Retextualização em sala de aula: Uma experiência de criação de Roteiro a partir da leitura de contos.

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Retextualização em sala de aula: Uma experiência de criação de Roteiro a partir da leitura de contos.

Maria Raquel Dias Sales Ferreira1

RESUMO: Este trabalho se constitui em um relato e análise de um projeto com o título“Retextualização: a cena é sua”, realizado com alunos do 9º ano de um Colégio Aplicação de Belo Horizonte. O projeto referido consistiu na retextualização - processo de transformação de uma modalidade textual em outra - de contos brasileiros e africanos em roteiros de cenas-curtas, escritos pelos próprios alunos, atividade de escritaseguida da apresentação das cenas. Além da produção dos roteiros e da apresentação das cenas, o projeto resultou no desenvolvimento de habilidades de leitura e do trabalho em equipe. Foi resultado de um estágio orientado no 1º semestre de 2012, vinculado ao curso de Licenciatura em Português da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.

PALAVRAS-CHAVE: atividade pedagógica, Roteiro, Contos, Retextualização.

1. Apresentação

O presente artigo é resultado do estágio orientado e das atividades realizadas na disciplina: Análise prática do Estágio de Português – APEP I – (1º semestre de 2012), realizada na Faculdade de Educação e vinculada ao curso de Licenciatura em Português da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. O trabalho constitui-se em um relato acompanhado de reflexão teórica da experiência de projeto “Retextualização: a cena é sua”, realizado com alunos do 9º ano (com a idade de 14 a 16 anos cursando o último ano do Ensino Fundamental) de um Colégio Aplicação de Belo Horizonte (Centro Pedagógico da UFMG). O projeto referido consistiu na retextualização - processo de transformação de uma modalidade textual em outra - de contos brasileiros e africanos em roteiros de cenas-curtas escritos pelos próprios alunos, seguida da apresentação das cenas.

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relatadano decorrer do artigo. As atividades realizadas na sequência didática elaborada para este projeto, além disso, vão ao encontro aos Parâmetros Curriculares Nacionais,

como será mostrado no desenvolvimento do artigo, e ao trabalho realizado pela professora com o gênero

Conto.

2. Justificativa e objetivos

Dell’isola (2007) trata a retextualização trazendo a seguinte definição:

[...] é o processo de transformação de uma modalidade textual em outra, ou seja, trata-se de uma refacção e reescrita de um texto para outro, processo que envolve operações que evidenciam o funcionamento social da linguagem. Retextualizar é um desafio, constituído pela leitura de um texto e pela transformação de seu conteúdo em outro gênero (p.10).

A partir da definição da pesquisadora da Universidade Federal de Minas gerais, fica evidente a importância de transitar entre diferentes gêneros, de maneira que os alunos façam leituras com um olhar crítico. A atividade de retextualização que propus exige que o aluno compreenda o texto para agir seletivamente quando estiver envolvido no trabalho de escrita e pense em maneiras de como reorganizar ideias em função de novos objetivos e funções.

Cabe aos professores de Português possibilitar o encontro dos alunos com textos variados, de diferentes esferas discursivas, e incentivar o hábito da leitura sobretudo em ambientes que pouco favorecem isso. De acordo com PCNs, “cabe à disciplina de Língua Portuguesa ofertar textos os mais variados possíveis criando condições para que o aluno, além de lê-los seja capaz de interpretá-los e produzi-los” (1997).

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A escolha pelo trabalho com a retextualização de contos para roteiros a serem encenados pelos alunos foi feita com a finalidade de apresentar uma proposta pouco contemplada nas aulas de português, ou seja, o trabalho com um gênero escrito que supõe uma reflexão sobre a oralidade.

A ideia, com esse trabalho, foi a de preparar os alunos para lidar com diversas linguagens de forma divertida, atraente, prazerosa e instigante, de modo a mobilizá-los para a compreensão dos processos implicados na construção dos textos. Segundo Dell’isola, para saber manusear cada vez melhor as habilidades de ler, escrever, ouvir e falar, para utilizar linguagem falada ou escrita na produção de novos textos, os alunos devem lidar constantemente com o processo de textualização, tão importante para se expressarem também verbalmente. Destaco aqui uma ressalva feita pela pesquisadora:

O processo de refacção e reescrita (retextualização) tem se mostrado um excelente recurso para o trabalho com gênero. Associada à premência de se desenvolverem novas perspectivas educacionais relativas à linguagem e a seu uso, a proposta de se enfatizar o gênero como núcleo do “ensino” da língua materna faz-se indispensável, rompendo-se com a prática de estudo do texto voltada exclusivamente para a identificação de tipos textuais que o constituem. (2008, p. 5)

Importante destacar que três dos contos escolhidos são de autores africanos (Luandino Vieira e Mia Couto), os outros dois, de autores brasileiros canônicos (Machado de Assis e Monteiro Lobato), mas que centram o enredo na temática etnicorracial. Essa opção foi feita com a intenção de sensibilizar os alunos a respeito de temas que durante muitos anos estiveram fora da escola, levando-os a pensar sobre sua própria identidade. O aluno, assim, tem acesso a novas realidades e pode repensar a própria realidade em que está inserido.

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§2º Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística de Literatura e História Brasileiras. (BRASIL, 2003)

Dessa forma, o trabalho com a cultura africana, através de contos dos escritores Luandino Vieira e Mia Couto, foi colocado para os alunos como algo importante que deveria ser resgatado e respeitado no ambiente escolar.

De acordo com o que observei, através de trabalhos realizados pelos próprios alunos e de conversas que tive com a professora da turma, os alunos, embora concordem que a leitura seja algo necessário, sempre encontram argumentos para ter outras ocupações, deixando-a em segundo plano. No caso deste projeto, apesar da leitura não ter sido ênfase da proposta, ajudou-os também a se aproximar da literatura de uma forma lúdica e prazerosa, incentivando-os à prática da leitura. Os alunos, antes de começarem a escrever o roteiro para as cenas curtas, sabiam que o ponto de partida para a realização d a parte escrita e da execução da cena tinha sido a leitura do conto. Diante disso, começaram a perceber que a necessidade de uma leitura cuidadosa se faz premente para a realização de um bom trabalho.

No que tange à prática de leitura em sala de aula, observei que a professora ofertou vários textos literários. No entanto, não proporcionou momentos em que estes pudessem ser trabalhados de maneira que envolvesse a criatividade do aluno, leitor em potencial, e fizesse com que ele extrapolasse o texto e trouxesse dele novas significações. Também por isso, senti a necessidade de realizar um trabalho que envolvesse um aprendizado de novas formas de leitura.

A leitura, na maioria das práticas que observei com os alunos com os quais eu trabalhei, é sinônimo de absorção de idéias, o que vai de encontro com a definição de (KOCH & ELIAS 2006) : ao leitor, muitas vezes cabe a função de sujeito passivo, não tomado como interlocutor, haja vista que, pela própria centralidade atribuída à figura do emissor, inerente à própria concepção de linguagem subjacente a essa perspectiva de leitura, a interlocução não é levada em conta.

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cognitivas como a seleção, a inferência e a extrapolação do texto. Mais uma vez recorro à KOCH & ELIAS:

(...)na concepção interacional (dialógica) da língua, os sujeitos são vistos como atores/construtores sociais, sujeitos ativos que – dialogicamente – se constroem e são construídos no texto, considerando o próprio lugar da interação e da constituição dos interlocutores (KOCH & ELIAS, 2006, p. 10)

Além desse trabalho com leitura, então, os meus objetivos principais ao propor o projeto “A cena é sua”, foram: desenvolver a retextualização de “conto” para o gênero “roteiro” e com isso levar o aluno a desenvolver a capacidade de reflexão linguística usada para caracterizar personagens e suas diferentes personalidades e para reorganizar questões de espaço e de tempo na retextualização do conto para o gênero roteiro; fazer com que o aluno trabalhe a capacidade de transitar com fluidez entre as modalidades escrita e oral; possibilitar o contato com textos literários que retratam a cultura africana e afro-brasileira; sensibilizar os alunos para temática étnicorracial e possibilitar-lhes momentos de trabalho em equipe.

3. Aplicação do projeto

Os contos escolhidos foram selecionados por mim pela professora da turma, sendo que alguns deles constituíam parte de seu planejamento: Negrinha, de Monteiro Lobato; A Estória do ovo e da Galinha, do escritor Angolano José Luandino Vieira; Pai Contra Mãe, de Machado de Assis; O apocalipse privado do tio Geguê, do escritor moçambicano Mia Couto; De como vazou a vida do Ascolino Perpétuo Socorro, também de Mia Couto.

O trabalho foi realizado em duas aulas de uma hora e meia. A turma foi dividida em grupos de seis membros (trabalhamos com 5 grupos), e cada grupo trabalhou com um conto diferente. Os contos foram sorteados e distribuídos quinze dias antes para que cada um fizesse uma leitura prévia (já sabendo que fariam, a partir dos contos, roteiros e cenas).

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próprio roteiro. Cada grupo ficou livre para criar as falas dos personagens, escrever a composição da cena e o figurino. É importante ressaltar que não foi um pré-requisito a adaptação do conto para roteiro, mas incentivamos a criação de novos enredos e estórias que nascessem da leitura de cada um dos contos e do diálogo com o grupo. Os alunos, desde que houvesse o reconhecimento do conto lido, puderam fazer a adaptação livremente.

Na última aula, tivemos espaço para a apresentação das cenas pelos alunos. A

escola conta com uma sala de espelhos - que foi um espaço muito interessante para as apresentações - e uma equipe de Teatro, que disponibilizou o figurino. No final das cinco apresentações, reunimos para conversar um pouco sobre o trabalho realizado, os critérios que eles utilizaram na escolha do trecho trabalhado, as formas de criação, dentre outros aspectos relevantes na elaboração do roteiro e na realização da cena.

4. Resultados

O resultado da realização do projeto foi a elaboração de cinco roteiros (ver em anexo) e a apresentação das cenas curtas. Esse trabalho desafiou os alunos na seleção daquilo que é mais importante e relevante, em uma leitura que demandou a construção de critérios importantes no recorte de trechos para elaborarem um roteiro. Isso suscitou uma discussão nos grupos muito interessante: cada sujeito trouxe para sala de aula um trecho que mais lhe chamou atenção, e, em diálogo com os colegas do grupo, fizeram a seleção. Chamou-me a atenção a maneira como cada grupo, depois das discussões, privilegiou um critério diferente na escolha, alguns privilegiaram momentos cômicos, outros momentos decisivos no enredo, outros momentos fáceis de serem adaptados. Isso será tratado com mais especificidade a seguir. Eles tiveram oportunidade não só de discutir o conto, mas também de usar a criatividade na criação de diferentes maneiras de fazer a adaptação proposta.

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se repetiu em todos os grupos foi a respeito do papel do narrador no conto e no roteiro, e como isso seria transposto para o “palco”. Além dessas, notei também alguma dificuldade em identificarem no conto discurso direto e indireto (em casos que essa marcação não é tão óbvia quanto quando há o uso do travessão).

Embora a maioria dos alunos tenha conseguido realizar o trabalho com eficiência, foi a primeira vez que muitos deles tiveram a oportunidade de produzir roteiros para serem lidos. De acordo com o depoimento dos próprios alunos no último momento do projeto, eles ainda não tinham trabalhado com teatro em sala de aula, exceto aqueles do Grupo de Teatro da escola. Ainda de acordo com essa discussão final, para eles, o maior desafio foi encontrar maneiras e soluções a serem colocadas no papel e que os levassem a dizer exatamente o que queriam e o que haviam lido nos contos. Surpreendeu-me positivamente a facilidade com eles se apropriaram do aspecto formal do gênero.

Outro aspecto que vale destacar é a forma como as equipes se organizaram na realização do trabalho: aqueles alunos que já faziam parte do Grupo de Teatro da escola auxiliaram os colegas com idéias de figurino, de presença cênica, de cenário, etc. Além disso, houve um grupo em que uma das alunas destacou a importância do trabalho em equipe e do compromisso do grupo para a realização de um bom roteiro e de uma boa cena.

Os alunos relataram também que nunca haviam tido contato com literaturas africanas. Apesar de terem achado a leitura um pouco difícil, ficaram curiosos em conhecer outras obras dos autores. Aqueles cujos contos eram dos autores brasileiros relataram que fizeram uma leitura diferente e conseguiram perceber elementos que em outros momentos que haviam trabalhado os contos em aula não perceberam Isso se torna interessante para se pensar em novas possibilidades de leitura na escola.

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selecionou partes que possibilitassem isso; o grupo que trabalhou O Apocalipse privado do tio Geguê encenou um trecho - que também julgaram ser o mais engraçado - na íntegra e o último grupo criou uma nova estória, mas com os mesmos personagens, com as mesmas características e com a mesma estrutura narrativa do autor do conto.

5. Considerações Finais.

A transformação dos contos em roteiros, posteriormente encenados, exigiu do aluno uma escolha de partes fundamentais da narrativa e de maneiras mais apropriadas de textualizar. As escolhas, pelo que pude perceber, envolveram uma aprofundada reflexão linguística, o melhor modo de produção textual, as formas gramaticais mais apropriadas, e aquilo que está relacionado à função de cada texto e às situações de uso.

Além disso, esse exercício de retextualização permite um trabalho de reflexão sobre as diferenças entre discurso oral e o escrito, e pode desenvolver várias habilidades lingüísticas, capacidades criativas e interpretativas. Por exemplo, reflexões sobre o narrador, as modalidades de discurso indireto e direto, as diferenças entre linguagem oral e linguagem escrita.

De maneira geral, os alunos demonstraram gostar da atividade. Muitos deles, inclusive, propuseram darmos continuidade e elaborarmos apresentações para um evento da universidade: UFMG jovem. Vivenciei, neste projeto, vários momentos muito importantes, e os desafios seguramente contribuíram na minha formação. Os resultados e observações que obtive na realização deste projeto e do estágio orientado poderão me auxiliar no desenvolvimento de novos trabalhos e pesquisas não só na universidade, enquanto aluna de graduação, como na sala de aula, enquanto profissional, professora de Língua Portuguesa.

REFERÊNCIAS

ASSIS, Machado, Pai contra mãe. Relíquias de Casa Velha (1906). In: COUTINHO, Afrânio (Org.). Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997.

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BRASIL, Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa, Secretaria de Educação Fundamental: Brasília, 1997

______. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Eduação das Relações Etnicorraciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.

COUTO, Mia O apocalipse privado do tio Geguê, Cada homem é uma raça (3.° edição) Editorial Caminho, SA, 1994

COUTO, Mia. De como vazou a vida do Ascolino Perpétuo Socorro Vozes anoitecidas. Lisboa: Caminho, 2002.

DELL’ISOLA, Retextualização de Gêneros Escritos. Rio de janeiro, Lucerna 2007 DELL’ISOLA, Retextualizações. Belo Horizonte, UFMG 2008

KLEIMAN, Ângela. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. 8. ed. Campinas, SP: Pontes, 2002.

KOCH, Ingedore V., ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2006.

LOBATO, Monteiro, Negrinha 14 ed. São Paulo: Brasiliense 1968 SOARES, M. F. B, Projeto Cinema Negro, 200

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