureza interdisciplinar e originários da UFMG e de outras instituições universitárias. O Projeto República: núcleo de pesquisa, documentação e memória tem realizado, igualmente, seu propósito de oferecer treinamento adequado para a formação de jovens pesquisadores na graduação e na pós-graduação originários de diferentes áreas de conhecimento. Esse treinamento busca facilitar a possibilidade de o aluno ter contato direto com o documento histórico, com a prática da pesquisa histórica, com a tipologia e conteúdo das fontes historiográficas, com a formulação de conceitos e vocabulários referentes à tópica republicana.

[grifei]

De acordo com tal descrição, um dos eixos do Projeto República coincide com um dos objetivos do Memorial da Anistia Política no Brasil, expostos no Projeto Básico do Memorial, no item 2, no eixo da “memoralização [a partir da] materialização de um amplo espaço público de reparação coletiva que pedisse desculpas pelos erros do arbítrio autoritário praticado pelo Estado, a um só tempo, para os perseguidos políticos enquanto grupo e para a sociedade enquanto coletividade cujos projetos de desenvolvimento democrático e social foram interrompidos [de forma a] devolver à sociedade brasileira a pluralidade de ideias que a repressão interrompeu e extirpou arbitrariamente do espaço público, como forma de promoção de uma ampla política de reparação [fornecendo] os meios para a superação democrática da experiência autoritária, transformando um legado de violência em uma reflexão crítica sobre a história, que orienta-se para o futuro, para a democracia e para os direitos humanos [de modo a construir] um olhar de reconhecimento dos erros cometidos pelo Estado no passado e do reconhecimento do direito de resistência que milhares de brasileiros interpuseram contra um regime que os oprimia” (fls. 268/270 do doc. 1, SEI 08802.004224/2009-11, contido no DVD de fl. 547, certidão PR-MG-33221/2020).

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Isso posto, as imputações serão analisadas em três blocos: (i) suposto desvio de bolsas de estágio, pesquisa e/ou extensão em benefício próprio ou de outros projetos de pesquisa tocados pelo Projeto República (peculato e concussão), supostamente operacionalizado por HELOÍSA MARIA MURGEL STARLING, WILKIE BUZATTI ANTUNES, RAFAEL DA CRUZ ALVES, LEONARDO SOUZA DE ARAÚJO MIRANDA e ROCKSANE DE CARVALHO NORTON; (ii) suposta prática de falsidade ideológica pelo presidente da FUNDEP, gestão 2014/2018, ALFREDO GONTIJO DE OLIVEIRA, pela gestora financeira da fundação, SANDRA REGINA DE LIMA, e pela gerente do projeto MAP na fundação, ISABELA ROCHA NUNES DE LIMA e (iii) suposta prática de peculato por SILVANA MARIA LEAL COSER e SANDRA REGINA GOULART DE ALMEIDA no fato denominado “Rede Latino-Americana de Justiça de Transição” e suposta prática de prevaricação por JAIME ARTURO RAMIREZ e SANDRA REGINA GOULART DE ALMEIDA no fato denominado “Exposição desconstrução do esquecimento: golpe, anistia e justiça de transição”.

2.1 Suposto desvio de bolsas de estágio, pesquisa e/ou extensão em benefício próprio ou de outros projetos tocados pelo Projeto República (peculato e concussão), operacionalizados por HELOÍSA MARIA MURGEL STARLING, WILKIE BUZATTI ANTUNES, RAFAEL DA CRUZ ALVES, LEONARDO SOUZA DE ARAÚJO MIRANDA e ROCKSANE DE CARVALHO NORTON

O Projeto República, criado e dirigido por HELOÍSA MARIA MURGEL STARLING[2] e composto, dentre outros por WILKIE BUZATTI ANTUNES[3], RAFAEL DA CRUZ ALVES[4] e LEONARDO SOUZA DE ARAÚJO MIRANDA[5], foi o responsável pela pesquisa de conteúdo para o MAP (coleta de material para o projeto museográfico), enquanto a FUNDEP atuou na administração financeira do projeto, sendo a responsável pelos pagamentos aos pesquisadores e bolsistas do Projeto República.

Segundo indiciamento, teria havido (fl. 1164):

(i) exigência de repasses de parte da bolsa de extensão e de estágio para os coordenadores temáticos WILKIE e RAFAEL, sob a coordenação geral da professora HELOÍSA, motivo pelo qual foram indiciados pelos crimes previstos nos artigos 288 e 316, todos do Código Penal;

(ii) obtenção de vantagem indevida mediante o envio de e-mail orientando aos bolsistas a estornar na conta de WILKIE a diferença do pagamento acima do valor da bolsa, sob a alegação de equívoco da FUNDEP, motivo pelo qual WILKIE e HELOÍSA foram indiciados pelo crime previsto no artigo 171 do

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Código Penal e,

(iii) repasses de parte das bolsas e aplicação dos recursos do Projeto MAP no custeio do Projeto República e em benefício de outros projetos, inclusive de instituição privada, motivo pelo qual HELOÍSA, WILKIE, RAFAEL e LEONARDO, foram indiciados pelo crime previsto no artigo 312 do Código Penal.

Além disso, em relatório anterior de indiciamento, ROCKSANE DE CARVALHO NORTON foi indiciada pela prática dos crimes previstos nos artigos 288 e 312, § 2º, do Código Penal (fl. 885).

Nesse sentido, teria havido desvio de recursos públicos por integrantes do Projeto República e pela coordenadora do Projeto MAP à época, a Vice-Reitora ROCKSANE DE CARVALHO NORTON; seja por meio do crime de peculato (art.

312, do CP), peculato culposo (art. 312, § 2º, do CP) seja por meio de concussão (art.

316, do CP), ou de estelionato (art. 171, do CP), em formação de quadrilha/associação criminosa (art. 288, do CP).

A partir das quebras de sigilo bancário de HELOÍSA, WILKIE e RAFAEL, foi elaborada a Informação Policial nº 15/2018, em que se detectaram diversas transferências de valores entre os investigados e entre eles e outros pesquisadores do Projeto República (fls. 177/243 do apenso II).

A s transferências para WILKIE, RAFAEL e LEONARDO de fato ocorreram, segundo depoimentos dos demais pesquisadores:

CARLOS EDUARDO FRANKIW DE ANDRADE: [...] integrou a equipe do Projeto República entre o período de 2006 e 2012; QUE, em 2006, próximo ao término da graduação em história, a professora HELOÍSA STARLING, orientadora do declarante no trabalho final da graduação, lhe convidou a participar do Projeto República; QUE desenvolveu atividades de pesquisas para o Projeto Memorial da Anistia Política entre o segundo semestre de 2009 e outubro de 2012 [...] QUE confirma que recebeu bolsas de extensão e de estagiário no período de fevereiro de 2011 a outubro de 2012, quando realizou pesquisas para o Projeto MAP [...] QUE conheceu RAFAEL DA CRUZ ALVES e WILKIE BUZATTI ANTUNES, sendo que eles desempenhavam a função de coordenação do Projeto MAP; QUE o Projeto República era estruturado com a direção da professora HELOÍSA, os coordenadores RAFAEL e WILKIE, e os pesquisadores; QUE perguntado se durante o período que atuou no Projeto República a professora HELOÍSA, WILKIE ou RAFAEL solicitou ou exigiu que o declarante repassasse valores

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para a conta dele, responde que SIM [...] QUE explica que tais transferências tratavam-se de “acertos morais” entre bolsistas e o Projeto República; QUE os coordenadores condicionavam o recebimento de bolsas destinadas aos pesquisadores desde que estes realizassem repasses parciais; QUE confirma que repassou, em 04/02/2011, a quantia de R$ 270,00 a WILKIE [...] QUE para continuar a receber bolsas de pesquisa, foi coagido a realizar as transferências; QUE, portanto, havia uma coerção por parte dos coordenadores que diziam que “ou os bolsistas realizassem os repasses ou não receberiam os valores” (fls. 710/711).

BRUNO VIVEIROS MARTINS: [...] faz parte do Projeto República desde sua criação [...] se tornou coordenador da área de história e canção popular [...] QUE com relação aos repasses de valores para outros coordenadores e para a professora HELOÍSA, esclarece que, quanto às transferências para a conta de RAFAEL, referem-se ao ajustamento de bolsas que se fazia entre os pesquisadores do Projeto República, para que nenhum recebesse mais que outros em razão das diferenças das bolsas pagas pelas diferentes instituições (FUNDEP, CNPq, CAPES e FAPEMIG) (fl. 827).

PAULIANE DE CARVALHO BRAGA: [...] é pesquisadora do Projeto República desde 2007 [...] QUE, desde 2012, se tornou coordenadora do Projeto República na área de “lutas pela terra”, linha de pesquisa da declarante [...] QUE, perguntada sobre os motivos das transferências financeiras de WILKIE e RAFAEL para a declarante, explicou que, no Projeto República, como os valores das bolsas recebidas pelos pesquisadores e estagiários de diferentes instituições (FUNDEP, CNPq, CAPES, FAPEMIG) eram variados, havia um ajuste entre os integrantes do Projeto República para que não houvesse diferença entre eles; QUE, portanto, os valores recebidos pelos coordenadores de bolsistas eram repassados a outros pesquisadores com o fim de ajustar os mesmos valores de bolsas para todos;

QUE pode citar que recebeu valores do pesquisador PEDRO LUSCHER com o fim de realizar essa readequação, como também repassou valores para ele;

QUE, apresentada a relação de transferências que recebeu de RAFAEL e WILKIE, confirma que tratam-se, em sua maioria, dos ajustes de bolsas, sendo que, como WILKIE é seu esposo, algumas transferências são de cunho pessoal; QUE essa readequação de valores de bolsas era de comum acordo de todos os integrantes do Projeto República, tanto coordenadores, quanto pesquisadores (fls. 818/819).

LÍGIA BEATRIZ DE PAULA GERMANO: [...] QUE integra o Projeto República desde 2003 [...] QUE perguntada se havia no âmbito do Projeto República repasses de parte das bolsas dos pesquisadores para outros, respondeu que sim, com a finalidade de compensar os valores das bolsas conforme a titulação do pesquisador [...] esclarece que, quanto aos repasses a WILKIE, referem-se às compensações de valores de bolsas recebidas pelos pesquisadores [...] QUE perguntada se as transferências eram realizadas de forma impositiva, disse que NÃO, que na verdade havia uma concordância dos pesquisadores em realizar as compensações; QUE essa concordância era

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tratada em reuniões de fins financeiros entre a professora HELOÍSA, os coordenadores e pesquisadores (fl. 836).

Em episódio específico destacado pela Polícia Federal, WILKIE enviou u m e-mail a LEONARDO SOUZA DE ARAÚJO MIRANDA, ANA EMÍLIA DE CARVALHO, PEDRO DE CASTRO LUSCHER, JULIANA VENTURA DE SOUZA FERNANDES, RONALDO SOARES MENDES JÚNIOR, MÁRCIO DOS SANTOS RODRIGUES e AMANDA DINIZ FERREIRA alegando que a FUNDEP havia depositado quantias acima do valor das bolsas de cada um, motivo pelo qual deveriam devolver o excesso, embora não diretamente para a conta da fundação, mas para sua conta pessoal, “para facilitar”, nas suas palavras:

Os envolvidos nesse episódio se manifestaram:

LEONARDO DE SOUZA ARAÚJO MIRANDA: [...] QUE integrou a equipe do Projeto República de 2009 a 2017; QUE conheceu a professora HELOÍSA STARLING quando cursou especialização na PUC [...] QUE foi convidado pela professora HELOÍSA a integrar a equipe do Projeto República [...] que explica que o Projeto República era [é] coordenado pela professora HELOÍSA, fundadora do Projeto, e que cada linha temática tinha um coordenador; QUE o declarante não coordenou nenhuma linha temática;

QUE explica que, normalmente, era o coordenador da área temática que repassava ao pesquisador os contratos de estágio e ou de bolsa de extensão da FUNDEP para que fosse assinado [...] QUE perguntado se, durante o período

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que recebeu bolsas de estágio e de extensão da FUNDEP, vinculadas ao Projeto MAP, a professora HELOÍSA, WILKIE ou RAFAEL exigiu ou solicitou repasses de parte da bolsa para eles, disse que sim, mas não de forma impositiva; QUE o coordenador solicitava o repasse para cobrir reembolsos de gastos com o Projeto República ou como complemento da bolsa de outros pesquisadores; QUE concordava em repassar parte de sua bolsa em razão do destino ser justo; QUE em nenhum momento os repasses eram condicionados a algum benefício como continuidade do recebimento das bolsas ou do curso; QUE apresentada a relação de transferências de quantias do declarante para RAFAEL e WILKIE, no total de R$ 38.020,14, confirma que repassou tais valores, mas como disse, nada impositivo (fls. 750/751).

ANA EMÍLIA DE CARVALHO: [...] QUE a partir de 2012 exerceu atividades de revisão de textos, legendas, redação de textos, pesquisas em jornais, arquivos, imagens e revistas para o Projeto MAP; QUE confirma que recebeu bolsas de estágio da FUNDEP no período entre junho de 2012 e abril de 2014 [em verdade 2013] e bolsa de extensão entre novembro de 2013 e fevereiro de 2014, quando exerceu as atividades acima descritas para o Projeto MAP; QUE entre maio de 2013 e outubro de 2013 exerceu atividades no Projeto República, mas para outros projetos; [...] QUE em nenhum momento WILKIE, RAFAEL ou a professora HELOÍSA STRALING solicitou à declarante ou exigiu que repasses de parte de sua bolsa para eles;

QUE, perguntada os motivos pelos quais, conforme extratos bancários revelam, após receber da FUNDEP o pagamento de bolsa de estágio no valor de R$ 3.240,60, em 29/04/2013, referente ao projeto MAP e, dias depois, em 07/05/2013 transferiu R$ 1.240,60 à WILKIE BUZATTI ANTUNES, disse que não se lembra ; QUE nunca realizou pedido de reembolso de despesas para a FUNDEP [...] QUE buscará maiores informações sobre os motivos da transferência a WILKIE (fl. 704).

PEDRO DE CASTRO LUSCHER: [...] QUE integrou o Projeto República da FAFICH/UFMG entre junho de 2012 e outubro de 2015 [...] QUE os coordenadores do Projeto República eram que faziam essa gestão burocrática de quanto e de qual origem o pesquisador receberia a bolsa; QUE esclarece que a professora HELOÍSA STARLING chefiava o Projeto República, a qual possuía a assessoria dos coordenadores; QUE os coordenadores, na época que o declarante integrou o Projeto República, eram BRUNO VIVEIROS, MARCELA TELLES, WILKIE BUZATTI, PAULIANE DE CARALHO, RAFAEL DA CRUZ, AUGUSTO BORGES, este substituído por DANILO ARAÚJO [...] QUE, em 2013, recebeu um e-mail de WILKIE dizendo que havia sido transferido para a conta de pesquisadores do Projeto valores a mais da bolsa e que a diferença deveria ser transferida para ele para que fosse providenciado a restituição à FUNDEP; que, assim, procedeu a transferência de certa quantia que não se lembra exatamente o valor para WILKIE; QUE, perguntado se os repasses eram impositivos ou condicionados, disse que explicitamente NÃO, mas que implicitamente, como havia uma sujeição de hierarquia dentro do Projeto República e a professora HELOÍSA sempre demonstrava aos pesquisadores que eles estariam em débito no sentido de que faziam parte do grupo de excelência da FAFICH e

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estavam desenvolvendo pesquisas únicas e de grande relevância, sentia que deveria efetuar as transferências (fls. 760/761).

JULIANA VENTURA DE SOUZA FERNANDES: [...] QUE integrou o Projeto República em 2011, convidada pela professora HELOÍSA, visto que desenvolvia estudos para a tese de mestrado sobre a temática da anistia; QUE permaneceu no Projeto República desenvolvendo pesquisas para o Projeto MAP até o início de 2014; QUE, no segundo semestre de 2014, foi novamente convidada pela Professora HELOÍSA para desenvolver pesquisas para a Comissão da Verdade [...] QUE a professora HELOÍSA era a Coordenadora do Projeto República; QUE quanto aos coordenadores temáticos, teve mais contato com RAFAEL e WILKIE; QUE, perguntada se, durante o período que integrou o Projeto República, a professora HELOÍSA ou algum coordenador temático solicitou ou exigiu que a declarante repassasse parte de sua bolsa para eles, disse que NÃO, que nunca foi coagida a repassar parte de sua bolsa; QUE, no final de abril de 2013, recebeu da FUNDEP um valor acima da quantia habitual que recebia de bolsa; QUE WILKIE encaminhou um email à declarante e a outros pesquisadores dizendo sobre o equívoco da FUNDEP e que esses pesquisadores teriam que devolver para ele a diferença recebida a mais; QUE a declarante assim procedeu, transferindo a diferença para WILKIE; QUE perguntada se o correto não seria devolver a diferença diretamente a FUNDEP, disse que não sabe dizer, pois WILKIE providenciou o ressarcimento; QUE perguntada se WILKIE realmente devolveu a quantia recebida a mais a FUNDEP, disse que acredita que sim (fls. 763/764).

RONALDO SOARES MENDES JÚNIOR: [...] QUE integrou o Projeto República, salvo engano, de 2011 a 2013 [...] QUE havia uma hierarquia no Projeto República, com a professora HELOÍSA na gestão do grupo, os coordenadores de projetos no segundo nível e os pesquisadores e estagiários logo abaixo; QUE, dentre os coordenadores, o declarante tratava mais com RAFAEL DA CRUZ; QUE, perguntado se durante o período que integrou o Projeto República, a professora HELOÍSA ou algum coordenador exigiu ou solicitou que o declarante repassasse parte de sua bolsa para eles, disse que, em certa ocasião, foi comunicado pessoalmente e por e-mail que a FUNDEP teria realizado pagamento da bolsa equivocadamente acima do valor correto e que os pesquisadores e estagiários teriam que devolver a diferença para um dos coordenadores, o qual realizaria o estorno à FUNDEP; QUE não se lembra exatamente qual foi o coordenador que solicitou essa devolução, talvez o BRUNO ou o WILKIE; QUE, então, transferiu a diferença paga a mais ao coordenador (fl. 766).

MÁRCIO DOS SANTOS RODRIGUES: [...] QUE integrou o Projeto República: núcleo de pesquisa, documentação e memória, no âmbito da UFMG, no período de maio de 2011 a maio de 2013, havendo ingressado no Projeto por meio de convite do coordenador RAFAEL DA CRUZ ALVES [...] QUE informa que havia vários coordenadores os quais eram subordinados a Coordenadora Geral, a Sra. HELOÍSA MARIA MURGEL

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STARLING [...] QUE o vínculo do declarante com o referido projeto se deu por meio de Termo de Compromisso de Estágio com a FUNDEP para pesquisa e desenvolvimento de conteúdo para o MAP [...] QUE conhece RAFAEL DA CRUZ ALVES e WILKIE BUZATTI ANTUNES sendo eles colegas desde o tempo da graduação na UFMG, esclarecendo que os mesmos eram coordenadores, o primeiro executando especificamente atividades audiovisuais e outras demandas diversas da coordenação geral e o segundo pesquisando especificamente movimentos estudantis, além de cuidar da parte burocrática de contratos e pagamentos; QUE destaca que RAFAEL DA CRUZ ALVES e WILKIE BUZATTI ANTUNES respondiam diretamente a HELOÍSA MARIA MURGEL STARLING; QUE recorrentemente os integrantes do projeto eram intimidados a transferir valores que recebiam a título de bolsas para contas dos coordenadores sob alegação de algum motivo burocrático como tais como a não efetivação de contrato no prazo, tendo o próprio declarante certa vez pedido a WILKIE que tais valores fossem devolvidos diretamente a FUNDEP tendo este desconversado; QUE eram recorrentes os e-mails encaminhados por WILKIE BUZATTI ANTUNES justificando repasses a maior e o não pagamento de bolsas para alunos que não eram coordenadores, conforme documentos apresentados (fls. 714/715).

AMANDA DINIZ FERREIRA: [...] QUE integrou o Projeto República desde o final de 2011 e início de 2013 [...] QUE perguntada se, durante o período que integrou o Projeto República, a professora HELOÍSA ou outro coordenador solicitou ou exigiu que a declarante repassasse parte do valor de bolsa de estágio, disse que SIM; QUE, me maio de 2013, quando a declarante já estava em Portugal, foi contactada pelo coordenador WILKIE dizendo que a declarante teria recebido um valor a mais de bolsa de estágio e que deveria devolver a diferença para a conta do próprio WILKIE; QUE como estava em Portugal e tinha passado uma procuração para a genitora da declarante para movimentar suas contas bancárias, respondeu a WILKIE para que encontrasse em contato com a mãe da genitora [...] QUE esses repasses era (sic.) algo rotineiro no Projeto República (fls. 812/813).

Os investigados também foram interrogados:

RAFAEL DA CRUZ ALVES : [...] QUE é historiador, mestrando na UFMG e pesquisador do Projeto República [...] QUE, salvo engano, se tornou coordenador do Projeto República na área de história e cinema [...]

QUE perguntado sobre os repasses de parte das bolas de pesquisadores e estagiários, esclarece que, como o sistema de pagamento a bolsistas da FUNDEP foi alterado por um processamento mais rígido, o Projeto República se adaptou de forma que um bolsista compensaria a falta de recebimento de outro bolsista; QUE explica que a FUNDEP passou a trabalhar com “janelas financeiras” para contratação de bolsistas e estagiários e caso essa “janela” passasse sem a formalização completa do contrato, o pesquisador ou estagiário ficaria sem receber por um tempo até a próxima “janela financeira”; QUE, portanto, quando a contratação de um pesquisador ou estagiário não era concretizada no período definido determinado pesquisador ou estagiário, aumentavam o valor da sua bolsa

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para que a diferença fosse repassada a outro pesquisador ou estagiário que não estaria recebendo bolsa em razão de ter passado o prazo para formalização do contrato; QUE esclarece que, para a contratação do pesquisador ou estagiário, o coordenador entrava no sistema da FUNDEP, cuja senha era compartilhada entre os coordenadores do Projeto República, preenchia o formulário com os dados do beneficiário, colhia as assinaturas e encaminhava para a vice-reitoria; coordenadora do Projeto MAP, que, por usa vez, encaminhava para a FUNDEP; QUE todo esse trâmite burocrático dificultava a contratação no prazo estipulado pela FUNDEP; QUE ocorria também o fato do valor da bolsa não corresponder com a titulação do pesquisador, motivo pelo qual havia também uma compensação entre as bolsas dos pesquisadores, por intermediação do declarante; QUE, para que um pesquisador que não estava recebendo bolsa ou cuja bolsa merecia uma complementação não cobrasse o pagamento diretamente de outro bolsista que repassaria o valor e, dessa forma, criar um clima “pesado” de cobrança, entre os pesquisadores, o declarante acabou assumindo essa gestão para o bem do Projeto República (fls. 839/840).

WILKIE BUZATTI ANTUNES: [...] QUE, atualmente, é doutorando em história na UFMG e integra o Projeto República desde o final do ano de 2004 [...] QUE, no final de 2007, se tornou coordenador na área “República, história e imagem” [...] QUE, perguntado sobre os repasses de parte das bolsas de pesquisadores para a conta do declarante, explicou que, como havia diferenças dos valores de bolsas pagas por diferentes instituições, como FAPEMIG, CNPq e FUNDEP, os integrantes do Projeto República concordaram em criar um mecanismo de compensação entre eles, de forma que os valores pagos em bolsa corresponderiam à titulação do pesquisador e a declaração nos projetos desenvolvidos, ou seja, essa compensação visava criar remunerações mais justas aos pesquisadores e afastar qualquer diferença injusta; QUE os valores e as compensações eram acordados em reuniões entre a professora HELOÍSA, os coordenadores e pesquisadores;

QUE seguiam como referência tabela de bolsas da FAPESP; QUE, por bem do Projeto República e para evitar conflitos entre os bolsistas, o declarante e RAFAEL foram os coordenadores que mais se dispuseram a gerir as compensações, utilizando suas contas particulares; QUE, apresentada a relação de transferências de bolsistas para sua conta, no total de R$

43.212,38, e as transferências de sua conta para outros pesquisadores, no total de R$ 25.785,50, explica que, em 2011, a Comissão de Anistia convidou a professora HELOÍSA para um evento oficial em Santiago, no Chile, mas como não pôde comparecer, ela indicou o declarante e a pesquisadora LÍGIA; QUE como a FUNDEP não possibilitava pagamentos com a rubrica de viagens internacionais, a professora HELOÍSA comprou as passagens com milhagens e os gastos de viagem foram arcados através de repasses da bolsa de LÍGIA; QUE, portanto, as transferências que recebeu de LÍGIA nas datas de 04/10/2011, 05/10/2011, 25/10/2011 e 26/10/2011, nos valores de R$ 1.500,00, R$ 1.000,00, R$ 2.000,00 e R$ 1.000,00, no total de R$ 5.500,00, referem-se a viagem oficial que fez para Santiago/Chile, representando o Projeto República [...] QUE, no início de 2013, o Projeto República foi convidado pelo professor Nuno Gonçalves, da Universidade

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Nova de Lisboa, a apresentar no Seminário Circularidades Brasil-Portugal, os pesquisadores Leonardo, Pedro Luscher e Pauliane transferiram ao declarante o valor de R$ 8.580,00 para realizar operação de câmbio para a viagem deles e do declarante; QUE foram nessa viagem, além do declarante, Leonardo, Pedro Luscher, Pauliane, Augusto Borges e Taciana Garrido;

QUE, em maio de 2013, a FUNDEP, por equívoco, realizou pagamentos a bolsistas com valores acima do contratado, quando então, ficou definido em reunião com a professora HELOÍSA que os bolsistas teriam que devolver;

QUE encaminhou e-mail aos pesquisadores Ana Emília, Juliana Ventura, Leonardo, Ronaldo Soares, Márcio dos Santos e Amanda explicando o equívoco e que deveriam devolver a diferença para a conta bancária do declarante; QUE, então, recebeu R$ 1240,60 de Ana Emília, R$ 2098,28 de Juliana Ventura, R$ 5565,34 de Leonardo, R$ 640,00 de Ronaldo e R$

2500,00 de Márcio Santos [...] QUE dos repasses que recebeu dos bolsistas acima, repassou R$ 1000,00 a Danilo Araújo, em 03/06/2013 e R$ 1000,00 a Leonardo, em 03/06/2013; QUE o restante ficou com o declarante como compensação das bolsas que não recebeu nos meses de maio, junho e julho de 2013; QUE, perguntado porque não devolveu as quantias para a FUNDEP, como havia comentado no e-mail, respondeu que foi definido pela professora HELOÍSA e demais coordenadores, considerando que havia gastos urgentes a fazer no Projeto República; QUE, no final de 2013, o Projeto República foi convidado pela ONU para apresentar os resultados de pesquisas para a TV ONU e Rádio ONU [...] QUE recebeu o valor de R$ 4516,75 da bolsista Mariana Ferreira Estrela para custear a viagem [...] QUE a grande parte dos valores transferidos por Pauliane foram de cunho pessoal, pois ela é esposa do declarante, e a outra parte do declarante para Pauliane refere-se a complemento de bolsas; QUE as transferências entre o declarante e RAFAEL é porque são muito amigos desde a graduação e se referem a gastos pessoais, como um pagamento do veículo do declarante que RAFAEL pagou, por exemplo; QUE, quanto aos recebimentos de quantias da professora HELOÍSA, salvo engano, se referem a ressarcimentos de gastos que o declarante fez para ela (fls. 843/845).

WILKIE e RAFAEL, até por ocuparem uma posição de maior relevo acadêmico no Projeto República, assumiram a função de administrar os repasses de parte das bolsas entre os pesquisadores. Isso porque, segundo versão por eles apresentada, reverberada por PAULIANE DE CARVALHO BRAGA, também coordenadora de área do projeto e esposa de WILKIE e BRUNO VIVEIROS MARTINS, igualmente coordenador de área do projeto, havia diferenças de bolsas, em razão de projetos simultâneos tocados pelo Projeto República terem diferentes fontes de financiamento, com bolsas variáveis segundo a agência de fomento, sendo citadas a FAPEMIG, o CNPq e a própria FUNDEP.

Importante destacar que além de WILKIE e RAFAEL, atuaram como coordenadores temáticos do Projeto República, PAULIANE DE CARVALHO BRAGA, BRUNO VIVEIROS MARTINS, MARCELA TELLES ELIAN DE LIMA e DANILO

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ARAÚJO MARQUES.

Havia diferença entre os valores das bolsas, pois como comprovado ao longo do inquérito, e relatado pelos investigados e testemunhas, o Projeto República não atua com exclusividade nos projetos de pesquisa que desenvolve, como se nota dos depoimentos de CARLOS EDUARDO FRANKIW DE ANDRADE (fls. 710/711), MÁRCIO DOS SANTOS RODRIGUES (fls. 713/714), LEONARDO SOUZA DE ARAÚJO MIRANDA (fls. 750/751), TACIANA ALMEIDA GARRIDO DE RESENDE (fls. 757/758), PEDRO DE CASTRO LUSCHER (fls. 760/761), RONALDO SOARES MENDES JÚNIOR (fls. 766/767), dos coordenadores temáticos (fls. 818/819, 827/828, 830/831, 833/834, 839/841 e 843/845) e de HELOÍSA STARLING (fls. 337/341).

Assim sendo, no período de pagamentos de bolsas pela FUNDEP para o projeto MAP, de março de 2011 a outubro de 2014 (certidão PR-MG-33917/2020), o Projeto República, dentre outros, executou pesquisas para o Memorial da Democracia do Instituto LULA, Caminhão Museu Sentimentos da Terra e 80 anos do Minas Tênis Clube, situação igualmente relatada por HELOÍSA e pelos coordenadores temáticos nos depoimentos em vídeo prestados perante a Comissão de PAD da CRU/MG (certidão PR-MG- 33889/2020).

Isso permitiu que “as bolsas [pudessem] ser alocadas em qualquer um dos projetos [...] conforme a necessidade”, segundo palavras de HELOÍSA STARLING (fl. 340), criando uma espécie de segunda remuneração dentro do Projeto República, que variava conforme a titulação, a dedicação e o conhecimento do tema objeto de pesquisa, segundo detalhado pela coordenadora temática MARCELA TELLES em depoimento prestado perante a Comissão de PAD da CRU/MG (certidão PR-MG-33889/2020), tendo em vista que o pesquisador/bolsista não se via como exclusivo do Memorial da Anistia Política ou de outro projeto, mas sim como pesquisador do Projeto República, podendo ou não desenvolver projetos simultaneamente, como bem esclareceu o coordenador temático DANILO ARAÚJO MARQUES em depoimento gravado perante a Comissão de PAD da CRU/MG (certidão PR- MG-33889/2020).

Nesse sentido, a primeira constatação a que se chega é que o destino dado a bolsa é de cunho privado, como contraprestação a um serviço, logo há disponibilidade para se gastar, sendo irrelevante, a princípio, o destino dado a ela.

A segunda constatação é que a investigação não logrou êxito a demonstrar

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suficientemente a destinação de bolsas vinculadas ao Projeto MAP a pesquisador/bolsista que não tenha prestado serviços para referido projeto ou custeado, por exemplo, materiais de consumo (materiais de escritório, por exemplo), viagens ou diárias com valores repassados pela FUNDEP para outros projetos que não o Memorial.

A terceira constatação é a de que apesar de indiciar WILKIE, RAFAEL e LEONARDO, os dois primeiros coordenadores temáticos do Projeto República, não se esclareceu as transferências realizadas pelos três a outros integrantes do grupo e nem o recebimento de valores por outros membros do Projeto República.

Assim, se destacarmos apenas os coordenadores temáticos, verifica-se que WILKIE recebeu entre fevereiro de 2011 e dezembro de 2013 uma série de transferências que totalizaram R$ 43.212,38, mas repassou para outros bolsistas o total de R$ 25.785,50, entre fevereiro de 2011 e outubro de 2013; RAFAEL recebeu entre março de 2011 e janeiro de 2014 o total de R$ 48.656,11 e repassou R$ 36.299,87, no mesmo período;

PAULIANE recebeu entre fevereiro de 2011 e outubro de 2013, nesse caso apenas de WILKIE e RAFAEL, o total de R$ 28.889,04 e transferiu R$ 7.112,42 entre março de 2011 e outubro de 2013; BRUNO recebeu entre maio de 2011 e dezembro de 2013 o total de R$

5.519,00, nesse caso apenas de RAFAEL e HELOÍSA, e transferiu R$ 3.107,00, entre abril de 2011 e junho de 2013; MARCELA recebeu entre maio de 2011 e novembro de 2013 R$

7.335,93, nesse caso apenas de HELOÍSA, RAFAEL e WILKIE e DANILO recebeu entre novembro de 2012 e janeiro de 2014 o total de R$ 3.475,00, nesse caso apenas de RAFAEL e WILKIE e repassou apenas a RAFAEL R$ 770,00, em duas transferências (06/06/2013 e 02/12/2013) (fls. 213/215, 218/226, 232/235, da Informação Policial nº 15/2018, apenso II).

Se considerarmos os demais pesquisadores, que não eram coordenadores temáticos, o destaque é o indiciado LEONARDO que recebeu R$ 69,00 de RAFAEL em 20/04/2011 e R$ 1.000,00 de WILKIE em 07/06/2013, enquanto transferiu para estes, em diversas operações entre março de 2011 e dezembro de 2013 o total de R$ 38.020,14 (fls.

26/228 da Informação Policial nº 15/2018, apenso II), mas também constam como beneficiários das transferências de WILKIE, e principalmente de RAFAEL, LÍGIA BEATRIZ DE PAULA GERMANO, PEDRO DE CASTRO LUSCHER, AUGUSTO CARVALHO BORGES, DÉBORA CRIZELATO DE SOUZA, GABRIEL CÂNDIDO CARNEIRO, MARIA CECÍLIA VIERIA DE CARVALHO, VINÍCIUS GARZON TONET, BRENO TADEU DE PINHO TAVARES BARROSO e PAULINÍSIA DE CARVALHO BRAGA (fls. 229/231, 235/239 da Informação Policial nº 15/2018, apenso II).

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Voltando à Informação Policial nº 15/2018 (fls. 211/212 do apenso II), HELOÍSA STARLING recebeu de BRUNO VIVEIROS MARTINS e LÍGIA BEATRIZ DE PAULA GERMANO, o valor de R$ 3.277,00, em quatro operações, nos dias 22/06/2012, 29/06/2012, 12/07/2012 e 25/06/2013. Além disso, emitiu cheques para diversos bolsistas do Projeto República que totalizaram R$ 17.425,39.

A respeito dessas transferências, não houve manifestação de HELOÍSA STARLING (fls. 337/341), até porque foi interrogada pela polícia em momento anterior ao da elaboração da Informação Policial, mas houve manifestação dos pesquisadores que fizeram as transferências.

BRUNO VIVEIROS MARTINS disse que os valores transferidos são pagamentos de empréstimos para seu filho, afilhado de HELOÍSA STARLING (fls. 827/828), enquanto LÍGIA BEATRIZ DE PAULA GERMANO disse que os setecentos reais transferidos se trataram de aluguel, pois teria sido inquilina de um imóvel de propriedade de HELOÍSA STARLING, versões confirmadas pela professora, quando interrogada pela Comissão de Processo Administrativo Disciplinar da CGU-CRU/MG (certidão PR-MG- 33889/2020).

É certo que vários pesquisadores, como LÍGIA BEATRIZ DE PAULA GERMANO, LEONARDO SOUZA DE ARAÚJO MIRANDA, PEDRO DE CASTRO LUSCHER, além dos coordenadores WILKIE e RAFAEL, afirmaram à autoridade policial que os rumos do Projeto República e das pesquisas para o MAP eram decididos em conjunto, com a participação de HELOÍSA STARLING, inclusive no tocante à questão da “compensação de bolsas”.

Entretanto, isso não é suficiente para se imputar a ela a prática de peculato, a título de coautoria ou participação, pois inexiste no Direito Penal responsabilidade por suposto ilícito alheio, sob pena de se criar uma espécie de responsabilidade penal objetiva, sem demonstração de participação direta ou colateral em cada uma das transferências supostamente reputadas como desvio de recursos públicos.

Essa mesma conclusão pode ser aplicada a ROCKSANE DE CARVALHO NORTON, que atuou entre março de 2010 e março de 2014, na condição de Vice-Reitora e Coordenadora Geral do Projeto MAP, sendo inclusive responsável por assinar o projeto de extensão submetido à FUNDEP, bem como os formulários de solicitação de bolsas de pesquisa.

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Entretanto, não se reuniram indícios de eventual participação de ROCKSANE DE CARVALHO NORTON em suposto esquema de desvio de recursos públicos por meio do

“sistema de compensação de bolsas” criado pelos pesquisadores do Projeto República. Logo, ROCKSANE teve um papel colateral no desenvolvimento das pesquisas de conteúdo, sendo apenas quem assinava, por mera formalidade, em nome da UFMG, documentos submetidos à FUNDEP, sendo mais uma vez firmar a inexistência de responsabilidade penal por suposto ilícito alheio, tendo em vista que a responsabilidade penal é pessoal, vinculada ao princípio da culpabilidade.

Por fim, em relação a indícios de gastos de recursos do Projeto MAP com outros projetos desenvolvidos simultaneamente pelo grupo de pesquisa coordenado por HELOÍSA STARLING, como o Memorial da Democracia do Instituto LULA, apesar da Nota Técnica nº 1657/2017 da CGU (fls. 283/284), da produção do Relatório de Material Apreendido (RAMA) pela mesma CGU (item 10.2.8, fls. 194/195 do apenso III), além do laudo pericial no site do Memorial da Democracia pela Polícia Federal (fls. 434/467), não se determinou precisamente o eventual montante do desvio de recursos e seus responsáveis, mas apenas a constatação de viagens de integrantes do Projeto República para participação da solenidade de inauguração do Memorial da Democracia em momento coincidente com as pesquisas desenvolvidas para o Memorial da Anistia, além da semelhança de algumas imagens coletadas pelo Projeto República tanto para o Memorial da Democracia, quanto para o Memorial da Anistia.

Uma das dificuldades para se precisar a materialidade e a autoria de supostos desvios talvez tenha ocorrido em razão de desenvolvimento simultâneo de vários projetos pelo grupo de pesquisa do Projeto República, sendo que as bolsas pagas pela FUNDEP não transitaram somente pela conta específica aberta para tal finalidade no Banco do Brasil (001-16152-95295510), conforme exposto no próximo tópico.

Isso certamente dificulta, senão inviabiliza, o rastreamento do dinheiro.

Sem isso, não se pode afirmar com precisão que determinada quantia recebida por um pesquisador do Projeto República, que também atuou para o Memorial da Democracia do Instituto LULA, tenha sido remunerado pela conta específica do projeto MAP e não pelo referido instituto. Ou outra hipótese: o pesquisador teria recebido pelo MAP, no que haveria comprovação de saída do dinheiro da conta do projeto MAP e entrada na conta do pesquisador, tendo em vista as quebras de sigilo bancário das contas da FUNDEP e de apenas três dos dezenas de pesquisadores, mas teria de fato prestado serviços para o Memorial da

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Democracia do Instituto LULA, o que também carece de precisa comprovação.

Certo é que houve utilização de pesquisadores quase coincidentes para ambos os projetos, entretanto não se apurou precisamente os valores eventualmente desviados do Memorial da Anistia para o projetos contratados por outras instituições (materialidade), nem os responsáveis por operacionalizar o eventual desvio (autoria).

Assim sendo, diante da inexistência de elementos de informação suficientes ao início da ação penal e não se vislumbrando linha investigativa eficaz, para além dos meios de prova empregados, tendo em vista inclusive o tempo dos fatos, que remontam ao ano de 2009, outra solução não resta senão o arquivamento. Dito de outro modo, o dever de persecução penal exige que a investigação criminal seja idônea e adequada, mas não que trabalhe por conjecturas ou inclua diligências que não se afigurem potencialmente capazes de inovar de modo relevante no conjunto probatório.

Por fim, em razão de não haver indícios suficientes de autoria e materialidade da prática dos crimes de peculato e concussão, por lógica, não há igualmente elementos de informação idôneos quanto ao crime de associação criminosa (art. 288, do CP).

2.2 Suposta prática de falsidade ideológica pelo presidente da FUNDEP, gestão 2014/2018, ALFREDO GONTIJO DE OLIVEIRA, pela gestora financeira da fundação, SANDRA REGINA DE LIMA, e pela gerente do projeto MAP na fundação, ISABELA ROCHA NUNES DE LIMA

A FUNDEP abriu uma conta específica junto ao Banco do Brasil para receber os recursos repassados pelo Ministério da Justiça (001-16152-9529551). O sigilo bancário desta conta foi quebrado (autos nº 21079-23.2017.4.01.3800), no que se detectou a transferência de recursos desta primeira conta corrente para outras quatro contas da instituição junto ao Banco do Brasil, uma perante o Banco Itaú e outra junto ao Santander, sendo relevantes, segundo a investigação, a conta junto ao Banco do Brasil (001-16152-4801091), a conta Itaú (341-0637-244807) e a conta Santander (033-0097-13004529). Em consequência, o sigilo dessas contas também foi afastado (fls. 41/54 do apenso II e fl. 1130 dos autos principais).

Segundo consta, a conta 001-1615-4801091 (Banco do Brasil) recebeu R$ 217.

307,45 da conta do Projeto MAP (001-1615-9529551) e devolveu para esta R$ 218.219, 34,

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Referências

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