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GOLPE DE ESTADO DE NOVEMBRO
DE 1891
E AS REPERCUSSÕES
NA CIDADE DO RIO GRANDE
FRANCISCO DAS NEVES ALVES'
RESUMO
O golpe de Estado promovido pelo Presidente da República, Marechal
Deodoro da Fonseca, a 3 de novembro de 1891, significou um momento de inflexão na evolução político-partidária tanto na conjuntura nacional quanto na regional. As reações à dissolução do Congresso Nacional acabariam por redundar na derrubada tanto de Deodoro quanto de Júlio de Castilhos, assumindo Floriano Peixoto a Presidência ,da República, e o governo do Rio Grande do Sul ficaria sob novo comando com a ascendência dos dissidentes republicanos, Este episódio serviu para que as manifestações contrárias ao ato presidencial ganhassem as ruas e o pensamento anticastilhista viesse ainda mais à tona, mormente através da imprensa. Este trabalho visa realizar um estudo de caso sobre o golpe de Estado, apresentando as repercussões deste na cidade do Rio Grande, refletidas nos manifestos das autoridades públicas e dos periódicos locais.
PALAVRAS-CHAVE: golpe de Estado, Marechal Deodoro da Fonseca, autoridades públicas rio-grandinas, imprensa rio-grandina.
1 - INTRODUÇÃO
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processo de transição da Monarquia à República no Brasil foi uma fase marcada por uma grande movimentação de idéias, as quais passaram a circular, muitas vezes, mal absorvidas ou absorvidas de modo parcial e seletivo, resultando em grande confusão ideológica (Carvalho, 1997, p. 42). Neste quadro, foram diversas as vertentes que buscaram moldar a nova forma de governo, apresentando versões diferentes e/ou antagônicas entre si, de modo que "liberais", "positivistas", "jacobinos", entre outros, cada qualà
sua maneira queria decidir os rumos da incipiente República.Outra oposição na definição dos rumos republicanos dava-se entre civis e militares. Estes últimos, os promotores diretos da mudança na forma de governo, levariam vantagem, governando o país de modo ditatorial/constitucional nos primórdios da República. Deodoro da Fonseca, proclamador e mandatário máximo do Governo Provisório da incipiente
* Professor do Dep. de Biblioteconomia e História - FURG; Doutor em História do Brasil (PUCRS)
República, acabaria sendo escolhido como o primeiro Presidente constitucional. Suas práticas, no entanto, amoldadas ao modelo ditatorial que até então prevalecera, não se adaptaram às novas contingências. A oposição ao Presidente Marechal crescera desde a demissão do primeiro ministério republicano, o qual fora substituído por outro suspeito aos olhos dos republicanos históricos (Souza, 1982, p. 170). A escolha de um ministério de "monarquistas encapotados" e "ilustres desconhecidos", encabeçados pelo Barão de Lucena, abriria ainda maiores frentes de oposição a Deodoro (Carone, 1983, p. 53).
Tendo suas atitudes contestadas e julgando-se diminuído com críticas de parlamentares, o Presidente resolveu dissolver o Congresso Nacional (Iglésias, 1993, p. 201). Esta dissolução despertaria ferrenha reação através dos Estados e, como a quase unanimidade dos governadores apoiaram o golpe, isso acabaria causando a queda dos mesmos em suas capitais, alguns depois de desordens sangrentas (Porto, 1989, p. 36). Deste modo, o castelo de cartas estadual revelava sua fragilidade, e, no Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos não se manifestara contra o estado de coisas, limitando-se à ambigüidade de afirmar que a ordem pública limitando-seria mantida (Faoro, 1975,
p.
544).O exclusivismo partidário provocara a formação de uma representativa oposição aos republicanos castilhistas, no contexto sul-rio-grandense, a qual se aproveitou da situação e contribuiu na fermentação da rebelião contra os governistas. Diante do desencadear da "Revolução de 8 de Novembro", a qual visava derrubar tanto a "ditadura" federal quanto a estadual, Castilhos chegou a pronunciar-se publicamente contra o golpe, numa tentativa de apaziguamento (Franco, 1993, p. 32). No entanto, era tarde e o movimento de contestação espalhava-se pelo Estado; as medidas de força do Governador, ao invés de diminuir, aumentavam o entusiasmo da oposição, e de momento a momento chegavam notícias de novos levantes e de deposições das autoridades constituídas (Moritz, 1939, p. 240 e 259), culminando com a derrubada de Júlio de Castilhos do governo, a 12 de novembro e, mais tarde, a 23 do mesmo mês, com a de Deodoro. O governo foi assumido por uma junta baseada na incerta coalizão de ex-liberais, ex-conservadores e republicanos dissidentes (estes que, posteriormente, acabariam por encabeçar a nova situação), que logo passaria a enfrentar a oposição dos castilhistas, que denominaria aquele triunvirato de "governicho".
Na cidade do Rio Grande, o golpe de Estado de novembro de 1891 e as "revoluções" e deposições dele advindas iriam trazer significativas repercussões, notadamente junto à imprensa, que se manifestou abertamente contra a atitude presidencial, passando a exigir a derrubada dos governantes tanto na esfera federal quanto na estadual, bem como junto às autoridades públicas, expressas através dos manifestos da Intendência Municipal.
64 BIBlOS, Rio Grande, 11: 63-76, 1999.
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AS CONSEQÜÊNCIAS JUNTO ÀS AUTORIDADES PÚBLICAS: A INTENDÊNCIA MUNICIPALA 10 de novembro de 1891, em virtude dos "acontecimentos revolucionários", dava-se a investidura dos novos Intendentes Municipais na cidade do Rio Grande, assumindo Francisco Camboim Filho, Alfredo Rodrigues de Oliveira e José Pio Alves, ligados aos antigos partidos imperiais e à dissidência republicana. Em sua primeira reunião, a nova
Intendência definia que as suas funções, naquele "período de
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c o n v u ls io n a m e n t o em que se achava o Estado", deveriam limitar-se "a
administrar com o maior zelo e rigoroso escrúpulo os interesses municipais, sua fiscalização e arrecadação de suas rendas", ficando suspensa "toda e qualquer despesa, à exceção da que era indispensável fazer-se com o pagamento dos vencimentos dos respectivos empregados da municipalidade, juros das apólices e das mais despesas imprescindíveis" (Ata da Intendência de 10/11/1891).
Com a deposição de Júlio de Castilhos, foi convocada uma "sessão solene extraordinária" da Intendência Municipal que, sob "a assistência do patriótico povo desta cidade", visava comemorar "tão grandioso acontecimento" e com "o fim de assinalar este dia tão glorioso nos anais deste heróico Estado, prenúncio do completo triunfo da causa da liberdade". Segundo a manifestação dos Intendentes, a derrubada de Castilhos trouxera consigo "como conseqüência a paz, a tranqüilidade e o congraçamento da família rio-grandense", que, desta maneira, não teria "mais razão de sustentar entre si uma luta fratricida". Destacavam também que, a partir de então, o "combate" deveria ser levado "às ameias da ditadura" federal, para "abatê-Ia do falso pedestal em que se apoiava para aniquilar a Pátria Brasileira, tão digna de melhor sorte, substituindo essa mesma ditadura por um governo altamente patriótico" que elevasse o Brasil ao rol "das grandes nações do mundo" (Ata da Intendência de 12/11/1891).
Os membros da Intendência concitavam o "povo" a mostrar o seu valor, quando se tratava "de reconquistar o seu direito e a sua liberdade postergada por um governo sem critério, sem patriotismo e sem apoio da nação", saindo em "procissão cívica" para "saudar os heróis da grande cruzada libertadora que compunham o Poder Executivo Provisório da cidade, a oficialidade e a imprensa". O final da reunião foi descrito como de ampla manifestação de apoio popular, pois os intendentes teriam saído à rua, acompanhados "pelo povo em marcha cívica", sob as saudações de "Vivas à República Brasileira, à Constituição Federal, ao Exército, à Armada, aos heróis da Revolução, à imprensa da cidade e ao povo rio-grandense" (Ata da Intendência de 12/11/1891).
A renúncia de Deodoro da Fonseca promoveria nova "sessão solene da Intendência Municipal, com assistência da briosa e patriótica população" rio-grandina. A reunião tinha por intento a comemoração "do faustoso
BIBlOS, Rio Grande, 11: 63-76, 1999.
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acontecimento da queda do Chefe da Nação", o qual, "rasgando a Constituição Federal, tinha arrogado a si a ditadura, querendo, desse modo, cercear os sagrados direitos e a liberdade do povo brasileiro". Segundo a Ata desta sessão, a derrubada presidencial enchera "de júbilo o coração do povo que, radiante de alegria e do maior entusiasmo patriótico, festejava ruidosamente a reivindicação da Pátria livre". Os intendentes realizaram aquela solenidade com o fim de "perpetuar as memoráveis e gloriosas datas de 8 e 23 de Novembro", nas quais "o povo deste invicto Estado, ultrajado pelo prepotente ato ditatorial" do Presidente, se revoltara "heroicamente contra essa ignominiosa afronta atirada às faces da Nação Brasileira". Destacavam ainda que aquele "movimento revolucionário, irradiando-se em diversos Estados, abatera o poder ditatorial que ameaçava aniquilar a Pátria Brasileira", fazendo com que, "em seu lugar, se erguesse um governo livre, compatível com a dignidade brasileira e com o regimento democrático inaugurado no memorável dia 15 de Novembro de 1889" (Ata da Intendência de 25/11/1891).
A partir de então as sessões solenes e comemorativas deram lugar às tradicionais reuniões das autoridades públicas municipais, nas quais eram discutidas as questões urbanas do dia a dia rio-grandino. Ainda com referência aos eventos políticos de novembro de 1891, a Intendência Municipal viria a promover mais um ato, através da aquisição, para colocar "na sala de suas sessões", de "um quadro das Armas da República, alegórico das datas de 15 de Novembro de 1889 e 8 do mesmo mês de 1891, comemorativas da proclamação da República e da queda da ominosa ditadura que se quis implantar nesta grande nação" (Ata da Intendência de 6/2/1892).
Outra forma de propagação do "espírito revolucionário" contra a atitude presidencial deu-se na cidade do Rio Grande por meio do jornalismo. As próprias autoridades locais reconheceram a importância dos periódicos na divulgação deste pensamento, destacando que deveria "ficar assinalada de modo indelével a abnegação patriótica com que a imprensa local concitou o povo à luta na defesa dos seus sagrados direitos, tornando-se assim merecedora da gratidão nacional" (Ata da Intendência de 25/11/1891).
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A REAÇÃO DA IMPRENSADurante os primórdios da República, a imprensa brasileira passou por uma de suas fases de maior cerceamento. No Rio Grande do Sul, entre 1889 e 1891, o controle das autoridades governamentais castilhistas sobre o jornalismo foi ainda mais incisivo, mormente à época de Fernando Abbott. Esta direta repressão, que coibira ao menos em parte as manifestações anticastilhistas, seria rompida por ocasião dos acontecimentos de novembro de 1891, uma vez que os jornais aproveitaram aquele momento para reencetar a luta partidária.
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BIBLOS, Rio Grande, 11: 63-76,1999.3.1 - OArtista
O
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A r t is t a (1862-1912) era uma publicação tradicionalmente vinculadaaos liberais gasparistas que, com a proclamação da República e os desacordos políticos a partir daí originados, optara por uma posição moderada e "independente", diante das discussões de cunho político. Foi somente depois do golpe de Estado promovido por Deodoro da Fonseca e do afastamento de Júlio de Castilhos do governo rio-grandense que o jornal voltou a manifestar suas convicções políticas. Quanto ao movimento que se preparava no Rio Grande do Sul visando a derrubada do Presidente da República, o periódico aplaudia a "vitória da revolução", pela qual o "povo" rio-grandense teria retomado "seu lugar de honra à frente dos povos mais entusiastas da liberdade", numa "patriótica e nobilitadora" ação, "respondendo com a mais sagrada e a mais nobre das revoluções ao despotismo brutal do governo da República". Destacava que o "povo" gaúcho não aceitara "a escravidão que um tirano caricato teve o devaneio de impor-lhe", de modo que aquela "revolução", quando fosse submetida ao "juizo imparcial da história", iria "refulgir na página mais bela, como uma das manifestações mais augustas ou pelo menos mais simpáticas da bravura, da coragem e da independência de um povo" (12/11/1891).
Para a folha, Deodoro havia conculcado "a vontade do povo, expressa no pacto fundamental da República", buscando "reduzir este povo heróico e generoso a um rebanho de tímidos cordeiros, ou transformá-Io num troço de escravos sem os estímulos da dignidade e do brio", sufocando "todas as sugestões de patriotismo e todos os impulsos de sua honra vilipendiada pela mais estupenda e retrógrada das tiranias". Considerava o presidente como "conspirador, inimigo da ordem e do progresso", praticante da "fraude e do canibalismo político", devendo todos, "sem distinções de partido e sem relutâncias prejudiciais", promover a luta até que fosse "completa a obra da reivindicação solene dos brios" dos brasileiros, os quais não deveriam descansar "um só momento", continuando "a julgar a liberdade em perigo, até que a tirania do centro se visse obrigada a capitular" (13/11/1891).
A 24 de novembro de 1891, o periódico noticiava que afinal caíra "a ditadura grosseira, prepotente e vexatória, imposta à nação brasileira", de modo que "o insulto irrogado à soberania nacional foi larga e cavalheirosamente vingado com a deposição forçada do inconseqüente soldado", o qual não soubera "honrar as tradições brilhantes de um passado glorioso", não honrando ''também o mandato supremo que lhe fora confiado pela soberania popular". Na perspectiva do jornal, "a deposição do déspota", devera-se essencialmente "ao Rio Grande do Sul, a esta heróica terra, berço eterno e baluarte inexpugnável da liberdade", ao qual cabia "a glória de ser o iniciador deste nobre e magnânimo movimento de reivindicação dos brios e da dignidade da soberania nacional", além do Exército e da Armada, também responsáveis pela "glória de serem intérpretes e executores da vontade nacional".
BIBLOS, Rio Grande, 11: 63-76,1999.
3.2 - O Diario do Rio Grande
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Folha ligada ao pensamento e às práticas dos liberais rio-grandenses, desde 1878, o
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O ia r io d o R io G r a n d e (1848-1910) também buscou adotaruma postura de "neutralidade" diante da crise que se instaurava no contexto político gaúcho após a mudança da forma de governo, chegando, muitas vezes, a silenciar diante das disputas político-partidárias. As manifestações de natureza política só viriam a reaparecer a partir de novembro de 1891, com a dissolução do Congresso Nacional e as conseqüentes transformações que este ato traria à política sul-rio-grandense. O golpe de Estado promovido pelo Presidente da República serviu para que o periódico expressasse sua desilusão para com os destinos dados à nova forma de governo, declarando por diversas vezes que, no período de existência da República, o país não tinha passado sequer por um pequeno avanço.
Diante da atitude presidencial, o periódico afirmava que aqueles "que pensavam que com a promulgação da Constituição" estaria "legalmente constituída a República" tinham acabado "de ter a prova do contrário", estando o país, como à época do Governo Provisório, "sem outra lei que a vontade dos ministros"; não haveria, portanto, Constituição na prática, pois desde a sua criação esta fora "violada por aqueles que prometeram respeitá-Ia e cumpri-Ia". Na opinião da folha, embora o segundo aniversário da República se aproximasse, ela ainda não havia adiantado "um passo ao caminho da sua consolidação e do seu crédito" e, pelo contrário, "em vez de progredir estava retrogradando", e afirmava, enfim, que "a 15 de novembro de 1891 o país estava tão adiantado como a 15 de novembro de 1889", ou seja, como antes, o que "imperava era a ditadura" (7/11/1891).
Quanto à derrubada de Júlio de Castilhos, o jornal a considerava como de menor importância diante da necessidade mais urgente de afastar-se o presidente golpista, destacando que "afastar-se a revolução tivesafastar-se unicamente por objetivo a deposição do Dr. Castilhos", poderia ser considerado o seu encerramento, porém, como "ela era originada pelo ato prepotente do Marechal Deodoro", afirmava que a mesma prosseguiria "até demonstrar ao ditador, de forma bastante expressiva, o descontentamento, ou antes, a indignação que o seu ato causou no Rio Grande" (13/11/1891).
Aproveitando a data que demarcava os dois anos de existência da República, o diário rio-grandino apresentava sua visão sobre a vida política brasileira naquele período, explicando que "todos queriam uma república democrática, vazada nos melhores moldes, visando o engrandecimento da Pátria, prestando culto à liberdade, representando a lei e fazendo do seu código político a base da sua futura grandeza". Porém, o que se via era o "chefe da nação e principal fundador da República deturpando esta nos seus fins grandiosos, rasgando a Constituição e proclamando-se ditador, afrontando o país com sua vontade prepotente e por esse modo se incompatibilizando com a opinião", a qual haveria de "condená-Io, como o
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BIBLOS, Rio Grande, 11: 63-76, 1999.Rio Grande já o condenara". Destacava ainda que não era "de festas, infelizmente", aquele dia para a Pátria, e que "os patriotas que aspiravam a vê-Ia grande, forte, cheia de prestígio e respeitada, em vez de festas", deveriam "fazer votos para que, com a queda da tirania, ressurgisse para a República uma nova época de (...) grandioso futuro" (15/11/1891).
Pouco antes da deposição do Marechal Deodoro, o ~ ia r ia
manifestava sua adesão ao movimento que visava a derrubada do governante, explicando que apoiava a "revolução", quaisquer que fossem "as conseqüências da luta a que o Rio Grande fora provocado pela ambição desmedida" do Presidente, uma vez que ela consistia num ato marcado por "hombridade, altivez e patriotismo" contrário ao "nefasto despotismo do centro". Para o jornal, aquela causa não visava "outro fim senão o triunfo da justiça, da razão e do direito de um grande povo sobre a prepotência", tendo sido recebida com o entusiasmo de "toda a população rio-grandense, sem distinção de crenças partidárias" (20/11/1891), não apontando, portanto, para a indecisão que demarcou por certo tempo a postura de Castilhos quanto ao golpe presidencial.
3.3 - O
BisturiO semanário caricato B is t u r i (1888-1893), aliado das idéias
gasparistas, apesar de uma aceitação inicial dos governantes republicanos, logo romperia com o autoritarismo destes, tornando-se um dos mais ferrenhos críticos de Júlio de Castilhos.
À
época de Fernando Abbott, o jornal teve de arrefecer seu espírito de contestação, porém, a partir de novembro de 1891, voltou a tratar dos assuntos de natureza político-partidária com significativa intensidade, constituindo-se no principal assunto o golpe de Deodoro e as conseqüências dele advindas. O periódico se opôs abertamente à dissolução do Congresso e atacou veementemente o governo, afirmando que "o chefe supremo, qual marinheiro inábil, navegando em batel apodrecido nos mares de um oceano encapelado, tendo por piloto um lu c e n a estúpido, ignorante e mau, e por velas as folhasda gloriosa C o n s t it u iç ã o " , andava "desorientadamente entregue aos
caprichos bestiais" e parecia "desejoso em reduzir a mísera n a u d o E s t a d o a
fragmentos imprestáveis" (8/11/1891).
A folha destacava a "triste condição" em que estava o país, mas vaticinava que "não abusassem da paciência do povo brasileiro" e que não brincassem com ele, pois " á g u a m o le em p e d r a d u r a . . ." (8/11/1891). Este
texto era acompanhado de uma ilustração que mostrava o Presidente num barquinho com a bandeira nacional - representando o Estado Brasileiro -, munido com um canhão desproporcional ao tamanho da embarcação, numa referência ao autoritarismo daquele governante. No desenho, Deodoro recebia um aviso do periódico: " C u id a d o g e n e r a lí s s im o , os h o r iz o n t e s e s c u r e c e m a n u n c ia n d o p r ó x im a b o r r a s c a ! . . . A n a u d o E s t a d o
é
m u it op e q u e n in a
e
n o v a , n ã o v a m o s t e r a lg u m a d e s g r a ç a . . . " .o
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jornal ficou exultante com a deposição de Júlio de Castilhos e apontou para a necessidade de ser feito o mesmo em relação ao Presidente da República. Afirmava que já se havia arrancado "o javali do seu nefando covil" e que já estava "em poder dos revoltosos o famigerado Castilhos", mas que não estaria "ainda terminada a honrosa missão dos bravos patriotas", que tinham pela frente uma "segunda luta, não menos gloriosa e brilhante, nem de certo menos terrível". Defendia que era "preciso esmagar o chefe déspota, o patoteiro imoral", afastando-o do poder, onde havia sido colocado "para eterna vergonha do povo brasileiro e para desonra do pavilhão nacional", respeitando-se, assim, os "brios tradicionais de um povo livre e independente" como o brasileiro (15/11/1891). Nesta mesma data, a folha apresentava uma caricatura na qual o Brasil personificado por um índio carregava uma cruz, amarrado e arrastado por Deodoro e Lucena, num ato de força e despotismo. O Presidente aparecia de chicoteà
mão e seu auxiliar montava um porco (a "ditadura"), tendo uma serpente enrolada ao pescoço e ostentando a Constituição sendo destruída. Sob a gravura o periódico escrevia: " O s d o is m is e r á v e is a lg o z e s q u e , c o m r e q u in t a d a p e r v e r s id a d e , c o n d u z e m e s t e p a í s ao c a lv á r io d a d e s o n r a ! São o s J u d a s ' d aR e p ú b lic a " 1.
1 Esta caricatura é extremamente rica em simbolização. Neste caso, o sentido simbólico da crucificação refere-se ao sofrimento. Ao empunhar um látego (símbolo do "castigo, do poder e do domínio") e infligir uma flagelação ao "Brasil", o governante aparece como aquele que pode destruir o país através de seu autoritarismo. Já a representação de Lucena é associada a uma serpente, animal que desperta a desconfiança, pois lembra o "avanço sinuoso do réptil" que espreita suas vítimas para atacá-Ias com agressividade; e a um porco que "simboliza a comilança, a voracidade" e que "devora e engole tudo o que se apresenta", consistindo, enfim, no "símbolo das tendências obscuras, sob todas as suas formas, da ignorância, da gula, da luxúria e do egoísmo" (Ghevalier e Gheerbrant, 1991, p. 233
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J
Segundo o hebdomadário rio-grandino, a atitude do Presidente da República fora completamente indigna e condenável, e anunciava que "o nefando e indecoroso procedimento do Chefe de Estado e do seu ministro Lucena", a "infernal bandalheira, desonra e liquidação moral" que eles vinham promovendo, estavam chegando ao "seu termo", pois "de toda a parte surgiam batalhões de bravos a reunirem voluntariamente suas forças aos valentes iniciadores da revolta contra a tirania ditatorial" (22/11/1891). Nesta mesma edição, o jornal apresentava duas caricaturas atacando o Marechal Deodoro e prenunciando sua iminente derrubada. Na primeira, o Presidente achava-se sendo atingido pelos "chutes" da "imprensa" e da "opinião pública" e pelo "porrete" da "soberania", referindo-se
à
vontade popular. Abaixo do desenho aparecia escrito: "O 'g e n e r a lí s s im o ' t r a id o r , a n t ea
a t it u d e e n é r g ic ae
b r io s a d o h e r ó ic o p o v o b r a s ile ir o , s e n t iu e n f r a q u e c e r - lh e a s p e r n a s , c a in d o d e s a s t r a d a m e n t E i'. Na segunda, Deodoro da Fonsecachorava na companhia de seu ministro Lucena, o qual era representado por um asno" sentado sobre um saco de "patotas", referindo-se à ladroeira que estaria orientando as ações governamentais. Diante da inevitável queda, o Presidente estaria afirmando: " C h o r e m o s , c h o r e m o s ju n t o s o n o s s o t r is t e f im . . . " .
e 734; Girlot, 1984, p. 194-195,335 e 521). Assim, o país vinha enfrentando o seu "calvário", ou seja, a sua provação, seu sofrimento e martírio, imposto pelos seus governantes, os "judas" que estariam traindo a causa da "verdadeira república".
2 O asno, neste caso, é "símbolo da ignorância" e o "emblema da obscuridade e até
mesmo das tendências satânicas", indicando a "busca de seduções materiais". (Ghevalier e Gheerbrant, 1991, p. 93-94).
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Fonseca, a qual foi qualificada como "um ato despótico, (...) um golpe de estado e uma provocação de requintada ousadia" (6/11/1891). O jornal passou a conclamar a população a reagir àquela atitude governamental, pois "diante da ameaça, do terror que já começava a sufocar as garantias e as liberdades de toda a ordem", deveriam calar-se "as paixões secundárias e o patriotismo explodir, chamando a postos os cidadãos unificados pelo mesmo sentimento - a grandeza desta terra de lutadores abnegados". Manifestava sua confiança no "revigoramento dos brios nacionais, que começavam a despertar, tendo por ponto de partida o Rio Grande do Sul", contrariamente à "violência praticada em nome do
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g e n e r a l Deodoro - a múmia deste regimeabastardado - pelos parasitas imperiais do porte do Barão de Lucena e traído pelos falsos servidores do c a s t ilh a n is m o , cujo chefe recebia o santo e
a senha daquele feroz reacionário de todos os tempos" (7/11/1891).
Diante da atitude presidencial, o E c h o insistiu em colocar Júlio de
Castilhos como o representante de Deodoro no Estado e, portanto, como adepto do golpe, destacando a necessidade de que o Rio Grande do Sul tivesse "em vista o caráter do instrumento do Barão de Lucena, o bacharel Castilhos, que estava de posse dos segredos da nova ditadura, tentando golpe igual ao que acabava de afrontar toda a nacionalidade", desacreditando os brasileiros "perante os povos civilizados" (7/11/1891). O jornal procurava mexer com os brios dos gaúchos, perguntando "se o Rio Grande seria tão digno" ou "tão covarde, tão desbriado, que não enxotasse do poder o representante genuíno do Barão de Lucena e um dos maiores traidores da República - o bacharel Júlio Prates de Castilhos". Chamando este governante de "instrumento torpíssimo da ditadura", a folha afirmava que eram "poucos os miseráveis que formavam o corpo de janízaros do
c a s t ilh a n is m o , porém mais miseráveis seriam todos aqueles que
entregassem pacientemente a nuca à canga desse poder truanesco, imoral e corrupto". Concluía o periódico, declarando que "o bacharel Castilhos prestara apoio à ilegalidade, ao arbítrio, à tirania", diante do que tinha "o Rio Grande de expulsá-Io, se não preferisse aviltar-se para sempre" (8/11/1891).
Com relação ao movimento iniciado a 8 de novembro, o jornal destacava que "o objetivo da Revolução era derrubar o ditador central", que se colocara "fora da lei, que dissolvera o Congresso, que queria rasgar a bandeira da República e que estava, enfim, aviltando a dignidade nacional". A folha acrescentava o Presidente do Estado no rol dos inimigos da "Revolução", afirmando que o Rio Grande do Sul estava "em alarma contra o agente do poder central, contra o bacharel Castilhos, que estava encarcerando os cidadãos militares e civis que tiveram a abnegação de romper os primeiros fogos, tendo por alvo o baluarte da tirania". Júlio de Castilhos era apontado como "incompatível com o civismo do povo rio-grandense", devendo ser arrancado "da posição que não tinha sabido honrar" e, uma vez este governante estando "posto fora do poder", restava a luta "até que o Brasil se libertasse da ditadura", através da "vitória sobre o
BIBlOS, Rio Grande, 11: 63·76,1999.
73 A deposição do Marechal Deodoro da Fonseca foi comemorada pelo
jornal que descreveu os festejos realizados junto à comunidade rio-grandina, por causa da queda presidencial (29/11/1891). Em outra edição, o periódico homenageava os "heróicos participantes da Revolta de 8 de Novembro de 1891", destacando que fora "do Rio Grande, desta terra de heróis que partiu o primeiro brado de indignação, o brado da guerra contra o plano sinistro do ditador, brado que ecoou do sul ao norte, encontrando em todos os corações patriotas a mais franca e sincera adesão" (20/12/1891). Mesmo após a derrubada de Deodoro, a folha continuou publicando ferrenhas críticas àquele governante, destacando que, à época do seu governo, o país estava "entregue a um bando de corvos esfaimados", os quais queriam "arrancar até os olhos, depois de terem sugado todo o sangue" do povo. Segundo o semanário, o Brasil caminhava "nas trevas, por uma estrada de perigos, vergonhas, desmandos, desregramentos, imprevidências, imoralidades e torpezas" (10/1/1892). O B is t u r i era extremamente enfático
na censura à situação nacional, dizendo que, se fora "para isso que trabalharam pelo desabamento do Trono", que devolvessem o país "como estava" antes, quando os brasileiros tinham "melhor sorte", seus "desejos correspondidos" e a "vida e a propriedade mais garantidas dos ataques e das violências" (21/2/1892).
3.4 -O
Echo do SulO diário rio-grandino E c h o d o S u l (1858-1934), vinculado aos
conservadores à época da Monarquia, transformou-se, após a mudança na forma de governo, num dos mais tradicionais porta-vozes das forças anticastilhistas. A oposição ao castilhismo tornou-se ainda mais acirrada após a dissolução do Congresso Nacional promovida por Deodoro da
Centro" (12/11/1891). Sob o título de "Pródromos da Queda", o periódico anunciava que o "patriótico movimento revolucionário" de 8 de novembro, "unido ao Exército e à Armada" para vingar "a afronta atirada à face do país pelo Presidente da República, ia produzindo o efeito que era de esperar-se", pois "o arvorado ditador já começara a sentir os efeitos do seu ato de desvairada tirania" (17/11/1891).
Derrubados os Presidentes do Rio Grande do Sul e o da República, o
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E c h o manifestava seu entusiasmo diante da situação que se inaugurava,
afirmando que a Pátria dera "ao mundo maravilhado a prova de maior civismo, abatendo a tirania irresponsavelmente representada pelo general Manoel Deodoro da Fonseca". Destacava também que o "Rio Grande estava convulsionado de norte a sul, tendo por objetivo a extinção radical do
c a s t ilh a n is m o , que era o prolongamento do governo de aviltamentos e
misérias que tinha por diretor espiritual o reacionário Barão de Lucena". Segundo a folha, "a queda de Júlio de Castilhos impunha-se como uma necessidade nacional, porque esse homem nada mais significava do que a afirmação vergonhosa do deturpamento da República". Dizia ainda que "no dia 12 rendera-se o bacharel Castilhos, instrumento miserável dos agentes do despotismo e, doze dias depois, o general Deodoro entregava o poder a Floriano Peixoto", de modo que "a nação entrara afinal na posse de si mesma", cumprindo a partir de então "conservar a união, sempre alerta contra os planos dos rebeldes que se não podiam conformar com o desalojamento das posições que tanto deslustraram, promovendo, assim, "definitivamente" a reorganização da "Pátria Rediviva" (27/11/1891).
Mesmo após a deposição do chefe do Partido Republicano Rio-Grandense, o periódico continuou publicando artigos que visavam demonstrar a cumplicidade de Castilhos para com o golpe perpetrado pelo Marechal Deodoro, buscando ressaltar as atitudes que demonstrariam o apoio prestado pelo líder gaúcho, de modo a perpetuar "a ignomínia do
c a s t ilh a n is m o , enxotado da direção do Rio Grande" e a dar "a prova patente
de que o ex-ditador-mirim nunca fora impulsionado pelo dever de servir à causa pública", pois o "que ele queria era conservar o mando, como instrumento ignóbil da aviltante tirania central" (28/11/1891). Apesar da exultação com a derrota dos castilhistas, o jornal chamava atenção para que todos continuassem em alerta e cuidadosos, pois os derrotados da véspera ainda estavam vivos e tramando. Declarava, assim, que "raivoso, sem intuitos alevantados e não podendo conformar-se com a perda do poder (...)
o c a s t ilh a n is m o , que era uma história de tristezas e vergonhas, conspirava
ainda e, portanto, era preciso não o deixar a gosto nas suas explorações criminosas" (12/12/1891).
BIBLOS, Rio Grande, 11: 63·76, 1999. 74
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CBA
ÚLTIMAS CONSIDERAÇÕESo
golpe de Estado entabulado pelo Marechal Deodoro da Fonseca produziria, assim, profundas repercussões na vida política rio-grandina. Junto às autoridades públicas, representadas pela Intendência Municipal, propiciou uma representativa reação contra aquele ato, levando à realização de uma série de pronunciamentos de exortação popular. Contrariando a tradição dos documentos oficiais municipais de então, caracterizados normalmente pela monótona descrição dos expedientes burocrático-administrativos e estéreis quanto ao debate político-partidário, produziram-se então alguns manifestos que bem refletiam o espírito de contestação à época reinante. Já a imprensa, tradicional veículo das discussões partidárias e políticas, em grande parte amordaçada, retomava uma conduta, mesmo que momentaneamente, embasada no partidarismo.As atitudes autoritárias tomadas pelos governantes tanto na esfera federal quanto na estadual, somadas às práticas exclusivistas do castilhismo, levaram à formação de uma significativa oposição, que soube aproveitar-se daquele evento para chegar ao poder. Esta vitória, no entanto, seria breve, pois logo o substituto de Deodoro se revelaria também autoritário e os castilhistas, que continuaram atuando tendo em vista um contragolpe, voltariam ao poder apenas sete meses depois da deposição de Castilhos, contando, inclusive, com o apoio de Floriano Peixoto e aproveitando-se dos desacertos entre as próprias forças oposicionistas, que, heterogêneas entre si, não tiveram condições de manter sob o seu domínio o aparelho do Estado.
O fervor patriótico e político-partidário logo se desvaneceria com relação às autoridades públicas, com a substituição dos intendentes ligados às forças anticastilhistas por outros, fiéis ao castilhismo. Já quanto à imprensa, após o retorno de Júlio de Castilhos ao governo do Estado, o
A r t is t a e o O ia r io d o R io G r a n d e mergulhariam em profundo silêncio acerca
do debate político; o B is t u r i e o E c h o d o S u l, no entanto, persistiram na
oposição aos castilhistas, apesar da ferrenha censura e repressão, pelo menos até outubro de 1893, quando o estado de sítio e uma nova legislação de imprensa promoveria uma restrição praticamente absoluta à liberdade de expressão através do jornalismo.
Estes acontecimentos de novembro de 1891 seriam fundamentais para o agravamento da crise política que marcou o cenário sul-rio-grandense, ao longo dos primeiros tempos republicanos, servindo para acirrar ainda mais as disputas, paixões e ódios partidários, culminando na deflagração da Revolução Rio-Grandense de 1893-1895. Na cidade do Rio Grande, as reações ao golpe deodorista e as manifestações quanto ao "triunfo da causa da liberdade" - expresso através da "Revolução de 8 de Novembro", que teria promovido a vitória sobre a "tirania", o "despotismo" e/ou a "ditadura" de Deodoro e Castilhos - serviriam para verificar-se as
diferentes e divergentes vertentes político-partidárias que disputavam o controle dos destinos da nova forma de governo, cada qual idealizando, à sua maneira, uma "verdadeira república".
CBA
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