As perspectivas do profissional contábil
e o ensino da contabilidade
Alessandra Cristina Fahl*
Mestre em Ciências Contábeis e Atuariais - PUC-São Paulo Coordenadora do Curso de Ciências Contábeis da Faculdade Comunitária de Campinas - Unidade 2
Professora das Faculdades de Valinhos
Professora da Faculdade Comunitária de Campinas - Unidade 1 e-mail: [email protected]
Lourdes Pereira de Souza Manhani*
Mestre em Administração de Empresas - Universidade São Marcos
Diretora e Professora do Curso de Ciências Contábeis das Faculdades de Valinhos e-mail: [email protected]
Resumo
As transformações estão ocorrendo numa velocidade nunca vista pela humanidade, diante disso, as empresas e as pessoas são forçadas a acompanhar os avanços tecnológicos. Por outro lado, as empresas passaram a assumir inúmeras funções e responsabilidades sociais relacionadas às comunidades em que atuam, à Saúde e à Educação ou relacionadas ao meio ambiente. Por conseqüência, essas responsabilidades passaram a ser também foco de preocupação e análise de Contadores e Auditores. Assim, esses profissionais precisam rapidamente adaptar-se às mudanças e também ter capacidade de assimilar e adaptar-se às novas transformações que virão. A mudança no perfil do profissional da Contabilidade terá seu reflexo nas instituições de ensino responsáveis pela formação desses profissionais. A perspectiva da carreira contábil é excelente, mas deve haver melhor planejamento profissional. As entidades educacionais, por sua vez, devem fornecer os subsídios para esse planejamento profissional. Para tanto, essas entidades devem buscar maior interação com as necessidades atuais do
mercado de trabalho.
Palavras-chave: ensino, contabilidade, ética profissional, profissional contábil, gestão, patrimônio.
Abstract
The transformations are occurring in a speed never seen by the humanity, ahead of this, the companies and the people are forced to follow the technological advances. On the other hand, the companies had started to assume innumerable functions and social responsibilities related the communities in that they act, to the related Health and the Education or to the environment. For consequence, these responsibilities had also started to be focus of concern and analysis of Accountants and Auditors. Thus, these professionals quickly need to adapt it the changes and also to have capacity to assimilate and to adapt it the new transformations that will come. The change in the profile of the professional of the Accounting will have its consequence in the responsible institutions of education for the formation of these professionals.
The perspective of the countable career is excellent, but it must have professional planning better. The educational entities, in turn, they must supply the subsidies this professional planning. For in such a way, these entities they must search greater interaction with the current necessities of the work market.
Key-words: education, accounting, professional ethics, countable professional, management, patrimony.
Introdução
Nos últimos anos, com a globalização e a progressiva expansão do comércio internacional, todo cenário econômico se modificou. Grandes empresas tornaram-se ainda maiores com as fusões e as incorporações. As mudanças estão ocorrendo numa velocidade incontrolável e, diante disso, as empresas e as pessoas são forçadas a acompanhar os avanços tecnológicos. Por outro lado, as empresas passaram a assumir inúmeras funções e responsabilidades sociais relacionadas às comunidades em que atuam, à Saúde e à Educação ou relacionadas ao meio ambiente. Por conseqüência, essas responsabilidades passaram a ser também foco de preocupação e análise de Contadores e Auditores. Assim, esses profissionais precisam rapidamente adaptar-se às mudanças e também ter capacidade de assimilar e adaptar-se às novas transformações que virão.
A mudança no perfil do profissional da Contabilidade terá seu reflexo nas instituições de ensino responsáveis pela formação desses profissionais. A perspectiva da carreira contábil é excelente, mas deve haver melhor planejamento profissional. As entidades educacionais, por sua vez, devem fornecer os subsídios para esse planejamento profissional. Para tanto, essas entidades, devem buscar maior interação com as necessidades atuais do mercado de trabalho. O planejamento profissional é o alicerce da mudança e os pilares são a adequação do ensino da Contabilidade à nova realidade e o salto qualitativo na formação do profissional através da adoção de disciplinas mais voltadas à realidade do mercado e com a introdução de metodologias de ensino mais diversificadas e eficazes.
Contexto Histórico: Um Resumo da Evolução da Contabilidade
A contabilidade tem acompanhado a evolução das relações comerciais, sendo mais antiga que a própria moeda. Segundo Marion (2003 p.30) “costuma-se dizer que a Contabilidade é tão antiga quanto a origem do homem”. O referido autor cita que a Bíblia traz passagens que relatam registros e controles quantitativos que, por volta de 1.494, o Frei Luca Pacioli codifica a contabilidade através do método das partidas dobradas, dando origem à Escola Italiana. A Escola Americana começa a se formar no século XX e o advento da informática acaba com a escrituração tradicional. Cabe ressaltar que o avanço tecnológico ampliou as possibilidades do uso da contabilidade como instrumento de controle e gestão. No Brasil, segundo Marion (2003 p.31) os principais eventos que marcaram a evolução da Contabilidade foram: a criação, em 1902, da Escola de Comércio Álvares Penteado com a adoção da Escola Européia de Contabilidade, basicamente a italiana e a alemã; em 1946 a fundação da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA); e com o advento das multinacionais anglo-americanas, a escola americana infiltra-se em nosso país; em 1976 a edição da Lei 6.404/76 - Lei das Sociedades por Ações e da Lei 6.385/76 criou a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Tendências Econômicas
Diante da tendência de crescente fluxo de negócios entre os diversos países, entre sistemas econômicos diferentes, cresce também a necessidade de uniformizar a linguagem dos contabilistas em todo o mundo. A Contabilidade é a linguagem universal de negócios e atividades econômicas internacionais e, portanto, é participante direta do processo de globalização e de negócios. Essa uniformidade de linguagens envolve a internacionalização de normas e de currículos.
O profissional da Contabilidade terá papel de destaque nessa nova ordem, pois dele dependem a transparência e fidelidade das informações contábeis que permitirão a correta avaliação das empresas e dos negócios. Essa avaliação não é importante só na esfera privada, mas também no setor público, no qual cresce
a importância da participação de auditores e peritos no exame das contas públicas. A sociedade requer, cada vez mais, transparência e clareza nas informações públicas, entendendo sua importância para a busca de melhor qualidade de vida e também como forma de inserção no contexto universal de negócios.
Segundo Franco (1999, p.23) “A globalização da economia e das relações internacionais determinará, indubitavelmente, o progresso ou o retrocesso das nações no século XXI, influindo não somente na economia, mas também na própria cultura dos povos. Vencerão o desafio da competição internacional aqueles que estiverem mais preparados para enfrentá-lo, isto é, aqueles com melhor formação cultural e técnica”.
Para que a Contabilidade seja realmente a linguagem internacional dos negócios e da economia, deverá haver um período de harmonização das normas internacionais de Contabilidade e Auditoria. Os países mais desenvolvidos já dispõem de normas amplas e estruturadas para o funcionamento do sistema de informações contábeis. Porém, entre as economias emergentes, muitas não possuem normas estabelecidas ou possuem algumas que são precariamente observadas, ou que estão em desacordo com padrões já reconhecidos internacionalmente. Muitos países demonstram interesse na integração na comunidade contábil mundial e procuram, gradativamente, adotar as normas contábeis internacionais ou harmonizar as normas existentes às internacionais.
Nesse contexto, é “necessário que os profissionais contábeis utilizem a mesma linguagem, ou seja, adotem os mesmos princípios e as mesmas normas em seus relatórios e demonstrações contábeis”. (FRANCO, 1999, p. 23). O exemplo que pode ser citado para ilustrar essa necessidade de harmonização de linguagem é o das multinacionais que operam em diferentes países e devem ajustar as informações para efeito de consolidação na matriz. Muitas vezes, esse fato implica na existência de duplicidade de relatórios no país em que as informações são geradas: um relatório para atender a legislação e padrões locais e outro relatório para ser apresentado à matriz, de acordo com as normas internacionalmente aceitas.
A Questão Ética
O profissional contábil, assim como qualquer outro, deve exercer sua profissão combinando competência e ética, ou seja, deve ser correto, honesto e sincero na abordagem de seu trabalho profissional, além de conduzir-se de maneira consistente com a boa reputação de sua profissão e abster-se de qualquer conduta que possa trazer descrédito à profissão.
De acordo com Franco (1999), a ética e a competência profissional são indissociáveis. Assim, ser ético é tão importante quanto ser capaz, por outro lado, exercer a profissão com incompetência é também atentar contra a ética profissional. Assim, além da boa formação ética, o Contador deve conhecer o Código de Ética Profissional do Contabilista, instituído pela Resolução CFC No. 290 de 04/09/70 do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) e revogado pela Resolução CFC No. 803 de 10/10/96, e as orientações do Comitê de Ética da IFAC - Federação Internacional de Contadores.
De acordo com Lisboa (1996 p.62) “um código de ética é um corpo de princípios que relaciona as principais práticas de comportamento permitidas e proibidas no exercício da profissão. (...) O contador desempenha importante papel na análise e no aperfeiçoamento da ética na profissão contábil, pois sempre está às voltas com dilemas éticos. Esses, para serem resolvidos, requerem do contador os princípios éticos da competência, sigilo, integridade e objetividade. Além de zelar pela integridade e sigilo das informações, cabe ao contador, sempre que oportuno, propor soluções alternativas que salvaguardem os interesses da empresa, à medida que esses não contrariem os princípios éticos”.
A regulamentação profissional e a prerrogativa de emitir normas contábeis constituem tarefas da própria profissão, com baixa influência dos poderes públicos. A comunidade dos profissionais contábeis deve dedicar-se ao bom exercício dessas tarefas, para mantê-las no âmbito das entidades de classe ou entidades privadas criadas para esse fim, sem interferência oficial. Até porque, os órgãos oficiais devem obedecer às normas contábeis e são passíveis de auditoria.
A questão da corrupção, tanto no meio empresarial como nas esferas públicas, também resulta em uma das responsabilidades do Contador.
A inserção de uma economia nos padrões do mundo globalizado depende, entre outros fatores, da percepção de que a prática da corrupção é limitada, coibida e punida. O contador é agente importante nesse contexto. Deve-se buscar a difusão da Auditoria nas entidades governamentais. Para atuar sobre essa questão ética, esse profissional deve receber, na base de sua formação profissional, capacitação para a identificação desse tipo de problemas, através de maior ênfase em treinamento em Contabilidade Pública ou Governamental.
Perspectivas da Contabilidade
Com as modificações advindas da globalização da economia e, consequentemente, maior concorrência, as empresas necessitam agir rapidamente em resposta aos avanços tecnológicos, para se manterem competitivas. A contabilidade tem papel de destaque diante desse novo cenário.
Assim, os contadores serão forçados a expandir sua visão para além dos números, para mudar a forma como tratam os problemas e deverão passar a considerar a forma como esses problemas são tratados além das fronteiras nacionais. O novo profissional deve dominar economia internacional, dominar outro idioma, buscar constantemente novos conhecimentos, novas informações, além de ter grande visão de negócios, com compromisso técnico e ético nos negócios da empresa.
O profissional deverá voltar-se muito mais para as decisões e as previsões futuras do que para a história do passado. Neste contexto, o profissional contábil, torna-se um gestor do patrimônio. Essa nova realidade tende a trazer alterações na forma como os Contadores são preparados e treinados.
Iudícibus (2000 p.39) apresenta como excelentes as perspectivas, da Contabilidade e da Profissão Contábil no Brasil, porém cita três circunstâncias para se obter um progresso constante, duradouro e equilibrado: 1) as entidades representativas tais como o IBRACON - Instituto Brasileiro de Contadores, devem aprofundar a pesquisa sobre princípios contábeis; 2) os técnicos de Contabilidade devem buscar formação superior em bons cursos de Ciências Contábeis; e 3) as instituições de pesquisa precisam ampliar seus fundos e esforços à pesquisa contábil, no sentido de treinar, manter e atualizar o corpo docente.
Novos Aspectos Abordados pela Contabilidade O objetivo básico da Contabilidade é o “fornecimento de informações econômicas para vários usuários, de forma que propiciem decisões racionais” (IUDÍCIBUS, 2000, p. 23). Porém, ao fornecer informações para a avaliação de riquezas, o contador atualmente vê crescer a necessidade da avaliação das riquezas não diretamente monetárias, como a avaliação do patrimônio ambiental ou a avaliação da geração de riqueza social, ou ainda a capacidade de obtenção de ganhos de produtividade. Os tópicos abaixo referenciados retratam novas áreas de preocupação do profissional contábil, que podem também ser chamadas de novos desafios da profissão:
Globalização da economia mundial -necessidade de os Contadores prepararem-se para a harmonização das normas contábeis internacionais, o que demandará melhoria de sua formação educacional, não somente no que diz respeito à cultura geral, mas também quanto à educação técnica especializada.
Capital Intelectual - uma questão que deve ser considerada diz respeito a mensurar, nas demonstrações contábeis, a evolução da riqueza denominada capital intelectual que, de acordo com Brooking apud Antunes (2000 p.78) “é uma combinação de ativos intangíveis frutos das mudanças nas áreas de tecnologia da informação, mídia e comunicação...”. Sua evidenciação na contabilidade tem sido um desafio constante, pelo fato de não existir uma formatação ou orientação oficial a respeito dessa evidenciação nas demonstrações contábeis, não obstante, para muitas empresas o capital intangível supera o capital físico, como exemplo, podemos citar as empresas de alta tecnologia, nas quais seus bens imateriais ou intangíveis superam seus bens materiais ou tangíveis.
Contabilidade Ambiental - nas últimas décadas, os investimentos e estratégias de crescimento de muitas empresas passaram a ser direcionados por critérios que envolvam a preservação do meio ambiente. Essa tendência tende a se acentuar nos próximos anos. É crescente a demanda por informações e exigências de regulamentação para o meio ambiente. Os Contadores devem buscar a forma mais consistente de informar ativos e passivos ambientais
e padronizar as normas para provisionamento e avaliação.
A Contabilidade deve preocupar-se com a mensuração dos recursos consumidos e com toda a poluição resultante da fabricação de determinado produto, tem como seu uso e descarte final. Neste contexto, a responsabilidade dos contadores passou a ser a de prover informações sobre encargos com o meio ambiente e, a responsabilidade dos auditores é a de assegurar a confiabilidade das informações fornecidas.
Há ainda uma série de questões relacionadas ao papel do contador em relação ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentado, como por exemplo: - Como reconhecer nos demonstrativos contábeis os custos e responsabilidades para manutenção do meio-ambiente?
- Como reconhecer os valores dos ativos ambientais?
- Como desenvolver sistemas regulares de informações sobre o meio ambiente?
- Como criar provisões para riscos ambientais – a necessidade de consistência.
- O que deve conter nos Relatórios sobre o Meio Ambiente? Que opinião os auditores devem expressar sobre esses relatórios?
A profissão contábil está intimamente relacionada às empresas, muitas das quais são poluidoras. Porém, são as próprias empresas, através dos profissionais que nelas atuam, que podem dar maior contribuição à solução dos problemas ecológicos.
Preocupação Social - a sociedade passou a dar grande importância ao Balanço Social elaborado pelas empresas. Balanço Social são demonstrativos técnico-gerenciais dos conjuntos de informações sociais de uma entidade relacionados aos benefícios dos funcionários, ao relacionamento com entidades de classe como associações e sindicatos, ao relacionamento com o governo através da geração de tributos, aos gastos na melhoria dos padrões de saúde e educação de uma comunidade, às ações de cidadania como patrocínio de eventos culturais e de lazer e às ações relacionadas à conservação do meio ambiente. Para preparar esse Balanço Social, o profissional da contabilidade precisa ter uma visão integrada dos negócios, conhecimentos econômicos e gerenciais suficientes para avaliar indicadores sociais que
reflitam os aspectos quantitativos e qualitativos das ações sociais desenvolvidas pela entidade.
Avanço Tecnológico - é imprescindível que o contador acompanhe o rápido avanço da tecnologia de Informação, não somente aquela utilizada pelas empresas, mas também a sua aplicação na própria Contabilidade.
A evolução tecnológica permite que o registro dos fatos e a elaboração dos demonstrativos contábeis sejam executados por não contadores. Esse fato permite que o contador participe mais ativamente da elaboração dos relatórios que dão suporte ao processo de tomada de decisão, valorizando, assim, seus serviços.
A Profissão Contábil no Brasil - visão atual Segundo Cosenza (2001) “o profissional contábil é percebido como carente de competências que ultrapassem seu domínio profissional, ou seja, os aspectos quantitativos da informação”. Cabe ressaltar que já houve uma modificação no comportamento do profissional contábil, mas ainda não atingimos o ideal, pois muitos profissionais ainda apresentam as seguintes características:
• Recusam-se, em geral, em avançar além do limite restrito da apuração contábil;
• Limitam-se a trabalhar os aspectos ligados a questões tributárias, fiscais e jurídicas;
• Esforçam-se mais em moldar o cliente, segundo as orientações do poder público, a atender às necessidades do cliente;
• Omitem-se de intervir na área de consultoria de gestão empresarial para as pequenas e médias empresas.
Vale ressaltar que o profissional contábil é um agente de mudanças e, como tal, esse profissional deve mostrar suas diversas habilidades e valorizar os serviços que presta, pois o contador é um profundo conhecedor da empresa podendo, desta forma, contribuir para sua continuidade e crescimento.
Para Marion (2003 p.32) o contador: “deve desempenhar aqui um papel importante nas negociações inter-regionais, assessorando, pesquisando, trazendo informações e elementos que assegurem o fluxo de informações contínua, que leva a empresa à tomada de decisão racional, devendo oferecer um serviço socialmente útil e profissionalmente eficiente,
que não seja apenas fruto da experiência e da formação universitária recebida, mas também de seu compromisso de incrementar e renovar constantemente o caudal de seus conhecimentos em prol da unidade regional”.
Em resumo, o profissional contábil deve-se apresentar como um “tradutor” das informações contábeis da organização e não simplesmente como um “apurador” de dados. Tão importante quanto elaborar as informações contábeis é fazer com que os gestores entendam essas informações, ou seja, é adequá-las ao processo de tomada de decisão da organização. Neste contexto, o profissional deve estar mais preocupado com a utilidade, a transparência e a clareza da informação.
Nasi (1994 p.5) cita que: “o contador deve estar no centro e na liderança deste processo, pois, do contrário, seu lugar vai ser ocupado por outro profissional. O contador deve saber comunicar-se com as outras áreas da empresa. Para tanto, não pode ficar com os conhecimentos restritos aos temas contábeis e fiscais. O contador deve ter formação cultural acima da média, inteirando-se do que acontece ao seu redor, na sua comunidade, no seu Estado, no seu País e no mundo. O contador deve ter um comportamento ético-profissional inquestionável. O contador deve participar de eventos destinados à sua permanente atualização profissional. O contador deve estar consciente de sua responsabilidade social e profissional”.
A profissão contábil é uma das poucas profissões que oferecem um leque de opções para atuação profissional. De acordo com Marion (2003), o bacharel em ciências contábeis pode atuar no setor privado ou no setor público, como mostra o quadro 1.
O Perfil do Novo Profissional
De acordo com Franco (1999), até os anos 60 o perfil profissional estava voltado para o profissional
especialista que entendia tudo sobre uma coisa só. Nos anos 80 esse perfil passou a ser Generalista, ou seja, um profissional que entendia de tudo um pouco. Atualmente, as organizações exigem profissionais com competências e habilidades voltadas para a adaptação, ou seja, profissionais com capacidade de desenvolver novas competências e talentos, além de saber muito, acompanhado de gostar de aprender sempre mais e rápido.
O profissional deve ser preparado para ser um estrategista dentro da empresa, ter ações eficientes e eficazes, visando a identificar e corrigir as dificuldades e adversidades que se coloquem ao longo do percurso. Para isso é necessário adquirir novas qualificações e capacitações gerenciais. A atualização de seus conhecimentos, bem como a sede por novos desafios deve ser uma constante.
Na nova realidade empresarial que se apresenta, os contadores devem ser mais competitivos e
desejosos de prestar novos serviços, preocupados com a qualidade oferecida e, na utilidade dos serviços para usuários, com necessidades cada vez mais complexas. A profissão contábil enfrenta grandes desafios, mesmo nos países desenvolvidos onde ela é ampla, bem desenvolvida e auto-regulamentada. Esses desafios são ainda maiores nos países em desenvolvimento, onde muitas vezes a profissão sofre por falta de credibilidade, por insuficiente formação cultural e falta de treinamento adequado.
Segundo Franco (1999 p.48), para a evolução da profissão contábil no Brasil ainda há necessidade de:
- melhorar o ensino da contabilidade;
- mudar a legislação profissional, buscando melhor seleção de profissionais e, por outro lado, oferecendo mais personalidade e prestígio;
- conscientizar as entidades da Classe Contábil de que a educação continuada deve ser um objetivo a ser perseguido, de forma constante e obrigatória;
- lutar por melhor qualidade dos professores do ensino da contabilidade, exigindo maior capacidade, mas oferecendo melhor remuneração.
Cabe ressaltar que o Conselho Federal de Contabilidade, enquanto órgão de classe, tem desenvolvido um trabalho intenso de incentivo à educação continuada, estabelecendo inclusive parcerias com universidades de outros estados para que ofereçam programas de pós-graduação para os profissionais da área, pois é emergencial a permanente atualização e reciclagem dos conhecimentos ligados ao mundo dos negócios.
Assim, são excelentes as perspectivas para a profissão contábil, considerando que estamos na era da informação e a contabilidade, por excelência, é a ciência da informação. De acordo com Marion (1998), a tendência é que as empresas sejam vistas como clientes ou quem sabe parceiras; os profissionais como fornecedores de serviços, exigindo-se por parte destes diversas ênfases: competência, profissionalismo, inteligência emocional e marketing pessoal.
De acordo com o contador Antônio Carlos Nasi (RBC n.109, jan/fev/1998), ao ressaltar as perspectivas da profissão contábil: “As empresas precisam de nossos serviços, os empresários necessitam de nosso assessoramento e a sociedade necessita de nosso respaldo para ter confiabilidade nas entidades em
que coloca suas poupanças, seus investimentos e a garantia de seu futuro”.
Assim, o profissional contábil deve ser preparado e treinado para ser capaz de:
• Elaborar e conduzir seu planejamento profissional de forma consistente e duradoura;
• Atuar com foco no cliente externo e interno, que for o usuário da informação contábil;
Para tanto, os profissionais ligados às áreas de ensino da contabilidade devem questionar-se se os recém-formados possuem essas habilidades e o que falta para atingi-las. Mais importante, devem constantemente direcionar seus esforços no sentido de preparar esse profissional, desenvolvendo essas habilidades no aluno ou fornecendo condições para seu aprimoramento, através de metodologia adequada e grade curricular compatível com a realidade do mercado.
O Ensino da Contabilidade
As evoluções e tendências do cenário econômico mundial enfatizam a necessidade de mudanças na forma e conteúdo da educação e treinamento de contadores. No passado, o ensino estava concentrado em princípios, normas, conceitos e fatos contábeis. A partir dos anos 80, passou a existir maior preocupação com a preparação do profissional contábil, com ênfase na metodologia que permitia ao estudante aprender a aprender, de forma a estar sempre atualizado.
De acordo com Marion (2001 p.14), “a educação para os futuros contadores deveria produzir profissionais que tivessem amplo conjunto de habilidades e conhecimentos”.
Ainda segundo Marion (2001), essas habilidades são divididas em três categorias: habilidade em comunicação, habilidade intelectual e habilidade no relacionamento com as pessoas. E quanto aos conhecimentos indispensáveis ao profissional contábil: conhecimentos gerais; conhecimentos de organizações e negócios; conhecimentos contábeis e de auditoria.
Segundo Cosenza (2001) “as universidades terão que se esforçar por implantar um modelo de ensino voltado para ajudar o aluno a “aprender a aprender”, uma vez que somente assim esses futuros profissionais da área contábil terão condições de sucesso nessa
sociedade que estará sempre em dinâmica mudança”. Marion (2001 p. 35) diz que “os estudantes deverão tornar-se “pensadores-críticos”. (...) Eles deverão desenvolver a capacidade de auto-iniciativa de descobrimento que permita um processo de aprendizagem contínuo e de crescimento em sua vida profissional”.
Porém, o ensino oferecido atualmente apresenta algumas deficiências. Os Professores Marion e Iudícibus (RBC n.56, 1986) citam algumas dessas deficiências: “falta de adequação do currículo, falta de um programa bem definido para a prática contábil, falta de preparo do corpo docente, deficiência da metodologia de ensino da Contabilidade Introdutória”. No mesmo texto, os Professores comentam que uma das funções das faculdades de Ciências Contábeis é a de “adequar às exigências dos meios econômico-sociais à estrutura e nível de ensino com o objetivo de melhor preparar o futuro profissional contábil às reivindicações cada vez mais polivalentes e complexas dos usuários reais e potenciais da Contabilidade”.
Não obstante, acrescentaríamos a necessidade de melhorar a comunicação entre as Instituições de Ensino e o Mercado de Trabalho. A elaboração de um novo currículo que atenda às novas exigências do mercado será imprescindível. Disciplinas como: gestão empresarial, marketing contábil, relações internacionais, planejamento estratégico, contabilidade ambiental, comunicação e liderança, serão fundamentais para a formação desse novo profissional.
Cabe ressaltar que instituições de ensino superior que são sérias e comprometidas com a qualidade de ensino já oferecem grande parte das disciplinas acima referenciadas.
Para acompanhar um mundo em acelerada evolução, além de conhecimentos técnicos essenciais, o contador da atualidade precisa também desenvolver habilidades relacionadas à comunicação, à administração, às relações humanas. A Contabilidade deve ser tratada como um serviço prestado aos clientes e, para tanto, deve adaptar-se à chamada era do cliente, na qual o foco de todas as ações é a satisfação do usuário da Contabilidade. Conforme Marion, “a Contabilidade é um processo para servir e satisfazer ao cliente e não para a satisfação do criador ou idealizador de métodos contábeis”. (Revista do CRC-Paraná Ano
24, no. 120, Março 1998).
A atualização do ensino contábil passa por uma associação de interesses entre a comunidade econômica, os educadores e instituições de ensino superior, no sentido de especificar e comunicar as habilidades e conhecimentos necessários para ser um profissional completo. Além do ambiente acadêmico, os órgãos de classe podem exercer importante papel na identificação do nível de conhecimentos e habilidades necessários para seus membros atuarem na sociedade.
Franco (1999) destaca que a valorização e a habilitação da profissão dependem de alguns fatores: experiência prática, exame de suficiência e educação continuada.
Quando falamos em educação continuada, não podemos deixar de citar a deficiência que temos em se tratando de cursos de pós-graduação em nível strictu-senso, que incluem mestrado e doutorado. No Brasil, temos alguns cursos de mestrado em ciências contábeis reconhecidos pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e apenas um programa de doutorado em contabilidade que é oferecido pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de São Paulo (FEA-USP), o que é totalmente desproporcional, comparando as informações do Censo 2003 do Ministério da Educação em que o curso de ciências contábeis é o 7º no ranking, liderado pelo curso de administração. Esse fato é, no mínimo, contraditório quando citamos que é emergencial a atualização profissional e a busca pela educação continuada. Assim, podemos concluir que a educação na área da contabilidade tem correlação com o nível de desenvolvimento econômico do país.
Considerações Finais
O ambiente em que as empresas atuam está em constante mutação, evoluindo e derrubando fronteiras. A Contabilidade deve acompanhar toda essa evolução e o profissional contábil é um dos principais agentes desse cenário. Deve, portanto, preparar-se para executar bem o seu papel, e ter o reconhecimento à altura de sua importância. Várias ações precisam ser adotadas no sentido da valorização desse profissional, e também no sentido de melhorar a sua capacitação, para prepará-lo, não só para atuar de forma diferenciada, como também para capacitá-lo a orientar as gerações futuras.
Essas ações devem organizar-se sob três aspectos: 1 - Melhorar a comunicação entre as instituições de ensino e o mercado de trabalho. Essa comunicação deve ter bom fluxo nos dois sentidos: na busca de comunhão de propósitos e interesses. Devem ser intensificadas as pesquisas de qualidade e avaliação de grau de satisfação por parte da comunidade acadêmica, para atingir um melhor padrão de oferta de profissionais ao mercado de trabalho. O mundo empresarial, por sua vez, deve contribuir oferecendo as oportunidades de desenvolvimento aos iniciantes e incentivando a necessária reciclagem de conhecimento aos profissionais com mais experiência.
2 - Atualização das grades curriculares, inclusive com atualização de ementas e da metodologia aplicada em algumas disciplinas e formas de avaliação. Novas disciplinas devem passar a fazer parte da grade curricular, pois passaram a ser importantes à nova realidade do mercado de trabalho e às tendências identificadas.
3 - Ênfase nos aspectos éticos da profissão. Esse aspecto é importante para a valorização do profissional e seu reconhecimento pela sociedade. De acordo texto da Prof.ª Márcia Carvalho dos Santos em co-autoria com Prof. Marion, “estudar o código de ética é fundamental, mas antes é primordial que o discente esteja consciente não apenas dos conceitos acerca da moral, crenças, costume, sigilo entre outras, como também tenha dentro de si internalizado estes conceitos. Só assim, o discente estará apto a entender o código de ética e aplicá-lo sem decorar seus artigos. A ética fluirá naturalmente, devido à conscientização desenvolvida na forma como a disciplina foi ministrada”.
Com base nas considerações deste trabalho, podemos constatar que, muito embora a profissão contábil e o ensino da contabilidade tenham evoluído nos últimos anos, é imprescindível uma análise mais profunda sobre a cultura e o desenvolvimento de nosso país, pois esses dois fatores impactam diretamente na importância que se é dada à contabilidade das organizações e, ao profissional contábil no Brasil. Dessa forma cabe aos profissionais ligados a essa área, dar a devida importância ao trabalho que desenvolvem, seja no setor privado, seja no setor público, seja na educação, pois entendemos que, somente assim, nossa profissão será respeitada.
Referências Bibliográficas
ANTUNES, Maria Tereza Pompa, Capital intelectual. São Paulo: Atlas, 2000.
COSENZA, José Paulo, Perspetivas para a Profissão
Contábil num Mundo Globalizado - Um Estudo a Partir da Experiência Brasileira, Revista Brasileira de
Contabilidade RBC, Jul/Ago 2001 - nº130.
FRANCO, Hilário, A Contabilidade na Era da
Globalização, São Paulo : Atlas, 1999
____________. Temas Contábeis, São Paulo : Atlas, 1997 IUDÍCIBUS, Sérgio de, Teoria da Contabilidade , 6. ed. São Paulo: Atlas, 2000
Perfil do Contabilista Brasileiro, Brasília : Conselho Federal de Contabilidade CFC, 1996
LISBOA, Lázaro Plácido (coord), Ética Geral e
Profissional em Contabilidade, São Paulo: Atlas, 1996
MARION, José Carlos, Contabilidade Empresarial, 9. ed., São Paulo : Atlas, 2003
___________________.O Ensino da Contabilidade, 2. ed., São Paulo : Atlas, 2001
___________________.O Contabilista, a Ética
Profissional e a Bíblia , Revista Brasileira de
Contabilidade RBC nº 58 - 1986
___________________. Preparando-se para a Profissão
do Futuro, Revista do CRC-Paraná Ano 24, no. 120,
Março 1998.
MARION, José Carlos, DOS SANTOS, Márcia Carvalho,
Os Dois Lados de Uma Profissão, Revista Acadêmica
Augusto Guzzo, n. 2, Maio/2001.
MARION, José Carlos, IUDÍCIBUS, Sérgio de, As
Faculdades de Ciências Contábeis e a Formação do Contador, Trabalho apresentado na XVI Conferência
Interamericana de Contabilidade, publicado na RBC n. 56- 1986.
NASI, Antônio Carlos, Globalização da Economia e as
Novas Tendências da Profissão Contábil no Século XXI,
apresentado no Seminário Regional Interamericano de Contabilidade, Dez/97, publicado na RBC n.109 de Jan/Fev/98.