A Importância do Programa de Educação Integral na vida de Crianças e Adolescentes do bairro Jardim Paraíso 1

Texto

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A Importância do Programa de Educação Integral na vida de Crianças e Adolescentes do bairro Jardim Paraíso1

Maria Eugenia Lopes dos Santos2 Gustavo Fernandes Joesting3

O bairro Jardim Paraíso está localizado no norte da cidade de Joinville, norte do Estado de Santa Catarina. Sua área é de 3,22 km, e a densidade demográfica, de acordo com o Joinville em dados (2017), é de mais de cinco mil habitantes/ km². O rendimento médio mensal é de 1,6 salários mínimos. Neste ano, o bairro conta com 20.554 mil habitantes, no total, tendo a forte característica de acolher migrantes vindos, principalmente, do Estado do Paraná. A faixa etária desta população pode ser demonstrada da seguinte forma: 0 a 5 anos, 11%; 6 a 14 anos, 18%; 15 a 17 anos, 9%; 18 a 25 anos, 13%; 26 a 59 anos, 44%; 60 a 64- 2% e 65 anos ou mais, 3%. A população conta com acesso para a rede pública de saúde, educação e assistência social, realidade diferente daquela vivida nos anos de 1987, marcada por sofrer descaso municipal e esquecimento por parte da administração das cidades de São Francisco do Sul e Joinville.

De início, o então loteamento Jardim Paraíso pertenceu ao município de São Francisco do Sul, mas, já em 1987, segundo o Jornal O Estado, na matéria “Jardim Paraíso Esquecido pela Administração Municipal” (1987), contava apenas com um posto de saúde sem médico, uma escola primária de uma sala, mal iluminada e sem piso, uma creche, onde 34 crianças dormiam ou descansavam em colchões precários, esgoto a céu aberto em frente às casas, ruas sem iluminação, bem como pouca segurança, dando margem a violência urbana, mas ainda esperando por medidas urgentes da cidade de São Francisco do Sul.

1 Documento redigido com objetivo de embasar, teoricamente, o serviço do Programa de Educação Integral, coordenado pelo Instituto Priscila Zanette, mostrando sua importância na vida de crianças e adolescentes em risco e ou vulnerabilidade social, na cidade de Joinville.

2 Psicóloga atuante no Programa de Educação Integral desde 2016.

3 Gerente do Programa de Educação Integral.

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A cidade de Joinville começou a olhar para o bairro após paralisações de moradores e movimentações políticas, com pedidos de anexação ao município, em 1988, com o intuito de que as necessidades básicas do bairro fossem sanadas, segundo matéria “Bairro quer mudar de cidade”, do Jornal Diário Catarinense (1988).

Em 1997, o então loteamento Jardim Paraíso, foi aprovado como bairro da cidade de Joinville, quando iniciou-se o processo de revitalização do bairro, segundo matéria

“Câmara aprova projeto de criação de bairro Jardim Paraíso” do Jornal Município (1997), que aborda a aprovação do Projeto de Lei 77/97, em 3 de junho do mesmo ano, após a solicitação da diretoria da Associação de Moradores Canto do Rio.

Os moradores locais travam uma luta por pertencimento, uma luta por um lugar na cidade, exigindo atenção às suas necessidades básicas, que perdura por dez anos, de 1987 a 1997; porém, as características que marcam o local são de um bairro periférico, violento, habitado por migrantes e vulnerável socialmente, estigma que carrega desde a sua criação, sentindo a dificuldade de aceitação pelo restante da cidade de Joinville.

As conquistas que os moradores conseguiram mantém-se com foco nas necessidades básicas dos moradores. Hoje o bairro conta com saneamento básico, cinco postos de saúde, cinco escolas, um Centro de Educação Infantil (CEI) um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), um Posto da Polícia Militar, uma subprefeitura e uma Associação de Moradores. Grande parte dos serviços de apoio encontra-se em um único local, na Avenida Júpiter, contando com dois postos de saúde, três escolas, o CEI, o CRAS e, logo no início da Avenida - e do bairro - o Posto da Polícia Militar e a Subprefeitura. Segundo Magnani (2002) esta área pode ser denominada mancha - uma forma de apropriação do uso do espaço - devido aos equipamentos que viabilizam a prática de determinadas atividades, se complementando entre si, cada qual com sua especificidade, oferecendo serviços variados, além de ser reconhecida pelos usuários por ser estável no espaço em que se encontra. As atividades que são oferecidas na mancha são transformadas em ponto de referência físico, visível e público para um número amplo de usuário.

Partindo do pressuposto de que a cidade é feita de outras cidades, segundo Possamai (2007), para além das materialidades do espaço urbano, a mesma comporta sonhos, desejos, projetos inacabados e não realizados. Sendo assim, o

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Jardim Paraíso, agora visto como um bairro, pode ser considerado um lugar que, de acordo com Certeau (1996) é onde se manifesta a arte da convivência entre os parceiros, com movimento próprio, com sua cultura e peculiaridades, não deixando de ser espaço antigo e, ao mesmo tempo novo, carregando em sua topografia o embate entre o novo e o velho, entre a criação do seu futuro e a destruição do seu passado, tendo a função de servir de moradia para sua população, mas também para ser usada, tentando encontrar um equilíbrio entre a estabilidade e mobilidade, o que pode ser muito bem visto a partir do seu histórico (Possamai, 2007).

Com base nas informações anteriormente apresentadas não podemos negar que o Jardim Paraíso e seus moradores, ou pelo menos a maioria, não mais se encontram em situação de vulnerabilidade social, tendo um aporte básico do Estado para suas necessidades. De acordo com Reis et al (2014) a vulnerabilidade social não se refere ao indivíduo, mas sim à falta ou a não-condição de acesso a serviços essenciais para o sujeito, a fim de suprir necessidades básicas, podendo torná-lo vulnerável, evidenciando, assim, o resultado da combinação de determinados arranjos sociais e políticos, que incidem sobre o sujeito. A preocupação com a vulnerabilidade social ainda se dá pelo fato de que, desde o ano de 2015, uma facção se instalou no bairro, com o intuito de movimentar o tráfico local, dando início a uma batalha por território, ao recrutamento de jovens que estavam, e estão, à deriva da sociedade e por espalhar o medo e a violência na população. Abaixo, podemos acompanhar excertos extraídos de noticiários locais que nos aproximam do estigma impresso sobre o bairro:

Em 2017, o primeiro semestre mostrou um crescimento de 45,4% nos assassinatos em relação ao mesmo período de 2016, sendo que o Jardim Paraíso lidera o ranking dos bairros mais violentos (sendo 8 mortes) – levantamento realizado pelos jornais AN e RBS TV e publicado pelo Jornal NSC (2017)4.

Em 2015, a cidade (de Joinville) chegou a ter uma taxa de 23,3 mortes para cada 100 mil habitantes, contabilizando 129 homicídios no ano. Para peritos no assunto, o número de mortes violentas coincide com a entrada de uma facção rival

4 Jornal NSC. 04/07/2017.

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no Estado, as quais se concentram na zona sul e norte da cidade, sendo que o bairro Jardim Paraíso lidera o ranking, conforme Jornal ND mais (2019)5.

O bairro conta com Programas e Projetos voltados para crianças e adolescentes, focando em atividades que visam o desenvolvimento físico, educacional e afetivo. O Programa de Educação Integral do Instituto Priscila Zanette, entre os anos 2014 e 2019, ofereceu atividades físicas (Basquete, Atletismo, Futebol, Canoagem, Taekwondo, Tênis de Campo), atividades educacionais (Apoio Pedagógico, Inglês, Educação Ambiental, Psicomotricidade, Empreendedorismo) e atividades que contribuíram para o desenvolvimento afetivo (Apoio Psicossocial, Devocional, Arteterapia) sempre com o objetivo de participar da formação de um cidadão consciente de seus direitos, com olhar para possíveis caminhos alternativos, além do tráfico e ou outros tipos de violência.

O Instituto Priscila Zanette acredita que, ao oferecer experiências diferentes daquelas em que crianças e adolescentes estão acostumados a vivenciar diariamente, num contexto violento e de risco social, pode transformar as cicatrizes de natureza emocional, que atingem crianças e famílias, em algo produtivo, canalizando a dor das negligências e abusos para outros recursos que não seja a perpetuação da violência. Acredita, também, que as relações estáveis, protetoras e respeitosas e amorosas dentro da família representam um importante fator para o desenvolvimento saudável da criança (Zavaschi, 2009), já que o não estabelecimento de um vínculo seguro leva a uma maior vulnerabilidade em situações traumáticas.

Devido a isso, o Programa de Educação Integral aposta no fortalecimento de vínculos familiares, trabalhando a criança e a família e suas relações sociais.

Segundo Zavaschi (2009), sabe-se que vários fatores de risco são necessários para que uma pessoa se torne vulnerável, como vulnerabilidade neurológica, perdas por baixas condições socioeconômicas, morte ou separação dos pais, traumas por exposição à violência e traumas por abuso sexual, o que influenciará nas respostas psicológicas do indivíduo aos estímulos do ambiente.

A partir de dados dos cadastros das crianças e adolescentes que participaram do Programa de Educação Integral entre 2014 e 2019, o qual aborda questões

5 Jornal ND mais. 31/12/2019.

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socioeconômicas do perfil familiar, pode ser feito levantamento quantitativo para conhecer o perfil do público atendido durante os cinco anos: idade atendida, escola de origem, gênero, vínculo trabalhista dos responsáveis, composição familiar, quantidade de pessoas por família, renda familiar e responsável pela criança. Segue abaixo gráficos:

0 0,05 0,1 0,15 0,2 0,25 0,3

2014 2015 2016 2017 2018 2019

Idade

8 anos 9 anos 10 anos 11 anos 12 anos 13 anos 14 anos 15 a 17 anos

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Gênero

Feminino Masculino

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2014 2015 2016 2017 2018 2019

Escola de Origem

EM Sylvio Sniecikovski EM Thereza Mazzolli EM Rosa Maria EM Hans Dieter EEM Nagib Zattar

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Vínculo Trabalhista Genitora

Formal Informal Desempregada Aposentada Do Lar Sem resposta

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2014 2015 2016 2017 2018 2019

Vínculo Trabalhista Genitor

Formal Informal Aposentado Desempregado Do Lar Sem Resposta

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2014 2015 2016 2017 2018 2019

Composição Familiar

Casado Divorciado Viúva (o) Sem Resposta

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De acordo com dados quantificados a partir de informações de cadastros de matrículas das crianças e adolescentes que frequentaram o Programa de Educação Integral, observa-se que a pobreza e extrema pobreza não caracteriza um risco para as famílias atendidas, conforme porcentagem de trabalho formal e informal, desemprego e renda familiar informados acima. Mas então, o que faz com que o tráfico e a violência sejam tão atraentes para os jovens atendidos? Em atendimentos psicossociais de adolescentes, principalmente, observou-se uma pequena identificação com o envolvimento com substâncias psicoativas, tanto no uso quanto

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2015 2016 2017 2018 2019

Quantidade de Pessoas na Família

3 pessoas 4 pessoas 5 pessoas 6 pessoas

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2016 2017 2018 2019

Renda Familiar

1 a 2 mil reais 2 a 3 mil reais 3 a 5 mil reais

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na venda das mesmas, porém não se faz a maior problemática entre os jovens que frequentaram o Programa de Educação Integral entre os anos de 2016 e 2019, de acordo com o gráfico abaixo:

Verificou-se, nas demandas apresentadas, que a responsabilidade somente da matriarca, pela criança e ou adolescente, cresceu 8% de 2018 para 2019, sendo que em 2017 20,1% das crianças/adolescentes ficavam sob responsabilidade somente da mãe; em 2018, 20,5%; e em 2019, 28%.

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Envolvimento com

Substâncias Psicoativas Envolvimento com Tráfico Local

Envolvimento com Substâncias Psicoativas e Tráfico

Sempre e ainda hoje tenho Já tive envolvimento, mas parei Nunca

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A pobreza esteve sempre ligada à feminilização e infantilização, sendo que a maioria das famílias chefiadas por mulheres, com seus filhos, estão na faixa de pobreza e extrema pobreza no Brasil. A mulher não consegue suprir esta família, sem outro chefe, ficando à mercê da sociedade que a vê como incapaz de cuidar da família, que a julga de várias formas, perpetuando o machismo estrutural: submissão, dependência financeira e emocional. Porém, o crescimento da criminalidade não está ligado à evolução da pobreza, sendo que apenas pequena parte dos jovens que saem em busca de trabalho para complementar a renda familiar envolve-se com quadrilha de ladrões ou traficantes, permanecendo como pano de fundo esta vontade ou necessidade de ajudar na renda (Zaluar,1996)

Partindo do pressuposto de que o maior risco social que se apresenta entre crianças e adolescentes no bairro Jardim Paraíso é a negligência, seguido de genitores usuários de Substâncias Psicoativas, segundo dados do Conselho Tutelar de Joinville, do primeiro semestre de 20206, tal público reproduz o que vivencia em seu contexto social, podendo tornar das relações uma repetição compulsiva e imprevisível.

6 Os Conselhos Tutelates 1, 2 e 3 da cidade de Joinville apresentam levantamentos de dados semestralmente, a fim de contabilizar os tipos de negligência e violência que crianças e adolescentes estão vivenciando na sociedade. O Conselho Tutelar 3 é responsável pelo atendimento dos bairros Jardim Paraíso, Jardim Iririú, Comasa Pirabeiraba. No 1º semestre de 2020, este conselho contabilizou 186 casos com denúncia do tipo “negligência” e 14 casos com denúncia do tipo “genitores usuários de substâncias psicoativas.

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2017 2018 2019

Responsável pela Criança/Adolescente

Pai e Mãe Mãe Solo Pai Solo

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Pensando que o bairro Jardim Paraíso tem uma história de desenvolvimento econômico devido a reivindicações por necessidades básicas supridas, a insegurança se faz presente quando a taxa de crimes chega a um patamar elevado, fazendo com que a qualidade de vida dos moradores seja ameaçada, cuja foi conquistada a duras penas. A insegurança e o medo fazem com que o bairro deixe de se organizar e de participar de decisões locais que afetam suas vidas, fazendo com que os moradores tenham pouca convivência entre si, podendo gerar o desrespeito generalizado pelas regras de convivência social. “Sem regras, toda e qualquer cooperação social é impossível. Nem o jogo de bolinha de gude entre crianças (Dahrendorf, 1987 apud Zaluar, 1996).

A partir do levantamento de dados7 realizado para conhecer as principais queixas que foram atendidas pela equipe técnica entre os anos de 2016 e 2019, foi observado que a dificuldade de relacionamento interpessoal se destacou, seguido de dificuldade no relacionamento familiar, sendo que as queixas trazidas por crianças, adolescentes e família podem abranger dificuldade na comunicação, falta de habilidades sociais, falta de empatia, dificuldade de se expressar emocionalmente, envolvimento com riscos sociais, dificuldade nos relacionamentos escolares, gerando uma série de riscos e vulnerabilidades sociais, capazes de estreitar as oportunidades das crianças e adolescentes do bairro. Segue abaixo gráfico:

7 Este levantamento de dados baseou-se nos atendimentos psicossociais que aconteceram entre os anos de 2016 e 2019, pela equipe técnica do Instituto Priscila Zanette, Psicóloga, Assistente Social e Pedagoga.

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Podemos relacionar os problemas elencados e apresentados pelas crianças e adolescentes, nas queixas com equipe técnica, com o processo de produção de identidade, sendo que a incorporação de modos de ser ocorre pelo contato entre grupos, indivíduos e bens de consumo. Levamos em conta a díade natureza-cultura e a relação entre ambas, a qual é um fator primordial neste processo.

De acordo com Maheirie (2002) num primeiro momento a identidade pode ser entendida como capaz de definir o sujeito ao longo da vida de forma estática, se distinguindo dos demais. Porém, identificar-se também significa tornar-se igual ao outro, sendo que igualdade e diferença acontecem ao mesmo tempo.

Pode-se pensar na dificuldade dos relacionamentos interpessoais como uma escassez de possibilidades de ser e de parecer no contexto, levando em conta a valorização negativa dada a tudo o que não é igual a mim, encontrando apoio dentro e fora do sujeito, se agarrando à repetição, à mesmice, sendo que o encontro com a diferença não é vivida como potência de vida, podendo gerar, assim, o preconceito, a violência, a negligência e a repetição de comportamentos não saudáveis para o sujeito e seus pares.

O Instituto Priscila Zanette, com o intuito de oferecer oportunidades diversas e diferentes daquelas apresentadas diariamente ao público atendido, reconhece a importância da Educação Emocional no dia-a-dia das famílias. Atendimentos

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2016 2017 2018 2019

Queixas Observadas Pela Equipe Técnica

Relacionamento Social Relacionamento Familiar Ensino-Aprendizagem

Uso de Substâncias Psicoativas/Envolvimento com Tráfico local Trabalho Infantil

Sem Perfil Prioritário

Sem contato com Equipe Técnica

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individuais, em grupo e em família são primordiais para que se possa conhecer e reconhecer a dificuldade presente neste contexto, tendo como objetivo que a criança e o adolescente consigam sair da tendência à inércia, da sua zona de conforto, e fazer um rumo à mudança, levando o diferente à família e amigos. “É pela atividade externa que se criam possibilidades de reconstrução de atividade interna” (Aguiar, p. 128, 2000).

Segundo Bock apud Aguiar (2000), o homem é candidato à humanidade ao nascer e consegue adquiri-la no processo de apropriação do mundo, convertendo o mundo externo em interno, desenvolvendo, de forma singular, sua individualidade.

Quando pensamos em humanidade, avaliamos que aprendemos de acordo com o contexto no qual o sujeito está inserido e que o homem se constitui sob determinadas condições sociais, resultado da atividade de gerações anteriores, sendo mediado e determinado histórica e socialmente, não podendo ser compreendido independentemente de suas relações e vínculos.

Conseguimos, aqui, expor sobre a Teoria de Desenvolvimento Humano Bioecológico, do psicólogo Urich Bronfenbrenner, como base para conseguirmos pensar em estratégias e oferecer novos horizontes às crianças e adolescentes, pensando num desenvolvimento saudável, reconhecendo-os como seres humanos e sujeitos de direitos, já que o estigma que foi designado para a população do bairro dificulta a percepção dos sujeitos como cidadãos.

O Modelo citado oferece um aporte teórico e metodológico para a compreensão do desenvolvimento humano como um processo complexo, situando-o no contexto familiar, histórico e social, responsabilizando, não somente a família pela situação de vulnerabilidade e ou risco social que a criança e o adolescentes podem se encontrar, mas os vários sistemas que os envolvem. De acordo com Bronfenbrenner apud Bennetti et al (2013), o desenvolvimento humano é entendido como um fenômeno contínuo, passível de mudanças das características biopsicológicas como indivíduos e grupos, se estendendo durante o ciclo de vida ao longo do tempo histórico, tanto presente como passado.

O desenvolvimento humano pode ser estimulado ou inibido de acordo com o grau de interação do sujeito com pessoas e de acordo com a participação e

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engajamento em diferentes contextos, sendo que um desenvolvimento saudável dependerá do equilíbrio entre o sujeito e seus contextos ambientais e sociais, os quais podem promover mudança ou privá-lo de tais. Por meio disto, podemos responsabilizar os microssistemas em que o sujeito está inserido.

O Modelo PPCT (Processo, Pessoa, Contexto e Tempo), próprio da Teoria do Desenvolvimento Bioecológico, compreende as diferentes formas de interação do sujeito, sendo fatores influentes no processo de desenvolvimento. De acordo com Brofenbrenner apud Bennetti et al (2013), podemos explicar o modelo PPCT da seguinte forma:

O processo é definido pela interação entre o sujeito em desenvolvimento e pessoas, objetos e símbolos presentes no ambiente ao seu redor, podendo gerar dois tipos de efeitos: competência – desenvolvimento de conhecimentos, habilidades, e capacidade de conduzir os próprios comportamentos; ou disfunção – caracterizada pela dificuldade em manter o controle e a integração do comportamento. As pessoas que interagem com as crianças em períodos longos são os pais ou responsáveis, bem como professores, irmãos, parentes, os quais desempenham um papel importante nos processos que envolvem a interação direta.

No que se refere aos atributos de pessoa, as características são entendidas, simultaneamente, como produtoras e como produtos do desenvolvimento, sendo que podem facilitar ou dificultar o estabelecimento e o engajamento nas relações.

O contexto é caracterizado por qualquer evento ou condição fora do organismo capaz de influenciar o sujeito em desenvolvimento, ou ser influenciado por ela. São considerados sistemas e são classificados como microssistema – ambiente em que o sujeito em desenvolvimento frequenta e as relações que estabelece face a face; o mesossistema – é o conjunto de microssistemas nos quais o sujeito está em contato e as interrelações constituídas entre eles; o exossistema – ambientes em que a pessoa em desenvolvimento não participa diretamente, mas que acarretaram influências indiretas em sua vida; o macrossistema – são os padrões globais que envolvem ideologias, crenças e valores da sociedade em que o sujeito vive.

O fator tempo permite examinar a influência das mudanças e continuidades que ocorrem ao longo do ciclo de vida para o desenvolvimento humano, levando em conta idade cronológica, tempo social e histórico.

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Pensando no contexto do bairro Jardim Paraíso, no estigma que carrega e na violência presente no dia a dia de crianças e adolescentes que participam do Programa de Educação Integral, é possível pensar o Programa como promotor de processos proximais no desenvolvimento dos atendidos, suscitando novas interações com pessoas, ambientes e situações, sendo que estes processos são considerados os motores do desenvolvimento, diferindo de acordo com as características individuais e do contexto, tanto espacial quanto temporal (Bronfenbrenner, apud Bennetti et al, 2013). Entende-se então, que as emoções e comportamentos mostrados durante as atividades oferecidas no Contraturno Escolar e na relação com o outro podem ser fruto do contexto em que as crianças e adolescentes estão inseridos e fruto das interações do sujeito com pessoas e objetos que compõem seu ambiente. De acordo com Bronfenbrenner (apud Bennetti et al, 2013), o indivíduo e o grupo são unidades orgânicas que se inter-relacionam, influenciam-se e, por isso, não podem ser estudados isoladamente.

Entre 2014 a 2016, o Programa de Educação Integral atendeu crianças e adolescentes que conviviam com a violência bruta diária (tráfico, uso de SPA, roubo, negligências). Vê-se que tal comportamento sempre foi reproduzido nas atividades do Contraturno Escolar, principalmente pelo sexo masculino, utilizando da agressão física e verbal contra colegas e professores, ameaças, roubos de alimentos para o lanche diário, uso de substâncias psicoativas, sem considerar o respeito ao próximo, não conseguindo se adequar a um modelo saudável de socialização para uma melhor convivência.

Pensando na identidade do sujeito estar na condição de criminoso - e outras nomenclaturas que o colocam em uma condição momentânea devido a atos não condizentes com o convívio em sociedade -, de acordo com Zaluar (1996), é um sujeito que se perde numa perversão da liberdade em que o outro não é levado em consideração. A noção da liberdade que se tem “ninguém manda em mim, ninguém me influencia, ninguém me sugestiona” é a negação das exigências que o outro sempre coloca a cada um, por meio de regras e leis. O sujeito que está nesta condição precisa ser mal para se auto-afirmar, necessitando de usar da força bruta para tal, não podendo hesitar frente a ações que carecem dessa violência. Tais ações diferenciam o homem forte da autonomia moral. Entende-se tais comportamentos

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como uma forma de obter reconhecimento social, de se identificar com o contexto em que vive e perpetuar o que pode ser uma manifestação da virilidade, poder e independência, competitividade, força e agressividade, características do chamado ethos da masculinidade, o que comprova a fala de Zaluar (1996) quando pontua o modo operandis do sujeito, quando o mesmo usa de absolutização da liberdade, negando a liberdade dos outros.

Sabe-se que o homem, além de produto da evolução biológica, é também produto histórico, mutável, sempre se adequando a uma determinada sociedade, se constituindo sob determinadas condições sociais e que não pode ser compreendido independente de suas relações e vínculos. Porém, devemos evitar a visão de homem que considera o ser humano desprovido da possibilidade de criar, passivo, não sendo reflexo imediato do meio social. (Vygotski apud Aguiar, 2000)

Partindo desse pressuposto, o Instituto Priscila Zanette acredita nas mudanças sociais a partir das vivências de crianças e adolescentes, cultivando novas ideias, novas possibilidades de convivência, identificação de emoções e sentimentos, aprendizagem de habilidades sociais, vivências de oportunidades diferentes daquelas sugeridas diariamente, já que “o ser bioecológico está em uma relação dialética com o psicológico e o social, e nenhum fenômeno pode ser compreendido isoladamente, sem conexão com os demais fenômenos que o cerca” (Brofenbrenner apud Bennetti et al, 2013) e que , segundo Vygotski apud Aguiar (2000) o homem é um ser ativo, social e histórico, sendo que estas condições lhe permitem constituir sua forma de pensar, sentir e agir, constituindo sua consciência.

O Instituto Priscila Zanette se constitui como parte da rede socioassistencial, na tentativa de articular com Sistema Único de Assistência Social, Sistema Único de Saúde, Sistema de Educação e Sistema de Justiça, sempre tendo a consciência da importância do Programa de Educação Integral como um apoio para a rede municipal socioassistencial. Infelizmente, o Programa de Educação Integral, na cidade de Joinville, ainda não é tido como obrigatoriedade, como política pública, mas as parcerias que se formaram ao longo dos anos, são de extrema importância para que se consiga alcançar os objetivos dos atendimentos.

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A fim de quantificar algum tipo de resultado obtido com adolescentes (de 12 a 17 anos) egressos do Programa de Educação Integral, que frequentaram as atividades de 2014 a 2018, percebeu-se a contribuição para mudanças significativas na vida pessoal e social dos mesmos. Abaixo, segue gráficos:

0 2 4 6 8 10 12 14 16

Tipos de atividades que os adolescentes mais se identificavam

Educação Afetividade Esporte

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O Programa de Educação Integral conseguiu mudar algo no bairro Jardim Paraíso?

Sim Não

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As respostas qualitativas se apresentaram da seguinte forma: “mudou nossa visão sobre as coisas tirando-nos das ruas e dos corres” (sic); “mudou a qualidade de vida de milhares de crianças e adolescentes, despertou o interesse de diversos alunos na área esportiva” (sic); “muitos jovens conseguiram seu primeiro emprego por conta do IPZ, sendo assim, diminuindo os jovens na vida errada e melhorar nos estudos” (sic); “ajudou e uniu famílias” (sic); “tirou crianças das ruas que poderiam estar fazendo coisas erradas” (sic), entre outras falas que mostram a importância do Programa na vida de crianças e adolescentes acompanhados diariamente. O Programa de Educação Integral trabalha com um “efeito dominó”, apostando na mudança da criança e do adolescente, uma transformação que irá se reverberar na família e sociedade, porém, para isso, uma mediação deverá acontecer para que tal transformação ocorra.

As respostas que se fizeram presente foram tais, como: “me tornei um adulto disciplinado e sabendo valores que foram agregados nesses anos que tive de IPZ”

(sic); “ talvez eu poderia estar nas drogas e no crime se eu não estivesse ocupando a cabeça, fazendo as atividades lá” (sic); “aprendi a lidar comigo mesma, interagir com as pessoas, fiz muitas amizades” (sic); “aprendi a respeitar mais as pessoas, as

10 10,5 11 11,5 12 12,5 13 13,5

No que as atividades propostas ajudaram?

Relacionamento Saudável Disciplina Perspectiva de Vida

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outras opiniões e me relacionar melhor, também consegui meu primeiro emprego”

(sic). A importância de começar a acreditar e ter fé no trabalho que é feito com as crianças e adolescentes do Programa de Educação Integral e que aqueles que dependem do nosso serviço tem o direito de ter um olhar mais atento às suas necessidades é imprescindível para conseguirmos alcançar resultados satisfatórios e de mudança social. Freire (p.81,1997), encoraja-nos a ter fé nos homens, além do diálogo; “fé no seu poder de fazer e refazer. De criar e recriar. Fé na sua vocação de ser mais que não é um privilégio de alguns eleitos, mas direito dos homens”.

Por meio dos estudos realizados para embasar o trabalho do Instituto Priscila Zanette e a importância do Programa de Contraturno Escolar na rotina de crianças e adolescentes, entende-se que o homem e sua subjetividade são produzidos histórica e socialmente, porém não se reduzem a um simples reflexo passivo do meio.

Entende-se, também, que a exposição a riscos e vulnerabilidades sociais das pessoas não resulta apenas de um conjunto de aspectos individuais, mas de questões coletivas, contextuais e institucionais, que podem contribuir para que crianças e adolescentes se tornem suscetíveis a tais situações, de acordo com Ayres et al apud Souza et al (2015). Pensando o sujeito como protagonista de sua história e que o processo de sua construção é realizado no coletivo, as atividades oferecidas no Programa de Contraturno Escolar são possibilidades de mudança da realidade social e psíquica da criança e do adolescente; gerando mudança psíquica, gera mudança social e o sujeito se reinventa e reinventa seu espaço. De acordo com Ciampa (1990), o sujeito desiste de buscar o que o diferencia, para formar sua identidade social, e se contenta em se identificar pela igualdade, já que a incorporação de modos de ser ocorre atualmente pelo contato entre grupos, indivíduos e bens de consumo.

O Programa de Contraturno Escolar exalta as diferenças e as mudanças comportamentais e identitárias das crianças e adolescentes, pois crê que todo e qualquer sujeito se difere na forma de ser, de agir e reagir, de aprender, de sofrer e se alegrar, respeitando, acolhendo e valorizando cada indivíduo com suas particularidades, trabalhando a possibilidade de respeito entre os pares e apresentando uma possibilidade de ser e fazer diferente daquilo que é apresentado nas relações sociais permitindo que o sujeito amplie a própria identidade, evitando uma repetição do mesmo - comportamento, valor, sentimento imposto desde o dia de

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seu nascimento - associada a uma tendência à inércia, à mesmice, dando a oportunidade de novos olhares e vivências para o futuro.

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