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MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA SÃO PAULO 2010

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE

CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Kátia Okumura Oliveira

O discurso dos protetores dos

animais e sua imagem na mídia

MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA

SÃO PAULO

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE

CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Kátia Okumura Oliveira

O discurso dos protetores dos

animais e sua imagem na mídia

MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA

Dissertação apresentada à Banca

Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA, sob a orientação do Prof. Doutor José Luiz Aidar Prado.

SÃO PAULO

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Banca Examinadora

___________________________________________

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Ao meu pai.

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Agradecimentos

De coração, muito obrigada a todos.

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Resumo

A pesquisa examina as campanhas em prol da proteção dos animais, de acordo com a análise dos contratos de comunicação. Busca compreender como os emissores e os receptores dos textos são construídos a partir do que é veiculado na mídia, e quais estratégias têm sido empregadas para alterar a percepção do público em relação ao tema. Parte-se da hipótese preliminar de que, muitas vezes, a comunicação utilizada nesse meio é ineficaz para a mudança de comportamentos das pessoas que ainda não são sensíveis ao problema. Geralmente, as entidades protetoras dos animais não dispõem de verbas para anúncios em mídias tradicionais. Assim, as chamadas mídias alternativas são amplamente empregadas. Entre elas, estão manifestações vistas como radicais: passeatas, boicotes e invasões a estabelecimentos públicos e privados. Essa é uma das estratégias mais utilizadas pelo PETA - People for the Ethical Treatment of Animals, maior grupo de proteção aos animais do mundo. Para abordar o assunto, será utilizada a teoria de John Downing sobre mídias radicais. Neste trabalho, serão analisadas campanhas publicitárias do PETA, assim como a repercussão de seus movimentos na imprensa brasileira de 2004 a 2009. Os efeitos das campanhas serão estudados a partir da semiótica peirceana, tendo como suporte as obras de Winfried Nöth, de Lúcia Santaella e do próprio Charles Sanders Peirce. Os contratos de comunicação serão levantados a partir da teoria de Patrick Charaudeau. A relação do homem com os animais será analisada a partir de Keith Tomas, que fala sobre a história da domesticação. Para entender os princípios que regem os discursos dos ativistas, adotou-se textos de Peter Singer e Mary Warnock, que destacam ética, crença e ideologia. O objetivo é avaliar se os trabalhos dos protetores dos animais para transformar discursos, por meio de campanhas de comunicação, são bem construídos.

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Abstract

The research examines the campaigns for the protection of animals, according to the analysis of their communication contracts. It aims to understand how senders and receivers of texts are built from what appears in the media. And what strategies have been employed to change public perception related to the subject. It starts with the preliminary hypothesis that usually communication used in this area is ineffective in changing behaviors of people who are not yet sensitive to the problem. Generally, animal rights organizations do not have money for ads in traditional media. Thus, the called alternative media are widely used. Such as those events viewed as radical: protest march, boycotts and invasions of public and private establishments. This is one of the strategies used by PETA - People for the Ethical Treatment of Animals, the largest animal rights organization in the world. To address the issue, we will use the theory of John Downing on radical media. In this paper, will be analyzed PETA´s ad campaigns, as well as the impact of their work in Brazilian press from 2004 to 2009. The effects of the campaigns will be studied using Peircean semiotics, supported by Winfried Nöth and Lucia Santaella´s work, as well as Charles Sanders Peirce´s writings. Communication contracts will be analyzed with Patrick Charaudeau´s theory. The relationship between man and animals will be examined from Keith Taylor, who talks about the history of domestication. In order to understand the principles that involves activists´s discourse, it´s been adopted the writings of Peter Singer and Mary Warnock, concerning ethics, belief and ideology. The objective is to assess whether the work of animal protectorsto transform discourses, through communication campaigns, are well constructed.

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Sumário

INTRODUÇÃO

1. ESPECISMO E O MOVIMENTO DE LIBERTAÇÃO ANIMAL 1.1.A domesticação dos animais

1.2. Para servir ao homem

1.3. O paradoxo na relação dos animais com os seres humanos

1.4. Sociedade de consumo (in)consciente

2. A PROTEÇÃO DE ANIMAIS E SEUS CONTRATOS DE COMUNICAÇÃO 2.1. O que pensam os protetores dos animais

2.2. Organizações não-governamentais no Brasil

2.3.People for the Ethical Treatment of Animals PETA

2.4. Repercussão das ações do PETA no Folha Online 2.3.1. Folha Online

2.3.2. Produção 2.3.3. Recepção

2.3.4. Construção da Notícia 2.3.5. Informar ou Captar?

2.3.6. Contrato de Comunicação do PETA através da leitura do Folha Online

3. ANÁLISE SEMIÓTICA: PROTEÇÃO DOS ANIMAIS NAS MÍDIAS 3.1. A semiótica de C. S. Peirce

3.1.1. Gramática pura: teoria geral dos signos 3.1.2. Tudo é signo

3.1.3. O signo a partir de si mesmo 3.1.4. O signo com seu objeto 3.1.5. O signo com seu interpretante

3.2. As campanhas do PETA CONCLUSÃO

BIBLIOGRAFIA

ANEXO: CD com imagens e textos

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Introdução

O cenário é uma fazenda no interior da Inglaterra. Lá, cercadas de arame farpado, vivem dezenas de galinhas. Todas trabalhando - sob pressão - na produção de ovos. Quem não atingir a cota mínima, corre o risco de virar jantar. Dentre as prisioneiras, destaca-se Ginger, uma galinha que sonha com a liberdade e que, apesar das tentativas fracassadas, está sempre arquitetando planos para fugir e conhecer o mundo. Até que encontra Rocky, um galo boa pinta que promete altos voos, literalmente.

Este é o enredo da animação A Fuga das Galinhas, de Nick Park e Peter Lord. Sucesso nas telas de cinema em 2000, o filme retrata o cotidiano de animais criados para o abatimento. Durante a projeção, o público torce para que Ginger finalmente alcance o seu objetivo. Na vida real, a história é diferente. Em todo o mundo bilhões de bois, vacas, porcos, perus e, inclusive, várias Gingers, vivem confinados aguardando a vez de virar refeição humana. Mas ainda são poucos os que torcem por uma fuga em massa. O filme é uma amostra do paradoxo existente na relação que temos com os animais: ora considerados como membros da família, ora encarados como saborosos pratos.

Esta dissertação assume uma postura inclinada à defesa dos animais. Tal percepção pode ser justificada pelos três anos de envolvimento com Organizações Não-Governamentais voltadas a esta linha de atuação. O trabalho também dá continuidade a uma monografia desenvolvida por mim em 2005, como conclusão do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Comunicação Jornalística pela Faculdade Cásper Líbero. Na ocasião, foi elaborada uma análise do discurso da mídia sobre os animais em todas as reportagens publicadas sobre o tema na revista Veja, em 2004.

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12 boca fechada” (Veja, Edição 1837 - 21/01/2004) e “Este rato não precisou de um pai para nascer (Veja, Edição 1851 - 28/04/2004) são duas reportagens que tratam os testes em animais de forma naturalizada e sem nenhuma alusão ao que foi proposto no artigo anterior. Os experimentos realizados nos bichos são comentados dentro do contexto do tema central, que é o resultado da pesquisa e os possíveis benefícios que as mesmas trarão à humanidade.

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13 Os animais também mereceram a capa da revista Veja em 2004, que veio em duas versões. Dez mil anos de amizade (Veja, Edição 1881 - 24/11/2004) tem como ponto de partida a expansão do mercado brasileiro de pet food para abordar a relação entre os homens e os animais. Um resumo de tudo o que foi discutido nas matérias citadas anteriormente. Enfoca, principalmente, o paradoxo existente: enquanto alguns animais - mascotes - são tratados como membros da família, outros vivem confinados e têm como destino o prato.

Em prol dos animais

A proximidade com grupos de defesa dos animais permitiu, ainda, que eu ouvisse durante protestos e discussões com amigos frases como “É muito triste, mas eu adoro rodeio, Se eu visse um animal no matadouro não o comeria, mas como não estou vendo..., “A tourada faz parte da cultura da Espanha”.

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14 mudança de hábitos, em especial as que tratam da defesa dos animais, é diferente, por exemplo, de uma mensagem publicitária que estimula o consumo e que está ligada diretamente ao desejo de status ou poder aquisitivo. Neste caso, as pessoas terão um retorno imediato, elas ganharão algo em troca ao aderir ao que está sendo proposto nas mensagens, seja por meio de uma satisfação por ter um produto ou pelo conforto e atenção que terão por possuir determinado objeto. Inclui-se, aqui, a alimentação a base de carne, calçados e casacos de couro, que têm como matéria-prima os animais, tornando esses produtos os principais inimigos dos ativistas. Mas como veremos no decorrer da dissertação, uma vez que envolve milhões de anos da evolução humana e animal.

O discurso dos protetores dos animais

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15 fazer menção ao nome da pessoa ouvida. Há casos em que a informação precisa de várias fontes, várias testemunhas. Outra possibilidade é o informante ser um organismo especializado. Por fim, há o grau de engajamento do informante, uma atitude psicológica que pode fazer com que a informação seja passada como sendo evidente, sem contestação e de forma implícita. A informação pode, ainda, ser passada como convicção, quando há uma indução de que as fontes nas quais se baseia são as mais verdadeiras, caso típico das entrevistas com defensores dos animais. 3. Quais são as provas? As provas pertencem ao imaginário e cabe aos meios discursivos oferecê-las.“São baseadas nas representações de um grupo social quanto ao que pode garantir o que é dito. (Charaudeau, 2009:55). Isto poderá ser feito mostrando sua autenticidade, sua existência e sua verossimilhança, no caso de uma reconstituição dos fatos. O informante também poderá dar uma explicação com os motivos que levaram ao evento noticiado. Aqui entram os vídeos produzidos pelo PETA em matadouros, por exemplo.

Parte-se da hipótese de que muitas vezes a comunicação utilizada pelos protetores dos animais é ineficaz na mudança de comportamentos das pessoas que ainda não são sensíveis ao problema. O sujeito vê a campanha ou lê uma notícia sobre o assunto, sensibiliza-se, mas não apreende sua mensagem e os apelos sugeridos pelas entidades protetoras dos animais. Se houver alguma mudança, ela é apenas momentânea.

Vejamos a seguir as etapas seguidas na construção da pesquisa. O primeiro capítulo fala sobre o especismo ou a discriminação do homem em relação aos seres de outras espécies, teoria defendida pelo filósofo Peter Singer em seu livro Libertação Animal. No prefácio à primeira edição da obra, em 1975, Singer chama a atenção para a tirania de animais humanos sobre animais não-humanos.

A dor e o sofrimento dessa prática são apenas comparáveis aos que resultaram de séculos de violência de seres humanos brancos sobre seres humanos negros. A luta contra ela é tão importante quanto qualquer uma das disputas morais e sociais que vêm sendo travadas em anos recentes (Singer, 2004: XVII).

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16 No meio do debate, há quem defenda a capacidade dos animais de sentir, mas que não questiona a origem de objetos e alimentos que consomem, posição que pudemos observar também no que é divulgado pela imprensa. Para iniciar o tema, faz-se necessário mostrar o processo de domesticação dos animais e como eles passaram a se relacionar com o homem.

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17 Outro ponto importante no desenvolvimento deste trabalho é a leitura do que John Downing define como mídia radical, que inclui passeatas, boicotes e outras formas de expressão utilizadas por grupos que almejam chamar a atenção para sua causa social. Segundo o autor, os meios radicais geralmente são reconhecidos por romperem regras. Acontecem em uma escala menor, embora possam gerar interesse da imprensa, e tendem a causar raiva ou repulsa.

No terceiro capítulo, a Semiótica Aplicada de Lúcia Santaella servirá como guia para as análises de anúncios e imagens utilizados na comunicação dos protetores de animais e de entidades privadas que usam esta estratégia na divulgação de seus produtos.

São inúmeras as peças utilizadas pelos protetores dos animais, principalmente na internet. A maioria das entidades possui endereço eletrônico em que deixam disponíveis materiais educativos como cartazes, cartilhas, apresentações em power point, folhetos e e-mail marketing. Pela quantidade expressiva e diversificada de peças, faz-se necessário um recorte para análise semiótica presente na dissertação: 10 anúncios impressos veiculados pelo PETA.

Construção do público

É certo que hoje os fatores ambientais e a crescente consciência sobre responsabilidade social contribuíram, em certos casos, com novas ideias e concepções sobre nossa convivência com os bichos, processo integrado pela imprensa que, por conseguinte, passou a dar mais atenção ao tema. Podemos dizer que já existe, embora não totalmente explícito, o consenso contra alguns atos - considerados cruéis - praticados contra os animais.

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ESPECISMO E O MOVIMENTO

DE LIBERTAÇÃO ANIMAL

“No começo do Gênesis está escrito que Deus criou o homem para que ele reine sobre os pássaros, os peixes e os animais. É claro, o Gênesis foi escrito por um homem e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus quisesse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou sobre a vaca e o cavalo. O direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa sobre a qual a humanidade inteira manifesta acordo fraterno, mesmo durante as guerras mais sangrentas.”

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20 Neste capítulo, examinarei o paradoxo existente na relação entre os seres humanos e os não humanos, convívio antigo e que, de certa forma, marcou a evolução histórica da civilização. Com base no movimento Libertação Animal, será enfocada a atitude do homem, que ao mesmo tempo em que se identifica com suas mascotes, vê outros seres como matéria-prima para os mais diversos produtos.

1.1.

A domesticação dos animais

Para situar o tema deste capítulo, é importante comentar sobre o Neolítico, ou Nova Idade da Pedra, período no qual os historiadores inserem a domesticação dos animais. Essa é considerada uma das épocas mais importantes da história do mundo, quando as populações passaram a ser mais sedentárias e descobriram novas formas de alimentos. Edward McNall Burns, Robert E. Lerner e Standish Meacham, em História da Civilização Ocidental, comentam que é impossível fixar com exatidão uma data para esta fase. Acredita-se que tenha acontecido por volta de 7500 a.C. Ao encontrar uma forma inédita de moldar suas ferramentas, por meio do polimento das pedras, o homem proporcionou o que os autores definem como progresso material com novas culminâncias. A partir disso, os povos neolíticos tiveram melhor controle sobre o seu meio ambiente, não perecendo tanto com mudanças ou condições climáticas. É justamente neste período que ocorrem dois processos decisivos para que o homem criasse vínculos com a terra e assumisse de fato a postura sedentária, permitindo o aumento da população: o desenvolvimento da agricultura e a domesticação dos animais, que inclui a manutenção de rebanhos e manadas. Um trecho do livro dos autores norte-americanos resume bem este período, no que diz respeito ao foco deste capítulo.

As verdadeiras pedras angulares da cultura neolítica foram a domesticação dos animais e o desenvolvimento da agricultura. Sem esses fatores, seria inconcebível que ela houvesse atingido a complexidade que atingiu. Mais que a qualquer outra coisa, deve-se a eles a existência e o crescimento das povoações e das instituições sociais. Acredita-se, em geral, que o primeiro animal a ser domesticado tenha sido o cão, com base no pressuposto de que ele estivesse sempre a rondar os acampamentos de caça a fim de aproveitar ossos e restos de carne. Com o tempo, ter-se-ia descoberto que o cão podia ser usado na caça e talvez também na vigilância do acampamento. Depois de haver sido bem-sucedido na domesticação do cão, o homem neolítico teria logicamente voltado a atenção para outros animais, sobretudo para aqueles que usava como alimento. Antes de terminado o período, pelo menos cinco espécies - a vaca, o cão, a cabra, a ovelha e o porco - tinham sido levados a atender às suas necessidades. (Burns e col., 1980:11)

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21 atraiam as alcateias. Desta forma, o lobo começou a se aproximar e a valorizar quem o estava alimentando. Do outro lado, o homem via esse animal como um aliado, que lhe garantia segurança diante de outros predadores. Com o tempo, outras espécies também começaram a entrar nas casas, tornando-se dóceis e companheiras.

A agricultura foi a responsável pelos primeiros rebanhos. Seduzidos pelas plantações de trigo e cevada, suínos, ovinos e caprinos selvagens invadiam as lavouras primitivas em busca de alimentos, permanecendo à mercê dos futuros pastores. Era o começo do confinamento.

1.2. Para servir ao homem

Provavelmente, o homem come carne desde o Paleolítico, período que se estende de dois milhões a 10 mil anos a.C. Para sobreviver em épocas de escassez, o Homo habilis, considerado o ancestral do homem moderno, passou também a caçar. Por volta de 30 mil a.C., já podiam ser encontrados grandes fogões utilizados para assar carnes, além de instrumentos que tinham o animal como matéria-prima.

Não só os instrumentos e utensílios eram mais bem feitos, como também apresentavam maior variedade. Já não eram fabricados apenas com lascas de pedra ou, ocasionalmente, uma haste de osso; outros materiais, sobretudo chifre de rena e marfim, eram usados com abundância. (Burns e col., 1980:7)

Em seu livro Criatividade e Grupos Criativos, Domenico De Masi faz uma retrospectiva da evolução humana, destacando os processos criativos que fizeram com que o homem se sobressaísse em relação aos outros animais.

Ele comenta que houve uma evolução própria para cada espécie. Cita o exemplo do cavalo, que há 38 milhões de anos tinha apenas 50 centímetros. A evolução foi lenta até que atingisse sua altura média atual, de um metro e meio, há dois milhões de anos. Desde lá, não houve nenhuma alteração. Uma série de dez glaciações, há um milhão de anos, pode ter sido o fator decisivo para que o homem se distinguisse de outros animais.

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espécies de morcegos, cinco espécies de rinocerontes, duas espécies de hipopótamos e duas espécies de elefantes. Mas somente uma espécie humana. (De Masi, 2002:31)

É no Paleolítico, também, que temos indícios do início da soberania humana, quando o homem, entre todos os animais, foi o único que aprendeu a lidar com a pedra, quebrando-a e transformando-a em utensílios. Aos poucos, vieram outras evoluções: andar de forma ereta, usar as mãos, dominar o fogo, criar regras para os relacionamentos interpessoais, prezar a estética e fantasiar.

Quando, finalmente, tiver atingido este ponto, não mais se poderá falar de um animal, mas de um homem. (De Masi, 2002:34)

Os milhões de anos da idade paleolítica serviram ao homem para criar a si mesmo, diferenciando-se imperceptível, mas definitivamente, dos outros animais, adquirindo uma linguagem própria e construindo alguns utensílios indispensáveis à sua sobrevivência. (De Masi, 2002:39)

A expansão do cérebro, um ou dois milhões de anos atrás, foi um dos principais fatores para a evolução humana. Não somente pelo tamanho, mas pelos aspectos morfológicos, relacionados à sua complexidade. Ganham destaque os neurônios. Ao contrário de outros animais, como o elefante, por exemplo, que tem um cérebro muito maior, os neurônios nos seres humanos são interligados. Isso faz com que seja possível receber e assimilar várias informações simultaneamente. De Masi nos conta que o fator para essa expansão foi a utilização de utensílios, tais como as inúmeras variações de pedras e paus lascados, e os constantes esforços do homem para que fossem aperfeiçoados.

A dieta variada, mais rica em proteínas e em gordura animal, juntamente com os esforços criativos necessários à captura de presas, estimulava a seleção e o crescimento do seu cérebro, tornando-o adequado a posteriores processos de criatividade e de programação ainda mais complexos. (De Masi, 2002:52)

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Na Inglaterra dos períodos Tudor e Stuart1, a visão tradicional era que o mundo fora criado

para o bem do homem e as outras espécies deviam se subordinar a seus desejos e necessidades. Tal pressuposto fundamenta as ações dessa ampla maioria de homens que nunca pararam um instante para refletir sobre a questão. Entretanto, os teólogos e intelectuais que sentissem a necessidade de justificá-la podiam apelar prontamente para os filósofos clássicos e a Bíblia. A natureza não fez nada em vão, disse Aristóteles, e tudo teve um propósito. As plantas foram criadas para o bem dos animais e esses para o bem dos homens. Os animais domésticos existiam para labutar, os selvagens para serem caçados. Os estóicos tinham ensinado a mesma coisa: a natureza existia unicamente para servir os interesses humanos. (Thomas, 1988:21)

Em seu livro, Thomas mostra que a discussão sobre a relação dos homens com os animais é antiga e sempre conflitante, envolvendo aspectos teológicos, filosóficos e culturais. Ele resgata o pensamento do início do período moderno, por volta de 1450, que tinha no primeiro livro da Bíblia, o Gênesis, o apoio e aval para a superioridade humana. Para eles, o Jardim de Éden foi especialmente preparado para o homem, e Deus deu para Adão o poder sobre todas as coisas vivas, o que inclui plantas e animais. No auge do paraíso, os homens não comiam carnes e todos os animais eram mansos. Eles viviam pacificamente até o pecado original, que ocasionou revolta no céu. Por ter se rebelado contra Deus, o homem perderia o direito de fácil domínio sobre as outras espécies, o solo seria mais árido, as plantas teriam espinhos e os animais se tornariam ferozes.

Doravante, os homens seriam carnívoros e os animais poderiam ser abatidos e comidos legitimamente, guardando-se apenas às restrições de dieta vigentes. Nesta lei do Antigo Testamento, o domínio do homem sobre a natureza se fundou. O advento de Cristo reforçou-a, sendo visto por alguns comentadores como uma confirmação dos direitos humanos sobre o mundo natural; embora também fosse possível argumentar que tais direitos se reservavam aos cristãos verdadeiramente regenerados. (Thomas, 1988:22)

Em resumo, pelo pecado do primeiro homem, pagam até hoje todos os animais. Mas uma coisa era certa e inquestionável para esses interpretadores do Gênesis: mesmo com o pecado original, a supremacia humana sobre os animais não seria anulada e nem diminuída. Apesar de estarem mais agressivos e ferozes, os animais ainda tinham lembranças de suas obrigações. Thomas cita vários pensadores e todos com o discurso de que os animais, assim como os vegetais, estavam ali para servir aos homens. No que toca os animais, eles foram criados para satisfazer algum aspecto da vida humana: os animais selvagens serviam como treino para guerras; os moscões para os homens aprenderem a se proteger; a lagosta era alimento, exercício e objeto de contemplação, pois para chegar até sua carne é preciso quebrar suas pernas e pinça; os gados e ovelhas foram criados antes dos homens para que suas carnes

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24 permanecessem frescas até que surgisse a necessidade de se alimentar delas; o cavalo e o boi nasceram para labutar por nós; o cão para demonstrar afeição; as galinhas para mostrar prazer com o confinamento; e o piolho para reforçar nossos hábitos de higiene.

Não é de se negar a importância que os animais tiveram na evolução do Ocidente, tanto para alimentação como para a construção de rotas e estradas, principalmente na Inglaterra, cuja expansão foi significativa com o uso de cavalos para tração, ao invés de bois, que foram restritos à alimentação.

A civilização da Europa medieval seria inconcebível sem o boi e o cavalo. Na verdade, já se calculou que o emprego de animais para carga e tração fornecia ao europeu do século XV uma força motriz cinco vezes superior a de seus contemporâneos chineses. (Thomas, 1988:31)

Também cabia à Ciência um papel importante nesta discussão. Thomas cita a preocupação de Francis Bacon, no século 17, em resgatar o verdadeiro domínio do homem sobre toda a criação de Deus, perdida pelo pecado original. Este era o propósito dos cientistas: estudar tanto quando possível todos os seres a fim de melhor apoderar-se deles. Assim, eles estudariam os vegetais e animais, para identificar possibilidades medicinais, culinárias e, também, manufaturas que pudessem ser aprimoradas ou criadas. Cabe aqui ressaltar o ponto de vista tendencioso de Keith Thomas, que não chega a exaltar eventuais benefícios que hoje usufruímos por conta dessas pesquisas. Ao contrário, reforça os passos dados contra o direito dos animais, sobretudo por René Descartes, que afirmava que somente os homens poderiam combinar, ao mesmo tempo, matéria e intelecto. Esta teoria teve vários seguidores, alguns que chegavam a alegar, por exemplo, que o fato de emitir um gemido não significava que o cachorro sente dor. Claro que tais teorias extremistas não constituem o pensamento do senso comum hoje, como apontou Thomas, mas refletia uma época em que as pessoas estavam maravilhadas com os adventos mecânicos como relógios de bolso e bonecos, o que pode ter levado a uma transferência de características físicas para os animais. Não seriam eles também robôs?

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25 Todas estas justificativas e distanciamento entre o homem e os animais eram, para Thomas, a forma que os pensadores encontraram para legitimar a caça, a domesticação, o hábito de comer carne e a vivissecção, experimentos científicos com animais. Ainda hoje mantemos muitos dos pensamentos dos ingleses da era Tudor e Stuart, como veremos mais adiante, como o especismo de Peter Singer e as controvérsias que surgem em relação ao que o homem contemporâneo pensa sobre os animais. Naquela época, o valor dado aos animais era extremamente negativo. Foi lá que surgiram expressões, conhecidas e utilizadas por nós, como “bêbado como uma cabra”, “comer como um porco”. Enfim, foi uma época em que todos os comportamentos tidos como brutos ou incorretos eram equiparados a um animal. Não escapavam os bebês, cujos sons eram comparados aos de um bicho sagaz; nem os jovens, tidos como burricos selvagens sem modos e sem freios. (Thomas, 198:51)

Xingar alguém de animal ainda faz parte do discurso humano. Mas isso perdeu a força que teve numa época em que as bestas não gozavam de qualquer direito à consideração moral. Com efeito, descrever um homem como um bicho era dizer que ele devia ser tratado como tal. A história das perseguições religiosas no início do período moderno torna absolutamente claro que, para aqueles que cometiam atos atrozes e sanguinários, desumanizar a vítima reclassificando-a como animal era, muitas vezes, uma preliminar mental indispensável. (Thomas, 1988:57)

Já nesta época também existiam os animais privilegiados, que estavam sempre próximos aos seres humanos, em especial o cão, o que ainda pode ser observado em nosso cotidiano. Eles eram divididos em duas categorias: os necessários, que ajudavam na labuta e tinham funções como puxar carroças, trenós e até arados; e os desnecessários, os cães de estimação adorados, sobretudo, pela família real.

Na corte real e nas grandes casas, os cães estavam por toda parte. Os livros de civilidade dos fins da Idade Média recordavam ao pajem que, antes de seu amo ir para a cama, ele deveria tirar os cachorros e gatos do quarto; e advertiam os convidados a banquetes para não chutarem gatos e cães enquanto estavam sentados à mesa. (Thomas, 1988:125)

Thomas defende a tese de que por meio da observação dos animais de estimação foi que se começou a discutir a inteligência dos animais. A partir de uma minoria que via sensibilidade e emoção nos animais, iniciou-se um trabalho que parecia impossível, tendo em vista que ainda mantemos muitos valores de décadas passadas.

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26 Ainda há muita discussão sobre o assunto. Vinte anos depois da edição brasileira do livro O homem e o mundo natural, Luc Ferry lança A nova ordem ecológica. O filósofo francês inicia seu livro com diversos julgamentos que hoje causariam, no mínimo, estranheza. Entre eles a de besouros que foram levados ao tribunal, em 1587, por causarem estragos em diversos vinhedos na França. O veredicto chega a ser inusitado:

O caso foi resolvido com a vitória dos insetos defendidos, é verdade, pelo advogado escolhido para eles como exigia o processo, pelo próprio juiz episcopal. Este último, usando como argumento o fato de os animais, criados por Deus, possuírem o mesmo direito que os homens de se alimentarem de vegetais, recusara-se a excomungar os besouros, limitando-se, através de uma disposição datada de 8 de maio de 1546, a prescrever rezas públicas aos infelizes habitantes, intimados a se arrependerem sinceramente de seus pecados e a invocar a misericórdia divina. (Ferry, 2009:10)

Animais também fizeram parte dos primeiros indícios de arte. Escavações arqueológicas revelam pinturas rupestres que, na grande maioria, têm como temática principal os animais e sua representação para os homens primitivos. E.H. Gombrich em A História da Arte (1999), explica que é provável que essas pinturas rupestres representem o ritual antes da caça. Os caçadores acreditavam que a pintura atraía o objeto real, ou seja, os animais, que pereceriam diante do poder dos humanos.

Ainda nos dias atuais, muitas tribos consideradas primitivas acreditam, como destaca Gombrich, que:

certos animais se relacionam com elas de algum modo fabuloso e que toda a tribo é uma tribo do lobo, do corvo ou da rã. Isso soa meio estranho, mas não devemos esquecer que essas ideias não estão tão distantes dos nossos próprios dias quanto seria de imaginar. (Gombrich, 1999:42)

Algumas culturas também reverenciam os animais, como é o caso da vaca na Índia, país no qual grande parte da população segue o hinduísmo, religião politeísta. Lá ela é adorada durante certas festas religiosas, uma relação com um antigo culto da fertilidade. A vaca, por suprir tudo o que é necessário para sustentar a vida, tornou-se um símbolo sagrado, que não pode ser ofendido.

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27 mais isolado e busca na convivência com os animais uma compensação de seu distanciamento com a natureza, como já foi citado anteriormente. Assim, considerando que a mídia se ocupa de temas ligados à ação humana, é esperado que os animais a frequentem, justificando, inclusive, a existência de publicações específicas e programas de TV que abordam o tema de maneira privilegiada. Um bom exemplo é o canal da TV paga, o Animal Planet.

1.3. O paradoxo na relação dos animais com os seres

humanos

Logo após eu ter começado a trabalhar nesse livro, minha esposa e eu fomos convidados para um chá - morávamos na Inglaterra, na época - por uma senhora que ouvira dizer que eu planejava escrever sobre animais. Ela própria tinha muito interesse por animais, disse, e uma amiga sua, que havia escrito um livro sobre animais, gostaria muito de nos conhecer. Quando chegamos, a amiga de nossa anfitriã já se encontrava lá, e estava, realmente, ansiosa para conversar sobre animais. Eu adoro animais, ela começou. Tenho um cachorro e dois gatos, e eles se dão às mil maravilhas. Conhecem a Sra. Scott? Ela dirige um pequeno hospital para animais de estimação doentes... e continuou a falar sem parar. Parou enquanto o chá era servido, pegou um sanduíche de presunto e perguntou-nos que animais de estimação tínhamos. Dissemos não ter animais de estimação. Ela nos olhou um pouco surpresa e mordiscou o sanduíche. Nossa anfitriã, que agora acabara de servir os sanduíches, juntou-se a nós e retomou a conversa: Mas o senhor se interessa por animais, não se interessa, Sr. Singer? (Singer, 2004:XVIII)

Ao mesmo tempo em que podem ser vistos como membros da família, os animais são servidos como prato principal na ceia de Natal. Esse é um paradoxo que muitas pessoas nem se dão conta, pois a separação entre animais domésticos, selvagens, entre outros, é aparentemente muito natural. O tema estimulou o filósofo australiano Peter Singer a escrever Libertação Animal, inaugurando um dos movimentos mais radicais de defesa dos animais.

Singer analisa, filosoficamente, esse paradoxo em seu manifesto. E propõe um movimento que coloque um fim no preconceito do ser humano em relação às outras espécies. O principal argumento é que os animais não existem para servir aos homens. A superioridade que o ser humano pensa ter em relação aos outros seres é definida pelo filósofo como especismo, termo que compara ao racismo - preconceito aos indivíduos de outras raças - e ao sexismo - a discriminação sexual com as mulheres.

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28 animais, segundo Singer, devem ter os mesmos direitos concedidos aos seres humanos, uma vez que também sentem dor - física e psicológica. A crueldade com os animais não pode ser eticamente justificada, o que se constitui numa boa razão para reverter as práticas que as perpetuam. A manifestação iniciada pelo filósofo teve grande repercussão no mundo inteiro. Seu livro foi traduzido para praticamente todos os idiomas europeus, além do chinês, coreano, japonês e, mais recentemente, também ganhou uma edição brasileira.

Contraponto à ideia de Peter Singer, a filósofa britânica Mary Warnock, aponta que os seres humanos devem ser considerados uma raça particular. Ela também recorre à Bíblia e ao Gênesis para falar sobre a origem da supremacia humana, e ao avanço da ciência para falar sobre a crescente discussão acerca dos direitos dos animais. Para Warnock esta é uma preocupação que surge nos filósofos da moral e que pode ser considerado um assunto da moda, do qual muitos se ocupam como forma de autopromoção. A questão inicial para todos os que se preocupam com a relação entre os homens e os animais deve ser o ato de comer carne. E é com esta questão que ela iniciou seu debate: devemos ser vegetarianos? (Warnock, 1994:20)

Ela rejeita a teoria de especismo com o argumento de que Singer, como utilitarista, se prende à questão do prazer e da dor. Ele afirma que devemos ter uma dieta vegetariana porque os animais são submetidos à dor ao serem criados e abatidos para se transformarem em nosso alimento. Warnock contrapõe este argumento questionando se estaríamos de fato autorizados a comer carne se a situação permitisse a criação de animais e seu abate sem nenhuma dor.

Eles defendem, de forma plausível, que deveríamos colocar um ponto final em práticas como a criação industrial, através de quaisquer meios que estejam à nossa disposição - leis, boicotes ou pronunciamentos. Entretanto, vamos supor que tivemos sucesso em nossos esforços e que nenhuma galinha tenha sido criada fora dos terreiros de uma fazenda, nenhum ovo de granja tenha sido vendido, nenhuma vitela, consumida, tampouco nenhuma carne de carneiro, exceto aquela seguramente proveniente de ovelhas abatidas humanamente e sem dor. Teríamos, então, novamente, permissão para voltar a comer carne? Parece que sim, de acordo com Singer. (Warnock, 1994:24)

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29 lacunas em sua interpretação e uma delas é justamente a inerente ao direito que, em tese, eles teriam de viver.

O uso que faz da palavra especismo, paralelamente ao racismo e ao sexismo, pode sugerir o envolvimento de uma violação de direitos, uma vez que as pessoas, frequentemente, falam de racismo e sexismo como ofensas aos direitos humanos. Notoriamente, existe um movimento forte pelos direitos dos animais, cujos membros fundamentam o vegetarianismo nos supostos direitos dos animais de sobreviver. Estaremos então infringindo os direitos dos animais se os criamos e os matamos para nos alimentarmos deles? (Warnock, 1994:27)

Warnock afirma que a noção de direito é por essência algo legal, ou seja, só podemos reivindicar o direito de algo se, para isso, existir uma lei ou regimento, o que não acontece com os animais. A sua defesa é moral e não legal. Para ela os impasses acerca dos direitos humanos e morais já indicam que carecem de uma lei, e com os animais, consequentemente, não poderia ser diferente.

Aqueles que afirmam que os animais têm o direito à vida podem, no máximo, ser interpretados como se estivessem dizendo acreditar que deveria haver uma lei que criasse tal direito. E este é claramente um julgamento moral, não um julgamento do que seja a realidade. (Warnock, 1994:29)

Os que querem modificar a atitude dos homens em relação aos outros animais devem apoiar-se em bases morais ou religiosas, e não ter como alicerce uma lei que não existe, ou na pessoalidade, como Peter Singer faz ao dizer que muitos animais são como pessoas, por serem conscientes. Este conceito se estende também para pesquisas científicas que utilizam os animais como cobaias, as quais trazem regras contraditórias sob seu ponto de vista. Uma delas é o fato de tolerar que os animais sofram durante todo o experimento, desde que ao final o bicho seja sacrificado sem dor. Outra questão é: quanto menos cobaias forem necessárias, melhor. Isso não quer dizer nada, pois se temos que utilizar uma única cobaia, não vai fazer diferença se utilizarmos 500. O princípio é que os animais devem ser considerados em sua individualidade: porque cada rato sente sua própria dor, da mesma forma que cada ser humano também a sente. (Warnock, 1994:31)

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O especismo não é o nome de um preconceito que deveríamos tentar riscar do mapa; não é um tipo de injustiça. É a consequência natural da maneira como nós e nossos ancestrais temos estabelecido a instituição da vida, dentro da qual os conceitos de certo e errado e de lei têm seu significado. O mito da criação não formou nossas atitudes. Ele é, simplesmente, uma expressão delas num livro de contos, como é o caso dos mitos. (Warnock, 1994:32)

Embora afirme que esta isenção de tratamentos idênticos a seres de outras espécies não nos autorize a cometer atrocidades com elas, a filósofa deixa claro sua posição de que o ser humano é único em suas características e evolução. Somente os humanos têm habilidades e mecanismos para entender de forma abstrata o que é dor e sofrimento, e que mudar o pensamento das pessoas em relação a este fato, fazendo-as crer que os outros animais devem ser tratados da mesma forma, é algo praticamente impossível. Podemos até tentar evitar que os animais sofram, mas não temos como evitar que eles morram.

O fato de pertencermos a uma espécie particular, a do homo sapiens, cria para nós, com respeito aos demais animais membros desta mesma espécie, obrigações bem diferentes daquelas para com os de outras espécies. (Warnock, 1994:35)

1.4. Sociedade de consumo (in)consciente

O professor argentino Néstor García Canclini afirmou que sempre partimos do pressuposto que o consumo de bens materiais está relacionado ao nosso lado supérfluo, e que o exercício de cidadania restringe-se às questões individuais, caracterizando uma ideia equivocada das reais consequências da explosão das atividades do terceiro setor no final dos anos 90 como alternativa para a solução dos problemas sociais e ambientais do mundo.

Para vincular o consumo com a cidadania, e vice-versa, é preciso desconstruir as concepções que julgam os comportamentos dos consumidores predominantemente irracionais e as que somente veem os cidadãos atuando em função da racionalidade dos princípios ideológicos. Com efeito, costuma-se imaginar o consumo como o lugar do suntuoso e do supérfluo, onde os impulsos primários dos indivíduos poderiam alinhar-se com estudos de mercado e táticas publicitárias. Por outro lado, reduz-se a cidadania a uma questão política, e se acredita que as pessoas votam e atuam em relação às questões públicas somente em função de suas convicções individuais e pela maneira como raciocinam nos confrontos de ideias. (Canclini, 1995:21)

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31 contexto, a proteção aos animais vem ganhando ampla repercussão, seja na imprensa ou mesmo em discussões acadêmicas e empresariais.

É fato que condenamos a tortura de alguns animais. Cachorros, gatos, cavalos e animais selvagens, quando vítimas de maus-tratos, podem virar notícia. A sociedade ocidental repudia o hábito de coreanos de comer carne canina. Touradas, rodeios, farra do boi são alvos fáceis de protestos que atraem a atenção dos veículos de comunicação. Já vimos famosas modelos pedindo desculpas por terem eventualmente usado peles, notas explicativas de diretores de filmes e programas de televisão justificando cenas que utilizaram animais e, ainda, empresas inserindo em seus relatórios anuais a diminuição gradual de experimentos com cobaias (a vivissecção).

Por outro lado, os animais nunca estiveram tão presos às necessidades dos seres humanos. Uma matéria de capa sobre vegetarianismo publicada em 2002 na revista Superinteressante, da editora Abril, mostrava a vaca como um ser onipresente: o texto elenca todos os produtos que incluem animais mortos. São materiais de couro, seda, filmes fotográficos e até extintores de incêndio, que trazem substâncias retiradas dos pés dos bois. O sangue desse animal também é sugado e transformado em tintura, e sua gordura pode ter como fim o pneu do carro que os defensores utilizam para ir às manifestações.

A afirmação é uma punhalada em muitas pessoas que defendem o direito dos animais, mas que continuam saboreando pratos à base de carne. Ou que utilizam cosméticos testados em cobaias. Ou que aquecem as mãos com luvas de couro. E, principalmente, aos que se dizem vegetarianos, mas, por exemplo, vão ao cinema - os filmes levam a gelatina extraída dos animais.

Enfim, embora não tenha se colocado contra aos adeptos do vegetarianismo, a matéria dizia que é praticamente impossível, mesmo para os vegetarianos, viver sem digerir ou utilizar restos mortais dos bichos. Postura reforçada pelo veículo em outra capa, que trouxe a reportagem “Como Tratar os Animais?”, publicada em setembro de 2003. Ao concluir seu discurso, o jornalista pergunta e responde:

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32 Hoje, os animais garantem um alto faturamento às empresas relacionadas com produtos voltados aos bichos de estimação. Segundo dados do Sindicato Nacional de Alimentação Animal, o mercado brasileiro de ração animal movimentou cerca de US$ 17 bilhões em 2008. O setor saltou de uma produção de 5 milhões de toneladas para mais de 47 milhões de toneladas em 2005.

Serviços especiais também foram criados. Cachorros contam com lojas especializadas, salões de beleza, psicólogos, clínicas, entre outras facilidades que visam a oferecer o melhor conforto possível. Apenas para exemplificar, alguns números extraídos da edição de 24 de novembro de 2004 de Veja:

Estados Unidos

 Indústria de artigos para animais de estimação fatura US$ 30 milhões

 8 bilhões de frangos são confinados e mortos

Alemanha

 A Constituição obriga o Estado a respeitar e proteger a dignidade dos homens e dos animais

 Suínos vivem confinados a maior parte da vida, pois a carne de porco ainda é a base protéica da população do país.

Em trinta anos de proliferação dos argumentos em prol dos animais, é possível enumerar conquistas dos quais ativistas se orgulham, mas que ainda estão longe da utopia de Peter Singer, que é a total independência dos bichos.

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A PROTEÇÃO DOS ANIMAIS E SEUS

CONTRATOS DE COMUNICAÇÃO

It's not "natural", "normal" or kind The flesh you so fancifully fry The meat in your mouth As you savour the flavour Of MURDER

NO, NO, NO, IT'S MURDER NO, NO, NO, IT'S MURDER Oh ... and who hears when animals cry? Oh ... and who hears when animals cry?

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35 Eu tinha treze anos quando Paul McCartney veio ao Brasil pela primeira vez, em 1990. Junto com ele, toda a sua “ideologia” em torno da proteção dos animais ganhou destaque na mídia brasileira. Comecei a ouvir os Beatles um pouco antes do estouro “Paul in Rio”, por influência dos LPs que rodavam no aparelho de som do meu pai. As músicas da banda inglesa me contagiaram, principalmente porque estavam inseridas num conjunto de discos que ensinavam inglês, a coleção Curso de Inglês Pop Music, da Abril Educação, de 1977, que eu adorava e, de fato, estudava a partir de suas lições. Vinham, com as letras das músicas, exercícios e curiosidades sobre a Inglaterra, e as canções dos Beatles eram as mais fáceis de acompanhar. Resultado: virei fã do grupo.

Quando vi que Paul McCartney era um defensor extremista dos animais, passei a rever minha relação com os bichos. Influência do ídolo. Mas eu sempre tive um carinho especial por todos os animais. Lembro muito bem dos momentos que passei com o Titico, meu primeiro cachorro, vira-lata que ganhei quando tinha cinco anos. A partir daí, sempre tive animais de estimação e meus pais sempre os trataram como membros da família. Meus irmãos e eu sempre fomos incentivados a tratar bem os animais. No entanto, eu ainda comia carne. Fazia parte do paradoxo citado por Peter Singer: uns animais são para comer, outros para serem de estimação, outros apenas para termos pena.

Com as informações que li sobre o ativismo de Paul McCartney, acentuadas por causa do primeiro show que um dos Beatles faria no Brasil, decidi: vou parar de comer carne. Mas eu era daquelas vegetarianas falsas, pois ainda comia peixe. Em 1993, quando Paul McCartney voltou ao Brasil, eu fui ao seu show em São Paulo. E uma revista, com o programa da sua turnê 1992/1993, caiu em minhas mãos, a Paul McCartney - The New World Tour. Além de detalhes sobre seus shows, trazia informações, e muitas imagens, sobre a

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36 Posso dizer, neste caso, que a mensagem causou um impacto positivo em mim e alcançou seu objetivo inicial. Não posso afirmar que esta foi minha única influência, mas foi o estopim para uma visão em prol dos animais. Mas eu já tinha um histórico que favorecia a adoção dos hábitos sugeridos pela publicação, já havia referências que favoreciam a construção de um protetor dos animais pela mídia. Como diz Charaudeau (2009:19):

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2.1. O que pensam os protetores dos animais

“Desde criança eu já gostava dos animais.” É o que dizem 65% dos protetores dos animais que responderam a pesquisa desenvolvida para esta dissertação, com base no modelo de John M. Kistler, em seu livro “People Promoting and People Opposing Animal Rights. In Their Own Words”. Lá o pesquisador entrevistou 44 pessoas, divididas entre aquelas que são a favor e as que são contra aos movimentos de defesa dos animais. Para este trabalho, ouvi 48 brasileiros selecionados por meio de grupos de discussões na Internet e que são ativos em seus propósitos de defender os animais. Os argumentos se assemelham2:

Em primeiro lugar, eu sempre amei os animais, desde que eu era criança.

Adoto animais de rua desde criança, mas em 2002, comecei a organizar um grupo. Em Maceió não havia nenhum trabalho organizado, apenas protetores solitários.

Sempre amei animais, sempre tive galinhas, patos, porquinhos da índia, coelhos. Eles, na verdade, sempre foram meus reais e grandes amigos. Tive uma infância e uma adolescência de muita solidão, então, eles eram meus grandes amigos.

Desde pequena sempre amei os animais e, junto com minha mãe, recolhia bichos de rua. Eu sempre gostei de animais e desde pequeno tive cachorro, cuidava de pássaros doentes etc.

Antes de analisarmos as respostas dadas pelos protetores dos animais, convêm algumas observações sobre pesquisa, com base na definição utilizada por Fauze N. Mattar (1996:15):

A pesquisa de marketing é a investigação sistemática, controlada, empírica e crítica de dados com o objetivo de descobrir e (ou) descrever fatos e (ou) de verificar a existência de relações presumidas entre fatos (ou variáveis) referentes ao marketing de bens, serviços e ideias, e ao marketing como área de conhecimento de administração.

Embora nosso objetivo não seja a área de Marketing propriamente dita, estamos analisando ideias e pensamentos que regem um tema: a proteção dos animais, o que nos permite aplicar esse conceito ao resultado ora apresentado.

Mattar fala em dois tipos de pesquisas: exploratória e conclusiva, que se divide em descritiva e casual.

A pesquisa exploratória tem um tom informal e visa a dar os primeiros direcionamentos sobre determinado tema ou problema, podendo auxiliar no levantamento de

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38 hipóteses que serão posteriormente investigadas. Entre os métodos de coletas de dados estão: “levantamentos em fontes secundárias, levantamento de experiências, estudo de casos selecionados e observação informal” (Mattar, 1996:19).

Já a pesquisa conclusiva tem como principal característica a formalidade com que é elaborada, a partir de objetivos claros e conhecimento profundo do problema a ser abordado. Em sua forma descritiva determina tendência, comportamentos e suas possíveis relações com o perfil populacional analisado. Já na casual, dá parâmetros entre causa e efeito, respondendo, por exemplo, por que os resultados de uma campanha não foram satisfatórios. É realizada por meio de amostras que representam o mais fielmente possível o universo abordado e estudos estatísticos que embasam a análise dos resultados.

Esta pesquisa feita com os protetores dos animais pode ser classificada, seguindo o que diz Mattar, como sendo exploratória com levantamento de experiências. Ou seja, perguntas abrangentes feitas a um pequeno grupo de pessoas que estejam envolvidas com o tema a ser discutido.

Deve ficar claro que se trata de estudos exploratórios e não conclusivos, que seus objetivos são o de aprofundar o conhecimento do assunto e gerar hipóteses explicativas sobre os fatos e fenômenos em estudo e, finalmente, que as informações foram obtidas de uma amostra casual ou intencional de pessoas com experiência nesse campo. (Mattar, 1996:22)

Foi justamente este o objetivo: verificar o discurso dos protetores dos animais quando questionados sobre a causa que defendem: o posicionamento que têm sobre fatores de oposições e as principais estratégias que utilizam para levar adiante seus trabalhos nesta área. Discursos que podem se refletir no que é divulgado pela mídia.

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QUESTIONÁRIO

Como você se envolveu com a questão dos direitos dos animais? Como se tornou um ativista?

Atualmente, você trabalha com algum grupo ou organização de defesa dos animais?

Conte uma ou duas questões, dentro do tema de defesa dos animais, com as quais você dedica mais o seu tempo. Por que se envolve mais com esta ou com estas questões?

Por que outras pessoas também deveriam se importar com isso?

Qual é seu maior objetivo com a defesa dos animais?

Quais são suas estratégias a curto e longo prazo para alcançar seu objetivo? O que você faz exatamente, e de forma constante, para alcançá-lo? Você costuma escrever? Pesquisar?

Indique uma ou duas pessoas que você admira ou que lhe inspiram?

Quais tipos de grupos ou pessoas você considera como sendo “da oposição”?

Quer acrescentar algo? Alguma observação que considera importante?

Perfil dos protetores

Das 48 pessoas entrevistadas, 51% estão no Estado de São Paulo e 16% no Rio de Janeiro. Os demais se dividem, na ordem, entre Minas Gerais, Estados Unidos, Rio Grande do Sul, Alagoas, Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo e Santa Catarina.

A idade média é de 41 anos e não há nenhuma predominância nas profissões que afirmam ter, sendo que as que mais aparecem são:

PROFISSÃO

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Atuação

Trabalhos voluntários fazem parte de praticamente todos. Apenas 7% declaram que atualmente não desenvolvem nenhuma atividade, embora sejam fiéis à defesa dos animais. Pouco mais da metade, 52%, estão dentro de ONG´s; 6% apenas contribuem com algum grupo e 10% se autodenominam independentes, isto é, atuam sozinhos.

Quando questionados sobre os motivos que os levaram a se envolver com a proteção dos animais, as respostas praticamente se dividem sempre terem gostado dos bichos, uma influência do ambiente familiar, e a compaixão pelos animais que vivem na rua - resposta dada por 41,7% da amostra.

COMO SE TRANSFORMOU EM PROTETOR

Sempre gostei de animais, desde criança 64,6% Compaixão pelos animais de rua 41,7% Acesso a informações sobre crueldades contra os animais 14,6% Animal de estimação 10,4% Influência de grupos de proteção dos animais na internet 6,3% Os animais não podem se defender 4,2% Influência de grupos de proteção dos animais 4,2% Influência de amigos 2,1% Animais na recuperação de doenças 2,1% Amor pelos animais 2,1%

A questão que mais preocupa são os animais que vivem nas ruas. Somando os dois primeiros itens, temos praticamente 94% dos entrevistados engajados com questões relacionadas a animais domésticos abandonados, em especial cães e gatos.

Às vezes, vejo um cão chegar apenas com um problema na pata ou atropelado. Ninguém quer dar uma chance de vida ao animal e se fala logo na eutanásia. É mais fácil para as pessoas eliminar o animal do que passar o tempo todo cuidando.

Dedico-me a arranjar um lar para os que foram abandonados por seus “donos” ou aqueles

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LINHA DE ATUAÇÃO NA DEFESA DOS ANIMAIS

Salvar animais na rua: adoção, abrigos 62,5% Esterilização 31,3% Educação, conscientização 22,9% Vegetarianismo 8,3% Entretenimento: touradas, caças, circos, vaquejada, rinha de

galo, forra do boi 6,3% Legislação mais rigorosa 6,3% Animais para produção de alimentos 4,2% Adestramento 2,1% Comércio de animais 2,1% Contribuição com dinheiro 2,1%

Pombos 2,1%

Trabalho acadêmico 2,1% Vivissecção 2,1%

Sobre as pessoas que admiram a proteção dos animais, 58,2% citaram voluntários anônimos ou que representam alguma ONG no Brasil. As respostas foram bem diluídas, com destaque para Nina Rosa, do Instituto Nina Rosa, com quatro menções, e a própria mãe, com três.

PESSOA QUE ADMIRA

Voluntários anônimos ou

representantes de ONG´s 58,2% Famosos 29,1% ONG´s 7,6% Todos que cuidam dos animais 3,8% Ninguém 1,3%

Entre os famosos, as menções dividem-se entre Gandhi e Paul McCartney, com quatro menções cada um, e Brigitte Bardot, que foi citada três vezes. Algumas respostas:

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A proteção é podre. Muita gente está aqui pensando mais nas vaidades do que nos animais.

E tem aqueles que são “protetores de internet”. Ficam na frente do PC repassando pedidos de socorro e xingando porque ninguém socorreu. Na verdade me inspiro muito naquilo que não devo fazer. Não tenho ninguém em especial.

Para eles, as pessoas devem se importar com a proteção dos animais principalmente porque os animais também são seres vivos, que sofrem e sentem dor, e que há muita crueldade sendo praticadas contra eles. Alegam, ainda, aspectos éticos e pregam o fim da violência. Chegam a apontar que as pessoas que convivem bem com os animais têm um relacionamento melhor com outras pessoas.

A oposição

Os opositores são muitos e bem diversificados. Os principais alvos de críticas são aqueles que se mostram indiferentes aos animais, mesmo diante de informações sobre maus-tratos. Os entrevistados falam que essas pessoas não gostam nem de ouvir o que eles têm a dizer. Em segundo lugar nas menções, aparece a indústria da carne. Nas palavras deles:

As pessoas que obtêm grandes lucros através da pecuária. Utilizam vaquinhas e porquinhos felizes para vender a carne.

O uso de animais aumenta em razão dos benefícios econômicos que os exploradores conquistam e, também, por causa da anestesia moral nos consumidores, os quais consomem

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OS OPOSITORES

Quem trata a defesa dos animais com indiferença 27,1%

Indústria de carne 22,9%

Todos que promovem ou apóiam rodeios, circos, vaquejadas, touradas, caças 14,6%

Governo, políticos, militares 12,5%

Quem comercializa ou compra animais 12,5%

Quem maltrata os animais 10,4%

Religião 6,3%

Estilistas e pessoas que utilizam peles de animais 6,3%

Todos que defendem a vivissecção 6,3%

Protetores fundamentalistas e exagerados 6,3%

Quem acha que defender os animais é inútil 6,3%

Jornalistas 4,2%

Quem é contra a castração 4,2%

Ninguém 2,1%

Empresas 2,1%

Carroceiros 2,1%

Asiáticos que comem animais domésticos 2,1%

Todos que acreditam que o animal deve servir ao homem 2,1%

Todos que doam animais sem castrá-los 2,1%

ONG´s falsas 2,1%

Tradicionalistas 2,1%

Elite 2,1%

Protetores que só querem aparecer 2,1%

Sociedade 2,1%

Quem não gosta de animais 2,1%

Veterinários do Centro de Controle de Zoonose 2,1%

O objetivo maior com a defesa dos animais é educar e conscientizar a população sobre os animais e seus direitos. Também buscam por Leis mais rigorosas com punição para os que venham a agredir os bichos. Reforçando a questão que mais os preocupam, que são os animais abandonados, a castração em massa surge como um objetivo a ser alcançado, evitando que novos animais nasçam condenados a ficar nas ruas.

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44 dos artifícios que eles utilizam na tentativa de serem ouvidos. Em longo prazo, alguns esperam criar santuários para abrigar os animais encontrados nas ruas.

De uma forma geral, pedem mais respeito e atenção aos animais. Neste aspecto, a educação e conscientização surgem como uma das principais dificuldades, uma vez que as pessoas têm dificuldades em ouvir o que eles têm a dizer.

A mídia deveria trabalhar mais esta questão assim como tantas outras. Divulgar a necessidade de adoção, da esterilização, a posse responsável, enfim, atingir o maior número de pessoas que for possível. As pessoas precisam aprender a ter atitude e não esperar que uma força divina intervenha e faça algo. Rezar não salva ou enche barriga de ninguém. As pessoas têm de perceber que animais são seres vivos, sentem dor, têm sentimentos, não têm como se defender do maior predador de todos que é o homem. Não tem mais desculpa, temos que parar de fingir e tentar protegê-los.

Esse movimento social de luta por direitos animais é algo que veio para ficar. É, acima de tudo, uma luta pela não-violência. Acredito que a violência é algo que se aprende. Infelizmente, aprendemos isso todos os dias quando comemos, vestimos e usamos outros seres que possuem interesses como nós. Reconhecer os direitos desses seres não é nada mais do que um dever ético.

É importante ressaltar que protetores dos animais não são pessoas que odeiam seres humanos, que querem o extermínio da espécie. Além de trabalhos voluntários pelos animais, também trabalho pelos direitos humanos. É possível conciliar a luta pelo fim de todas as injustiças do mundo, tanto para humanos quanto para animais. E existem diversas áreas que necessitam de trabalho voluntário e atuação. Se a pessoa quiser dedicar seu tempo por um mundo melhor, ao invés de criticar aqueles que já fazem alguma coisa, trabalho e atividades não faltam, tanto para humanos, quanto para animais e meio ambiente.

2.2. Organizações não-governamentais no Brasil

Com base nas informações sobre as entidades de proteção aos animais, é possível observar o desempenho de cada uma delas na luta pelo bem-estar e pelos direitos dos animais, atuando pelo cumprimento das leis que protegem todos os bichos do planeta. As ONG´s desenvolvem atividades em território nacional, sempre com o apoio de associados e ativistas que se preocupam e querem ajudar a mudar a forma pela qual a sociedade e o poder público ainda tratam os animais. Neste trabalho, vou falar rapidamente sobre cinco delas, escolhidas pela expressividade no meio. O que observamos, sobretudo, é o trabalho focado em animais domésticos, como cães e gatos, o que vai ao encontro da pesquisa apresentada anteriormente.

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45 para serem encaminhados à adoção. A luta pelos direitos dos animais é bastante explícita. Há ainda menção negativa para pesquisas em laboratórios. Programas de esterilização de animais em comunidades carentes também fazem parte das ações.

A ARCA Brasil se preocupa com a superpopulação e o abandono de animais, desenvolvendo atividades voltadas para a Posse Responsável de Cães e Gatos, conceito, aliás, consolidado pela entidade. Estão em destaque também projetos de castração e adoção. Ela não possui um abrigo. A ONG defende o uso de animais para alimentação humana, porém, de maneira ética.

A entidade PEA tem como missão mudar o tratamento cruel a que são submetidos muitos animais. Abandonos, maus-tratos e utilização para entretenimento, questões presentes na luta da ONG. Há referência aos animais silvestres e enfoque para a adoção de animais domésticos. Mas a associação se posiciona contra a superpopulação de bichos em abrigos.

A APASFA não tem um abrigo. Ela se dedica à luta pelos direitos dos animais e investe em projetos de adoção, educativos e de fiscalização de maus-tratos. Além de animais de estimação, também há espaço constante para animais silvestres.

UIPA - União Internacional Protetora dos Animais

A UIPA é a mais antiga associação civil do País, sem fins lucrativos, que instituiu o Movimento de Proteção Animal no Brasil no século XIX. Uma luta contra a exploração, abandono e crueldade que afetam os animais. Por isso, a entidade briga não apenas pelo bem-estar dos animais, mas busca também o reconhecimento dos direitos e cumprimento das leis que os protegem. A entidade considera ultrapassada a política de saúde pública que submete cães e gatos ao sistema de extermínio, ou seja, a eutanásia.

A UIPA foi fundada em 1895 e se situa em São Paulo, no bairro do Canindé. Anualmente, mais de mil animais são encaminhados para a adoção. Hoje, mais de 1.500 animais que foram abandonados vivem no abrigo da ONG. Todos resgatados por terem sofrido maus-tratos. Voluntários e veterinários cuidam desses animais que permanecem à espera de adoção.

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46 As críticas contra os abrigos são bastante comuns, sob alegação de que “abrigo não é solução. Ainda que não solucione a questão dos cães abandonados, por não ter efetivos programas de esterilização e de educação para a posse responsável, o abrigo é uma necessidade na visão da UIPA, já que os bichos resgatados precisam de um lar para se recuperar e aguardar um novo dono. O site da entidade reúne, ainda, notícias sobre doação de medicamentos, parceiros e vídeos sobre maus-tratos.

A UIPA tem por objetivos institucionais:

I - zelar pela execução e pelo aperfeiçoamento da legislação pátria concernente aos animais; II - reprimir danos ambientais consubstanciados em maus-tratos para com animais, ainda que por meio de práticas institucionalizadas, e denunciá-los às autoridades competentes, que serão devidamente instruídas sobre a matéria concernente ao fato;

III - pugnar contra a morte de animais, incluindo o extermínio de cães e de gatos praticado pelo Poder Público, atuando para que a eliminação desses animais se restrinja aos específicos casos de enfermidade incurável que provoque padecimento que não se possa por outro meio atenuar;

IV - exercer ação antivivisseccionista;

V - instruir a sociedade sobre princípios que a permitam reconhecer o animal como um sujeito de direitos, dentre os quais destacam-se o direito à vida, à dignidade e à integridade física e mental;

VI - educar para a aquisição de princípios morais que possibilitem à sociedade repudiar a visão utilitária do animal, que os considera como seres que existem em função do homem; VII - abrigar, sempre que possível e de acordo com sua capacidade, cães e gatos abandonados, acidentados ou vítimas de maus-tratos, que serão recuperados, esterilizados e encaminhados à adoção.

SUIPA - Sociedade União Internacional Protetora dos Animais

Em uma menção a frase de Charles Darwin Os animais como os homens demonstram sentir dor, felicidade e sofrimento”, a SUIPA resume a preocupação e a luta pelos direitos dos animais.

A entidade é uma Sociedade Protetora de Animais contrária ao sacrifício de seres vivos, discordando veemente da prática da eutanásia para acabar com a superpopulação de bichos abandonados. Luta contra o uso de animais em pesquisas de laboratórios, rodeios, circos, entre outras ações.

Referências

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