UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA LINGUAGEM
LINHA DE PESQUISA: POÉTICAS DA MODERNIDADE E DA PÓS-MODERNIDADE
GENI MENDES DE BRITO
MORNA:
IDENTIDADE E LITERATURA EM CABO VERDE
Natal - RN 2019
GENI MENDES DE BRITO
MORNA:
IDENTIDADE E LITERATURA EM CABO VERDE
Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito para a obtenção do título de Doutor em Literatura Comparada.
Orientadora: Profª. Doutora Tânia Maria de
Araújo Lima.
Co-orientadoras: Profª. Doutora Simone
Caputo Gomes, Profª. Doutora Doris Wieser.
Natal- RN 2019
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI
Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes - CCHLA Brito, Geni Mendes de.
Morna, Identidade e Literatura em Cabo Verde / Geni Mendes de Brito. - Natal, 2019.
199f.
Tese (doutorado) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2019. Orientadora: Profa. Dra. Tânia Maria de Araújo Lima. Coorientador: Profa. Dra. Simone Caputo Gomes.
1. Literatura Cabo-verdiana. 2. Identidade. 3. Morna-poesia e prosa - I. Lima, Tânia Maria de Araújo. II. Gomes, Simone
Caputo. III. Título.
RN/UF/BS-CCHLA CDU 821.111(665.8).09
Este trabalho é dedicado a Maria Mendes da Silva — D. Deliza (in
memoriam) —, minha mãe, que tanto me apoiou e me incentivou para
ver este sonho (dela e meu) realizado.
Ao meu pai, Gonçalo Ferreira de Brito (in memoriam), homem que tinha a “palavra de rei”, “Tão ético, tão puro, um coração valente”.
AGRADECIMENTOS
A Deus, antes de tudo.
À professora Doutora Tânia Maria Araújo Lima, minha orientadora, pela confiança e liberdade que me impulsionaram nesta pesquisa.
À CAPES, por me contemplar com uma Bolsa de Doutorado, no país, e uma de “doutorado sanduíche”, pelo financiamento dos meus quatro anos de pesquisa, sem o qual eu não conseguiria dispor de recursos para viabilizar este projeto.
À professora Doutora Simone Caputo Gomes, minha coorientadora da Universidade de São Paulo, fonte inesgotável de conhecimento sobre a literatura de Cabo Verde, pela leitura enriquecedora e profunda desde os primeiros textos de minha tese, em minha qualificação, e pelas sugestões que me ajudaram na escrita do trabalho. Por ela, toda minha estima.
À minha coorientadora da Universidade de Lisboa, Doutora Doris Wieser, pela abertura com que me recebeu e pela forma como me ajudou na minha inserção no meio acadêmico em Portugal; pelos encontros e partilhas sobre a questão da identidade cultural dos países africanos de Língua Portuguesa, pelo empenho em ler meus textos e partilhar conhecimentos.
À professora Doutora Isabel Lobo, da Universidade Lusófona de Humanidades em Mindelo — Ilha de São Vicente — Cabo Verde, pela leitura atenta dos capítulos iniciais da tese em minha qualificação, pela competência nas discussões sobre a literatura cabo-verdiana e pela partilha de material de pesquisa sobre as Mornas.
Agradeço de coração à professora amiga Irene Severina Rezende da Universidade Estadual do Mato Grosso (UNEMAT), a quem tenho grande apreço e consideração, por ter sido aquela quem, por primeiro, orientou-me e deu todo suporte para a realização desta pesquisa.
Em Cabo Verde, às amigas e “manas do coração” Maria do Céu Baptista, Emanuela Tavares, Tuca Tavares, Antônia Veiga, Dulce Helena Levy, que foram um apoio sincero e fundamental para obter significativa referência bibliográfica para meu trabalho de pesquisa. Agradeço, em especial, à Emanuela e à Tuca Tavares pelo acolhimento tão fraterno, em suas
casas, pela amizade e carinho que me dispensaram na minha primeira visita a Cabo Verde em 2015.
Em Portugal, agradeço o acolhimento e recepção agradável à amiga de Conceição Horta e seu irmão José Alberto Horta, que me apresentaram um pouco do lado cultural e histórico do mundo lusitano. Agradeço, ainda, a tão grande ajuda de me terem enviado os livros de pesquisa de Lisboa para o Brasil.
Na Bélgica, agradeço o apoio fraterno e sincero de Edith Pirard, irmã da Congregação de Notre Dame, que sempre me impulsionou ao conhecimento e a lutar pelas metas estabelecidas. Meu agradecimento para Claire Dewerchin, Cécile Jacquérie, pela amizade e apoio.
Na Itália, o meu agradecimento para Antonieta Michielletto, amiga de longas datas por sempre estar presente nas minhas lutas e caminhadas. Pelo apoio e amizade sempre presentes, muito obrigada!
Na França, agradeço de modo especial, à Chantal Poncet, grande interlocutora das “Letras francesas”, pelos importantes e tão intensos diálogos de conhecimentos partilhados ao longo da escrita de minha tese.
No Brasil, especificamente em Natal (RN), agradeço imensamente à Professora Paula Pires, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e a seu esposo Evandro, pelo sempre alegre acolhimento em sua casa, pela alegria e pelo humor sempre partilhado na boa convivência e apoio.
Às amigas de Teresina, em especial à Flávia Sampaio e à Cleuma Magalhães, colegas de Mestrado, sempre presentes, pelo apoio emocional e material de que lancei mão em muitas ocasiões. A vocês, um abraço grande e sempre próximo. Agradeço, ainda, à Iracema, Joana, Emília, Elda, Edna, Dodô, Ana Lúcia Gomes, Marilene, Marilúcia, Maurilene, Mônica Batista, Lúcia Fernandes, Genésia Xavier, Núbia Lima pelo apoio e pela nossa amizade.
Agradeço às amigas de outros estados brasileiros, que me apoiaram nessa empreitada, como Cleusa Denz (Fortaleza- CE), Fátima Jerônimo (Fortim- CE), Giseuda Rocha e Lourdes Barreto (São Paulo- SP), Eva Ferreira (Curitiba- PR), Maria Regina Soletti (Tangará da Serra- MT), Maria Cilene (Tangará da Serra- MT), Laine Andrade (Cuiabá- MT), Simone Gadelha
(Fortaleza- CE), Irmã Annette Dumoulin (Juazeiro- CE) e a tão querida amiga Josilda e família (Canoa Quebrada- CE)
Agradeço, também, aos colegas professores Élio Ferreira, Sebastião Teixeira, Assunção Sousa, que sempre me apoiaram de forma fraterna; a vocês, toda minha gratidão.
Um especial agradecimento aos membros da minha banca, ao professor Dr. Amarino Oliveira de Queiros (da UFRN), Professor Dr. Sebastião Cardoso (da UERN), à Professora Dra. Rosilda Alves Bezerra (da UEPB) e a professora Dra. Érica Antunes que, com dedicado empenho e observação, ajudaram-me a enriquecer e aprofundar minha pesquisa sobre Cabo Verde e a Literatura presente nas ilhas.
Por fim, um agradecimento especial aos meus queridos irmãos Gumercindo, Vicença, Regina, Gerson, Gabriel e Ribamar, pelo apoio sincero e amigo, pela compreensão das longas etapas de ausência, pelo apoio material e fraterno.
RESUMO
A literatura, em Cabo Verde, conheceu um significativo desenvolvimento, no final do século
XIX, contando com o impulso dos jornais que dinamizavam a criação ficcional e poética. Mas, foi no século XX, com o surgimento da revista Claridade (1936) que se alicerçou o projeto literário cabo-verdiano. Nessa revista, os escritores do arquipélago procuram fixar-se em temáticas predominantemente crioulas, como o drama das secas e da fome, da emigração e da evasão, da insularidade e da saudade, expressas através da Morna, gênero musical que, conforme Simone Caputo Gomes (2008), assume um lugar privilegiado na literatura cabo-verdiana e estabelece um diálogo com a poesia e com a prosa de ficção com as quais ela interage, constituindo um diversificado percurso no panorama literário. Dada essa importância, propõe-se, nesta pesquisa, traçar a forma como poetas e ficcionistas cabo-verdianos definem, caracterizam e apresentam a Morna ora como tema principal de suas obras, ora como um dos elementos que conferem a identidade cabo-verdiana aos textos, atribuindo-lhe uma função narrativa, lírica, descritiva e dramática. Para a construção do presente trabalho: “Morna, identidade e literatura, em Cabo Verde”, a proposta metodológica concentrou-se, na pesquisa documental e bibliográfica, com base em fontes literárias, históricas, antropológicas. A fundamentação teórico-crítica foi realizada a partir dos estudos de Juliana Brás Dias, Benilde Justo Caniato, Manuel Ferreira, Moacyr Rodrigues, Simone Caputo Gomes, Vasco Martins, Gabriel Mariano. Percebe-se que, dentre os diversos gêneros musicais presentes em Cabo Verde, a Morna é, sem dúvida, a forma musical e poética mais cultivada, em todas as ilhas do arquipélago, uma vez que ela simboliza sentimentos cabo-verdianos, como a tristeza, a angústia e as dores, que, sob o peso da dominação colonial e cultural, resistem e se manifestam, principalmente, através da língua crioula, símbolo maior que ressignifica o universo cultural cabo-verdiano.
ABSTRACT
Literature in Cape Verde experienced a significant development at the end of the 19th
century, relying on the impulse of the newspapers that dynamized its fictional and poetic creation. However, it was in the twentieth century, with the emergence of the magazine Claridade (1936) that the Cape Verdean literary project was consolidated. In this magazine, the writers of the Archipelago try to focus, predominantly, on Creole themes, such as: the drama of droughts and their consequences, emigration and evasion, insularity and longing, recurrent themes told and sung through Morna- a musical genre, which assumes a privileged place in Cape Verdean literature and establishes a dialogue with the poetry, prose of fiction. Things that affects it and with which it interacts, constituting, thus, a diversified course in the literary Creole panorama. Knowing this importance, we propose in this research, to outline how poets and fictionists define, characterize and present Morna as the main theme of their work, or as one of the elements that grant the Cape Verdean identity to their texts, outlining their lyric, descriptive and dramatic narrative functions. In order to write the present work "Morna, Identity and Literature in Cape Verde" - our methodological proposal focuses on a documentary and bibliographic research, based on literary, historical and anthropological sources. The theoretical-critical basis was developed from the studies of Juliana Brás Dias, Benilde Justo Caniato, Manuel Ferreira, Moacyr Rodrigues, Simone Caputo Gomes, Vasco Martins, Gabriel Mariano, among others. We found out that among various musical genres present in Cape Verde, Morna is undoubtedly the most cultivated musical and poetic form in all the islands of the archipelago. It symbolizes Cape Verdean sentiment of sadness, anguish and pain, which, even under the weight of colonial and cultural domination, resists and manifests itself, mainly through the language (the Creole), a major symbol that unifies the Cape Verdean universe .
RÉSUMÉ
La littérature au Cap-Vert a connu un développement significatif à la fin du XIXe siècle grâce à l’impulsion des journaux qui ont dynamisé la création fictive et poétique. Mais, c’est au XXe siècle, avec l’apparition du magazine “Claridade”-(1936) qu’a été fondé le projet littéraire du Cap-Vert. Dans ce magazine, les écrivains de l’archipel cherchent à s'attacher à dans des thèmes essentiellement créoles, comme le drame des sécheresses et de la famine, de l'émigration et de l'évasion, de l'insularité et de la nostalgie, exprimés à travers la Morna le genre musical qui d'après Simone Caputo (2008) assume une place privilégiée dans la littérature cap-verdienne et établit un dialogue avec la poésie et la prose de fiction avec lesquelles elle interagit en constituant un parcours diversifié dans le paysage littéraire. Compte tenu de cette importance, il est proposé dans cette recherche de retracer la manière dont les poètes et les écrivains de fiction cap-verdiens définissent, caractérisent et disposent de la morna comme thème principal dans leurs œuvres, ainsi que comme l'un des éléments qui donnent l’identité cap-verdienne à leurs textes, en leur conférant une fonction narrative, descriptive, lyrique et dramatique. Pour la construction de ce travail « Morna, identité et littérature au Cap-Vert », la proposition méthodologique se concentre sur une recherche documentaire et bibliographique, fondée sur des sources littéraires, historiques et anthropologiques. Le fondement théorique et critique a été réalisé à partir des études de Juliana Brás Dias, Bénilde Justo Caniato, Manuel Ferreira, Moacyr Rodrigues, Simone Caputo Gomes, Vasco Martins, Gabriel Mariano. Nous nous rendons compte que, parmi les différents genres musicaux présents au Cap-Vert, la Morna est sans doute la forme poétique et musicale la plus cultivée dans toutes les îles de l’archipel, puisqu’elle symbolise la sensibilité capverdienne comme la tristesse, l’angoisse et la douleur, qui, sous le poids de la domination coloniale et culturelle, résiste et se manifeste principalement par la langue créole, symbole majeur qui ressignifie l’univers culturel cap-verdien.
Morna
Aí vem o canto dolente
O canto que evoca coisas distantes que Só existem além do pensamento e deixam vagos
Instantes de nostalgia... Ó mar azul Ó mar cor di céu
Aí vem de novo o canto dolente e doloroso Irrompe dali perto. De onde uma luz mortiça
De candeeiro esbate os pares entorpecidos Quando se extingue e deixa um travo de melancolia
Ó mar azul Ó mar di sodade
- Mamãe, B. Léza está fazendo umas mornas. Troveiro do povo, B. Léza ia direto ao coração.
- Esta fala só do mar
E de repente, lembranças e receios tão vivos [...]. (QUEJAS, 1998).
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 14
1. A IDENTIDADE CULTURAL CABO-VERDIANA ... 22
1.1- Identidade cultural: um processo complexo e dinâmico ... 22
1.2 Construindo a identidade cultural cabo-verdiana ... 29
1.2.1 Mestiçagem e hibridação ... 33
1.2.2 Insularidade e emigração ... 53
1.2.3 A língua cabo-verdiana ... 60
1.3- Música cabo-verdiana e identidade ... 66
1.3.1 A Morna como expressão identitária ... 73
1.3.2 A trajetória histórica da Morna ... 79
2. MORNA E POESIA ... 83
2.1 Morna e sua expressão lírica ... 87
2.2. A Morna de Eugénio Tavares ... 112
3- A MORNA E A PROSA LITERÁRIA CABO-VERDIANA ... 122
3.1 A morna no conto cabo-verdiano ... 122
3.1.1 - “Galo cantou na Baía” - conto de Manuel Lopes ... 125
3.1.2 - A morna em “Terra Trazida”, de Manuel Ferreira ... 135
3.1.3 A Morna em “Mornas eram as noites”, de Dina Salústio ... 151
3.2- A morna no romance cabo-verdiano ... 155
3.2.1 “Chiquinho” - de Baltasar Lopes ... 156
3.2.2 – “Os Flagelados do Vento Leste” - de Manuel Lopes ... 164
3.2.3 Hora Di Bai, de Manuel Ferreira. ... 171
CONCLUSÃO ... 181
INTRODUÇÃO
Morna: de música crioula a Patrimônio Imaterial da Humanidade.
“Há só uma terra que conhece a Morna e só um povo conhece-lhe os versos – Cabo Verde e o homem cabo-verdiano.”
(CRUZ; 1933)
Afirma-se que Cabo Verde é a terra da Morna pelo destaque que o gênero tem, na sociedade cabo-verdiana e pela expansão que alcançou dentro e fora das ilhas, o que deu a ela um significativo papel na construção da identidade nacional. Diferentes interpretações são discutidas na busca de definir esse gênero musical e poético, como neste trabalho, que se propõe pensar a Morna e a forma como é interpretada, definida e caracterizada n’alguma prosa de ficção e n’alguma poesia de pertença cabo-verdiana.
O encanto pela literatura cabo-verdiana, especificamente, pela Morna, impulsionou o interesse pelo campo em que esta tese se insere. Na música cabo-verdiana, a morna é a impressão mais forte retido a partir do primeiro contato com a história e a cultura de Cabo Verde, no ano de 1994. A motivação para escrever sobre a Morna surgiu por meio de um grupo de estudantes cabo-verdianos oriundos da ilha de Santiago, na Universidade de Louvain-la-Neuve, na Bélgica. A partir da audiência de uma Morna cantada por Cesária Évora, entendeu-se que a arte de cantar está intimamente ligada com a proeza de extrair da alma os sentimentos mais sublimes, mais genuínos, principalmente, quando se canta interpretando o sentimento de uma nação. “Na música cabo-verdiana, a voz é um elemento fundamental que complementa os instrumentos, e ambos, em harmonia, dão corpo à expressão cultural tão característica de Cabo Verde” (NÓS GENTI, 2012, p.1)
A morna, enquanto modalidade musical que expressa a identidade cabo-verdiana, ganhou força com o reconhecimento internacional por meio da voz de Cesária Évora, consagrada, primeiramente em Cabo Verde, e depois difundida na diáspora, nos novos territórios em que os emigrantes cabo-verdianos iam reconstruindo suas vidas, readaptando-se. Por esse processo de reconhecimento, a música cabo-verdiana já não pertence exclusivamente aos cabo-verdianos, mas a um patrimônio musical de toda a humanidade.
Por esse percurso marcado por referências e registros muito antigos de compositores e intérpretes de renome e estilos próprios de interpretação, que constituíram períodos estéticos, “o Governo de Cabo Verde aprovou, em 2012, uma resolução que classifica a Morna como
Património Histórico e Cultural Nacional, sendo esse um primeiro requisito para torná-la Património Imaterial da Humanidade”1 (JACINTO, 2017, p. 387). Proclamando essa decisão, no dia 27 de fevereiro de 2018, um grupo de parlamentares cabo-verdianos do Movimento para a Democracia (MpD) aprovou, por unanimidade, a data de 3 de dezembro como Dia
Nacional da Morna, reverenciando o dia em que nasceu Francisco Xavier da Cruz, apelidado
por B. Léza (1905 – 1958). “Troveiro do povo”, como é carinhosamente conhecido, B. Léza é considerado um dos maiores compositores e intérpretes desse gênero musical e destaca-se como um dos obreiros da Morna.
O musicólogo cabo verdiano Gabriel Moacyr Rodrigues (2015) escreve que “influenciado pela música brasileira e argentina – B. Léza inovou a morna ao introduzir o meio tom, com os acordes de passagem, antes pouco usados nesse gênero musical”. Natural da cidade do Mindelo (capital da ilha de São Vicente), B.Léza compôs dezenas de Mornas, entre as quais se destacam Eclipse, Miss Perfumado, Resposta de Segredo Cu Mar e Lua Nha
Testemunha; esta foi composta no leito do hospital, dias antes da sua morte a 14 de Junho de
1958.
Conforme o presidente do Instituto do Património Cultural (IPC) de Cabo Verde, Hamilton Jair Fernandes, são grandes as expectativas para, até ao final do ano, a música cabo-verdiana imortalizada por vozes como B. Léza, Cesária Évora, Titina, Bana, Ildo Lobo, Tito Paris, entre muitos outros, obtenha a classificação, tal como aconteceu com o Fado em Portugal, em 2011.
Já o atual Ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, o cabo-verdiano Abraão Vicente, pontua que o Dia Nacional da Morna pretende homenagear compositores, músicos e intérpretes, além de reconhecer a sua importância e chamar a atenção da sociedade cabo-verdiana para a necessidade de valorizar esse gênero musical e poético. Ao mesmo tempo, acrescenta o Ministro, essa data representa uma “consagração da Nação”, pois Cabo Verde “abraça a morna reconhecendo nela um legado e patrimônio imaterial de todos” (NÓS GENTI, 2018, p. 3).
Em entrevista à agência Sapo-MG: Lusa (2019, p.1), o especialista na elaboração de processos de candidatura a Património Imaterial da Humanidade da UNESCO, o cabo-
1
Distinção criada em 1997 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura para a proteção e o reconhecimento do patrimônio cultural imaterial, abrangendo as expressões culturais e as tradições que um grupo de indivíduos que preserva em respeito da sua ancestralidade, para as gerações futuras, gerando um sentimento de identidade e continuidade. São exemplos de patrimônio imaterial: os saberes, os modos de fazer, as formas de expressão, celebrações, as festas e danças populares, lendas, músicas, costumes e outras tradições ( Fonte: Unesco- Paris, 2003).
verdiano e antropólogo Paulo Lima, que fez parte da equipe de elaboração do dossiê de candidatura da Morna a Património Imaterial da Humanidade, entregue na sede da UNESCO, em Paris, a 27 de março de 2018, afirma que a candidatura pretendeu traduzir “um povo que vê na Morna uma entidade insular, arquipelágica, mas também uma comunidade espalhada pelo mundo e que tem, nesse tipo de produção, um dos pilares, senão o mais conhecido, ao nível da música”.
Com essa mesma intenção de preservar a Morna e salvaguardar sua história, diferentes projetos de estudo e investigação estão em andamentopara serem implementados em todo o arquipélago como, por exemplo, a valorização da Língua cabo-verdiana e a sua importância no cotidiano do ilhéu, bem como a proposta de reestruturar os centros culturais e os monumentos ligados às figuras de ilustres escritores da cultura cabo-verdiana. Entre as ações práticas que serão desenvolvidas fora de Cabo Verde, está previsto "um grande concerto na sede da UNESCO, em Paris, com o fito de levar a essência da alma cabo-verdiana que é a Morna", assim como apresentar uma maior dinâmica relacionada aos “espaços” ligados à Morna, como aconteceu com o fado em Portugal, que catapultou lugares como Alfama, Mouraria, Madragoa ou o Bairro Alto para o 'top' das preferências dos turistas e também lisboetas.
Para o Ministro Abraão Vicente, “a Morna é o género musical que configura uma forma mais completa daquilo que representa a alma e o percurso do povo cabo-verdiano”. Considera, ainda, que a Morna,
“Nasce não só num momento histórico na ilha da Boavista, mas como resultado do nosso percurso como povo, que passou pela descoberta, pela chegada dos portugueses, pelo triângulo de tráfico de escravos, a descoberta da própria África, em que Cabo Verde foi sempre um trampolim, o período colonial e o período da luta pela independência. A morna acompanhou todos os movimentos literários e intelectuais de Cabo Verde, mas também acompanhou os movimentos de resistência, de imigração e de emigração” (ONU NEWS, 2018, p.1).
Um dos principais símbolos de Cabo Verde, a Morna está presente em todas as ilhas do arquipélago e fortalece, em cada um dos ilhéus, o sentimento de pertencimento a uma comunidade. Por essa razão, é tomada como manifestação própria do domínio da cultura popular cabo-verdiana, pois, além de expressar, ela própria, inúmeros aspectos da cultura cabo-verdiana, tem sido apropriada em diferentes releituras que a tomam como inspiração para pensar Cabo Verde e sua gente. É nesse contexto que o ministro Abraão Vicente insiste e
reafirma que “a consagração da Morna como Patrimônio da Humanidade será o reconhecimento do percurso histórico do povo cabo-verdiano” (ONU NEWS, 2018, p. 2).
No campo literário, pode-se afirmar que a Morna tem se constituído em um ícone da literatura cabo-verdiana e, por isso, surge como produto de uma terra, de um clima e das condições de vida de um povo. De Eugénio Tavares aos poetas da atualidade envolvidos seja em uma atmosfera de alegria, seja em sentimentos nostálgicos, a composição da Morna eterniza-se na literatura, quando se conta a história de Cabo Verde, descrevem-se suas paisagens e o estado de alma de sua gente. É oportuno aqui trazer a discussão sobre o arquipélago, a diáspora e as questões da identidade cabo-verdiana, com relação à qual se destacam as produções no campo da literatura, relembrando que Cabo Verde viu desenvolver-se, em suas terras, desde meados do século XIX, um rico espaço literário que possibilitou ao arquipélago sobressair-se no cenário colonial e pós-colonial.
Ainda hoje, é preciso dizer que a literatura se relaciona diretamente com as manifestações existenciais do homem, pois, por meio de sua linguagem própria e de seu caráter sonoro e visual, exprime situações que um indivíduo pode ou não experimentar. Frente a essa consciência, investigadores e estudiosos de Cabo Verde buscam compreender as questões sobre a formação da identidade do cabo-verdiano.
A história de Cabo Verde emerge da fusão de diferentes civilizações europeias e africanas que, ao longo dos séculos, formou uma cultura de valores afro-europeus, de população mestiça e identidade sui generis que une seus habitantes em todas as latitudes.
Nos países africanos de língua portuguesa, é sobejamente conhecido o papel da literatura diante da identidade e da realidade do continente. As literaturas angolana, guineense, são-tomeense e moçambicana continuam refletindo sobre a realidade dos recentes estados nacionais. Os escritores desses países buscam novos caminhos e novas experiências poético-ficcionais e, embora ligados às questões coloniais e pós-coloniais, procuram encontrar as respostas para as inquirições que afligem a sociedade nos tempos atuais. A literatura cabo-verdiana, em particular, não foge à regra. A respeito de algumas questões que persistem na discussão entre pesquisadores em torno dos conceitos de literatura, identidade e cultura cabo-verdianas, nas quais este estudo se centra, reconhece-se, nessa literatura, a importância do conceito de identidade como incorporador das representações de Cabo Verde e dos cabo-verdianos sobre si próprios e sobre os outros.
É importante informar que a escolha do tema da tese, intitulada “Morna, Literatura e
professora Doutora Simone Caputo Gomes, da Universidade de São Paulo, que já havia desenvolvido o tema em capítulos de suas obras “Cabo Verde: literatura em chão de
cultura” (2008), com a chancela da Biblioteca Nacional de Cabo Verde, e A symphony of flavors: food and music in concert (Newcastle upon Tyne, UK, 2015) e propôs o
desenvolvimento mais minucioso do assunto em campo mais vasto.
A proposta inicial deste trabalho era desenvolver uma pesquisa sobre o “banzo, a morna e o fado” como uma relação possível no âmbito da literatura, em que se pretendia destacar, em textos literários, históricos, sociológicos, antropológicos e em letras de música, o seu propósito de denúncia da desculturação sofrida por povos que foram escravizados no Brasil e em Cabo Verde. Porém, por ser a Morna o gênero musical que mais se expandiu dentro e fora de Cabo Verde, optou-se por analisar o papel que ela desempenha, nas obras de poetas e ficcionistas cabo-verdianos como Baltasar Lopes, Manuel Ferreira, Manuel Lopes e Dina Salústio, entre outros.
Quanto à estruturação metodológica da pesquisa desenvolvida, passou-se pelo levantamento bibliográfico das diferentes obras sobre a história das sociedades africanas, especificamente a história de Cabo Verde, da sua cultura, da sua literatura e do seu povo. Durante muito tempo, Cabo Verde serviu como entreposto de escravos retirados da África e enviados, posteriormente, para a América do Sul, o que deu origem, muito cedo, a uma população mestiça. Essa nova população compôs um grupo intermediário entre os dois polos da pirâmide composta por brancos e negros. Sua história emerge da fusão com outras civilizações, especificamente de origem europeia e a africana.
Nesse contexto, este estudo buscou privilegiar uma abordagem, na linha dos estudos culturais, que tem caracterizado os estudos africanos, destacando, sobretudo, a questão da identidade no contexto cabo-verdiano. A justificativa ampara-se na ambiguidade da palavra e, mesmo, no entendimento de que a identidade é um problema em meio à crise existencial em que vive o homem moderno, ao seu deslocamento, à incerteza. Por isso, conforme (MERCER, 1990), o anseio em falar sobre identidade é um sintoma da pós-modernidade que se propaga contemporaneamente. Mas, nem sempre foi assim, conforme Bauman (2005, p. 22-23): “antes do século XX, os debates acerca da identidade eram unicamente um objeto de meditação filosófica”.
Portanto, este trabalho de investigação parte de um resgate teórico que aborda a identidade cabo-verdiana com questões inseridas no espaço das discussões dos Estudos
Culturais, sob a perspectiva de Stuart Hall e de Zygmunt Bauman, além da contribuição latino-americana para a discussão da identidade com Néstor García Canclini.
Os procedimentos técnicos da investigação envolveram o levantamento de textos teóricos basilares e sua confrontação e diálogo com os que já faziam parte do acervo bibliográfico pesquisado. Com isso, a intenção foi obter uma maior compreensão dos conceitos que são articulados na pesquisa, em busca de contribuições para o desenvolvimento e os ajustes do capítulo da tese concernente ao eixo epistêmico pesquisado. Além da pesquisa em bibliotecas, houve participação em Congressos Nacionais e Internacionais, Colóquios e Palestras sobre a cultura e literatura cabo-verdiana.
A proposta metodológica para a construção deste trabalho de pesquisa concentrou-se, principalmente, na pesquisa documental e bibliográfica, aproveitando fontes literárias já conhecidas além de outras obras que foram indicadas pela orientadora e co-orientadora. Nesta pesquisa, houve também a contribuição direta de escritores cabo-verdianos, como Dina Salústio e Filinto Elísio, em entrevista sobre a temática da cabo-verdianidade, tema ricamente relacionado à identidade cultural do povo de Cabo Verde.
Quanto à teoria, a pesquisa foi feita a partir dos pares literatura e cultura, literatura e história, literatura e língua, e literatura e música, tendo como referência as ideias de Stuart Hall (2003) sobre a crise de identidade relacionada ao deslocamento geográfico. Segundo o teórico, o deslocamento do indivíduo, no mundo social em que vive, é um deslocamento de si mesmo. A questão da identidade está presente na produção dos escritores e poetas cabo-verdianos, a partir do reconhecimento de suas origens crioulas, da mestiçagem étnica e cultural do seu povo, que sensibiliza a intelectualidade africana do continente. Esses poetas e escritores resistem à opressão colonial e expressam em suas produções literárias suas marcas identitárias.
Prosseguindo com essa proposta metodológica, contemplou-se, através dos estudos de Alfredo Margarido (1980), a literatura das nações africanas de língua portuguesa e de Manuel Veiga (1998)a respeito dos estudos sobre a literatura e a insularidade em Cabo Verde.Sobre a temática, a escritora Dina Salústio afirma que “a literatura verdiana revela o cabo-verdiano, ele próprio, que só se compreende na insularidade” (SALÚSTIO, 1998, p. 42). Para conhecer esses sentimentos de viver a insularidade, recorreu-se à obra de Gabriel Mariano, que propicia uma imersão na cultura cabo-verdiana, assim como foi realizado um percurso pelos cenários históricos e culturais do arquipélago através da obra de Danny Spínola (2004).
Para penetrar nos estudos específicos sobre a Morna, fez-se amiudada leitura dos textos de pesquisadores como Manuel Ferreira (1973), Simone Caputo Gomes (2008), Moacyr Rodrigues e Isabel Lobo (1996), Antônio Germano Lima (2001), Vasco Martins (1989), dentre outros autores que se destacam no campo da literatura cabo-verdiana, na produção lírica e discursiva, criando uma literatura de caráter nacional, sem esquecer o “fincar os pés no chão” e a exaltação da realidade cabo-verdiana.
Por fim, essa proposta metodológica conduziu as questões da crítica literária e seu diálogo com a história e as inquirições sociais, políticas e culturais. Para responder a esses questionamentos, recorreu-se a autores como Benjamim Abdala Junior, Manuel Ferreira, José Luís Hopffer Almada, Gabriel Mariano, Pires Laranjeira, Elsa Rodrigues dos Santos, críticos que se destacam pela relevância literária e pela intervenção cultural indiscutível que tiveram para este estudo, assim como pela interpelação que fazem da literatura, da cultura e da sociedade, da política, da história e da crítica literária em geral.
A abordagem sobre “Morna, Identidade e Literatura Cabo-Verdiana” será apresentada através de três capítulos. O primeiro, intitulado A Identidade Cultural Cabo Verdiana, tem como objetivo retratar as especificidades do arquipélago de Cabo Verde, sua origem, formação social, política e cultural, reconhecendo em sua formação identitária um contínuo processo de construção. Para responder a esse objetivo, um percurso histórico sobre as ilhas foi apresentado, como também diferentes elementos que constituem a formação da identidade cabo-verdiana, como a miscigenação e o hibridismo cultural, dois fatores que se configuram como resultado da contribuição de europeus e africanos e como produto do “caldeamento étnico e cultural de origem diversa que se processou nas ilhas” (ALFAMA, 2006, p. 91).
Ver-se-á, também nesse capítulo, que a insularidade e a emigração se revelam como duas das vertentes temáticas mais presentes, no percurso cultural identitário do povo, e da literatura cabo-verdiana. Dentre outros elementos que contribuíram para a construção da identidade do arquipélago, está a língua cabo-verdiana e a música, especificamente, a Morna.
Esses temas, ao longo dos séculos, vêm sendo objeto de discussão, reflexão e, por vezes, de calorosos debates envolvendo intelectuais das Letras, cientistas sociais, pesquisadores e acadêmicos. Proveniente do cruzamento entre colonizadores europeus e escravizados africanos, o cabo-verdiano é “confrontado”, nos mais variados debates e discussões que enveredam pelos caminhos da História, da Antropologia e da Sociologia, desde a colonização do arquipélago até os dias atuais.
O segundo capítulo tem como título Morna e Poesia; seu objetivo é apresentar a Morna e o diálogo que ela estabelece com a poesia tanto de Eugénio Tavares, considerado um dos maiores compositores de mornas e do lirismo clássico em língua cabo-verdiana, como de outros escritores de diferentes gerações, que definem, caracterizam e discorrem sobre este gênero. Para esse propósito, vê-se que a Morna, “enquanto modalidade musical assume um lugar privilegiado na literatura” (GOMES, 2008, p. 150), e estabelece um discurso interativo com a poesia, constituindo, assim, um diversificado percurso no panorama literário cabo-verdiano, que leva poetas a apresentarem a Morna ora como tema principal de suas obras, ora como um dos elementos que conferem a identidade cabo-verdiana.
Considera-se importante informar que, nesse capítulo, o método utilizado foi a observação e comparação referente à forma como os poetas cabo-verdianos definem e caracterizam a Morna, lançando mão das figuras de estilo, como as metáforas e comparações que se corporificam numa poesia baseada nas emoções, em diferentes estilos de linguagem, por meio dos quais transmitem-se sentimentos traduzidos em palavras.
O terceiro capítulo, A morna e a prosa literária cabo-verdiana, pretende demonstrar que a Morna e as temáticas nela recorrentes são também apresentadas, definidas e caracterizadas em contos e romance. Para a concretização desse propósito, foram analisados cinco contos e três romances de diferentes autores. Para esses ficcionistas, a Morna é ilustrada como “testemunha” da sociedade cabo-verdiana, presente, desde a história da cruel colonização, passando por uma dramática relação com a natureza.
Por fim, as temáticas desta pesquisa estão explicitamente relacionadas aos mais árduos problemas enfrentados pelos cabo-verdianos, como a seca e seus efeitos devastadores, a fome, a miséria, a falta de esperança e expectativa, o “querer ficar e ter que partir”, esse querer bipartido que gera o desejo de emigrar para a “terra longe” em busca de melhores condições de vida. Assim, a saga de Cabo Verde é contada e cantada, na Literatura, à luz da evocação da Morna.
1. A IDENTIDADE CULTURAL CABO-VERDIANA
“O humanismo da nossa crioulidade tem a dor da escravatura, a seiva da Europa, o trabalho e a tenacidade da diáspora espalhada no mapa, a cultura e a sabedoria da África no mundo [...] Estas são as características de nossa Identidade islenha.”
(VEIGA, 2005, p. 15)
1.1- Identidade cultural: um processo complexo e dinâmico
Nas últimas décadas, as narrativas e as questões associadas à origem do cabo-verdiano, assim como da realidade identitária do arquipélago e da construção da Nação em Cabo Verde, tem sido objeto de discussão, reflexão e, por vezes, de calorosos debates envolvendo intelectuais das Letras, cientistas sociais, pesquisadores e acadêmicos. E, em torno da demonstração das diferentes possibilidades de compreensão dessa temática, analisam-se as especificidades do arquipélago, desde sua origem, chegando à sua formação identitária sempre inacabada e em contínua construção. Proveniente do cruzamento entre colonizadores europeus e escravos africanos, os cabo-verdianos são “confrontados” nos mais variados debates e discussões que enveredam pelos caminhos da História, da Antropologia e da Sociologia, desde a colonização do arquipélago até os dias atuais.
A história de Cabo Verde nos põe frente a uma sociedade construída a partir de um regime escravocrata implementado pelos colonizadores portugueses, que perdurou desde os primórdios da ocupação das ilhas, entre 1460-1462, até o início do último quartel do século XIX. Os habitantes do arquipélago de Cabo Verde, composto de ilhas oceânicas e com uma cultura híbrida, são fruto da fusão de diversos povos oriundos da Europa e da África, permeados por diversas línguas e diferentes culturas que participaram da sua formação social e geraram a identidade cabo-verdiana ou a “caboverdianidade”.
O termo “identidade”, por “sua própria natureza, está sempre em questão” (MILES, 1999, p. 2). Em qualquer circunstância, apresenta-se como uma questão complexa, ainda mais em se tratando da identidade cabo-verdiana, “resultante do contato de culturas feito nas condições brutais e alienantes da escravatura e da colonização” (DUARTE, 1998, p. 383). Marcada por diásporas, fugas, exílios e busca por melhores condições de vida, a identidade cabo-verdiana, “decorreu de fatos históricos e culturais e de uma consciência nacional sobre o que é ser cabo-verdiano” (MADEIRA, 2015, p. 14).
A partir da formação geográfica e territorial e da própria evolução histórica da sociedade cabo-verdiana, pode-se falar de várias identidades, uma vez que estão associadas, principalmente na sua base, duas civilizações e realidades distintas: a europeia – sobretudo a portuguesa e os traficados como escravizados oriundos de diferentes zonas da costa africana, que, hoje em dia, pertencem a países como Senegal, Gâmbia, Serra Leoa, e das enseadas dos “Rios da Guiné”, ou “Rios de Cabo Verde”, que, desde o século XVI, representavam a maioria populacional da região (PEIXEIRA, 2003, p. 24).
Desse entrelaçamento de civilizações, surge o povo cabo-verdiano, resultado inicialmente do encontro entre europeus e africanos que, diretamente, contribuíram no processo de povoamento do arquipélago possibilitando o surgimento de uma língua, assim como de variadas manifestações culturais que, ao longo desta pesquisa, serão apresentadas.
O conceito de identidade incorpora as representações de Cabo Verde e dos cabo-verdianos sobre si próprios e sobre os outros. Baseados em indagações sobre quais os elementos que foram hibridados para construir a ideia da cabo-verdianidade e como foram interpretados, pode-se chegar às manifestações culturais da crioulidade que caracterizariam a expressão artística do que é ser cabo-verdiano no arquipélago e na diáspora. Para tanto, partir-se-á a definir como se configura a identidade cultural em geral e, posteriormente, como se plasma a identidade cultural cabo-verdiana em específico, assim como os elementos que identificam o cabo-verdiano tanto na diáspora quanto nas ilhas.
O termo “identidade” abrange, hoje, uma multiplicidade de significados, pois tem assumido o percurso próprio na história das Ciências Sociais e, consequentemente, tem se adaptado às mudanças discursivas. Deriva desse fato a variação terminológica do conceito, que passa por expressões como “imagem”, “representação” e “conceito de si”, em geral, abordando conteúdos como “conjunto de traços”, de “imagens” e “sentimentos” que o indivíduo reconhece como fazendo parte dele próprio. Maria das Graças Jacques, no seu artigo intitulado “Identidade” (2011), informa que, na literatura norte-americana, o termo consagrado é self ou self-concept, correspondendo a “conceito de si”; já a tradição europeia privilegia a noção de “representação de si” (JACQUES, 2011, p. 160).
Várias teorias ilustram o vocábulo “identidade”, relacionando-o ao conceito de “comunidade” ou de “grupo”, de “igual” e de “diferente”. Contudo, essa identidade está representada pelo nome, pelo pronome “eu” ou por outras predicações como aquelas referentes ao papel social do sujeito. Sob esse ponto de vista, a identidade se refere a um
conjunto de representações que responde à pergunta “quem és” (JACQUES, 2011, p. 160-161).
Atualmente, o conceito de identidade, ao assumir uma multiplicidade de sentidos, dá conta da complexidade desse fenômeno, tornando sua abordagem multidisciplinar. Interessa, assim, a praticamente todas as disciplinas e a diferentes sociedades dispersas, além de ser usado para indicar situações de continuidade de um indivíduo ou de um grupo, uns e outros considerados como parte de um contexto social. Tanto para os Estudos Culturais como para a História, os estudos sobre identidade têm se concentrado nas sociedades contemporâneas, resultado do processo de globalização e de outros fenômenos do mundo moderno.
Para a britânica Woodward, “a globalização envolve uma interação entre fatores econômicos e culturais, causando mudanças nos padrões de produção e consumo, as quais, por sua vez, produzem identidades novas e globalizadas” (WOODWARD, 2004, p. 20). Efetivamente, a globalização começou com o colonialismo e a escravatura, mas Cabo Verde continua a ser atingida pelos processos de globalização moderna no pós-independência.
Na atualidade, “o nosso mundo, e a nossa vida, vêm sendo moldados pelas tendências conflitantes da globalização e da identidade” (CASTELLS, 1999, p. 17); em outras palavras, as identidades sofrem impactos com o processo da globalização, que interfere diretamente na vida pessoal e nas dinâmicas culturais das sociedades. A globalização, “enquanto complexo de processos de forças de mudanças” (HALL, 2015, p, 39), tem o poder de deslocar e transformar identidades. Daí a importância de conhecer os impactos que esse fenômeno econômico e cultural produz nas questões relacionadas à identidade.
Para Manuel Castells, (1999, p. 22), a identidade é entendida como “fonte de significado e experiência de um povo” e se caracteriza por uma construção cultural do significado por um ator social ou coletivo, construído através de elementos da história, da geografia e de elementos relacionados às instituições e memórias individuais e coletivas. Da experiência de vida dos membros dessa comunidade, surge uma pluralidade de identidades que consiste numa trincheira de resistência e sobrevivência construída por atores em posição desvalorizada e estigmatizadas por uma ideologia de poder dominante.
Interpretada a partir de diferentes olhares, a identidade é conceituada por alguns autores como “sentimento pessoal”, ou seja, as identidades são analisadas como atributos específicos do indivíduo que o identificam como “pertencente a um determinado grupo” ou categoria (GIDDENS, 1991). A identidade mostra-se como uma partilha de aspectos comuns, seja a um território histórico ou terra de origem, assim como a mitos, memórias, cultura,
economias comuns com características específicas do indivíduo e de seu pertencimento a uma determinada categoria ou grupo. Nesse caso, a identidade é um processo de edificação de significados a partir de uma base cultural em que o indivíduo se sente inserido.
A identidade é construída na relação entre o “eu” e o “outro”. O “outro”, na concepção da Sociologia, é a própria “sociedade”; melhor explicando, a identidade centra-se na interação do indivíduo com a sociedade. Para Anthony Giddens, a identidade é construída em um contexto de múltiplas escolhas e diferentes estilos de vida (GIDDENS, 2002, p. 13). Do “eu” e do “outro”, surgem duas variações ou percepções possíveis da identidade: a pessoal e a social (FEARON, 2013, p. 3).
A identidade pessoal está ligada a uma construção individual do conceito de si, definida como um conjunto de atributos específicos do indivíduo, como as crenças, os desejos, ou os princípios de ação que ele considera poder distingui-lo socialmente de forma relevante, trazendo-lhe particular orgulho e orientando o seu comportamento de tal forma, que ele não saberia como agir ou o que fazer sem tais atributos. A identidade pessoal garante uma individualização quando representa os limites do “eu” e do “outro”, seja esse “outro” uma pessoa ou um mundo externo. Dessa forma, para a caracterização de um ser como “único”, é preciso compará-lo com os “demais”.
No contexto cabo-verdiano, os debates sobre a identidade e a percepção que o ilhéu tem de si ainda são motivo de conflitos, pois se trata de discussões complexas sobre a herança cultural cabo-verdiana e sua origem (se é africana ou europeia). Por isso, Ingrid Creppell (2003) considera que a identidade pessoal é algo “imprevisível”, pois não se consegue prenunciar a forma como cada indivíduo assimila todas as influências culturais que recebe com as suas próprias experiências (CREPPELL, 2003, p. 9).
Quanto à “identidade social ou coletiva”, trata-se do conceito ou da representação que o indivíduo dá a si a partir da sua vinculação a grupos sociais; descreve ou caracteriza um grupo de pessoas marcado por rótulos e distinguido por regras de pertença, recebendo predicativos mais específicos, como identidade étnica, religiosa, profissional. (FEARON, 2013, p. 11). Esse conceito de identidade social é um discurso que se insere no âmbito da psicologia social, a qual enfatiza que a identidade se constrói na relação entre o “eu” e o “outro”, mesmo que ambos pertençam a grupos diferentes.
A “identidade social” toma em consideração a importância da socialização do sujeito, da sua transformação pessoal. Richard Jenkins (1994) afirma que é preciso articular a identidade social com a identidade pessoal, uma vez que a primeira deve ser construída com
base numa teorização apropriada que possa permitir a inserção de identidades individuais e coletivas dentro de um quadro analítico (JENKINS, 1994, p. 218).
Na atualidade, conforme Stuart Hall, a ideia de identidade passa por um processo de transformação que se caracteriza pela crítica à ideia de uma identidade integral ou unificada. Para o autor, o conceito de identidade emerge como uma concepção que não assinala um “núcleo estável do eu”, ao contrário:
“As identidades não são nunca unificadas, que elas são, na modernidade tardia, cada vez mais fragmentadas e fraturadas; que elas não são, nunca, singulares, mas multiplamente construídas ao longo de discursos, práticas e posições que podem se cruzar ou ser antagônicos. As identidades estão sujeitas a uma historização radical, estando constantemente em processo de mudança e transformação” (HALL, 2003, p. 108).
Considerando essa noção, observa-se que a identidade cabo-verdiana também foi sendo moldada conforme os processos de construção e organização do país como um todo. De uma sociedade escravocrata, passando por todo um processo de colonização, resistência e sobrevivência, a sociedade cabo-verdiana evoluiu, no decorrer dos tempos, em busca da afirmação de uma identidade própria e de um “fincar os pés na terra-mãe2” identificando-se com ela a partir da consciência do “ser cabo-verdiano”.
Em conformidade, uma vez mais, com Castells (1999), este afirma que a construção da identidade se processa através de uma relação de poder e possui três características a partir da sua origem e da sua forma de ser: a identidade legitimadora, a identidade de resistência e a identidade de projeto (CASTELLS, 1999, p. 25-26). A legitimadora seria a identidade introduzida por instituições dominantes de diferentes sociedades, com o objetivo de disseminar e expandir ou, ainda, racionalizar seu poder de dominação sobre um povo. Conforme Luciano dos Santos (2011), a identidade legitimadora está relacionada ao aparelho ideológico do Estado (como Escola, a Igreja e os Meios de Comunicação). Um exemplo dessa identidade se constrói na manifestação do nacionalismo, em que o Estado busca unificar os grupos sociais que vivem no mesmo território e com a mesma concepção em torno do ideal de Nação ( DOS SANTOS, 2011, p. 150).
A identidade de resistência é criada por atores sociais que se encontram em desvantagens e/ou estigmatizados pela lógica da dominação, como forma de criar barreiras para a sua sobrevivência com base em princípios diferentes dos que norteiam as instituições
2 Significa a busca das raízes nativas do cabo-verdiano, um debruçar mais atento sobre sua realidade e suas condições de vida.
dominantes das sociedades. Essa identidade funciona como resistência à dominação e à exclusão e, através dela, “excluídos e marginalizados” buscam transformar a realidade na qual vivem em outra ainda não existente, mas desejável. Essa forma de identidade foi a que marcou os movimentos sociais na luta contra a opressão e discriminação. Pelo apagamento de uma identidade, outra se constrói.
Por último, a identidade de projeto ou identidade de “mudança e transformação”, é aquela social e culturalmente construída; logo, mutável e dinâmica. Sua construção se dá por meio de materiais culturais ao alcance de seus autores, para redefinir posições na sociedade e construir uma nova identidade, transformando ou redefinindo a estrutura social (CASTELLS, 1999, p. 24).
Stuart Hall adverte que as nações já não são mais os principais referenciais em que os processos identitários buscam apoio, porém continuam a oferecer seus discursos culturais para a formação dessas identidades. A globalização provoca uma hibridização das identidades, mas, antes, ela desaloja o indivíduo da sua própria identidade e o coloca em situação de profundo sentimento de perda subjetiva. Hall lembra que as “nações modernas são todas híbridas culturais”, não havendo mais espaço para as culturas e identidades lineares (HALL, 2003, p.62), assim como não “podemos considerar os membros de cada nacionalidade como elementos de uma cultura homogênea, tendo, portanto, uma única identidade distinta e coerente” (CANCLINI, 2006, p. 196).
Seguindo a trilha de grande parte dos cientistas sociais, o cabo-verdiano João Lopes Filho (2003, p. 23) se refere à identidade como uma construção cultural que está particularmente ligada ao conhecimento e à consciência coletiva, definida a partir de indicadores como: o modo de vida, a linguagem, a religião e as tradições culturais que caracterizam um povo. E acrescenta: “A identidade é construída através de uma relação com os lugares, testemunhos, ações, memórias e outros elementos com os quais nos identificamos” (LOPES FILHO, 2003, p. 34).
Sobre a identidade enquanto construção cultural, Hall defende que:
“Em vez de pensarmos a identidade como um facto consumado […] devemos pensar […] que a identidade é uma “produção”, que nunca está concluída, sempre em construção, e sempre constituída dentro, e não fora, da representação”. (HALL, 2015, p. 222).
A identidade é socialmente construída (FOUCAULT, 1978) e essa construção se apresenta dentro de um plano discursivo, no qual as diferenças são estabelecidas e as posições
sociais são assumidas pelo sujeito, embora sabendo que elas são sempre representações. São construções de um projeto incompleto, inacabado “[...] por integração e por diferenciação com e contra, por inclusão e por exclusão, por intermédio de práticas de distinção classistas e estatutárias” (PINTO, 1991, p. 288). São construídas não somente por forças materiais, mas, sobretudo, por ideias compartilhadas que podem ser caracterizadas, por um lado, como um elemento de ligação entre os elementos de uma comunidade e, por outro, como uma relação institucional entre uma comunidade e um determinado Estado (WENDT, 1994, p. 385).
A questão da identidade como elemento fabricado e construído é dependente de outra identidade para sua existência; nasce e se desenvolve na relação com o outro, portanto é relacional, construída por meio da diferença e depende de um evento externo a ela para existir, de uma identidade que ela não é, logo, diferente de si (WOODWARD, 2014, p. 9). A nosso ver, identidade e diferença são indissociáveis, sujeitas ao poder, muitas vezes impostas e disputadas, resultam de anseios dos diferentes grupos sociais colocados em posições diferentes dentro da sociedade. Por isso, identidade e diferença se completam, e, havendo as diferenças, haverá também uma relação de poder. Sem a diferença, não há identidade (SILVA, 2003, p. 9). Nesse contexto, Bauman acrescenta:
“A identidade é um grito de guerra usado em uma luta defensiva: [...] um grupo menor, e por isso mais fraco, contra uma totalidade maior e dotada de mais recursos (e por isso ameaçadora). [...] A identidade é uma luta simultânea contra a dissolução e a fragmentação; uma intenção de devorar e ao mesmo tempo uma recusa resoluta a ser devorado”. (BAUMAN, 2005, p. 83-84).
A construção da identidade é simbólica, de modo que “adquire sentido por meio da linguagem e dos sistemas simbólicos pelos quais ela é representada” (WOODWARD, 2014, p. 8). Essa condição simbólica é o que dá sentido às práticas e relações sociais, definindo quem são os excluídos ou incluídos. Ao mesmo tempo, a assunção de que “afirmar a identidade significa demarcar fronteiras, fazer distinções entre o que fica dentro e o que fica fora” (WOODWARD, 2014, p. 14,) mostra que essas diferenças, dependendo do caso, podem ser interpretadas como umas mais importantes que outras, determinando a exclusão de grupos ou indivíduos.
Frente às exposições acima referenciadas, entendemos que as identidades sociais têm características conflitantes: “o próprio conceito de identidade está associado aos conflitos”, assim afirma o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, enfatizando que “as identidades não podem realizar a sua tarefa de identificação sem dividir tanto quanto unir as suas intenções includentes que se misturam com as suas intenções de segregar e excluir” (BAUMAN, 2005,
p. 85), levando o sujeito a assumir duas ou mais identidades, mesmo que entrem em contradição devido à relação de poder na sociedade.
De natureza ambígua e ambivalente, a identidade nasce da crise do pertencimento e está associada à discórdia, ao conflito e à luta entre poderes políticos e opositores (BAUMAN, 2005, p. 26). O sentimento de pertencer, conforme afirma Hall (2003, p. 26), é algo “móvel, não estanque, construído”, a partir de um “sujeito imaginado”, que faz parte também de uma “comunidade imaginada” sempre atuante (ANDERSON, 2005).
Seguindo a linha de pensamento de Bauman e Woodward, Ana Cordeiro afirma que a identidade “resulta do confronto, nasce de uma situação relacional, isto é, a partir das diferenças que opõem grupos que estão em contato, pois é na oposição que uma identidade vai tomando forma” (CORDEIRO, 2009, p. 41).
1.2 Construindo a identidade cultural cabo-verdiana
“Reza a lenda que Deus, depois de construir o mundo, cansado, colocou um pé na África Negra e outro na Europa, sacudiu as santas mãos e caíram dez bocados de barro. Sem se aperceber, criou as dez ilhas de Cabo Verde e, desta forma, marcou o destino do povo ilhéu. Esquecidas pelo Senhor, o tempo sucedeu ao tempo e as ilhas foram achadas desertas pelos portugueses e habitadas. Povos africanos e europeus ali, em perfeita simbiose, se miscigenaram e da metamorfose resultou outro homem, o cabo verdiano”.
(ALFAMA, 1998, p. 247)
A identidade cultural cabo-verdiana deve ser compreendida como uma dinâmica relacional, que se formou perante um processo bastante complexo de miscigenação, gerando inclusão e exclusão entre os europeus e os africanos. Ana Cordeiro explica esse processo de inclusão e exclusão, quando afirma: “Inclusão pela retórica liberal da igualdade para todos e exclusão pelas práticas racistas e escravagistas; inclusão pela defesa de um modelo de um Império Colonial uno e integrador e exclusão pelo Estatuto de Indígena” (CORDEIRO, 2009, p. 41).
A identidade cabo-verdiana foi construída, por um lado, a partir de conflitos pelas condições difíceis de uma natureza agreste e adversa; por outro, pelo convívio entre as matrizes humanas e culturais de origem europeia e africana. Do contato entre colonizador e colonizado, surge uma sociedade que se formou entre uma identidade cultural dominadora e
assimilacionista, a europeia, impondo seus padrões, costumes e tradições, e outra realidade identitária culturalmente variada, a africana.
Na luta pela sobrevivência, esses dois grupos (europeus e africanos) buscaram a cooperação e o entendimento entre si, um comportamento que resultou no que se chama de “cabo-verdianidade”. Nas palavras de Leitão da Graça, esse termo representa “o ponto de partida quando se quer definir a cultura cabo-verdiana” (2007, p.58). Portanto, para conhecer os elementos que compõem a verdianidade e compreender a questão identitária cabo-verdiana, é importante apresentar alguns flashes da história e da cultura dessa sociedade crioula.
Cabo Verde, arquipélago de origem vulcânica, de território insular, faz parte da Macronésia, nome dado aos cinco grupos de ilhas a sudoeste da Europa e a noroeste da África: Açores, Madeira, Selvagens, Canárias e Cabo Verde. Conforme a tese oficial, as ilhas foram descobertas pelos navegadores Diogo Gomes, Diogo Afonso e António de Noli, a serviço da Coroa Portuguesa. Até a chegada dos portugueses em 1460, “as ilhas não eram habitadas, apesar de algumas hipóteses contrárias” (GOMES, 1993, p. 23). O poeta cabo-verdiano Jorge Barbosa (1902-1971) reconstitui esse momento histórico de Cabo Verde no poema “Prelúdio”, aqui transcrito:
Quando o descobridor chegou à primeira ilha Nem homens nus
Nem mulheres nuas Espreitando Inocentes e medrosos Detrás da vegetação. […] Havia somente, As aves de rapina De garras afiadas As aves marítimas De voo largo As aves canoras
Assobiando inéditas melodias. […]
Quando o descobridor chegou
E saltou da proa do escaler varado na praia Enterrando
O pé direito na areia molhada
E se persignou. Receoso ainda e surpreso Pensando n’El-Rei
Nessa hora então. Nessa hora inicial. Começou a cumprir-se
Este destino ainda de todos nós. (BARBOSA, 1956, p. 1)
Jorge Barbosa apresenta uma Cabo Verde deserta de elementos humanos, mas com uma fisionomia própria, com aves e vegetação características de uma região agreste. De acordo com os estudos de Lessa & Ruffié (1960, p. 14): “nenhum vestígio que comprovasse a presença de povos africanos ou de outras nacionalidades ou etnias foi encontrado no arquipélago antes da chegada dos colonos portugueses”, o que demonstra que as ilhas eram inabitadas.
Devido a sua localização geográfica e aos fatores climáticos, as estiagens são frequentes em todo o arquipélago. Os ventos originários do Continente Africano, precisamente do Saara, como o Harmatão, também denominado de Vento Leste ou Lestada, são causadores de vendavais devastadores e de secas prolongadas. A característica climática de Cabo Verde é a irregularidade das chuvas, causadora de grandes períodos de secas.
Recuando no tempo e na história, sobre a construção da identidade cabo-verdiana, Appiah (1997, p. 242), afirma ser preciso olhar as culturas pré-coloniais para compreender a variedade das tradições na África contemporânea. Conforme esse autor, embora as políticas coloniais implementadas pelos portugueses tenham sido idênticas, o resultado das ações nos países colonizados como Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor e Macau foram bem diferentes, uma vez que existia uma definição de fronteiras pelo império que diferenciava os nativos dos continentes africano, asiático e oceânico.
Para ilustrar essa realidade, é importante ressaltar que Salazar e seus ministros criaram a condição de “assimilado” como status social, legalmente instituído para todos os nascidos nas colônias, que deveriam cumprir determinadas obrigações instituídas pelo “Estatuto do Indigenato”3 publicado em 1926 e que vigorou até 1961. O artigo 2o do Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique considerava “indígenas”:
“Os indivíduos de raça negra ou seus descendentes que, tendo nascido ou vivendo habitualmente nelas, não possuam ainda a ilustração e os hábitos individuais e sociais pressupostos para a integral aplicação do direito público e privado dos cidadãos portugueses”. (Decreto-lei no 39. -666, de 20 de março de 1954).
3 A aplicação de um estatuto especial para os povos dos territórios colonizados, através de um sistema jurídico e social, simbolizou o produto mais acabado da dominação portuguesa.
Portanto, era considerado “indígena” todo indivíduo negro, residente nos territórios colonizados, que não demonstrasse valores e comportamentos da cultura portuguesa. Exaltando, ainda, o seu poder, o governo colonial português considerava que sua missão era:
“Por todos os meios, o melhoramento das condições materiais e morais da vida dos indígenas, o desenvolvimento das suas aptidões e faculdades naturais e, de maneira geral, a sua educação pelo ensino e pelo trabalho para a transformação dos usos e costumes primitivos, valorização da sua actividade e integração activa na comunidade, mediante acesso à cidadania”. (ESTATUTO DO INDIGENATO, 1954, Artigo 4o).
Todos esses discursos coloniais tinham como objetivo fundamental transformar esses homens e mulheres negros africanos em cidadãos portugueses “amantes e orgulhosos da sua Pátria, da sua língua, dos seus costumes e da sua crença” (NÓVOA, 1996, p. 405).
Para obter a cidadania portuguesa, o “indígena” passava por todo um processo de aculturação e assimilação, ou seja, o nativo era construído e transformado em um “novo-homem”, à imagem do português. Para tornar-se um “assimilado”, o indivíduo deveria “[...] ter abandonado inteiramente os usos e costumes da raça negra, falar, ler e escrever corretamente a língua portuguesa, adoptar a monogamia”, como também “exercer profissão, arte ou ofício compatível com civilização europeia, ou ter rendimentos que sejam suficientes para prover aos seus alimentos, compreendendo o sustento com habitação e vestuário para si e sua família” (NORÉ & ADÃO, 2003, p. 101-126).
Conforme Ferreira (1977), a assimilação tinha como objetivo mostrar que Portugal não era racista e que qualquer africano poderia tornar-se português, desde que assimilasse a religião, a língua e a cultura lusitana. Os assimilados, ao abdicar dos seus costumes africanos, recebiam alguns privilégios como, por exemplo, ocupar baixos cargos na administração colonial, acessar tribunais regulares, ter direito à formação acadêmica e à educação, ter dispensa do trabalho “voluntário” que, na época, era extensivo a todos os indígenas. Embora possuindo os mesmos direitos que os europeus, continuavam sendo tratados como “[...] cidadãos de segunda classe, alvo de preconceito racial, econômico e social” (HERNANDEZ, 2002, p. 515).
Quanto aos indígenas “não assimilados”, ou os nativos, a maioria da população cabo-verdiana era constituída por mestiços e negros, caracterizados por serem analfabetos e possuírem um nível de vida muito baixo, não gozando dos mesmos direitos civis dados aos assimilados, ou seja, o indígena, mesmo após a abolição do Estatuto do Indigenato, em 1962,
e o reconhecimento de que também era cidadão português, não “tinha instrução, nem crenças” (VASCONCELOS, 1900, p. 15).
É de Ana Cordeiro (2009) a afirmação de que “o Estatuto do Indigenato, criado pelo decreto orgânico de 1869, aplicado nos países Angola, Guiné Bissau, Moçambique, não vigorou, em Cabo Verde, pois os cabo-verdianos tinham recebido da Rainha D. Maria II o direito de cidadania” (CORDEIRO, 2009, p. 37-38). Por serem considerados cidadãos portugueses, os cabo-verdianos, em especial as elites locais, opuseram-se à aplicação do Estatuto do Indigenato, tendo em vista o seu estado de “civilização”.
Esses intelectuais, também conhecidos por “nativistas”, desde o início do século XIX, buscavam obter o estatuto de “adjacência”, ou seja, dotar as ilhas cabo-verdianas de uma “identidade política e administrativa” próxima à que Portugal atribuíra, em 1834, às ilhas dos Açores e da Madeira (CENTEIO, 2007, p. 82). A exclusão de Cabo Verde de participar do “Estatuto de Adjacência” foi motivada, segundo a administração colonial, pela distância entre as ilhas e a Metrópole, pela condição econômica e pela fraca produção de riquezas naturais. Outros motivos, conforme Centeio (2007), estavam relacionados às questões humanas, ou seja, Cabo Verde era constituído majoritariamente por mestiços e negros, com apenas uma pequena parte da população constituída de brancos, contrariamente às outras ilhas, que receberam o Estatuto de Adjacência.
1.2.1 Mestiçagem e hibridação
Cabo Verde despertou particular interesse da Coroa portuguesa devido à sua localização próxima à Costa Africana. Carreira (1983) afirma que o povoamento das ilhas é resultado da contribuição de europeus e africanos, porém essa contribuição foi permeada de conflitos e resistências devido às práticas impostas pelo colonizador. Durante muito tempo, as ilhas serviram como entreposto de escravizados retirados da África e enviados, posteriormente, para a América do Sul, constituindo, muito cedo, uma população mestiça. Formou-se, logo, uma comunidade composta por várias tribos, com grande variedade étnica, surgindo o que Manuel Ferreira (1972) chamou de “terra trazida”.
A prática da escravidão, nas ilhas, decorreu da posição geoestratégica do arquipélago, que fez com que a Ribeira Grande, localizada na Ilha de Santiago, funcionasse como comércio escravagista, servindo de ponto de aprovisionamento para as caravelas transatlânticas. Com a chegada das diferentes etnias africanas à Ilha, deu-se início à estruturação de uma sociedade escravocrata, e aquele passou a ser um espaço de concentração