CAMPANHAS DA FRATERNIDADE: REFLEXOS DO CONCÍLIO VATICANO II
______________________________________ Vanessa de Vasconcelos Zeca
Mestra em História Social pela UFRJ [email protected] ______________________________________
A presente comunicação tem como objetivo fazer uma breve síntese de uma parte da nossa dissertação de mestrado, defendida em maio do corrente ano, entitulada “Fraternidade no mundo do trabalho: um estudo do discurso católico sobre a ques-tão social através das Campanhas da Fraternidade (1964/1999)”1. Procuramos entender os objetivos da hierarquia da Igreja Católica no Brasil na década de 60, no que se refere aos movimentos sociais e apresentar o impacto que o Concílio Va-ticano II teve nos meios católicos e laicos, tentando compreender o papel das Cam-panhas da Fraternidade nesse contexto, de popularização das normas do Concílio através de um instrumento oficial lançado pela hierarquia.
O Concílio Vaticano II2 pode ser considerado uma tentativa de se “ampliar os horizontes” da Igreja, através da oficialização de práticas que já estavam se tor-nando rotineiras, a convocação dos leigos para uma atuação mais presente, além de propor a colaboração entre as mais diferentes religiões. Ou seja, procurava a-daptar a Igreja Católica aos “sinais dos tempos”, segundo falava o Papa João XXIII em sua Encíclica Pacem in Terris e em seus discursos durante o Concílio3. Portanto, foi uma resposta da Igreja às mudanças que estavam ocorrendo no mundo. No caso da América Latina, a aceitação dessa resposta se deu de forma diferenciada, já que muitas das normas vindas do Concílio haviam sido pensadas de acordo com a realidade européia, e algumas entravam em choque com a cultura e a própria realidade latino-americana. Por isso, foram desenvolvidos alguns programas
1 ZECA, Vanessa de Vasconcelos. Fraternidade no mundo do trabalho: um estudo do discurso
católi-co sobre a questão social através das Campanhas da Fraternidade (1964/1999). Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de pós – graduação em História Social (PPGHIS) da Universida-de FeUniversida-deral do Rio Universida-de Janeiro (UFRJ). Rio Universida-de Janeiro: maio Universida-de 2008.
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O Concílio Vaticano II foi convocado pelo Papa João XXIII, tendo início em 1962 e terminando em 1965.
3 HOORNAERT, Pe. Eduardo. O Concílio Vaticano e a Igreja no Brasil. IN: Revista Eclesiástica
Brasi-leira, vol. 27, fasc. 1, Março de 1967.
Modernidade, Instituicoes
e Historiografia Religiosa no Brasil
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Comunicacoes
~rais pela hierarquia, especialmente da Igreja Católica no Brasil, que tinham como objetivo “adaptar” essas diretrizes à nossa realidade.
Já no início do Concílio, podemos perceber algumas iniciativas no sentido de começar essa “adaptação”. É o caso do Plano de Emergência, divulgado em abril de 1962, por pedido direto do papa João XXIII. Tinha como objetivo a renovação de alguns setores da Igreja como a paróquia, o ministério sacerdotal, o sistema e-ducacional católico, a ação da Igreja no campo sócio-econômico, e a partir desses setores, organizar uma pastoral de conjunto em nível diocesano, regional e nacio-nal4. Embora tenha sido elaborado antes do término do Concílio, esse plano visava preparar o terreno para a oficialização de algumas práticas e a mudança de outras. Pode ser considerado como o primeiro Plano de Pastoral de Conjunto, incluindo a divisão da ação pastoral em Secretariados Regionais5.
De acordo com o “Ante-projeto de Plano de Emergência”6 muitas vezes a preocupação maior estava em encontrar medidas paliativas, e não em resolver o problema, como a distribuição de alimentos por parte da Caritas7, por exemplo. Para isso, tornava-se necessária a organização das dioceses e uma maior colabora-ção entre sacerdotes, religiosos e leigos, que deviam atuar não como meros execu-tores de ordens, mas como partes integrantes e ativas do projeto. Entretanto, essa chamada não deveria ser interpretada como uma licença para que esses membros começassem a contestar a autoridade da Igreja em público, o que causaria diver-gências e, consequentemente, desunião. O princípio de obediência à hierarquia, considerada “elemento fundamental da Igreja”, era essencial para que o Plano de Emergência pudesse ir adiante. Da mesma forma, não importava que existissem movimentos mais avançados ou mais conservadores, o importante era nunca deixar de lado a caridade, princípio básico para qualquer projeto.
Nesse mesmo documento, também se ressalta o combate ao comunismo e ao capitalismo liberal, já que ambos instalariam ditaduras que terminam por “esteri-lizar os esforços de cristianização”. Assim, de acordo com João XXIII, todas as forças da Igreja deveriam estar voltadas para atingir todas as almas, expandindo a evan-gelização ao máximo. Convocava-se também os homens de todas as classes para praticarem no mundo do trabalho e dos negócios, a doutrina social católica. Dessa
4 CNBB. Plano de Pastoral de Conjunto (1966/ 1970). Rio de Janeiro: Livraria Dom Bosco Editora,
1967
5 BANDEIRA, Marina. Movimentos sociais inovadores promovidos pela Igreja Católica no Brasil
(1950/ 1990). IN: SCHÜHLY, Günther; KÖNIG, Hans – Joachim; SCHNEIDER, José Odelso. (orgs.). Consciência social: a história de um processo através da Doutrina Social da Igreja. São Leopoldo: Editora Unisinos, 1994.
6 CNBB. Ante-projeto do Plano de Emergência para a mobilização geral da Igreja no Brasil. Vª
As-sembleia Ordinária. Rio de Janeiro, 2 a 5 de Abril de 1962.
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A Rede Caritas Internationalistem sede em Roma e abrange todas as Cáritas nacionais, incluindo a Brasileira. Ela atua com abertura ecumênica, estabelecendo parcerias com organismos nacionais e internacionais pelo resgate dos direitos humanos. A Caritas Internationalis é reconhecida pelo Conse-lho Socioeconômico da ONU como de "status consultivo geral". Informações obtidas no site www.caritasbrasileira.org.
maneira, não se cairia na “armadilha” imposta pelo “nivelamento liberticida do co-munismo” nem no “egoísmo, cobiça e indiferença” pregados pelo capitalismo8.
Para dar continuidade ao Plano de Emergência, e para que este pudesse cumprir os objetivos estabelecidos pela Santa Sé, era necessário implementar cen-tros especializados no estudo da realidade brasileira e mundial, a fim de possibilitar uma maior agilidade às ações da CNBB. Daí, a criação do CERIS (Centro de Esta-tísticas Religiosas e Investigações Sociais), do Instituto Nacional de Pastoral e do IBRADES (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento)9. A partir desses estudos, as Co-missões Episcopais ficariam encarregadas de traçar as diretrizes doutrinárias, adap-tadas ao contexto da época, sob a atenta supervisão do Vaticano.
Em todo o documento do Plano de Emergência está explícita a necessidade de adaptação e aprimoramento dos estudos e ações do episcopado brasileiro, em todas as áreas sociais. Em especial, deveria - se dar mais atenção aos planos de Educação de base (escolas radiofônicas)10, as Frentes Agrárias, a posição em face da Aliança para o Progresso, a coordenação de obras apostólicas e sociais, assim como o treinamento e supervisão dos líderes leigos. Esses estudos deveriam se dar, prioritariamente, em áreas de grande atração demográfica e nas zonas metalúrgi-cas, devido à sua instabilidade e maior vulnerabilidade a doutrinas contrárias à I-greja Católica11.
O Plano também traçava uma pastoral voltada exclusivamente para a evan-gelização dos pobres, que seria uma questão de “solidariedade humana”. Aos po-bres deveria ser restituída a dignidade auxiliando-os a superar as barreiras que os impedem de prosperar. Essa pastoral era uma “exigência da caridade cristã”, já que, biblicamente, o pobre é a “incarnação humana do Amor de Deus”.Contudo, essa ajuda não poderia se dar no âmbito do paternalismo ou de interesses políticos,
8 CNBB. Plano de Emergência para a Igreja do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria Dom Bosco Editora,
1963
9 As três instituições existem até dos dias de hoje. O CERIS funciona numa sede localizada no bairro
de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Tanto o Instituto Nacional de Pastoral quanto o CERIS são vincu-lados diretamente à CNBB. O IBRADES foi fundado como organismo anexo da Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) para serviço de assessorias e de formação no campo da educação popular e da pastoral social. IN:http://www.ccbnet.org.br/acao-social/apresentacao.html . Estes centros dedi-cam - se à publicação de estudos e textos sobre a Igreja Católica, também guardando acervo docu-mental.
10 No Brasil, em 1949/1950, Dom Eugênio Sales, então arcebispo de Natal, resolveu implementar
nesta região uma experiência que vinha dando certo na Colômbia, no que se refere à educação de adultos. Neste país, o Monsenhor Salcedo utilizava-se de escolas radiofônicas para atingir o maior número de pessoas possível, alfabetizando-as. Posteriormente, essa experiência passou a contar com a proposta pedagógica de Paulo Freire. Com o objetivo de ampliar esse programa, foi firmado um convênio entre a Secretaria-geral da CNBB e o governo federal, que facilitou a concessão de canais radiofônicos às dioceses que decidiam participar do projeto, estimulando a alfabetização e a evan-gelização.
11 ROSA NETO, Padre Virgílio. Regiões Prioritárias – planejamento para a instalação da Pastoral de
mas sim no sentido de “provocar uma mudança nas estruturas, permitindo a pro-moção dos pobres”12.
No que se refere a evangelização no mundo do trabalho, o principal respon-sável seria o sacerdote, que cuidaria tanto dos operários quanto dos patrões, evi-tando dessa maneira, compromissos partidários e/ ou econômicos. Para tanto, de-veria introduzir os conhecimentos da Doutrina Social da Igreja, utilizando-se da en-cíclica Mater et Magistra como base para tais ensinamentos.
Já no final do Concílio, em 1965, os bispos brasileiros, na VII Assembléia Geral Extraordinária da CNBB, reunida em Roma, elaboraram um plano que visava dar continuidade ao Plano de Emergência. Aí nascia o Plano da Pastoral de Con-junto (PPC) (1966/ 1970), que tinha como meta aplicar no Brasil as diretrizes do Concílio Vaticano II, assim como seu antecessor. Neste Plano, as soluções para o social deveriam ser baseadas na Doutrina, que mobilizaria todas as forças em busca de soluções para os problemas em qualquer esfera da sociedade. O Movimento para um Mundo Melhor13, devido “à sua divulgação do bem comum, a circulação de bens e hierarquização de metas”, serviria como base para os objetivos do Pla-no14, e seu financiamento viria da Adveniat 15.
A Pastoral de Conjunto organizaria os trabalhos locais, funcionando como uma supervisora, encarregada de adaptar as diretrizes gerais a cada realidade. Já os sacerdotes, religiosos e leigos, deveriam atuar sob a direção dos bispos, dialo-gando com eles, mas sem “destruir o princípio de autoridade e hierarquia”16. De acordo com Antoniazzi (2002), havia nesse período, uma valorização do que se chamaria de Igreja “comunidade missionária”, mais voltada para o Evangelho e os pobres, que valorizava o aspecto comunitário. Nesse movimento, assumido pela CNBB, surgiram as CEBs e também a Pastoral de Conjunto. Entretanto, enquanto as CEBs priorizavam uma forma mais autônoma de organização, o PPC apesar de valorizar a comunidade eclesial, permaneceu em uma perspectiva “eclesiocêntrica”,
12 BARROS, Raimundo Caramuru de. Perspectivas Pastorais para o Brasil de Hoje – subsídios para o
estudo e a execução do Plano de Emergência. 2ª Parte – Perspectivas Pastorais. Encontro dos Secre-tariados Nacionais da CNBB. Rio de Janeiro, 22 a 27 de Abril de 1963
13 O Movimento para um Mundo Melhor foi criado pelo jesuíta italiano Ricardo Lombardi, na
déca-da de 50. Seu objetivo inicial era “a reconstrução déca-da sociedéca-dade cristã, baseadéca-da na renovação déca-das almas”. Para tanto, promovia vários cursos, chamados de “Exercitações para um Mundo Melhor”, onde padres e leigos eram orientados para os valores da conversão individual e da sociedade pela prática da caridade. Teve início na Itália, e depois, com a aprovação de Pio XII, espalhou-se para o restante do mundo. IN: http://www.mondomigliore.it/mm/p.php?il_centro/pt
14 São citados três cursos do Mundo Melhor no nordeste – para bispos, sacerdotes, religiosas e
lei-gos, que serviram como preparação para o Plano de Emergência e a Pastoral de Conjunto. IN: CNBB. Introdução a uma Pastoral de Conjunto. Vª Assembleia Ordinária. Rio de Janeiro, 2 a 5 de Abril de 1962
15 A Ação Episcopal Adveniát estava voltada para obras de cunho nitidamente pastoral, limitando-se
a participar nos projetos da América Latina. Tem um caráter especificamente assistencial e pertence à hierarquia da Igreja alemã. HENGSBACH, Dom Franz. A Ação Episcopal Adveniát. IN: Comunicado Mensal da CNBB, fevereiro de 1973, número 245.
16 CNBB. Introdução a uma Pastoral de Conjunto. Vª Assembleia Ordinária. Rio de Janeiro, 2 a 5 de
ou seja, mais voltada para dentro, preferindo a colaboração entre as paróquias, submetidas a uma organização hierárquica17. Deveria haver uma descentralização entre as paróquias, para que fossem suscitadas as Comunidades de base, que nos documentos, são comparadas com as capelas rurais, nas quais os cristãos podem se sentir responsáveis pela Igreja e pelos outros fiéis. Outra característica do PPC é a utilização da metodologia “ver-julgar-agir” nos seus projetos pastorais, recomen-dação feita ainda pelo Plano de Emergência.
No geral, ambos os planos pediam importantes reformas sócio – econômi-cas, e possuíam um caráter nitidamente anti-comunista. Segundo Mainwaring (1989), tanto o Plano de Emergência quanto o Plano de Pastoral de Conjunto, ape-sar de limitados, encorajavam a mudança dentro da Igreja e continham o esboço de uma atuação reformista, que deu forma às inovações pastorais da década de 6018.
As Campanhas da Fraternidade também foram encaradas como mais uma maneira de se por em prática as diretrizes do Concílio, mas com um diferencial. Havia uma pressão das Igrejas católicas estrangeiras para que fosse criada, no Bra-sil, uma atividade que servisse ao mesmo tempo para a evangelização e para a ar-recadação financeira. Por isso, a equipe do Movimento de Natal resolveu colocar em prática uma campanha, inspirada nos moldes da realizada na Quaresma19 pela Igreja alemã, em 1963. Dessa maneira foi criada a Campanha da Fraternidade, como resultado de uma experiência particular de 16 dioceses nordestinas. A primei-ra Campanha surgiu no Rio Gprimei-rande do Norte, duprimei-rante a Quaresma de 1962 e no ano seguinte, os bispos brasileiros, reunidos em Roma para o Concílio Vaticano II, decidiram que ela deveria se dar em âmbito nacional20. Eles ouviram o relato da experiência de uma Campanha, realizada no Nordeste, que tinha como meta a di-minuição da dependência da CNBB e da Cáritas Brasileira dos programas estran-geiros de assistência social21. Alguns membros da Cáritas brasileira, associada à CNBB, procuravam uma maneira de sustentá-la em longo prazo, utilizando recursos próprios. Dessa forma, projetaram realizar no Brasil, o que organizações semelhan-tes faziam na Europa e nos EUA: uma atividade dinâmica, promovida nacionalmen-te, em um tempo determinado e com arrecadação financeira. Segundo Araújo (2002), o objetivo principal seria promover a fraternidade cristã, mediante a ajuda aos necessitados, por isso o nome de Campanha da Fraternidade.
Na verdade, o primeiro objetivo da Campanha foi servir como fonte interna de arrecadação de recursos, já que as principais doações vinham de instituições e Igrejas estrangeiras, e estas faziam pressão para que se desenvolvesse uma
17 ANTONIAZZI, Alberto. A CNBB e a eclesiologia ao longo de cinquenta anos. (1952/ 2002). IN:
Encontros Teológicos, n° 32, ano 17. Florianópolis, ITESC, 2002.
18 MAINWARING, Scott. A Igreja Católica e a política no Brasil (1916/ 1985). [s.l.]: Editora
Brasilien-se, 1989.
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A Quaresma inicia-se após o Carnaval e perdura durante quarenta dias até a Páscoa. Segundo o calendário litúrgico da Igreja, este é um tempo de penitência, de preparação para a Páscoa.
20 Os bispos perceberam que, após o Primeiro Plano de Pastoral de Conjunto (PPC) deveria haver
um esforço para que a Igreja brasileira se ajustasse às orientações do Concílio.
de semelhante no Brasil22. A Campanha estava inserida na lógica de coletas anuais que tinha dois objetivos: “(…) atender mais as necessidades sociais, tais como a fome, a doença; outro atender as necessidades apostólicas. O primeiro tipo sensibi-liza mais a opinião pública; o segundo supõe boa formação religiosa do povo para obter êxito”23. Ou seja, deveria haver uma ênfase na coleta como ato de caridade e solidariedade para com o próximo.
A ênfase nos primeiros textos das Campanhas estava no incentivo à partici-pação dos leigos para que estes colaborassem na promoção das diretrizes das mesmas, e dessa forma, fortalecessem a estrutura da Igreja e dinamizassem a sua estrutura financeira. Contudo, mais uma vez, essa ação dos leigos deve estar sem-pre sob supervisão do bispo diocesano.
A principal meta das Campanhas seria a manutenção de uma linha essenci-almente educativa e evangelizadora, sempre baseando seus ensinamentos na Dou-trina Social da Igreja, e tendo como principal objetivo alertar cada cidadão para sua responsabilidade social a partir da proposta evangélica. Ou seja, de acordo com o texto da Campanha de 1968, “(…) a CF não é em primeiro lugar campanha financeira ou uma coleta em grande estilo. Em sua finalidade essencial é uma cam-panha educativa da consciênciada Igreja”24. Por isso, a escolha do tema de cada Campanha deveria basear-se em demandas da sociedade e nos planos de pastoral. Dessa forma, podemos concluir que as Campanhas da Fraternidade foram criadas com o objetivo inicial de conseguir arredar fundos para as obras da Igreja Católica. Esta há muito dependia do auxílio de hierarquias estrangeiras, especial-mente européias, para conseguir manter – se e às suas obras. Ao mesmo tempo, havia a necessidade de uma maior penetração no âmbito social, devido à influência de movimentos que não tinham caráter religioso. Ainda existiam as diretrizes do Concílio Vaticano II, que deveriam ser divulgadas e aplicadas em todo o mundo. Em nossa opinião, as Campanhas surgiriam como uma forma de atender à todos esses objetivos: os textos com orientações advindas do Concílio eram divulgados, assim como os envelopes para a coleta de recursos financeiros, e tudo sempre era supervisionado pela hierarquia, para evitar o que a documentação chama de “ex-cessos” por parte dos leigos. Mesmo a escolha dos temas, posteriormente contando com sugestões de grupos leigos, deve passar pelo crivo dos bispos, que utilizam argumentos doutrinários e das encíclicas para dar o embasamento teológico aos assuntos em voga da sociedade.
22 Segundo uma declaração do Monsenhor Franz Hongsbach, da Ação Adveniát, alguns anos depois
de iniciada a Campanha, “o episcopado poderia partir da Campanha da Fraternidade, que já conta com a aceitação de quase totalidade dos bispos, para uma educação de responsabilidade pela Igre-ja.” Nesse sentido, a CF deveria ser tomada como meio de educação para uma tomada de consci-ência da corresponsabilidade eclesial que teria como consequconsci-ência a aceitação de bens materiais, necessários à atividade da Igreja. CNBB. Campanha da Fraternidade. Crer com as mãos. São Paulo, Editora Salesiana Dom Bosco, 1968.
23 CNBB. Campanha da Fraternidade – Tema: Fraternidade. São Paulo: Editora Dom Bosco, 1966. 24 CNBB. Campanha da Fraternidade. Crer com as Mãos. São Paulo: Editora Salesiana Dom Bosco,
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ANTONIAZZI, Alberto. A CNBB e a eclesiologia ao longo de cinquenta anos. (1952/ 2002). IN: Encontros Teológicos, n° 32, ano 17. Florianópolis, ITESC, 2002.
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HENGSBACH, Dom Franz. A Ação Episcopal Adveniát. IN: Comunicado Mensal da CNBB, fevereiro de 1973, número 245
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ROSA NETO, Padre Virgílio. Regiões Prioritárias – planejamento para a instalação da Pastoral de Conjunto (1964/1965). Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Pasto-ral, 1973.
ZECA, Vanessa de Vasconcelos. Fraternidade no mundo do trabalho: um estudo do discurso católico sobre a questão social através das Campanhas da Fraternidade (1964/1999). Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de pós – gradua-ção em História Social (PPGHIS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Rio de Janeiro: maio de 2008.
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