A
DOLESCENTES
P
SICÓTICOS
Laurent Combres2
Université Toulouse II – Le Mirail – Toulouse – France
Estudamos os mecanismos das práticas de escrita, especificamente, a dos adolescentes psicóticos. Uma prática clínica em ateliê (de escrita) mostra que escrever pode tratar a doença mental, considerando-a uma falta de inscrição social do sujeito. Nossa hipótese articula a palavra e o escrito como os reflexos da inscrição do sujeito na linguagem e a inscrição social como uma função especial dos mecanismos da linguagem.
Descritores: Psicose. Escrita. Linguagem escrita. Adolescentes.
Dispositivo
criação de um ateliê de escrita, numa instituição médico-educativa, permitiu o acolhimento de adolescentes que, na sua maioria, foram di-agnosticados como psicóticos, para o estudo de seus mecanismos de escrita.
Instalado num lugar especialmente reservado para isso e sem a exi-gência de assiduidade por parte dos participantes, durante dois anos, rece-bemos os escritos daqueles aos quais essa oferta teria, ao menos, suscitado algum interesse. Anteriormente à distribuição de um caderno por participan-te, no qual simplesmente se sugeria que escrevesse seu nome, sempre
1 Tradução: Helena M. S. Bicalho. Docente do Instituto de Psicologia-USP.
2 Doutorando da Université de Toulouse II, Le Mirail, L’Unité de Formation et Recherche. Endereço para correspondência: Université de Toulouse – Le Mirail (Toulouse II), 56, allée Antonio Machado, Toulouse, France, 31058. Endereço Eletrônico: [email protected]
sentávamos a cada um as condições desse trabalho. Este foi conduzido no enquadre de uma pesquisa para uma tese, sem outras instruções nem reco-mendações e, com esse dispositivo elementar, cada adolescente era liberado, em seguida, para escrever ou não, participar ou não do ateliê.
Tal dispositivo técnico que se desejaria estar referenciado à teoria psi-canalítica, poderia ser percebido como contraditório à Psicanálise, na medi-da que ela é um “banco de ensaio” falado. Uma abormedi-dagem medi-da Psicanálise, desde os trabalhos de Sigmund Freud e de Jacques Lacan, mostra que am-bos, antes de tudo, questionaram a fala; o principal interesse do trabalho, no ateliê de escrita, no entanto, foi notar a existência ou não do escrito e com-preender seus mecanismos. Para validar o interesse psicanalítico dessa pes-quisa, lembremos aqui um ponto de trabalho de releitura, do caso do Presi-dente Schreber, por Sigmund Freud e Jacques Lacan. Abordar o trabalho de Daniel Paul Schreber, que publicou a relação dos fenômenos psicóticos dos quais foi vítima, necessitou de dois princípios: o primeiro, que nos interessa, colocou o texto de Schreber como retranscrição de um discurso da psicose. O segundo princípio, por intermédio de um trabalho de interpretação desse texto autobiográfico, permitiu tomar conhecimento dos mecanismos em jogo na psicose paranóica. Assim, tanto a psicanálise freudiana quanto a lacaniana destacaram a compreensão dos mecanismos de linguagem pelo estudo da fala e quanto a escrita fez parte disso, desde o início das elabora-ções teóricas psicanalíticas sobre a psicose.
Tal como queríamos engajá-lo, o trabalho apóia-se sobre os escritos dos sujeitos que vêm ao ateliê. No entanto, a fala não estaria, de qualquer maneira, excluída, ao contrário. Constatar que um dito venha, talvez, modi-ficar o escrito, assim como o contrário, permite destacar suas correlações; esse estudo encontrou a fala, ela é, de início, alcançada sobre o escrito.
Escrita e grupo
aceitar, ou não, responder a essa oferta de escrita - não significou, caso um dentre eles não escrevesse, que sua escrita não existiria. Com efeito, recusar escrever e não escrever se manifestam, unicamente, pela ausência do escrito e não permitem uma distinção confiável entre a negação e a impossibilidade. Se a foraclusão, própria à psicose, se distingue da inibição neurótica, uma e outra são, no entanto, manifestações da existência do sujeito do inconsciente. Mas tudo isso não significa que o sujeito não esteja concernido pela escrita. No mínimo, isso supõe que o inconsciente, a escrita e o sujeito estão ligados de qualquer maneira, sem, todavia, garantir que ele escreva qualquer coisa.
Estudamos, nesse trabalho, somente os casos nos quais esses adoles-centes aceitaram escrever.
Uma vez atravessada essa fronteira de uma passagem ao escrito que, freqüentemente, na neurose, significa o apagamento de si em proveito do escrito e pode, então, produzir a escrita insuportável para um sujeito neuróti-co, nos participantes deste ateliê houve um engajamento num trabalho regu-lar. Sem tirar conclusões muito prematuras, notemos que aqueles que con-sentem em escrever já estão ligados, sob o registro da psicose, ao dispositivo institucional.
vezes. Sobre esse segundo ponto, o seminário A identificação, de Jacques Lacan (Lacan, 1996/1961-1962), nos permitirá precisar como uma manifes-tação torna-se particular ao sujeito. Nesse seminário, Jacques Lacan destaca no sujeito um traço, o traço unário, que é a condição mínima para que seja possível e desejável sua estruturação. É somente após a existência desse traço unário que se determina a estrutura, segundo seja possível, ou não, a fonação do traço unário e a escrita, ou não,daquilo que é assim fonetizado. Portanto, o sintoma tal como nós o conhecemos, a arte, o nome próprio, são, por intermédio da estrutura, os modos de expressão dessa particularidade do sujeito, que não se dissolve no grupo. Ao contrário, eles assinalam sua pré-existência e sua resistência ao grupo e a esses mecanismos identificatórios. Dito isso, duas questões sobre as quais retornamos ficam, então, em suspen-se: como se pode explicar que haja uma, e até várias respostas, a essa oferta de escrita?Quais são as condições de existência do que seria essa escrita de um grupo de psicóticos?
A particularidade psicótica.
Poucos jovens superaram a difícil etapa dessa escrita de grupo e, mesmo uma vez superada, alguns, freqüentemente, aí retornavam. Portanto, os textos têm, num momento ou em outro, mudado radicalmente, como as palavras que os acompanham. Havia ali, então, verdadeiramente, uma ques-tão de escrita, ela lhe pertencia estritamente; e se verificava a ligação entre escrito e fala.
Os adolescentes que consentiram nessa mudança de estilo, investiram, desde então, de uma outra maneira, no lugar institucional deles, e isso sem se remeterem exclusivamente ao dispositivo proposto e discutido pela equi-pe de tratamento da instituição. Se nos colocamos nesse trabalho, após o escrito do grupo, poderíamos ter uma leitura do que o sujeito é no laço soci-al: verificamos, então, que um trabalho sobre o escrito poderia ter uma inci-dência sobre a inscrição social do sujeito escritor; uma articulação entre es-crito, escrita, língua e fala seria, então, verificada.
Para distingui-los dos escritos precedentes, todo texto que no começo era escrito, no enquadre do ateliê, teria como único traço distintivo o nome daquele que o comporia. Cada um desses textos eram, assim, a retranscrição sistemática e semelhantes aos feitos e gestos do portador do nome escrito sobre a capa dos cadernos. Nesse segundo tempo, o dos escritos particulares, o estilo empregado seria suficiente, quando a ocasião se apresentasse. Para reconhecer o seu autor, para compreender esse mecanismo e distingui-lo daquele dos primeiros escritos, é preciso examinar se o nome articulou suas produções, e, caso contrário, como podem ser compostos.
su-jeito; ela permite diferenciar, entre os autores dos escritos, como o nome distinguiria seus textos atuais dos primeiros, construídos em uníssono. Em relação à psicose, é a fonação do traço unário que não se faz; a escrita do que é fonetizado do traço unário – e que se escreve, preferencialmente, sob a forma do nome–, é, então, impossível. Esses escritos particulares existiam sem o suporte distintivo do nome escrito, sem a colocação em função dessa articulação entre o traço unário e o nome próprio e sem a orientação induzi-da pelo dispositivo de tratamento, tal como existia nessa instituição.
Antes de avançar na compreensão desses mecanismos, devemos re-tornar a uma questão deixada em suspense, ou seja, a existência dessa escrita de grupo, adaptada a um modelo, constituída por esses sujeitos de estrutura psicótica.
Se for confirmado que a psicose paranóica pode encontrar sua estabi-lização por uma identificação imaginária ao desejo do Outro, o interesse que uma instituição de tratamento se preocupe com o que pode ser seu desejo, enquanto instituição, pode assegurar, até autorizar, uma tal estabilização psicótica, e explicar assim, a existência dos textos escritos em uníssono. Certamente, nós assimilamos, nesse caso, o desejo de uma instituição ao desejo do Outro do sujeito. Mas uma instituição de tratamento tem, entre outros objetivos, proteger o sujeito contra si mesmo, intervindo nessa dialé-tica do sujeito e do Outro. A possibilidade desses suportes institucionais, cuja prática do escrito em grupo favorece tais estabilizações, deve, então, necessitar uma reflexão aprofundada, tendo ao menos que provar que a fun-ção da escrita concerne todo sujeito. Dito isso, não encontramos, entre os sujeitos psicóticos, somente os paranóicos. A esquizofrenia como a melan-colia aí estão também representadas. Ora, em relação a esses casos de psico-se, e após os trabalhos de Sigmund Freud e Jacques Lacan, a identificação ao desejo do Outro não é uma das primeiras vozes de estabilização nem de suplência.
psicó-tica, assim como fazer um estudo empírico em grande escala, levando em conta as diferentes psicoses, nesse trabalho, privilegiamos o estudo sobre o que cada sujeito escreveu.
Uma tal compreensão de cada caso não poderia ser possível pela aná-lise dos traços característicos de um grande número de indivíduos, submeti-dos a tal experiência. No melhor submeti-dos casos, assinalam a existência das ope-rações psíquicas constitutivas do grupo e permitem uma prática do escrito, e que isso não é sem conseqüência para a constituição de um laço social. Isso dito, e para retornar ao nosso trabalho, se não se suprime assim o estilo (sin-gularidade) e a forma (grupo), se produz, então, um encontro entre esse es-crito, necessário ao laço social do grupo, em referência ao escrito do grupo, e essa identidade mínima que é um sujeito em referência ao traço unário. Para as psicoses, o escrito do grupo é o escrito do portador do nome que reconhece a instituição mas não aprofundou esse paradoxo: há escritos parti-culares, apesar da existência impossível do escrito do nome após o traço unário, como já evocado. É, portanto, nessa diferença entre forma e estilo, que tentamos explicar como puderam ser escritos textos tão distintos que o nome permitia diferenciar, entre eles, os escritos de grupo, sem que eles fossem, nem uns nem outros, uma escrita dessa fonação impossível do traço unário na psicose.
Um mecanismo de escrita
Tendo sempre como referência o seminário inédito, A identificação, onde o estudo da escrita prefigura o da fala, Jacques Lacan propôs como hipótese funcional para a compreensão da estrutura psíquica e suas manifes-tações, uma triangulação entre sujeito, linguagem e real. O traço unário, ligando sujeito e linguagem, ao qual nos referimos até agora, não é o único elo que coloca em movimento uma função de escrita. Se, portanto, não é a mesma escrita, e há um elo ligando linguagem e real, distinto do sujeito, que é a própria escrita: o conjunto das letras, dos traços, de toda marca que está escrita, independentemente do sentido que se pode dar à escrita. Segundo essa aproximação, colocada por Jacques Lacan, essa escrita existe sem a intervenção do sujeito e faz sentido como escrita, unicamente, quando o sujeito aí se coloca para escrever. Para ilustrar essa hipótese, um artigo, um livro, uma gravura, existem somente quando lhes é dado o seu nome de arti-go, de livro ou de gravura. Pode-se, assim, fazer existir a escrita antes que lhe seja dada seu sentido de escrita.
A estrutura psicótica não impediu a alguns desses sujeitos de escrever e de encontrar, por essa escrita, o que nós comparamos à função do traço unário, próprio à neurose, quando sua função está em exercício. Dessa ma-neira, esses sujeitos ao menos se serviram dessa escrita, desse nó, ligando linguagem e real.
Portanto, isso não explica ainda, completamente, porque esses escritos podem ser particulares a cada um dos sujeitos que escreveram. Como tal, esse nó é independente do sujeito, e nada indica que seja único, do mesmo modo que o traço unário. Da mesma forma como o que ocorre na neurose, a fala pronunciada, desde a incidência do traço unário, pode ser uma manifes-tação da particularidade do sujeito, assim também uma escrita que se mani-festa só, e sem a intervenção do traço unário, como particularidade do sujei-to, não pode, por sua vez, ser particular. Mas, por esse procedimento que queremos detalhar, qualquer coisa introduz a particularidade subjetiva.
escri-to; o que disseram de seus novos escritos seria conectado a uma significação estrutural, própria às diferentes psicoses, pois, para todos, foi esse momento em que pôde ser colocado com precisão o diagnóstico de estrutura. Além disso, quando os escritos desses sujeitos se modificaram, o modo deles faze-rem inscrição social, no interior da instituição, mudou também, demonstran-do que uma prática particular demonstran-do escrito poderia ter conseqüências sobre a inscrição social do sujeito. Esses propósitos – suas falas sobre seus escritos – não apenas atribuíam um sentido às suas produções escritas, mas permitiram também sustentar, no espaço que durou o trabalho, o que se escrevia. Por exemplo, enquanto um deles, no fim de cinco meses, passados em retrans-crever o conjunto desses feitos e gestos, começou um trabalho escrito sobre sua genealogia: seu laço social matizado de violências e provocações. Desde então, esse laço social apaziguou-se visivelmente, enquanto que ele se torna-ria, paralelamente, ator de seu lugar. Para um outro, uma figuração pelo de-senho de uma representação do corpo provocou oposições verbais que ele pôde dirigir aos seus companheiros, enquanto esses gozavam da posição masoquista que ele ocupara até então. Para um outro, ainda, uma outra práti-ca de escrito veio fechar a rede de signifipráti-cantes na qual ele se lia, enquanto que, pela primeira vez, ele manifestara o desejo de orientar diferentemente seu lugar.
Considerações finais
Combres, L. (2005). Study of writings practices of psychotics teenagers.
Psicologia USP, 16(4), 57-68.
Abstract: We study psychological mechanisms of writings practices
especially in the cases of psychotics teenagers. A clinical practice in a writing work-group shows that writing is a treatment of mental illness considering as a dysfunction of social inscription. Our hypothesis articulate speech and written work as reflections of the subject’s inscription in language, and social inscription as special work of linguistic mechanisms.
Index terms: Psychosis. Handwriting. Written language. Adolescents.
Combres, L. (2005). Etude dês mécanismes d’écriture dans lês cãs de psychose chez ládolescent. Psicologia USP, 16(4), 57-68.
Résumé: Nous étudions les mécanismes des pratiques de l’écriture
spécifiquement dans les cas de psychose chez les adolescents. Une pratique clinique em atelier (d’écriture) démontre qu’une écriture participe au traitement de la maladie mentale considérée comme dysfonctionnement de l’inscription sociale du sujet. L’hypothèse que nous avançons articule parole et écrit comme reflets de l’inscription du sujet dans le langage, et l’inscription sociale comme fonction particulière des mécanismes langagiers.
Mots clésfs: Psychose. Écriture. Langage écrit. Adolescents.
Referências
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