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SÃO PAULO

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MARCELLO CLIFFTON TOLENTINO

PROTESTANTES TAIWANESES EM SÃO PAULO

- a fundação da Primeira Igreja Presbiteriana de Formosa de São Paulo - um estudo de caso

SÃO PAULO

2017

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PROTESTANTES TAIWANESES EM SÃO PAULO

- a fundação da Primeira Igreja Presbiteriana de Formosa de São Paulo - um estudo de caso

Marcello Cliffton Tolentino

ORIENTADOR: Prof. Dr. João Baptista Borges Pereira

SÃO PAULO 2017

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ciências da Religião.

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T649p Tolentino, Marcello Cliffton

Protestantes taiwaneses em São Paulo: a fundação da Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo - um estudo de caso / Marcello Cliffton Tolentino – 2017.

183 f. : il.; 30 cm

Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2017.

Orientador: Prof. Dr. João Baptista Borges Pereira

Bibliografia: f. 89-94

1. Protestantismo 2. Igreja Presbiteriana 3. Taiwaneses 4. Migração I. Título

LC BX9042.B66

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À minha querida esposa Silvana e ao meu filho Caleb, pelo apoio e motivação

incessantes durante essa longa

caminhada acadêmica

."

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AGRADECIMENTOS

Primeiramente agradeço a Deus, o primeiro e mais importante em minha vida.

Agradeço por Suas bençãos, por ter me sustentado e permitido concluir este mestrado.

Agradeço à Universidade Presbiteriana Mackenzie pela oportunidade impar de ampliar os meus conhecimentos no que tange às Ciências da Religião.

Agradeço aos professores do mestrado pela dedicação e comprometimento no ensino. Em especial, gostaria de mencionar minha gratidão ao meu orientador, Prof. Dr.

João Baptista Borges Pereira, pelo apoio, dedicação e suporte durante o processo de

composição e finalização desta dissertação.

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Quando vim da minha terra, não vim, perdi-me no espaço, na ilusão de ter saído.

Ai de mim, nunca saí.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

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RESUMO

O movimento migratório taiwanês para o Brasil, na cidade de São Paulo, e a fundação da Primeira Igreja Presbiteriana de Formosa de São Paulo em 1962 são o foco de estudo desta dissertação. É um estudo de caso dos cristãos presbiterianos taiwaneses que migram e aqui se estabelecem fundando essa igreja. A base para a análise será no campo da identidade étnica, tendo Roberto Cardoso de Oliveira como principal referencial. A fim de entender esse movimento migratório e seus desdobramentos, o processo para o estabelecimento no Brasil, as dificuldades enfrentadas, a fundação da igreja e as transformações experimentadas na igreja desde então, vamos buscar informações na história da China e Taiwan e, principalmente, nas memórias do povo.

Essa migração para o Brasil é uma história não contada, escassa de referências bibliográficas. O intuito é contar uma história e escrevê-la a fim de preservá-la.

PALAVRAS-CHAVE: Taiwaneses no Brasil, Protestantismo de migração, Igreja

Presbiteriana, Religião e migração, China e Taiwan.

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ABSTRACT

This paper is aimed at the study of migration among the Taiwanese people coming to Brazil, to the city of Sao Paulo. It is a case study of a Christian community organized in Sao Paulo and the foundation of a church here in 1962, the First Presbyterian Church of Formosa of Brazil. The research was based in the field of ethnical identity according to the proposals of Roberto Cardoso de Oliveira. In order to understand that migration movement, its development, the difficulties and challenges faced and how the church was organized we are going to study China and Taiwan history and rely mainly on the memories of the people. Specific bibliography about the Taiwanese migrating to Brazil is almost inexistent. We want to tell a story and write it so it will not be lost or forgotten.

KEY-WORDS: Taiwanese in Brazil; Protestantism and migration; Presbyterian church;

Religion and migration, China and Taiwan.

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Tabela 1 Comparativo do IBGE da população estrangeira e população

total no Brasil entre os anos de 1900 e 2000 ... 29

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Foto 1 Placa no interior da Igreja Presbiteriana Memorial Maxwell em homenagem ao primeiro missionário presbiteriano

em Taiwan ... 30 Foto 2 Sr. e Sra. Yang, os taiwaneses presbiterianos

pioneiros no Brasil ... 54 Foto 3 Igreja Presbiteriana de Changhua, em Taiwan, com

prédio de apartamentos para receber viajantes cristãos ... 83

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Ilustração 1 Mapa de Taiwan ... 31

Ilustração 2 Mapa da China e Taiwan ... 32

Ilustração 3 Capa da Revista O Immigrante ... 41

Ilustração 4 Cartaz da campanha japonesa de migração para o Brasil ... 43

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Gráfico 1 Linha do tempo dos principais momentos da história de Taiwan ... 37

Gráfico 2 Gráfico dos imigrantes que entraram no Brasil de 1808 a 1973 ... 46

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CNBB Conferência Nacional dos Bispos do Brasil IPB Igreja Presbiteriana do Brasil

ISP Primeira Igreja Presbiteriana de Formosa de São Paulo KMT Partido Nacionalista Kuomintang

PCT Igreja Presbiteriana de Taiwan

ROC República da China

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INTRODUÇÃO ... 14

CAPÍTULO 1 - A migração taiwanesa para o Brasil – o pano de fundo para entender o movimento migratório ... 25

1.1 Fatores de Atração e repulsão ... 26

1.1.1 Taiwan – breve história como fator de repulsão... 29

1.1.2 Aspectos históricos brasileiros como fatores de atração ... 38

1.1.2.1 O Brasil e sua política migratória – um breve histórico ... 39

1.1.2.2 O Brasil de 1950 a 1962 ... 44

1.1.2.3 Liberdade religiosa ... 46

CAPÍTULO 2 – A fundação da Igreja Presbiteriana de Formosa de São Paulo como ícone do estabelecimento dos taiwaneses em São Paulo ... 50

2.1 Taiwaneses presbiterianos no Brasil ... 50

2.1.1 Origens do presbiterianismo e chegada em Taiwan ... 50

2.2 Os pioneiros e suas famílias ... 53

2.3 A fundação da igreja ... 55

2.3.1 Antes juntos que sozinhos em São Paulo ... 57

2.3.2 A construção do templo e da identidade ... 59

CAPÍTULO 3 – As principais transformações até o cinquentenário da igreja ...67

3.1 Transformações inevitáveis ... 68

3.1.1 As novas gerações ... 68

3.1.2 A inserção da língua portuguesa ... 72

3.2 Fricção interétnica dentro da igreja ... 73

3.3 Congelamento e mudança litúrgica ... 77

3.4 Formando pastores no Brasil ... 79

3.5 De diáspora ao transnacionalismo ... 81

CONSIDERAÇÕES FINAIS ...85

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...89

ANEXOS ...95!!

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Guardo com muito carinho em minhas memórias os quatro anos de contato com uma comunidade taiwanesa na cidade de São Paulo, a Primeira Igreja Presbiteriana de Formosa de São Paulo, no bairro da Liberdade. Convivi nesta comunidade na condição de pastor convidado para trabalhar no ministério em língua portuguesa, junto aos membros da terceira geração, cuja primeira língua é o português, em sua maioria. Foi quando me interessei em estudar a cultura e a história dos taiwaneses com quem estava tendo contato pela primeira vez. Aquele encontro produziu muitas coisas, dentre elas, esta dissertação de mestrado.

Não é novidade para aqueles que me conhecem minhas experiências junto comunidades migrantes. Eu mesmo já fui migrante nos Estados Unidos nos idos de 1990, quando ali estudava. Pude conviver com brasileiros, especialmente igrejas cristãs de brasileiros, mas também coreanos e haitianos migrantes naquele país.

Minha própria história pessoal foi construída, em parte, por memórias migrantes.

Conhecer in loco um grupo étnico minoritário que compõe o tecido cultural brasileiro foi uma experiência muito rica. Ouvir suas histórias, suas lutas, saudades e sonhos foi um privilégio.

Meu primeiro contato com os presbiterianos taiwaneses em São Paulo se deu em 2011, quando fui convidado para pregar nos cultos dominicais uma vez ao mês por alguns meses, pois estavam sem um pastor para o ministério em língua portuguesa. Acabei sendo convidado para ficar e ser o pastor desse ministério como parte do corpo de pastores de 2012 a 2014. Como pastor convidado naquela igreja, pois pertenço a outra denominação presbiteriana, sou ministro presbiteriano da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), pude me envolver em todos os aspectos da vida ministerial da Primeira Igreja Presbiteriana de Formosa de São Paulo. Eu batizei jovens e crianças, celebrei a Ceia do Senhor [Eucaristia], preguei nos cultos dominicais, preguei nos cultos em conjunto

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onde tive de ter ajuda de intérprete, ensinei na Escola Dominical, participei do planejamento, das reuniões de liderança e do conselho, viajei com a igreja para seus acampamentos, visitei lares, cantei com

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1 Cultos em conjunto eram cultos em que os 3 ministérios da igreja se reuniam ao mesmo tempo: o

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suas crianças, fui às suas festas, os recebi na minha casa. Enfim, fui um com eles durante aquele precioso tempo que estivemos juntos.

O próprio fato de eu, um não oriental, não conhecedor da cultura taiwanesa, nem das línguas que falam ser convidado para pastorear o grupo de língua portuguesa daquela comunidade como membro da equipe pastoral, já era motivo suficiente para uma pesquisa de mestrado. Mas, foi no ano de 2012, meu primeiro ano trabalhando oficialmente como pastor do ministério em língua portuguesa, um ano muito especial para eles e para mim que o projeto desta dissertação nascia.

Aquele era o cinquentenário da fundação da Igreja em São Paulo. Sem eu mesmo perceber, minha pesquisa estava sendo concebida ali. Ao buscar dados históricos e detalhes de como foi a migração daqueles irmãos e irmãs na fé e entender sua história, adaptação e inserção na cultura brasileira, não encontrei documentos escritos, não encontrei livros cristãos ou seculares que contassem tal história, que narrassem os desafios que enfrentaram. Havia, atas do conselho dos registros das decisões através dos anos – escritos na língua taiwanesa – boletins com testemunhos e narrativas breves de como tudo se deu, mas nada muito elaborado, nem formalmente publicado. Descobri que estava diante de um achado, uma história

“não contada”, uma história guardada na memória de homens e mulheres que vivenciaram aquela experiência migratória.

Então, a fim de entender mais e melhor como orientais protestantes de Taiwan, a ilha Formosa, chegam ao Brasil e aqui se estabelecem e fundam uma igreja presbiteriana nos anos 1960 e como essa igreja se torna um marco importante para o processo de migração que se dá nos anos seguintes, foi que o projeto tomou forma. Este estudo de caso, certamente, abrirá novos horizontes para outros estudos sobre os taiwaneses, pois não tem a pretensão de ser exaustivo.

O desafio era, então, coletar qualquer material escrito que contasse a história

da migração dos presbiterianos para São Paulo, ouvir suas histórias/memórias e,

como em um quebra-cabeça, unir as peças para enxergar a paisagem que se

formaria. Foi o que pude fazer por mais de três anos imerso em um universo que eu

não conhecia, aqui mesmo, pertinho, dentro da cidade de São Paulo convivi com os

taiwaneses presbiterianos do Brasil numa empreitada, em certo sentido, semelhante

à de Malinawski nas Ilhas Trobiand, de Roberto Da Matta entre os Apinayés, de

Roberto Cardoso de Oliveira entre os Terena.

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Taiwan, a República da China, é uma ilha-estado que busca reconhecimento de seu status de país, já teve este status e uma cadeira na Organização das Nações Unidas, a ONU, mas não o tem mais. Desde então, busca tal reconhecimento, pois se recusa a ser identificada com a República Popular da China.

Esta dissertação contém um aspecto de recuperação histórica da migração taiwanesa para o Brasil (para a cidade de São Paulo), uma histórica não contada, não publicada. O ponto de partida dessa observação é o religioso, a partir do estudo de caso da fundação da Igreja Presbiteriana de Formosa de São Paulo em 1962 no bairro da Liberdade. O caráter diacrônico enfatizado aqui pressupõe um levantamento breve da história de Taiwan como pano de fundo para entendermos esse movimento migratório que culminou com a fundação da Igreja Presbiteriana de Formosa de São Paulo, afinal, o discurso em nossas entrevistas e conversas mostra que a motivação da migração tem laços com momentos significativos da história de Taiwan.

Esta pesquisa abarca os estudos da área de religião e migração, tendo como

pano de fundo e recurso histórico, a memória de um povo. O projeto foi construído

com base na teoria identitária, tendo como principal referencial, Roberto Cardoso de

Oliveira em sua obra Identidade, etnia e estrutura social, afinal claramente se vê

uma preservação e resistência da identidade étnica taiwanesa no meio da sociedade

brasileira, na cidade de São Paulo mesmo 50 anos depois da migração e o

estabelecimento aqui marcados pela fundação da Primeira Igreja Presbiteriana de

Formosa. A fim de contemplarmos esse aspecto de recuperação histórica e com os

óculos da teoria identitária e o fato de não termos bibliografia específica sobre os

taiwaneses migrantes no Brasil, muita informação vem de uma fonte preciosa, as

memórias dos migrantes, suas histórias de vida, lembranças e fotografias do

passado. Sendo assim, quanto à memória, como recurso para construir a história,

pois “cada qual quer recontar e reencontrar a sua história” (PEREIRA, 2005, p. 105),

nos apoiamos em Jacques Le Goff com suas proposições quanto à memória e a

história, especialmente em sua obra História e Memória no que diz respeito à

memória preceder a história e sua grande importância: “a memória, na qual cresce a

história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao

presente e ao futuro” (1994, p. 477). Nesse trabalho de resgate da memória não

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somente as narrativas serão levadas em consideração, mas as fotos colecionadas, guardadas que contam uma história sem palavras, mas comunicando muita coisa.

Não é necessário ir muito longe para perceber a carência do estudo etnográfico dos taiwaneses no Brasil. Isso se vê logo quando da busca por bibliografia à respeito do assunto. Os taiwaneses, frente a outros grupos migrantes no Brasil, são uma minoria quase invisível, o que não significa dizer que não são importantes. Pelo contrário, assim como italianos, japoneses e alemães que migraram para cá, eles são importantíssimos no tecido que forma o povo brasileiro e merecem ser estudados exclusivamente, como nos propomos aqui. Por que migraram? Por que migraram para o Brasil? Como se estabeleceram aqui? O que os motivou a fundar essa igreja? Que desafios enfrentaram? Como se transformaram?

Como sobreviveram, sobrevivem e sobreviverão como comunidade étnica no Brasil?

O que o futuro lhes reserva? Esta dissertação tem essas perguntas como linhas mestras da pesquisa que conduziram a observação participante, entrevistas individuais e pesquisa bibliográfica

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que, combinadas, levantaram a rica memória da migração desse povo na tentativa de fazer uma caminhada histórica com os taiwaneses desta igreja para entender quem são num universo de tantas etnias no Brasil. Todo o processo de pesquisa vai se basear em observação participante e entrevistas em forma de amostragem privilegiando 3 grupos: os fundadores da igreja (há alguns fundadores ainda vivos), os filhos dos fundadores que nasceram em Taiwan e chegaram ainda crianças em São Paulo e, os nascidos no Brasil. Vale observar que uma das características básicas para uma boa pesquisa é a proximidade e o distanciamento. A proximidade diz respeito aos quatro anos de contato com a igreja, o distanciamento, foram os dois anos após ter me desligado da igreja que comecei a escrever esta dissertação. Proximidade e distanciamento estão combinados nessa pesquisa.

Esta dissertação faz parte de uma pesquisa ainda maior, o projeto de pesquisa Etnicidade e identidade religiosa organizado pelo Dr. João Baptista Borges Pereira que contém vários outros títulos

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. Contudo, a riqueza das pesquisas está em

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2 Observo aqui que a bibliografia encontrada e levantada foi de cunho histórico sobre Taiwan, da área dos estudos etnográficos e migratórios em geral, não necessariamente sobre a migração para o Brasil, tema praticamente não explorado em língua portuguesa.

3 Estação Armênia: exílio, fé e reconstrução de vida na capital paulista, de Sueli Aparecida Cardozo Carvalhaes. Igreja Reformada Potiguara (1625-1692), a primeira igreja protestante do Brasil, de

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suas diferenças, mais do que em suas semelhanças temáticas que as une. Não podemos simplesmente comparar uma migração de um povo com outra, como por exemplo, os armênios que migraram para o Brasil e tiveram de reconstruir suas vidas aqui por causa da guerra e os japoneses que vieram por razões totalmente diferentes. Temos de ter o cuidado em não cair em um reducionismo ao tratar os movimentos migratórios. Ainda que esta dissertação faça parte de um projeto maior, cada movimento migratório de cada povo tem sua peculiaridade. Sim, vemos comunalidades, mas isso não significa que podemos encará-las de forma genérica ao conversamos sobre migração e etnicidade. Não queremos cair em clichés ao tratar deste movimento migratório. Afinal, “poucos temas da história social do Brasil se prestam tanto à difusão de clichês quanto o da imigração” (FAUSTO, 2005, p.219). Que clichês são esses? O reducionismo do assunto migração, um pragmatismo em lidar com ele ao relacionar, por exemplo, pizza com italianos, sushi com japoneses – ou qualquer oriental -, donos de padaria com portugueses etc.

Essa generalização da identidade que acaba minimizando as peculiaridades das etnias que fazem parte desse tapete cultural que é o Brasil. É uma generalização da identidade que é naturalmente ou inconscientemente feita. Assim, o objetivo desta dissertação não é tratar o tema proposto com generalidades, pelo contrário, ao colocar em pauta os taiwaneses no Brasil dos anos 1960 (e até hoje), procura mostrar que não podemos tratar a migração como um clichê, muito menos desprezar as minorias étnicas, mas dar o devido tratamento à migração, principalmente agora que o Brasil e o mundo assistem a grandes movimentos migratórios.

Migração, identidade e a religião: a importância da pesquisa

Migração é um tema que tem estado em alta desde o final do séc. XX e no começo deste. Com certeza, um dos fenômenos mais comuns do mundo atual é o contato interétnico por conta da migração, da globalização econômica, da globalização da informação. É claro que esse fenômeno não é novo, pois migrar é característica do ser humano de hoje e de sempre. O período das grandes

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Francisca Jaquelini de Souza Viração. Igreja Evangélica Árabe de São Paulo: inserção, estruturação e expansão na adversidade-diversidade sócio-cultural da cidade de São Paulo (estudo de caso), de Paulo A. Delage. Pomerano e luterano: com muita honra! identidade religiosa e identidade étnica em Santa Maria de Jetibá no estado do Espírito Santo: um estudo de caso, de Gladson Pereira da Cunha, entre outras.

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navegações contribuíram grandemente para a aproximação das culturas, porém hoje, provavelmente mais do que em qualquer outra época, vê-se um movimento migratório de enormes proporções, principalmente motivado por questões econômicas, climáticas, belicosas – como se vê no que ocorre na Síria hoje – e, também, simplesmente, em busca de uma vida melhor. Assim, o contato interétnico é uma grande realidade social hoje e importante objeto de estudo, isto é, a compreensão das relações que têm lugar entre indivíduos e grupos de diferentes procedências “nacionais,” “raciais” ou “culturais” (OLIVEIRA, 1976, p.1) e suas consequências para o mundo.

O movimento migratório taiwanês é muito interessante. Se pensarmos que se deu principalmente nos anos 1960, uma década que marca o início de um longo período complicado politicamente no Brasil, período do regime militar que toma o poder e as rédeas do país. Esse período, que é um período de baixa migração, é exatamente o período da migração taiwanesa para cá. Isso nos faz perguntar o porquê, como, quais as causas. Assim como cada movimento migratório é importante e peculiar, este também é, ainda que estejamos focando uma minoria migrante. A fim de entendermos as causas dessa migração, lançamos mão da teoria das forças de atração e repulsão de Everett S. Lee, assim como as classificações dos movimentos migratórios de Charles Tilly.

Outra marca dessa dissertação é o aspecto religioso, que é fundamental, que justifica o curso de Ciências da Religião. Nesta dissertação, religião é estudada em relação com a migração, tendo como objeto de estudo uma igreja local fundada por migrantes em São Paulo e composta por membros migrantes.

Podemos afirmar que a religião sempre esteve conectada de uma forma ou outra com a migração, a identidade, a cultura, a língua etc. de grupos migrantes.

Alguns grupos religiosos migraram organizadamente com propósitos evangelísticos ou missionários, como os missionários da Igreja Reformada da Holanda que vieram para o Brasil no século XVII, por exemplo.

Ao estudarmos esse movimento migratório, tendo como caso um grupo

religioso e como pano de fundo um curso de mestrado que propõe o estudo da

religião em um aspecto interdisciplinar (Ciências da Religião), o fazemos no campo

da antropologia olhando para a identidade étnica, ou seja, o foco está sobre

identidade de migrantes taiwaneses, protestantes presbiterianos que vivem em São

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Paulo desde os anos 1960 e se reúnem dominicalmente na Rua Dr. Siqueira Campos, número 100, no bairro da Liberdade, em São Paulo. O estudo desse grupo minoritário que compõe a sociedade brasileira, paulistana vai lançar luz e colaborar com o entendimento de identidade em geral, sobre o povo taiwanês, sobre a migração taiwanesa como um todo para o Brasil em futuros estudos sobre o assunto. O estudo da identidade é um “tema social altamente relevante” (PEREIRA, 2005), pois nos ajudará entender como um grupo se organiza quando migra e como se relaciona com os outros nesse novo lugar. Ao tratar sobre comunidades étnicas e identidade, Max Weber usa o termo “identidade racial” e levanta questões interessantes como: a aproximação de pessoas racialmente diferentes, a antipatia como reação normal e primária e chega a afirmação da atração e repulsão racial (1991). Ou seja, Weber enfocou esse assunto como importante no entendimento da economia e da sociedade em 1922, através de quem vemos alguns paralelos em Roberto Cardoso de Oliveira, que elabora o conceito de fricção interétnica.

Identidade continua sendo um assunto de importância para estudo hoje, conceito que, no Brasil, nasce do contexto indígena, mas se aplica aos movimentos migratórios que o Brasil experimenta.

As primeiras pesquisas etnográficas no Brasil foram baseadas na teoria da assimilação e em relação aos índios em contato com os brancos colonizadores e quanto à adaptação das diversas tribos em um Brasil colonizado. O interesse dos pesquisadores estava nos problemas e percalços relacionados à integração desses povos. A integração dos indígenas era a principal preocupação (SANTOS; PETRUS;

NETO; GOMES, 2015). Um dos marcos dessas pesquisas foi o trabalho de Roberto Cardoso de Oliveira entre os índios Terena, que veio a se tornar uma obra cujo título é Do índio ao Bugre: o processo de assimilação dos Terena, de 1976. Contudo, os estudos tomam um novo rumo que vão além da assimilação, no sentido da descoberta, preservação e perpetuação da identidade étnica através do contato com outras etnias. Essa obra marca os estudos identitários no Brasil e é referência até hoje.

Vamos perceber através das descobertas feitas aqui, que Taiwan tem toda

uma peculiaridade quando o tema é identidade. O estudo da sua história e

colonização vai nos revelar isso, além da observação participante, as memórias e

entrevistas.

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Uma questão de identidade

Não é difícil imaginar quantas influências Taiwan sofreu através do contato com outros povos através de sua história. Muitos estudos antropológicos começaram a tratar de Taiwan, afinal os inúmeros contatos interétnicos fez de Taiwan um grande estudo de caso, primeiro nas universidades da ilha Formosa, depois nos Estados Unidos, Europa e Ásia. O ano de 1950, em especial, marcou o início dos estudos antropológicos em Taiwan, o que é também fácil de entender, pela abertura e ligação com o mundo ocidental. O foco dos estudos antropológicos de Taiwan enfatizaram principalmente a identidade diante do conflito com a China e o estabelecimento da República da China em Taiwan naquele ano, na verdade, entre 1949 e 1950. O próprio conflito alimentou uma enorme quantidade de estudos sobre as origens, formação e peculiaridade do povo taiwanês. Dentre os principais antropólogos que estudaram Taiwan, se destacam Chung-min Chen, Chen Chi-lu, Stevan Harrell, Lydia Kung e Hill Gates.

A antropologia emergiu em Taiwan nos anos 1950 [...]

Particularmente, desde a publicação de Hsin Hsing, Taiwan: A Chinese Village in Change

4

(1966) de Bernard Gallin, Taiwan se tornou um lugar e um assunto de uma extraordinário quantidade de pesquisas. (AHERN; GATES, 1981).

Ainda que haja laços com a China, a história de Taiwan e seu desenvolvimento são únicos, como estudos revelam e seu povo constata.

Pode-se entender que somente um povo migrante que chega em um destino escolhido sofre mudanças e influências. Usando o termo de Roberto Cardoso de Oliveira que marcou a fase da mudança no entendimento antropológico da identidade étnica no Brasil, a fricção não se dá somente quando um povo migra para um país diferente do seu, mas, também, quando recebe migrantes, como aconteceu com Taiwan. O Brasil pode ser um bom paralelo ao tratamos a fricção interétnica.

Isso se vê nos estudos sobre os indígenas brasileiros, especialmente no estudo feito

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4 Hsin Hsing, Taiwan: Uma vila chinesa em transição (minha tradução. Não há uma versão do livro em português).

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com os Tukuna e, também com os Terena. Eles sofreram com a influência da colonização portuguesa e continuaram a sofrer ao procurar se adaptar a essa situação e mostraram resistência cultural diante da presença do homem branco e seu domínio. Desse contexto é que nasce o termo fricção interétnica (OLIVEIRA, 1976). Tratar de identidade é falar em fricção e fronteiras, segundo Oliveira. A preocupação, a elaboração à respeito da identidade étnica de um povo se dá quando se depara com outro que lhe é diferente. Jogando com as palavras, quando atravessamos fronteiras, estabelecemos fronteiras (POUTIGNAT; STREIFF- FENART, 1998). Por outro lado, quando povos atravessam as nossas fronteiras, estabelecemos fronteiras.

Povos que recebem migrantes constroem fronteiras em relação a eles, é um fenômeno natural, fazem questão de distinguirem-se e para isso afirmam sua identidade, ou seja, o que faz deles “idênticos” em oposição aos migrantes, aos de fora, os diferentes. Um povo em seu ambiente, em seu território é o que é, geralmente não têm uma preocupação identitária em si, até que começa a receber migrantes e migrantes que querem se estabelecer em seu território. Vemos isso com os taiwaneses em Taiwan ao estudarmos sua história e as influências diversas de fora. Sofreram muita fricção através dos anos. Por isso, ainda hoje faz muito sentido o estudo da questão identitária entre os taiwaneses em Taiwan e fora de Taiwan, quando migram, como é o caso em pauta aqui.

Mais uma vez, os questionamentos identitários não se dão somente fora do território onde um povo está estabelecido, como na migração. Taiwan é exemplo disso, assim como o Brasil.

Pensar em fricção é pensar em contato e, nem sempre, esse contato é amistoso, pacífico. Na verdade, o contato interétnico soa como uma violência, às vezes, e, em alguns casos foi mesmo, principalmente quando das colonizações e invasões, como no caso do domínio japonês ou o êxodo chinês de 1949 em direção a Taiwan.

Apesar do contato interétnico soar um pouco negativo, ele é inevitável, pois o

homem é um ser migrante e, no mundo globalizado de hoje, é uma realidade cada

vez mais presente. O contato interétnico leva, contudo, a uma descoberta. A

descoberta de quem “nós” somos e de quem “eles” são, pois é nesse contato que as

identidades são afirmadas.

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“A identidade contrastiva parece se constituir na essência da identidade étnica, i.e., à base da qual esta se define. Implica a afirmação do nós diante dos outros. Quando uma pessoa ou um grupo se afirmam como tais, o fazem como meio de diferenciação em relação a alguma pessoa ou grupo com que se defrontam”. (OLIVEIRA, 1976, p.5)

No final da década de 1950 e início dos anos 1960, um grupo de cristãos protestantes taiwaneses migra em direção ao Brasil. Um povo em busca de sua identidade em sua terra natal, pelo que vimos em sua história, migra. Cruzam oceanos em busca de escrever uma nova história, só que não podem apagar aquelas memórias, aquela história. Pelo contrário, quando chegam ao Brasil, começam a descobrir um pouco mais quem eles de fato são.

Um dos períodos que mais influenciaram aqueles taiwaneses migrantes foi o período da colonização japonesa em Taiwan (1895 a 1945) e, logo após, com o estabelecimento da República da China em território taiwanês. A história mais recente é a mais conflituosa de todas, se assim podemos dizer, pois tem repercussões até o presente. Aqueles que chegaram ao Brasil no início da década de 1960 eram homens, mulheres e crianças nascidos em Taiwan na década de 1930 e 1940, em sua maioria. Essas pessoas testemunharam e vivenciaram o domínio japonês, assim também como o domínio chinês na ilha. A década de 1940, em especial, é bem vívida na memória dos migrantes, dos que chegaram em idade adulta ao Brasil. É a história dos acontecimento de 1949-1950 e as primeiras décadas que os sucederam: a migração dos nacionalistas para Taiwan, o terror branco, o estabelecimento da República da China naquele território.

Por último, o estudo da migração taiwanesa com foco em um grupo religioso

vem a calhar. Afinal, como disse Richard Niebuhr ao estudar o movimento migratório

para os Estados Unidos, com ênfase no cristianismo e suas denominações: a

migração tem grande importância na história religiosa. Uma dessas influências é de

caráter político quanto à separação entre Igreja e Estado, por exemplo (1992,

p.125). O que acontece com os taiwaneses em São Paulo é característico de um

movimento religioso. Ao migrarem, decidem plantar uma igreja taiwanesa aqui, e

depois outras conforme a migração aumenta. Fundam uma igreja taiwanesa

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“brasileira”, essa igreja não foi fundada pela denominação em Taiwan, não foi planejada estrategicamente por eles, foi inciativa própria de cristãos presbiterianos que se reúnem sob uma liderança visionária que compartilha uma visão que acontece significativamente e se torna um marco e influência na vida de pessoas que estão em São Paulo e de outras que viriam, mesmo em meio a um período de regime militar, por exemplo. Não há um entimidamento, pelo contrário, a combinação migrantes e religião trouxe um fortalecimento àquele povo.

A fim de estudar esse movimento migratório taiwanês e a construção de sua

identidade em São Paulo, vamos incialmente, no capítulo 1, investigar um pouco da

história de Taiwan registrada e publicada nos livros para entender as causas da

migração, sendo que a própria história é causa, em nossa ponto de vista. Esse

capítulo nos dará recursos para traçarmos alguns paralelos curiosos que a história lá

de trás nos revela em relação a realidade da comunidade em São Paulo. O capítulo

primeiro será o pano de fundo. No capítulo 2 trataremos do evento central,

propriamente dito, que rege esta dissertação, a fundação da Igreja de Formosa e a

eventual construção de seu templo na Liberdade como um ícone do estabelecimento

dos taiwaneses presbiterianos em São Paulo. Nesse capítulo, abordaremos a

migração em si, os primeiros taiwaneses, a ideia da organização da igreja, os

obstáculos, as expectativas e o choque cultural. Finalmente, o capítulo 3 abordará

as principais transformações experimentadas até o cinquentenário da fundação da

igreja, o ano de 2012, e o que o futuro lhes reserva como comunidade taiwanesa no

Brasil.

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CAPÍTULO 1

A migração taiwanesa para o Brasil – o pano de fundo para entender o movimento migratório

“O homem é um ser migrante”! É essa afirmação ontológica que ouvimos quando entramos no Museu da Imigração em São Paulo

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em um de seus estandes que retrata o homem nos primórdios da humanidade. Ali, é apresentado um filme que afirma que o ser humano é um ser migrante por natureza e é assim que se explica a dispersão do ser humano pelo planeta desde os tempos mais remotos. Há uma motivação inerente, uma curiosidade que conduz o homem a terras ainda não descobertas, pois está no homem ser um migrante.

Taiwaneses migraram para o Brasil nos anos 1960, contudo não é tão fácil identificar a causa desse movimento migratório. As entrevistas e as conversas sobre a migração apontam não para uma causa, mas várias. Também, a escolha que fizeram pelo Brasil, a cidade de São Paulo, não é tão clara. Não podemos simplesmente analisar esse fenômeno migratório com os olhos de hoje e as ferramentas que temos hoje, como a internet e as facilidades de viajar. Naquela época não era assim, o ocidente apresentava um certo mistério e o Brasil ainda mais. A ideia de migrar para um país ocidental que não os Estados Unidos da América, de onde se tinha mais informações, era um mistério. Sabemos da necessidade de campanhas para incentivar a migração para o Brasil, como foi o caso em relação aos japoneses. Uma campanha publicitária foi posta em prática pelo governo para atrai-los ao Brasil.

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5 O atual Museu da Imigração de São Paulo costumava ser a antiga Hospedaria do Imigrante da Capital (1887-1978), no bairro do Brás. Local para onde os migrantes eram trazidos, após atracarem no porto de Santos. Era uma espécie de “entreposto” que tinha a função de oferecer abrigo enquanto os migrantes ainda não tinham local fixo para trabalhar e morar. Outra função da Hospedaria era o registro dos migrantes e o controle de doenças e epidemias que, porventura, pudessem ser trazidas e espalhadas em solo brasileiro. Assim, em alguns casos, a hospedaria funcionou como um tipo de quarentena. Havia cuidados médicos, alimentação, hospedagem e aulas de português a custo zero para os migrantes. O local foi transformado no Museu da Imigração do Estado de São Paulo em 1993 e seu endereço na internet é: www.museudaimigracao.org.br

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Percebemos uma subjetividade característica quando a questão é o porquê saíram de Taiwan e o porquê escolheram o Brasil. Mas essa subjetividade é reveladora. Os fundadores, dois ou três ainda vivos, não revelam claramente tais motivos da migração, os filhos deles, que chegaram pequenos ao Brasil também seguem essa subjetividade que nos revela que a migração é algo mais complexo do que pensamos, que a elaboração e a tomada de decisão de migrar, por parte dos taiwaneses, desafia nossa lógica ocidental. Não é tão simples, como parece, responder a um questionário, a uma pergunta que parece tão objetiva quanto essa que diz respeito à causa da migração para o Brasil. Há razões veladas, há decisões patriarcais que geralmente não são questionadas.

O Brasil, para muitos, era um trampolim para uma migração com destino aos Estados Unidos, o que aconteceu em vários casos, mas muitos ficaram, se estabeleceram aqui. Talvez o projeto de uma segunda migração não tenha dado certo e não se fala sobre o que não deu certo. Enfim, as causas da migração e o Brasil como destino apontam, genericamente, para um desconforto presente pelo conflito China-Taiwan, por incertezas sobre o futuro no pós-guerra e uma janela de oportunidade se abrindo em uma terra distante, o Brasil. As conversas sobre o assunto tinham esse conteúdo: “Minha família migrou de Taiwan para o Brasil porque havia um clima de guerra e o Brasil parecia uma terra de paz” ou “viemos para o Brasil porque tínhamos um amigo que migrou pra cá e disse que estava bem, quisemos vir também”.

Há, na verdade, muitas causas que justificam a migração dos taiwaneses, algumas bastante subjetivas, a tal ponto de o migrante não as elaborar especificamente, mas todas envolvem sonhos, expectativas, esperança e busca de uma vida melhor do que a que tinham na terra natal.

A fim de entendermos mais e melhor quais as causas dessa migração, em especial, é que fazemos esse levantamento neste capítulo, que vem complementar as conversas e entrevistas que tivemos.

1.1 Fatores de atração e repulsão

Toda migração é motivada por alguma coisa. Não basta dizermos que o

homem é um ser migrante por natureza, pois não é o bastante. O estudo dos

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movimentos migratórios

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é um campo bastante complexo e não uma ciência exata.

Ao se falar, especialmente em migrações internacionais, dentre as diversas teorias apresentadas para explicar o fenômeno, destacamos aquela que foi nomeada por Everett S. Lee

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de Teoria das forças de atração e repulsão no processo migratório, uma teoria do ponto de vista sociológico

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. Essa teoria foi escolhida numa tentativa de entender esse movimento migratório e, como qualquer outra teoria, não é perfeita, pois não consegue precisar todos os aspectos determinantes porque um grupo escolhe uma dada região para migrar, como é o caso dos taiwaneses migrando para o Brasil. Na verdade, é impossível cobrir todos os aspectos dessa migração de Taiwan para o Brasil, mas essa teoria nos dá pistas muito importantes.

Em resumo, essa teoria propõe que alguma coisa atraiu determinado grupo a outra região do globo, perto ou longe, de maneira que foram levados a atravessar fronteiras e se estabelecer lá. Atravessaram fronteiras territoriais, fronteiras culturais, linguísticas etc. A força de atração é responsável pelo deslocamento de pessoas em todos os tempos, no que diz respeito a sonhos, expectativas e esperanças da construção ou reconstrução de uma vida. Um bom exemplo disso foi o movimento migratório para os Estados Unidos em busca do American Dream

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. Por outro lado, a força de repulsão é aquela que opera internamente na cultura, no país, na região de um determinado grupo e os “lança fora” ou os “empurra para fora” de seu território, de sua terra natal, da região onde foram criados. Um exemplo disso é o que foi registrado por uma repórter cobrindo uma manifestação na Argentina em 2003 quando uma senhora argentina que participava de um panelaço, gritou: “Não hay

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6 Há várias teorias migratórias propostas. Elas se dividem em grupos: sociológicas, econômicas, geográficas. As econômicas são muito populares. As clássicas, referem-se ao posicionamento de Durkheim, Max Weber e Marx sobre a questão, que vão na direção de explicar a migração com base na industrialização, capitalismo e urbanização. As neoclássicas, em termos gerais, propõem que a desigualdade de salários, condições de emprego e a necessidade de mão de obra estrangeira seja uma explicação.

7 Essa teoria foi apresentada em um artigo no encontro anual da Mississippi Valley Historical Association, em Kansas City, nos Estados Unidos, no dia 23 de abril de 1965. Veio a ser conhecida como Pull-Push Factors nos movimentos migratórios. O foco central dessa teoria que vem como uma resposta “melhor” às teorias apresentadas até então, ou, em especial às Leis da Migração de Ernest Ravestein (1885) que procurava explicar o que leva pessoas a migrar. Nessa teoria, Everett propõe duas listas de fatores diversos levantados como causas para pessoas migraram do ponto de vista externo de atrativos de lá e outra lista do que poderia levar pessoas a quererem sair da terra, do ponto de vista interno, daqui.

8 A propósito, essa teoria de repulsão e atração não deve ser confundida com as relações das comunidades étnicas de Max Weber em Economia e Sociedade quando usa os mesmos termos:

atração e repulsão.

9 O sonho americano. Termo cunhado pelo historiador estadunidense James Truslow Adams nos anos 1930 em sua obra The Epic of America.

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futuro, não hay futuro”. Aquela senhora estava dizendo que, às vezes, o país é algo que derrota uma pessoa (LEITÃO, 2015).

Forças de atração e repulsão são também conhecidas em inglês como pull- push factors. Entender os fatores pull-push pode nos ajudar a entender as causas que levaram um grupo a migrar. Dentre os principais fatores pull-push que se conhecem, estão: fatores econômicos, guerras e ameaças de guerras, catástrofes naturais e fatores ambientais.

A migração taiwanesa não foi um grande movimento migratório como um todo em comparação com outros vistos no Brasil. Taiwan, nos anos 1960, alcançou uma população de 13 milhões de pessoas

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e não há como precisar a população que migrou para o Brasil naquela época, pois muitos migraram para os EUA e outras regiões e não há dados precisos sobre os taiwaneses no Brasil. Ao chegarem ao Brasil, por diversas razões, muitos eram identificados como chineses ou sequer foram registrados quando chegaram. Nem mesmo o censo de Taiwan nos revela essa migração, muito menos o “Consulado Taiwanês”

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em São Paulo tem dados exatos dessa primeira migração. Segundo o “Consulado”, calcula-se que 150 mil taiwaneses vivem no Brasil atualmente. Contudo, temos um dado importante. O censo brasileiro [ver gráfico a seguir] entre 1950 e 1970 nos revela o crescimento do número de estrangeiros no Brasil. Esse número é igual a 14.944 pessoas somente nesse período e, certamente o principal grupo não era taiwanês. Isso quer dizer que estamos diante de uma minoria migrante.

A fim de entendermos os fatores pull-push que operaram no grupo taiwanês que migrou para São Paulo nos anos 1960, propomos um breve estudo da complexa história de Taiwan para entendermos os fatores push que essa história produziu. A propósito, as conversas e entrevistas, em sua maioria, apontaram para razões de cunho histórico-político como a razão para saírem de Taiwan nos anos 1960.

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10 Dados aproximados da década de 1960 com base no relatório do site do governo de Taiwan e do censo de 1966: http://eng.stat.gov.tw/ct.asp?xItem=8849&CtNode=1595&mp=5, acessado em 10 de outubro de 2016.

11 Por questões políticas, não há um consulado de Taiwan no Brasil, sim uma agência que faz as vezes de consulado, o Escritório Econômico e Cultural de Taipei no Brasil.

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Tabela 1 - Comparativo da população estrangeira no Brasil de 1900-2000

1.2 Taiwan – breve história, como fator de repulsão

Os taiwaneses presbiterianos que migram para o Brasil nos anos 1960 são provenientes da denominação Igreja Presbiteriana de Taiwan. A maioria deles proveniente do interior de Taiwan [norte, centro e sul], de diferentes cidadezinhas do interior, não da capital Taipei. Os migrantes têm em comum serem presbiterianos, mas não da mesma igreja local necessariamente. Além dos familiares que se organizaram para migrarem para o Brasil, a maioria também não se conhecia previamente. Muitos se conheceram na longa viagem de navio até o Brasil, outros só se conheceram aqui.

A primeira notícia que se tem de presbiterianos em Taiwan acontece na segunda metade do século XIX, quando o doutor James Laidlaw Maxwell

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chegou

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12 O Dr. James L. Maxwell foi o primeiro missionário presbiteriano na ilha. Ele fez parte de um despertar missionário para a Ásia Oriental muito forte na Inglaterra no séc. XIX. A propósito, seus

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na ilha em 1865 como missionário britânico, originário da Escócia, servindo à English Presbyterian Mission [Missão Presbiteriana Inglesa] da Igreja Presbiteriana da Inglaterra, hoje United Reformed Church. Ele estava envolvido com a Missão Médica para a Ásia Oriental, que tinha como principal alvo a China continental e tinha como estratégia missionária a implantação de clínicas médicas, o que sempre era bem vindo. O Doutor Maxwell é enviado à Taiwan e seu trabalho na ilha culmina com a organização da denominação Igreja Presbiteriana em Taiwan (PCT)

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, presente na ilha até os dias de hoje, cuja data de fundação é considerada a data de sua chegada à ilha. A PCT é a mais antiga denominação cristã protestante organizada da ilha.

Foto 1 - Placa localizada no interior na Igreja Memorial Maxwell

Fonte: site da Igreja

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dois filhos, James Preston Maxwell e James Laidlaw Maxwell Junior, inspirados em seu pai, tornaram-se notoriamente envolvidos com os missionários médicos com destino à China. Maxwell, pai, foi para Taiwan e trabalhava como médico, consultando e evangelizando na cidade Tainan, então capital da ilha. Como resultado de sua ação missionária, foi erigido um templo presbiteriano em 1902 que mais tarde recebeu o nome de Igreja Presbiteriana Memorial Maxwell, em sua homenagem, que é um templo da Igreja Presbiteriana em Taiwan, a PCT. O Dr. Maxwell é também conhecido por participar no processo de decisão do fim do comércio de ópio na China.

13 De acordo com as informações fornecidas no site oficial da denominação, http://english.pct.org.tw/enWho_int_Cro.htm Acessado em 1 de outubro de 2016.

14 De acordo com as informações e imagem obtidas no seguinte site da internet:

https://taiwanchurches.wordpress.com/2012/06/10/maxwell-memorial-presbyterian-church-tainan/

acessado em 10 de outubro de 2016. Placa localizada no interior da Igreja Presbiteriana de Tainan, conhecida como Igreja Memorial Maxwell, em homenagem ao primeiro missionário presbiteriano em Taiwan, cuja transcrição se lê: Igreja Memorial Maxwell. Erigida em 1902. James L. Maxwell,

Mestrado em Artes e Doutorado em Medicina. Igreja Presbiteriana da Inglaterra. Primeiro Missionário enviado à Formosa. Chegou em maio de 1865.

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Taiwan é um arquipélago localizado no oceano Pacífico, cuja ilha principal é chamada Taiwan.

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Essa ilha tem 36 mil quilômetros quadrados (área da Holanda), separada do continente por um estreito de 160 quilômetros, na costa sudeste da China, seu contorno é semelhante a uma folha. Dois terços de seu território é coberto por uma cadeia de montanhas, no eixo norte-sul, na parte oriental da ilha.

Sua atual capital é Taipei. Tem uma população de 23.468.000 habitantes (estimativa de 2015). O clima é quente e úmido. Além dessa ilha principal, também fazem parte de Taiwan as Ilhas Pescadores e outras ilhotas: a ilha das Orquídeas (Orchid Island), a ilha Verde (Green Island) as ilhas Quemoy, as ilhas Matsu etc.

Ilustração 1 – Mapa de Taiwan

Fonte: Internet: http://diario.lajornadanet.com/archivo/2008/junio/020608-2.html

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15 Conforme dados do site oficial do governo da República da China: http://www.taiwan.gov.tw acessado em 12 de outubro de 1967.

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Diferentemente da China, Taiwan foi inicialmente habitada pelos austronésios,

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ancestrais diretos dos atuais aborígenes, povos indígenas que viveram nas montanhas da ilha, dos quais ainda há muitos representantes hoje, cerca de 500.000 aborígenes, 2,2% da população

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de Taiwan.

Ilustração 2 – Mapa China-Taiwan

Fonte: Internet: https://inventariandochina.com/2016/05/19/china-urges-u-s-to- revoke-concurrent-resolution-on-taiwan/

A propósito dos nativos da ilha que são chamados aborígenes, o que é difícil precisar quando começaram a ser assim chamados, são assim nomeados provavelmente por uma referência à antiguidade, aos povos mais primitivos da terra.

Naquelas ilhas taiwanesas viviam aborígenes e os descendentes deles ainda são chamados assim hoje. Falar de aborígenes nos remete à pesquisa de Emile Durkheim em sua obra As Formas Elementares da Vida Religiosa quando trata dos aborígenes da Austrália em seu estudo na busca pela primitividade na religião. Ao

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16 Austronésios são indígenas das ilhas sul-asiáticas, nativos de Taiwan, de onde provavelmente os primeiros austronésios que se conhece vieram. Os austronésios estão ligados pela língua austronésia que configurava, antes de 1500 d.C., uma das famílias de línguas mais espalhadas pelo mundo de então. Hoje engloba a língua das populações indígenas da Indonésia, Malásia, Filipinas e Madagascar (BELLWOOD, FOX, TRYON, 2006). O dialeto taiwanês é proveniente da família das línguas austronésias.

17 De acordo com os dados atualizados em outubro de 2016 na página da internet do direito dos aborígenes (The Taiwan Aboriginal Rights webpage): http://www.taiwanfirstnations.org Taiwan é uma ilha com alta taxa demográfica, com quase 23 milhões de habitantes para uma área de 36 mil km2.

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descrever tais aborígenes da Austrália, que podem ter uma conexão com os aborígenes de Taiwan que parece ir além da nomenclatura, o Dr. João Baptista Borges Pereira destaca que

Tais povos eram então considerados os humanos mais primitivos sobre a face da terra, tanto pela etnografia, como pela antropologia cultural e pela antropologia física. Até hoje, a antropologia física, baseada em traços somáticos classificam esses aborígenes, juntamente com os ainos (primitivos habitantes do Japão) e a população pigmeia da África Equatorial, como grupos protomorfos, isto é, espécie de homo

sapiens sapiens ou homem moderno - que rotula todos os

humanos, independentemente da cultura - mas que não estão plenamente acabados, prontos: eles ostentam testa fugidia, mento compacto, arcadas ciliares protuberantes etc. (BITUN;

SOUSA, 2014, p.13)

O primeiro registro que se tem da ilha é datada de 260 a.C., encontrado nos registros históricos da dinastia Chou (ou Zhou). A ilha foi chamada de “Terra de Yangchow”

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. Em 1350 d.C., a Dinastia Mongol estabelece uma missão na ilhota Pescadores, pertencente ao arquipélago de Taiwan. Foi a primeira menção de Taiwan como território Chinês, habitado por chineses do continente. Em 1517, início do período das grandes navegações, navegantes portugueses em direção a Macau a nomeiam de Ilha Formosa pela sua beleza, conforme registros de bordo. Foi a primeira menção da ilha na história ocidental. A referência ao nome dado pelos portugueses, curiosamente, tem sido usado por defensores da independência da ilha que argumentam que o próprio nome Formosa não tem laços chineses, além das várias colonizações não chinesas ali e, por isso, são distintos da China (COPPER, 2007).

O ano de 1622 marca o início de um importante momento histórico para Taiwan, foi o ano do início da colonização holandesa no arquipélago. Primeiramente, os holandeses da Companhia das Índias Orientais chegam a ilhota Pescadores e a tomam. A ilhota já era um local importante comercialmente desde a dinastia Mongol.

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18 Land of Yangchow refere-se à terra, ou ilha de Salgueiros, de árvores de Salgueiro, uma citação antiga no Book of History (or Canons of Yao and Shun) escrito durante a dinastia Chou (1046-256 BCE) de acordo com o site http://www.taiwantoday.tw/ct.asp?xItem=132237&ctNode=2198&mp=9 acessado em 1 de outubro de 2016.

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Não demorou muito para os holandeses dominarem Taiwan, a ilha principal, onde tiveram o controle de 1624 até 1662. O arquipélago, naquela região da Ásia, era muito interessante para os holandeses. Fizeram da ilha não somente um ponto comercial de trocas, mas um local de produção de açúcar e arroz. A fim de cumprir esse objetivo, necessitaram de trabalhadores para a lavoura, mas não conseguindo convencer os aborígenes de trabalharem para eles, nem conseguindo atrair europeus ao arquipélago, promoveram uma campanha de migração de trabalhadores do sul da China, com oferta de trabalho, incentivo tributário e oferta de terras sem custo. A campanha foi bem-sucedida. Chineses da província de Fujian começaram a migrar para Taiwan, eram ricos e pobres, mão de obra especializada ou não.

Com a presença dos holandeses na ilha naquele período do século XVII, temos um caminho aberto para a primeira missão cristã presente naquele território, uma missão protestante liderada pelo missionário Georgius Candidius da igreja Reformada da Holanda, a principal denominação cristã reformada da Holanda. Essa missão teve muita influência no desenvolvimento da ilha, em seu processo civilizatório (ANDRADE, 2005). Foi um período de grande atuação cristã evangelizadora na ilha com a conversão e o batismo de várias pessoas, inclusive muitos aborígenes (RUBINSTEIN, 1999, p.92). Durante a colonização holandesa, houve uma colonização paralela ao norte da ilha por parte dos espanhóis, de 1626- 1642. Os espanhóis também tiveram uma influência religiosa ali, mas de cunho católico, através de missionários dominicanos. Contudo, a colonização espanhola não foi bem sucedida, pois os holandeses os expulsaram em 1642, ficando com o domínio de toda a ilha.

O domínio holandês no arquipélago termina em 1662, fruto de ataques bem sucedidos dos chineses que retomam Taiwan. No entanto, somente em 1887 Taiwan é feita oficialmente uma província, após vários conflitos como ataques dos franceses. O domínio chinês do arquipélago é mais tarde abalado de uma maneira que culminaria numa Taiwan que se aproxima do que conhecemos hoje. Como resultado da derrota da Primeira Guerra Sino-japonesa que durou de 1894 a 1895, os chineses abdicaram Taiwan em um acordo perpétuo com os japoneses

19

. O ano

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19 Foi o chamado tratado de Shimonoseki, assinado em 17 de abril de 1895 que oficializava a entrega de Taiwan e o arquipélago dos Pescadores ao Japão.

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de 1895 marca o início da colonização japonesa da ilha que durou 50 anos, de 1895 até 1945.

No período da colonização japonesa, vemos um grande desenvolvimento na ilha com construções de estradas, escolas, faculdades e infraestrutura. O ensino do japonês foi implantado nas escolas e houve proibição de se falar o dialeto taiwanês em público, contudo sem muito sucesso, pois nos cultos religiosos das igrejas e nos lares continuavam a falar o dialeto que nunca foi banido.

O fim desse longo período de colonização e domínio japonês se deu com a culminação da Segunda Guerra Mundial, quando os japoneses foram derrotados. O acordo perpétuo é quebrado, Taiwan retorna ao domínio chinês e os japoneses são expulsos,

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mas isso não dura muito tempo.

Quatro anos mais tarde, a ilha passa por um novo abalo, os anos de 1949 e 1950 marcam o começo de uma nova fase na história de Taiwan, foi um período de descolonização (RUBINSTEIN, 1999) e que contempla um grande movimento migratório. Dois milhões

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de chineses do continente migram para Taiwan.

Com o fim da guerra civil chinesa (1947-1949) em que forças nacionalista do partido Kuomintang (KMT) lideradas pelo General Chiang Kai-shek combatiam as forças comunistas lideradas por Mao Tsé-Tung pelo domínio e governo da China, os nacionalistas são derrotados. Com a derrota, os nacionalistas e simpatizantes daqueles ideais migram para Taiwan junto com o General Chiang Kai-chek que estrategicamente decidiu estabelecer na ilha a sede administrativa do governo da República da China, reivindicando ser o verdadeiro governo da China em vez do comunista de Pequim. A estratégia desta manobra em direção a Taiwan tinha objetivos de uma retomada da China continental mais tarde, pelo General e presidente do partido nacionalista, o que não aconteceu. A República da China ficou

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20 O retorno de Taiwan à soberania chinesa se deu sob os termos do Tratado de Rendição do Japão, o Japão aceita provisoriamente a Declaração de Potsdam (que se refere à Declaração de Cairo) em que a ilha terá de ser transferida para o domínio chinês. As tropas da República da China foram autorizadas a entrar em Taiwan para aceitar a rendição das forças militares japonesas de acordo com a Ordem Geral Nº1 decretada pelo General Douglas MacArthur, em 2 de Setembro de 1945, que seriam mais tarde transportadas para Keelung pela marinha norte-americana. No Tratado de Paz de São Francisco, que entrou em vigor em 28 de Abril de 1952 e no Tratado de Taipei, que entrou em vigor em 5 de Agosto do mesmo ano, o Japão renuncia formalmente a todos os direitos à ilha Formosa (Taiwan) e a Pescadores (Peng-hu).

21 De acordo com os dados do Migration Policy Institute (Instituto de Política Migratória):

http://www.migrationpolicy.org/article/tradition-and-progress-taiwans-evolving-migration-reality acessado em 20 de outubro de 2016.

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estabelecida em Taiwan, a China se dividiu em duas e assim continua até os dias de hoje.

É claro que vários outros conflitos afligiram Taiwan, conflitos que foram causados pela própria presença do governo da República da China (ROC) na ilha.

Os primeiros anos do estabelecimento do governo do General Chiang Kai-shek foram anos difíceis. Um dos conflitos que marcou aquele época foi o que ficou conhecido como “terror branco”, um período de perseguição por parte do partido Kuomintang que queria certificar-se que não havia apoiadores ou simpatizantes dos ideais comunistas na ilha, assim como opositores do atual governo. Como consequência, milhares de pessoas foram presas e executadas com base em evidências insuficientes ou, até, circunstanciais. É claro que nesse clima, as pessoas não tinham coragem de criticar o governo, fazer comentários da política do momento ou ventilar discordâncias de qualquer natureza que fosse contra aquele governo que controlava a ilha. O desenvolvimento econômico naquele período estava lento, a população do campo sofreu com a falta de incentivo, o que acabou levando ao desinteresse em investir na terra. A indústria, por outro lado, não tinha expressão alguma, nem alcance no exterior. Essas foram as marcas daquela década de 1950 (RUBINSTEIN, 1999).

Além dos conflitos internos, a China cresceu como uma grande ameaça a Taiwan, o que só não ficou ainda pior pela interferência, apoio e a proteção dos Estados Unidos da América promovendo a “paz” na região. Os Estados Unidos interviram de maneira tal que nenhuma das nações se levantasse contra a outra, afinal Chiang Kai-shek tinha um sonho de reconquistar e reestabelecer a República da China na China Continental.

O governo da República da China concentrou seu foco no desenvolvimento da ilha, pois aquele plano de retomada da China já se fazia inviável e cada vez mais distante. O apoio dos Estados Unidos e subsequente investimento, a cadeira que possuía na ONU ajudaram Taiwan a se desenvolver e expandir, o que mais tarde resultou em grande desenvolvimento e crescimento econômico. Taiwan, nos anos 1970 se torna um dos tigres asiáticos, exportando vários produtos para o mundo e experimentando uma revolução em sua economia.

Contudo, ainda no final dos anos 1960, começa a ficar insustentável a

representatividade de Taiwan na ONU diante da pressão da China Continental que

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não aceitava a situação de duas Chinas e o fato dela não ser reconhecida como a China oficial. Não podemos nos esquecer que a China foi um dos membros fundadores das Nações Unidas. A pressão cresceu a tal ponto que durante o governo americano do presidente Nixon, em 1972, Pequim acaba sendo reconhecida como a “verdadeira China”, com cadeira na ONU, em lugar de Taiwan.

Isso iniciou um movimento a favor de uma só China, com a reintegração de Taiwan à China e o retorno do seu território e submissão ao governo de Pequim, o que não aconteceu até hoje.

Atualmente, apenas 20 países, mais da metade deles na América Central e no Caribe, reconhecem a soberania de Taiwan. Por causa do não reconhecimento da soberania de Taiwan pela ONU, não há embaixadas nos Estados Unidos ou no Brasil, assim como em outros países do mundo, mas uma agência que cuida des

assunto relacionados às necessidades dos cidadãos taiwaneses, fornecendo passa-

Gráfico 1 - Linha do tempo dos principais momentos da história de Taiwan

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Fonte: autor

portes etc. Essa agência é nomeada Escritório Econômico e Cultural de Taipei

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.

1.3 Aspectos históricos brasileiros como fatores de atração

Conforme a teoria de Everett Lee, que procura entender os fatores de atração e repulsão [pull-push factors] em um movimento migratório, traçamos aqui um pouco da história do Brasil na década de 1950 e primeira metade dos anos 1960 a fim de tentar entender as possíveis razões que atraíram os taiwaneses ao Brasil.

A princípio, uma coisa é certa, não existe bibliografia específica sobre a migração taiwanesa ao Brasil em língua portuguesa, com exceção de alguns poucos estudos de caso sobre taiwaneses no Brasil. Contudo, isso não nos impede de fazer paralelos com outros destinos dos taiwaneses, como os Estados unidos, a título de referência. Pelo contrário, o fato de não haver bibliografia sobre o assunto nos incentiva e desafia a produzir um estudo que privilegie o Brasil como foco e destino dos taiwaneses com toda a sua peculiaridade.

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22 O Escritório Econômico e Cultural de Taipei no Brasil é uma organização não governamental que representa o governo da República da China (Taiwan) na República Federativa do Brasil. Sua missão é promover e estreitar os vínculos bilaterais entre os dois países, como por exemplo na promoção da economia e comércio, no intercâmbio cultural e de informações, na ciência, tecnologia e educação. O Escritório representativo situa-se na capital Brasília e possui filial na cidade de São Paulo. As duas localidades atendem a serviços de assuntos consulares e assuntos para a comunidade taiwanesa no Brasil.

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