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Expoentes de Lyapunov e Decomposição de Oseledets

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(1)

e Decomposição de

Oseledets

David Boaventura Mesquita

Mestrado em Matemática

Departamento de Matemática Outubro de 2013

Orientador

José Ferreira Alves

Professor Associado com Agregação

(2)
(3)

Expoentes de Lyapunov e

Decomposic¸ ˜ao de Oseledets

Dissertac¸ ˜ao submetida `a Faculdade de Ci ˆencias da Universidade do Porto como requisito parcial para a obtenc¸ ˜ao do grau de Mestre em Matem ´atica

Orientador

Professor Doutor Jos ´e Ferreira Alves

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(5)

Ao Professor Jos ´e Ferreira Alves, pela proposta de um tema agrad ´avel e estimulante, pela orientac¸ ˜ao eficiente e pela liberdade que me fizeram crescer como matem ´atico.

Ao Professor Jairo Bochi, pelas explicac¸ ˜oes, pelas sugest ˜oes e pela ajuda generosa que enriqueceram este trabalho e a mim tamb ´em.

`

A minha fam´ılia, pela compreens ˜ao e apoio constantes.

A todas as pessoas que tornaram o meu percurso acad ´emico mais colorido, desde colegas e amigos a professores e funcion ´arios.

Obrigado.

(6)
(7)

Nesta dissertac¸ ˜ao, apresentamos e demonstramos uma vers ˜ao do Teorema Erg ´odico Multi-plicativo de Oseledets para espac¸os de Lebesgue. Seguimos uma tradic¸ ˜ao de provas iniciada por M. Raghunathan que explora o Teorema Erg ´odico Subaditivo de Kingman, o qual tamb ´em apresentamos e demonstramos. Pelo meio, analisamos o Teorema de Furstenberg-Kesten visto como um corol ´ario do ´ultimo e uma forma seminal do primeiro.

Palavras chave: Teoria Erg ´odica, Teorema Erg ´odico Multiplicativo, Teorema Erg ´odico Subadi-tivo, Teorema de Furstenberg-Kesten, Fibrado Vetorial, Difeomorfismo, Cociclo Linear, Expoente de Lyapunov, Decomposic¸ ˜ao de Oseledets.

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In this dissertation, we present and prove a version of Oseledets’ Multiplicative Ergodic The-orem for Lebesgue spaces. We follow an approach by M. Raghunathan exploring Kingman’s Subadditive Ergodic Theorem, which we also present and prove. Along the way, we analyse Furstenberg-Kesten’s Theorem, seen as a corollary of the last and a seminal form of the first.

Keywords: Ergodic Theory, Multiplicative Ergodic Theorem, Subadditive Ergodic Theorem, Furstenberg-Kesten Theorem, Vector Bundle, Diffeomorphism, Linear Cocycle, Lyapunov Ex-ponent, Oseledets Decomposition.

(10)
(11)

Agradecimentos i

Resumo iii

Abstract v

Introduc¸ ˜ao 1

1 Apresentac¸ ˜ao dos resultados 7

1.1 Teorema de Kingman . . . 7

1.2 Teorema de Oseledets . . . 12

2 Teorema Erg ´odico Subaditivo 21 2.1 Estrutura da prova . . . 21 2.2 Lema de Fekete . . . 22 2.3 Invari ˆancia . . . 23 2.4 Resultado principal . . . 25 2.5 Igualdade inferior . . . 28 2.6 Desigualdade superior . . . 30 2.7 Conclus ˜ao . . . 33

3 Teorema Erg ´odico Multiplicativo 35 3.1 Estrutura da prova . . . 35

3.2 Vers ˜ao limite superior . . . 36

3.3 Teoria Erg ´odica de produtos semi-diretos . . . 48 vii

(12)

3.6 Vers ˜ao unilateral . . . 61

3.7 Vers ˜ao bilateral . . . 64

A Medida e Integrac¸ ˜ao 71 A.1 Espac¸os mensur ´aveis . . . 71

A.2 Espac¸os de medida . . . 72

A.3 Func¸ ˜oes mensur ´aveis . . . 75

A.4 Integrac¸ ˜ao . . . 77

A.5 Teoremas de converg ˆencia . . . 79

A.6 Espac¸os Lppµq . . . 80

A.7 Medidas em espac¸os m ´etricos . . . 80

B Teoria Erg ´odica 83 B.1 Medidas invariantes . . . 83

B.2 Ergodicidade . . . 84

C Cociclos lineares 87 C.1 Fibrados vetoriais . . . 87

C.2 Cociclos lineares . . . 88

C.3 Cohomologia e equival ˆencia temperada . . . 91

Bibliografia 95

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Motivac¸ ˜ao e Hist ´

oria

A Teoria Erg ´odica, ´area na qual se insere este trabalho, ´e a disciplina da Matem ´atica que es-tuda sistemas din ˆamicos munidos de medidas invariantes. H ´a v ´arias definic¸ ˜oes poss´ıveis para o que se entende ser um sistema din ˆamico. Em geral, os seguintes elementos devem estar presentes: um espac¸o de fase X, constitu´ıdo pelos poss´ıveis estados do sistema, que normal-mente tem alguma estrutura extra (por exemplo topol ´ogica, mensur ´avel ou diferenci ´avel); um tempo, que pode ser cont´ınuo ou discreto, extens´ıvel apenas para o futuro ou simultaneamente tamb ´em para o passado; uma lei de evoluc¸ ˜ao temporal, que nos indica os estados do sistema num dado instante a partir dos estados do sistema em instantes anteriores. O objetivo geral da Teoria de Sistemas Din ˆamicos ´e estudar a evoluc¸ ˜ao de tais sistemas com o tempo. Neste trabalho, adotaremos um modelo de din ˆamica discreta. A lei de evoluc¸ ˜ao temporal ´e neste caso uma transformac¸ ˜ao

T : X Ñ X

que ao estado x P X no instante t associa o estado T x no instante t 1. O tempo ´e assim naturalmente modelado pelos n ´umeros naturais N, quando o processo ´e irrevers´ıvel ou n ˜ao-invert´ıvel, ou ent ˜ao pelos inteiros Z, quando estamos na presenc¸a de uma din ˆamica revers´ıvel ou invert´ıvel. O desafio gen ´erico para o presente modelo ´e estudar o comportamento das ´orbitas tTnxu

nPN,Z.

Para a Teoria Erg ´odica, o espac¸o de fase deve ser um espac¸o de medida pX, A, µq, nor-malmente finita ou quando muito σ-finita, preferencialmente com boas propriedades adicionais - uma classe importante nesta ´area s ˜ao os chamados espac¸os de Lebesgue. Neste trabalho, lidaremos apenas com espac¸os de probabilidade (i.e., aqueles em que µpXq  1) que s˜ao, por

(14)

assim dizer, o prot ´otipo dos espac¸os de medida finita. A transformac¸ ˜ao T deve preservar a estrutura mensur ´avel do espac¸o querendo isso dizer que

T1pEq P A, para todo E P A. A invari ˆancia (ou preservac¸ ˜ao) da medida significa assim que

µpT1pEqq  µpEq, para todo E P A.

A preservac¸ ˜ao de uma medida per se fornece informac¸ ˜ao diversa sobre o sistema. Um exemplo cl ´assico disso mesmo ´e devido a H. Poincar ´e quando estudava o movimento dos astros, no final do s ´eculo XIX. Este notou propriedades de recorr ˆencia assinal ´aveis nos sistemas da Mec ˆanica Celeste, de facto v ´alidas para quaisquer sistemas com medidas invariantes, substanciadas no seu c ´elebre Teorema de Recorr ˆencia. Este afirma que quase todos os pontos de um conjunto mensur ´avel EP A arbitr´ario retornam (e infinitas vezes!) a esse conjunto, i.e.,

µptx P E : tTnpxqun¥N € XzEuq  0, para todo N P N.

As origens da Teoria Erg ´odica remontam (pelo menos) `a famosa hip ´otese erg ´odica do f´ısico L. Boltzmann formulada no contexto da Mec ˆanica Estat´ıstica (mais precisamente, na Teoria Cin ´etica dos Gases), tamb ´em nos finais do s ´eculo XIX. A afirmativa moderna que folcloriza esta hip ´otese (em verdade, uma consequ ˆencia da hip ´otese erg ´odica original de Boltzmann, sobre as traj ´etorias visitarem todos os estados compat´ıveis com um dado n´ıvel de energia) ´e a seguinte.

!A m ´edia temporal de grandezas observ ´aveis ao longo de ´orbitas t´ıpicas coincide com a m ´edia espacial."

De facto, hoje sabemos bem que esta hip ´otese ´e falsa em geral, e os sistemas especiais para os quais ela ´e v ´alida dizem-se erg ´odicos. Ter´ıamos de esperar at ´e aos anos 30 para ver o desenvolvimento sistem ´atico da Teoria Erg ´odica como disciplina matem ´atica, a partir de uma formalizac¸ ˜ao mais s ´eria da hip ´otese erg ´odica. Por essa altura, ´e devida a G. Birkhoff ([6], 1931) uma vers ˜ao do c ´elebre Teorema Erg ´odico. `A luz da hip ´otese erg ´odica, o objeto principal deste resultado s ˜ao as m ´edias temporais de uma grandeza observ ´avel φ : XÑ R no espac¸o definidas por φpxq : lim nÑ8 1 n n¸1 i0 φ Tipxq.

(15)

Naturalmente, n ˜ao h ´a raz ˜ao nenhuma para esperar que estas m ´edias existam sempre e muito menos saber para onde convergem. Todavia, para grandezas φP L1pµq, Birkhoff mostrou que

esse ´e o panorama t´ıpico do ponto de vista da medida pelo que quando o sistema ´e erg ´odico estas coincidem justamente com a m ´edia espacial:

lim nÑ8 1 n n¸1 i0 φ Tipxq  » φ dµ.

Sensivelmente pela mesma altura, outra vers ˜ao do Teorema Erg ´odico foi provado por J. Von Neumann ([40], 1932), esta formulada num contexto funcional e menos geral do espac¸o L2pµq, inspirado em trabalhos de B. Koopman sobre grupos de operadores unit ´arios em espac¸os de Hilbert que deram forma `a hip ´otese erg ´odica. A par do resultado de Birkhoff, estas constituem as vers ˜oes cl ´assicas do Teorema Erg ´odico.

Na segunda metade do s ´eculo XX, a Teoria Erg ´odica comec¸ou a mudar dum paradigma fun-cional para um probabil´ıstico, muito devido `a introduc¸ ˜ao do conceito de entropia por A. Kolmo-gorov em torno de 1958, mais ou menos ao mesmo tempo que Y. Sinai, movidos pelo conceito hom ´onimo proposto por C. Shannon no ˆambito da Teoria da Informac¸ ˜ao em meados dos anos 20. Isto marcou um ponto de viragem da teoria, com novos desenvolvimentos.

No final da d ´ecada de 60, surgiram generalizac¸ ˜oes do Teorema Erg ´odico que constituem o leit-motiv da presente dissertac¸ ˜ao. A primeira deve-se ao matem ´atico J. Kingman e ´e conhecida como o Teorema Erg ´odico Subaditivo. Apesar do nome erg ´odico, este teorema foi um corol ´ario de trabalhos transversais `a Teoria Erg ´odica. Segundo consta, foi publicado em ([20], 1968), numa altura em que o autor se encontrava a estudar processos subaditivos, introduzidos anos antes no ˆambito dos processos estoc ´asticos por Hammersley e Welsh. Sugerimos ([19], 1973) para um apanhado geral de Teoria Erg ´odica Subaditiva, fundada pelo autor. Em termos simples, este estabelece, `a semelhanc¸a do Teorema Erg ´odico, a exist ˆencia em quase todo o ponto de ‘m ´edias’ associadas a sucess ˜oes subaditivaspφnqnPN, i.e., objetos da forma

φpxq  lim

nÑ8

1 nφnpxq,

nas quais se enquadram as somas temporais de Birkhoff (processos aditivos)

φnpxq  n¸1

i0

(16)

A demonstrac¸ ˜ao de Kingman usava uma ideia de reduc¸ ˜ao, decompondo processos subaditivos como somas de processos aditivos e subaditivos n ˜ao-negativos. Provas simplificadas e mais fo-cadas foram entretanto aparecendo na literatura matem ´atica: bastar ´a mencionar a de B. Weiss e Y. Katznelson ([18], 1982) inspirada nos m ´etodos de an ´alise n ˜ao-standard de T. Kamae para a demonstrac¸ ˜ao do Teorema Erg ´odico cl ´assico ([14], 1982); a de J. Steele ([36], 1989) e a de K. Sch ¨urger ([35], 1991), esta ´ultima mais geral. A prova da presente dissertac¸ ˜ao ([3], 2009) ´e um acr ´escimo nesta linha, com um ponto possivelmente original ao considerar somas de Birkhoff especiais sem contudo depender do Teorema Erg ´odico.

Curiosamente no mesmo ano, o ainda jovem matem ´atico russo V. Oseledets, aluno de dou-toramento de Y. Sinai, publicou o seu famoso Teorema Erg ´odico Multiplicativo ([28], 1968), um subproduto da sua tese doutoral que havia demonstrado em 1965 e apresentado no ano se-guinte por ocasi ˜ao do Congresso Internacional de Matem ´aticos em Moscovo. A motivac¸ ˜ao dos objetos presentes no enunciado deste resultado remonta a trabalhos anteriores de A. Lyapunov ([23], a vers ˜ao original em Russo ´e datada de 1892), no contexto da Teoria de Equac¸ ˜oes Dife-renciais Ordin ´arias, mais precisamente, sobre a estabilidade das soluc¸ ˜oes associadas. Entre eles, encontramos os agora chamados expoentes de Lyapunov e uma noc¸ ˜ao de regularidade correlata tamb ´em vis´ıvel e desenvolvida nos trabalhos de O. Perron ([29], 1930). Uma monogra-fia aprofundada sobre a teoria desenvolvida a partir destes trabalhos ´e ([9], 1966), de D. Bylov, R. Vinograd, D. Grobman e V. Nemyckii. O Teorema de Oseledets vem afirmar que tal regu-laridade, geralmente rara do ponto de vista topol ´ogico, ´e t´ıpica do ponto de vista da medida, sem contudo descrev ˆe-la. As ideias da prova de Oseledets t ˆem um car ´ater eminentemente alg ´ebrico (envolvem produtos exteriores, etc.), reduzindo o caso dos cociclos lineares gerais ao dos cociclos triangulares e usando o Teorema Erg ´odico cl ´assico para estes ´ultimos.

Muitas demonstrac¸ ˜oes alternativas e vers ˜oes mais gerais surgiram desde ent ˜ao. Entre as principais, colocamos `a cabec¸a a de M. Raghunathan ([31], 1979), baseada no Teorema Erg ´odico Subaditivo - mais precisamente, via Teorema de Furstenberg-Kesten ([12], 1960), dele facilmente dedut´ıvel, em combinac¸ ˜ao com a decomposic¸ ˜ao em valores singulares de uma ma-triz - com uma extens ˜ao para corpos locais, como o dos n ´umeros p- ´adicos. Seguiram-se outras: temos vers ˜oes de dimens ˜ao infinita de D. Ruelle ([33], 1982) para espac¸os de Hilbert e de R. Man ˜e ([25], 1983) para espac¸os de Banach (ver tamb ´em [24], [34]); a de V. Kaimanovich ([13], 1989) para grupos de Lie semisimples e inspirada nesta a de A. Karlson e G. Margulis ([16],

(17)

1999) para alguns espac¸os com curvatura n ˜ao-positiva (ver tamb ´em [10]); por fim, em tempos mais recentes, destacamos a de A. Karlsson e F. Ledrappier para o grupo de isometrias de espac¸os m ´etricos pr ´oprios ([15], 2006). E mais se poderiam acrescentar: sugerimos [2] para uma lista mais ou menos exaustiva bem como um tratado completo no assunto. A demonstrac¸ ˜ao apresentada nesta dissertac¸ ˜ao, desenhada por J. Bochi ([7], 2008), segue uma tradic¸ ˜ao inici-ada com Raghunathan e continuinici-ada por outros (i.e., via Teorema Erg ´odico Subaditivo), com a ressalva de que os c ´alculos matriciais para a construc¸ ˜ao de espac¸os invariantes t´ıpicos des-sas provas, marcas indel ´eveis do car ´ater alg ´ebrico das mesmas, se transformam agora numa construc¸ ˜ao direta de subespac¸os complementares de maior taxa de crescimento exponencial e no estudo da ac¸ ˜ao dos cociclos sobre o espac¸o projetivo euclideano (que permite realizar ime-diatamente os menores expoentes como limites), ideias descendentes de R. Man ˜e ([24], 1987) e P. Walters ([41], 1993), respetivamente.

Para completar esta introduc¸ ˜ao, n ˜ao poder´ıamos deixar de mencionar os trabalhos de Y. Pesin ([30], 1977) que a par dos de Lyapunov, Perron e Oseledets j ´a referidos marcaram os in´ıcios da Din ˆamica N ˜ao-Uniformemente Hiperb ´olica como disciplina independente, atu-almente uma das ´areas fervilhantes e abrangentes da investigac¸ ˜ao em Teoria Erg ´odica Di-ferenci ´avel/Sistemas Din ˆamicos, versando sobre sistemas com expoentes de Lyapunov n ˜ao-nulos. Uma introduc¸ ˜ao neste t ´opico ´e o livro do pr ´oprio e de L. Barreira ([5], 2007).

Estrutura da dissertac¸ ˜ao

Podemos dizer que o objetivo principal deste trabalho ´e a demonstrac¸ ˜ao duma vers ˜ao do Teorema de Oseledets explorando o Teorema de Kingman. Isso significa que apesar de ser nosso intuito a apresentac¸ ˜ao e demonstrac¸ ˜ao de ambos, uma ˆenfase prim ´aria deve ser dado ao primeiro em detrimento do segundo que ser ´a, por assim dizer, parte de um caminho poss´ıvel para chegar ao primeiro. Quer-se com isso evidenciar ainda a assimetria de originalidade e esforc¸o envolvidos em ambos, substancialmente maiores para o primeiro.

O leitor que deseja apenas um contacto superficial com os resultados principais desta dissertac¸ ˜ao sem maior compromisso tem no Cap´ıtulo 1 uma apresentac¸ ˜ao dos mesmos. Os Cap´ıtulos 2 e 3 s ˜ao inteiramente devotados `as demonstrac¸ ˜oes dos Teoremas de Kingman e Oseledets, respetivamente, se for desejada uma compreens ˜ao mais aprofundada. Dada a

(18)

na-tureza deste trabalho, primamos por apresentar provas detalhadas e portanto mais extensas e dissecadas do que habitualmente se encontram noutros textos.

Por fim, inclu´ımos alguns ap ˆendices: os dois primeiros, A e B, sobre definic¸ ˜oes e factos gerais de Medida, Integrac¸ ˜ao e Teoria Erg ´odica que achamos proveitosos; um terceiro, C, sobre cociclos lineares, com noc¸ ˜oes e propriedades que achamos adequado colocar numa secc¸ ˜ao separada da restante dissertac¸ ˜ao, em jeito de complemento.

(19)

Apresentac¸ ˜ao dos resultados

Este cap´ıtulo ´e dedicado `a apresentac¸ ˜ao dos resultados principais desta dissertac¸ ˜ao. Pre-tendemos mostrar o fio condutor que liga o Teorema de Kingman ao de Oseledets, passando pelo de Furstenberg-Kesten, sem esquecer o Teorema Erg ´odico (de Birkhoff). A exposic¸ ˜ao dos t ´opicos para o Teorema de Kingman ´e primariamente baseada em [27] e [38]. Por sua vez, para o Teorema de Oseledets foram usadas [7], [24], [38] e [39]. Refiram-se tamb ´em [2], [5] e [42] como fontes valiosas neste contexto.

1.1

Teorema de Kingman

Nesta secc¸ ˜ao, o ambiente ser ´a um espac¸o de probabilidadepX, A, µq com uma transformac¸˜ao mensur ´avel T : X Ñ X que preserva a probabilidade µ. Para motivar o primeiro dos teore-mas principais deste trabalho, comec¸aremos com uma an ´alise mais aprofundada do Teorema Erg ´odico cl ´assico [B.3]. As somas temporais de Birkhoff, definidas por

φnpxq  n¸1 i0

φ Tipxq satisfazem a seguinte propriedade de aditividade:

φm n φm φn Tm, para todo m, nP N. (1.1)

Sempre que φ φ1P L1pµq, o Teorema Erg´odico afirma que o limite

lim

nÑ8

1 nφnpxq

(20)

existe em quase todo o ponto e que em m ´edia coincide com a m ´edia espacial ³φ dµ. N ˜ao ´e dificil verificar que este facto ocorre para toda a sucess ˜ao de func¸ ˜oes φn: XÑ R que satisfac¸a

a propriedade (1.1) e a condic¸ ˜ao φ1 P L1pµq: bastar´a notar que tais sucess˜oes s˜ao somas

temporais de Birkhoff geradas precisamente pela func¸ ˜ao φ1.

´

E leg´ıtimo questionar se esta converg ˆencia q.t.p. vale para sucess ˜oes φn : X Ñ R mais

gerais. Este ´e o conte ´udo do Teorema Erg ´odico Subaditivo de Kingman, ao relaxar a aditividade em (1.1) para subaditividade. Introduzamos alguma nomenclatura conveniente.

Definic¸ ˜ao 1.1. Dizemos que uma sucess ˜aopanqnPN emr8, 8q : R Y t8u ´e subaditiva, se

am n¤ am an, para todo m, nP N.

Da definic¸ ˜ao acima, deduzimos que para uma sucess ˜ao subaditiva vale an¤ na1, e portanto an

n ¤ a1, para todo nP N. Deste modo, temos toda a informac¸˜ao sobre o supremo

sup nPN an n  maxnPN an n  a1.

O seguinte facto elementar, particularmente elegante, exibe uma propriedade importante das sucess ˜oes subaditivas, fornecendo informac¸ ˜ao extra sobre o ´ınfimo e a converg ˆencia, sendo associado em alguns textos a Michael Fekete.

Lema 1.1. (Fekete) SepanqnPN ´e uma sucess ˜ao subaditiva, ent ˜ao

lim nÑ8 an n  infnPN an n P r8, a1s.

Extenderemos a ideia de subaditividade mais geralmente a uma sucess ˜ao de func¸ ˜oes com respeito a uma transformac¸ ˜ao, a qual generaliza a aditividade das somas de Birkhoff.

Definic¸ ˜ao 1.2. Dizemos que uma sucess ˜ao de func¸ ˜oes φn : X Ñ R ´e subaditiva com respeito

a uma transformac¸ ˜ao T : XÑ X, se

(21)

Analogamente ao que aconteceu para sucess ˜oes subaditivas de n ´umeros, para uma sucess ˜ao subaditivapφnqntem-se φn¤ n¸1 j0 φ1 Tj,

relac¸ ˜ao que se mant ´em verdadeira considerando as func¸ ˜oes φn e φ1. Assim, na suposic¸ ˜ao de todas as func¸ ˜oes serem mensur ´aveis, a integrabilidade de φ1 implica a de φn para todo n P N e portanto, nessas condic¸ ˜oes, a sucess ˜aopanqnPN definida por

an

»

φndµP r8, 8q

´e subaditiva. Como corol ´ario do Lema de Fekete constatamos a exist ˆencia do limite L : lim nÑ8 1 n » φndµ inf nPN 1 n » φndµP r8, 8q. (1.2)

Este limite associado a sucess ˜oes subaditivas desempenha, no primeiro dos teoremas princi-pais deste cap´ıtulo, um papel similar ao da m ´edia espacial no Teorema de Birkhoff [B.3]. Teorema A. (Kingman) Sejam pX, A, µq um espac¸o de probabilidade e T : X Ñ X uma transformac¸ ˜ao mensur ´avel que preserva µ. SejapφnqnPN uma sucess ˜ao subaditiva de func¸ ˜oes

mensur ´aveis com respeito a T tal que φ1 P L1pµq. Ent˜ao existe uma func¸˜ao mensur´avel φ : XÑ r8, 8q tal que

φpxq  lim

nÑ8

φnpxq

n , para µ-q.t.p. xP X. Al ´em disso, φ P L1pµq e tem-se

1. φ T  φ em µ-quase todo o ponto e 2. ³φ dµ L P r8, 8q,

onde L ´e o limite dado por (1.2). Al ´em disso, quando o sistema ´e erg ´odico φ ´e constante igual a L em quase todo o ponto.

1.1.1 O Teorema de Furstenberg-Kesten

Em direc¸ ˜ao ao Teorema de Oseledets, veremos uma aplicac¸ ˜ao do Teorema de Kingman. Como exemplo motivacional, que retomaremos mais adiante, consideremos um difeomorfismo

(22)

f : M Ñ M de uma variedade diferenci´avel M com uma m´etrica de Riemann }}x(diferenci ´avel)

que faz de cada fibra (espac¸o tangente) TxM do fibrado tangente T M um espac¸o normado. Um

dos aspetos essenciais no estudo da din ˆamica, i.e., o comportamento de fnpxq para iterados de ordem elevada, prende-se com a expans ˜ao e contrac¸ ˜ao gerada por f . Em certas circunst ˆancias, esse estudo ´e linearizado em termos do comportamento de Dfxn : TxM Ñ TfnpxqM e o

pro-blema geral torna-se agora tentar compreender, para cada direc¸ ˜ao vP TxM, como}Dfxnv}fnpxq

varia com n. Aqui estamos essencialmente preocupados com a frequ ˆencia de um comporta-mento assint ´otico preciso destes iterados.

Numa primeira inst ˆancia, analisemos o comportamento de}Dfxn}, onde }  } ´e a norma do operador linear Dfn

x : TxM Ñ TfnpxqM induzida pela m ´etrica de Riemann. Pela regra da cadeia,

Dfxn Dffn1pxq     Dffpxq Dfx

e portanto, pela submultiplicatividade da norma, temos }Dfn

x} ¤ }Dffn1pxq}    }Dffpxq}}Dfx}.

Em vista desta propriedade, uma formulac¸ ˜ao conveniente do problema ´e feita atrav ´es da lingua-gem exponencial. Facilmente se deduz da desigualdade acima que a sucess ˜ao

φnpxq  log }Dfxn}

´e subaditiva com respeito a f . Assim, sob hip ´oteses adequadas, poder´ıamos tentar usar o Teorema Erg ´odico Subaditivo para concluir a exist ˆencia de alguma converg ˆencia do tipo

1

nlog}Df

n

x} Ñ φpxq

de modo que }Dfn

x}  enφpxq, para iterados de ordem elevada. De facto, o que fizemos aqui

para a norma poder´ıamos fazer tamb ´em para a conorma da derivada definida por mpDfxnq : inf

}v}x1

}Dfn

x  v}fnpxq.

Uma vez que as aplicac¸ ˜oes Dfn

x : TxM Ñ TfnpxqMs ˜ao isomorfismos lineares temos mpDfxnq 

}pDfn

xq1}1 e portanto a sucess ˜ao

(23)

´e tamb ´em subaditiva com respeito a f . Valem conclus ˜oes semelhantes e assim balizamos de alguma forma o problema inicial.

Vejamos como extender este exemplo no contexto da Teoria Erg ´odica. Considere-se o espac¸o GLpR, dq das matrizes quadradas invert´ıveis d  d com entradas no corpo dos n´umeros reais. A norma matricial

}L} : sup

}v}1}Lpvq}

induz nesse espac¸o uma topologia e por conseguinte uma σ- ´algebra de Borel, que permite ent ˜ao falar naturalmente de mensurabilidade em aplicac¸ ˜oes que envolvam este espac¸o. Defini-mos tamb ´em a conorma por

mpLq : inf

}v}1}Lpvq}.

Uma vez que L ´e invert´ıvel, temos mpLq  }L1}1, como j ´a foi observado. Dada uma aplicac¸ ˜ao A : X Ñ GLpR, dq, uma transformac¸˜ao T : X Ñ X e n ¥ 0, escrevemos

Apnqpxq : ApTn1xqApTn2xq    ApT xqApxq.

Uma aplicac¸ ˜ao do Teorema Erg ´odico Subaditivo ´e mostrada no pr ´oximo resultado atribu´ıdo a Furstenberg e Kesten ([12]), que de facto ´e anterior no tempo (1960).

Teorema 1.1. (Furstenberg-Kesten) SejapX, A, µq um espac¸o de probabilidade e T : X Ñ X uma transformac¸ ˜ao mensur ´avel de X que preserva µ. Seja A : X Ñ GLpR, dq uma aplicac¸˜ao mensur ´avel tal que log }A1pxq} P L1pµq. Ent˜ao existem func¸˜oes λmin, λmaxP L1pµq tais que

λminpxq  lim nÑ8 1 nlog mpA pnqpxqq e λ maxpxq  lim nÑ8 1 nlog}A pnqpxq},

em µ-quase todo o ponto xP X. Al´em disso, λmine λmaxs ˜aopT, µq-invariantes,

• » λmindµ lim nÑ8 1 n »

log mpApnqpxqq dµ  sup nPN 1 n » log mpApnqpxqq dµ e • » λmaxdµ lim nÑ8 1 n » log}Apnqpxq} dµ  inf nPN 1 n » log}Apnqpxq} dµ.

Este teorema ´e um corol ´ario do Teorema Erg ´odico Subaditivo essencialmente pelos motivos da discuss ˜ao anterior. Devido `a submultiplicatividade da norma matricial, as sucess ˜oes

(24)

s ˜ao ambas subaditivas. A condic¸ ˜ao de integrabilidade ´e trivialmente satisfeita em ambos os casos pelo que da relac¸ ˜ao

log mpApnqpxqq   log }pApnqpxqq1} o resultado segue.

Portanto, o Teorema de Furstenberg-Kesten afirma que a norma e a co-norma dos iterados de ordem elevada admitem tipicamente taxas de variac¸ ˜ao exponencial precisas

}Apnqpxq}  enλmaxpxq e mpApnqpxqq  enλminpxq.

Retomando por um pouco a motivac¸ ˜ao do exemplo dos difeomorfismos, nomeadamente para o estudo de}Dfn

x  v}fnpxq, temos em geral

mpApnqpxqq  }v} ¤ }Apnqpxq  v} ¤ }Apnqpxq}  }v}, para todo vP Rd, pelo que em termos assint ´oticos

lim sup nÑ8 1 nlog mpA pnqpxqq ¤ lim sup nÑ8 1 nlog}A pnqpxq  v} ¤ lim sup nÑ8 1 nlog}A pnqpxq}.

Dado que o Teorema de Furstenberg-Kesten define genericamente os extremos da desigual-dade acima, cabe questionar naturalmente um comportamento semelhante para o membro in-term ´edio. A an ´alise desta quest ˜ao ´e feita no pr ´oximo dos teoremas principais deste cap´ıtulo, o Teorema de Oseledets. Este refina substancialmente o resultado de Furstenberg-Kesten, ao afirmar que num ponto xP X t´ıpico ´e poss´ıvel filtrar/decompor Rd em subespac¸os de tal modo que o comportamento da din ˆamica restrita a cada um deles est ´a bem caraterizado em termos da linguagem exponencial.

1.2

Teorema de Oseledets

Nesta secc¸ ˜ao, apresentamos o Teorema de Oseledets, tamb ´em conhecido por Teorema Erg ´odico Multiplicativo, para os cociclos lineares (ou morfismos de fibrados vetoriais). A classe de espac¸os de probabilidade pX, A, µq que consideramos presentemente ´e a dos espac¸os de

(25)

Lebesgue. Esta ´e uma classe importante em Teoria Erg ´odica, quer pelas boas propriedades que possui em relac¸ ˜ao aos demais espac¸os de probabilidade, quer porque cobre a maior parte dos exemplos de relevo. A menos de isomorfismo mod 0, a noc¸ ˜ao de equival ˆencia padr ˜ao, h ´a v ´arios representantes que poder´ıamos tomar. O mais conveniente para aqui ´e aquele em que X representa um espac¸o m ´etrico compacto e A  B a σ- ´algebra de borelianos completada em relac¸ ˜ao `a probabilidade µ.

Como ´e usual, consideramos uma transformac¸ ˜ao mensur ´avel T : X Ñ X que preserva µ . Seja π : E Ñ X um fibrado vetorial mensur´avel de dimens˜ao finita munido com uma m´etrica de Riemann }  }x em cada fibra Ex  π1pxq dependendo de forma mensur´avel do ponto de

base x P X. Um cociclo linear sobre T ´e um automorfismo (mensur´avel) de fibrados vetoriais F : EÑ E cobrindo T . Isso significa que o seguinte diagrama ´e comutativo

E ÝÝÝÝÑ EF π Ÿ Ÿ ž ŸŸžπ X ÝÝÝÝÑ XT

e as ac¸ ˜oes nas fibras Fx : Ex Ñ ET x s ˜ao isomorfismos lineares de espac¸os vetoriais que

dependem de forma mensur ´avel de x. O pr ´oximo exemplo, j ´a abordado, ´e possivelmente o representante mais intr´ınseco deste conceito, a sua inspirac¸ ˜ao.

Exemplo 1.1. Cociclo din ˆamico ou cociclo derivado: consideramos um difeomorfismo f : M Ñ M de uma variedade diferenci ´avel riemanniana M e a derivada F  Df a atuar no fibrado tangente E T M.

O modelo acima introduzido ´e bastante abrangente, mas para os nossos prop ´ositos n ˜ao neces-sitaremos de trabalhar com tanta generalidade. De facto, na formulac¸ ˜ao dos resultados te ´oricos desta secc¸ ˜ao assumiremos que os fibrados s ˜ao triviais, ou seja, da forma E X  Rd. Citando [39], esta ´e uma hip ´otese razo ´avel na medida em que frequentemente a restric¸ ˜ao do fibrado a um subconjunto de X com medida total ´e (isomorfo a) um fibrado trivial: no presente modelo, em que X ´e um espac¸o m ´etrico compacto isso sempre acontece (veja-se a Proposic¸ ˜ao C.1). Nesse caso, cada ac¸ ˜ao Fx traduz-se num elemento Apxq de GLpR, dq, dependendo de forma

mensur ´avel do ponto x, e o cociclo consiste assim dum produto semi-direto, i.e., da forma Fpx, vq  pT x, Apxq  vq.

(26)

Notamos que a ac¸ ˜ao Fxn ´e dada precisamente por Apnqpxq com o significado Apnqpxq : ApTn1xqApTn2xq    ApT xqApxq.

Quando T ´e invert´ıvel, tamb ´em o ´e o cociclo F , e podemos considerar os iterados revertendo o tempo Fnpx, vq  pTnx, Apnqpxq  vq, onde

Apnqpxq : rApTnxqs1   rApT1xqs1  rApnqpTnxqs1.

Suporemos tamb ´em que a m ´etrica de Riemann}  }x ´e independente da fibra, fixando para o

efeito alguma norma}  } em Rde usando o mesmo s´ımbolo para denotar a norma induzida no espac¸o dos operadores lineares L : Rd Ñ Rd, como vem sendo h ´abito. Para uma exposic¸ ˜ao mais completa destes objetos matem ´aticos, sugerimos o Ap ˆendice C.

Estamos interessados no estudo da din ˆamica gerada pelos cociclos `a luz da seguinte Definic¸ ˜ao 1.3. Dado um cociclo linear sobre T definimos o expoente carater´ıstico de Lyapunov ou simplesmente o expoente de Lyapunov associado ao parpx, vq P X  Rdpor

λ px, vq : lim sup

nÑ8

1 nlog}A

pnqpxq  v} P R Y t8u.

Quando T ´e invert´ıvel, definimos tamb ´em outro expoente de Lyapunov revertendo o tempo λpx, vq : lim sup

nÑ8

1

|n|log}Apnqpxq  v} P R Y t8u. Em ambos os casos, fazemos a convenc¸ ˜ao logp0q  8 .

Interessa-nos especialmente o caso em que os expoentes s ˜ao realizados como limites, pelo que tudo o que agora se segue deve ser lido nessa ´otica. Os expoentes de Lyapunov precisam-nos as taxas de variac¸ ˜ao exponencial assint ´oticas da norma dos iterados Fn

x : Ex Ñ ETnpxq.

Expoentes positivos ou negativos predizem, respetivamente, crescimento ou decrescimento ex-ponencial da norma, ao passo que expoentes nulos traduzem a falta de comportamento expo-nencial, por vezes dito na literatura de subexponencial. A exist ˆencia de expoentes de Lyapunov para cociclos ´e assim um dado importante no estudo da din ˆamica, nomeadamente no que toca `a expans ˜ao, contrac¸ ˜ao e subsequentes quest ˜oes de estabilidade que motivaram A. Lyapunov a introduzi-los na Teoria das EDO’s ([23]). Vamos analisar um exemplo elementar que elucida isso mesmo mas que, num sentido a explanarmos adiante, n ˜ao pode ser tido como um retrato da situac¸ ˜ao geral.

(27)

Exemplo 1.2. Consideremos um isomorfismo linear f : Rd Ñ Rd. Observe-se que Dfx  f

para todo xP Rdpelo que o cociclo derivado ´e constante. Sejam eλ1 ¡ eλ2 ¡    ¡ eλk

i P R)

os valores absolutos distintos dos valores pr ´oprios de f e seja Ei a soma direta dos espac¸os pr ´oprios generalizados associados aos valores pr ´oprios cujo valor absoluto ´e eλi. Como

con-sequ ˆencia da forma can ´onica de Jordan, temos lim

nÑ8

1

nlog}Df

n

xpvjq}  λj, para todo vj P Ejzt0u e 1 ¤ j ¤ k.

Assim, expoentes de Lyapunov λ1 ¡    ¡ λkexistem para todos os parespx, vq. Em particular,

se λ1   0 a origem (e portanto todos os pontos) ´e assintoticamente exponencialmente est´avel.

O modelo espectral do exemplo acima inspira uma adaptac¸ ˜ao para transformac¸ ˜oes mais gerais. Introduzimos agora o que se deve entender por isso atrav ´es duma noc¸ ˜ao de regularidade que ser ´a fruto do Teorema de Oseledets, em linha com [24] e apresentada com uma estrutura mais cl ´assica noutros textos (e.x. [2] e [5] sob o t´ıtulo de regularidade de Lyapunov ).

Definic¸ ˜ao 1.4. Um ponto x P X diz-se positivamente regular, se existirem k  kpxq n´umeros reais λ1pxq ¡    ¡ λkpxq e uma filtrac¸˜ao linear

Rd Vx1 ¡ Vx2 ¡    ¡ Vxk¡ Vxk 1 t0u (1.3)

tal que, para todo 1¤ j ¤ k, se tem lim nÑ8 1 nlog}A pnqpxq  v i}  λipxq, para todo vi P VxizVxi 1.

Quando o sistema ´e invert´ıvel, seria poss´ıvel ainda introduzir uma regularidade negativa em termos an ´alogos, que n ˜ao implica nem ´e implicada pela positiva. Mesmo quando coexistem, os expoentes e a filtrac¸ ˜ao que ent ˜ao se obteriam revertendo o tempo n ˜ao est ˜ao a priori rela-cionados com os acima definidos. Para gerar uma maior compatibilidade entre a regularidade positiva e a negativa que combine as respetivas filtrac¸ ˜oes temos a seguinte noc¸ ˜ao.

Definic¸ ˜ao 1.5. Dizemos que x P X ´e (simplesmente) regular, se existirem k  kpxq n´umeros reais λ1pxq ¡    ¡ λkpxq e uma decomposic¸˜ao

Rd Ex1`    ` Exk (1.4)

tal que, para todo 1¤ j ¤ k, vale lim

nÑ8

1 nlog}A

pnqpxq  v

(28)

Quando existem, as filtrac¸ ˜oes-decomposic¸ ˜oes em (1.3) e (1.4) e os expoentes de Lyapunov s ˜ao ´unicos. Adotaremos a notac¸ ˜ao R pT q e RpT q para designarmos o conjunto dos pontos positivamente regulares e simplesmente regulares (quando aplic ´avel) de T , respetivamente. Conv ´em observar que quando T ´e invert´ıvel tem-se RpT q € R pT q com Vi

x  `kjiE j x. Os

espac¸os Vxi e Exi dizem-se os espac¸os de Oseledets, nomenclatura que transita para as res-petivas filtrac¸ ˜oes/decomposic¸ ˜oes. Define-se a multiplicidade do expoente de Lyapunov λipxq

por

kxi  dim Vxi dim Vxi 1

de modo que o espectro de Lyapunov em x ´e o conjunto dos expoentes de Lyapunov em x contados com a sua multiplicidade

Sx: tpλipxq, kxiq : i  1, ..., kpxqu.

Note-se que quando xP RpT q, Vxi  Exi ` Vxi 1e portanto a multiplicidade dos expoentes λipxq

coincide com a respetiva dimens ˜ao dos subespac¸os de Oseledets Ei

x. Os conjuntos R pT q e

RpT q s˜ao T -invariantes: se x ´e regular, ent˜ao T x ´e regular e tem-se

kpT xq  kpxq, λipT xq  λipxq, Apxq  Vxi  VT xi e Apxq  Exi  ET xi .

No Exemplo 1.2, vemos que todos os pontos s ˜ao regulares e, al ´em disso, que os expoentes de Lyapunov n ˜ao dependem de x. Com a mesma abordagem, vemos que a regularidade ´e uma caracter´ıstica de pontos peri ´odicos mas em geral ´e dif´ıcil verificar se um determinado ponto ´e ou n ˜ao regular. Assim, ´e leg´ıtimo questionarmo-nos sobre o tamanho de R pT q e RpT q. H´a duas maneiras cl ´assicas de abordar esta quest ˜ao, sempre que fac¸am sentido: uma pela via topol ´ogica e outra pela via da medida, n ˜ao coincidentes normalmente. Citando [24] ou [37], situac¸ ˜oes como a do Exemplo 1.2 s ˜ao muito especiais, acontecendo somente para aplicac¸ ˜oes particulares. Nos mesmos textos se refere que, no exemplo do cociclo din ˆamico, pontos regula-res formam frequentemente um conjunto de primeira categoria de Baire (at ´e mesmo finito) e por-tanto um conjunto magro segundo essa perspetiva. A resposta pela via da medida ´e o conte ´udo do Teorema de Oseledets. Este afirma que, sob uma condic¸ ˜ao de integrabilidade razo ´avel, a situac¸ ˜ao ´e precisamente a oposta: pontos regulares formam um conjunto de probabilidade total. Vamos apresentar duas vers ˜oes deste teorema: a primeira, mais fraca, ´e para transformac¸ ˜oes gerais do espac¸o de probabilidade, referente `a regularidade positiva R pT q, a que chamaremos

(29)

por esse motivo vers ˜ao unilateral; uma segunda, para transformac¸ ˜oes invert´ıveis e a regulari-dade em RpT q, que por analogia se designar´a vers˜ao bilateral. Suporemos tamb´em que o sistema ´e erg ´odico. Usando a decomposic¸ ˜ao erg ´odica e alguns cuidados t ´ecnicos extra no tra-tamento das quest ˜oes de mensurabilidade, seria poss´ıvel demonstrar vers ˜oes n ˜ao erg ´odicas das que em seguida enunciamos. A ergodicidade simplificar ´a um pouco a argumentac¸ ˜ao sem com isso esconder o aspeto e as dificuldades essenciais do teorema.

Teorema B. (Oseledets) Seja pX, A, µq um espac¸o de probabilidade de Lebesgue e T uma transformac¸ ˜ao erg ´odica de X. Seja A : X Ñ GLpR, dq uma aplicac¸˜ao mensur´avel satisfazendo log }A1} P L1pµq. Nestas condic¸˜oes, existem n´umeros reais λ1 ¡    ¡ λk e, em µ-quase

todo o ponto xP X, h´a uma ´unica filtrac¸˜ao linear

Rd Vx1 ¡ Vx2 ¡    ¡ Vxk¡ Vxk 1 t0u

tal que, para todo 1¤ i ¤ k, se tem 1. Apxq  Vxi  VT xi e 2. lim nÑ8 1 nlog}A pnqpxq  v i}  λipxq ô viP VxizVxi 1.

Al ´em disso, os espac¸os Vi

x dependem de forma mensur ´avel do ponto x do espac¸o.

(30)

A depend ˆencia mensur ´avel dos espac¸os de Oseledets, geralmente n ˜ao cont´ınua, ´e um ponto delicado que remetemos para o Cap´ıtulo 3. A vers ˜ao bilateral tem conclus ˜oes substancialmente mais fortes. Esta ´e talvez aquela a que se associa mais frequentemente o resultado de Osele-dets, e fornece algo mais do que a regularidade tal como foi introduzida na Definic¸ ˜ao 1.4. Teorema C. (Oseledets) Seja pX, A, µq um espac¸o de probabilidade de Lebesgue e T uma transformac¸ ˜ao erg ´odica invert´ıvel e bimensur ´avel de X. Seja A : X Ñ GLpR, dq uma aplicac¸˜ao mensur ´avel satisfazendo log }A1} P L1pµq. Ent˜ao existem n´umeros reais λ1 ¡    ¡ λk e, em

µ-quase todo o ponto xP X, h´a uma ´unica decomposic¸˜ao

Rd Ex1`    ` Exk

tal que, para todo 1¤ i ¤ k, se tem 1. Apxq  Ei x ET xi e Vxi  `kjiE j x, 2. lim nÑ8 1 nlog}A pnqpxq  v i}  λipxq ô viP Exizt0u e 3. lim nÑ8 1 nlog sin?p à iPI ETinx, à jPJ ETjnxq  0, sempre que I X J  H.

Al ´em disso, os espac¸os Ei

x dependem de forma mensur ´avel do ponto x do espac¸o.

(31)

As decomposic¸ ˜oes de Oseledets t ˆem uma estrutura muito rica com mais propriedades do que as que surgem no teorema. Em primeiro lugar, os espac¸os de Oseledets Ei

x t ˆem dimens ˜ao

constante 1¤ di ¤ d (q.t.p.), o que acontece tamb´em na vers˜ao unilateral. A convergˆencia em 2

´e uniforme sobre a bola unit ´aria Bi

x : tvi P Exi : }vi}  1u. Isso pode ser expresso em termos

da norma e da conorma restritas por lim nÑ8 1 nlog}A pnq |Ei xpxq}  limnÑ8 1 nlog mpA pnq |Ei xpxqq  λi.

O comportamento da norma e conorma (globais) ´e dado pelo Teorema de Furstenberg-Kesten. De facto, os expoentes λmaxpxq e λminpxq que este fornece correspondem respetivamente aos

expoentes extremais λ1pxq e λkpxq, mais precisamente,

λ1  lim nÑ 8 1 nlog}A pnqpxq}  lim nÑ8 1 nlog mpA pnqpxqq e λk lim nÑ 8 1 nlog mpA pnqpxqq  lim nÑ8 1 nlog}A pnqpxq}.

Diretamente relacionada com o ponto 3, h ´a ainda uma outra propriedade que envolve detemi-nantes. Concretamente, pondo Dx

À jPJ E j xtem-se lim nÑ8 1 nlog| detpA pnqpxq |Dxq|  ¸ jPJ λjdim Exj  ¸ jPJ λjdj.

A t´ıtulo informativo, referimos que a f ´ormula acima tem conex ˜oes com a entropia do sistema, se tomada sobre os expoentes positivos (bastar ´a mencionar a f ´ormula de Pesin [30] e a desi-gualdade de Ruelle [32]) e costuma ser introduzida na noc¸ ˜ao de regularidade (de Lyapunov) cl ´assica como dissemos, embora isso seja algo que este trabalho n ˜ao pretende aprofundar.

Em ambas as vers ˜oes, notamos que a satisfac¸ ˜ao da condic¸ ˜ao de integrabilidade, os expo-entes de Lyapunov, o seu n ´umero e os subespac¸os de Oseledets, n ˜ao s ˜ao afetados se substi-tuirmos a m ´etrica de Riemann}  }x fixada (neste caso, a partir da norma em Rd) por qualquer

outra m ´etrica de Riemann}  }xequivalente no sentido em que existe cP L1pµq tal que ecpxq}v}x¤ }v}x¤ ecpxq}v}x, para µ-q.t.p. xP X e todo v P Ex.

Como ´e bem sabido, m ´etricas de Riemann independentes de x pertencem `a mesma classe e por isso os objetos do (e o) teorema n ˜ao dependem da norma escolhida em Rd.

Para concluir esta apresentac¸ ˜ao, referimos que o Teorema de Oseledets ´e v ´alido ainda em contextos mais gerais mencionados na introduc¸ ˜ao: como dissemos, ´e v ´alido para medidas

(32)

invariantes n ˜ao necessariamente erg ´odicas, caso em que os expoentes, o seu n ´umero e mul-tiplicidades se tornariam func¸ ˜oes mensur ´aveis em x definidas q.t.p.; ´e v ´alido para espac¸os de probabilidade gerais e ainda para fibrados n ˜ao triviais; h ´a tamb ´em vers ˜oes para fluxos (tempo cont´ınuo): aconselhamos [2] para um tratamento completo. Uma abordagem mais ambiciosa e aprofundada requereria uma incurs ˜ao nas t ´ecnicas da ´algebra exterior (pot ˆencias exteriores, valores singulares, etc.), o que est ´a para al ´em dos objetivos desta dissertac¸ ˜ao.

(33)

Teorema Erg ´

odico Subaditivo

Neste cap´ıtulo, demonstraremos o Teorema de Kingman. Comec¸amos por dar uma breve explicac¸ ˜ao do esquema da prova para facilitar a leitura, seguida de diversas secc¸ ˜oes que pen-samos conter os pontos-chave da mesma, incluindo breves coment ´arios sobre os lugares para-lelos na literatura. Para al ´em do texto original de A. ´Avila e J. Bochi ([3], 2009), acompanhamos de perto os textos de M. Viana ([38], 2010) e ([27], 2013).

2.1

Estrutura da prova

Recordamos que uma sucess ˜ao subaditiva de func¸ ˜oes mensur ´aveis φn : X Ñ R para um

transformac¸ ˜ao mensur ´avel T : XÑ X que preserva a probabilidade µ tem um limite importante associado L lim nÑ8 1 n » φndµ inf nPN 1 n » φndµP R Y t8u,

sob a hip ´otese de integrabilidade φ1 P L1pµq. O Teorema de Kingman [A] diz que para uma tal sucess ˜ao, o limite

φpxq  lim

nÑ8

φnpxq

n

existe em quase todo o ponto e que em m ´edia ´e igual a L. Para analisarmos a exist ˆencia e o comportamento de φ num conjunto de probabilidade total vamos comec¸ar por definir as func¸ ˜oes mensur ´aveis φ, φ : X Ñ R Y t8u por

φpxq  lim inf nÑ8 φnpxq n e φ pxq  lim supnÑ8 φnpxq n . 21

(34)

´

E facto elementar de an ´alise que φpxq existe (podendo eventualmente ser infinito) se e somente se φpxq  φ pxq, caso em que φpxq  φpxq  φ pxq. Posto isto, demonstraremos antes a coincid ˆencia φ  φ em quase todo o ponto. Claramente, φ ¤ φ , relac¸˜ao que permanece inalterada tomando os integrais,³φdµ¤³φ dµ. A ideia da prova consiste em demonstrar as seguintes desigualdades invertidas

»

φ dµ¤ L ¤ »

φdµ.

Isto implica n ˜ao s ´o³φdµ³φ dµe portanto φ φ em quase todo o ponto, como tamb´em que a m ´edia de ambas ´e L, o que prova o teorema. Como veremos, a desigualdade do lado direito - na verdade, provaremos mesmo a igualdade - ´e a mais importante, de tal modo que a do lado esquerdo ´e uma consequ ˆencia desta, um ingrediente possivelmente inovador desta prova. Numa primeira fase, assumiremos que as func¸ ˜oes satisfazem uma certa hip ´otese de limitac¸ ˜ao inferior, que ser ´a removida a posteriori atrav ´es de um m ´etodo de truncagem, num contexto que ficar ´a claro no correr da demonstrac¸ ˜ao. De resto, a abordagem de mostrar as desigualdades invertidas est ´a j ´a presente, por exemplo, em [14] e [18], sendo uma ideia algo padr ˜ao, mas engenhosa.

2.2

Lema de Fekete

Por uma quest ˜ao de completude do trabalho, inclu´ımos aqui uma demonstrac¸ ˜ao do Lema de Fekete que pode ser encontrada de forma semelhante em diversos textos (por exemplo, [27]). Lema 2.1. (Fekete) SepanqnPN ´e uma sucess ˜ao subaditiva, ent ˜ao

lim nÑ8 an n  infnPN an n P r8, a1s.

Prova: A ess ˆencia e dificuldade do lema restringem-se a sucess ˜oes reais: de facto, se ak 8

para algum k, ent ˜ao a subaditividade implica que

al¤ alk ak 8, para todo l ¡ k,

pelo que a igualdade ´e trivialmente satisfeita ( ´e8 em ambos os lados). Cingimo-nos portanto ao caso em que an P R, para todo o natural n. Dados n, k P N, aplicamos um algoritmo da

(35)

divis ˜ao modificado a n e k, obtendo uma escrita ´unica n qnk rn, onde qnP N0 ´e o quociente

e rn P t1, . . . , ku o resto (no algoritmo tradicional, o resto toma o valor 0 em vez de k, mas isto

´e apenas uma conveni ˆencia para o que se segue, resultante de excluirmos o zero da nossa definic¸ ˜ao de n ´umero natural). Usando a subaditividade de acordo com esta escrita retira-se que

an n ¤ aqnk arn qnk rn ¤ qnak arn qnk rn . (2.1)

Uma vez fixado k, rnfica limitado, donde se deduz que qn Ñ 8 quando n Ñ 8. ´E igualmente

verdade que arn fica tamb ´em limitado, pois toma apenas um n ´umero finito de valores. Logo

tomando o limite superior em ambos os membros de (2.1) obtemos

lim sup nÑ8 an n ¤ ak k.

Isto vale para todo o kP N. Assim, esta relac¸˜ao permite concluir lim sup nÑ8 an n ¤ infkPN ak k ¤ lim infnÑ8 an n,

o que finaliza a prova, tendo em conta a relac¸ ˜ao entre os limites inferior e superior. 2

Nota 2.1. O Lema de Fekete, tal como o pr ´oprio Teorema de Kingman, tem tamb ´em uma vers ˜ao para sucess ˜oespanqnP R Y t8u superaditivas, i.e., tais que

am n¥ am an, para todo m, nP N. Nesse caso, lim nÑ8 an n  supnPN an n P ra1,8s.

Basta para o efeito tomar a sucess ˜ao sim ´etricapanqne aplicar o Lema de Fekete (subaditivo),

um truque que ocorrer ´a algumas vezes neste texto.

2.3

Invari ˆancia

Uma vez explicado o esquema da demonstrac¸ ˜ao, vamos analisar apT, µq-invariˆancia de φ expressa no item 1 do teorema. Para tal, usaremos o seguinte resultado elementar de Teoria Erg ´odica, cuja prova optamos por incluir.

(36)

Lema 2.2. SejapX, A, µq um espac¸o de probabilidade e T : X Ñ X uma transformac¸˜ao men-sur ´avel que preserva µ. Se f : X Ñ R ´e uma func¸˜ao mensur´avel tal que f  T pxq ¥ fpxq para todo xP X, ent˜ao f  T  f em µ-quase todo o ponto.

Prova: Dado aP R arbitr´ario, seja Ca tx P X : fpxq ¥ au. Por hip´otese,

Ca€ T1pCaq  tx P X : f  T pxq ¥ au.

Como T preserva µ, temos µpCaq  µpT1pCaqq donde se retira que µpT1pCaqzCaq  0.

Observe-se que T1pCaqzCa  tx P X : fpxq   a ¤ f  T pxqu. Consideremos o conjunto A  tx P X :

fpxq   f  T pxqu. Queremos verificar que µpAq  0 e, para tal, tomemos uma enumerac¸˜ao dos racionaistrnun e definamos, para cada natural n, An  tx P X : fpxq   rn ¤ f  T pxqu. Pelo

que foi visto, µpAnq  0 e portanto, µpA 

”8

n1Anq ¤

°8

n1µpAnq  0 ñ µpAq  0, como

quer´ıamos mostrar. 2

Usando a subaditividade da sucess ˜ao de func¸ ˜oespφnqn, temos

φ: lim inf nÑ8 φn n ¤ lim infnÑ8 φ1 φn1 T n  φ T.

Decorre do lema anterior que φ T  φ em µ-quase todo o ponto, valendo considerac¸ ˜oes an ´alogas para φ . Logo, a func¸ ˜ao φ descrita acima ´e pT, µq-invariante. De facto, podemos apurar um pouco mais este resultado. Mais geralmente, para cada jP N, vale

φpxq ¤ φ Tjpxq,

pelo que φ  φ Tj em µ-quase todo o ponto (note-se que Tj preserva µ quando o mesmo sucede para T ). Uma vez que a intersec¸ ˜ao numer ´avel de conjuntos com probabilidade total tem ainda probabilidade total, o conjunto

I  tx P X : φpxq  φ Tjpxq, para todo j P Nu

tem tamb ´em probabilidade total. Dito de outro modo, φ φ ´e constante ao longo das ´orbitas por T de quase todos os pontos.

(37)

2.4

Resultado principal

Vamos apresentar o resultado que ´e considerado pelos autores de [3] como o corac¸ ˜ao da prova, ou seja, o seu ingrediente fundamental, vis´ıvel j ´a em [36]. Ele servir ´a, em primeiro lugar, para provar a (des)igualdade L¤³φdµe, por consequ ˆencia, tamb ´em³φ dµ¤ L.

Hip ´otese de limitac¸ ˜ao. Vamos assumir inicialmente que a sucess ˜aopφn{nqnPN est ´a

uniforme-mente limitada inferioruniforme-mente, i.e., existe um n ´umero real c¡ 0 tal que φn

n ¥ c , para todo n P N. (2.2)

Isto implica em particular que φ ¥ c. Esta hip´otese ser´a mantida na demonstrac¸˜ao de ambas as desigualdades invertidas e do resultado principal para a seu tempo ser removida por um processo de truncagem.

Considerac¸ ˜oes iniciais. Antes disso, vamos introduzir alguma notac¸ ˜ao conveniente. Dado ¡ 0, considere-se a sucess˜ao de conjuntos pEkqkPNdefinida por

Ek: tx P X :

φjpxq

j ¤ φpxq , para algum j P t1, . . . , kuu.

Trata-se de uma sucess ˜ao mon ´otona crescente, ou seja, Ek€ Ek 1 para todo kP N.

Observe-se que cada xP X pertence a Ek para todo k suficientemente grande (veja-se a definic¸ ˜ao de

φ, que neste caso n ˜ao toma o valor8), pelo que X ”8k1Ek. Logo

lim kÑ8µpEkq  µp 8 ¤ k1 Ekq  µpXq  1.

Vamos definir tamb ´em a sucess ˜ao de func¸ ˜oes ψk : XÑ R Y t8u por

ψkpxq  $ & % φpxq , se x P Ek φ1pxq, se xR Ek .

Uma vez que se x R Ek por definic¸ ˜ao φ1pxq ¡ φpxq , temos em geral a desigualdade

ψk ¥ φ , para todo o natural k.

O resultado. A estimativa fundamental desta prova, a que nos referimos h ´a pouco, consiste no seguinte:

(38)

Lema 2.3. Para µ-quase todo o xP X e todos os naturais n ¡ k, φnpxq ¤ nk1¸ i0 ψkpTixq n¸1 ink maxtψk, φ1upTixq. (2.3)

Prova: Comec¸amos por observar que o conjunto de probabilidade total a considerar em que vale a estimativa acima ´e precisamente o conjunto I dos pontos xP X em cujas ´orbitas φ ´e constante (que um tal conjunto tem probabilidade total, foi explicado anteriormente). Para ver isso, seja xP I arbitr´ario. Vamos associar a x um sucess˜ao de inteiros

m0¤ n1  m1¤ n2  m2 ¤   

constru´ıda indutivamente da seguinte maneira: m0  0 (condic¸˜ao inicial) e, em geral, uma vez

constru´ıdo mj1, definimos nj como o menor inteiro maior ou igual a mj1 tal que Tnj P Ek.

Notamos que tal inteiro pode n ˜ao existir, caso em que o processo p ´ara e a sucess ˜ao ´e finita. De outro modo, caso exista, ent ˜ao h ´a algum sj P t1, . . . , ku tal que

φsjpT

njxq

sj ¤ φpxq 

(2.4)

simplesmente por definic¸ ˜ao de Ek. Definimos mj  nj sj, o que permite agora continuar o

processo. Com isto fica explicada a construc¸ ˜ao. Conv ´em subinhar que se mj1¤ i   nj, ent ˜ao

por construc¸ ˜ao Tix R E

k, nada se podendo inferir de an ´alogo para nj ¤ i   mj. No entanto,

no que se seguir ´a teremos bem presente a distinc¸ ˜ao entre o comportamento de T nestes dois tipos de intervalos de tempo para a avaliac¸ ˜ao das func¸ ˜oes ao longo da ´orbita de x.

(39)

Para n ¡ k, seja l o maior inteiro tal que ml ¤ n. N˜ao podemos a priori comparar nl 1

com n (ver Figura 2.1), mas sabemos certamente por construc¸ ˜ao que nl 1 k ¡ n, pois de

outro modo haveria uma contradic¸ ˜ao com a definic¸ ˜ao de ml. Numa primeira tentativa de obter

a estimativa (2.3), vamos usar a subaditividade depφnqnde acordo com a decomposic¸ ˜ao n 

pn  mlq pml nlq pnl ml1q    pn1 m0q, obtendo assim φnpxq ¤ φnmlpT mlpxqq l ¸ j1 φnjmj1pT mj1pxqq l ¸ j1 φmjnjpT njpxqq. (2.5)

Para majorarmos a primeira parcela e as parcelas do primeiro somat ´orio no lado direito desta desigualdade, usamos outra vez a subaditividade, de modo que

φnjmj1pTmj1pxqq ¤

n¸j1

imj1

φ1pTipxqq,

para todo j  1, . . . , l, mantendo-se uma desigualdade em termos inteiramente an´alogos para φnmlpT

mlpxqq. Desta feita, (2.5) transforma-se em

φnpxq ¤ ¸ iPI φ1pTipxqq l ¸ j1 φmjnjpT njpxqq, (2.6)

onde I”lj1rmj1, njqYrml, nq (usamos a notac¸˜ao ra, bq para designar o conjunto dos inteiros

ztais que a¤ z   b). Para majorarmos as parcelas do ´ultimo somat´orio em (2.5), vamos usar a relac¸ ˜ao (2.4) (reescrevendo sj  mj nj), a const ˆancia de φao longo da ´orbita de x e o facto

de ψkpxq ¥ φpxq . Isto fornece, respetivamente, o seguinte

φmjnjpT njpxqq ¤ m¸j1 inj pφpTipxq q ¤ m¸j1 inj ψkpTipxqq.

Cada uma das parcelas φ1pTipxq) do primeiro somat´orio em (2.6), mais precisamente aquelas

em que i P ”lj1rmj1, njq Y rml, mintnl 1, nuq, ´e igual respetivamente a ψkpTipxqq, porque

Tipxq R Ek nesses casos. Juntamente com esta ´ultima majorac¸ ˜ao, podemos agora obter a

partir de (2.6) φnpxq ¤ mintnl¸1,nu1 i0 ψkpTipxqq n¸1 inl 1 φ1pTipxqq.

Como nl 1¡ nk por construc¸˜ao e maxtψk, φ1upxq ¥ φ1pxq por definic¸˜ao, a prova da estimativa

(40)

2.5

Igualdade inferior

Neste ponto, vamos provar aquilo a que chamamos igualdade inferior, por analogia com o conceito de limite inferior nela envolvido. Aqui surgem os m ´etodos de truncagem, ideias tamb ´em presentes em [18] e [36]. Em concreto,

Lema 2.4. Sob as hip ´oteses do Teorema de Kingman [A], temos »

φdµ L. (2.7)

Prova: Numa primeira inst ˆancia, mantemos a hip ´otese de limitac¸ ˜ao uniforme das func¸ ˜oes ex-pressa em (2.2). Comec¸amos por observar que, nessas condic¸ ˜oes, φ ´e integr ´avel e vale ³

φdµ ¤ L . Com efeito, pelo Lema de Fatou [A.3], aplicado `a sucess˜ao de func¸˜oes n˜ao negativaspφn{n cqnPN, temos precisamente

» φ c dµ¤ lim inf nÑ8 » φn n c dµ L c.

No sentido de provarmos a desigualdade mais importante³φdµ ¥ L, para da´ı concluirmos (2.7) neste caso, vamos usar o resultado principal. Integrando a desigualdade (2.3), e dividindo por n, decorre 1 n » φndµ¤ n k n » ψkdµ k n » maxtψk, φ1u dµ.

A partir deste ponto jogamos com a informac¸ ˜ao assint ´otica. Fixado k e tomando o limite quando nÑ 8 em ambos os lados da inequac¸˜ao, obtemos L ¤³ ψkdµ. Observe-se que

» ψkdµ » Ek ψkdµ » XzEk ψkdµ » Ek φ  dµ » XzEk φ1dµ.

Logo, quando kÑ 8 obtemos L ¤³ φ  dµ³ φdµ (recordem-se as propriedades da sucess ˜aopEkqkPN). Como ¡ 0 ´e arbitr´ario, conclu´ımos finalmente que L ¤

³

φdµ. Isto prova (2.7), sob a hip ´otese de limitac¸ ˜ao uniforme.

Demonstremos agora o caso geral (i.e., sem a hip ´otese de limitac¸ ˜ao). Com esse intuito, usaremos um m ´etodo de truncagem considerando, para cada c¡ 0, as func¸˜oes

(41)

Por definic¸ ˜ao, para cada nP N, temos φcn{n ¥ c. Al´em disso a sucess˜ao de func¸˜oes pφcnqn ´e

subaditiva e tem-se φc

 lim infnÑ8φcn{n. Usando o que j´a provamos para o caso da limitac¸˜ao

uniforme, » φcdµ Lc: inf n 1 n » φcndµ.

Note-se que c¤ c1implica φcn¥ φnc1e tamb ´em φc¥ φc1. Assim, para cada nP N fixado, obtemos uma sucess ˜ao mon ´otona de func¸ ˜oes

φ1n¥ φ2n¥    ¥ φjn¥   

tal que limjφjn φn. Aplicando o Teorema da Converg ˆencia Mon ´otona [A.4],

» φndµ lim jÑ8 » φjndµ inf j » φjndµ inf c¡0 » φcndµ,

obtendo analogamente ³ φdµ  infc¡0

³

φcdµ. Para concluir, juntamos estas observac¸ ˜oes numa s ´o, o que fornece

» φdµ inf c¡0 » φcdµ inf c¡0infn 1 n » φcndµ inf n cinf¡0 1 n » φcndµ inf n 1 n » φndµ L.

Isto conclui a demonstrac¸ ˜ao. 2

Nota 2.2. Observamos, tal como o ´e feito em [3], que a igualdade inferior³φdµ  L, por si s ´o, j ´a implica o Teorema Erg ´odico de Birkhoff. Este fen ´omeno deve-se ao facto da sucess ˜ao sim ´etrica das somas de Birkhoff

φn  n¸1 j0

φ Tj

ser tamb ´em aditiva, e portanto subaditiva, pelo que aplicando a igualdade inferior a esta su-cess ˜ao se deduz

»  lim sup nÑ8 φn n dµ » lim inf nÑ8  φn n dµ L ô » φ dµ L

de onde decorre φ φ em µ-quase todo o ponto. Esta ’simetria da aditividade’ n˜ao vale em geral para sucess ˜oes subaditivas: de facto, as sucess ˜oes aditivas s ˜ao precisamente aquelas para as quais a pr ´opria sucess ˜ao e a sucess ˜ao sim ´etrica s ˜ao subaditivas.

(42)

2.6

Desigualdade superior

`

A semelhanc¸a do que fizemos na secc¸ ˜ao anterior, vamos provar a seguinte desigualdade superior, que envolve agora o limite superior. ´E neste ponto que a prova se revela possivelmente inovadora, usando para o efeito a igualdade inferior j ´a obtida e explorando somas de Birkhoff convenientes de modo que a subaditividade n ˜ao ´e afetada pela passagem ao sim ´etrico.

Lema 2.5. Sob as hip ´oteses do Teorema de Kingman e de limitac¸ ˜ao em (2.2), temos »

φ dµ¤ L. (2.9)

Comec¸amos por introduzir dois resultados t ´ecnicos auxiliares: o primeiro deles ´e um facto standard de Teoria Erg ´odica que servir ´a para provar o segundo, mais relevante dentro deste contexto.

Proposic¸ ˜ao 2.1. Seja T : XÑ X uma transformac¸˜ao mensur´avel que preserva µ. Ent˜ao, para toda a func¸ ˜ao φP L1pµq, tem-se

lim

nÑ8

1 nφ T

npxq  0, para µ-q.t.p. x P X. (2.10)

Podemos obter este resultado como consequ ˆencia imediata do Teorema Erg ´odico de Birkhoff aplicado a ψ φ  T  φ. Uma vez prentendendo obter uma prova do Teorema Erg´odico Suba-ditivo completamente independente deste, usaremos antes o Lema de Borel-Cantelli [A.1]. Prova da Proposic¸ ˜ao 2.1: ´E necess ´ario e suficiente mostrar que, para cada ¡ 0 fixado,

A: tx P X : |φpTnxq| ¥ n para infinitos valores de n P Nu

tem probabilidade zero. Assim, A  ”8i1A1

i tem tamb ´em probabilidade zero, e ´e claro que

qualquer xP XzA  “8i1pXzA1

iq satisfaz (2.10): se x P XzA, ent ˜ao |φpT

npxqq|{n    para

todo n suficientemente grande, por definic¸ ˜ao.

No sentido de provar o que nos propomos, comec¸amos por observar que

µptx P X : |φpTnpxqq| ¥ nu  µptx P X : |φpxq| ¥ nu  µptx P X : 1|φpxq| ¥ nu simplesmente porque T preserva µ. Usando o crit ´erio de integrabilidade [A.6], juntamente com a hip ´otese de φP L1pµq, decorre

8 ¸ n1 µptx P X : |φpTnpxqq| ¥ nu  8 ¸ n1 µptx P X : 1|φpxq| ¥ nu ¤ 1 » |φ| dµ   8.

(43)

Aplicando o Lema de Borel-Cantelli, obtemos imediatamente µpAq  0. 2

Lema 2.6. Para qualquer n ´umero natural k fixado, lim sup nÑ8 φkn kn  lim supnÑ8 φn n µ-q.t.p..

Prova: Comec¸amos por observar que a desigualdade ’¤’ ´e imediata pois pφkn{knqn ´e uma

subsucess ˜ao depφn{nqn.

No sentido de provarmos a desigualdade ’¥’, para cada n P N escrevemos n  kqn rn,

onde qn P N0 e rn P t1, . . . , ku. Uma vez que rn est ´a limitado por k (que est ´a fixado) temos

qn Ñ 8 quando n Ñ 8. Assim, da relac¸˜ao n{qn k rn{qnobtemos ent ˜ao n{qnÑ k quando

nÑ 8. Por subaditividade,

φn¤ φkqn φrn T

kqn ¤ φ

kqn ψ T

kqn (2.11)

onde ψ  maxtφ1, . . . , φku ¥ maxtφ1, . . . , φku. Note-se que ψ P L1pµq, pelo que podemos

aplicar o Lema 2.1 para concluir lim

nÑ8

ψ Tkqn

n  0 µ-q.t.p..

No conjunto de probabilidade total onde vale a igualdade acima, dividimos (2.11) por n e toma-mos o limite superior:

lim sup nÑ8 φn n ¤ lim supnÑ8 φkqn n lim supnÑ8 ψ Tkqn n  lim supnÑ8 φkqn n . Uma vez que φkqn

n  qn n  φkqn qn e limnqn{n  1{k , obtemos lim sup nÑ8 φkqn n  lim supqÑ8 φkq kq .

Juntando estas duas ´ultimas conclus ˜oes, a prova fica conclu´ıda. 2 Nota 2.3. Usando o Teorema de Birkhoff, podemos demonstrar alternativamente o Lema 2.6 da seguinte maneira: escrevendo φn φ1n ψnonde φ1n : φn

°n1

j0 φ1 Tj, obtemos φncomo

soma de um processo subaditivo n ˜ao-positivo φ1n, e um processo aditivo ψn 

°n1

j0φ1  Tj.

Segue da subaditividade que φ1n ´e mon ´otona decrescente em n e portanto a igualdade do Lema 2.6 para φ1n ´e v ´alida em todos os pontos. Quanto a ψn, esta decorre do Teorema de Birkhoff.

(44)

Prova do Lema 2.5: Para cada natural k fixado, considerem-se as somas temporais de Birkhoff deφkcom respeito a Tk, i.e., as func¸ ˜oes

Φk,n   n¸1 j0

φk Tjk.

Como foi analisado anteriormente,pΦk,nqn´e uma sucess ˜ao (sub)aditiva de func¸ ˜oes mensur ´aveis

com respeito a Tk. Uma vez que Φk,1  φk ¤ c  k   8, pela hip´otese de limitac¸˜ao, temos

que Φk,1 ´e limitada, logo integr ´avel. Definindo Φk,: lim inf

nÑ8 Φk,n{n, decorre do Lema 2.4 para

estas func¸ ˜oes que

» Φk,dµ lim nÑ8 1 n » Φk,ndµ.

Uma vez que Tkpreserva µ, temos tamb ´em » Φk,ndµ n » φkdµô 1 n » Φk,ndµ  » φkdµ.

Logo, estas duas igualdades fornecem uma terceira: ³Φk,dµ 

³

φkdµ. Por outro lado,

observando que a subaditividade depφnqnimplica φkn¤ Φk,ne usando o Lema 2.6,

kφ : k lim sup nÑ8 φn n  lim supnÑ8 φkn n ¤ lim supnÑ8  Φk,n n  Φk, µ-q.t.p.. Integrando, tem-se k³φ dµ¤³Φk,dµ ³ φkdµ, ou seja, » φ dµ¤ 1 k » φkdµ.

Isto vale para qualquer kP N. Tomando o ´ınfimo em k, temos³φ dµ¤ L. 2

Nota 2.4. N ˜ao seria necess ´aria uma hip ´otese de limitac¸ ˜ao uniforme t ˜ao forte: bastaria apenas que cada func¸ ˜ao φnestivesse limitada por baixo, i.e.,

inf

xPXφnpxq ¡ 8, para todo n P N,

como ´e constatado em [27]. Pretende-se somente salvaguardar a integrabilidade de certas func¸ ˜oes, tendo sempre presente pelo caminho a igualdade inferior (2.7) j ´a obtida.

(45)

2.7

Conclus ˜ao

Finalizamos a demonstrac¸ ˜ao do Teorema Erg ´odico Subaditivo, analisando o caso em que as func¸ ˜oes n ˜ao est ˜ao mais sujeitas a nenhum tipo de limitac¸ ˜ao. Consideremos as func¸ ˜oes φcne φc j ´a definidas em (2.8), bem como

φc  maxtφ , cu.

Tudo o que foi provado at ´e este momento permite concluir que, para todo o c¡ 0 fixado, »

φcdµ »

φc dµP R,

pelo que φc  φc em quase todo o ponto. Uma vez que φc Ñ φ e φc Ñ φ quando c Ñ 8, conclu´ımos que φ  φ em quase todo o ponto e, deste modo, a demonstrac¸˜ao do Teorema Erg ´odico Subaditivo.

(46)
(47)

Teorema Erg ´

odico Multiplicativo

´

E objetivo do presente cap´ıtulo demonstrar os Teoremas de Oseledets B e C. A organizac¸ ˜ao deste cap´ıtulo segue a do anterior, comec¸ando com a explicac¸ ˜ao da estrutura da prova seguida das v ´arias fases (secc¸ ˜oes) que a comp ˜oe. Baseamo-nos essencialmente no texto de J. Bochi ([7], 2008) que por sua vez combina numa ´unica prova elementos de P. Walters ([41], 1993) e de R. Man ˜e ([24], 1987), esta ´ultima reproduzida tamb ´em por M. Viana ([37]).

3.1

Estrutura da prova

Numa primeira inst ˆancia, comec¸amos por provar uma vers ˜ao mais fraca do Teorema B para sistemas n ˜ao necessariamente erg ´odicos (Secc¸ ˜ao 3.2), usando a noc¸ ˜ao de expoente de Lya-punov cl ´assica em termos de limites superiores

λ px, vq  λpx, vq  lim sup

nÑ8

1 nlog}A

pnqpxq  v} P R Y t8u.

Assim definidos, os expoentes existem sempre, pelo que o intuito aqui ´e perceber a construc¸ ˜ao das filtrac¸ ˜oes de Oseledets e as quest ˜oes de mensurabilidade, v ´alidas para o restante da prova. Um trabalho mais sofisticado ser ´a requerido para a realizac¸ ˜ao dos limites q.t.p., ou seja, para a parte existencial que na vers ˜ao anterior n ˜ao constituia obst ´aculo. Para isso estudamos alguma Teoria Erg ´odica de produtos semi-diretos que, em termos pr ´aticos, se traduz na ac¸ ˜ao dos cociclos lineares sobre o espac¸o projetivo euclideano (Secc¸ ˜ao 3.3). Essa ´e uma ideia algo natural porque a natureza intr´ınseca dos expoentes de Lyapunov prende-se com direc¸ ˜oes. Com

(48)

as ferramentas anteriores, a atenc¸ ˜ao ser ´a dirigida para o fibrado minimal do cociclo onde o ob-jetivo ´e imediatamente concretizado (Secc¸ ˜ao 3.4). Para estender indutivamente este racioc´ıno aos (eventuais) demais expoentes, ser ´a necess ´ario construir fibrados complementares de maior crescimento exponencial, com tratamento separado para as vers ˜oes unilateral (Secc¸ ˜ao 3.6) e bilateral (Secc¸ ˜ao 3.7), fazendo um estudo do comportamento subexponencial (Secc¸ ˜ao 3.5).

3.2

Vers ˜ao limite superior

Nesta secc¸ ˜ao, vamos demonstrar uma vers ˜ao mais fraca da vers ˜ao unilateral (Teorema B), a qual chamaremos de vers ˜ao limite superior. O motivo para esta nomenclatura prende-se com a noc¸ ˜ao cl ´assica de expoente de Lyapunov

λpx, vq  lim sup

nÑ8

1 nlog}A

pnqpxq  v} P R Y t8u, (3.1)

com a convenc¸ ˜ao logp0q  8. Para al´em de existirem sempre, estes expoentes gozam de boas propriedades alg ´ebricas de modo a possibilitar uma construc¸ ˜ao clara dos espac¸os de Oseledets. Recordamos que estamos a tomar como modelo de espac¸o de probabilidade de LebesguepX, A, µq um espac¸o m´etrico compacto X com a σ-´algebra dos borelianos A  B completada em relac¸ ˜ao `a probabilidade µ. Propomo-nos provar o seguinte resultado (inspirado em [41]), onde a hip ´otese do espac¸o ser m ´etrico compacto n ˜ao ´e um requerimento essencial, conquanto a probabilidade seja completa.

Teorema 3.1. Sejam pX, A, µq um espac¸o de probabilidade completo e T : X Ñ X uma transformac¸ ˜ao mensur ´avel que preserva µ. Seja A : X Ñ GLpR, dq uma aplicac¸˜ao mensur´avel tal que log }A1} P L1pµq. Nestas condic¸˜oes, em µ-quase todo o ponto x P X, existem k  kpxq

n ´umeros reais λ1pxq ¡    ¡ λkpxq e uma ´unica filtrac¸˜ao linear

Rd Vx1 ¡ Vx2 ¡    ¡ Vxk¡ Vxk 1 t0u

tais que, para todo 1¤ i ¤ k, se tem

1. kpxq  kpT xq, λipxq  λipT xq, Apxq  Vxi  VT xi e

2. λpx, viq  λipxq, sempre que vi P VxizVxi 1.

(49)

3.2.1 Condic¸ ˜ao de integrabilidade

Comec¸amos por analisar o papel que a hip ´otese log }A1pxq} P L1pµq desempenha para

as conclus ˜oes do teorema. Notamos de passagem que esta ´e mais forte do que `a primeira vista possa parecer, no sentido em que

log }A1pxq} P L1pµq ô | log }A1pxq} | P L1pµq ô log}A1pxq} P L1pµq.

Dito isto, vejamos que qualquer uma das condic¸ ˜oes de integrabilidade acima serve para asse-gurar tipicamente a finitude dos expoentes de Lyapunov λpx, vq.

Lema 3.1. Seja pX, A, µq um espac¸o de probabilidade e T : X Ñ X uma transformac¸˜ao mensur ´avel que preserva µ. Seja A : X Ñ GLpR, dq uma aplicac¸˜ao mensur´avel tal que log }A1} P L1pµq. Ent˜ao λpx, vq P R, para quase todo o ponto x P X e todo v P Rdzt0u.

Prova: Trata-se de uma consequ ˆencia do Teorema Erg ´odico de Birkhoff [B.3]. Com efeito, observando que }Apnqpxq  v} ¤ }Apnqpxq}  }v} ¤ pn¹1 i0 }ApTixq}q  }v} e }Apnqpxq  v} ¥ }Apnqpxq1}1 }v} ¥ pn¹1 i0 }A1pTixq}1q  }v}, obtem-se lim sup nÑ8 1 n n¸1 i0

 log }A1pTixq} ¤ λpx, vq ¤ lim sup nÑ8 1 n n¸1 i0 log }ApTixq}.

A condic¸ ˜ao de integrabilidade log }A1} P L1pµq implica que os extremos da desigualdade

acima s ˜ao n ´umeros reais em quase todo o ponto, donde se obtem a conclus ˜ao do lema. 2 Este ´e essencialmente o ´unico papel da hip ´otese log }A1} P L1pµq na vers˜ao limite superior.

De facto, todos os pontos s ˜ao regulares no sentido do Teorema 3.1 (i.e., conquanto os expo-entes possam ser8) e, al´em disso, todos os objetos (expoentes de Lyapunov, seu n´umero e espac¸os de Oseledets) variam mensuravelmente com x P X. Esse ´e o trabalho das pr´oximas subsecc¸ ˜oes.

Conv ´em ainda fazer uma pequena observac¸ ˜ao. Nestes resultados, quando falarmos em propriedades que valham q.t.p., podemos sempre assumir que conjunto onde elas valem ´e

(50)

tamb ´em T -invariante. Este cuidado adicional para garantir a regularidade ao longo das ´orbitas n ˜ao restringe o conte ´udo dos mesmos em termos da medida pois dado um conjunto Y € X tal que µpY q  1, existe Z € Y satisfazendo µpZq  1 e T pZq € Z: basta tomar

Z 

8

£

n0

TnpY q,

o conjunto dos pontos de Y cuja T - ´orbita est ´a contida em Y . Se a transformac¸ ˜ao for invert´ıvel, podemos escolher Z tal que T1pZq  Z. Assim, podemos assumir que o conjunto de probabili-dade total onde os expoentes associados a vetores n ˜ao-nulos s ˜ao finitos ´e tamb ´em T -invariante.

3.2.2 Filtrac¸ ˜oes lineares

Dirigimos agora a atenc¸ ˜ao para as propriedades alg ´ebricas principais dos expoentes λpx, vq. Uma vez desejando estudar o seu comportamento em cada fibra Ex Rde analisar a maneira

como se obt ˆem os subespac¸os de Oseledets Vxi, ´e mais expressivo escrev ˆe-los na forma λxpvq,

pr ´atica que adotaremos por um momento. Antes disso, deixamos os seguintes factos sobre sucess ˜oes de n ´umeros reais que ser ˜ao ´uteis para refer ˆencia futura.

Lema 3.2. SejampanqnPN epbnqnPN sucess ˜oes de n ´umeros reais n ˜ao negativos. Ent ˜ao

lim sup

nÑ8

1

nlogpan bnq  maxtlim supnÑ8

1

nlog an, lim supnÑ8

1

nlog bnu e lim inf

nÑ8

1

nlogpan bnq ¥ maxtlim infnÑ8

1

nlog an, lim infnÑ8

1

nlog bnu.

Lema 3.3. Seja λ : X Rd Ñ R Y t8u a func¸˜ao expoente de Lyapunov definida por (3.1).

Ent ˜ao, para todos xP X, α P Rzt0u e v, w P Rd, valem 1. λxp0q  8,

2. λxpα  vq  λxpvq,

3. λxpv wq ¤ maxtλxpvq, λxpwqu, com igualdade se λxpvq  λxpwq, e

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