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DEUS É MAIOR QUE O MEDO

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Academic year: 2021

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DEUS É MAIOR QUE O MEDO

Todo mundo sabe exatamente o que é sentir medo. Minha filha mais velha tem medo do escuro, o mais novo tem medo de não nos ver por perto. Minha esposa simplesmente tem pavor de cães. Eu tinha muito medo de pesadelo quando era criança. Na adolescência sofri com a ideia de não ter um emprego. Durante a faculdade meu maior medo era em relação à residência médica. Hoje, tenho medo que meus filhos se machuquem, de não ter como sustentá-los. Morro de medo de ter uma doença degenerativa como demência ou Alzheimer e me tornar um estorvo para minha família.

Gosto de pensar que há pelo menos dois tipos de medo: (1) o primeiro pode ser chamado de medo bom. É o que nos impede de dirigir a 150Km/h, consumir toneladas de gordura e outras coisas idiotas e o (2) segundo é o medo ameaçador. Este é o medo que nos paralisa e nos priva de fazer coisas que precisamos fazer.

- O medo do desconhecido; — onde irei trabalhar quando terminar a faculdade? o que farei se perder o emprego? e se eu não conseguir parar de beber/fumar/jogar/pornografia? e se eu ficar doente?

- O medo da insegurança; — se alguma doença ou acidente tirar minha capacidade laborativa?

- O medo da rejeição/solidão; — se meu casamento desmoronar? e se eu me tornar um velho ranzinza? se minha morte não for uma perda pra ninguém?

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O medo faz parte da natureza humana

Poucas coisas podem tornar o homem tão consciente de sua humanidade que o medo. O poeta e tradutor Haroldo de Campos diz que “o rosto triste faz o coração dilatado”. Em outras palavras, o sofrimento gera solidariedade. Aquele que toma consciência da sua finitude, limitação e debilidade consegue ser mais compreensivo, tolerante e inclusivo, isto é, tem o coração dilatado.

O Pregador diz: “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir a casa onde há banquete; porque naquela se vê o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração.” (Eclesiastes 7:2) Desta forma ele traça um paralelo da vida humana através de duas figuras: a casa onde há luto (v.2) e a casa da alegria (v.4 “O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria”). Na primeira casa os vivos aplicam

seu coração... e como resultado tornam melhor o

coração. Na segunda casa o barulho gerado pela alegria desenfreada (o crepitar de espinhos v.6 “Pois qual o crepitar dos espinhos debaixo da panela, tal é o riso do tolo; também isso é vaidade.”) anestesia nossa necessidade de reflexão e encoraja a procrastinação.

O Salmo 30 nos mostra um caso bem instrutivo sobre o medo:

Salmo 30 (NVI) ///// Cântico para a dedicação do templo1. Davídico. 1 Eu te exaltarei, SENHOR,

pois tu me reergueste

e não deixaste que os meus inimigos se divertissem à minha custa.

2 SENHOR meu Deus, a ti clamei por socorro, e tu me curaste.

3 SENHOR, tiraste-me da sepultura2;

prestes a descer à cova, devolveste-me à vida. 4 Cantem louvores ao SENHOR,

vocês, os seus fiéis; louvem o seu santo nome.

5 Pois a sua ira só dura um instante, mas o seu favor dura a vida toda; o choro pode persistir uma noite, mas de manhã irrompe a alegria. 6 Quando me senti seguro, disse: “Jamais serei abalado!”

7 SENHOR, com o teu favor, deste-me firmeza e estabilidade;3 mas, quando escondeste a tua face, fiquei aterrorizado.

8 A ti, SENHOR, clamei, ao Senhor pedi misericórdia:

1

T ítulo: Ou do palácio. Hebraico: casa.

2 Hebraico: Sheol. Essa palavra também pode ser traduzida por profundezas, pó ou morte. 3 Hebraico: firm aste a m inha montanha.

(3)

9 “Se eu morrer4, se eu descer à cova, que vantagem haverá?

Acaso o pó te louvará? Proclamará a tua fidelidade?

10 Ouve, SENHOR, e tem misericórdia de mim; SENHOR, sê tu o meu auxílio”.

11 Mudaste o meu pranto em dança,

a minha veste de lamento em veste de alegria, 12 para que o meu coração

cante louvores a ti e não se cale. SENHOR, meu Deus,

eu te darei graças para sempre.

O Salmo 30 na vida de um personagem bíblico

Para não tornar o estudo do Salmo 30 muito enfadonho, decidi aplicá-lo à vida de um personagem bíblico: o rei Ezequias. Ezequias, do hebraico והָּי ִקְז ִחּ, significa, em português “YHVH Fortalece”.

O rei Ezequias foi o 13º Rei de Judá, e reinou por 29 anos (726-697 a.C). Era Filho de Acaz e de Abi, filha de Zacarias (2 Reis 18:2) ou Abia (2 Cr 29:1). Ezequias Reinou conjuntamente com seu pai de 729 a 715 a.C e, com a idade de 25 anos, tornou-se rei absoluto.

É considerado um dos maiores reis de Judá por causa da sua confiança em Deus e sua dependência d'Ele. Ezequias, que seguiu o exemplo do seu brilhante antepassado, o Rei Davi, teria começado a reinar com 25 anos de idade e governou por 29 anos, a partir de 715 a.C.

No início do seu reinado, Ezequias reparou e purificou o templo. Reintegrou os sacerdotes e levitas ao seu ministério, e restaurou a celebração da Páscoa (2 Crônicas 29:3 e 30:5). Além disso, combateu a idolatria em Judá proibindo o culto aos deuses pagãos, determinando também que fosse destruída a serpente de bronze construída na época de Moisés, pois o povo estava adorando-a. E, devido à sua obediência, a Bíblia relata que Deus trouxe paz ao seu reino enquanto cuidou do templo providenciou a adoração adequada.

De acordo com a Bíblia, Ezequias, ao ser confrontado pelo rei da Assíria, Senaqueribe, orou a Deus e foi salvo do cerco de Jerusalém (por volta do ano 701 a.C. — 2Crônicas 32:1-23), em que um anjo teria exterminado cento e oitenta e cinco mil soldados assírios

durante a noite.

Após a expulsão dos assírios, Ezequias experimenta um novo milagre também relatado na Bíblia. Tendo adoecido gravemente (à beira da morte, cf. Isaías 38:1-5), recebeu do profeta Isaías a notícia que iria morrer (2Crônicas 32:24-26). Ao saber disso, Ezequias reconheceu seu orgulho,

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se arrependeu e orou ao Senhor. O profeta retorna então com outra mensagem de Deus informando que Deus decidira acrescentar mais 15 anos à sua vida.

O autor do Salmo 30 é uma pessoa perto da morte que no seu leito de morte faz uma promessa a Deus: que se ele se recuperasse de sua doença dedicaria sua vida para cantar louvores a Deus e a ensinar os outros o que sua experiência de cura o ensinou.

1 Eu te exaltarei, SENHOR, pois tu me reergueste

e não deixaste que os meus inimigos se divertissem à minha custa.

2 SENHOR meu Deus, a ti clamei por socorro, e tu me curaste.

3 SENHOR, tiraste-me da sepultura5;

prestes a descer à cova, devolveste-me à vida.

A palavra hebraica para sepultura é a mesma usada em outros lugares para inferno (sheol). Isto demonstra a gravidade da situação vivida pelo salmista. Ele não nos conta exatamente o que aconteceu — uma doença, uma

perda, a perda de um emprego ou a reputação manchada. Fato é que algo destruiu a ilusão de que nada de ruim iria acontecer a ele e este acontecimento transformou sua vida num inferno — o tipo de situação quando o mundo todo parece caótico e quando a presença de Deus parece não ajudar em nada.

4 Cantem louvores ao SENHOR, vocês, os seus fiéis;

louvem o seu santo nome.

5 Pois a sua ira só dura um instante, mas o seu favor dura a vida toda; o choro pode persistir uma noite, mas de manhã irrompe a alegria.

Tendo experimentado a misericórdia divina ele deseja ardentemente que outras pessoas possam glorificar a Deus. —“A quem muito foi perdoado, muito ama”6 Ao saber que Jesus estava comendo na casa do

fariseu, certa mulher daquela cidade, uma mulher que já vivia em inferno — condenada pelos seus próprios pecados e também pelos que deveriam agir para salvá-la — trouxe um frasco com um perfume caríssimo, e se colocou atrás de Jesus, a seus pés. Chorando, começou a molhar seus pés com as suas lágrimas. Depois os enxugou com seus cabelos, beijou-os e os ungiu com o perfume. Jesus vê aquele choro como um grito de socorro — uma súplica inaudível à religião — e dá àquela mulher o que ela realmente precisa: perdão. É irônico: Jesus chama a atitude da mulher para com ele de amor, em contraste com a refeição que estava recebendo na casa do fariseu7.

Sua ira só dura um instante... O Apóstolo Paulo em 2 Coríntios 4:17 nos diz que “a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória”. A ideia é: se temos um relacionamento de intimidade com Deus, o medo será sempre um visitante temporário. A percepção do medo e sofrimento é encoberta pela alegria.

Neste ponto de desespero e desilusão o salmista descobre que é possível prosseguir crendo e

adorando a Deus, apesar do que lhe aconteceu. Ele demonstra que sua fé não é mais uma fé infantil

— baseada no conceito que nada ruim poderia lhe acontecer — mas uma fé mais madura e realista. Os desastres (ou inferno) pelo que passou o fizeram descobrir algo sobre si mesmo que não seria possível antes: que é possível continuar amando e crendo em Deus mesmo que Ele não esteja me abençoando com felicidade o tempo todo — Deus não se torna menos real nem menos "bom" pra

5

Hebraico: Sheol. Essa palavra também pode ser traduzida por profundezas, pó ou morte. 6 Lucas 7:43

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ele. Ainda mais: este relacionamento desperta nele um forte desejo de testemunhar isto a outras pessoas.

6 Quando me senti seguro, disse: “Jamais serei abalado!”

7 SENHOR, com o teu favor, deste-me firmeza e estabilidade;8 mas, quando escondeste a tua face, fiquei aterrorizado.

Quando me senti seguro? O salmista refere-se aqui a um tempo passado quando tudo em sua vida parecia ir

de vento em popa. Família, amigos, saúde e

empreendimentos fartamente coroados com sucesso. E não há qualquer engano: ele sabe que tudo que tem veio de Deus: deste-me firmeza e estabilidade.

Quando escondeste a tua face? Face sugere honra, caráter, aceitação. Teologicamente, ver a face de Deus é estar sob a sua bênção. Esconder a face, dar as costas, equivalia a desprezo e indiferença. O salmista se encontra — sem oferecer qualquer explicação — privado das bênçãos de Deus e isto o deixa aterrorizado. No caso de Ezequias o cronista nos informa que seu pecado está ligado ao orgulho, mas nosso salmista deixa em branco qualquer explicação do por quê ficou privado da bênção de Deus.

Após anos servindo a Deus é possível que passemos a acreditar que Deus nos deve alguma coisa9. E quando alguma coisa ruim nos amedronta questionamos a Deus por que isto está acontecendo comigo?

Espero, sinceramente, que sua busca por Deus seja mais que uma negociação. Um relacionamento maduro com Deus é o que encontra nEle a força para sobreviver e atravessar o período de tragédia. Nossa fé não garante que nada ruim irá nos acontecer, mas — SIM — que não teremos que vencer o medo sozinhos, porque tu estás comigo10.

Há somente dois modos de chegar à esta fé madura: A primeira — e mais difícil — é enfrentar os medos de frente, buscando em Deus a companhia necessária para não ser consumido pelo desespero. A segunda — menos difícil, porém mais desprezada — é apoiar-se na experiência de outras pessoas que sofreram e, ainda assim, continuaram a crer e, movidos pelo seu exemplo encontrar forças para prosseguir.

8 A ti, SENHOR, clamei, ao Senhor pedi misericórdia:

9 “Se eu morrer11, se eu descer à cova, que vantagem haverá?

Acaso o pó te louvará? Proclamará a tua fidelidade?

10 Ouve, SENHOR, e tem misericórdia de mim; SENHOR, sê tu o meu auxílio”.

Acaso o pó te louvará? Agora temos o cerne da oração genuína: despido de todas as bênçãos de Deus o salmista volta-se para o próprio Deus e isto faz toda a diferença.

- Na escuridão do seu medo e desespero ele reconhece a misericórdia de Deus faz mais diferença na sua vida que Suas bênçãos.

- Na escuridão do seu medo e desespero ele imagina um novo significado12 para a própria

vida: louvor e testemunho;

8

Hebraico: firm aste a m inha montanha.

9 Lucas 15:29-30 - Lembre-se da queixa do filho mais velho do pai pródigo. 10

Salmos 23:4

11 Hebraico: No m eu sangue.

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Ezequias também chegou à esta conclusão em seu clamor por sua vida (cf. Isaías 38:18-19). 11 Mudaste o meu pranto em dança,

a minha veste de lamento em veste de alegria, 12 para que o meu coração

cante louvores a ti e não se cale. SENHOR, meu Deus,

eu te darei graças para sempre.

O salmista conclui de maneira espetacular: Apesar de ter passado por algo terrível, eu ainda sou capaz subir

ao templo para louvar o nome do Senhor13, afirmar sua

bondade e amor leal. Minha religião não exige que Deus

mude o funcionamento do mundo a meu pedido; minha religião adora o Deus que criou o mundo, e conhecer o

Criador me ajuda a entender as coisas que acontecem no mundo que Ele criou.

Minha fé não depende de Deus reverter as circunstâncias a meu favor. Meu clamor é para

conseguir perceber que Ele está aqui, que Ele é real, que Ele faz a diferença porque Ele está comigo.

Nos tempos antigos, quando um israelita trazia uma oferta ao templo, a oferta deveria ser perfeita: sem nenhuma mancha. Qualquer hematoma, qualquer cicatriz, qualquer ferida desabilitava o animal para servir de oferta. Mas e quanto ao ofertante? O ofertante podia — e deveria — comparecer ao templo com suas cicatrizes, seus medos e temores e seria recebido no templo. A oferta perfeita garantia o acesso.

O escritor aos Hebreus nos diz que este [JESUS], havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, assentou-se para sempre à direita de Deus (Hebreus

10:12). Jesus é perfeito. Jesus não tinha manchas

causadas pelo pecado. Através dEle alcançamos a presença de Deus. Um último alerta: O paradoxo da alegria

Tendo se recuperado de sua doença mortal o que aconteceu a Ezequias? Sob a promessa de Deus, o rei ainda viveu por mais quinze anos. Ele havia prometido louvar e testemunhar da misericórdia de Deus. Em 2 Reis 20.12-19, porém, somos informados que recebeu a visita de espiões estrangeiros (disfarçados de embaixadores). Ezequias mostrou tudo o que se encontrava em seus tesouros: a prata, o ouro, as especiarias, o óleo fino, todo o seu arsenal e as posições estratégicas do seu exército. Não houve nada em seu palácio ou em todo o seu reino que Ezequias não lhes mostrasse. (Is 39:2). Ele preferiu testemunhar de sua

riqueza, suas conquistas e seu poder: preferiu falar de si mesmo e não de Deus. Ezequias não

encarou como uma missão os 15 anos a mais que Deus havia acrescentado à sua vida. Ezequias

se exaltou (2Cr 32:35). Novamente a palavra do Senhor veio pelo profeta anunciando o cativeiro dos judeus — profecia que se cumpriu tempos depois, na invasão de Nabucodonosor, no reinado de Zedequias.

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NOTAS:

Albert Barnes, Notes on the Bible, 1834

Dietrich Bonhoeffer, Overcoming Fear, a sermon. Harold S. Kushner, Commanded to Live.

Referências

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