O PODER DISCRICIONÁRIO E SEUS EFEITOS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
Daniel Anderson Fracaro (UEPG) (E-mail: [email protected]) Karina de Fátima Larocca Fracaro (UEPG)
Orientador: Prof. Me. Guilherme Amaral Alves (UEPG)
Resumo
Este trabalho visa refletir sobre o poder discricionário do agente político que em determinadas situações se utiliza da administração pública com interesse partidário. Pretende-se através da pesquisa bibliográfica conceituar os princípios do direito administrativo, observando suas peculiaridades como: sua legalidade, revogação e anulação dos atos discricionários, bem como seus efeitos e abusos cometidos pelo administrador, para fins eleitorais. Pensando em promover futuras reflexões sobre o poder discricionário da administração pública e contribuir para o desenvolvimento crítico social principalmente em períodos de eleição, justificamos nosso estudo teórico exploratório, na apresentação de uma pequena revisão literária sobre a evolução da definição do Poder Discricionário, buscando mecanismos para a obtenção da justiça social no exercício da atividade Pública. Esta pesquisa de metodologia qualitativa traz conclusões acerca da aplicabilidade do poder discricionário em atos da administração pública, o qual deve ser instrumento de políticas públicas.
Palavras Chave: Poder Discricionário, Ato Administrativo, Políticas Públicas, Eleições.
Introdução
A administração pública efetiva suas ações por meio de atos jurídicos nomeados como atos administrativos, que segundo (MEIRELLES, 2004), se definem como uma vontade unilateral da administração pública, com o objetivo de adquirir, resguardar, transferir, modificar, extinguir, declarar direitos ou impor obrigações aos administrados ou a si próprios. Entre os elementos dos atos administrativos encontramos a Competência, a qual estabelece a primeira condição de validade destes atos que podem ser discricionários ou vinculados desde que sejam praticados por um agente que desfrute de um poder legal. Neste contexto, sabemos que o poder discricionário é um poder vinculado à administração pública, ou seja, para executar o ato precisa seguir uma linha direta com o que prescreve a lei como a aplicação da competência e finalidade para onde se destina o ato, bem como clarifica Medauar (2003):
Daí a atividade discricionária caracterizar-se, em essência, por um poder de escolha entre soluções diversas, todas igualmente válidas para o ordenamento. Com base em habilitação legal, explícita ou implícita, a autoridade administrativa tem livre escolha para adotar ou não determinados atos, para fixar o conteúdo de atos, para seguir este ou aquele modo de adotar
ou não determinados atos, na esfera da margem livre. (MEDAUAR, 2003, p. 111)
Conforme essa definição, podemos afirmar que o administrador público é livre para escolher a conveniência na aplicação dos atos com base em um preceito maior, o ordenamento legal. Nota-se que a discricionariedade não tem liberdade total de atuação no poder público, mas dentro da liberdade concedida implícita ou explicitamente pela lei, precisando sempre atuar no sentido de atender a demanda social. Entre suas ações o poder administrativo devem sempre visar o interesse geral ou interesse coletivo, é neste âmbito que o poder discricionário pode intervir, pois são conceituados como a liberdade de ação administrativa dentro dos limites permitidos em lei, ou seja, a lei deixa certa margem de liberdade de decisão diante do caso concreto, de tal modo que a autoridade poderá optar por uma dentre várias soluções possíveis, todas, porém, válidas perante o direito.
Deste modo, os atos discricionários são poderes para a prática de atos administrativos com liberdade de escolha segundo os critérios de conveniência, oportunidade e justiça, próprios da autoridade sempre observando os limites estabelecidos em lei, porém estes critérios não estão definidos em lei, e como comenta Melo: “Já se tem reiteradamente observado, com inteira procedência, que não há ato propriamente discricionário, mas apenas discricionariedade por ocasião de certos atos". (MELO, 1996, p. 226).
Sendo assim, surge o interesse pela compreensão a partir de estudos bibliográficos, sobre poder discricionário do agente político, seus critérios de escolha, permitidos pelo direito administrativo, que muitas vezes não caminham juntos com a necessidade coletiva visando à justiça social e por consequência, observa-se o abuso no ato o que torna nítida a promoção eleitoral. Considerando os pressupostos citados apresentam-se a seguir os objetivos do presente texto.
Objetivos
Como objetivo geral este trabalho visa refletir sobre o poder discricionário do agente político que em determinadas situações se utiliza da administração pública com interesse partidário. Bem como conceituar os princípios do direito administrativo, observando suas peculiaridades como: sua legalidade, revogação e anulação dos atos discricionários, bem como seus efeitos e abusos cometidos pelo administrador, para fins eleitorais. Assim como objetivos específicos busca-se: 1) apresentar a conceituação de ato administrativo e do poder discricionário; 2) refletir sobre a teoria do poder discricionário e sua aplicação nas ações dos agentes políticos; 3) demonstrar exemplos do poder discricionário do agente político; 4) avaliar a problemática embasando-se nas referências bibliográficas; 5) promover futuras reflexões sobre o poder discricionário da administração pública; 6) contribuir para a evolução crítica social principalmente em períodos de eleição.
Método e Técnicas de Pesquisa
Este trabalho de natureza metodológica teórica visa, através de bibliografias, nortear os princípios da administração pública, perfazendo a reflexão sobre o
poder discricionário no exercício da atividade pública, procurando contribuir para o avanço do conhecimento e uma evolução crítica sobre o tema da justiça social. De forma qualitativa pretende-se relacionar e interpretar a regência das leis com a prática do trabalho administrativo, averiguando as hipóteses de resultados pós-uso da discricionariedade. É uma pesquisa exploratória quanto aos seus objetivos, pois proporciona maior familiaridade como o problema e cria a base para construir hipóteses, esse levantamento bibliográfico visa desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias para aprimorar estudos posteriores.
Utiliza-se o método indutivo no qual as constatações particulares levam à elaboração de generalizações, ou seja, procura-se ampliar o alcance do conhecimento sobre as ações do agente politico em suas atividades, e explanar sobre suas escolhas que deveriam sempre visar o interesse comum. Seu procedimento técnico é uma pesquisa documental indireta, isto é, estudo bibliográfico formulado através de leituras, fichamentos, organizações de escritas de apoio, bem como elaborado a partir de materiais já publicados. Consiste em apresentar e comentar as convergências e divergências entre os atos administrativos, mais precisamente o poder da discricionariedade no alcance da justiça social, pautando-se nas citações de autores concordantes do mesmo segmento estudado, e assim constituindo uma pesquisa de base para novas leituras.
Resultados
Tendo em vista que a administração pública sempre é alvo de questionamentos e críticas quando o assunto é a aplicabilidade de seus serviços, procurou-se explanar através da pesquisa bibliográfica a relação teoria e prática da funcionalidade dos atos administrativos. Observou-se que o agente político pode usufruir da estrutura administrativa para se prevalecer em épocas eleitorais, pois se aproveitando da discricionariedade ele transita legalmente sobre o regimento das políticas públicas e beneficia aquém, quando melhor convier desde que dentro das leis, ou seja, a ele é imputado o poder discricionário que lhe compete o direito de escolher qual, onde, como e quando atender determinada situação que dependa da estrutura administrativa. A presente reflexão pode esclarecer a facilidade que o agente político encontra por meio da discricionariedade no uso da administração pública em benefício próprio, omitindo-se da justiça social no exercício da sua atividade.
É notório que ao entender certas facetas daqueles que estão ligados ao poder público, o eleitorado pode expandir suas ponderações sobre o desfrute do poder com fins partidários e posicionar-se criticamente.
Discussão
O cerne da questão se encontra na liberdade de escolha por conveniência e oportunidade que é dado ao agente político, que geralmente não é aplicada em todos os sentidos. Somente o motivo e o objeto estão na esfera de opção do administrador, este, não pode atuar sem a competência para o desígnio de uma tarefa, sendo assim, na elaboração do ato administrativo discricionário, o Objeto é de livre escolha da administração pública, possibilitando a definição do conteúdo do ato, a providência administrativa em si, tudo isso com base no
Mérito (motivo), na importância atribuída ao caso pelo administrador, segundo suas concepções, como explana Fagundes (2003, p. 210):
O mérito se relaciona com a intimidade do ato administrativo, concerne ao seu valor intrínseco, à sua valorização sob critérios comparativos. Ao ângulo do merecimento, não se diz que o ato é ilegal ou legal, senão que é ou não é o que devia ser, que é bom ou mau, que é pior ou melhor do que outro. A conceituação do autor esclarece que o mérito é um juízo de valor que a administração pública dispõe para tomar posições nas situações em que a lei garante uma liberdade limitada, portanto o administrador com base no que julga conveniente ou oportuno ele se utilizará em casos de determinação de qualidade para os motivos, do mérito administrativo.
Eis que surge uma das questões problemáticas que norteiam esta pesquisa, ou seja, sendo um ato que atende aspectos da legalidade e do mérito, este último composto por um motivo e pela conveniência, repensamos sobre quais são as primazias nas escolhas da administração pública quanto ao atendimento ao bem comum. Neste sentido, faz-se necessário reconsiderar a prática do administrador, sempre obedecendo de forma legal, porém conveniente, de suas ações principalmente quando implica liberdade de ações em épocas eleitorais, ou vésperas de anos eleitorais. Em contrapartida a jurisprudência cita o REO nº 165.977/STF que nos ensina:
Ao Judiciário é vedado, no exercício do controle jurisdicional, apreciar o mérito dos atos administrativos, para dizer do acerto da Justiça, da utilidade, da moralidade, etc., de cada procedimento. Não pode o juiz substituir-se ao administrador; compete-lhe, apenas, conte-lo nos estritos limites da ordem jurídica ou compeli-lo a que os retorne.
Portanto a análise pelo poder judiciário só é outorgada quanto a sua legalidade e legitimidade na atuação administrativa. Assim o administrador, ao desenvolver suas atividades, seu planejamento, pode caracterizar uma forte influência da vontade do administrador ao escolher ações prioritárias para sua gestão. Tais prioridades de planejamento podem ser influenciadas pelas correntes filosóficas inseridas na formação do gestor e reflete-se em sua administração, em suas decisões politicas administrativas, como por exemplo, destinando verbas para um setor ou outro, como para a educação ou para a saúde.
Nesta mesma linha, almeja-se propiciar a ampliação de uma visão crítica social a partir das ações administrativas principalmente em períodos de eleição, do abuso do poder, no usufruto do poder em vigor para beneficiar-se em campanhas partidárias. Considerando que o objetivo principal da discricionariedade é o bem administrar, pretendendo-se a satisfação ao interesse público, os administradores não podem se desvincular desses objetivos, respeitando sempre os limites da discricionariedade, tais como a ação, eficiência ou omissão por parte administrativa sob pena de anular tais atos por caracterizar uma ilegalidade, cabe ressaltar que se explanaram também as questões de revogação e anulação em determinadas circunstâncias. Portanto, para exercer adequadamente suas funções, a
atividade pública deveria ser instrumento de justiça social, no entanto quando a política interfere nas decisões administrativas, muitas vezes são desviadas as prioridades sociais para beneficiar questões partidárias.
Considerações Finais
Considerando o discorrido no presente texto, percebe-se o despreparo social na discussão das habilidades administrativas que em grande parte perfazem sua crítica nas ações de fiscalização e controle das atividades dos agentes políticos, o que confirmam nossa suposição de uso excessivo da discricionariedade para o julgamento das questões de maior meritocracia segundo sua própria visão. É neste viés que entendemos a necessidade da conscientização do regimento das políticas públicas, das leis do direito administrativo e suas respectivas ramificações. Conforme os dados finais da nossa pesquisa e verificando o que dispõem as leis sobre os atos administrativos, repensa-se no uso despudorado da estrutura administrativa aspirando um desígnio particular ou partidário principalmente em anos eleitorais. No entanto, as leis não impedem que isso aconteça, uma vez que explícito dentro da normativa o princípio do ato discricionário como autoridade do agente político. Neste sentido, enfatizamos a relevância da iniciativa em esclarecer os aspectos legais sobre esse assunto contemplando um público em massa e contribuindo para incentivar as reflexões sobre o uso abusivo do agente político.
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