Orientação religiosa e qualidade de vida em idosos praticantes e não praticantes de exercício físico

Texto

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Maria Inêz Holsback Araújo

ORIENTAÇÃO RELIGIOSA E QUALIDADE DE VIDA

EM IDOSOS PRATICANTES E NÃO PRATICANTES

DE EXERCÍCIO FÍSICO

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Gerontologia da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Gerontologia.

Orientadora: Profª. Drª. Marta Helena de Freitas

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“Na realidade, poder-se-ia argumentar com o senso de

humor superior da pessoa religiosa que, depois de ter

decidido, de uma vez por todas, quais as coisas sagradas

e com o valor definitivo, sabe que nada mais no mundo

precisa ser considerado seriamente. Apenas o núcleo e o

objetivo da visão religiosa estão fora do domínio do

humor”

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Dedico esta pesquisa a Deus, a minha família e ao

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AGRADECIMENTOS

A Deus, o criador, onipotente, onisciente e onipresente que, com sua benignitude, ofereceu-me a vida e a saúde para buscar o conhecimento. Apresentou-me diante de minha família, que me encaminhou nos bons ensinamentos, apoiando-me em tudo e principalmente neste mestrado.

Aos meus pais, Waldemar e Maria, pela paciência e compreensão; aos meus irmãos, em especial a Rita de Cássia, que me incentivou e participou desta pesquisa e ao José Antônio, que ajudou-me com muita disposição.

Ao meu amado, Andren, que mesmo na distância contribuiu e acompanhou-me nos momentos mais difíceis. Deu-me coragem e perseverança para alcançar a conclusão do trabalho com êxodo.

Ao Exército Brasileiro que proporcionou-me a oportunidade de realizar este desejo e ao amigo estatístico, Flávio Guardiano, que colaborou nesta pesquisa com presteza, dedicação, paciência e atenção.

À Universidade Católica de Brasília – UCB, instituição na qual iniciei minha formação acadêmica e responsável por este Stricto Sensu. À coordenadora do Curso de Gerontologia, Lucy Gomes Vianna, e de maneira particular, agradeço à secretária do curso de gerontologia, Alminda, pela competência e pela maneira gentil e dócil de tratar os mestrandos.

Agradeço à Drª Marta Helena de Freitas que, ao transmitir a importância da religiosidade em sua disciplina, tornou-se minha inspiração para o tema da atual pesquisa e ao corpo docente do curso de mestrado em gerontologia. Em especial aos professores: Dr. Luiz Carlos Martins Alves Jr e Dr. Vicente Faleiros.

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SUMÁRIO

EPÍGRAFE ... ii

DEDICATÓRIA ... iii

AGRADECIMENTO ... iv

SUMÁRIO ... v

ÍNDICE DE FIGURA E QUADROS... vii

ÍNDICE DE GRÁFICOS E TABELAS ... viii

RESUMO ... ix

ABSTRACT ... x

INTRODUÇÃO ... 01

CAPÍTULO 1: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 07

GERONTOLOGIA APLICADA À QUALIDADE DE VIDA ... 07

1. O Envelhecimento ... 08

2. Atitude Diante do Envelhecimento ... 11

O IDOSO COMO REFLEXO DE UMA CULTURA ... 18

1. Corpo, Espírito e suas Relações ... 18

2. O Ser Holístico no Oriente ... 22

3. O Ser Fragmentado no Ocidente ... 26

EXERCÍCIO FÍSICO, ORIENTAÇÃO RELIGIOSA E QUALIDADE DE VIDA EM IDOSOS ... 32

1. O Papel do Exercício Físico e a da Religiosidade do Idoso ... 34

2. O Senso Religioso e sua Complexidade Conceitual ... 39

3. A Concepção de Orientação Religiosa em Gordon Willard Allport ... 44

3.1. Religiosidade Intrínseca e Religiosidade Extrínseca ... 44

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CAPÍTULO 2: METODOLOGIA ... 52

Objetivo Geral ... 52

Objetivos Específicos ... 52

Amostra ... 52

Instrumentos ... 53

Procedimentos ... 55

Análise de Dados ... 56

CAPÍTULO 3: RESULTADOS ... 57

Dados Descritivos ... 57

Análise da Significância das Relações entre as Variáveis ... 63

CAPÍTULO 4: DISCUSSÃO ... 68

CAPÍTULO 5: CONCLUSÃO ... 76

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 79

ANEXOS ... 85

Anexo I – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE ... 86

Anexo II – Questionário sobre Exercício Físico ... 87

Anexo III - Escala de Religiosidade Intrínseca e Extrínseca de Gorsuch e McPherson ... 88

Anexo IV – Escala de Qualidade de Vida ... 92

APÊNDICES ... 100

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LISTA DE FIGURA E QUADROS

FIGURA 1: Modelo da intervenção sobre a qualidade de vida ao longo do curso de vida humana ... 34

QUADRO 1: As diversidades entre as civilizações negro-africanas e as civilizações ocidentais ... 12

QUADRO 2: Características da Religiosidade Intrínseca e da Religiosidade Extrínseca ... 47

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LISTA DE GRÁFICOS E TABELAS

GRÁFICO 1: Distribuição dos idosos segundo o sexo ... 58

GRÁFICO 2A: Distribuição dos idosos segundo a prática do Exercício Físico ... 61

GRÁFICO 2B: Distribuição dos idosos e das idosas segundo a prática do Exercício Físico ... 61

GRÁFICO 3: Distribuição dos idosos segundo as Orientações Religiosas Intrínseca e Extrínseca ...

62

GRÁFICO 4: Distribuição dos idosos segundo a Qualidade de Vida (Capacidade Funcional (CF), Limitação por Aspectos Físicos (LAF), Dor (D), Estado Geral de Saúde (EGS), Vitalidade (V), Aspectos Sociais (AS), Aspectos Emocionais (AE) e Saúde Mental (SM)) dos praticantes e dos não praticantes de exercício físico ... 63

TABELA 1: . Médias dos Scores dos domínios da Qualidade de Vida dos idosos praticantes e dos não praticantes de exercício físico e resultados da aplicação do teste t-Student ....

64

TABELA 2: Médias dos Scores das Orientações Religiosas Intrínseca e Extrínseca dos idosos praticantes e dos não praticantes de exercício físico e resultados da aplicação do teste t-Student ... 65

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RESUMO

Este trabalho objetiva investigar as modalidades de orientação religiosa, tal como descritas por Allport, ou seja, se intrínseca ou se extrínseca e suas possíveis relações com a qualidade de vida, conforme define Ciconelli, em idosos praticantes e não praticantes de exercícios físicos. Foram sujeitos da pesquisa 200 idosos, todos residentes no Distrito Federal, sendo 70 (35%) homens e 130 (65%) mulheres, com idade entre 60 e 89 anos. Do total, 133 (66,5%) praticam exercícios físicos, sendo 45 (22,5%) homens e 88 (44%) mulheres. Aplicaram-se três instrumentos aos idosos pesquisados: a) entrevista orientada por um questionário semi-estruturado com perguntas relativas à prática de exercício físico do idoso, elaborada pela própria pesquisadora; b) escala de orientação religiosa intrínseca e extrínseca, de Gorsuch e McPherson, traduzida para a Língua Portuguesa do Brasil e adaptada para emprego em pesquisas com idosos e c) escala de Qualidade de Vida SF-36, adaptada e traduzida para o Brasil por Ciconelli. Os dados foram coletados em instituições de longa permanência, em centros de convivência para idosos e academias. Após lidos instrumentos obtiveram-se suas respostas, simultaneamente anotadas. Realizou-se a análise dos dados por meio de correlação de Pearson para verificar a correlação entre a orientação religiosa e a qualidade de vida. E, para análise das diferenças entre orientação religiosa e qualidade de vida em idosos, praticantes e não praticantes de exercícios físicos, utilizou-se o test t. Os resultados demonstraram que, dentre os oito domínios de qualidade de vida avaliados, dois apresentaram diferenças significativas em relação à prática de exercícios físicos: a Capacidade Funcional (t= 3,50; p= 0,001) e a Dor (t= 2,43; p= 0,017), de forma que, os praticantes de exercício físico, apresentaram maior capacidade funcional e maior nível de dor. Entre os idosos praticantes de exercícios físicos, observou-se correlação negativa entre a Saúde Mental e a religiosidade extrínseca, ou seja, quanto maior a religiosidade extrínseca, menor a saúde mental (r= -0,198; p= 0,021). Em relação aos não praticantes de exercícios físicos, verificou-se correlação

negativa entre a Saúde Mental com as religiosidades, intrínseca (r= -0,359; p = 0,002) e extrínseca (r= -0,491; p= 0,000); e a Capacidade Funcional com as

religiosidades, intrínseca (r= -0,317; p= 0,008) e extrínseca (r= -0,469; p= 0,000). Assim, pode-se dizer que para tais idosos, quanto maior a Saúde Mental e a Capacidade Funcional, menor os escores em orientação religiosa. Em conclusão, não se verificaram relações significativas entre a prática do exercício físico e a orientação religiosa. A discussão aventou que esses resultados podem ter sido causados pelo fato de o tipo de formação da cultura religiosa no Brasil ter pouca influência na qualidade de vida dos idosos, destacando-se a importância da realização de mais estudos sobre esses aspectos da vida, em idosos.

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ABSTRACT

This paper aims at investigating different kinds of religious orientation, such as the ones described by Alpport, whether intrinsic or extrinsic, and how it is possibly related with quality of life, as defined by Ciconelli, for elderly people who practice physical exercises and for those who do not. 200 elderly, DF-resident people were subject to this research, 70 men and 130 women, ages ranging from 60 to 89 years old. In all, 133 practice exercises, 45 men and 88 women. Three instruments were used: a) Interview oriented by a semi-structured questionnaire, with questions related to the practice of physical exercises in old age; b) intrinsic and extrinsic religious orientation gauge, from Gorsuch and McPherson, translated to Portuguese and adapted to be applied for the research with elderly people; c) quality of life gauge, translated and adapted and translated by Ciconelli. Data was collected in long-permanence institutions, centers for the meeting of elders and gyms, instruments read to the elders and notes taken of the results. Analysis of the data was done using Pearson’s correlation, to verify correlation between religious habits and quality of life. To analyze the difference between religious orientation and quality of life in elders, the ones who practice exercises and the ones who do not, test t was used. Test showed that amongst the eight domains of quality of life considered, two presented significant difference to the practice of physical exercises: Functional Capability (t= 3,50; p= 0,001 ) and Pain (t= 2,43; p= 0,017), in a way that practitioners of physical exercises, presenting more Functional Capability and higher level of Pain. Amongst those elders who are practitioners of physical exercises, it was observed negative correlation between Mental Health and extrinsic religiosity, that is, the more extrinsic religiosity, the less mental health (r= -0,198; p= 0,021). As to the non-practitioners of exercises, it was verified negative correlation between the religiosities, both extrinsic (r= -0,491; p= 0,000) and intrinsic (r= -0,359; p = 0,002) and between Functional Capability and both religiosities, extrinsic (r= -0,491; p= 0,000) and intrinsic(r= -0,317; p= 0,008). Thus, it is possible to state that, to these elders, the more Mental Health and Functional Capability, the less religious orientation. Significant links between religious orientation and religious practice were not observed. It was concluded that elderly people cannot be differentiated in terms of religious orientation and practice of physical exercises. It was discussed that these results might have arisen on account of the fact that the kind of religious education in Brazil has little influence in elderly people’s quality of life, justifying continued studies on this aspect of elderly people’s lives.

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INTRODUÇÃO

O mundo vive constantes transformações, nitidamente marcado pela evolução da tecnologia, da genética e das demais áreas da atividade humana. O indivíduo hodierno, principalmente na sociedade ocidental, sofre a tendência de não ter tempo para viver bem. Na ânsia de tentar acompanhar e adaptar-se a todas as mudanças, esquece-se de si mesmo, como “ser integral”, comprometendo, portanto, sua qualidade de vida, ainda que as transformações tenham, em sua origem, muitas vezes, justamente a intenção de contribuir nesse sentido. Conforme Camejo (2002), o conceito de qualidade de vida precisa de esclarecimentos constantes. A análise da qualidade de vida da pessoa humana não deve se reduzir a questões meramente técnicas ou biológicas. Deve abranger também o contexto social, as situações próprias de cada indivíduo, e suas diferentes formas de existir, ou seja, as particularidades culturais, profissionais, filosóficas e religiosas. De um modo geral, os esforços para entendimento dessa complexidade têm resultado em tendências dicotômicas, ou até mesmo tricotômicas, que acabam fragmentando o indivíduo na tentativa de decifrá-lo. Cada pesquisador, no seu campo de análise, faz recortes do fenômeno tratado: o indivíduo como corpo, na medicina; como psiquê, na psicologia; ou como espírito, na teologia.

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milenar e seus costumes também; já a sociedade ocidental foi submetida a outras influências. A visão fragmentada do ser humano é resultado nítido da existência de paradigmas que se formaram no decorrer da história e se estruturaram, ocasionando, hoje, a dificuldade em pesquisar temas tão abrangentes como o envelhecimento, quanto à qualidade de vida e ao papel do exercício físico e da religiosidade.

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fragmentado, mas como um todo, em que o pensamento, as emoções e os gestos são completos e não só físicos ou psíquicos, mas sempre totais, isto é, ao mesmo tempo com toda a adjetividade que se lhe pode atribuir. O indivíduo é corporeidade e, como tal, é movimento, é gesto, é expressividade, é presença. Entretanto, esse mesmo indivíduo é espiritualidade e, assim sendo, segundo Goldstein (2002), reveste-se da capacidade de se maravilhar, reverenciar e ter gratidão pela vida. O indivíduo pode interagir consigo, com o próximo e com um ser superior, encantando-se pelo próprio encantando-ser, pelo próximo, pela natureza e pela vida. A motivação humana de ver a vida como significativa pode ser associada a uma variedade de experiências, algumas especificamente identificadas com a religião e outras não, mas todas elas marcadas por emoções positivas que resultam de um senso de integração e ligação.

Não há como negar que o Brasil é um país muito religioso. Nele, as influências culturais contribuem para a constituição das diversificadas crenças e religiões. A questão religiosa está muito presente na vida do idoso. Conforme citam Goldstein e Sommerhalder (2002), isso ocorre devido a várias causas: primeiro, porque o processo de envelhecimento apresenta questões existenciais às quais, geralmente, a religião tenta responder; segundo, porque, conforme registrado nos censos nacionais, a maioria da população professa algum tipo de crença religiosa, e os idosos, inseridos nesse contexto, valorizam, ainda mais, suas crenças e valores religiosos; e, por fim, também porque, quando questionados acerca do modo como enfrentam os problemas, eles respondem, na maior parte das vezes, que sua fé e religião têm grande importância na superação deles.

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considerando o papel da religiosidade no estabelecimento do equilíbrio geral. Esse é um dos propósitos da pesquisa que ora se empreende, ou seja, investigar como a religiosidade e as respectivas motivações, intrínsecas ou extrínsecas, praticadas concomitantemente com os exercícios físicos, relacionam-se com a qualidade de vida do idoso.

Com esse intuito e para contribuir nesse sentido, o tema foi desenvolvido em capítulos que compreendem a fundamentação teórica, a metodologia, os resultados, a discussão e a conclusão, organizados conforme se detalha a seguir:

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existência e da finitude humana que se ligam diretamente à cultura, mostrando-se bem nítidas nas diferenças das civilizações negro-africanas e ocidental.

O segundo título apresenta o idoso como reflexo de uma cultura com suas maneiras de ver, pensar e viver. Primeiramente, evidencia o corpo, o espírito e suas relações nas diferentes visões culturais, citando seus respectivos conceitos e perspectivas, única ou dualista, segundo cada cultura; depois mostra o ser holístico no Oriente, que expressa a cultura milenar, compreendendo a visão da existência como um processo cíclico, em que tudo o que tem um começo terá um fim do mesmo modo que tudo o que tem um fim terá um recomeço. Inclui, também, o significado do ser holístico em que todos os aspectos, tanto físicos, como psíquicos, sociais, culturais, ambientais e espirituais são apreciados em sua integridade. Por último, trata-se da visão do ser fragmentado do Ocidente, que expressa a visão mecanicista e fragmentada do universo e de si mesmo e é típico de uma cultura hegemônica que, mesmo com a presença de comunidades de influências, como a dos negros e dos índios, que cultuam o corpo e o espírito de forma unificada em suas manifestações religiosas, por meio de danças, a dicotomia mantem-se, comprometendo as relações do homem com a vida, com a natureza e com o outro.

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objetivas da religiosidade, sendo estas contribuidoras para a qualidade de vida do idoso. Mostra a heterogeneidade de perspectivas no tratamento do tema do senso religioso por parte de diferentes autores e o despertar do interesse dos pesquisadores ao retomarem os temas de religiosidade e envelhecimento. Para completar o estudo, é abordada a concepção de orientação religiosa de Gordon Willard Allport, sua biografia, seu interesse pelo estudo empírico na psicologia da religião e as características de suas duas modalidades de orientação religiosa: a intrínseca e a extrínseca.

Apresentada a fundamentação teórica e com o objetivo de identificar as modalidades de orientação religiosa, se intrínseca ou extrínseca, e suas relações com a qualidade de vida em idosos praticantes e não praticantes de exercício físico, a metodologia é exposta distinguindo-se as características da pesquisa por amostra, os instrumentos e procedimentos utilizados e as análises dos dados dos idosos.

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CAPÍTULO 1

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

GERONTOLOGIA APLICADA À QUALIDADE DE VIDA

A velhice é o privilégio de alcançar uma idade avançada que muitos não conseguem. Esse privilégio se torna ainda maior, quando alcançado com satisfação e boa qualidade de vida. A gerontologia vem contribuir neste sentido, com a interdisciplinalidade e a multidisciplinalidade. Porém, na atualidade, a gerontologia vem enfrentando desafios, como é apresentado por Néri (2001, p.61):

“... a pulverização da pesquisa e das teorias; a construção e teste de modelos explicativos; a conciliação entre os conceitos de desenvolvimento e envelhecimento; a conciliação entre os vários conceitos de idade e tempo; vencer os preconceitos dos próprios pesquisadores; descrever diferenças intra e interindividuais do envelhecimento e integrar a velhice no curso de vida”.

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como às ações sociais que se podem interpor para melhorar os processos do envelhecimento.

A gerontologia social, com a multiplicidade e a interdisciplinalidade, auxilia na efetivação do atual estudo, que abrange a associação entre o exercício físico, a religiosidade e a qualidade de vida dos idosos no seu contexto sociocultural. Nesse sentido, o propósito é aprender sobre o envelhecimento associado à qualidade de vida.

1. O ENVELHECIMENTO

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em conseqüência, aumenta o tecido adiposo. Guimarães (1996) relata, ainda, que a inatividade e a sua expressão máxima, a imobilidade, favorece o desencadeamento de diversos problemas que tendem a deteriorar a qualidade e, por fim, reduzir a expectativa de vida.

Blazer (1998) caracteriza o processo do envelhecimento em três fases distintas: o primário (senescência), que é um processo biológico caracterizado pela genética do organismo, produzindo alterações prejudiciais relacionadas ao tempo; o

secundário (senilidade), relacionado aos efeitos e às incapacidades causados pelos

fatores hostis ambientais, em particular o trauma e a doença e, por último, as

doenças relacionadas ao envelhecimento, usualmente derivadas do envelhecimento

primário e do secundário. Sabe-se, porém, que os efeitos do envelhecimento secundário podem ser modificados.

Além das alterações físicas e fisiológicas decorrentes do envelhecimento, ocorrem também transformações psíquicas significativas, conforme relata Goldstein (1993), para quem a capacidade de auto-reflexão e de introspecção, que geralmente se inicia na meia idade e acentua-se com o passar dos anos, traz consigo reflexões de natureza retrospectiva, de avaliação de vida, de mais atenção aos aspectos do self, de busca de um significado ou propósito para a vida, bem como de considerações sobre o futuro e sobre a finitude da existência, abrindo, assim, as portas para os sentimentos e os comportamentos religiosos.

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Sendo assim e fazendo-se uma inter-relação entre o envelhecimento, a religiosidade e o exercício físico, pode-se extrair que todos são constituídos como processos. Entretanto, trata-se de processos diferentes. O primeiro, no caso o envelhecimento, é natural e independe de vontade e esforço. Já os outros dois, a religiosidade e o exercício físico, não são de ordem natural e exigem motivação, investimento interno e disposição. O que ocorre é que, geralmente, as pessoas tendem a buscar estratégias para retardar ou negar o primeiro processo, o envelhecimento, e podem dar mais ou menos importância aos outros dois processos, visto que requerem disposição e uma série de outros fatores, os quais as pessoas desconhecem ou cujos resultados não querem esperar.

Como afirma Nicolini (1996 p.44):

“ O ser humano é um ser temporal. Ele tem um tempo de experiências de vida, de convivência, de transcendência, um tempo que se relaciona ao sentir, ao fazer. Porém, condicionados de nossa história pessoal, compreendemos nosso tempo e nosso espaço por meio dos conceitos generalizadores das condições das ‘idades’. Fazemos, sentimos, percebemos e entendemos o mundo de acordo com as normas ou os estereótipos que ‘socialmente’ cada idade predetermina.”

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2. ATITUDE PERANTE O ENVELHECIMENTO

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Quadro 1 – As diversidades entre as civilizações negro-africanas e as ocidentais

Quadro de Louis-Vicent Thomas, reproduzida de Loureiro (2000, p 85 e 86)

TEMÁTICA CIVILIZAÇÃO NEGRO-AFRICANA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL

Tipo de

Sociedade

ou

Civilização

• Sociedade de acumulação de

homens.

• Rica em signos e símbolos.

• Economia de subsistência;

pobreza mais o primado do valor

de uso.

• Cuidado com as relações

pessoais e busca quotidiana da

paz.

• Espírito comunitário.

• Sentido de continuidade e do diálogo; função do mito, do

tempo repetitivo e do tempo

escatológico.

• Sociedade de acumulação de bens.

• Rica em objetos e técnica.

• Rentabilidade, abundância,

primado do valor de troca;

sociedade de consumo.

• Tanatocracia burocrática ou

tecnocrática.

• Exaltação do individualismo.

• Sentido de ruptura; função da ciência, da técnica e do tempo

esportivo.

Significado

do Homem

• No centro do mundo, criatura mais preciosa, mais altamente

socializada.

• Valorização do velho.

• Considerado como produto,

mercadoria,

produtor/consumidor,

individualizado e alienado.

• Velho desvalorizado, abandonado

Atitude em

face da vida

• Promoção da vida sob todas as suas formas (biológicas, sexual,

espiritual).

• Respeito ao corpo; ritmo como linguagem do corpo.

• Desprezo pela vida: sociedade mortífera (mata ou deixa

morrer)

• Atitude equívoca acerca do

corpo.

Atitude

diante

da morte

• Aceitação e transcendência,

deplacement (ao limite da neurose).

• Integração da morte como

elemento necessário do circuito

vital (realidade ontológica).

• Morte ideal: “boa morte”.

• Angústia mais ou menos

recalcada, neurose (ao limite da

psicose).

• Fuga diante da morte

ontológica, em proveito da

morte-acidental, que a ciência

poderá suprimir.

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A recusa da velhice pode ter muitas origens, mas um dos fatores mais apontados pelos estudiosos do assunto recentemente é a predominância em todo contexto cultural de encarar a velhice como uma doença e somente como perda. Para Guimarães (2002), esse paradigma cria o ambiente propício para as chamadas ‘mercadorias da ilusão’, que funcionam como uma forma de fugir do envelhecimento. As “mercadorias da ilusão” são praticadas há tempos, mas desprovidas de bases científicas. Uma delas é o ‘shumamatismo’ descrito no Velho Testamento: uma bela jovem virgem era levada para conviver no leito do rei David, que estava velho e enfraquecido, com intuito de trazer-lhe de volta o calor ao corpo. Outra prática existente foi a alquimia, no séc. XIII. Rogério Bacon defendia que, para prolongar-se a vida, alguns fatores eram mais eficazes para longevidade: a imortalidade e o pecado. E até hoje continuam surgindo outros artefatos, como cirurgias plásticas e outras técnicas de rejuvenescimento, que são também apreciadas e testadas a serviço de uma ideologia consumista.

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As imagens que se tem do idoso e do envelhecimento não são otimistas na sociedade ocidental. São elas distorcidas pelos valores e por isso vêem-se atitudes, como a negação de envelhecer, influenciando também no interesvêem-se pela prática da religiosidade.

Ainda acerca da imagem negativa do envelhecimento, Debray (1993, p.197) constata que:

“Há um momento na história em que o olhar sente a maior satisfação: é quando o homem, criado à imagem de Deus, acaba recriando a natureza à imagem do homem. É então, que cristaliza essa mistura de racionalismo com voluntarismo que secularizou o olhar ocidental mais do que qualquer outro. Com efeito, não se gosta do que se vê, olha-se para aquilo de que se gosta. E quando uma sociedade passa a gostar um pouco menos de Deus, ela passa a olhar um pouco mais para as coisas e pessoas. Distanciando-se do primeiro, aproxima-se das segundas”.

Infere-se neste sentido que, talvez, as pessoas que neguem o envelhecimento evitem enxergar a imagem que lhes desagrada, direcionando a atenção para as impressões positivas do ponto de vista pessoal e social. Centradas em si mesmas, procuram as técnicas de rejuvenescimento que, de forma rápida e eficaz, lhes fornecem a imagem pretendida e ignoram a prática do exercício físico. Ou, quem sabe também, distanciam-se das questões religiosas por acabarem recriando a natureza à sua própria imagem, ou seja, o indivíduo, que também é natureza, é criado à imagem de Deus. No instante em que ele interfere na natureza (em si mesmo), afasta-se do seu criador. Assim, ele recria uma nova natureza (ele), à sua própria imagem. Por outro lado, afasta-se da posição de “ser criado” para “ser criador”.

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“vencê-lo” por meio de técnicas de rejuvenescimento e cirurgias plásticas, preocupando-se apenas com a aparência. Essa necessidade de vencer o envelhecimento, em curto prazo, por meio de intervenções cirúrgicas, revela o desejo imediatista de “resolver” os problemas. Ora, a prática de exercício físico traz benefícios comprovados ao ser humano, mas, assim como o desenvolvimento da religiosidade, é também um processo que requer esforço, paciência, perseverança, além de demandar tempo e disposição. Por esses motivos, na sociedade ocidental, ambas as intenções tendem a ser substituídas pelos procedimentos pragmáticos já citados com promessas de resultados eficazes.

Desta maneira, vale refletir sobre os resultados apontados por Augras (2003), em uma tese sobre cirurgias estéticas: por meio de relatos nas cartas de clientes, soube-se que, durante a cirurgia, presenciam-se espécies de ritos de passagem, quando o corpo é ‘recriado’ pelas mãos ‘divinas’ do cirurgião. Observe-se que, nesse caso, é possível supor uma substituição da religiosidade pela cirurgia, vista como um rito e, posteriormente, pela atitude das clientes em entregar a sua insatisfação, geralmente decorrente do tempo, ou seja, do envelhecimento, ou decorrente da sua própria inatividade física, ao cirurgião para que ele a solucione "divinamente". Melhor dizendo, querem que sejam mascaradas as conseqüências naturais do tempo que se recusam a aceitar. Todavia, ao mesmo tempo, elas próprias contribuem para a acentuação do envelhecimento devido à resistência quanto à prática do exercício físico. Como resultado do exposto acima, é possível apontar, nesse caso, que pode haver, simultaneamente, um desinteresse pela religiosidade, pelo envelhecimento e pela prática do exercício físico.

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de a cirurgia plástica ser utilizada como o meio para conquistas amorosas, posição social e consolo, desta maneira, “vencendo” o envelhecimento mais rápido, mesmo dispensando o exercício físico, e quem sabe também, a religiosidade não estivesse tão arraigada. Assim, tanto o envelhecimento como a prática do exercício físico e a religiosidade, todos são um processo lento e contínuo que requer paciência, tempo, determinação, perseverança, esforço, o que pode ser o mecanismo essencial buscado pelo idoso, para conquistar a tão esperada longevidade com qualidade de vida.

Além dessa imagem construída do idoso, outro fator capaz de contribuir para a negação da velhice pode estar associado à maneira de enfrentar a morte, pois a tanatofobia é uma constante nas pessoas, uma vez que talvez, as imagens na infância obtidas, já não são as mesmas no decorrer da vida.

A esse respeito Py e Trein (2000, p.1015) afirmam:

“Ausentes do inconsciente, velhice e morte se fazem presentes na vida do homem, na agudeza da ferida narcísica provocada pela frustração das ilusões de beleza e potência eternas. Fantasias desmanchadas, particularmente na velhice, descortinam a realidade e causam sofrimento. Porém, prescrevem para o indivíduo idoso a realização de algo mais próximo das suas possibilidades de realização, que o mantenha na ação de prosseguir em seu projeto de vida e na procura do seu lugar de senhor das próprias decisões. É o momento do confronto daquilo que no imaginário permanece idealizado como potente e belo, com a verificação realista das capacidades e dos limites do seu corpo envelhecido. Momento de viver o paradoxo entre a evidência imaginária da imortalidade e uma evidência objetiva e concreta, da metamorfose que conduz ao último dos seus dias.”

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uma forma de enfrentar o envelhecimento, assim como a guerra, uma necessidade de enfrentar a morte, superá-la e ficar vivo. Kübler-Ross (1977) explica ainda que grupos de pessoas, para exprimir seu medo, fazem a guerra. Em ambos os casos, a procura pela cirurgia plástica e a declaração de guerra, tenta-se enfrentar o medo da morte, cada qual à sua maneira (negação da sua própria mortalidade). O homem precisa e deve defender-se de muitas formas desse crescente medo da morte, a tanatofobia. Para isso, deve-se preparar e controlar em vez de atacar, como nas cirurgias e guerras. A autora chama a atenção no sentido de que, se permanecer a negação da morte, a sociedade se tornará petrificada e terá que se autodestruir. Porém, tal transformação na concepção da morte não pode ser realizada de maneira massificada, mas individualmente, para alcançar a paz interior e aceitar a realidade de sua própria morte.

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O IDOSO COMO REFLEXO DE UMA CULTURA

Como apontado anteriormente, os modos como a cultura lida com o corpo, o envelhecimento e a morte têm importantes reflexos na forma como o idoso se vê no processo do envelhecimento visto pelos outros. Mas são também diferenciados em outros aspectos como a relação da religiosidade com o exercício físico na qualidade de vida. Enquanto numa cultura oriental o ser humano é notado como um ser integral, na ocidental, ocorre a dicotomia, evidenciando o corpo e o espírito separadamente. E é por esses dois parâmetros, integridade e dicotomia, que serão esplanadas as diferenças nas relações de morte, saúde, envelhecimento, religiosidade, exercício físico, corpo, espírito e pensamento para delimitar com maior clareza as diferenças que permeiam essas duas culturas.

1. CORPO, ESPÍRITO E SUAS RELAÇÕES

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depois o objetivo); e a contemporânea, que associa o espírito aos valores e ao tema da existência do “ser espiritual”. Porém, mesmo com tantos conceitos expostos, faz-se necessário ressaltar que, no emprego original de “espírito” na época, entre os gregos, não havia a dicotomia, hoje preconizada na cultura ocidental. Conforme Freitas (1999) relata, “... o espírito não tem que se contrapor ao mundo ou à natureza. O Espírito não é nenhuma superestrutura do mundo material; pelo contrário, é este a sua indispensável infra-estrutura.”

A relação, no entanto, de se fazer compreender o corpo e o espírito dependerão da cultura. Para o indivíduo, a consciência do seu próprio corpo, de sua gênese e constituição e, por conseqüência, a responsabilidade de preservá-lo tem também, em sua origem, aspectos ligados à religião. Melhor dizendo, como também afirma Augras (2003), o status do corpo tem uma relação com a cultura e um aspecto importante disto é fornecido pela religião, que é matriz da cultura em que se está inserida. Augras continua afirmando que, em qualquer sociedade analisada, é possível verificar que o corpo pertence à cultura, tanto quanto à natureza, e que a religião é considerada mais abrangente no sentido de interpretação do mundo externo e interno do próprio indivíduo, ou seja, tudo o que o corpo faz e produz é sempre interpretado e carregado de significação e símbolos fornecidos pela cultura.

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heteronomia. A ruptura entre ambas não deve existir, mas a explicitação de uma por e através da outra.

Não apenas a religiosidade tem uma estreita relação com a cultura, como também as atividades mais diretamente relacionadas com o corpo, como o exercício físico, segundo seu modo e finalidade de execução, igualmente estabelecendo diferenças e critérios para a sua prática. Conforme Neto (2000), “os padrões das técnicas corporais habituais são sociais” (p. 131). Os exercícios, como por exemplo, os taoístas e a yoga são técnicas psicossomáticas e espirituais que fazem parte de um único sistema composto por saberes, como filosofia, dietética, fitoterapia, acupuntura e geomancia. As diversas técnicas se fundem e se complementam em seus princípios e efeitos. Por não serem consideradas ginásticas no mesmo sentido dos ocidentais, fica difícil delimitar, como treinamento, técnicas de movimento, treinamento de energia, visualizações, posturas e meditações. Ao contrário da perspectiva dualista, para o taoísmo, a separação entre o corpo e o espírito é um estado patológico, sob forma de sofrimento. Hermógenes (2005) admite que na Yoga ‘o corpo é o templo do Espírito Santo’, por isso preocupa-se com o corrigir, purificar e embelezar o templo para receber o Hóspede tão desejado. O que deve ser entendida, no entanto, é a filosofia que envolve cada cultura.

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valorizado enquanto no Ocidente, há pouca ou quase nenhuma consideração a esse aspecto, como por exemplo, a quantidade indefinida de aplicações de acupuntura já que dependerá de como cada paciente se manifesta ao longo do tratamento. Isso é raro ocorrer no Ocidente, onde os medicamentos possuem uma programação determinada de tempo de administração e dosagem.

Outras diferenças que permeiam as culturas ocidentais e orientais em relação à morte iniciam-se na própria concepção de “corpos” que os mesmos possuem. No Ocidente percebe-se o corpo de um morto como substância enquanto massa; no Oriente, como a China, segundo Wilhelm (1995), isso é considerado como um estado de energia, pois como o corpo não se desintegra de imediato, assim também é considerada a psiquê, que subsiste por um lapso de tempo. Desta forma, acredita-se que o defunto ouve. Portanto, não é recomendado que se fale algo desagradável na sua presença, ou seja, somente é permitido proferir palavras que induzem tranqüilidade até ser concluído o desprendimento do corpo. Para os chineses também, o ponto focalizado não é a vida ou a felicidade e sim a morte, pois acreditam que a transmigração das almas ocorra com grande carga, sofrida e pesada. Já para os europeus, em geral, a doutrina da reencarnação é tranqüilizadora, pois proporciona a convicção de que retornarão ao mundo mais tarde.

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2. O SER HOLÍSTICO NO ORIENTE

Para tentar compreender uma cultura tão diferenciada da cultura ocidental como é a dos orientais, é necessário, primeiramente, voltar os olhos para alguns conceitos e visão sobre a morte para depois compreender o significado do ser. Wilhelm (1995) relata que o conceito chinês do mundo, como toda a existência fenomenológica, é condicionado por dois pólos opostos: o contraste da luz e da sombra, do positivo e do negativo, do Yang e do Yung. Também é assim na metafísica, a antítese de vida e morte. Desta forma, não é de admirar a crença de que a maior felicidade prometida ao homem seja a morte, considerada ‘a coroação da vida’. Assim, os chineses não julgam ninguém feliz antes de sua morte. No Oriente, a visão da vida, assim como a da morte, é simplesmente uma verdadeira realidade que significa apenas o interior de uma dualidade polar, em que um lado, a vida, não parece tão sólida, e o outro lado, o sombrio da morte não é radicalmente negativo. Há também um processo cíclico em que tudo o que tem um começo terá um fim, do mesmo modo que tudo o que tem um fim terá um recomeço, tal qual o dia e a noite, a vida e a morte. Assim sendo, a tarefa da vida para os chineses consiste em preparar a morte, no sentido de criar um estado liberado do conceito da finitude da existência, que representa a eternidade. Tal estado infinito e eterno deverá situar o próprio Eu no seu centro, que se desprenderá naturalmente em um ponto, chamado morte.

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vivido pela Terra no seu modo direto e espontâneo. Isto explica muito a atitude do chinês em querer retornar sempre à terra natal, porque ela faz parte dele e ele, dela, numa grande interação. O ciclo é tão presente em suas vidas e em tudo que até mesmo o sangue é considerado um fluido especial cujo percurso cíclico dentro do corpo deve ocorrer sem impedimento, para proporcionar a força constante, representando para o homem o substrato da sua alma, o substrato da vida. Pelo exercício físico, eles exercitam também a meditação que consiste em concentrar-se em imagens coletivas, visuais ou sonoras, que estimulam a atenção e provocam uma força de atração sobre a consciência. Essas imagens devem ser estruturadas de acordo com um plano básico e devem seguir um rumo determinado para estabelecer contato com os centros vitais, exercendo dessa forma influências sobre o fluido sangüíneo e a vida física. E, com isso, o homem faz com que toda a alma concentre toda a sua vida no aqui e agora, deixando a vida passar e os acontecimentos seguirem seu percurso, sem pensar no passado ou no futuro, sem reflexos irreais, apenas respeitando o fluxo natural cíclico da vida.

Assim sendo, quando se observa essa visão oriental, nota-se a consonância com os sentidos originais dos termos espírito e psiquê, em que não há a dicotomia. Conforme Freitas (1999) descreve, espírito é o sopro, respiro e alguns sentidos da alma que incluem, além do princípio vital, o princípio imaterial das funções superiores: o pensamento intelectual, o querer deliberado, a criatividade ética, político-cultural e estética, a relação filosófica em geral, a experiência religiosa e a personalidade livre.

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metas recordes atléticos, pois são vistos apenas para prolongar a vida no sentido de treinar harmoniosamente o corpo em direção a metas inerentes a esse corpo, ao evitar uma morte prematura. Também quem afirma isto é Capra (2004), ao citar que, nas tradições filosóficas e religiosas orientais, sempre houve uma tendência de considerar a mente e o corpo como uma unidade. Por isso, não surpreende que numerosas técnicas tenham sido desenvolvidas no Oriente, visando a abordar a consciência também a partir do nível físico.

Na visão holística da cosmologia taoísta, não existe dualidade entre corpo e espírito, conhecimento teórico e prático, nem ser humano e natureza.

Para Neto (2000, p. 155):

“A despeito do elevado número de técnicas, um número muito pequeno de princípios básicos orienta todos os treinamentos, que formam um sistema com três planos hierarquizados: arte marcial, medicina e espiritualidade.”

Na doutrina Yoga, por exemplo, Hermógenes (2005) demonstra que o praticante não deve perder de vista jamais que um corpo sadio é somente um meio de progredir espiritualmente. Propriedades como ser forte, ser puro, ser tranqüilo são apenas condições com que o aspirante pode caminhar para a divindade, insistindo sempre que é preciso ter persistência, atenção e crença no que se faz.

E Hermógenes (2005, p. 24) ainda compara o Yoga como:

“aquela que polindo a taça do corpo, vira-a de boca para cima, à espera de que o Licor Divino venha enchê-la; que , limpando as vidraças do corpo, permite que a Luz o penetre; que lavando a lama das enfermidades e da fraqueza, faz o diamante do espírito refletir o Sol Infinito.”

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é o mundo. É certo, porém que, mesmo se praticando Yoga, a velhice e a morte aguardam a todos os seres, o que absolutamente não é assustador. É a lei e contra ela rebelar-se é imprudente. Aceitá-la franca e tranqüilamente é o que se deve fazer, pois as prescrições Yogais de ordem moral (Yama e Niyama) e a evolução psíquica e espiritual são aspectos primaciais no método Yogai de rejuvenescimento.

No taoísmo também é bem evidenciada a visão holística do ser, como afirma Neto (1995), nas relações de tao, em que as noções de saúde, doença e imortalidade todas estão no contexto da prática de transmissão, em que o próprio corpo é o responsável pela compreensão. Também afirma que o corpo é modelado culturalmente em suas práticas e comportamento não é apenas construído como objeto de conhecimento ou discurso. Por isso, acredita-se na visão taoísta de que todos os exercícios, fundamentalmente, treinam simultaneamente o corpo visível e invisível e a consciência, em especial, pelo uso da interação criadora (Yi).

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da raiz composta por três letras S,L e M que significa: paz, pureza, submissão, obediência e saúde. No sentido religioso, significa literalmente a submissão voluntária a Deus e a obediência à sua lei. O Islã, como religião, é entendido como

Din ou sistema cuja submissão dependerá do homem. Entretanto, ao fazê-la deverá o indivíduo vivenciar a adoração no duplo aspecto, físico e espiritual da pessoa, junção da submissão física e psíquica ao Din. Na prática, são realizadas cinco orações diárias, chamadas de salat, sempre acompanhadas de movimentos com técnicas corporais que exigem aprendizado detalhado: são quatro posições básicas com número exato de genuflexões e fórmulas a serem repetidas em cada oração. Ao realizar as orações da prática islâmica, supõe-se exibir o fruto da educação religiosa do corpo, além de remarcar uma identidade intragrupal dos usos do corpo e distinguir sunitas e xiitas.

A visão holística, que permeia a cultura Oriental, no entanto, surgiu no decorrer de sua história e se fortalece devido à sua estrutura ideológica. Pozzatti (2004) relata que uma educação transdiciplinar e holística, voltada para o desenvolvimento harmônico do hólon humano, deve constituir-se dos aspectos: físicos, psíquicos, sociais, culturais, ambientais e espirituais, fato que, na cultura ocidental, é fragmentado e independente.

3. O SER FRAGMENTADO NO OCIDENTE

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conforme explica Freitas (1999), deve-se às exigências epistemológicas do cartesianismo. Segundo Cavalcante (2004), essa visão ocorreu no surgimento da ciência moderna no Ocidente, que, na época, para se afirmar como conhecimento, defendeu os seus pontos de vista muitas vezes opostos à posição da Igreja. O desenvolvimento da ciência no Ocidente, portanto, desligado de uma base espiritual, tornou-se racionalista e mecanicista, em oposição à visão espiritual. Com o tempo, seu crescimento influenciou todas as outras áreas do conhecimento. Assim, a concepção científica da realidade constituiu-se de caráter racionalista, dualista e fragmentário, separando o espírito da matéria, o corpo da alma, o objetivo do subjetivo, imperando sobre a concepção intuitiva e holística. Portanto, toda forma de conhecimento que não pudesse ser medida, prevista e quantificada, não poderia ser considerada verdadeiramente científica.

Essa visão dicotômica da sociedade Ocidental, que modelou e influenciou significativamente o mundo, é baseada num paradigma de realidade explicado por Capra (2004), associando-se os valores culturais à revolução científica, ao Iluminismo e à Revolução Industrial. São valores são expressos pela crença de que o método científico é a única abordagem válida do conhecimento, ou seja, a concepção do universo como um sistema mecânico com unidades materiais elementares; a concepção da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência; progresso material ilimitado, alcançado pelo crescimento econômico e tecnológico.

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fenômenos espirituais são apenas manifestações da matéria; o ‘ideacional’, em que a verdadeira realidade se situa no mundo material do domínio espiritual e o conhecimento pode ser obtido pela experiência interior; e o ‘idealístico’, um estágio intermediário que surgiu dos ritmos cíclicos de sensualistas e ideacionais, dando uma combinação harmoniosa, coexistindo numa unidade que abrange tudo. Sorokin (op. cit.) caracterizou esses três padrões básicos da expressão cultural humana que produzem ciclos identificáveis na civilização ocidental. Baseados nisso, ele plotou mapas, dentre muitos outros, o de sistemas de crenças.

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Cristianismo, não foi suficiente para o enfraquecimento das práticas religiosas nativas, salvo em raros grupos sujeitos à catequese mais atuante.

O fato de essa aculturação indígena não conseguir atingir o campo dos valores religiosos é bem evidenciado por Lima (2002) em experiência etnográfica com os Juruna, povo tupi do rio Xingu, quando pôde notar a importância do significado da corporalidade em diferentes aspectos.Para eles, a noção de corpo no sentido genérico é ‘Corpo e alma não são substâncias, mas relações ou posições, ou ainda perspectivas’(op. cit., p. 12), ou seja, antes de sua definição, observa-se seu objetivo e suas influências. Tudo é relativo. Tentando exemplificar: a pele é um princípio de individualização e a alma, princípio de subjetivação, conferindo às pessoas (corpos humanos e corpos animais) faculdades que são ao mesmo tempo, psicológicos, sociológicos e intelectuais (consciência de si e de outrem, linguagem, pensamento, sociabilidade). Ser uma pessoa não é uma condição distinta da humanidade. As considerações Juruna, que se referem ao conceito de “corpo”, no entanto, dependem intrinsecamente de uma perspectiva. Sendo assim, todo corpo é disponível para vir a ser o que é para a perspectiva alheia (influência). Há porém, paradoxo nesta afirmação, pois há diferenças entre o que as pessoas são para si e o cada um é para o outro. Mas, para a cosmologia Juruna, a dicotomia entre corpo e alma não se aplica à unidade e nem à diversidade. No cosmo Juruna, tudo é relação, não possui um centro único tampouco é destituído de um centro.

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pleno desenvolvimento de suas qualidades que se atingem com o exercício constante das danças rituais. Esse estado, chamado por eles de aguydjê, é alcançado coletivamente quando o grupo de fiéis encaminha-se para o Paraíso sem passar pela morte. Assim, o ser humano é vivido na sua totalidade.

Outra característica, além da indígena, também inserida, mesmo que imperceptivelmente, em nossa cultura brasileira, e oriunda dos orientais, é o Islamismo. Montenegro (2002) expõe as dificuldades do estudo sobre o islamismo, já que há controvérsias em relação aos dados estatísticos e o grupo é minoritário, o que o tornou invisível no campo de análise de religião. No Brasil, há algumas peculiaridades em relação ao islamismo que não alcança o Islã como um todo, mas uma forma específica de cada sociedade, como, por exemplo, a Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro (SBMRJ), que é de orientação sunita.

Nota-se, porém, que, mesmo com a existência da dicotomia no mundo ocidental, característica de uma cultura hegemônica, existe a presença marcante de nichos representados por comunidades de influência, como é a cultura indígena e a negra nas quais não existe dicotomia e cujas manifestações religiosas incluem as danças, lutas e exercícios físicos nos seus rituais.

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culturais que envolvem ‘mudança de paradigma’ no que se refere ao pensamento, às percepções e aos valores que formam uma determinada visão da realidade.

Pesquisas estão sendo realizadas, cada vez mais, com o intuito de conhecer o ser humano de uma maneira mais abrangente. A interdisciplinalidade está crescendo e isto pode ser considerado um avanço, no sentido de querer mudar, evoluir e, quem sabe, no futuro finalmente “quebrar” de vez o paradigma da dicotomia. A presença dessa dicotomia no Ocidente é que justifica a pesquisa que ora se faz, a qual investiga as relações entre os elementos que caminham à parte. Um dos elementos foi objeto das ciências mais biológicas, como é o caso do exercício físico; outro trata das chamadas ciências humanas, compreendidas aqui pela religiosidade, que durante décadas foi tema marginalizado ainda dentro das ciências humanas, em especial na psicologia.

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EXERCÍCIO FÍSICO, ORIENTAÇÃO RELIGIOSA E QUALIDADE DE VIDA EM IDOSOS

A qualidade de vida pode ser compreendida pelos muitos aspectos que a envolvem e, segundo Camejo (2002), é um conceito eminentemente avaliador, multidimensional e multidisciplinário, resultando numa combinação de fatores objetivos e subjetivos. Deve ser valorada pela presença das condições materiais e espirituais de vida, imprescindíveis para facilitar o desenvolvimento psicobiológico e social-histórico que os critérios técnicos determinam para cada lugar e época até o grau de satisfação pessoal de cada indivíduo com as condições de vida que alcançou e que, é obvio, repercutem de maneira positiva ou negativa sobre sua saúde. Destaca-se também a espiritualidade, o momento valorativo, posto que o bem-estar pleno é possível nos marcos de uma vida dotada de sentido, que oferece o sistema de valores que o indivíduo leva no contexto de sua sociedade e cultura.

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A partir dessa informação, é possível planejar programas preventivos, ações concretas de saúde e organização de serviços sociais e de saúde.

De uma maneira mais abrangente, didática e com um enfoque humanista, Witner e Sweeney (1992, apud NÉRI, 1993) adaptaram uma representação esquemática de um modelo da intervenção sobre a qualidade de vida ao longo do curso da vida humana, pela qual confiam que o indivíduo saudável e em transformações constantes desempenha, num contexto sociocultural, as tarefas

vitais: a espiritualidade, a auto-realização, o amor, o trabalho e a amizade; os fatores

contextuais: o governo, a comunidade, a família, a religião, a educação, os negócios

e os meios de comunicação de massa; e as características pessoais: a saúde, a prontidão física, a nutrição, as capacidades cognitivas e o processo socioemocional, assim como é representado na Fig. 1.

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Figura 1 – Modelo da Intervenção sobre a qualidade de vida ao longo do curso de vida humana

Versão Adaptada de Witner e Sweeney, reproduzida de Néri (1993, p 24)

1. O PAPEL DO EXERCÍCIO FÍSICO E DA RELIGIOSIDADE DO IDOSO

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anos, descobriram-se os seus benefícios e a sua importância em qualquer fase da vida. Para um melhor esclarecimento, Cunha (1993) difere bem a atividade física do exercício físico, considerando a primeira como sendo qualquer movimento realizado pelos músculos que resulta em maior desgaste energético e o último, como sendo uma atividade física planejada, estruturada, repetitiva e proposital.

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Além da melhora que o exercício físico promove no corpo de uma forma geral, ocorrem muitos outros benefícios conforme cita Guimarães (1996). Segundo esse autor, o exercício físico costuma ser apontado como a mais eficiente estratégia para viver mais e melhor. As pessoas classificadas como sedentárias tendem a viver até três anos menos do que aquelas que gastam mais do que 2000 Kcal por semana em exercícios físicos. Além disso, os exercícios diminuem em até 20% a mortalidade cardiovascular.

Também as pesquisas desenvolvidas por Franklin (2001) atestam que praticantes de exercício físico, por possuírem uma boa forma física aeróbica, têm mais probabilidade de viverem por mais tempo. Isso acontece até mesmo no meio de pessoas com grande fator de risco coronário, como sobrepeso, ou com doença de coração estabelecida.

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tristeza nos pesquisados, como suporte cognitivo e social associado com a devoção pessoal para uma religião.

Mas não é somente a fim de promover a associação da religiosidade com o esporte que estudos estão sendo realizados. Há também, os que relacionam a religiosidade com a saúde, como se pode notar em Goldstein e Néri (1993), que investigaram as dimensões subjetivas e objetivas da religiosidade, à busca de relações entre satisfação na vida e depressão. Buscaram, além disso, avaliar em que medida a religiosidade é utilizada para lidar com o estresse decorrente do envelhecimento e o aumento da religiosidade com o passar da idade. Foram 173 pesquisados de ambos os sexos, numa faixa etária de 45 a 79 anos. 70% dos entrevistados afirmaram ter percebido o aumento de sua religiosidade com a idade; 18% relataram que o aumento de sua religiosidade era devido ao crescimento pessoal e 6,8% declararam ser pela mudança de religião.

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equilíbrio. Demonstrou-se, no entanto, o quanto o aspecto religioso é importante e influenciável na vida de uma pessoa.

Desse modo, é possível constatar o aumento do interesse dos pesquisadores em relacionar a religiosidade, separadamente, com vários componentes, como os esportes, a idade e a saúde. O intuito da pesquisa que ora se empreende, no entanto, é relacionar, de uma forma mais abrangente, a religiosidade em idosos praticantes de exercício físico e sua qualidade de vida, pois, como Andrade (2003) afirma, ao envelhecer, o exercício físico torna-se vital, porque as pessoas têm vontade de descobrir, assimilar novos valores e ter uma participação ativa, convivendo e interagindo com seus companheiros de lazer na recreação, entre outros aspectos da vida. A saúde é um estado que todos almejam. Para Finkler (1994), a saúde é compreendida como um estado de equilíbrio e completo bem-estar físico, mental, social e espiritual e representa o maior capital de que o indivíduo dispõe para a realização de si mesmo. A sua perda sempre representa, no mínimo, um grande déficit de recursos disponíveis para a objetivação de uma existência satisfatória. A Qualidade de Vida, portanto, depende do bem-estar, do equilíbrio humano, psicológico, emocional e espiritual.

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2. O SENSO RELIGIOSO E SUA COMPLEXIDADE CONCEITUAL

No que se refere às questões religiosas, é possível perceber uma heterogeneidade de perspectivas no tratamento do tema por parte dos diferentes autores. Os termos, nessa área, carecem de unificação conceitual. O termo religião, por exemplo, conforme compilação levada a termo por Clark (apud VALLE, 1998) apresentava, já em 1958, pelo menos 48 diferentes definições dentro da própria psicologia. Não há somente uma diversidade nas definições e nos termos, como também seus significados se interpenetram e se superpõem, tornando ainda mais ambíguo e desafiador tal campo de pesquisa. Assim sendo, para um melhor entendimento, é importante, de saída, explicar os conceitos com os quais se trabalhará neste projeto, de modo a facilitar a compreensão do leitor.

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considerar cada uma dessas dimensões, está-se sujeito a cometer erros sérios, pois a preferência religiosa, a freqüência à religião, a própria identificação religiosa e outros indicadores de religiosidade devem ser usados com grande precaução na interpretação.

Além dos desafios conceituais, depara-se ainda com os desafios metodológicos que naturalmente surgem no processo de investigação sobre o assunto. Há riscos de ser enfocado de maneira enviesada pelos valores dos pesquisadores, seja por estar a serviço de um viés proselitista ou, então, de uma visão meramente reducionista.

O senso religioso requer uma visão mais ampla, porém cuidadosa, especialmente em se tratando do aumento da religiosidade na vida adulta, pois existem muitos aspectos diferentes abordados, dificultando, dessa maneira, um consenso entre os autores. Com isso e com intuito de contribuir para melhor compreender o aumento acentuado, Goldstein (1993) apresenta as três fontes principais de explicações, que podem ser encontradas nas Teorias do Desenvolvimento do Adulto, nas Teorias do Desenvolvimento da Religiosidade e na

Teoria do Stresse e Coping. Como exemplo das primeiras, aponta a contribuição de

Jung, ao sugerir que, na segunda metade da existência, a atenção do indivíduo se volta para dentro de si mesmo e isto pode ajudá-lo a encontrar sentido e plenitude na vida, encontrando um propósito para sua vida após o período produtivo. O segundo grupo de teorias refere-se ao pressuposto de que a idade leve à maturidade religiosa. A autora cita, como exemplo, a perspectiva de Allport (1950,

apud Goldstein 1993), primeiro psicólogo moderno a examinar o desenvolvimento da

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condizentes, descrevendo três estágios: credulidade crua - aquela recebida pela criança dos pais sobre religião; a dúvida – em que as improbabilidades da fé verbalmente transmitidas são testadas; ambigüidade – em que se alternam fé e dúvida, ou seja, uns desenvolvem a fé madura (a fé acabou tendo mais significado), outros desenvolvem a descrença (predominou a dúvida) e outros ainda tornam-se agnósticos (tendo proporção igual entre a fé e a dúvida). Finalizando, o último grupo de teorias, definido por Lazarus e Folkman (1984, apud GOLDSTEIN 1993), deriva da perspectiva cognitivista comportamental e refere-se ao “coping religioso”- conceito introduzido por Pargament, expressão de origem inglesa utilizada na psicologia que, traduzida para o português, ficou como enfrentamento - maneira pela qual a pessoa enfrenta suas dificuldades durante a vida. Porém, sua interpretação não deve ser definida como religiosidade, pelo fato de que existem pessoas que se voltam para a religião apenas em situações difíceis, como ajuda, e prestam pouca atenção ao assunto quando não se encontram mais em tais situações.

A relação religiosidade e envelhecimento é tema que aos poucos vem despertando interesse entre os pesquisadores. Reis (2003) acredita que religiosidade e envelhecimento sejam temas, de alguma forma, interdependentes, pois para ele o fato de questões espirituais serem assuntos de congressos científicos atualmente deve-se também ao aumento do número de pessoas em fase de envelhecimento, ao avanço das informações sobre envelhecimento devido ao interesse de pesquisa sobre os temas pelos cientistas idosos e finalmente pelo fato de hoje se viver mais tempo. Nos últimos anos, em particular, registra-se um ressurgimento do interesse religioso, fato evidente pelo número crescente de tópicos de pesquisas relacionadas na última década, como descreve Nino (1997, apud

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Numa análise complementar, Moberg (1956/1973) verificou projetos experimentais, demonstrando que as atividades religiosas (ler a Bíblia e outros livros religiosos, freqüentar igreja no passado e no presente, orações em família...) estavam significativamente correlacionadas com auto-ajustamento, ou seja, na velhice as atividades religiosas contribuem para um bom ajuste. Desta forma, na faixa etária em questão, as convicções e as atividades religiosas parecem, com base nesses e noutros estudos, ter possivelmente um papel fundamental para um bom ajustamento pessoal e social na velhice. Posteriormente, avaliou-se que as práticas religiosas fora das casas diminuem, enquanto as realizadas dentro de casa, por idosos, aumentam (lendo a Bíblia, ouvindo rádio). A condição física pode ser um interveniente variável responsável por tais tendências. Os estudos comparativos revelam que houve também a recusa dos pesquisados quanto à participação em outras organizações sociais, até mesmo mais acentuada em relação à freqüência de igrejas. Por meio desses estudos, pode-se mostrar a independência relativa de várias dimensões de compromisso religioso, a correlação entre atividade religiosa (religiosidade) e atitude religiosa (religião). Quando uma pessoa religiosa tem fé, é mais provável que participe de atividade social que, simultaneamente, nutre aquela fé e é conseqüência dela.

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valores materiais, trocando os ‘pecados’ pelas ‘virtudes’, praticando-as com maior freqüência e vivendo uma boa velhice. Afirma que o inverso ocorre. Em outro momento, ele informa que o grupo etário dos velhos é mais religioso que o dos jovens, mas que os velhos, ao serem indagados se eram também religiosos na sua juventude, negaram. Ferraro e Kelley-Moore (2000, apud ROCHA e FLECK, 2004) também relataram, a respeito do assunto, ser verdade que as “as pessoas idosas estão mais propensas a serem religiosas, porém não se sabe se isto representa um efeito do envelhecimento ou da observação ao longo do tempo (efeito coorte)”(p.126).

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3. A CONCEPÇÃO DE ORIENTAÇÃO RELIGIOSA DE GORDON WILLARD ALLPORT

Pettigrew (1999), na biografia de Allport (1897-1967), relata que aquele pesquisador nasceu em Montezuma, Indiana (EUA), formou-se em psicologia e fez doutorado em Harvard em 1922. Em 1924, tornou-se instrutor de ética social. Como havia predito a convergência de seu interesse em personalidade e psicologia social, em ciência e assuntos sociais, formou-se em ambas: psicologia e ética social. Conduziu pesquisa na relação entre convicções e preconceito de intergrupo religioso e, já naquela época, sofreu perseguição e preconceito. Entretanto, Allport se aprofundava em pesquisas e propunha uma distinção crítica entre uma “perspectiva religiosa institucionalizada e uma interiorizada”. Suas contribuições para a psicologia foram importantes e duradouras, discutindo a religião em pelo menos dezesseis outras publicações que se estenderam desde 1931 até 1966. Também influenciou o estudo empírico na psicologia da religião, envolvendo valores relacionados à religiosidade. Desenvolveu uma escala de orientação religiosa, juntamente com Ross, que se constitui na medida psicométrica mais sofisticada da religiosidade, descobrindo se a orientação religiosa é extrínseca ou intrínseca.

3.1. Religiosidade Intrínseca e Religiosidade Extrínseca

Talvez o modo mais breve que Allport (1967) obteve para caracterizar os dois papéis da religião subjetiva foi dizer que a pessoa, quando extrinsecamente motivada, usa sua religião, ao passo que, quando intrinsecamente motivada, vive

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Religiosidade Intrínseca:

Quando motivadas por esta orientação, as pessoas encontram sua razão de vida na religião. Outras necessidades, segundo Allport (1967), tão fortes quanto podem parecer, são colocadas por último e são, na medida do possível, harmonizadas com as crenças e deveres religiosos. Ao abraçar um credo, o indivíduo faz um esforço para internalizar e segui-lo aquilo completamente. Por isso se diz que ele vive a religião.

Outros autores, posteriormente, também contribuíram para a compreensão do conceito de religiosidade em Allport como, por exemplo, Hunt e King (1971). Com relação à religiosidade intrínseca, referem que, nesse caso, o dogma está relacionado com humildade, sentimento religioso que inunda o interior da vida, com motivação e significado. Não é limitado para atitude única de egoísmo, pois é, em si mesmo, um sentimento de maior religiosidade e seu instinto de fraternidade germina. A religiosidade intrínseca é, portanto, forma de sentimento religioso e considera a fé como um valor supremo em seu próprio direito. É orientada em uma direção, a unificação de ser, que toma seriamente o compromisso de fraternidade e se esforça para transcender suas necessidades.

Ou ainda, conforme descrevem Goldstein e Néri (1993), a religiosidade intrínseca caracteriza a pessoa realmente religiosa, que internalizou suas crenças. A religião é parte integrante de sua vida diária.

Religiosidade Extrínseca:

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pessoas, quando motivadas por tal orientação, usam a religião para resolver seus próprios interesses particulares. O termo é emprestado da axiologia para designar um interesse que é mantido por servir a outro ou outros mais relevantes. Mais tarde, em 1967, ele observou que os valores extrínsecos são sempre instrumentais e utilitários e podem encontrar, na religião, a forma de oferecer segurança e consolo, sociabilidade e distração, status e autojustificativa a si mesmos. O credo abraçado é levemente modificado para encaixar-se em suas necessidades primárias. Em termos teológicos, o tipo extrínseco vira-se para Deus, mas sem virar-se contra si.

Quanto à natureza extrínseca, Hunt e King (1971) relatam que, nesse caso, a religião não é o maior motivo na vida. Ela apenas desempenha papel instrumental, servindo e associando formas racionalizadas de egoísmo. Em tal vida, o credo e o ensino cheios da religião não são adotados, a pessoa não serve para sua religião; é subordinada para servir e o motivo do mestre é sempre necessidade egóica. As pessoas com essa orientação podem achar religião útil em uma variedade de caminhos para prover segurança e distração, condição e justificativa própria.

A religiosidade extrínseca, dessa maneira, conforme expõem Goldstein e Néri (1993), é aquela da qual a pessoa se utiliza para servir a suas necessidades pessoais de ganho social e autoproteção, tendo assim um compromisso mais superficial com os valores religiosos.

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Quadro 2 – Características da Religiosidade Intrínseca e da Religiosidade Extrínseca RELIGIOSIDADE INTRÍNSECA RELIGIOSIDADE EXTRÍNSECA Devoção; forte compromisso pessoal;

universalista; ética; amor ao próximo.

Religião de conveniência; surgimento em momentos de crise e necessidade.

Altruísta, humanista, não-egocêntrica. Etnocêntrica, exclusivista, fechada grupalmente.

Influencia a vida diária e dá sentido a ela. Não se integra no cotidiano. A fé possui importância central; é aceita

sem reservas; o credo é seguido inteiramente.

Fé e crenças são superficiais; as crenças sofrem uma seleção subjetiva.

As pessoas são vistas como indivíduos. Vê as pessoas em termos de categorias de sexo, idade e status.

Auto-estima elevada. Auto-estima baixa ou confusa. Vê Deus como amoroso e misericordioso. Deus é visto como duro e punitivo. Aberta às experiências religiosas intensas;

vê positivamente a morte. Sentimentos de poder e capacidade própria.

Visão negativa da morte; sentimentos de importância e de controle externo.

Versão Adaptada de R. W. Hood Jr, reproduzida de Valle (1998, p 270)

Sobre os dois modos de religiosidade, Allport (1966) relata que obteve da axiologia o conceito de valor intrínseco e valor extrínseco. A distinção ajuda a compreender o tipo de suporte social daqueles para quem a religião é um fim nela própria (tipo intrínseco) e o tipo extrínseco que não tem nenhuma associação verdadeira com a função religiosa, não sente propriamente prazer em freqüentar a igreja regularmente, nem integra religião em seu estilo de vida, sendo a maioria, neste tipo extrínseco, devotos casuais e periféricos. Trata-se de um tipo de religião que é estritamente utilitária: útil para o eu próprio, posição social e consolo.

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possuem, geralmente, as duas características, porém uma tende a sobressair, o que as identificará como sendo pessoas com religiosidade intrínseca ou extrínseca. O conflito que surgiu entre os pesquisadores em relação à escala de religiosidade intrínseca e extrínseca se deu, contudo, porque avaliavam a religiosidade intrínseca como sendo a melhor, a mais completa, a perfeita; e a religiosidade extrínseca sendo a pior, a deficitária. Essa dicotomia não se aplica ao ser humano, que está constantemente vivenciando momentos oscilatórios o que pode influenciar, direta ou indiretamente, na sua religiosidade e também por ele estar sempre em mudança, em desenvolvimento. Se alcançasse a perfeição, não haveria, no entanto, a necessidade de almejar progresso, comprometendo, dessa forma, sua continuidade na busca de melhorar-se, progressivamente, como pessoa.

Além do mais, para complementar a característica da religiosidade intrínseca, formulou-se uma terceira modalidade: a religião de busca (Religion Quest), desenvolvida por Batson 1976 (apud GALLANT 2001) e modificada por Batson e Schoenrade 1991, (apud GALLANT, 2001). Tal dimensão religiosa, segundo Graham (2001), examina o grau em que a pessoa duvida de sua própria fé ou da importância de sua religião. Também busca medir, na pessoa, a vontade de abraçar a complexidade cheia de perguntas existenciais da vida. A religião de busca pode se relacionar com ambas, a maturidade e a imaturidade, possivelmente clareando as relações no meio das orientações e do compromisso religioso.

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Figura 1 – Modelo da Intervenção sobre a qualidade de vida ao longo do curso de  vida humana

Figura 1

– Modelo da Intervenção sobre a qualidade de vida ao longo do curso de vida humana p.44
Gráfico 01 – Distribuição dos idosos segundo o sexo

Gráfico 01

– Distribuição dos idosos segundo o sexo p.68
Gráfico 2A – Distribuição dos idosos segundo a prática do Exercício Físico

Gráfico 2A

– Distribuição dos idosos segundo a prática do Exercício Físico p.71
Gráfico 2B – Distribuição dos idosos e das idosas segundo a prática do Exercício  Físico  12,5 22,5 21 44 01020304050 Praticante de Exercício Físico Não Praticante deExercício Físico Mulheres Homens%

Gráfico 2B

– Distribuição dos idosos e das idosas segundo a prática do Exercício Físico 12,5 22,5 21 44 01020304050 Praticante de Exercício Físico Não Praticante deExercício Físico Mulheres Homens% p.71
Gráfico 3 – Distribuição dos idosos segundo as Orientações Religiosas Intrínseca e  Extrínseca  3,4 3,3 3,6 3,9 012345 I E

Gráfico 3

– Distribuição dos idosos segundo as Orientações Religiosas Intrínseca e Extrínseca 3,4 3,3 3,6 3,9 012345 I E p.72
Gráfico 04  – Distribuição dos idosos segundo a Qualidade de Vida (Capacidade  Funcional (CF), Limitação por Aspectos Físicos (LAF), Dor (D), Estado Geral de  Saúde (EGS), Vitalidade (V), Aspectos Sociais (AS), Aspectos Emocionais (AE) e  Saúde Mental (SM)

Gráfico 04

– Distribuição dos idosos segundo a Qualidade de Vida (Capacidade Funcional (CF), Limitação por Aspectos Físicos (LAF), Dor (D), Estado Geral de Saúde (EGS), Vitalidade (V), Aspectos Sociais (AS), Aspectos Emocionais (AE) e Saúde Mental (SM) p.73
Tabela 1  – Médias dos Scores dos domínios da Qualidade de Vida dos idosos  praticantes e dos não praticantes de exercício físico e resultados do teste t-Student

Tabela 1

– Médias dos Scores dos domínios da Qualidade de Vida dos idosos praticantes e dos não praticantes de exercício físico e resultados do teste t-Student p.74
Tabela 2  – Médias dos Scores das Orientações Religiosas Intrínseca e Extrínseca  dos idosos praticantes e dos não praticantes de exercício físico e resultados da  aplicação do test t-Student

Tabela 2

– Médias dos Scores das Orientações Religiosas Intrínseca e Extrínseca dos idosos praticantes e dos não praticantes de exercício físico e resultados da aplicação do test t-Student p.75
Tabela 3 – Coeficiente de Correlação de Pearson entre os domínios da Qualidade  de Vida e da Orientação Religiosa, Intrínseca e Extrínseca, dos idosos praticantes e  dos não praticantes de exercício físico

Tabela 3

– Coeficiente de Correlação de Pearson entre os domínios da Qualidade de Vida e da Orientação Religiosa, Intrínseca e Extrínseca, dos idosos praticantes e dos não praticantes de exercício físico p.76

Referências