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A cAusAlidAde em
Pedro dA FonsecA
António manuel martins
*
RESumo – Neste pequeno artigo pre- tendemos fazer uma primeira apresen- tação sumária da reflexão de Fonseca sobre as causas nos seus Comentários à
Metafísica de Aristóteles. Começaremos
pelo mapa das questões em torno da causalidade (I) para analisarmos, em seguida, a posição de Fonseca sobre a própria noção de causa (II), a relação entre princípio e causa (III) e a sua defesa do esquema causal quadripartido, a partir do texto de Aristóteles (IV). PAlAVRAS-ChAVE – Causa. Princípio. Ex- plicação. Razão. Aristóteles. Fonseca.
AbSTRACT – In this paper we intend to present briefly the way Fonseca deals with the doctrine of causation in his
Commentaries on the Metaphysics of Aristotle. We shall begin with the presen-
tation of the map of the disputations on causation in that work (I), then will refer to the position of Fonseca on the definition of cause (II), the relation between cause and principle (III) and, finally, his defense of the Aristotelian four causes (IV).
KEy WoRdS – Cause. Causation. Expla- nation. Justification. Aristotle. Fonseca.
Introdução
o que se segue mais não pretende do que introduzir e contextualizar,
sumariamente, a reflexão de Pedro da Fonseca sobre as causas. mas,
antes de entrarmos na temática que nos ocupa convém relembrar
algumas características formais da obra principal de Pedro da Fonseca. o
texto dos Comentários à Metafísica de Aristóteles
1apresenta-se-nos com
* universidade de Coimbra.
1 PEdRo da Fonseca. Commentariorvm... in libros metaphysicorvm Aristotelis...
T. 1: Continet hic tomus quatuor primorum librorum explicationem.(Romae: Franciscus Zanettus, & bartholomaeus Tosius, 1577); T. 2: Continet hic tomus quinti libri explicationem (Romae: Jacobi Tornerii & Franciscus Zanettus, 1589); T. 3: Continet hic tomus 6. 7. 8. et 9. lib. Explicationem (Eborae: E. de lyra, 1604); T.4: in metaphysicorum Aristotelis Stagiritae decimum, undecimum, & duodecimum: cum sequentium duorum interpretatione (lugduni: h. Cardon, 1612). Estes quatro tomos foram reimpressos, a partir da edição de Colónia (1615-29), em dois volumes pela editora olms (hildesheim, 1964). Como os textos que se referem à causalidade se
quatro níveis ou componentes principais dos quais os três primeiros estão
centrados no texto aristotélico e o último, o das quaestiones, representa
um esforço de sistematização de um pensamento metafísico em que
Aristóteles é o autor de referência mas a amplitude da reflexão é muito
mais vasta. Aqui é determinante a autocompreensão que Fonseca tem
da Filosofia em geral e da Filosofia Primeira em particular. A presença
do texto aristotélico continua a manifestar-se a cada passo mas deixou
de ser a única fonte. Funciona sempre como um texto que foi, de facto,
superado. As consequências não fazem recuar Fonseca na prossecução
do seu projecto.
Reconhecendo ser imprescindível a familiaridade com a obra de
Aristóteles sublinha que em Filosofia a procura do verdadeiro é o único
critério fundamental aceitável:
Quanto ao resto, como pensamos que, tratando-se de questões filosóficas, não se deve jurar pela palavra de nenhum doutor, também não rejeitámos a opinião de nenhum filósofo menos conhecido quando nos pareceu mais consentânea com o verdadeiro; reconhecendo, plenamente, que a verdade, dita por quem quer que seja, dimana da verdade primeira. Nem seguimos as nossas opiniões de tal modo que não estejamos dispostos a seguir, agora, quem tiver melhor opinião.2
Não se trata, portanto, como muitas vezes se quer fazer crer, de
uma opção cega por Aristóteles. basta ler o prólogo em que justifica
amplamente a sua escolha do texto do Estagirita sem nunca se apresentar
como defensor de uma qualquer variedade de aristotelismo em estado
quimicamente puro. Esta filosofia primeira considera-se a si mesma
“rainha de todas as disciplinas humanas” e, por isso, “tem todo o
direito de reclamar para si as causas das disciplinas subordinadas e de,
adicionando os princípios próprios, as investigar cuidadosamente”.
3o
facto de Fonseca inserir as quaestiones a seguir a determinado passo
do texto da Metafísica de Aristóteles pode dar a impressão de que
a sua reflexão sistemática está afectada por um elevado índice de
contextualização filológica. Impressão esta que se pode agudizar pelo
encontram maioritariamente nos tomos 1 e 2 e nem todas as bibliotecas possuem a reimpressão da olms, citarei a partir da edição de Frankfurt (1599) que está agora acessível na internet no sítio da biblioteca Pública de munique. Contudo, deve salientar-se que a edição de Colónia, no que diz respeito aos dois primeiros tomos, reproduz a edição de Frankfurt (1599) mantendo exactamente a mesma paginação (http://www.digital-collections.de/index.html?c=autoren_index&l=en&ab=Fons eca%2C+Pedro+da). Citarei usando a sigla CMA, seguida da indicação do tomo e da coluna referindo, no texto, sempre que necessário, a referência ao texto de Aristóteles e o número da quaestio e respectiva sectio.2 PEdRo da Fonseca. CMA I, Admonitio lectoris/Advertência. 3 PEdRo da Fonseca. CMA I, Admonitio lectoris/Advertência
facto de o texto dos Comentários à Metafísica de Aristóteles ser muito
longo e ter sido publicado em quatro tomos com um intervalo temporal
de mais de trinta anos.
4Contudo, como alguns textos do primeiro tomo dos CMA mostram,
Fonseca tinha, desde a redacção dos primeiros textos da sua obra principal,
uma visão bastante nítida da estrutura sistemática da sua metafísica e do
lugar em que pretendia integrar cada um dos seus elementos. Isto aplica-se
a todos os aspectos da sua metafísica e também à doutrina das causas. E
deve ser tido em conta para entender a posição de Fonseca no seu preciso
contexto histórico e estabelecer possíveis comparações com outros autores,
designadamente aqueles que lhe estão mais próximos. o mapa de questões
sobre a causalidade que a seguir propomos constitui um exercício preliminar
de comparação entre dois textos muito próximos a variados títulos, o
CMA de Fonseca e o primeiro tomo do Curso Conimbricense, dedicado
à Física de Aristóteles. Ambos antecedem o célebre tratado de Suárez
sobre as causas nas suas Disputationes Metaphysicae (1597) com o qual
se iniciaria, nas palavras de Vincent Carraud, o “século da causalidade”.
54 o primeiro tomo dos Comentários à Metafísica de Aristóteles sai, finalmente, em
Roma, no segundo semestre de 1577, incluindo o texto, tradução, comentário de met. I-IV e questões. o segundo volume dos Comentários à Metafísica de
Aristóteles foi publicado, também em Roma, em 1589. o desenvolvimento das quaestiones em torno de metafísica V assume tal proporção que o conjunto do
texto associado a este léxico aristotélico acaba por ser ainda mais extenso que o primeiro volume publicado doze anos antes, também em Roma. o terceiro volume dos Comentários à Metafísica de Aristóteles será publicado, postumamente, em Évora, em 1604. Contudo, o texto deste volume estava já pronto em 1594 uma vez que existe correspondência dos anos 95 e 96 relativa à censura de algumas teses alegadamente menos ortodoxas. Fonseca tentou desvalorizar as críticas vindas de alguns sectores ligados a Coimbra e Évora bem como a Roma (Cf. ARSI, lus., 72, fl. 213v, 216-7, 396; lus. 73, fl. 162-3, fl. 215-215). Sem entrarmos em especulações infundadas talvez possamos compreender melhor alguma distância crítica rela-tivamente a certas afirmações de Fonseca se nos lembrarmos que estava ainda muito viva a polémica desencadeada pela Concordia de molina. Nas questões em que, no terceiro volume dos Comentários à Metafísica de Aristóteles, se analisam os atributos divinos Fonseca dificilmente poderia fugir a uma exposição e justificação da sua versão da scientia media ou ciência dos futuros condicionados. o quarto volume dos Comentários à Metafísica de Aristóteles só foi publicado em lyon em 1612. Trata-se de um livro muito mais pequeno do que os restantes pois só inclui o texto e tradução dos livros X-XIV da Metafísica e a explanação dos livros X, XI e XII. Ficava, assim, incompleta a obra principal de Pedro da Fonseca. Sobre esta matéria ver o nosso estudo preliminar de 1991.
5 A monografia de CARRAud (2002) visa a inscrever a fórmula cartesiana numa
his-tória do conceito de causalidade que teria um momento culminante na formulação do principio de razão suficiente (ou principium reddendae rationis) de leibniz. Carraud faz anteceder a sua exposição da história do problema da causa, de Suarez a leibniz, de um útil Vademecum onde sumaria os principais momentos da pré-história dos autores de que se ocupa (p. 7-102). A nossa leitura do texto de Fonseca não pressupõe a aceitação prévia de uma narrativa da história da metafísica que exclua outras grandes narrativas.
A nossa análise é bem mais modesta e não tem qualquer ambição de
contribuir para uma narrativa linear da história da filosofia. muito pelo
contrário.
o texto de Fonseca pode ser analisado de múltiplos ângulos: como
intérprete (de Aristóteles e da tradição filosófica) e como pensador
sistemático. Nem sempre é fácil separar estas dimensões e a doutrina
das causas é um dos casos em que essa separação se torna mais
problemática. depois de uma brevíssima referência a um tópico da
exegese do texto aristotélico em que Fonseca mostrou a sua originalidade
como comentador de Aristóteles passaremos a uma apresentação sumária
do mapa das questões em torno da causalidade (I) para analisarmos,
em seguida, a posição de Fonseca sobre a própria noção de causa (II),
a relação entre princípio e causa (III) e a sua defesa do esquema causal
quadripartido, a partir do texto de Aristóteles (IV).
A causalidade do movente imóvel, tal como é apresentada no livro XII
da Metafísica foi tradicionalmente interpretada em termos de causalidade
final desde os comentadores antigos até ao século XX. A excepção mais
conhecida era brentano mas, muito antes dele, já Pedro da Fonseca tinha
interpretado o texto de Aristóteles atribuindo, contra todos os intérpretes
anteriores, a causalidade eficiente ao motor imóvel da teologia aristotélica.
É um tema que não podemos aqui desenvolver mas que revela bem o
facto de Fonseca não se limitar a repetir aquilo que outros disseram. Isto
não quer dizer que ele não tenha assimilado muito das leituras que fez de
autores seus contemporâneos e mais antigos desde os gregos passando
pelos medievais que o invento de Gutenberg tornara acessíveis. mas não
só a nova tecnologia mas também um intenso labor sobre os textos. os
trabalhos de edição e comentário de Aristóteles, publicados no século XVI,
continuam ainda desconhecidos da esmagadora maioria dos estudiosos
da história da filosofia. Sobre esta questão concreta da interpretação
da causalidade do motor imóvel remetemos o leitor interessado para as
referências dadas por Enrico berti em estudos recentes.
66 Referindo-se à interpretação tradicional diz E. berti: “Questa interpretazione è
stata formulata per la prima volta, a nostra conoscenza, in maniera rigorosa, dal primo grande commentatore della Metafísica, Alessandro di Afrodisia, secondo il quale il motore immobile sarebbe oggetto di amore da parte del cielo, e il cielo, essendo animato, si muoverebbe circolarmente allo scopo di imitare l’immobilità del motore immobile per mezzo del movimento che più le assomiglia, quello appunto circolare. Essa è stata ripresa, sia pure con alcune differenze, di tutti i commentatori sai antichi […]. Sia infine rinascimentali, quali il padovano Iacopo Zabarella (con l’importante eccezione del gesuita Pedro da Fonseca”. bERTI. 2005, p. 453. depois de referir as tentativas infrutíferas de contrariar a interpretação dominante no século XX, feitas por Carlo Giacon – que invocava a autoridade de Fonseca a favor da sua interpretação – e de sublinhar que ele mesmo tinha defendido esta interpretação maioritária, na linha de david Ross e de toda a tradição,
I
No plano original de Fonseca as questões da causalidade deveriam
ser abordadas em três momentos distintos segundo a ordem e o tipo
de análise desenvolvido no texto dos escritos de Aristóteles sobre a
Metafísica. o primeiro momento corresponderia à análise desenvolvida
por Aristóteles no livro I da Metafísica em que a preocupação pelo
carácter exaustivo e completo do modelo de explicação causal é bem
claro. o segundo está associado ao léxico apresentado no livro delta (V)
onde Fonseca desenvolve, ao longo de 18 quaestiones, o que poderíamos
considerar o seu tratado mais sistemático sobre as causas. Finalmente,
o terceiro estaria planeado para articular com o livro lambda (XII) onde
discutiria questões ligadas à natureza divina. Como sabemos Fonseca
não chegou a acabar este texto do tomo 4 e, talvez porque tivesse tido
a percepção de que já não conseguiria completar a sua obra, antecipou
algumas dessas questões para o tomo 3, como se pode ver no mapa das
questões (Quadro 1).
Aristóteles insiste em muitos aspectos nucleares da sua doutrina das
categorias mas é-lhe relativamente indiferente saber se são exactamente
dez ou não. Pelo contrário, relativamente ao seu modelo quadripartido
da causalidade, todo o texto do livro I assenta no pressuposto de que o
seu modelo é o mais completo e mais coerente. Por isso, é perfeitamente
aceitável que Fonseca comece por esta questão, saber quantos são os
tipos de causa (Quot sint causarum genera). Fonseca insere apenas
outra quaestio sobre a causalidade neste primeiro tomo para discutir
a tese aristotélica de que não pode haver séries causais infinitas (Num
eiusdem rei dari possint infinitae causae). Esta primeira abordagem da
problemática das causas (1577) é a mais familiar ao autor do texto do
Curso Conimbricense (1592) que o cita repetidas vezes. baste mencionar,
a título de mero exemplo, o que ele diz a propósito da controvérsia sobre
Enrico berti continua: “Solo nell’ultimo decennio del secolo sono apparsi alcuni studi intesi a riaprire il discorso, attribuendo al motore immobile di Aristotele una causalità di tipo efficiente: in questo si sono segnalati autori come Sarah broadie, Arieh Kosman, lindsay Judson, ai quali mi sono affiancato anch’io in alcuni articoli recenti” (p. 454). No resto do artigo que estamos citando, berti apresenta alguns elementos novos para apoiar esta interpretação que atribui ao motor imóvel uma causalidade de tipo eficiente. A interpretação continua sendo controversa. mas o que não deixa de ser interessante é que tenha sido Fonseca o primeiro comentador a defender esta interpretação e que, nas últimas décadas haja um pouco mais de abertura para esta leitura e não seja tão prontamente silenciada como quando foi retomada por brentano e por Giacon. Ver igualmente, de bERTI. 2000, p. 181-206, reimpresso em bERTI. 2005, p. 427-451.
a causalidade exemplar remetendo para o texto de Fonseca, CMA I,
c.7, q. 1, s. 5, “ubi totam hanc controuersiam accurate pertractat”.
7Não
deixa de ser curioso notar que manuel de Góis dedique explicitamente
duas quaestiones à querela sobre a causalidade exemplar enquanto
Fonseca trata da questão no contexto mais amplo do número de causas.
o mesmo se poderia dizer da questão da definição de causa. Fonseca
trata essa questão na sua primeira análise, a seguir a met. I, 7 embora
retome a questão da diferença entre princípio e causa no tomo II, na
q. 7, inserida a seguir a delta 1. Quando redigiu o seu tratado sobre as
causas, manuel de Góis, muito provavelmente, não conhecia o texto
de Fonseca (1589), publicado em Roma. Contudo, parece claro que foi
feito um confronto, por sumário que tenha sido, com a reflexão sobre as
causas desenvolvida em Fonseca (1589) como o indicam as referencias a
este texto.
8As questões colocadas por Fonseca a propósito da noção de
necessário (delta 5) estão mais determinadas pela problemática teológica
cristã do que pelo texto aristotélico tal como acontece no texto de 1592 do
Curso Conimbricense. haveria que explorar, neste contexto, uma ampla e
rica problemática que todos os filósofos das religiões do livro partilham.
Agostinho, Ibn Sina, Ibn Rushd, Tomás de Aquino, Escoto, o autor do
Liber de Causis, entre muitos outros, procuram reconciliar, cada um a seu
modo, os essenciais da fé com aquilo que pensam ser a melhor doutrina
filosófica. Para além de muitos outros aspectos que não poderemos
sequer mencionar tem especial impacto nestas questões aquilo que, em
cada caso, a teologia diz ao crente sobre a criação do mundo ex nihilo
e sobre a concepção de deus e seus atributos (a omnipotência, por
exemplo). É essa também a preocupação de Fonseca e do autor do Curso
Conimbricense. Partilham estas questões de fundo que vão perdurar
ainda pela filosofia moderna não só em autores cimeiros como em muitos
outros mal conhecidos e que nem sequer constam dos dicionários e
enciclopédias.
7 CuRSo Conimbricense, In Physic. Arist. lib. II, c. 7, q. 4, a. 2.
8 Ver, por exemplo, CuRSo Conimbricense, In Physic. Arist. lib. II, c. 7, q. 15, a. 2,
p. 286: “occurrendum erit proloquium Philosophorum affirmantium essentias non habere causam efficientem, intelligi de conexionibus essentialibus, qualis est inter hominem et animal particeps rationis, quae cum non sint aliud formaliter, quam relationes identitatum, fundamentaliter uero negationes diuersitatis, ut docte explicat Fonseca lib. 5. metaphy. cap. 5, q. 1, sect. 4 nequeunt ab ulla causa effici”.
Quadro 1 – mapa de questões sobre a causalidade
Curso Conimbricense, 1592Phys. II, cap. 7
q. 1 – utrum causa recte a philosophis definiatur an non
q. 2 – utrum ne causarum genera quattuor sint an non?
q. 3 – Quidnam sit exemplar
q. 4 – utrum exemplar uere ac proprie causa sit ad genus causae formalis pertinens?
q. 5 – Sitne omnis causa effectu suo nobilior?
q. 6 – In quonam causalitas seu causandi ratio consistat.
q. 7 – Quae sit ratio causandi efficientis causae
q. 8 – utrum singulae causae peculiares sibi causalitates uendicent, an non.
q. 9 – utrum causae sibi mutuo causae sint, an non?
q. 10 – utrum deus res omnes in suo esse conseruet, an non?
q. 11 – utrum causae secundae re uera aliquid agant, an non?
q. 12 – utrum deus cum causis secundis ad quemlibet earum actionem eliciendam actu concurrat?
q. 13 – utrum ne deus aliqua praeuia motione causas secundas ad agendum excitat?
q. 14 – utrum deus immediatione uirtutis et suppositi cum omni agente cerato operetur.
q. 15 – utrum causa prima actionem secundae, an secunda actionem primae determinet?
q. 16 – utrum ne recte concedatur, aliquid esse, quod diuina potentia fieri non possit?
Fonseca, 1577, 1589, 1604 met. A (I), 7
Q. 1 – Quot sint causarum genera met. A (II), 2
Q. 1 – Num eiusdem rei dari possint infinitae causae
_________________ Metaph. ∆ (V), 1
Q. 7 – Num principium latius pateat quam causa
Metaph. ∆ (V), 2
Q. 1 – Quaenam sit ratio causandi materiae
Q. 2 – Quae sit ratio causandi formae Q. 3 – Num materia in suo esse pendeat a forma et uicissim forma a materia
Q. 4 – Quid sit, formam educi e potentia materiae
Q. 5 – Quaenam sit ratio causandi efficientis causae
Q. 6 – Num accidentalis forma attingat productionem substantiae Q. 7 – Num res aliae infra deum aliquid agant
Q. 8 – Num res creatae tantam agendi uim habeant ut creare possint
Q. 9 – Num res creatae agant aut agere possint non concurrente immediate ad actionem primo agente Q. 10 – Quaenam sit ratio causandi finalis causae
Q. 11 – Num finis sit causa secundum esse intentionale, quod uocant, na uero secundum esse reale
Q. 12 – Num omnes causae secundae, cuiuscumque sit generis, deo
Fonseca, 1577, 1589, 1604 Q. 13 – Num rationes causandi, quas uocant causalitates, sint entia absoluta, distincta a causis et effectis Q. 14 – Num eiusdem effectus plures causae dari possint, non coniuctim sed diuisim
Q. 15 – Num eiusdem effectus plures causae coniuctim esse possint Q. 16 – Num causae sibi mutuo sint causae
Q. 17 – Num idem contrariorum causa esse possit
Q. 18 – Num causa et effectus simul sint
Metaph. ∆ (V), 5
Q. 1 – utrum praeter deum aliquid sit necessarium simpliciter
Q. 2 – utrum ea quae sunt simpliciter necessaria, causam habeant
_________________
Metaph. Z (VII), 7
Q. 3 – utrum agentia aequiuoca sint causae suorum effectorum non solum in fieri sed etiam in conseruari uniuoca uero solum in fieri.
Metaph. Z (VII), 8
Q. 4 – Quonam pacto deus cum ante mundum conditum non esset causa rerum actu caeperit esse actu causa sine ulla sui mutatione
Metaph. Z (VIII), 5
Q. 1 – An res aliqua postquam esse desiit per causas naturales eadem numero redire
Curso Conimbricense, 1592
q. 17 – unde proueniat ut aliquid diuina uirtute possit aut non possit fieri?
q. 18 – utrum accidens attingat productionem substantialis formae, an non?
q. 19 – utrum ex omnibus accidentibus solae qualitates agendi uim habeant? q. 20 – utrum finis uere ac proprie causa sit, an non ?
q. 21 – utrum causalitas finis in metaphorica motione consistat, an non?
q. 22 – utrum omnis operatio causae agentis sit effectus finis, an non? q. 23 – Causet ne finis secundum esse intelligibile, an secundum existentiam quam in rebus habet?
II
Sobre a noção de causa, diz-nos Fonseca que, em boa verdade, nem
Aristóteles nem qualquer outro filósofo grego definiram o que é uma
causa:
Et quidem quid causa sit, nec ab Aristotele usquam Nec ab alio Graecorum (quod sciam) in commune expositum est, ut uidere licet in enarrationibus tertii capitis 2 libr. Physic. & secundi capitis libri quinti huius operis.9
Continua dizendo que é costume apresentar uma definição
alegadamente retirada do Liber de Causis que é apresentada em duas
versões: definição 1: “causa est id ad quod aliud sequitur”; definição
2: “[causa est ] id ad cuius esse aliquid sequitur”. Fonseca considera
equivalentes estas definições declarando: 1) que não servem como
definição de causa e 2) que nenhuma destas definições se encontra
no Liber de causis.
10Este escrito, durante muito tempo atribuído a
Aristóteles, influenciou profundamente o modo como durante a Idade
média os pensadores cristãos e muçulmanos articularam a dependência
causal do mundo relativamente à causa primeira. Fonseca tem perfeita
noção de que se trata de uma obra espúria. mas o mais importante é que
nem a definição apresentada como sendo proveniente dessa obra explica
suficientemente a noção de causa nem encontra nela outra definição de
causa que possa aceitar.
11Fonseca acaba por optar por outra definição
que se aplique a todo o tipo de causas e que permita distinguir claramente
a causa do efeito. Assim, define causa como “id, a quo aliquid per se
pendet”.
12Para além de lhe permitir evitar qualquer confusão entre causa
e efeito, esta definição servirá também a Fonseca para tomar posição face
a certas discussões teológicas negando qualquer dependência causal no
interior da trindade. Esclarece ainda que o termo “causa” se pode usar
de três modos: em sentido absoluto, relativo e de dependência:
Illud tamen animaduertendum est, tribus modis posse causam accipi. uno pro re, quae denominatur causa, omnino tamen absolute accepta, ut pro sole, aut homine. Altero, relatiue, hoc est, quatenus significat relationem ad effectum, quo pacto est simul natura cum effectu. Tertio, quatenus ab ea pendet effectus, qui modus medius est inter duos traditos; atque hoc pacto non dubium est quin causa sit prior effectu.13
9 PEdRo da Fonseca. CMA I, c. 7, q. 1, s. 3, 315.
10 PEdRo da Fonseca. loc. cit.: “Quanquam uero utraque definitio idem ualet, neutra
tamen in libro citato legitur aut satis uidetur rem declarare”.
11 Pensa-se hoje que o autor anónimo do Liber de causis terá escrito este texto em
árabe cerca de 950, a tradução latina de Gerardo de Cremona (ca 1170) foi editada por A. Pattin, 1966 (lovaina) e está acessível em formato digital nos sítios da bibliotheca Augustana e das colecções Intra Text.
12 PEdRo da Fonseca. CMA I, c. 7, q. 1, s. 3, 316. 13 PEdRo da Fonseca. CMA I, c. 7, q. 1, s. 3, 316-317.
Conclui esta secção dizendo que o terceiro uso representa o ponto de
vista mais característico da análise do filósofo e remete para a análise da
ratio causandi ou como Fonseca diz também usando a terminologia da
escolástica que lhe está mais próxima, das causalitates, precisamente no
tratado das causas (Fonseca, 1589). o que nos apraz salientar não é tanto
a escolha desta definição que não anda muito longe de outras discutidas
pelos seus contemporâneos mas a perspicácia com que nota que nem
Platão nem Aristóteles ou qualquer outro Grego definiram o conceito de
causa. Ainda hoje se discute muito na literatura especializada sobre a
origem e o verdadeiro sentido deste conceito e dos termos aitia, aition.
14muitos intérpretes crêem que a investigação de Aristóteles sobre as
causas está numa linha de continuidade com a iniciada por Platão em
Fédon (62a-102a). Carlo Natali, partindo de uma análise das causas no
Timeu, faz um confronto com a doutrina aristotélica das quatro causas
concluindo que se trata de dois quadros teóricos muito diferentes. Natali
interpreta aitia em Platão como significando primordialmente algo que
14 FREdE (1980) interrogava-se sobre o sentido da “noção original de causa”
defendendo a tese de que no Fédon de Platão aitia era usado para falar de itens proposicionais enquanto que aition se referia a itens não proposicionais. Continuando a ser citado até hoje como um artigo seminal o certo é que não se gerou qualquer consenso nesta matéria. SEdlEy (1998) propôs-se analisar a relação causa-efeito no Fédon defendo uma interpretação segundo a qual as causas seriam coisas (e não eventos, estados de coisas ou algo de semelhante).
Aition seria “thing responsible”, na linha das analogias da esfera jurídica. Porém,
lEdbETTER (1999) apresentou argumentos bastante convincentes para rejeitar a interpretação de Frede. A distinção entre aitia e aition seria usada por Platão de forma bastante consistente ao longo de todo o Corpus Platonicum mas não no sentido proposto por Frede. lEdbETTER (1999, p. 258-9) defende que Platão usa de preferência aitia para significar razão; aition, pelo contrário, estaria mais frequentemente associado à noção de causa ou explicação causal. mas, aquilo que parecia ser um avanço real na investigação cedo se revelou igualmente problemático. WolFSdoRF (2005) reexaminou todas as ocorrências de aitia, aition e aitios no Corpus Platonicum, excluindo, numa segunda releitura, as ocorrências de aitia e aition no Fédon (para evitar a circularidade da argumentação) e, numa fase posterior, todas as ocorrências de aitia no sentido estritamente legal. destas exclusões resultou um total de 242 ocorrências cuja frequência se distribuiria da seguinte forma: o adjectivo aitios ocorre 105 vezes, o nome aitia 90 vezes e o nome
aition ocorre 47 vezes. A análise dos passos em que surgem estas ocorrências
permitiu a WolFSdoRF (2005, p. 342) concluir que também a interpretação de ledbetter é insustentável e que Platão não faz qualquer distinção semântica significativa no uso dos nomes aitia e aition. Esta conclusão de Wolfsdorf parece-nos mais compatível com a letra dos textos mas deixa-parece-nos com os problemas já conhecidos da interpretação do texto platónico. Também neste caso os resultados dependem muito do nível e profundidade da análise que se quiser e puder levar a cabo. hANKINSoN (1998) investiga a problemática das causas num contexto mais amplo que vai de Tales aos neoplatónicos mas não traz novidade significativa na interpretação de Platão e Aristóteles e é particularmente insatisfatório no que diz respeito ao neoplatonismo.
produz um efeito enquanto para Aristóteles a causa seria um princípio.
15Isto leva-nos a considerar a interpretação que Fonseca faz desta relação
entre causa e princípio em Aristóteles.
III
Fonseca reconhece que Alguns textos de Aristóteles podem ser
interpretados no sentido de uma equivalência entre causa e princípio.
Contudo, chama a atenção para a necessidade de estarmos atentos à
diferença entre um uso corrente de aitia (populari acceptione) e um uso
filosófico, mais específico. Num uso corrente (popular) aitia designaria
não só aquilo que é causa em sentido restrito como também a ocasião,
as condições sine quibus non, e outras coisas vulgarmente associadas à
ocorrência de algo:
Sumitur enim quatenus complectitur ea quae requiruntur, licet non sint uerae cuasae: quo pacto occasio, conditiones sine quibus non, et alia pleraque uulgo dicuntur causae. hoc autem modo ne ipsa quidam priuatio formae introducenda a nomine causae interdum excluditur, ut apud eundem 12 lib. huius operis, c. 2.16
Em sentido mais técnico, filosófico, dirá Fonseca que os dois termos
não são equivalentes nem intersubstituíveis. mesmo que se interprete
Aristóteles no sentido de se poder dizer que todas as causas são princípios
não se deve nunca confundir estes dois termos
17pela simples razão de
que nem todos os princípios são causas. Fonseca sintetiza a sua posição
sobre esta matéria apontando cinco argumentos para justificar a diferença
entre causa e princípio. Em primeiro lugar, toda a verdadeira causa é um
ente bem como o causado não se podendo dizer o mesmo de todos os
princípios.
18Em segundo lugar, a causa é sempre algo numericamente
diferente do efeito não se passando o mesmo com todos os princípios.
19Em terceiro lugar, porque as causas comunicam àquilo de que são
causas alguma entidade. Isto não acontece nos princípios como se pode
15 Cf. NATAlI. 2005
16 PEdRo da Fonseca. CMA II, c.1, q. 7, s. 2, 53. 17 PEdRo da Fonseca. CMA II, c.1, q. 7, s. 2, 54.
18 PEdRo da Fonseca. CMA II, c.1, q. 7, s. 1, 51: “Principium et causam hoc primum
differunt inter se, quod omnis vera causa est ens, quemadmodum et omne id quod est uere causatum: non omne autem principium est ens, quemadmodum neque omne principiatum, ut patet in priuatione et in saptio extra coelum.”
19 PEdRo da Fonseca. CMA II, c.1, q. 7, s. 1, 51-52: “differunt deinde quod sempre
causa est aliud ab effectu, hoc est, essentiae diuersae numero, principium autem non necessario est diuersae numero essentiae ab eo cuius est principium, potest enim esse uel eiusdem numero essentiae, ut in diuinis personis, uel saltem non diuersae ut in iis principiis quae non habent rationem entis.”
ver claramente, sublinha Fonseca, nos casos da privação da forma e da
própria geração.
20o quarto argumento aprofunda o anterior afirmando
uma relação de dependência do causado relativamente à causa que iria
para além do simples habere esse ab illo, dependência esta que não se
verificaria sempre no caso dos princípios.
21Finalmente, o argumento de
que a causa é, por natureza, anterior ao seu efeito, prioridade esta que
não se verifica em todos os princípios.
22Fonseca conclui pela reafirmação
inequívoca da tese segundo a qual princípio e causa não se podem
confundir pois o termo princípio é usado num sentido muito mais amplo
que o de causa. Esta é também a opinião dos que ele tem na conta de
melhores intérpretes de Aristóteles: Alexandre, Alberto magno, Tomás
de Aquino e Averróis.
23IV
Considerando, portanto, causa no seu uso mais técnico poderemos
analisar, com Fonseca, a doutrina das quatro causas. Relativamente à
doutrina aristotélica das causas encontramos as posições mais díspares
hoje. Por um lado ela é ignorada ou, o que vai a dar no mesmo, já sobejamente
conhecida mesmo por quem nunca leu uma linha de Aristóteles. Entre
aqueles que se queixam do esquecimento do contributo de Aristóteles,
citemos, por exemplo, Anna marmodoro
24que diz ser surpreendente o
facto de a análise aristotélica não ser sequer reconhecida como um capítulo
na longa história da análise da causalidade. Centrando a sua análise no
texto de Phys. III. 3, marmodoro
25procura explicar as relações metafísicas
que Aristóteles usa no seu modelo de explicação causal. diz-nos também
que a esmagadora maioria dos comentadores, desde a Antiguidade até
aos contemporâneos, passado pelos medievais, não fizeram esta análise
porque interpretaram este texto de Aristóteles como se apresentasse
20 PEdRo da Fonseca. CMA II, c. 1, q. 7, s. 1, 52: “differunt tertio, quod ab omni causa
habet aliquod esse id cuius est causa: non item ab omni principio, id cuius est prin-cipium: quod idem patet in priuatione formae et in generatione ipsa, cuius priuatio est principium; priuatio enim, ut nullum esse habet, ita nullum dare potest”.
21 PEdRo da Fonseca. CMA II, c. 1, q. 7, s. 1, 52: “differunt quarto, quod ab omni
causa pendet modo aliquo in suo esse, id cuius est causa (quod plus est quam habere esse ab illo) non item ab omni principio id cuius est principium, quod in superioribus exemplis cerni potest”.
22 PEdRo da Fonseca. CMA II, c. 1, q. 7, s. 1, 52: “Postremo (mittamus enim alia si
quae sunt discrimina) quod omnis causa est prior natura suo effectu: non item omne principium eo cuius est principium, quod etiam patet in personis diuinis producente et producta, in priuatione formae ac generatione et aliis plerisque”.
23 PEdRo da Fonseca. CMA II, c. 1, q. 7, s. 1, 52. 24 Cf. mARmodoRo. 2007, p. 205.
duas descrições da mesma coisa.
26marmodoro (2007) tem razão ao
lamentar o facto de grande parte da vasta literatura mais recente sobre
a causalidade, produzida por filósofos, ignorar Aristóteles (bem como
toda a tradição filosófica anterior a hume).
27Por outro lado, no âmbito da
literatura mais especializada, produzida pelos ancient philosophers, não
faltou quem pusesse em causa a interpretação tradicional da doutrina
das causas em Aristóteles no âmbito das investigações sobre causalidade
e determinismo na Filosofia Grega Antiga. Alguns intérpretes foram
mesmo ao ponto de afirmar que Aristóteles teria defendido uma posição
determinista. Stefano maso e Carlo Natali editaram uma importante
colectânea de estudos onde se faz o ponto da situação corrigindo os erros
postos a descoberto pela investigação mais recente mas reabilitando
as grandes linhas da interpretação tradicional da controvérsia sobre
causalidade e determinismo.
28Fonseca faz uma abordagem dialéctica alinhando as diversas
posições quanto ao número de causas e sua configuração. Conhecia,
com certeza, os principais textos sobre esta matéria, antigos, medievais
e seus contemporâneos. A alguns cita apenas pelo nome (Empédocles,
Anaxágoras, Platão, Aristóteles, Cícero, Séneca, Alexandre de Afrodísia,
Agostinho, Avicena, Tomás de Aquino, henrique de Gand, Escoto,
Caietano)
29ou de forma genérica (estóicos, escolásticos, antigos filósofos
da natureza). Cita, de preferência, os textos de Platão (Fédon, Hipias
Maior, Timeu) e sobretudo de Aristóteles, como seria de esperar. Para
caracterizar a doutrina do estoicismo, apoia-se em Séneca e em diógenes
laércio.
Para discutir a justeza do esquema quadripartido de Aristóteles
começa a sua análise dialéctica elencando as opiniões daqueles que
dizem haver menos causas (só uma causa, ou duas ou três) e dos que
defendem haver mais causas do que as quatro indicadas por Aristóteles.
26 mARmodoRo. 2007, p. 207: “but the textual evidence supports, in my view, the
introduction of two natures, not descriptions, out of which the causal interaction is built”.
27 mesmo a filosofia posterior a hume raramente é tida em conta. de hume passa-se,
eventualmente, por Stuart mill para entrar logo na discussão do séc. XX. Neste caso, uma das principais omissões é a da doutina kantiana da causalidade.
28 Cf. mASo; NATAlI. 2005.
29 A citação mais longa que se faz nesta quaestio é da célebre Carta 65 de Séneca
que Fonseca usa não só como testemunho da posição alegadamente defendida por alguns platónicos de que haveria cinco causas (as quatro de Aristóteles mais a exemplar) mas também como fonte das teses próprias do estoicismo. Não podemos analisar aqui estes textos nem discutir a problemática complexa que os envolve. Para uma apreciação crítica deste texto de Séneca ver a edição de Inwood com comentário a esta carta 65: SENECA. 2007, p. 136-148. Salvo melhor opinião, a leitura de Inwood confirma o acerto da leitura de Fonseca.
Aqui a discussão passa necessariamente por saber se existe e em que
consiste a chamada causalidade exemplar. Para Fonseca, com efeito,
a causalidade exemplar não constitui um quinto modo a acrescentar
às quatro causas de Aristóteles pois ela é, de facto, redutível a uma
dessas quatro causas. mas Fonseca não aceita a interpretação daqueles
que a pretendem reduzir à final ou à eficiente. Nem Alexandre, nem os
estóicos nem Escoto estão com a razão. Seria, antes, redutível à causa
formal.
30Aos que contestam esta posição pelo facto de a causa formal,
em sentido aristotélico, ser uma causa interna e o modelo (exemplar)
ser sempre exterior Fonseca responde que, tomadas as quatro causas in
commune não há qualquer razão para multiplicar o número de causas. o
que se diz em geral, aplica-se também ao caso da forma.
31A justificação
sumária do esquema aristotélico da causalidade segue uma estratégia
descritiva. de todos os efeitos conhecidos não se conhece nenhum que
não precise destas quatro causas para sua explicação cabal e também
não se conhece nenhum que precise de mais algum além destes quatro
tipos de causalidade.
32Por outro lado, a completude do esquema causal
resulta da própria definição de cada um dos tipos de causa a partir do
modo como Aristóteles os introduziu na Física e na Metafísica.
33Fonseca
está aqui, porventura, a mostrar-se excessivamente confiante neste tipo
de descrições fenomenológicas e na capacidade de eliminar os equívocos
através de uma técnica apurada de distinções.
Finalmente, duas palavras sobre o lugar sistemático da análise da
causalidade. Fonseca sabe perfeitamente que Aristóteles tratou destas
matérias nos livros da Física e nos escritos da metafísica, em V, 2, por
exemplo, reproduz mesmo textualmente a análise da Física. Fonseca
justifica este facto dizendo que talvez Aristóteles ainda não tivesse
desenvolvido plenamente a sua doutrina metafísica quando redigiu este
texto. Fonseca não pretende negar o uso universal que se faz das causas
em múltiplas formas de saber. E não desconhece que foi no âmbito da
30 PEdRo da Fonseca. CMA I, lib. I, c. 7, q. 1, s. 5, 321-324. Invoca Tomás de Aquino
e Caietano como defensores de posição semelhante.
31 PEdRo da Fonseca. CMA I, lib. I, c. 7, q. 1, s. 5, 325: “Quod si quis urgeat, cum
exemplaris causa sit directo et non reductitie causa formalis, adhuc effici ex dictis quinque esse causarum genera, finalem, efficientem, exemplarem, formalem internam et materialem; occurrendum est, si genera causarum sumantur in commune, non esse nisi quatuor, cum exemplaris et formalis interna, sub formali contineantur”.
32 PEdRo da Fonseca. CMA I, lib. I, c. 7, q. 1, s. 4, 317.
33 PEdRo da Fonseca. CMA I, lib. I, c. 7, q. 1, s. 4, 318: “Idem quoque licet ostendere
ex definitionibus materiae, formae, efficientis et finis, adhibitis argumentis iis quibus Arist. ad eandem conclusionem probandam utitur. Quod enim haec quatuor sint verae ac proprie causae, ex descriptione causae, expensis singularum definitionibus perspicuum erit”.
física, em sentido antigo, que surgiu a doutrina das causas. Porém,
defende a tese de que não é o lógico nem o físico mas sim o metafísico
quem deve tratar das causas enquanto tais e não enquanto causas do
movimento na natureza ou enquanto termo médio de uma demonstração.
Em primeiro lugar, porque causa e efeito, assim considerados, são
algo que transcende os objectos de todas as ciências particulares.
34Tratar das causas enquanto causas do movimento e do devir é algo que
Fonseca reconhece ser do domínio da Física
35e a outros domínios do
saber pertencerá falar das causas dentro da esfera da sua respectiva
competência. mas para além de reconhecer, na linha de Aristóteles,
autonomia aos diversos saberes, Fonseca reclama um estatuto especial
para o saber do metafísico que aqui não poderemos analisar em pormenor
mas poderia, porventura, revelar-se mais actual do que parece à primeira
vista. Numa visão arquitectónica do saber, o metafísico é caracterizado
como aquele que tem por tarefa fazer a articulação universal das
causas de todas as coisas, tanto quanto o engenho humano e a arte o
permitirem.
36Referências
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34 PEdRo da Fonseca. CMA I, lib. I, c. 7, q. 1, s. 2, 313: “dicendum est tamen, prorium
reuera esse metaphysici de causis, ut causae sunt, agere, neque id ad alium artificem spectare. Primum, quia causa et effectus sunt primae et adequatae differentiae entis, de primis autem eiusmodi differentiis, non dubium est quin solus metaphysicus agere possit; transcendit enim hoc genus diuisionum entis subiecta omnia caeterarum scientiarum”.
35 PEdRo da Fonseca. CMA I, lib. I, c. 7, q. 1, s. 2, 314: “dixi de causis, ut causae
sunt, quia de causis, ut sunt coniunctae cum motu, aut sub alia speciali ratione
pertinente ad subiectum alicuius particularis scientiae, non dubium est quin eadem ipsa particularis scientia agere posse ac debeat. Atque haec est communis Philosophorum sententia”.
36 PEdRo da Fonseca. CMA I, lib. I, c. 7, q. 1, s. 2, 315: “Iam illud, quod res Physicae
plures causas sibi vendicant quam metaphysicae, nihil est ad rem. metaphysicus enim cum sit primus artifex, et communis omnium scientiarum, ut ita dicam architectus, non tantum de causis rerum materiae expertium, sed omnium omnino rerum, quoad eius dignitas et officium permittit, agere debet”.
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