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Lei nº. 9.426/96 - Modificações do Código Penal. Novos tipos
penais - primeiras impressões
Marcelo Lessa Bastos *
Sumário 1. Introdução 2. Comentários gerais 3. Furto qualificado 4. Roubo qualificado 5. Receptação
6. Fraude de lei sobre estrangeiros e falsidade em prejuízo da nacionalização de sociedade 7. Adulteração de sinal identificador de veículo automotor
8. Bibliografia
1. INTRODUÇÃO.
Parte dos projetos de reforma, os novos tipos adeqüam a lei penal à atual atividade dos criminosos, principalmente no que tange às conhecidas práticas de apropriação de automóveis alheios.
Suprem-se lacunas que deixavam algumas condutas impunes, bem como pacificam-se algumas discussões.
Mister, então, uma breve análise, o que fazemos, despretensiosamente, lançando à reflexão as nossas primeiras impressões.
2. COMENTÁRIOS GERAIS.
- Aplicabilidade: Tratando-se de novatio legis in pejus, posto que todas as inovações criam figuras típicas até então inexistentes ou agravam as já existentes, à toda evidência, só se aplicam aos fatos ocorridos após o dia 26.12.96, data em que a Lei 9.426 foi publicada e entrou em vigor, a teor do disposto em seu art. 2º.
3. FURTO QUALIFICADO.
Art. 155 - ...
§ 5º - A pena é de reclusão de 3 (três) a 8 (oito) anos, se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior.
- Qualificadora em razão da qualidade da res furtiva: Criou o legislador uma figura autônoma de furto de veículo automotor, aí incluídos os carros (de passeio, utilitários, bem como de transporte coletivo) e as motocicletas (qualquer que seja a cilindrada).
- Transporte para outro Estado ou outro País: Trata-se de um requisito objetivo para a incidência da figura qualificada, não apenas uma especial finalidade de agir do sujeito ativo da relação criminal, como, a princípio, podia parecer. A lei exige que o veículo seja, efetivamente, transportado para Estado ou País diverso daquele onde ocorrer a subtração. De lege ferenda, melhor seria se o legislador tivesse dito “para fins de transporte para...”, quando, aí, a qualificadora incidiria como especial finalidade de agir.
- Tentativa: Como o requisito acima é, na verdade, uma elementar do tipo qualificado, pode ocorrer que o efetivo transporte para outro Estado ou outro País não se concretize, por circunstâncias alheias à vontade do agente, como, por exemplo, se este é preso na fronteira. Neste caso, teremos uma tentativa de furto qualificado (art. 155, § 5º, c/c 14, II, CP). Para tanto é importante o início da execução do transporte do veículo para outro Estado ou País. A mera subtração sem, pelo menos, que o agente inicie o transporte (aferível apenas no
caso concreto), não constitui a nova figura típica, caracterizando, apenas, o furto simples, ou mesmo aquele furto qualificado tradicional (do § 4º), ou o agravado pelo repouso noturno (do § 1º), conforme o caso, ainda que ele subtraia o veículo com esta finalidade. - Inaplicabilidade das tradicionais qualificadoras (§ 4º): Uma vez caracterizada a figura típica do § 5º, são irrelevantes quaisquer das tradicionais qualificadoras do § 4º, que, à toda evidência, não se aplicam, já que o tipo do § 5º é autônomo, inclusive com escala penal própria, não havendo como concorrerem ambas as normas para uma única ação típica, a se resolver, em último caso, pelo Princípio da Especialidade.
4. ROUBO QUALIFICADO.
Art. 157 - ...
§ 2º - A pena aumenta-se de um terço até metade: ...
IV - se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior;
V - se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo sua liberdade.
§ 3º - Se da violência resulta lesão corporal grave, a pena é de reclusão, de 7 (sete) a 15 (quinze) anos, além da multa; se resulta morte, a reclusão é de 20 (vinte) a 30 (trinta) anos, sem prejuízo da multa.
- Novas qualificadoras: Foram introduzidas, ao lado das três qualificadoras tradicionais, outras duas, uma pela qualidade da res furtiva e sua destinação, outra em razão da manutenção da vítima privada de sua liberdade. Essas figuras qualificadas, em verdade, têm natureza de causas especiais de aumento de pena, vez que a figura típica básica é a do caput do dispositivo e a pena a ser aumentada é a ali prevista, ou seja, 4 a 10 anos, a ser fixada consoante o art. 59 do CP.
- Quantidade de aumento da pena: Após algumas discussões, Doutrina e Jurisprudência tinham se posicionado, quanto ao roubo qualificado, que o quantum de aumento (entre 1/3 e 1/2) iria variar conforme o número de qualificadoras presente, ficando em 1/3 quando se fizesse presente apenas uma das três qualificadoras tradicionais, 1/2 quando presentes as três, e um número intermediário (que não ousamos calcular) quando presentes duas delas. Esta regra era uma orientação, podendo haver aumento diferenciado em função da gravidade da qualificadora (por exemplo: um roubo feito por um grupo de 20 pessoas, ou mesmo um roubo feito por uma única pessoa utilizando uma bazuca). Assim ensina o
eminente prof. Weber Martins Batista, em “O furto e o roubo no direito e no processo penal”, ed. Forense.
Agora, com o acréscimo das duas novas qualificadoras, pensamos que a orientação deve permanecer a mesma, com especial realce à gravidade das qualificadoras como determinante de sua exceção e um conseqüente aumento maior, aumento este que, em regra, permanece na ordem de 1/3 quando presente apenas uma delas, ½ quando presente todas as cinco, e quantidades intermediárias inimagináveis ao leigo quando presentes duas, três ou quatro delas. O problema maior será matemático; não jurídico.
- Qualificadora do inciso IV: Coerentemente introduzida, para não discrepar do § 5º do art. 155. Contudo, como não se trata de elementar do tipo e, sim, de causa especial de aumento de pena, esta só terá vez se o veículo, efetivamente, for transportado para outro Estado ou para o exterior, não tendo, aqui, aplicação os comentários feitos no ítem “tentativa” do tópico anterior. Em outras palavras: só incide esta qualificadora se, pelo menos, o veículo for arrecadado em Estado diverso daquele onde ocorrer a subtração, já que não há como se identificar uma tentativa de causa especial de aumento de pena.
- Diversidade de natureza jurídica para a mesma qualificadora, no furto e no roubo: Pensamos que não caminhou bem o legislador, ao dar tratamento diferenciado à mesma circunstância, no roubo e no furto qualificado. Deveria ter previsto ambas, ou como causas especiais de aumento de pena, ou como elementares de tipo qualificado, não fazendo sentido no furto ter esta última natureza e no roubo ter a primeira, isto por que as conseqüências jurídicas - aplicabilidade da tentativa, principalmente - em virtude desta diversidade de tratamento, como demonstradas, são diferentes.
- Qualificadora da privação da liberdade (inciso V): Diante desta nova figura, perde sentido a discussão quanto à possibilidade de concurso entre o crime de roubo e o de seqüestro ou cárcere privado (art. 148 do CP). Havendo privação da liberdade, quer por abdução, quer por mera retenção, porém por período que exceda ao indispensável para a concretização do roubo, a hipótese se resolverá com a aplicação desta qualificadora, apenas, o que torna a sanção penal mais grave do que quando do antigo concurso, já que a pena do seqüestro é de, no mínimo, 1 ano, enquanto que o aumento mínimo, de 1/3, por esta qualificadora, aplicado à pena mínima do roubo, que é de 4 anos, dará 1 ano e 4 meses. Evidente que não incide a qualificadora quando a privação da liberdade se dá apenas como necessidade à concretização da subtração, porque as próprias elementares “violência” ou “grave ameaça”, inerentes à figura típica do roubo, pressupõem que o sujeito ativo da relação criminal subjugue o sujeito passivo, submetendo sua liberdade individual a uma restrição por alguns instantes, para que consiga cometer o crime. A qualificadora só incide
quando essa relação de subordinação excede ao período de tempo necessário à dita subtração. Tais comentários não chegam a consistir em novidade, já que o aludido concurso de crimes só era admitido na linha de raciocínio acima exposta.
- O roubo qualificado pela lesão corporal grave: Aumentou-se a pena mínima, que era de 5 anos, passando, agora, para 7 anos. É claro que a nova escala penal só se aplica aos fatos posteriores (nulla poena sine praevia lege).
- A questão da extorsão: O legislador deveria ter incluído, no § 1º do art. 158, que trata da extorsão qualificada, as mesmas qualificadoras do roubo, sobretudo as novas qualificadoras, objeto desses comentários. Não o fez. Como não se pode interpretar extensivamente a lei penal em desfavor do réu, a conclusão, ante a lacuna do legislador, é que não existe extorsão qualificada pela privação da liberdade da vítima, nem pela subtração de veículo automotor para transporte a outro Estado ou País, como, aliás, já não existia e continua não existindo a qualificada pelo transporte de valores.
Ganhará relevo a clássica distinção entre roubo e extorsão, da qual já cuidou a maior parte da Doutrina, porque o primeiro admitirá as qualificadoras em questão, enquanto que a segunda não as admitirá, por lamentável ausência de previsão legal. O melhor critério de distinção, pensamos, é aquele que identifica o roubo quando para a obtenção da posse da res não se faz necessária qualquer contribuição da vítima, ainda que a mesma entregue, por suas mãos, a dita res ao agente; já a extorsão se verifica quando, para a obtenção da res, é imprescindível a colaboração da vítima.
5. RECEPTAÇÃO.
Art. 180 - Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte:
... Receptação Qualificada
§ 1º - Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito, desmontar, montar, remontar, vender, expor a venda, ou de qualquer forma utilizar, em proveito próprio ou alheio, no exercício de atividade comercial ou industrial, coisa que deve saber ser produto de crime:
§ 2º - Equipara-se à atividade comercial, para efeito do parágrafo anterior, qualquer forma de comércio irregular ou clandestino, inclusive o exercido em residência.
Receptação Culposa
§ 3º - Adquirir ou receber coisa que, por sua natureza ou pela desproporção entre o valor e o preço, ou pela condição de quem a oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso: ...
§ 5º - No caso do § 3º, se o criminoso é primário, pode o juiz, tendo em consideração as circunstâncias, deixar de aplicar a pena. Na receptação dolosa, aplica-se o disposto no § 2º do art. 155.
§ 6º - Tratando-se de bens e instalações do patrimônio da União, Estado, Município, empresa concessionária de serviços públicos ou sociedade de economia mista, a pena prevista no caput deste artigo aplica-se em dobro.
- As novas condutas: Vieram suprir uma lacuna que deixava impunes as condutas daqueles que “atravessavam” a res furtiva, do ladrão ao efetivo receptador, porque inviabilizava ou, pelo menos, dificultava a caracterização do estado de flagrância de tais condutas. Isto porque, na redação original, as figuras típicas “adquirir” e “receber” só permitiam estado flagrancial, propriamente dito, se os agentes fossem presos no momento em que se apossavam da res furtiva. A tradicional figura “ocultar” pressupõe a dissimulação, o que muitas das vezes não ocorre, já que a receptação é ostensiva.
- “Transportar” e “conduzir”: Com essas novas condutas, está em flagrante-delito aquele que leva consigo a res furtiva, da mesma forma em que está aquele que a “adquire”, “recebe” ou “oculta”. Aí se incluem os motoristas que estão dirigindo o carro roubado, que estão levando nos caminhões as peças roubadas, etc. Essas novas condutas abrangem uma grande parcela de receptadores, igualando os “atravessadores” aos efetivos receptadores. - Condutas permanentes: De se notar que as condutas “transportar” e “conduzir” são permanentes, protraindo-se no tempo o momento consumativo, com sua conseqüência flagrancial. Enquanto durar o deslocamento da res furtiva está sendo cometida a infração penal.
- “Transportar” X “conduzir”. Diferenças: “Transportar” significa deslocar de um local de origem para um outro local de destino; “Conduzir” é menos do que “transportar”, ao passo em que basta, para sua caracterização, ter o agente a res furtiva, em trânsito, em seu poder. Se se tratar de veículo, por exemplo, basta que o agente o esteja dirigindo, sabendo ser o veículo produto de crime. Esta conduta parece-nos vir sob encomenda para as famosas
“cabras” (veículos roubados ou furtados que alguns policiais, os quais deveriam formalizar a recuperação e entregá-los aos seus proprietários, utilizam como se fossem seus).
- Receptação imprópria: O legislador, ao criar as novas condutas da receptação, o fez apenas para a chamada “receptação própria”, esquecendo-se da “receptação imprópria” (2ª parte, do caput do art. 180). Assim, o crime formal de receptação imprópria ocorre somente quando há intermediação para que terceiro de boa-fé “adquira”, “receba” ou “oculte” a res, inexistindo, porém, quando há intermediação para o “transporte” ou “condução”, o que se constitui em incoerente esquecimento do legislador.
- Receptação qualificada (§ 1º): A qualificadora se dá em razão do exercício de atividade comercial ou industrial, por parte do sujeito ativo da relação criminal, relacionada à receptação. Não é necessária a atividade comercial regular, posto que a ela se equipara qualquer atividade de comércio, ostensiva ou clandestina, mesmo irregular, ainda que exercida em residência (§ 2º).
. Condutas: Além das cinco condutas que caracterizam a receptação simples, a se distinguirem em razão da atividade, na forma acima vista, o legislador tipifica outras sete - “ter em depósito”, “desmontar”, “montar”, “remontar”, “vender”, “expor a venda”, “utilizar” de qualquer forma.
De se notar que o simples uso da res furtiva configura a receptação qualificada.
As condutas de “ter em depósito” e “expor a venda” são permanentes, com suas conseqüências processuais quanto ao estado de flagrância se protraindo no tempo, capaz de autorizar o ingresso em “casa” alheia (art. 150, § 4º, do Código Penal) independente de mandado judicial (art. 5º, XI, da Constituição Federal).
. Elemento subjetivo: É o dolo, consistente na vontade livre e consciente de praticar uma das doze condutas da receptação qualificada, para levar vantagem (proveito próprio ou alheio), no exercício de atividade comercial (própria ou equiparada) ou industrial, tendo por objeto material coisas que “deve saber ser produto de crime”.
Aqui o legislador não exige o conhecimento da origem do material como imprescindível ao dolo do receptador, como o faz na receptação simples (coisa que “sabe ser produto de crime”).
Enquanto que, na receptação simples, em razão da exigência do conhecimento da origem da res, tem-se entendido que só o dolo direto é capaz de caracterizá-la (RF, 192:382; RT 486:321, 495:353, 517:362; JTACrimSP, 51:207...), aqui, na receptação qualificada, tanto
faz se o agente obrar com dolo direto como com dolo eventual, interpretação que nos parece condizente com a expressão “deve saber ser produto de crime”.
A diferença de tratamento é bem razoável, ao passo em que a receptação qualificada pressupõe o exercício de atividade comercial ou industrial, sendo perfeitamente exigível do comerciante ou industrial um dever maior de cuidado, de sorte a não assumir riscos de trabalhar com produtos de crime.
. Destinatários das novas figuras típicas: Examinando o tipo qualificado da receptação, tem-se a nítida impressão de que veio, sob encomenda, para os proprietários de “ferros-velhos” e outros locais de “desmanche” de veículos onde, até então, se realiza impune o comércio de carros e peças de automóveis roubados (entrando o carro por uma porta e saindo suas peças pela outra), bem como para os “feirantes” das famosas feiras de peças de carros roubados, sendo conhecidíssima no Rio de Janeiro a “Feira de Acari”, tema, inclusive, de música, em ousada apologia ao crime.
- Receptação culposa (§ 3º): Permanece punível, à título de culpa, as condutas de quem “adquire” ou “recebe” coisa que “deve presumir-se obtida por meio criminoso”. Aqui o legislador, ao contrário do que normalmente faz (art. 18, II, do Código Penal), descreve o tipo penal culposo, revelando a imprudência pela desproporção entre o preço cobrado e o preço de mercado da res, bem como pela pessoa do vendedor, e, ainda, pela natureza incompatível com a forma de negociação da coisa. Apenas a aquisição e o recebimento são incriminados à título de culpa. Não o é (como já não o era) a ocultação, isto porque, como ensina Damásio de Jesus (Código Penal Anotado, ed. Saraiva), tal conduta revela o dolo. Também não o são as demais condutas (transportar, conduzir, etc.), porém por mera política legislativa, já que as mesmas, em tese, admitiriam idêntica descrição culposa. - Receptação privilegiada (§ 5º, parte final): Com certeza gerará controvérsias, a respeito da aplicação do privilégio apenas à receptação simples ou, também, à receptação qualificada, já que ambas são dolosas e a lei utiliza, genericamente, a expressão “Na
receptação dolosa aplica-se o disposto no § 2º do art. 155. O legislador deveria ter
esclarecido, e não apenas renumerado o parágrafo (de § 3º, para § 5º), já que criou outra figura de receptação dolosa - a receptação qualificada - que, antes, não existia. Contudo, a NOSSA POSIÇÃO é a seguinte: o privilégio da substituição da pena de reclusão pela de detenção, sua redução de um a dois terços, ou a aplicação exclusiva da pena de multa, quando primário o criminoso e de pequeno valor a res, só tem cabimento em face de receptação simples, não se aplicando à receptação qualificada, porque incompatível com a mens lege, que foi a de agravar a situação daqueles que, em exercício de atividade comercial ou industrial, trabalham com produto de crime.
- Receptação de bens públicos (§ 6º): De se notar que houve, apenas, modificação da escala penal, que era própria (reclusão de um a cinco anos e multa), passando, agora, a pena a ser a da receptação simples, dobrada (o que dá reclusão de dois a oito anos e multa).
6. FRAUDE DE LEI SOBRE ESTRANGEIROS E FALSIDADE EM PREJUÍZO DA NACIONALIZAÇÃO DE SOCIEDADE.
Art. 309 - Usar o estrangeiro, para entrar ou permanecer no território nacional, nome que não é o seu:
Pena - detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa.
Parágrafo único - Atribuir a estrangeiro falsa qualidade para promover-lhe a entrada em território nacional:
Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.
Art. 310 - Prestar-se a figurar como proprietário ou possuidor de ação, título ou valor pertencente a estrangeiro, nos casos em que a este é vedada por lei a propriedade ou a posse de tais bens:
Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 3 (três) anos, e multa.
- Mera renumeração de artigos: Aqui não houve qualquer alteração. O legislador, tão somente, tornou o antigo art. 310 um parágrafo único do art. 309, bem como transformou o art. 311 em art. 310, isto para que pudesse criar um novo tipo penal, a ser comentado abaixo, e incluí-lo dentro do título “dos crimes contra a Fé Pública”, aproveitando o capítulo “de outras falsidades”, sendo este o atual art. 311 do Código Penal.
7. ADULTERAÇÃO DE SINAL IDENTIFICADOR DE VEÍCULO AUTOMOTOR.
Art. 311 - Adulterar ou remarcar número de chassi ou qualquer sinal identificador de veículo automotor, de seu componente ou equipamento:
Pena - reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e multa.
§ 1º - Se o agente comete o crime no exercício da função pública ou em razão dela, a pena é aumentada de um terço.
§ 2º - Incorre nas mesmas penas o funcionário público que contribui para o licenciamento ou registro do veículo remarcado ou adulterado, fornecendo indevidamente material ou informação oficial.
- Bem jurídico protegido: É a fé pública, ou seja, um interesse protegido por lei, fundamentado na necessidade de se tutelar a credibilidade, que precisa ter o homem
moderno, em certos atos, sinais ou documentos do cotidiano de sua vida (como ensina o prof. Mirabete, em seu “Manual de Direito Penal”, ed. Atlas). Está topograficamente inserido dentre os crimes contra a Fé Pública. Não se trata de crime contra a Administração Pública, como, a princípio, poderia parecer, mormente em se considerando os parágrafos do tipo. Outros bens jurídicos até podem ser lesados simultaneamente pela conduta incriminada.
- Classificação delitiva: Trata-se de crime de formal, consumando-se com a simples adulteração ou remarcação, independente de qualquer proveito a ser tirado com tal ato. Isto porque, como dito, o crime é contra a Fé Pública, atingida no exato momento em que o sujeito ativo da relação criminal insere no veículo um código numérico diverso do que deveria possuir. É, também, crime de perigo, sob a ótica de poder causar a qualquer pessoa o risco de adquirir um veículo produto de crime. Não é necessária a ocorrência de dano a pessoa determinada, isto porque o dano à Fé Pública já ocorreu, no momento em que o crime se consumou, sendo a Fé Pública o bem tutelado pelo legislador. A Fé Pública, neste particular, caracteriza-se como a credulidade de um número indeterminado de pessoas na exatidão dos códigos numéricos do veículo automotor.
- Adulterar X remarcar: “Remarcar” significa inserir números diversos dos originalmente inseridos pelas montadoras; “adulterar” significa modificar os números originais, por qualquer processo, transformando-os em outros números.
- Objeto material do delito: Apenas os veículos automotores, conforme ítem 3, primeiro tópico.
- Principal e acessórios: O crime ocorre tanto se a falsificação é ocorrida no chassi do veículo (que é o principal), como em qualquer componente seu (acessório), como motor, caixas de marcha e demais autopeças que sejam devidamente identificadas.
- Outros sinais identificadores: Não apenas a falsificação do número do chassi constitui o crime, mas, também, de “qualquer sinal identificador”, assim entendido qualquer símbolo capaz de individualizar o veículo e seus acessórios.
- Aumento de pena (§ 1º): Incide, na razão fixa de 1/3, quando o autor da falsificação comete o crime no exercício de função pública, latu senso, ou, ainda que não o faça no exercício, faça-o em razão da função por ele exercida na Administração Pública. Basta, para a qualificadora, que a função pública propicie ao sujeito ativo da relação criminal a oportunidade para cometer o delito.
. Natureza: Trata-se de figura delitiva autônoma, não se confundindo com a mera participação na figura do caput.
. Sujeito ativo: É crime próprio, exigindo, como sujeito ativo, em elementar do tipo, a circunstância pessoal de ser “funcionário público” (arts. 327 do Código Penal), sendo de se observar a regra do art. 30, também do Código Penal.
. Conduta típica: É o fornecimento indevido (elemento normativo do tipo) de material ou informações oficiais úteis para a “legalização” do veículo falsificado.
. Simples contribuição para a “legalização” do veículo: Também não é necessário que o sujeito ativo providencie, efetivamente, o registro ou o licenciamento do veículo, inserindo seus dados no Registro Geral. Basta, para que realize a conduta típica, que forneça o material ou as informações oficiais para tanto, e que, com tal atitude, “contribua” (isto é, auxilie), torne fácil a habilitação do mesmo junto ao órgão competente.
. Momento consumativo: De se notar que estamos diante de crime de perigo, crime
formal, onde o bem jurídico tutelado, em primeiro lugar, é a Fé Pública. Logo, o delito está
consumado no momento em que o funcionário público fornece as informações oficiais ou o material necessário à habilitação do veículo remarcado ou adulterado, contribuindo, desta forma, para que seja ele “legalizado”, independentemente de ser efetivamente registrado ou
licenciado. Basta, então, para a consumação do crime, o fornecimento do material ou das
informações oficiais, com o quê já se está contribuindo (núcleo do tipo) para sua habilitação ilícita.
. Pena: O legislador estabelece “incorre nas mesmas penas ...”. No parágrafo anterior, há uma causa de aumento da pena do tipo fundamental, na razão de 1/3, em virtude da especial qualidade do sujeito ativo (ser funcionário público, em última análise). Cabe a seguinte indagação: qual a pena do crime estabelecido aqui, no § 2º do art. 311? Será a mesma prevista para a conduta do caput - reclusão de três a seis anos, e multa? Ou será esta pena agravada pela circunstância do § 1º - o que daria, em abstrato, reclusão de quatro a oito anos, além da multa? Cremos que surgirá controvérsias sobre o assunto. NOSSA POSIÇÃO: a pena é a pena do caput agravada, ou seja, reclusão de quatro a oito anos, e multa, isto porque não nos parece fazer sentido que, sendo a mesma a razão (a especial qualidade do sujeito ativo da relação criminal - ser funcionário público - como determinante da agravação da conduta), diferente possa ser o Direito. Não teria cabimento um funcionário público adulterar o veículo e ter como sanção quatro a oito anos de reclusão, enquanto que aquele que, fornecendo informações ou material, contribuiu para que o mesmo fosse licenciado, seja sancionado com uma pena de três a seis anos de reclusão, quando ambas as condutas são da mesma gravidade (Ubi eadem legis ratio, ibi
idem legis dispositio). A habilitação do veículo não é conduta menos grave do que sua adulteração. Aliás, ambas têm íntima relação entre si. E a qualidade de funcionário do sujeito ativo deve pesar quando de sua pena, porque é dos funcionários públicos dos setores policiais e, especialmente, de trânsito, que se espera empenho no sentido de que ninguém adquira veículo ruim como se fosse bom, lembrando-se, mais uma vez, do bem jurídico que aqui se tutela, que é a Fé Pública.
8. BIBLIOGRAFIA.
BATISTA, Weber Martins, “O Furto e o Roubo no Direito e no Processo Penal, Doutrina e Jurisprudência”, ed. Forense;
JESUS, Damásio Evangelista, “Código Penal Anotado”, ed. Saraiva; MIRABETE, Júlio Fabbrini, “Manual de Direito Penal”, ed. Atlas.
* Marcelo Lessa Bastos é Promotor de Justiça no Estado do Rio de Janeiro e Professor de Direito Penal Especial e de Direito Processual Penal da Faculdade de Direito de Campos e da FEMPERJ.
Disponível em: http://200.255.4.99/artigos/lei9426.htm Acesso em: 10 de setembro de 2007