Gerenciando o stress nosso de cada dia

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Gerenciando o stress nosso de cada dia

José Carlos Ferraz

Mestre em Psicologia Social - PUC-SP

Professor da Faculdade Maria Augusta - Jacareí e-mail: jofabiano@terra.com.br

Resumo

O objetivo deste artigo é refletir sobre como o stress está presente em nossa vida cotidiana e como podemos conhecê-lo melhor. Entender que a responsabilidade de transformar este conhecimento em prática está nas mãos do leitor: você pode ler e entender o que falamos neste artigo como uma teoria, ou pode, a partir de sua própria experiência, praticar o gerenciamento do stress em sua vida. Espero que seja um convite para você peregrinar, juntamente comigo, ao domínio de si mesmo, a reconhecer e viver o seu destino, a sua história pessoal. Não se trata de um modelo pronto, seja de liderança, seja de gestão do stress. Mas sim de várias possibilidades para você caminhar em direção ao auto conhecimento, à maturidade e à prosperidade, pois gerenciar o stress é aprender a lidar com nossos medos.

Palavras-chave: Stress, Gestão do stress, liderança.

Abstract

The objective of this article is to reflect on as stress is present in our daily life and as we can know it better. To understand that the responsibility to transform this knowledge into practical is at the hands of the reader: you can read and understand what we speak in this article as a theory, or can, from its proper experience, to practice the management of stress in its life. I wait together that it is an invitation you to peregrine, with me, to the domain of itself exactly, to recognize and to live its destination, its personal history. One is not about a ready model, either of leadership, either of management of stress. But yes of some possibilities you to walk in direction to the self knowledge, the maturity and the prosperity, therefore to manage stress it is to learn to deal with our fears.

Key-words: Stress, Management of stress, leadership.

Custos do stress para as empresas

Para as empresas que ainda não entenderam a importância de investir na gestão do stress, existem alguns dados que representam à seriedade do assunto. Os custos organizacionais da insatisfação e do stress com assistência médica aumentaram nestes últimos 3 anos três vezes mais que os salários das pessoas. Ou seja, a despesa com honorários médicos e planos de saúde, apresenta um custo maior do que os salários das pessoas para empresa. Um estudo realizado pela Boeing constatou que os funcionários insatisfeitos eram duas vezes mais propensos a exigir indenizações por problemas na coluna do que os trabalhadores satisfeitos (PORT, 1991). Pesquisas revelam relação entre stress e perturbações mentais nas empresas. As perturbações mentais induzidas por stress são as categorias de doença profissional que mais cresceu nas organizações. Dados coletados entre

1980 e 1995 revelaram, que as reinvidicações de indenizações por enfermidade emocional, cresceram mais de 500% entre funcionários públicos americanos (SEPPA, 1998).

Nos Estados Unidos, por exemplo, o tempo médio de ausência por doença causada pelo stress ocupacional, é várias vezes maior do que de todas as outras doenças combinadas (WEBSTER e BERGMAN, 1999). Também nos Estados Unidos um estudo, entre 46 mil trabalhadores, constatou que os custos de atendimento a saúde eram quase 50% maiores para os indivíduos que relatavam níveis elevados de stress, quando comparados aos de trabalhadores isentos de risco.

A International Stress Management Association no Brasil (ISMA BR), no período de 2002 e 2003 fez uma pesquisa junto a um mil profissionais brasileiros, constatando que 70% deles sofriam de níveis significativos de stress ocupacional (Rossi, 2004).

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Gerência do stress

O que estamos precisando é aprender a crescer sem o alto custo da qualidade de vida. Precisamos ter consciência de que, a responsabilidade de administrar e gerenciar o stress nosso de cada dia, é nossa e que para isso devemos construir atitudes adequadas de enfretamento do stress. Uma das atitudes de enfrentamento que as empresas precisam se preocupar, é com a gestão do stress assim como se preocupam com a gestão financeira, de produção, de recursos humanos, etc. Como existe o gerente financeiro, o gerente de produção, de recursos humanos tem de existir nas empresas o gerente de stress. O stress no trabalho , hoje é uma das mais nocivas interferências na vida das pessoas, com um impacto negativo sobre o ambiente de trabalho levando aos mais variados problemas organizacionais.

O que é o estresse?

O estresse é um reflexo do nosso organismo, um dos mais antigos, que tem por finalidade preservar a nossa vida identificando os perigos internos e externos. Gera uma reação que modifica nosso organismo como um todo, altera nossa forma somática temporariamente para enfrentar o perigo, com comportamento de luta ou de fuga. Quando o perigo passa o organismo volta ao estado de atividade normal. No entanto, nem sempre a coisa acontece redondinha assim, e a reação que altera nossa forma e modifica nosso organismo como um todo persiste e se estabelece, pois a sensação de perigo não passa, até que se torne um padrão de nossa estrutura somática. Essa resposta contínua e padronizada a sensação de perigo, que pode ser externa ou interna, chama-se estresse (KELEMAN, 1992).

Vamos ver como isso se dá. O organismo avalia uma situação de perigo, volto a frisar que pode ser interna ou externa, automaticamente um conjunto de reações inespecíficas ocorrem no organismo como um todo, tais como: a respiração se acelera proporcionando maior oxigenação, açucares e gorduras armazenados são lançados na corrente sanguínea, o coração dispara e a pressão sanguínea eleva-se aumentando o abastecimento de sangue, os músculos se retesam preparando para o esforço, a digestão é interrompida para o sangue poder ser desviado para os músculos, aumenta a transpiração e a salivação, adrenalina é despejada em altas doses no organismo, aumenta a produção do suco gástrico e etc. O estresse é um processo, e por isso possui etapas, vamos ver quais são essas etapas. A primeira é a

fase de ALARME: Onde o organismo como um todo libera substâncias químicas e altera a sua forma para enfrentar o agente estressor. O organismo se prepara para lutar ou fugir. A fase de ENFRENTAMENTO: É a segunda fase e se caracteriza pela construção de atitudes adequadas para superar o agente estressor. Se houver sucesso nesta fase, o organismo retorna a atividade normal sem problemas. Mas se a fase de enfrentamento não gerar atitudes que possam desativar o estado de alerta, a sensação de perigo permanece e o organismo continua produzindo uma sobrecarga. Essa contínua sobrecarga gera uma EXAUSTÃO: que é a terceira fase onde a capacidade imunológica do organismo fica reduzida, aumentando a possibilidade do aparecimento de doenças.

Os perigos, as agressões a que o organismo é exposto podem surgir de nossos próprios estados internos, de sentimentos, dependência, carência de contato, medo de abandono ou até mesmo da nossa própria imaginação. Como nos organizamos para enfrentar as situações cotidianas, é a chave para entender os perigos e as agressões que surgem de nossos estados internos. Esses estados produzem alterações em nossa forma corporal em nosso padrão somático, que passam a fazer parte de nossa estrutura, é o que caracteriza o padrão de estresse.

Doenças

A terceira fase do estresse, a fase de exaustão, é onde surgem as doenças devido à queda na capacidade imunológica do organismo. O organismo em constante estado de alerta, sucumbe à doença. Podemos entender a doença como um sinal, de que a forma que a pessoa esta utilizando para administrar os problemas cotidianos não esta sendo eficaz. A fase de enfrentamento não esta sendo apropriada, ou seja, a pessoa não consegue construir atitudes adequadas para superar o agente estressor. Toda doença revela de maneira muito clara e transparente, a necessidade da pessoa mudar o seu padrão, a sua forma habitual de lidar com o problema.

Existem também as situações extremas, são agressões que passamos em determinados momentos em nossa vida. O choque pela perda de uma pessoa da família, pela perda do emprego, um acidente inesperado, em fim situações que não acontecem numa freqüência alta em nossas vidas, mas com uma intensidade emocional muito forte. Nestas situações a pessoa vive um estresse que pode rapidamente levar o organismo a exaustão e o conseqüente aparecimento de doenças.

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Mas na maioria dos casos as doenças, de fundo emocional ou de estresse, são doenças que surgem com o tempo, possuem uma história pessoal de como a pessoa lida com suas dificuldades, de como ele se adapta aos problemas existenciais.

Vou destacar algumas doenças que são de origem emocional, revelam que a pessoa esta na fase de exaustão do estresse. Que precisa procurar ajuda para aprender ou reaprender a gerenciar o estresse.

Gastrite e Úlcera. Problemas cardíacos.

Palpitações e dores no peito.

Reações alérgicas: coceira, queda de cabelo, erupções de pele, rinite.

Insônia.

Alteração do apetite. Irritabilidade.

Cansaço constante.

Dificuldade de concentração. Perda do interesse sexual.

Dores: nas costas, na cabeça, nas pernas e na região lombar.

Alteração do apetite. Irritabilidade. Cansaço constante.

Portanto se você apresenta sintomas, ou se está desenvolvendo essas doenças, é certo que está na fase de exaustão do estresse. Isto significa que o seu gerenciamento do estresse, não está sendo eficaz em resistir ao agente estressor. As organizações, podem através do seu departamento médico, obter um levantamento das doenças psicossomáticas, com isso saber como os efeitos negativos do estresse estão degenerando os seus recursos humanos.

Reconhecendo o seu nível de estresse

A lista que vou apresentar agora, para reconhecer o seu nível de estresse, é de autoria de Dom Isbell e Sally Nelson que dirigem um programa de administração do estresse na Kaiser Permanente, na Califórnia Meridional. Serve para identificar como estresse se manifesta em sua vida.

MARQUE: 0 não tenho tido problemas 1 ocasionalmente

2 frequentemente.

01) dores de cabeça por tensão ( )

02) Insônia ( )

03) Fadiga ( )

04) Comer em excesso ( )

05) Prisão de ventre ( )

06) dor na parte inferior das costas ( )

07) Úlcera péptica ( )

08) Nervosismo ( )

09) Pesadelos ( )

10) Pressão arterial alta ( )

11) Mão e pés frios ( )

12) Ingestão de álcool ou consumo de remédios em excesso ( ) 13) Palpitações cardíacas ( ) 14) Indigestão gástrica ( ) 15) Dificuldades sexuais ( ) 16) Pensamentos preocupantes ( ) 17) Náusea ou vômitos ( ) 18) Irritabilidade ( ) 19) Enxaqueca ( )

20) Acordar cedo demais ( )

21) Perda de apetite ( )

22) Diarréia ( )

23) Dor nos músculos do pescoço e ombros ( )

24) Acesso de asma ( )

25) Período de depressão ( )

26) Artrite ( )

27) Resfriado ou gripe comum ( )

28) Pequenos acidentes ( )

29) Sentimentos de raiva ( )

Diagnóstico:

- Menos de 04 pontos sem estresse. - Entre 04 e 20 pontos estresse moderado. - Mais de 20 pontos estresse intenso. Existe um estudo dos Drs. Thomas Holmes e Richard Rahe, da escola de medicina da Universidade de Washington, em que eles estudaram os efeitos clínicos de grandes mudanças na vida de uma pessoa (BACCARO, 1990). Foi um estudo realizado nos Estados Unidos e no estrangeiro, que por mais de 20 anos os Drs. acompanharam vários indivíduos de diferentes raças e etnias. Os autores do estudo listaram determinadas mudanças de vida, e o impacto dessas mudanças sobre a saúde das pessoas. Através de inúmeras entrevistas, eles atribuíram um valor numérico a cada fato da vida, classificando em ordem de grandeza. Foram comparadas as pontuações de mudanças na vida das pessoas, em torno de 5.000 indivíduos, com os históricos médicos de cada um dos indivíduos.

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Concluíram que uma classificação elevada no índice de mudanças de vida existia maior probabilidade de contrair doenças após estes acontecimentos. Desde então este inventário tem sido aplicado a uma ampla variedade de grupos, confirmando que quanto mais alto o grau de mudança na vida em dado período de tempo, tanto maior o risco de doença subseqüente, sem levar em conta se a mudança foi indesejável ou não. Isto significa dizer, que estas mudanças de vida não são necessariamente coisas negativas que ocorrem na vida da pessoa. As fontes de estresse relacionadas a mudanças de vida podem ser tanto situações negativas quanto positivas.

Vejamos então o inventário elaborado pelos Drs. Thomas Holmes e Richard Rahe: Quais destas mudanças ocorreram em sua vida neste último ano? Some os pontos de todos os acontecimentos.

Se sua unidades de mudança na vida (UMV) somam 150 a 199, você tem uma probabilidade fraca de ser vítima de alguma doença no próximo ano. Se o total for de 200 a 299 UMV, você tem um risco moderado. Mais de 300 pontos colocam-no no grupo mais provável de sofrer uma doença física ou emocional séria.

Agora vejamos algumas fontes de estresse externo, que fazem parte de nosso dia a dia e não temos como deixar de estar expostos a estas fontes.

AGLOMERAÇÃO - Nos dias atuais o problema da aglomeração deixou de ser privilégio dos grandes centros urbanos. Mesmo nas cidades do interior encontramos aglomeração para atividades rotineiras. Como por exemplo fazer compras no supermercado, ir ao cinema num final de semana, ou simplesmente passear no shoping ou mesmo passear sem compromisso pela cidade. Os locais estão cheio de pessoas que tiveram a mesma idéia que você. Se você resolve ir para o litoral num feriado prolongado, ou mesmo no final de semana, o trânsito nas estradas esta intenso, e quando chega ao litoral vai descobrir que milhares de pessoas tiveram a mesma idéia que você. Isto sem falar na aglomeração cotidiana dos horários de pico, tipo das sete às nove horas da manhã e das cinco às sete horas da noite. Eu sou professor universitário e vejo todos os dias o movimento intenso de carros, ônibus de linha e fretados no caminho da faculdade. Os alunos chegam acelerados e cansados da aglomeração que tem que enfrentar para chegar à faculdade. Nas festividades, nas feiras, nas bienais e nas exposições somos expostos a longas filas, multidão e aglomeração. A aglomeração é uma fonte de

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estresse do nosso século que não temos como evitar, podemos sim em algumas ocasiões nos livrar temporariamente, mas no cotidiano ela vai estar presente cada vez mais em nossas vidas.

RUÍDO E POLUIÇÃO - Inúmeras pesquisas comprovam que o nível de ruído nas cidades está no limite, e muitas vezes acima do limite, que podemos suportar. Os automóveis, ônibus, motos além de produzirem um ruído excessivo estão poluindo o ambiente, tornando o ar nos grandes centros insatisfatório para saúde. Hoje com a preocupação com a ecologia e o futuro do nosso planeta, as empresas estão tendo que aplicar investimentos com o meio ambiente, e a redução de gases nocivos para conseguir certificação internacional de qualidade. Isto ajuda, mas ainda é muito pouco devido à gravidade do problema. Nossos rios estão condenados, nosso clima está condenado, nossa vida na terra esta condenada. Com certeza, mesmo que não tenhamos consciência dessas situações no dia a dia, elas influenciam a nossa adaptação às condições agressivas e hostis a nossa saúde. O estresse, como veremos mais a frente, são sobretudo problemas de adaptação.

MUDANÇA NO ESTILO DE VIDA - As mudanças são cada vez mais comuns e acontecem numa velocidade cataclísmica, em nosso estilo de vida e nossos papéis sociais. Hoje é comum a pessoa estudar, trabalhar e administrar a vida financeira. A questão do estudo atinge a diferentes faixas etárias, jovens, adultos e idosos. O papel de aluno é algo que exige comprometimento, responsabilidade com trabalhos e notas, provas e exames de aprendizagem. No trabalho as exigências de mudança de estilo e adaptação às novas responsabilidades são cada vez mais comuns. Pois as empresas solicitam que as pessoas sejam: autônomas, comprometidas com o trabalho, responsáveis por suas atitudes e determinadas a assumir riscos. Hoje existem consultorias que se especializaram em ajudar as pessoas, a modificar e a desenvolver características de personalidade de acordo com as metas pessoais na empresa e na vida, são os consultores pessoais. Pois as empresas precisam de pessoas com rápida capacidade de adaptação pessoal às mudanças de estilo. As mulheres conquistaram muito terreno no campo de trabalho, atividades tidas como naturalmente masculinas, hoje são desempenhadas por mulheres. A ascensão das mulheres a atividade de liderança é crescente, devido a sua capacidade de lidar com o emocional, seu estilo de liderança menos autoritário e ditador, mais sensível e envolvente afetivamente. Liderando mais com o conceito de confiança e respeito à individualidade, do que com a persuasão e imposição de idéias. Contudo nesse pacote

de conquistas, a mulher também conquistou um aumento significativo do estresse, e de doenças que antes tinham uma incidência muito maior nos homens tais como: enfarto, hipertensão, gastrite, úlcera, etc. Nos dias atuais as pessoas devem ter a preocupação de acompanhar a sua vida financeira, como não havia antes. Saber a cotação do dólar, do ouro, o risco Brasil, o efeito da política na economia do país, aprender a pesquisar preço seja para o que for. Não basta apenas trabalhar e ganhar dinheiro, é preciso saber como administrá-lo para sobreviver na economia de mercado. É preciso diminuir os custos para aumentar os rendimentos, pois vivemos numa economia em explosão mundial, com isso a alteração de preço dos produtos pode atingir uma variação de 100% e nossos rendimentos não alcançam essa variação devido à quantidade de recursos humanos disponível no mercado.

O efeito do estresse no desempenho

Sabemos que o estresse afeta o desempenho e a eficiência das pessoas, nas organizações, no que se refere às tarefas. Com isso a organização sofre um comprometimento em suas bases de qualidade e até mesmo produtividade. Estamos falando, tão somente, nas condições mínimas necessárias para o desempenho. Porém o estresse quando gerenciado apropriadamente, traz para organização benefícios que estão além da eficiência no cumprimento das tarefas. O que podemos notar em organizações que investem no gerenciamento do estresse é justamente um aumento da eficácia organizacional, ou seja, pessoas comprometidas com a responsabilidade que vai além das tarefas exigidas pelo seu cargo. Em seu artigo “Stress e eficácia dos funcionários” Steve Jex, et al (ROSSI, 2005), levantaram, através de uma revisão literária, alguns comportamentos que contribuem na eficácia organizacional e não fazem parte das tarefas exigidas pelo cargo.

As pessoas que ajudam à organização, direta e concretamente a cumprir suas metas. Isto envolve auxiliar colega de trabalho, tanto nos aspecto técnico como no pessoal, atendimento adicional aos clientes, disponibilidade a representar a organização de maneira favorável. Existe também a iniciativa pessoal, que faz com que as pessoas superem obstáculos e dificuldades que surgem; como também preparar-se adequadamente em termos de investimento pessoal, cursos, treinamentos, para aumentar a eficácia da organização.

Em seu levantamento sobre comportamento relacionado à eficácia, que estão além dos comportamentos de desempenho da tarefa, este artigo,

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incluiu o comportamento criativo e inovador. Este comportamento diz respeito à pessoa gerar idéias novas e úteis, com implantação bem sucedida. E este comportamento se estende desde os aspectos corriqueiros da organização como também das áreas de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos. Existe também, como parte dos comportamentos de eficácia organizacional, a evitação de comportamentos que prejudicam a organização, quanto ao desempenho e ao clima organizacional, que são os chamados comportamentos contra producente. Incluem apropriação indébita, absenteísmo, o abuso de drogas, violações de segurança e ambiente hostil.

O importante deste artigo, está na observação de que: mesmo que as pessoas estejam desempenhando as suas tarefas satisfatoriamente, ou até mesmo relativamente bem, mesmo assim podem estar sofrendo o impacto do estresse. E os autores alertam para que ao avaliar, se a eficácia das pessoas está sendo comprometida pelo estresse, o líder deve associar ao entendimento de eficácia organizacional, os comportamentos citados acima. Os líderes devem portanto verificar se as pessoas estão:

A) Indo além das tarefas obrigatórias;

B) Tendo iniciativa para resolver problemas no trabalho, antes que eles ocorram;

C) Mostrando criatividade e inovação diante dos desafios no trabalho;

D) Evitando os comportamentos contra producentes.

Se qualquer destes aspectos, segundo os autores, estiver comprometido é um sinal de que o estresse está afetando a eficácia das pessoas e que medidas precisam ser tomadas. Trata-se, portanto, da organização gerenciar o estresse, assim como ela gerencia as demais atividades de seu contexto organizacional.

Outros problemas associados ao estresse

Vou destacar alguns problemas que aparecem com muita freqüência quando a capacidade de gerenciamento do estresse, esta comprometida ou é ineficaz. É importante que as pessoas tomem consciência de que, algumas vezes, estão utilizando de estratégias para superar o estresse que podem se tornar extremamente nocivas para sua vida.

ESTRESSE E ALCOOLISMO - O alcoolismo, hoje, é visto como um problema mundial e que tem aumentado em proporções assustadoras. As pessoas estão tendo contato com bebidas alcoólicas cada vez mais cedo, em suas vidas, sendo que crianças e jovens,

hoje em dia, convivem com a bebida numa fase muito precoce de suas vidas. Tudo começa como uma brincadeira, ou como uma forma de relaxar depois de um dia intenso de trabalho, ou de um estresse natural do dia a dia. A bebida inicialmente pode trazer um relaxamento e uma descontração, mas junto traz conseqüências trágicas para a vida da pessoa.

O consumo de bebida alcoólica aumenta a cada ano. Dados recentes revelam que o consumo médio de leite por brasileiro é de 1 copo ao ano; e que o consumo médio de aguardente (bebida destilada) por brasileiro é de aproximadamente 12 litros ao ano. São dados aproximados, mas que revelam a gravidade do problema que enfrentamos.

Os Passos para a Dependência - No início a pessoa utiliza da bebida alcoólica com certa variabilidade, por exemplo, apenas nos finais de semana para relaxar do estresse da semana que passou. Nos churrascos, a cervejinha depois do jogo de futebol, à noite nas baladas para descontrair. O que as pessoas eventualmente chamam de beber socialmente. Porém com o passar do tempo, sendo essa a estratégia de gerenciar o estresse, consequentemente a pessoa aumenta a freqüência da bebida. A pessoa bebe socialmente, mas tem uma vida social intensa. Com isso a bebida passa de uma freqüência semanal para uma diária, passa a beber todos os dias. Uma pequena dose para relaxar no final de tarde, uma cervejinha com os amigos para descontrair do dia estressante.

Naturalmente a pessoa começa a dar prioridade ao ato de beber ao longo do dia, não estamos mais falando de um hábito semanal e sim diário que esta se estabelecendo. E mesmo nas situações inaceitáveis, como por exemplo durante o intervalo do almoço a pessoa bebe e depois volta ao trabalho. A pessoa passa a consumir o álcool diariamente e em doses cada vez maiores, pois a sua tolerância vai aumentando. Com isso a pessoa precisa aumentar a dose para obter o mesmo efeito, e passa a executar suas tarefas rotineiras sob o efeito do álcool. Nesta fase a pessoa já esta sujeita aos sintomas de abstinência, caso venha a parar com o consumo diário da bebida alcoólica. O sintomas de abstinência mais marcantes são: irritabilidade e mau humor, perda do apetite e desinteresse generalizado e nas fases mais severas da dependência tremor e alucinações.

É comum que a pessoa associe outros tipos de drogas para potencializar os efeitos do álcool, quando esta num estágio mais avançado da dependência, como por exemplo a cocaína e a maconha. Cada vez mais a pessoa sente uma necessidade de beber para gozar da

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sensação de alívio, das pressões que se tornam mais freqüentes e intensas.

PRESENÇA DE IDÉIAS SUICIDAS -Ocasionado pelos efeitos negativos do estresse: de nível de energia reduzido, desinteresse generalizado pela vida à pessoa não encontra instrumentos existenciais, subjetivos de gerenciar o estresse. As idéias suicidas surgem como alternativa para seus problemas. As pessoas sentem-se impotentes diante dos problemas, sem recursos de adaptação às circunstâncias que estão gerando o estresse em suas vidas. Quando vivemos um estresse excessivo precisamos de estratégia de enfrentamento, criar atitudes e comportamentos para enfrentar o agente estressor. Podemos também, ao viver um estresse excessivo, desenvolver estratégias de fuga, de retirada, pois o agente estressor não pode ser eliminado no momento, retirar estrategicamente para reunir forças. Quando a pessoa não consegue desenvolver nenhuma das duas estratégias, nem de enfrentamento nem de fuga ou de retirada, ela se vê sem saída. A pessoa sente que não resta outra alternativa, se não acabar com a própria vida.

DEPRESSÃO E ISOLAMENTO SOCIAL - O desejo de não ver ninguém, de não falar com ninguém, de ficar só e quieto são a principal característica desse estado. A pessoa evita reuniões sociais, lugares onde irá encontrar com pessoas, se expor e relacionar. Vai desenvolvendo um hábito de ficar só, de fazer as coisas sozinhas e com o tempo sente-se inadequado nas situações ou reuniões com pessoas. Aparecem sintomas depressivos, que reforçam o isolamento, aumentando com isso o sentimento de inadequação social. Em casos extremos a pessoa chega a abandonar a família, e passa a perambular pelo mundo como um indigente. Eu tenho experiência com moradores de rua, que abrigamos numa casa para ajudá-lo com as suas dificuldades. É comum para essas pessoas, que passaram a morar nas ruas, adquirir o vício, seja de álcool ou drogas e sofrer com a depressão. Na grande maioria dos casos são pessoas que buscaram o isolamento, devido a um estresse excessivo em suas vidas. Morar na rua foi à estratégia que encontraram de gerenciar o estresse que vivia.

O líder como fonte de stress ou fonte de saúde

Por experiência de vida todos nós sabemos que uma liderança pode ser fonte de stress, com um impacto direto sobre o ambiente de trabalho, como também uma liderança saudável tem uma influência direta no bem estar do clima organizacional. Em seu artigo “Líderes saudáveis, organizações saudáveis: prevenção primária

e efeitos positivos da competência emocional”, Quick e Mack et al (ROSSI, 2005) analisam a forma pela qual os líderes podem fomentar um ambiente de trabalho saudável, com ênfase na influência do líder. Os autores acreditam que o líder que possui competência emocional tem um papel chave na prevenção primária do stress, e pode criar um ambiente de trabalho emocionalmente saudável e psicologicamente e fisicamente seguro. Enfatizam que os líderes saudáveis fomentam a saúde e o bem estar organizacional para si mesmos e para os outros.

Os autores apresentam uma proposta metodológica de como gerenciar preventivamente o stress nas organizações. A partir das noções de prevenção na saúde pública, Quick et al. transportam para organização modelo descrito a seguir.

A intervenção no processo organizacional ocorre a partir de três pontos:

a) o estressor que desencadeia;

b) a reação de stress em indivíduos ou grupos; c) a conseqüente disfunção de ordem psicossomática.

A intervenção se dá em três pontos consecutivamente:

a) tratar a fonte do stress, que significa eliminar, reduzir ou gerenciar;

b) alterar o modo como as pessoas são afetadas pelo stress;

c) tratar a exaustão gerada pelas conseqüências negativas do stress.

De posse desses dados, vamos compreender o seguinte: Os líderes podem tanto ser fonte de stress de uma equipe, departamento ou até mesmo de uma organização inteira, como também podem ser um agente de fomento de um ambiente saudável, que crie resistência ao stress através da construção de mecanismos adequados, tanto pessoais quanto estruturais. Portanto, se introduzimos um programa de intervenção terapêutica na organização como um todo, estamos adotando uma intervenção de prevenção ao stress que visa tratar a disfuncionalidade psicossomática dos membros da organização (QWUICK, GAWIN et al, 2004 e QUICK et al, 2002, in ROSSI, 2005). Por outro lado, na visão dos autores, se considerarmos o fato de que líderes saudáveis geram ambientes saudáveis de trabalho, quando a organização investe em um programa de gerenciamento preventivo do stress para seus executivos, ela pode estar atingindo com este programa dezenas, centenas de pessoas que tinham como estressor a liderança de seus gerentes. Concluem os autores que criar líderes saudáveis nas organizações está entre as

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melhores intervenções preventivas que as organizações podem realizar.

O líder que aprende a gerenciar o stress é um agente multiplicador de saúde dentro da organização. Neste trabalho que desenvolvo, podemos instrumentalizar o líder para: identificar as fontes de stress (interno e externo), como também o nível de stress de seu grupo; agir como referência e modelo para modificar as respostas negativas das pessoas ao stress; e encaminhar para tratamento os que sofrem com os efeitos negativos do stress. Mas para que o líder possa conseguir este resultado com a sua equipe, ele precisa aprender, em primeiro lugar, a fazer tudo isso, a aplicar esse conhecimento em si mesmo. Aqui de maneira nenhuma vale o ditado “Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”. Pois a saúde é algo de ordem prática, que se aprende a construir no cotidiano. Portanto o líder saudável possui uma competência que lhe garante visivelmente uma maior qualidade de vida.

É importante entender que o líder com competência para gerenciar o stress promove ambiente de trabalho emocionalmente saudável e seguro, influenciando a saúde da organização como um todo. Para Quick et al. (ROSSI, 2005), os líderes competentes no gerenciamento do stress são mais capazes de identificar e comunicar uma missão, lidar com situações emocionalmente desafiadoras, fornecer apoio empático e encorajamento aos liderados, como também lidar com a afetividade e as reações emocionais dos liderados.

Aprender a promover a saúde

O que são as empresas, se não as pessoas que nela trabalham. E como vivem essas pessoas, se não conforme o que aprenderam na trajetória de suas vidas. Dessa forma, se nós queremos investir em empresas saudáveis, em uma sociedade saudável, temos que oferecer conhecimento às pessoas. Isto para que assumam a responsabilidade sobre suas vidas, seu ambiente, sua saúde e aprendam a construir e modificar, sempre influenciando e sendo influenciadas, modificando e sendo modificadas. Mesmo que você não perceba, você constrói o seu próprio conhecimento da vida, e é influenciado e modificado por este conhecimento.

A idéia de que o mundo é construído por nós, num processo incessante e interativo, é a base do trabalho que desenvolvo em gestão do stress. É um convite à participação ativa na construção da própria vida e a inerente responsabilidade, que implica essa postura frente à vida. “Vivemos no mundo e por isso fazemos parte dele; vivemos com outros seres vivos, e portanto

compartilhamos com eles o processo vital”. Essa é uma citação do livro “A árvore do conhecimento” de Maturana e Varella (2002), e serve de base para a idéia de que a gestão do stress na organização tem de ser compartilhada entre todos. Precisamos pensar a organização como um corpo, em que todos os órgãos contribuem para a saúde desse corpo. Precisamos ter claro que o encontro com qualquer situação na organização e na vida é, antes de tudo, responsabilidade minha. Na realidade sou responsável pelas pessoas ao meu redor, assim como pelo ambiente do qual participo. Precisamos aprender a reconhecer a nossa responsabilidade nos encontros, seja com pessoas, ambientes, processos e procedimentos de trabalho e assumir essa responsabilidade para fazer a nossa parte no processo.

A responsabilidade é um princípio de individuação, entendendo individuação como o reconhecimento da responsabilidade pelo outro (LÉVINAS, 2005). Quando não vivemos essa responsabilidade pelo outro, por nossa família, por nossa empresa, pelo nosso país; quando o outro não é a prioridade e sim os nossos próprios interesses, de nosso negócio, procuramos tirar o máximo de proveito, pois entendemos que estamos numa terra de ninguém. Quando isto ocorre, não somos um grupo, nem uma família, nem uma empresa, nem uma nação, somos, segundo Gilles Delleuze e Claire Parnet (1998), um bando.

Se todos temos esta responsabilidade, ainda mais os líderes, os que estão em posição de autoridade. Mas liderar requer aptidão, requer interesse, comprometimento e responsabilidade. Na verdade quem é a pessoa mais preparada para liderar o seu trabalho, se não você mesmo? Segundo Debashis Carttejee (1998) a liderança é muito importante para ser reservada a poucos. A liderança aparece sob muitas formas e dimensões, sendo apenas um dos tipos o que diz respeito a pessoas em posição de autoridade. À medida que as pessoas, devidamente preparadas, possam assumir a liderança sobre os próprios processos de trabalho, e compartilhar essa liderança com aqueles que possuem a autoridade de liderança, estaremos, com certeza, privilegiando o crescimento e desenvolvimento das pessoas.

Precisamos, juntamente com tudo isso, entender que o stress, como uma doença que tende a crescer cada vez mais no século XXI, trazendo inúmeros prejuízos a todos, é um reflexo do problema de adaptação, e da dificuldade de sobrevivência social. Somos expostos a situações psíquicas e sociais próprias da era pós-moderna. A vida tornou-se um amplo buffet de

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self-service com uma variedade infinita de opções. Ser moderno, hoje em dia, é ser viciado em escolhas e mudanças ao mesmo tempo em que se diminui o compromisso e a continuidade das relações. Vivemos numa época em que nos deparamos com uma realidade de escolhas em demasia, pessoas e grupos diversificados com que temos de nos relacionar, muitas coisas para fazer, para ver, para ler e coisas demais com as quais temos de nos atualizar. Portanto o que temos de fazer é ficar de olhos bem abertos e atentos, pois as regras do jogo mudam muito rapidamente.

Outro grave problema, que podemos ver principalmente nos países da América do Sul, é a miséria social em que vivemos. Segundo Lévinas (2005), a responsabilidade pelo próximo é o que se chama amor ao próximo, amor sem Eros, caridade, amor em que o momento ético domina o momento passional. O amor, aceitação do outro junto a nós na convivência, segundo Maturana e Varela (2002), é o fundamento biológico do fenômeno social. Sem amor, sem aceitação do outro junto a nós, não há socialização, e sem esta não há humanidade: da consciência, da responsabilidade, do acolhimento, da obrigação de priorizar o outro na questão da minha consciência. A miséria que vemos e com a qual convivemos nos assusta no nível subcortical, com isso vivemos em alerta à nossa própria miséria. Hoje o nosso inimigo, nosso predador, é a nossa ignorância em relação ao próximo. A miséria produzida se volta contra a própria sociedade em substratos cada vez mais sofisticados e letais.

Acredito em uma sociedade que aprende a gerenciar o stress, em uma sociedade sadia e evoluída. Vejo a doença como o limite, um devir psicológico e social. Mas precisamos aprender a promover a saúde, a construir formas adequadas de gerenciar nossas emoções, nossos sentimentos e o stress nosso de cada dia.

Referências Bibliográficas

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Recebido em 03 de junho de 2007 e aprovado em 04 de julho de 2007.

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