As simbologias religiosas dos Santuários do Bom Jesus do Monte de Braga e do Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas

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Texto

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Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

As simbologias religiosas dos Santuários do Bom Jesus do

Monte de Braga e do Bom Jesus de Matosinhos em

Congonhas

 

 

 

Dissertação de Mestrado em Ciências da Cultura

 

Marcia Toscan  

   

Orientador: Prof. Dr. Fernando Alberto Torres Moreira

 

     

(2)

   

Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

As simbologias religiosas dos Santuários do Bom Jesus do

Monte de Braga e do Bom Jesus de Matosinhos em

Congonhas

 

 

 

Dissertação de Mestrado em Ciências da Cultura

Marcia Toscan

 

Orientador: Prof. Dr. Fernando Alberto Torres Moreira

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AGRADECIMENTOS

Ao orientador Prof. Dr. Fernando Alberto Torres Moreira;

Ao amigo José Carlos Gonçalves Peixoto, o qual não mediu esforços para passar informações sobre o Santuário de Braga;

À Confraria do Bom Jesus do Monte de Braga, em especial ao Sr. Rocha, que gentilmente forneceu informações necessárias dos Arquivos da Confraria;

Ao Arquivo Distrital de Braga, Portugal;

A Biblioteca da Universidade do Minho, Braga, Portugal; A Biblioteca Florbela Espanca, Matosinhos – Portugal;

A Nancy Correa Plonczinsky, amiga querida, que em terras mineiras aventurou-se como guia na busca de informações;

Ao Santuário de Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas;

Ao Arquivo do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas;

Ao Arquivo da Arquidiocese de Mariana, em especial a Sra. Luciana, que gentilmente forneceu os arquivos para pesquisas;

Aos colegas do Mestrado de Ciências da Cultura, turma 2011/2013; Aos professores do Mestrado de Ciências da Cultura, 2011/2013;

À Francielle T. Bogado e Neuma Lopes sempre prontas a ouvir e ajudar; A minha família;

A todas aquelas pessoas que diretamente ou indiretamente contribuíram para a realização desta pesquisa.

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RESUMO

A presente pesquisa tem como objetivo o estudo das simbologias religiosas em dois santuários localizados em Portugal (Braga) e Brasil (Congonhas) os quais possuem como ponto de igualdade a devoção ao Bom Jesus. Existem referências sobre o santuário de Braga ter sido inspiração para Congonhas, pois ambos, em sua constituição, são construídos nos moldes do Sacro-Monte, com capelas da Paixão de Cristo, sendo o estilo Barroco a escolha feita pelos encomendadores. O trabalho foi desenvolvido em quatro capítulos, os quais trazem informações relevantes desde a devoção ao Bom Jesus, às análises de imagens. Foram escolhidos para as análises os conjuntos escultóricos dos sete Passos da Paixão de Cristo (Braga/Congonhas), o Escadório dos Cinco Sentidos (Braga) e os Doze Profetas (Congonhas). A metodologia empregada foi a descritiva. Como resultado concluiu-se que a relação cultural entre Brasil e Portugal continua fortalecida e tem, na devoção do Bom Jesus, um dos alicerces que uniram culturalmente esses dois povos.

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ABSTRACT

 

The present research has the objective of study of religious symbols at two locations in Portugal (Braga) and Brazil (Congonhas) which possess the same devotion to Bom Jesus. Exist references about the sanctuary in Braga was the inspiration to Congonhas, therefore, were constructed based on Sacro-Monte, the choice made by the commissioners were Baroque (style) as chapels of Passion of Christ. The study was conducted in four chapters, which brings relevant information since devotion to Bom Jesus to image analysis. Were chosen for analysis the sculptural groups of the seven Steps of the Passion of Christ (Braga/Congonhas), the Stairway of the Five Senses (Braga) and the Twelve Prophets (Congonhas). The methodology used was descriptive. As result concluded that the relationship cultural between Brazil and Portugal continue strengthened one of the reasons that united the two civilizations culturally was the devotion to Bom Jesus.

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SUMÁRIO

 

INTRODUÇÃO ... 1

CAPÍTULO I - O CULTO E A LENDA DO BOM JESUS ... 4

I.1 As Lendas ... 7

I.2 A Devoção ao Bom Jesus no Brasil ... 9

CAPÍTULO II - BREVE COMENTÁRIO SOBRE O BARROCO ... 14

II. I – Sobre o Barroco Português, Braga ... 16

II. 2 - O Barroco Mineiro, Uma Sintese ... 19

CAPÍTULO III - DOIS SANTUÁRIOS UMA SÓ DEVOÇÃO ... 23

III. I - O Santuário de Bom Jesus do Monte de Braga ... 23

III. 2 - O Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas do Campo, Brasil ... 25

III. 3 - O que os Santuários Oferecem ... 27

CAPÍTULO IV – SIMBOLOGIAS RELIGIOSAS ... 42

IV. 1 As Simbologias Religiosas do Bom Jesus do Monte de Braga e do Bom Jesus de Matosinhos ... 42

IV.2 As Simbologias Religiosas ... 37

IV.2.1 Via Crucis ... 38

IV.2.2 As Capelas da Via Crucis ... 40

IV.2.3 O Portal ... 40

IV.3 Capela da Última Ceia ... 49

IV.4 Capela do Horto ou Agonia ... 55

IV.5 Capela da Prisão ou Traição ... 59

IV.6 Capela da Flagelação ... 65

IV.7 Capela Coroação de Espinhos ... 68

IV.8 Capela – Subida para o Calvário ... 72

IV.9 Capela da Crucificação ... 77

IV.10 Nota Sobre as Plantas Arquitetônicas ... 81

IV.11 Escadório dos Cinco Sentidos ... 83

IV.12 Os Doze Profetas do Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas – Brasil ... 89

IV.12.1 Sobre o Mestre Aleijadinho ... 96

IV.12.2 Os Doze Profetas: Teatro a Céu Aberto ... 99

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 105

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 111  

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INDÍCE

Figura  1  -­‐  Planta  Santuário  de  Congonhas    ...  39  

Figura  2  -­‐  Planta  do  Santuário  de  Braga    ...  39  

Figura  3  -­‐  Capela  Ultima  Ceia  -­‐  Congonhas    ...  43  

Figura  4  -­‐  Ultima  Ceia  -­‐  Leonardo  da  Vinci    ...  44  

Figura  5  -­‐  Capela  Ultima  Ceia  -­‐  Braga    ...  44  

Figura  6  Detalhe  Ultima  Ceia  -­‐  Braga    ...  45  

Figura  7  -­‐  Detalhe  da  Ultima  Ceia  -­‐  Congonhas    ...  45  

Figura  8  -­‐  Detalhe  da  Última  Ceia  em  Congonhas,  na  imagem  servo  e  o  apostolo  Judas  ...  46  

Figura  9  -­‐  Capela  do  Horto  ou  Agonia  (Apóstolos  Pedro,  Tiago  e  João)  -­‐  Braga    ...  47  

Figura  10  -­‐  Capela  do  Horto  ou  Agonia  -­‐  Braga    ...  48  

Figura  11  -­‐  Capela  do  Horto  ou  Agonia  -­‐  Braga  -­‐  detalhe  Anjo  com  Cálice  ...  49  

Figura  12-­‐  Capela  do  Horto  ou  Agonia  –  Congonhas  ...  50  

Figura  13  –  detalhe  Capela  do  Horto  –  Congonhas    ...  50  

Figura  14  -­‐  Capela  do  Horto  ou  Agonia  -­‐  Congonhas  -­‐  Detalhe  Anjo    ...  50  

Figura  15  -­‐  Capela  do  Horto  ou  Agonia  -­‐  Congonhas  -­‐  Detalhe  Anjo  ...  53  

Figura  16-­‐  Capela  da  Traição  -­‐  Braga    ...  53  

Figura  17  -­‐  Capela  da  Traição  -­‐  Braga    ...  54  

Figura  18  e    19    -­‐  Detalhe  Capela  da  Traição  -­‐  Braga  –  O  beijo  de  Judas  em  Jesus    ...  55  

Figura  20  -­‐  Capela  da  Prisão  -­‐  Congonhas    ...  55  

Figura  21  -­‐  Detalhe  Capela  da  Prisão  -­‐  Congonhas  -­‐  Orelha  de  Malco    ...  56  

Figura  22  -­‐  Detalhe  Capela  da  Prisão  -­‐  Judas    ...  56  

Figura  23  -­‐  Capela  da  Prisão  -­‐  detalhe  pés  de  Judas    ...  58  

Figura  24  -­‐  Capela  da  Flagelação  ou  do  Açoite  –  Braga  -­‐  ...  58  

Figura  25  -­‐Detalhe  da  Capela  da  Flagelação  ou  do  Açoite  –  Braga  ...  59  

Figura  26  -­‐  Capela  da  Flagelação  –  Congonhas    ...  59  

Figura  27  -­‐  Capela  da  Flagelação  –  Congonhas  –  Conjunto  ...  60  

Figura  28  -­‐  Detalhe  Soldado    ...  62  

Figura  29  -­‐  Capela  da  Coroação  de  Espinhos  –  Braga    ...  62  

Figura  30  -­‐  Detalhe  Cristo  –  Capela  Coroação  de  Espinhos  –  Braga    ...  64  

Figura  31  -­‐  Capela  da  Coroação  de  Espinhos    -­‐  Congonhas  ...  64  

Figura  32  -­‐  Detalhe  soldados    ...  65  

Figura  33  -­‐  Capela  Subida  para  o  Calvário  –  Braga  ...  66  

Figura  34–  Capela  Subida  para  o  Calvário  –  Braga  –    detalhe    ...  67  

Figura  35  –  Capela  Subida  para  o  Calvário  –  Braga  –    detalhe    ...  68  

Figura  36  –  Capela  Cruz-­‐as-­‐Costas  –  Congonhas  ...  68  

Figura  37  –  Capela  Cruz-­‐as-­‐Costas  –  Congonhas  –  Detalhe      ...  68  

Figura  38  –  Capela  Cruz-­‐as-­‐Costas  –  Congonhas  –  Detalhe      ...  70  

Figura  39  –  Capela  Crucificação  –  Braga  -­‐    Detalhe    ...  71  

Figura  40  –  Capela  Crucificação  –    Braga  -­‐  Detalhe      ...  71  

Figura  41–  Capela  Crucificação  –    Braga  -­‐  Detalhe    ...  72  

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Figura  43  –  Capela  Crucificação  –  Congonhas    ...  73  

Figura  44  –  Capela  Crucificação  –  Congonhas    ...  73  

Figura  45  –  Planta  arquitetônica  quadrada  –  Braga    ...  73  

Figura  46  –  Planta  arquitetônica  oitava  –  Braga    ...  74  

Figura  47  –  Planta  arquitetônica  quadrada  –  Congonhas    ...  74  

Figura  48  –  Planta  arquitetônica  oitava  –  Congonhas    ...  79  

Figura  49  –  Detalhe  representação  da  Concha  com  água    ...  80  

Figura  50  –  Detalhe  da  Fonte  dos  Olhos  –  águia  e  sol    ...  81  

Figura  51  –  Detalhe  da  Fonte  da  Audição    ...  82  

Figura  52  –  Detalhe  da  Fonte  do  Olfato    ...  83  

Figura  53  –  Detalhe  da  Fonte  do  Olfato  ...  84  

Figura  54  –  Detalhe  da  Fonte  do  Paladar    ...  84  

Figura  55  –  Detalhe  da  Fonte  do  Paladar    ...  85  

Figura  56  –  Detalhe  da  Fonte  do  Tato    ...  87  

Figura  57  -­‐  Detalhes  da  Fonte  do  Tato  –    aranha    ...  87  

Figura  58  -­‐  Detalhes  da  Fonte  do  Tato  –    aranha    ...  87  

Figura  –  59  -­‐  Planta  do  Adro  dos  Profetas  -­‐  1  -­‐  Isaías;  2  -­‐  Jeremias;  3  -­‐  Baruc;  4  -­‐  Ezequiel;  5  -­‐   Daniel;  6  -­‐  Oséias;  7  -­‐  Jonas;  8  -­‐  Joel;  9  -­‐  Amós;  10  -­‐  Naum,  11;  Abdias;  12  -­‐  Habacuc  ...  93  

Figura  60  -­‐  Santuario  do  Bom  Jesus  de  Matosinhos  -­‐  Congonhas  -­‐  vista  Adro  dos  Profetas  ...  94  

Figura  60    –  ISAIAS    ...  109  

Figura  61    –  ISAIAS    ...  109  

Figura  62  –  JEREMIAS    ...  109  

Figura  63  –  DETALHE  JEREMIAS    ...  109  

Figura  64  –  BARUC    ...  110  

Figura  65  –  DETALHE  BARUC    ...  110  

Figura  66  -­‐    EZEQUIEL    ...  110  

Figura  67    –  DETALHE  EZEQUIEL    ...  110  

Figura  68  –  DANIEL    ...  111  

Figura  69  –  DANIEL    ...  111  

Figura  70    -­‐    OSÉIAS    ...  111  

Figura  71  –  DETALHE  OSÉIAS    ...  111  

Figura  72  -­‐  AMÓS    ...  112  

Figura  73  –  DETALHE  AMÓS    ...  112  

Figura  74  –  NAHUM    ...  112  

Figura  75-­‐    DETALHE  NAHUM    ...  112  

Figura  76  –  Abdias    ...  113  

Figura  77–  Detalhe  de  Abdias    ...  113  

Figura  78–  HABACUC    ...  113  

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho pretende desenvolver uma pesquisa acerca de comparações das simbologias religiosas realizadas entre dois santuários, o Santuário do Bom Jesus do Monte de Braga, Portugal e o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas, Minas Gerais, Brasil; construídos em territórios, com autores, com condições climáticas e condições financeiras diferentes, ambos representam locais de devoção ao Bom Jesus, originados por uma exaltação religiosa que resultaria nos períodos posteriores, na realização sequencial de romarias e cumprimento de penitências. Serão abordadas as semelhanças entre os santuários, pois o Bom Jesus do Monte de Braga foi, segundo diversos autores, a inspiração para a construção do Santuário de Congonhas do Campo; e como semelhança, estes possuem, em números diferentes, os Passos da Paixão de Cristo; outras manifestações escultóricas serão especialmente analisadas, como o Escadório dos Cinco Sentidos (Braga) e os Doze Profetas (Congonhas).

Esta pesquisa visa um breve estudo sobre o Barroco brasileiro, movimento artístico e literário, que adquiriu sua expressão máxima nas construções religiosas do estado de Minas Gerais que foi um canteiro de obra propício para a divulgação da religião, por ser um local com minérios transformados em riqueza nas mãos de seus donos, facilitadora da dinâmica social e artística e propulsora das habilidades, pontualmente, como Mestre Aleijadinho cuja obra é, reconhecidamente, um legado arquitetônico/artístico do seu tempo para o Brasil. O Barroco brasileiro não seria o que foi sem os ensinamentos dos portugueses que aqui aportavam em busca de vida melhor e aos poucos mudaram as paisagens brasileiras traduzidas em vilas e cidades no estilo denominado Barroco colonial.

Assim, os objetivos propostos para a realização deste trabalho intentam contribuir com narrativas sobre o Barroco luso-brasileiro e o universo simbólico religioso, do patrimônio edificado de Congonhas do Campo e do Santuário de Braga, com ênfase nas esculturas das Capelas dos Passos da Paixão (somente sete passos), nos Doze Profetas e no Escadório dos Cinco Sentidos e, deste modo, consequentemente, valorizar o patrimônio material de ambos os países, pois sem esse uma nação fica à mercê do esquecimento; no mais, ambos os santuários pertencem ao Patrimônio

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Introdução    

Cultural classificado de cada país; o de Congonhas foi já tombado pela UNESCO, em 1985 e, o Santuário de Braga em 2012 candidatou-se para tal feito, merecendo estes espaços arquitetônicos total interesse da comunidade luso-brasileira.

Em relação à metodologia, a pesquisa empreendida foi de natureza bibliográfica descritiva e experimental, encontrando-se embasada em textos que tratam da literatura específica. As leituras e pesquisas envolveram uma diversidade de fontes impressas e manuscritas, tais como registros públicos, administrativos, relatórios das instituições religiosas, bem como outras fontes contextuais das edificações.

Com base nesse arcabouço teórico, procedeu-se ao estudo interpretativo do

corpus, a partir do método analítico-comparativo. Para tanto, levou-se em conta três

focos de estudo, respectivamente: 1) análise da via sacra dos respectivos santuários; 2) análise das obras das Fontes dos Cinco Sentidos; 3) análise das imagens dos Doze Profetas.

Nessas análises, foram observadas as simbologias empregadas pelos feitores das mesmas, que buscaram interpretá-las a luz de sua época através das mensagens didáticas e pedagógicas do movimento Barroco.

Em consonância com os objetivos e a metodologia apresentados, o estudo iniciou com pesquisa de campo, em julho de 2011, no Santuário de Braga; a participação, em outubro 2011, no Congresso Luso-Brasileiro sobre o Barroco permitiu entender o rol de pesquisas que já se encontravam feitas em torno dos dois santuários e a diversidade sobre o assunto; em setembro de 2012 iniciou a pesquisa propriamente dita no Santuário de Congonhas do Campo, onde as fotos que fazem parte do corpus da pesquisa foram realizadas. De igual modo se fez pesquisa nos arquivos da Arquidiocese da cidade de Mariana que abriga a maior parte do acervo religioso de Minas Gerais do período colonial. Uma nova visita foi feita, em fevereiro e março de 2013, ao Santuário de Braga, mais precisamente aos arquivos do santuário para pesquisa e fotografias; na sequência, o Arquivo Distrital de Braga possibilitou um emocionado contato com diversos manuscritos dos séculos XVI, XVII e XVIII e com livros já considerados raros; ainda em Braga, a Biblioteca da Universidade do Minho disponibilizou informações acerca do santuário. Para melhor entender a relação com o Bom Jesus, impunha-se uma deslocação a Matosinhos e lá visitar a Biblioteca Municipal Florbela Espanca para finalizar a pesquisa em solo português, sabendo que ainda ficavam lugares e pesquisas a serem feitas.

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Compreendendo a metodologia empregada no trabalho, dividimos este em capítulos:

No Capítulo I, intitulado O Culto ao Bom Jesus de Matosinhos traz uma abordagem sobre as questões da adoração de imagens ao longo da história bem como sobre as lendas do Bom Jesus perpetuadas em Portugal e, também sobre como a devoção do Bom Jesus chegou ao Brasil;

O Capítulo II recebeu o nome de Breve comentário sobre o Barroco; aí se aborda, de maneira ampla, o significado de Barroco, e sua materialização enfática em Braga e em Congonhas, no Brasil.

No Capítulo III, titulado Dois Santuários Uma Só Devoção e com duas subdivisões, foram contempladas as histórias dos dois santuários e o que eles oferecem enquanto estrutura arquitetônica religiosa.

No Capítulo IV denominado Simbologias Religiosas, são abordadas informações sobre os símbolos e como o homem está habituado a este em seu cotidiano. Teóricos serão mencionados para enriquecer os escritos. Foi destinado à análise das simbologias observadas, com particular destaque para os Sete Passos da Paixão de Cristo (o que há de comum em ambos os santuários), para o Escadório dos Cinco Sentidos em Braga, e para os Doze Profetas no santuário do Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas do Campo.

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Capítulo  I  –  O  Culto  e  a  Lenda  do  Bom  Jesus  

CAPÍTULO I - O CULTO E A LENDA DO BOM JESUS

“O Bom Jesus, de milagres Tem feito mais de um milhão! Podia fazer mais um, Dando-me o teu coração. Ó Senhor de Matosinhos, Que dais a quem vos vem ver? O terreiro p’ra dançar Água Fresca p’ra beber. Meu Senhor de Matosinhos, Adeus, sagrado mosteiro, Adeus, casa dos milagres Adeus ó belo terreiro.” (Quadras populares)  

Para iniciar esta reflexão sobre o culto ao Bom Jesus de Matosinhos deve-se retomar algumas situações históricas sobre o hábito em cultuar imagens e símbolos.

No Dicionário de Simbologia, Manfred Lurker explica:

CULTO: Expressão do respeito interior face ao divino. Os cultos são na maioria das vezes ligados a um determinado Tempo e Espaço, frequentemente também a uma Imagem de Culto representando uma divindade. (2003:177)

Deste modo, pode-se refletir que o Tempo é a sequência cronológica com acontecimentos históricos que determinam o modo de vivência da sociedade e a sua influência e o Espaço é onde está inserida esta sociedade e locais possíveis; a Imagem vai estar intimamente relacionada ao tempo e ao espaço com as características da sociedade ou da comunidade onde está, sendo que a sociedade abrange as necessidades culturais religiosas do local onde se encontra. Como afirma Pesavento:

As imagens estabelecem uma mediação entre o mundo do espectador e do produtor, tendo como referente à realidade, tal como, no caso do discurso, o texto é mediador entre o mundo da leitura e o da escrita. Afinal, palavras e imagens são formas de representação do mundo que constituem o imaginário. (2003: 86)

A partir das necessidades espirituais o homem escolhe a quem e como cultuar; na Pré-História esses fatos foram marcantes e, quando a pressão dos eventos da natureza fez com que o homem acreditasse no sobrenatural, criaram-se formas de, por exemplo, cultuar a “Mãe Terra”:

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... Ásia e a Europa se enchem de estatuetas estilizadas, chamadas as “Vênus neolíticas”, representando mulheres com as características femininas exageradas, simbolizando sem dúvida a maternidade, em princípio como um “ex-voto”, mais tarde como pequenos ídolos, precursores do culto a Grande Mãe. (Piazza 2005:12)

E não foi diferente nos povos da Mesopotâmia, Egito, Grécia, Roma ou nos Pré-Colombianos e Ameríndios, entre outros; cada civilização encontrou maneiras de exteriorizar a sua crença acreditando na possibilidade do perdão e em pedidos diversos, pois o ser humano como essência de sua existência busca motivos para realizar afirmações e desejos por meio da fé. Estas civilizações praticavam a idolatria, utilizando imagens escultóricas zoomórficas e antropomórficas e, como nota Piazza, “Nesta trama, o homem é uma figura passiva, a mercê da boa vontade dos deuses que presidem a tais forças naturais.” (2005:66).

Assim, desde sempre, o homem centrou-se em agradecer às divindades os milagres, pedidos e a proteção. Com o surgimento do cristianismo torna-se, ainda mais, comum a difusão da fé e o culto a figuras santificadas, realizando os crentes, por meio de imagens votivas, pedidos de cura de doenças e perdão pelos pecados. A fé a essas imagens é algo que motiva a acreditar no sobrenatural, pois o homem tem por necessidade utilizar símbolos; desta forma há uma comunicação entre o crente e a imagem fazendo assim uma relação entre o homem e Deus, ou os deuses, no caso das antigas civilizações. Estas atitudes são pertinentes dentro de uma comunidade que produz culturalmente a sua identidade religiosa; no caso da Igreja Católica, foram dominadas pelas regras impostas que, de forma ortodoxa, tentavam moldar o comportamento das pessoas.

Mas a história nos relata fatos contra a idolatria de imagens; no Antigo Testamento há este questionamento:

Não farás para ti imagem esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá em cima, nos céus, ou embaixo, na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra. Não te portarás diante desses deuses e não os servirás. (Ex. 20, 4-5)1

Percebe-se, assim, que já existia o medo da idolatria referente às imagens, pois isso faria que os povos se fixassem em símbolos desviando-os dos ensinamentos que Deus pronunciava.

Gregório Magno, Papa de 590 a 604, repelia a adoração das imagens, mas acreditava que elas possuíam um poder didático de estar comunicando ao crente os

                                                                                                                         

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Capítulo  I  –  O  Culto  e  a  Lenda  do  Bom  Jesus  

acontecimentos bíblicos e, desta forma, afirmava: “O que para os leitores a escrita é, para os olhos dos não-instruídos, o é a imagem...” (Gregório Magno Ep: 11, 13); assim, o papa via no culto da imagem um instrumento pedagógico de transmissão de conhecimento.

Foi nos séculos IV e V que as imagens tomaram força com ênfase para a veneração das representações baseadas no Antigo Testamento e, por ora, no Novo Testamento. Com a divisão no seio da cristandade há vários reflexos sobre o uso das imagens: para os Calvinistas havia o perigo das imagens causarem uma idolatria exagerada entre os fiéis, já os Luteranos acreditavam que as imagens contribuíam para disseminar os mandamentos de Cristo. Mas foi no Império Bizantino, com Leão III no ano de 724, que houve um movimento contra a veneração de imagens seguidas de prática religiosa, e se iniciou uma “chacina” contra as imagens ordenando a sua destruição; a Igreja tentou reverter essa situação sem sucesso e, somente no ano 731, no Concílio Romano o Papa Gregório III exortou os fiéis, outra vez, ao culto das imagens. Mas, novamente, no Império Bizantino, em 28 de agosto de 753, o Imperador Constantino V convocou um conselho, em Heiria, momento em que comparou a utilização de imagens à idolatria, proibindo, até mesmo, a imagem do próprio Cristo. O colegiado bispal presente neste Fórum conseguiu reverter essa situação junto ao Imperador e confirmou o culto da Santa Virgem e a intercessão dos Santos.

No ano 787, no Concílio de Nicéia, onde os iconoclastas foram condenados pela Igreja, aconteceu a legitimação e aceitação do culto a imagens dos Santos; desta forma se restabeleceu o ato de cultuar, como forma de suprir as necessidades dos devotos e divulgar a fé, uma decisão que Martins (1998) considera uma questão didática e comunicativa do culto a imagens: “o papel didático que as imagens podem desempenhar enquanto manifestação da fé católica.”

Será o Concílio de Trento (1545-1563), em definitivo e para a Igreja Católica, com o pensamento de difundir, cada vez mais, a fé para os mais longínquos povos, que fixará o culto das imagens como mais uma maneira de catequização e informação do cristianismo, defendendo o seu uso oficial.

No âmbito da reflexão sobre o culto à fé através das imagens, veja-se o caso da veneração ao crucifixo. É universal a concepção de que a CRUZ é o símbolo do cristianismo, pois se associa à crucificação de Cristo, passando esta a ser cultuada pelo poder simbólico que emite: crucificação, ressurreição e a vida eterna, ou ainda “Cruz,

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Árvore da vida, representa a virtude vivificadora e redentora, que o sangue de Cristo derramado na cruz trouxe aos homens.” (Silva 2011:61)

A veneração ao crucifixo pelos cristãos iniciou apenas no século V,

Mas, foi apenas a partir do século X que, iconograficamente, a Igreja Católica evoluiu da cruz nua para o crucifixo, isto é, para a veneração do corpo de Cristo pregado sobre a Cruz. (Cleto 1995:38)

E Silva contribui:

A figura humana de Cristo Crucificado só passou a ser representada na cruz a partir do século V e daí até o século XI, a iconografia sugeria a representação de um Cristo vivo, de olhos abertos sendo que na segunda metade do século XII, representa-se simbolicamente a imagem de um Cristo morto com olhos fechados e cabeça pendente. (2011:15)

Essas representações eram uma forma de comunicação entre os fiéis e Deus atribuindo à imagem um poder devocional que implicava a piedade e a emoção.

Assim, dentre as muitas imagens católicas veneradas de Cristo Crucificado, em especial, escreveremos sobre as lendas da imagem do Bom Jesus de Matosinhos, em Portugal.

I.1 As Lendas

 

  Segundo a tradição, Nicodemus presenciou o martírio de Cristo. Possuidor do sudário - tecido em linho que José de Arimatéia colocou sobre o corpo de Cristo que possibilitou a impressão da imagem do Senhor -, Nicodemus, devido a essa impressão, esculpiu as imagens, ditas mais significativas, com as feições de Jesus Crucificado. Contudo, as perseguições aos cristãos iniciaram uma acirrada busca contra a disseminação do cristianismo que se tornaria fortificada em tempos que a religião será mais importante do que qualquer outra necessidade:

Estas imagens não permanecerão, contudo, muito tempo em sua posse. Elas eram, afinal, comprometedores documentos cristãos, que facilmente se poderiam transformar em perigoso indício para os perseguidores judeus e romanos (Cleto 1995:23)

Assim, Nicodemus, para resguardar as imagens esculpidas por ele e evitar a profanação por parte dos perseguidores, lançou estas ao mar Mediterrâneo; alguns

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Capítulo  I  –  O  Culto  e  a  Lenda  do  Bom  Jesus  

estudos relatam terem sido cinco as imagens, o mesmo número das chagas de Cristo; estas imagens vagaram pelas águas e aportaram na Síria (Berio), Itália (Luca), Espanha (Buros), Galiza (Orense) e Portugal (Matosinhos).2

Segundo a lenda, a imagem chegou a Matosinhos, Portugal, em 03 de maio do ano 1243 - esta data é a mesma em que Santa Helena encontrou a Cruz Sagrada no Monte Calvário 03/05/326. A localidade de Matosinhos pertence ao distrito do Porto, norte do país, tornada vila em 1853 e elevada a cidade em 28 de junho de 1984, mas sempre esteve ligado a este local o Mosteiro de Bouças, que data a sua construção ao ano 944, local onde a imagem permaneceu até 1559, sendo depois deslocada para o Santuário construído para abrigá-la. E foi na praia de Matosinhos, no local chamado de Espinheiro que, coberta de espessa vegetação marinha, foi encontrada uma das imagens do Cristo Crucificado esculpido por Nicodemus, e nela estava faltando o seu braço esquerdo. Esta imagem vai ser carinhosamente recolhida pela população e entregue ao Mosteiro de Bouças; desde modo, por alguns anos a imagem ficou conhecida como o Senhor de Bouças. O braço esquerdo faltante foi encontrado 50 anos depois, também na praia, por uma senhora que levou o pedaço de madeira para alimentar o fogo em sua casa; este insistia em não queimar e, a filha muda que percebeu isto a acontecer, balbuciou palavras a sua mãe, fato este que passou a ser visto como um milagre e a partir de então se iniciou a veneração desta imagem como milagreira, tornando Matosinhos, até hoje, um lugar de romaria, onde inúmeros peregrinos buscam ansiosos em realizar suas curas espirituais e físicas.

Existem outras três lendas relacionadas à imagem do Senhor de Matosinhos; uma está relacionada com uma suposta conversão ao cristianismo de um romano devido ao acontecido:

(...) Gentil e airoso no seu corcel desenfreado, entrou Cayo Carpo “mar em fora”, que essa era uma das provas de destreza então em uso. Rompeu ligeiro o cavalo, embalado pelo ondular das águas e, afastando-se até se perder na imensidão oceânica, fez-se de rumo a uma nau que vogava no mar alto. Depois de andar                                                                                                                          

2 Existem associações com imagens recolhidas nas águas em outras duas localidades ao norte de Portugal

a em Barcelos e outra em Fão.

3 Na dissertação de mestrado defendida por Liliana M. P. da Silva, 2011, FLUP – “A Fé, a Imagem e as

Formas: a iconografia da talha dourada da igreja de Bom Jesus de Matosinhos”: a autora contesta sobre a imagem ter recebido o crédito de sua produção a Nicodemus, pois estudos feitos pela autora sobre as representações do Cristo Crucificado apontam que esta imagem não poderia ter sido feita no século II, mas sim no período medieval, porque as características são dos conjuntos de imagens devocionais do século XII e o enquadrando da representação do Cristo só pode ser posterior ao século X; a iconografia estudada por ela aponta ser inconcebível que a imagem de Matosinhos seja anterior ao século X.

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submerso por algum tempo, viu-se o anfitrião coberto de vieiras (um dos símbolos dos peregrinos de Santiago de Compostela). (Cleto apud Felgueiras 1995:30)

A embarcação que o recolheu estava transportando o cadáver do Apóstolo Santiago indo em direção a Galizia, o fato de Cayo Carpo ter sido recolhido com as vieiras sobre o seu corpo fez ficar conhecida essa outra lenda como o “Matizadinho”.

Recolhido a bordo o cavaleiro, contaram-lhe os navegantes de como vinha milagrosamente, com sete dias apenas, de viagem da longínqua Cidade de Jope (local onde também Nicodemus lança às águas do mar a imagem do Bom Jesus do Matosinhos), transportando para a Galiza o cadáver do apóstolo Santiago, que na terra da Palestina sofrera o martírio por amor de sua religião.(Cleto apud Felgueiras 1995:30)

Uma segunda lenda remete o episódio sobre a procura de um novo local para abrigar a imagem. Desde modo a escultura do Bom Jesus foi amarrada no lombo de um burro, o animal saiu do mosteiro de Bouças e decidiram que onde ele parasse seria construída a Igreja para o Bom Jesus. O burro foi a caminho de Matosinhos e parou exatamente onde a atual igreja foi edificada.

A outra lenda diz respeito a uma senhora que possuía uma grave doença de pele; ela foi até o local onde a imagem do Bom Jesus foi encontrada, na praia o Espinheiro, lá invocou pela cura e foi atendida; este fato ficou conhecido como a Lenda do Senhor do Padrão ou Senhor da Areia e neste local foi construída uma ermida:

No sítio do Espinheiro, junto ao molhe sul de Leixões, ergue-se o singelo, mas famoso monumento do Senhor do Padrão ou Senhor da Areia, assim chamado por ter sido ali, segundo s tradição, que foi arrojada à praia, pelas ondas, a escultura do Senhor de Matosinhos. (Falcão apud Felgueiras 1961:23).

Mesmo compreendendo que as lendas são fantasiosas não se pode negar que todas fizeram da cidade de Matosinhos um local cristianizado e com uma reputação devocional ao Senhor de Matosinhos que rompe a geografia portuguesa, sendo a romaria ao Bom Jesus de Matosinhos uma das mais importantes e frequentadas no Norte de Portugal.

I.2 A Devoção ao Bom Jesus no Brasil

O culto do Bom Jesus de Matosinhos ganhou tal impacto que a notícia dos milagres e da devoção chegou a terras brasileiras trazidas por aventureiros portugueses

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Capítulo  I  –  O  Culto  e  a  Lenda  do  Bom  Jesus  

nos séculos XVII e XVIII e, em pesquisa ao IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - apontaram que no Brasil atualmente há 23 cidades que receberam na sua fundação o nome de Bom Jesus, valendo lembrar que muitos destes municípios possuem uma igreja em devoção ao Bom Jesus. Abaixo tabela com as cidades e estados brasileiros:

NOME DA LOCALIDADE ESTADO

Bom Jesus do Tocantins PA

Bom Jesus do Tocantins TO

Ponte Alta do Bom Jesus TO

Bom Jesus das Selvas MA

Bom Jesus PI

Bom Jesus RN

Bom Jesus PB

Bom Jesus da Lapa BA

Bom Jesus da Penha MG

Bom Jesus da Serra BA

Bom Jesus do Amparo MG

Bom Jesus do Galho MG

Córrego do Bom Jesus MG

Bom Jesus do Norte ES

Bom Jesus do Itabapoana RJ

Bom Jesus dos Perdões SP

Pirapora do Bom Jesus SP

Bom Jesus do Sul PR

Bom Jesus SC

Bom Jesus do Oeste SC

Bom Jesus RS

Bom Jesus do Araguaia MT

Bom Jesus de Goiás GO

Neste contexto, chegou ao Brasil, no século XVIII, Feliciano Mendes, português, nascido na cidade de Guimarães, e devoto do Senhor de Matosinhos. Este

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aventureiro em busca de riquezas das minas contraíu uma doença e em nome do Senhor de Matosinhos invocou a cura, e como gratidão, prometeu construir um templo para sua devoção.

Não existem muitos dados sobre Feliciano Mendes (? /1765); em pesquisa no Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana, em setembro de 2012, pôde-se constatar que todo o informado sobre ele está relacionado em livros de pesquisa já publicados sobre o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo. Oportunamente, nos arquivos, há nos montantes de raridades o livro do Padre Júlio Ingracia, editado em 1908, com o título: Relação cronológica do Santuário e

Irmandade do Senhor Bom Jesus de Congonhas do Campo – Minas Gerais, que relatou

o que segue:

Feliciano Mendes, vindo, como muitos outros, procurar fortuna encontrou doença que aggavando-se dia a dia o impossibilitou do trabalho. Pouco cabedal tinha feito, e esse pouco deliberou servisso para repatriarsse e lá ir findar seus dias entre os entes caros que deixára. Alma inclinada ao ascetismo das virtudes era seu plano, em lá chegando, recolher-se a um convento para preparar-se convenientemente a comparecer no tribunal Divino. Um dia que seus males se aggravarão, lembrou-se de sua devoção predilecta e fez um voto ao Snr. Bom Jesus.4 (Engracia 1908:17)

Já no livro K25, Esboço histórico sobre o Santuário de Senhor Bom Jesus de

Mattosinhos de Congonhas do Campo 1895, relata a vida dos administradores do

santuário até 1827.

Como segue no documento:

1º Feliciano Mendes: Corria o anno de 1756. Achava se occupado no trabalho da mineração o português Feliciano Mendes. Nesse penoso trabalho, tendo contraído molestias graves, que o impediram de continuar nelle, resolveo voltar para Portugal a ver se obtinha melhoras para entrar em alguma ordem religiosa, onde pudesse entregar-se todo ao cuidado da salvação de sua alma. Estando firme neste propósito e achando se neste arraial de Congonhas do Campo da antiga comarca do Rio das Mortes, e hoje da comarca de (?), lembrou-se ou Deus o inspirou, de levantar uma crus no alto do Morro Maranhão, na beira da estrada do redondo, e pôs também ali uma Imagem do senhor para que os passageiros a venerassem e se lembrassem das almas do purgatório e rezassem ou cantassem o terço de nossa Senhora, tendo elle também em missa ter alguma parte nas orações que alguma alma mais devota do que a sua ali rezasse com este intuitos collocou uma crus com a Imagem do Senhor no referido logar, que me parece ser aqui onde se acha construída a capella do Senhor Bom Jesus.(1895: 6,7)

                                                                                                                         

4 Transcrito como está no livro; refere-se ao seu retorno a Portugal. 5  Arquivo da Arquidiocese de Mariana - MG  

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Capítulo  I  –  O  Culto  e  a  Lenda  do  Bom  Jesus  

Assim iniciou, no Brasil, a devoção ao Bom Jesus de Matosinhos, cuja veneração Feliciano Mendes influenciou sobremaneira.

O jubileu do Bom Jesus de Matosinhos representa para a comunidade brasileira um patrimônio imaterial portadores de elementos de enorme riqueza de prática, usos, costumes, musicalidade e como afirma Lemos “O jubileu transmite a imaterialidade produzida pela cultura de um povo como representatividade de sua identidade e história.” (2004:11)

O Jubileu do Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas guarda zelosamente nas suas práticas religiosas e culturais a memória de uma região que foi povoada por aventureiros em busca do ouro e que trouxeram do seu país de origem suas crenças. (Santirocchi 2011:294)

Durante o período colonial a romaria no Santuário do Bom Jesus era a mais popular no Brasil. A sua comemoração era com a realização de novenas e missa cantada seguida com bandas musicais da cidade; essas missas aconteciam de duas em duas horas das 6h às 17h; após os romeiros faziam pregações rezando o terço em volta da Igreja. A procura dos peregrinos era tão intensa que a partir de 1780 foi autorizado duas festas anuais no dia da Santa Cruz em 03 de maio e outra no dia da Exaltação da Santa Cruz em 14 de setembro em que retiravam a imagem do Bom Jesus de dentro da Igreja e faziam procissão seguida da imagem da Virgem Maria. A partir do século XIX e início do século XX deu-se a prática do flagelo. Nesta ocasião o peregrino deviria passar pelo processo da subida até o Calvário onde era protagonista da agonia de Cristo passando de capela em capela; sua peregrinação terminava quando beijava a imagem do Cristo morto e deixava suas esmolas para a igreja seguidas de uma confissão de seus pecados.

As práticas profanas aconteciam em locais distantes do santuário, as quais se beneficiavam da grande quantidade de pessoas que se aglomeravam na cidade:

O profano tinha lugar especial. Acontecia do outro lado da ponte, com a realização de bailes, jogos e certas atrações mundanas. Vinham de fora diversos artistas e os mais famosos circos. Apareciam museus de cera ambulantes e exposição de bichos curiosos. O Jubileu era uma grande festa. (Vitarelli 1997: 62-64)

A peregrinação no século XX tornou-se diferente devido às transformações que o próprio tempo histórico proporcionou como o desenvolvimento da comunicação, do transporte, as políticas locais e na própria religião. O Santuário do Bom Jesus organizou

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as festas até os anos 30; já nos anos 40 a Prefeitura de Congonhas assume a organização a qual sofrerá mudanças no campo religioso transformando a festa também em um local de comercio com a venda de todo o tipo de objetos religiosos e artesanatos. Atualmente a festa continua, mas com menos fiéis; contudo, os traços tipicamente populares iniciados pelos peregrinos ainda persistem, como a flagelação, passando pelas capelas, rezas, músicas ou as esmolas, comprovando assim a sua devoção ao Bom Jesus de Matosinhos.

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Capítulo  II  –  Breve  comentário  sobre  o  Barroco    

CAPÍTULO II - BREVE COMENTÁRIO SOBRE O BARROCO

Sobre o Barroco, há uma vasta literatura já explorada pelos teóricos nas várias frentes de pesquisa. Assim, com certeza, cai-se na “tentação” de entrar no senso comum das explicações sobre a temática e estética do barroco. Este item tem o aporte de enriquecer o trabalho, sendo que, em ambos os santuários foco da pesquisa, o Barroco é citado; desta maneira os feitores não só realizaram seus trabalhos baseados nesta estética (o qual na pesquisa não é contemplado) como também viveram neste ambiente barroco juntamente com as transformações culturais do momento.

No senso comum o termo Barroco deriva de “pérola irregular”, definição encontrada em muitas literaturas; o período Barroco deve ser encarado como um momento de mudanças religiosas e absolutistas, que atinge toda uma sociedade cuja mentalidade passou por essas transformações. Também o Barroco, comumente é associado à Contra-Reforma e aos Jesuítas. Como afirma Maia, (2003:99) “A revitalização espiritual da Igreja, assinada no Concílio de Trento (1545-1563), conduziu à recuperação da fé na Europa Católica, com a fundação da ordem jesuítica como pioneira eclesiástica”. Seguindo este pensamento,

O Barroco, nessa perspectiva, compreende um fenômeno bem amplo, vinculado tanto às lutas religiosas entre reformistas e contra-reformistas, quanto à expansão mercantilista decorrente das grandes navegações. No primeiro caso, o barroco responderia à necessidade de uma reação dos países católicos ao crescente alastramento do protestantismo, que dava com risco da própria hegemonia política e espiritual de Roma e das nações por ela lideradas. O novo estilo, caracterizado pela exuberância das formas e pela pompa litúrgico-ornamental, atuaria como instrumento ao mesmo tempo de afirmação gloriosa do poder temporal da Igreja e de impacto persuasório sobre uma mentalidade social que se debatia entre os valores da tradição católica e a filosofia renascentista que liberava suas novas vontades. (Ávila, Gontijo & Machado 1996:5).

No Dicionário do Brasil Colonial, para Ronaldo Vainfas o Barroco pode ser um

Conceito que tanto pode designar um estilo artístico, literário ou musical quanto um período cronológico ou mesmo certa mentalidade... Para alguns, advém do nome dado por artífices portugueses a um tipo de pérola irregular, assimilado na França com o significado de bizarro ou extravagante. (2000: 68)

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Para o historiador de arquitetura, Cornelius Gurlitt, (apud Helmut Hatzfeld 2002:14), o Barroco é um estilo advindo dos princípios clássicos herdado do Renascimento, um “estilo baseado inicialmente em formas clássicas renascentistas”; entretanto não deixa de citar que o barroco é influenciado pela Companhia de Jesus.

Outro estudioso do Barroco, Alois Riegl, (idem: 15), comenta que a arte barroca ao ser contemplada possui elementos extraordinários, sendo os Jesuítas indicados como os inspiradores do Barroco.

Para Heinrich Wolfflin, o Barroco é um fenômeno estilístico, que estabelece aspectos formais para a sua apreciação, fazendo análise estrutural, comparando-o com o Renascimento.

Porém, para a maioria dos historiadores, o Barroco é selado com os acontecimentos da Contra-Reforma e foi também acompanhado por uma expansão da arte em todas as frentes, com seus limites geográficos que se refletiu por vários países europeus que, encorajados pela Igreja católica, produziram imagens que deveriam induzir o espectador não só à devoção e fé, como também usar a arte como propaganda.

Sobre o Barroco Massara complementa:

Mas o Barroco, se analisado à luz da História das Mentalidades, não permite distinções a este nível. Há um fio condutor, um elo a unir as cadeias, um ponto comum que subsiste e o distingue como fenômeno cultural único. O barroco é arte grandiosa, fascinante, impressionante. Procura atingir os sentidos não a razão. E o mais apropriado instrumento utilizado para a propagação e afirmação da autoridade, seja ela de cariz espiritual ou temporal. A igreja utiliza-se do barroco para se recuperar dos abalos provocados pela Reforma, para reconquistar a ovelha desgarrada, para afirmar o poderio, que ela quer incontestável, de Deus. (1988:13)

E Bazin confirma:

Apesar das perdas, a Igreja conservava um intenso sentimento de sua universalidade, fortalecido por sua expansão em todas as partes do mundo, em regiões até então desconhecidas do Ocidente, onde seus missionários travavam uma batalha espiritual para converter à religião cristã. (2010:4)

Assim, na Europa houve uma efervescência do intercâmbio artístico em que artistas buscavam na França e na Itália o reduto de estudos e depois voltavam ao seu país de origem e adaptavam o estilo conforme a necessidade local: “No século XVIII a Itália e a França forneceram ao resto da Europa uma grande quantidade de “especialistas” que levaram as formas da arte “moderna” para os países que os

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Capítulo  II  –  Breve  Comentário  sobre  o  Barroco  

   

acolheram.” (Bazin 2010:11). Para esta citação lembramo-nos de Nicolau Nazoni6, arquiteto e pintor italiano, que deixou um legado artístico do barroco para os portugueses da cidade do Porto.

II. I –Sobre o Barroco Português, Braga.

Nas palavras do professor Aurélio Oliveira, “Todo fenômeno artístico tem inevitavelmente, a sua circunstância. Essa circunstância vai dos aspectos do cotidiano material ao anímico, sentimental, sensitivo e representativo.” (2011:17), acrescente-se ainda, que esse fenômeno Barroco (cuja extravagância é comparada a uma festa de formas) atingiu uma sociedade que o aceitou como tal, sendo que, ele, atingiu as variações (linguagens) culturais, nas obras de arte, letras, arquitetura, música, como também no próprio homem que o aceitou e difundiu:

A festa barroca vai apoderar-se do impacto que o maravilhoso provoca na persuasão de quem nela participa. Por isso, irá privilegiar sempre o ótico, seja no risco das arquiteturas efêmeras, no ornato das ruas e fachadas de edifícios, na decoração do interior das igrejas, seja no colorido do ritual religioso ou político e na verdade e versatilidade cromática das indumentárias. (Tedim 2011:181)

O estilo barroco é cheio de vida e de expressividade nos exageros das formas e nas decorações; em muitas igrejas o brilho do ouro ofusca a visão de seus espectadores acentuando o poder do cristianismo e da monarquia, sendo esse um produto da vontade eclesiástica. Assim, em Portugal, o Barroco obteve uma dimensão territorial de agrado religioso e pedagógico. Sobre isso Patrícia Brás nota que

(...) a produção artística no período barroco, onde a imagética assume um papel altamente pedagógico, ficando claro que as imagens são representantes reais das entidades celestiais, ao contrário da doutrina protestante, que despoja toda a religiosidade da forma. (2011:226)

A construção de igrejas criou um engrandecimento de força espiritual que tinha como objetivo a comunicação entre o clero e a comunidade; no espaço sagrado iam se formando valores ideológicos, e a comunicação entre o Clero e a sociedade tinha caráter

                                                                                                                         

6A convite do Frei Roque de Távora e Noronha, foi contratado pelo deão da Sé do Porto para as obras de

renovação da Sé, e a partir de 1725 estabeleceu residência na cidade do Porto, marcando o Barroco setecentista nortenho.

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persuasivo, dominante e monumental. A grandiosidade das construções barrocas religiosas irradiava mensagem de poder que o observador ao erguer seus olhos se deparava com uma linguagem arquitetônica triunfal e alegórica produzindo efeitos cenográficos tanto no seu interior como no exterior daquele espaço, pois a força do barroco em Portugal está também nas decorações das igrejas, que possuem um esquema decorativo entre azulejo-talha-pintura.

Para Paulo Varela Gomes,

Não é fácil gostar da arquitetura barroca. É preciso andar muito pelos edifícios, olhar bem para eles, senti-los com os olhos e as emoções, conhecer e perceber a mentalidade e o gosto que levavam os arquitectos e os seus encomendadores e clientes a preferirem... (1987:5)

O Barroco europeu com toda a sua dimensão geográfica assume características de interesse de seus feitores que tem como objetivo principal a monumentalidade, o belo, o esplendor e a exaltação religiosa. Em Portugal, esse estilo terá grande êxito ao norte em especial na cidade do Porto e em Braga, as igrejas barrocas nestes locais possuem um suntuosismo na decoração interior e exterior das fachadas, nas produções escultóricas, nas pinturas, nas alegorias em que o Rococó7 se mistura com o Barroco formando uma expressividade simbólica nas formas e de beleza incontestável, sendo que “o elemento decorativo é omnipresente, funcionado como forma e acesso ao homem comum à grandeza que quem detém o poder.” (Tedim 2011:181,182).

A arquitetura barroca, nas suas diversas sensibilidades, que encontrou no Porto e em Braga os dois grandes centros de criação e de influência para todo o Norte, vai apresentar-se em toda a área em estudo com grande qualidade. (...) (Ferreira-Alves 2005:142)

A decoração extravagante em que o Barroco se acentuou em Portugal foi propiciada pela economia sobressalente derivada do ouro e dos diamantes vindos do Brasil garantindo sua riqueza e gastos com festas, construções palacianas, civis e religiosas.

O Barroco português recebeu outras denominações que o historiador José Fernandes Pereira menciona: o barroco do século XVII pode ser encontrado nas

                                                                                                                         

7   “Por volta de 1734, o termo rocaille era usado na França para indicar uma composição à base de

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Capítulo  II  –  Breve  Comentário  sobre  o  Barroco  

   

diversas literaturas como Estilo Nacional, se refere à talha8; Estilo Joanino, se refere à arte cortesã de D. João V9; Estilo Manuelino10 se refere à arte produzida no período dos descobrimentos:

A explicação da produção artística de qualquer época tem de fazer-se à luz da cultura artística (dos artistas e dos encomendadores) então dominantes e que é revelada pelos textos teóricos. (Pereira 1995:11)

Desde modo, o uso do nome do estilo com certeza aconteceu em momentos distintos das mudanças culturais (sociedade, política, economia) e das necessidades de quem ocupava no poder ou do artista em ascensão, mas com alguma certeza a arquitetura religiosa imperou sobremaneira nestes períodos em que os estilos dominavam e, aponta-se para o papel decisivo da vida religiosa e da Igreja na formação e no deaponta-senvolvimento do Barroco.

A necessidade religiosa que abarcava uma quantidade grande de fiéis que pertenciam às camadas sociais diversas fazia com que o enaltecimento desse movimento artístico se sobressaísse de tal forma que as construções de igrejas tiveram um crescimento fervoroso entre os séculos XVII e XVIII em Portugal, pois foi o Barroco que difundiu uma iconografia nas suas representações nunca antes assistida pelo fiel, uma iconografia persuasiva e de interesse político e religioso, “a necessidade de que todos entendessem quem mandava e de mostrar que este poder estava presente constantemente” (Araújo 2011:343), pois o mundo ibérico do século XVII precisava atrair para si setores de opinião dos grupos privilegiados devido à pressão da Monarquia.

Neste contexto, em especial ao norte de Portugal, na cidade de Braga,11 houve um desenvolvimento em relação à construção da arquitetura religiosa de grande rigor devocional. Miguel Melo Bandeira (2003) elaborou um roteiro intitulado “Trinta e Três

Passos Virtuosos do Barroco em Braga” e enumerou a sequência: Sé Primacial, São

Vitor, São Vicente, Nossa Senhora de Guadalupe, Santa Cruz, Bom Jesus do Monte de Braga, Santa Maria Madalena, Nossa Senhora da Torre, São Bentinho, Cruzeiros, Hospital São Marcos, Congregados, Convertidas, Convento da Penha de França, Asilo

                                                                                                                         

8 Talha: é uma das formas artísticas mais beneficiadas pelo ambiente religioso da Reforma católica. 9 D. João V o Magnânimo conhecido por ter sido o maior mecenas da arte portuguesa.

10 Recebeu este nome devido a D. Manuel.

11  Tratar-se-á do Barroco na cidade de Braga pelo fato do Santuário pesquisado o Bom Jesus do Monte

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São José, Convento do Pópulo, São Frutuoso, Mosteiro de Tibães, Campo Novo, Arcada, Casa dos Crivos, Rua do Souto, Casa Térrea, Largo do Passo, Paço Arcebispal dos Bragança, Câmara, Arco da Porta Nova, Palácio dos Biscainhos, Casa do Passadiço, Palácio do Raio, Casa Rolão, Casa Vale Flores, Sete Fontes. Neste roteiro o autor descreve cada local. Assim se pode verificar o quanto Braga estava e está mergulhada na religião sendo aí que Portugal presenciou um dos maiores arcebispados.

A Bracara Augusta, cidade edificada pelos romanos no ano 16 a.C, ou Braga hoje, possui uma história milenar e foi através do Cristianismo que Braga foi moldada. Os bracarenses do medievo viram a cidade se desenvolver aos arredores da Sé Catedral. A cidade foi projetada nos moldes medievais com uma estruturada muralha em círculo com oito portas e ao centro ficava o templum maximum, a Sé. Aos poucos a cidade com a ajuda do clero, nobreza e monarquia foi sendo infraestruturada com hospitais, conventos, urbanização, praças e fontes e, em meados do século XVIII, “Braga possuía quatro conventos masculinos, seis conventos femininos, quatro recolhimentos para mulheres e vinte igrejas incluindo a Sé.” (Milheiros 1995:99), o que define bem a importância da arquitetura religiosa e dos religiosos na cidade:

O paradigma bracarense representa do ponto de vista religioso e sociológico o momento privilegiado da união entre o barroco e os ideais e consolidação e expansão da fé, teorizados em Trento. (Pereira 1989:96)

Braga foi privilegiada com a presença de André Soares (1720-1769) considerado um inventor da arquitetura de passagem do Barroco para o Rococó, que produziu uma vasta arquitetura em Braga e em outras localidades ao norte de Portugal.

II. 2 - O Barroco Mineiro

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, Uma Síntese

 

“O barroco português, sem o brasileiro ficaria mutilado no seu destino. O barroco brasileiro, sem o português, ficaria desenraizado e órfão. Uma só história – em dois volumes. Interligados, mas inconfundíveis.” (Fernando Pamplona 1977)

                                                                                                                         

12 Minas Gerais: é neste estado brasileiro que está situado o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos,

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Capítulo  II  –  Breve  Comentário  sobre  o  Barroco  

   

Não se pode dizer que o Brasil possui um atraso em relação aos acontecimentos europeus, pois celebrou recentemente seus 500 anos de “existência”. Nesse contexto, o Brasil Colonial recebeu, pelas mãos dos portugueses, o estilo denominado barroco que se apresentou com diversas interpretações no ambiente cultural.

O Barroco tão exaltado na Europa do século XVII chegou especialmente em Minas Gerais, na região mineradora, distanciando-se do europeu, assumindo características essencialmente regionais.

A distância geográfica entre Brasil e Portugal e a mundivivência colocaram este estilo com algumas diferenciações, mas com a mesma temática, a teológica. O fenômeno barroco foi absorvido em muitos outros estados brasileiros, adquirindo em sua concepção características locais que os seus feitores produziram, sobretudo a partir de encomendas vindas do clero e da corte.

O historiador Marcio Jardim menciona outro historiador Fernando Correia Dias como quem melhor sintetizou o barroco mineiro, nas suas palavras:

O Barroco exprime o original estilo de vida social que vicejou em Minas Gerais no século XVIII. Exprime uma sociedade precocemente urbanizada (relativamente às demais regiões brasileiras); uma sociedade representativa do contra-reformismo religioso; uma sociedade submetida, mas não por inteiro submissa, ao absolutismo; uma sociedade, enfim culturalmente marcada pela miscigenação. É nesse contexto que o barroco mineiro deve ser compreendido (...) (Jardim 1995:13)

Chegado ao Brasil pelas mãos dos colonizadores portugueses, o Barroco foi difundido especialmente na arquitetura civil e na religiosa: “secundando o poder civil na obra colonizadora, a Igreja católica teve importantíssimo papel na encomenda arquitetônica e artística do Novo Mundo.” (Oliveira 2010:22). Utilizado em vários outros estados brasileiros, é em Minas Gerais que se encontra um vasto complexo da arquitetura barroca – “as mais interessantes manifestações do Barroco lusitano no Brasil estão concentradas em Minas Gerais” (Bury 2006:109) - pois foi neste estado que se focalizou a riqueza do ouro e de pedras preciosas propiciando a chegada de muitos aventureiros, em especial portugueses, que lá fixavam moradia; e a produção aurífera atingiu seu ponto máximo e presenciou a construção de grandes igrejas em Vila Rica, Antônio Dias, Mariana, Sabará, Congonhas do Campo, São João Del Rey e Barbacena. Os que aqui chegavam tinham necessidade de moradia, de comércio e também da religião. Essas necessidades fizeram com que arquitetos portugueses também se

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aventurassem na Terra Brazilis trazendo o Barroco como estilo e o difundindo no território brasileiro:

De início a arquitetura adotada nas igrejas mineiras obedeceu ao chamado barroco jesuítico com linhas sóbrias nas fachadas e plantas retangulares, geralmente com uma única e grande porta (pois um só é Deus, e uma só e a verdade) deixando o esmero do ornamento para a talha interior. A sobriedade dos frontispícios cedeu às limitações ocasionadas pela precariedade da construção exclusivamente detida na taipa de pilão. (Araujo 2010: 158-159)

Mesmo adquirindo personalidade das regiões em que era introduzido, o Barroco, no Brasil, possui a tratadística arquitetônica semelhante à de Portugal, tanto nas fachadas como seu interior, nas palavras de Myriam A. R. de Oliveira:

Seguindo a tradição do barroco português, a decoração interna das igrejas coloniais brasileiras é dominada pelas esplêndidas ornamentações de talha dourada, cujo emprego no mundo ibérico equivale ao de mármore nas igrejas barrocas italianas, acrescido de efeitos de cintilação e rutilância, comparáveis aos dos mosaicos bizantinos e vitrais medievais. (2010: 37)

Segundo o historiador John Bury o Barroco no Brasil recebeu outra denominação, “estilo jesuítico”, devido a chegada da Companhia de Jesus; movidos pela necessidade, os padres jesuítas acabaram se tornando os “principais expoentes para o desenvolvimento das artes e da arquitetura” (Bury 2006:66); desta forma pode-se dizer que foram os jesuítas, juntamente com os colonizadores que chegavam ao Brasil, os responsáveis pelo canal de transmissão desta marca da cultura europeia:

O caráter social e doméstico do catolicismo português reflete-se no espírito geral das igrejas brasileiras dos séculos XVII e XVIII, cujo o estudo arquitetônico pode ser considerado uma interpretação simplificada mais robusta da arquitetura portuguesa, atitude colonial. (Bury 2006:109)

As influências europeias, especialmente a lusitana, tiveram um grande progresso no desenvolvimento posterior das construções religiosas e civis no Brasil, devido às adaptações regionais em que se encontravam os engenheiros produtores de plantas arquitetônicas como as poligonais e, depois, as plantas curvilíneas “de tradição italiana, já rara em Portugal.” (Oliveira 2010:29). Mas as formas de desenvolvimento da arquitetura não mudavam em relação aos interesses do clero e da Corte. Com certeza

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Capítulo  II  –  Breve  Comentário  sobre  o  Barroco  

   

esses templos construídos tinham o mesmo sentido psicológico que o Barroco em Portugal: o exuberante, a comunicação entre o clero e o fiel, dramático, a persuasão política e religiosa que era também preconizada no Brasil:

(...) os objetivos do barroco eram emocionais, e os resultados comoventes, turbulentos, hipnóticos, buscando atingir a ilusão do ilimitado. Até mesmo a integridade dos elementos mais importantes da composição podia ser relativizada, quando necessário, com vistas a produzir um único efeito dramático. (Bury 2006: 67)

No Barroco mineiro a produção arquitetônica é visível nas cidades, pois ocupa um espaço urbano de boa localização, mas deve entender-se que estas obras arquitetônicas abrigam personagens de importância para a sociedade da época que eram as imagens devocionais, exprimindo a necessidade intrínseca do povo que via nestas imagens a personificação de “alguém” que pudesse suprir as suas carências oprimidas; desde modo, as esculturas e alegorias produzidas pelo Barroco mineiro aproximavam os seres, o mortal com o imortal.

Registre-se, para finalizar, a percepção da grandiosidade do Barroco no Brasil e em Portugal, com sua grandiloquência e dramatismo seja na arquitetura, na pintura, escultura ou na monocromia dos azulejos que nos contam histórias religiosas e cotidianas.

(...) o barroco brasileiro, a calidez do clima, a moldura fantástica das florestas tropicais, o segredo genésico da miscigenação das raças deram-lhe força exuberância espantosas e insuspeitas, como que o recriaram em novas formas plásticas, em novas florescências de expressão de vida. (Pamplona 1979:15)

Mas, de qualquer forma, o modo como o Barroco se apresentou no Brasil tem as suas raízes fortalecidas pelas mãos lusitanas, que deixaram o legado deste estilo, podendo dizer-se ter sido a primeira grande manifestação cultural mais difundida no Brasil, alicerçada em características próprias que o tornaram original.

No próximo capítulo será abordada a história dos dois santuários pesquisados, os quais foram produzidos dentro do estilo Barroco e com variações ornamentais baseados no Rococó.

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CAPÍTULO III - DOIS SANTUÁRIOS UMA SÓ DEVOÇÃO

Será esboçada neste capítulo a história da fundação dos dois santuários: Bom Jesus do Monte de Braga, Portugal, e Bom Jesus de Matosinhos, Brasil. Sobre a devoção do Bom Jesus em Portugal e Brasil, Isabel Lago (2003:43) comentou “(...). O culto ao Bom Jesus de Matosinhos, a sua permanência tem como suporte a fé que une, num sentimento único (...) dois povos que no, aspecto devocional, o mar não conseguiu separar.”.

III. I - O Santuário de Bom Jesus do Monte de Braga

Conhecer o Santuário de Bom Jesus do Monte de Braga estimula a vivenciar um mundo de associações simbólicas. O lugar é de extrema beleza e a sua história suscita conhecer um passado intenso unido harmoniosamente entre o sagrado e o profano, pois “como as pessoas, também os monumentos têm a sua história, viva e perene, que ultrapassa a frigidez e o mutismo das pedras.” (Peixoto 2011:7)

Esta estância produz nos espectadores (que aqui se prefere chamá-los de contempladores), uma visão poética, pois o local integra a um ambiente que emite um silêncio contemplativo digno de ser vivenciado pelo religioso, ou turista, pelo curioso, ou artista, pois há tesouros expostos em suas escadarias, capelas e templo que se unem com mata preservada, cheirosa e centenária misturada com uma arquitetura de exímia produção.

A sua história remonta ao ano de 1494, na montanha de Espinho13 e recebeu, a

princípio, o nome de Monte da Santa Cruz, com romaria em 03 de maio14:

Remontado a séculos que passaram de há muito na rotação do tempo, e rasgando a nebulosidade do passado, vamos encontrar como fundador da primitiva ermida, no anno de 1494, o arcebispo de Braga, D. Jorge da Costa II, que lhe deu a invocação de Santa Cruz. (Coutinho 1899:4)15

                                                                                                                         

13Curiosamente em Matosinhos a imagem do Bom Jesus de Matosinhos foi encontrada em um local

chamado de Praia do Espinheiro.  

14  Dia das festas das Cruzes  

15   A atribuição dada a D. Jorge da Costa da construção da ermida no ano 1494 foi de D. Rodrigo da

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Referências