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Um príncipe africano no Rio

Rosiane Rodrigues

13/11/2012

A jornalista Rosiane Rodrigues entrevista com exclusividade para a Afropress, Jokotoye Awolade Bankole, chefe da família real de Onpetu, Estado de Oyó, Nigéria, descendente direto de Obatalá.

Rio - Muito diferente do personagem de Eddie Murphy, do filme ‘Um príncipe em Nova Iorque’, o nigeriano Jokotoye Awolade Bankole, 54 anos, é bastante discreto e não se deslumbra diante das "modernidades e facilidades da vida ocidental" (não consome refrigerantes, enlatados e nada que contenha açúcar), apesar de achar a internet bastante eficiente para matar as saudades dos oitos filhos e duas esposas, que ficaram do outro lado do Atlântico.

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O chefe da família real de Onpetu, sul de Ogbomosó, no Estado de Oyó, está no Rio de Janeiro e fez palestra-debate para professores, pesquisadores e alunos do Mestrado em Relações Étnico-raciais do CEFET-RJ, nesta terça-feira, 13 de novembro.

O objetivo? Fazer com que a plateia reflita sobre a importância da religião tradicional africana como promotora das identidades yorubá e, de quebra, divulgar o sistema de Ifá - reconhecido pela UNESCO, em 2007, como patrimônio imaterial da humanidade. O evento é gratuito e aberto a todos os interessados.

Para o Prof. Dr.Roberto Borges, coordenador do Mestrado do CEFET, a iniciativa de convidar Jokotoye Bankole para proferir a palestra propõe uma guinada nos estudos das relações étnicas e raciais.

"Estamos vendo a África a partir de um africano. Nosso palestrante é um personagem-testemunha de muitas histórias que envolvem as relações afro-brasileiras. Será uma experiência muito rica para professores e pesquisadores dos Estudos da Linguagem, Literatura, Sociologia, História e de qualquer outra disciplina e/ou área do conhecimento. Não tenho dúvidas de que um evento como este tem um alcance bastante relevante e nos coloca na vanguarda dos estudos sobre as relações etnico-raciais".

Jokotoye Bankole foi um dos informantes do etnólogo Pierre Verger, quando ainda era um menino. Para escrever o livro ‘Ewe’ – que tronou-se uma das maiores referências sobre os usos das folhas no ritual africano, no Brasil – Verger percorreu alguns países da África. Segundo Bankole, quem trouxe Verger até sua casa e o apresentou a sua família foi um professor da Universidade de Ilé Ifé, que orientava o etnólogo em suas visitas a Nigéria.

O pai de Bankole (Jokotoye Adeyi, falecido recentemente) foi quem pediu para que seu filho conduzisse o pesquisador franco-brasileiro pela floresta de Ogbomosó e o ensinasse o nome e as funções das ervas africanas. Deste primeiro encontro nasceu uma bonita relação de amizade e respeito entre o etnólogo e a família de Bankole.

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Como nosso entrevistado fala muito pouco o português e se comunica preferencialmente em yoruba, contamos com a ajuda do babalawo Ekundayo Olalekan Awe, nascido na mesma cidade de Bankole e membro do Egbe Adifala (sociedade religiosa liderada pelo entrevistado). Dayo, como é carinhosamente chamado pelos amigos, mora no Brasil há 16 anos, fala "quase" fluentemente o português e foi o responsável por intermediar a entrevista, junto com sua esposa, Iyanifa Gláucia.

Depois dos cumprimentos, fomos encaminhados a uma sala reservada, onde Bankole recebe os amigos, filhos brasileiros e clientes. No chão havia algumas almofadas, um banco de madeira e o opele Ifá (uma espécie de rosário contendo uma combinação de caroços de dendezeiro), aberto em cima de uma esteira. Bankole sentou-se na esteira, de frente para o opele e recostou-se sobre uma almofada. Eu e Gláucia sentamos no chão, de frente para o príncipe.

Por alguns instantes ficamos em silêncio porque eu não sabia como começar a entrevista, mesmo estando com a pauta de perguntas preparadíssima, como manda o nosso editor-chefe.

Em mais de 20 anos de profissão, como repórter, produtora e ocupando cargos de chefia em várias redações, era a primeira vez que eu ficava cara-a-cara com um representante da realeza.

Ali, diante de mim, estava Vossa Alteza Real, descendente direto de Obatalá, portador das tradições que foram perpetuadas, de muitas formas, por milhares de homens e mulheres no Brasil.

Por alguns momentos, divaguei sobre o significado daquele encontro e agradeci aos céus a oportunidade. Meus antepassados deveriam estar muito felizes por aquele momento, já que a entrevista serviria também para mostrar a um grande número de pessoas a riqueza deste povo que, apesar das lutas e disputas colônias, não abriu mão das tradições nem desprezou a felicidade, gentilezas e troca de sorrisos.

Afropress – O senhor poderia nos contar um pouco como foi o seu encontro com Pierre

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Jokotoye Bankole – Eu era um menino, tinha uns 13 nos. Ele chegou lá em casa com o professor A. Jhon, da Universidade de Ilé Ifé, que era amigo do meu pai, e com um outro babalawo, Ifatogo Babalola (da cidade de Iboru), que mantinha relações de amizade com minha família. Babalola já faleceu há muito tempo. O professor Jhon, que também é falecido, acompanhava Pierre Verger quando ele ia à Nigéria. Nós o recebemos bem porque soubemos que Verger era iniciado para orixá no Brasil. Isso fez com que nós tivéssemos confiança nele para ensinar sobre as funções das folhas, que são muito importantes no culto.

Afropress - Verger falava o yoruba? Vocês se comunicavam bem?

JB – Não. A tradução era feita pelo professor Jhon. Fomos eu, meu pai, Babalola, o professor Jhon e Verger para a floresta. Meu pai e Babalola mandavam eu pegar as folhas e explica-las a Pierre Verger. Lembro que voltei do mato com uma troça muito grande de ervas nas costas (risos). E foi muito bom porque confiamos nele, ele já era feito de orixá e também era um babalawo (sacerdote de Ifá). Não sei onde ele foi iniciado (para Ifá), porque ele viajava muito... Benin, Togo, Nigéria. Hoje é bom ver que o que ensinamos a Verger não se perdeu e seus livros falam da minha tradição, também.

Afropress – Havia algum tipo de cobrança para ensinar as coisas do culto para Pierre

Verger? Ele era estrangeiro, vendeu muitos livros, ...

JB – Não, nunca houve pagamento. Ele era branco mas era um de nós porque era feito de orixá e também babalawo. Isso é o que importa. Ele também fez muitas perguntas sobre os orixás e como nós fazíamos os trabalhos e ebós. Falamos sobre tudo o que ele perguntou. A nossa recompensa é que as tradições do meu povo estão vivas no Brasil até hoje, em muitas casas de candomblé daqui. Esta é a obra de Ifá.

Afropress – O que é Ifá?

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uma vida boa. Para cada um dos 256 odus possíveis, existem rezas, folhas e ebós específicos. O babalawo precisa saber tudo isso para poder jogar com o opele Ifá. Aqui no Brasil tivemos um babalawo muito famoso que foi Bangbose Obitiku e todas as casas tradicionais tem o babalawo, que orienta os cultos e os sacerdotes.

Afropress – O senhor é também um babalawo?

JB – Todas as famílias reais da Nigéria estão ligadas diretamente a Ifá e ao culto de um orixá. Os reis e príncipes se dedicam ao culto do orixá da sua família e cada cidade tem seu orixá protetor. Ogbomoso é a cidade do Ogun, então todas as famílias cuidam do Ogun daquela cidade. É diferente daqui porque a prefeitura, os vereadores... é obrigação cuidar do orixá da cidade. Os reis e as famílias reais existem para cuidar da tradição dos orixás. A minha família é descendente de Obatalá. Então todas as pessoas da minha família são iniciadas a Obatalá quando nascem.

Afropress – Isso acontece mesmo nas famílias que não são da realeza?

JB - Quando nasce uma criança, em qualquer família, é feito o jogo e Ifá diz qual o caminho que ele/ela vai ter. É nesse jogo que o pai e mãe sabem se aquele filho vai ser um sacerdote de Ifá, vai cuidar de orixá ou de alguma ancestral. Quando eu nasci, Ifá disse que eu deveria ser sacerdote de Ifá e por este motivo, passei todos os anos da minha vida estudando para ser um babalawo.

Afropress – Estudando? Como assim? Tem escolas de Ifá?

JB – Hoje, no Templo Adifalá temos a Escola de Ifá com mais de 20 meninos, de várias cidades, estudando o sistema. São crianças e jovens que foram escolhidas por Ifá para serem babalawos. Eles ficam, no mínimo, 10 anos aprendendo sobre as rezas, ebós, folhas... moram no Templo, vivem lá. Participam de todas as festas, rituais, iniciações. É vivendo que eles aprendem o sacerdócio.

Afropress – O senhor estudou numa escola formal? Digo, fez o Ensino Fundamental,

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JB – Não. Toda minha formação é como sacerdote de Ifá, porque assim deveria de ser. Tenho muitos outros irmãos que estudaram porque tem outros caminhos. De uns tempos para cá, as crianças além de se prepararem para o sacerdócio, também estudam em escolas formais. Acho bom que seja assim, porque é preciso estar atento às mudanças do mundo. Mas, no meu tempo, Ifá determinou que eu aprendesse o sacerdócio para que minha vida fosse feliz.

Afropress – Esta é a primeira vez que o senhor vem ao Brasil?

JB – Vim para cá a primeira vez em 1997, á convite de alguns amigos que moram aqui. Eles precisavam resolver uma situação difícil para uma pessoa e o sacerdote José Mendes me enviou uma carta-convite, para que eu pudesse entrar no país. Desta vez fiquei só em São Paulo. Em 1999, voltei e fiquei um ano aqui, divulgando o sistema de Ifá, iniciando pessoas no culto, dando palestras em muitas casas de santo, porque as pessoas daqui tem curiosidade em conhecer mais sobre nossas tradições ancestrais, que são dos brasileiros, também.

Afropress – Aqui no Brasil o senhor já deu palestra para pesquisadores ou só para

sacerdotes de matriz africana?

JB – Em 2007 fui convidado pela Universidade Federal de Ilhéus, na Bahia, para dar uma palestra lá. Foi muito bom.

http://www.afropress.com.br/post.asp?id=14135

Adaptação: Luiz L. Marins CULTURA YORUBA

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