UNIVERSIDADE FEDERAL DO MATO GROSSO INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
NÚCLEO INTERINSTITUCIONAL DE ESTUDOS DA VIOLÊNCIA E CIDADANIA CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM POLÍTICAS DE SEGURANÇA E DIREITOS
HUMANOS
ANDERSON PRZYBYSZEWSKI SILVA
UNIFICAÇÃO DAS POLÍCIAS ESTADUAIS: VANTAGENS E DESVATAGENS
Cuiabá 2015
ANDERSON PRZYBYSZEWSKI SILVA
UNIFICAÇÃO DAS POLÍCIAS ESTADUAIS: VANTAGENS E DESVATAGENS
Trabalho acadêmico apresentado no Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Mato Grosso, como requisito para a conclusão do curso de Pós Graduação a nível de especialização em Políticas de Segurança Pública e Direitos Humanos. Orientador: Prof. Dr. Edson Benedito Rondon Filho.
Cuiabá 2015
DEDICATÓRIA
Aos meus pais, por toda a experiência de vida transmitida aos filhos. A minha esposa
adorável, pelos momentos de
companheirismo e incentivo. Ao grande arquiteto do universo por tudo que aprendemos a cada novo dia de vida.
AGRADECIMENTOS
Aos meus pais José Prudêncio da Silva e Lidia Przybyszewski Silva pelo incentivo e todas as palavras de carinho, amizade, confiança que possibilitou a realização deste curso. A minha esposa Airthes Antônia Duarte, que teve a paciência e soube me apoiar nos momentos de dificuldade. Aos Coronéis da PMMT Jadir Metello da Costa e Gley Alves de Almeida Castro, Ten Cel PM Helder Taborelli Sempio, Ten Cel PM Jairo de Moraes Pessoa pelo apoio dispensado a minha pessoa na realização desta pesquisa. Aos doutores, mestres e especialistas que nos transmitiram vastos conhecimentos com aplicação pratica. Ao quadro de servidores do ICHS pela amistosa convivência durante a realização do curso. Aos colegas de curso pelos momentos de convivência gravados para sempre na memória.
EPÍGRAFE
“Só se pode alcançar um grande êxito quando nos mantemos fies a nós mesmos.” (Friedrich
RESUMO
Este trabalho científico está voltado à temática Unificação das polícias Estaduais: Vantagens e Desvantagens e objetiva trazer à tona uma questão recorrente na atual sociedade, ou seja, o modelo de polícia existente contempla os anseios da sociedade? É notório que os índices utilizados para a mensuração da violência, encontram-se em uma evidente crescente. E por este viés, faz-se necessário esclarecer as funções constitucionais de cada instituição policial estadual (Policia Militar e Policia Civil), para a partir desta descrição de competências, trazer as propostas de unificação existentes no cenário nacional, bem como trazer à baila os aspectos positivos e negativos de eventual unificação das forças policiais no âmbito dos estados da federação, sob o prisma do gestor público, mas sobretudo sobre a ótica da sociedade. Para tanto nos basearemos sobre os trabalhos científicos existentes, em torno desta proposta, e sobre o referencial teórico de cientistas sociais e renomados escritores que publicaram obras que envolvam o tema. Necessário concluir que os entendimentos sobre o tema não estão pacificados. O método bibliográfico foi utilizado para realização desta pesquisa descritiva.
Palavras chave: Segurança Pública - Unificação das polícias brasileiras -
ABSTRACT
This scientific work is focused on the theme of the Unified State police: Advantages and Disadvantages and aims to bring out a recurring issue in today's society, that is, the existing police model contemplates the desires of society? It is noticeable that the indices used to measure violence, are in a growing evident. And this bias, it is necessary to clarify the constitutional functions of each state police institution (Military Police and Civil Police), for from this description of skills, bring the existing proposals for unification on the national scene, as well as bring up the positive and negative aspects of eventual unification of police forces within the states of the federation, from the perspective of the public administrator, but mainly on the perspective of society. To do so will base on the existing scientific studies on this proposal, and on the theoretical framework of social and scientists writers who published works involving the theme. Must be concluded that the understandings on the subject are not pacified. The bibliographic method was used to accomplish this descriptive research.
Keywords: Public Security - Unified Brazilian police - Advantages and
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - Opinião dos profissionais sobre o modelo atual de polícia. ... ...26Erro! Indicador não definido.
Gráfico 2 - Opinião dos profissionais sobre o modelo mais adequado a realidade brasileira ... 28
Gráfico 3 - Opinião dos profissionais sobre as formas de desmilitarização das polícias ... 30
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
CF – Constituição Federal CPM – Código Penal Militar
CPPM – Código de Processo Penal Militar PEC – Proposta de Emenda Constitucional
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 10
1 POLÍCIA E SEGURANÇA PÚBLICA ... 112
2 A POLÍCIA BRASILEIRA ... 156
3 UNIFICAÇÃO DAS POLÍCIAS ESTADUAIS ... 22
3.1 VANTAGENS DA UNIFICAÇÃO ... 37
3.2 DESVANTAGENS DA UNIFICAÇÃO. ... 38
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 41
INTRODUÇÃO
Este trabalho acadêmico está voltado para a vertente de, conhecer como está concebido o modelo de segurança pública no Brasil e traçar um paralelo com as correntes acadêmicas existentes no que se refere a temática segurança pública, face ao reconhecimento de que o sistema atual tem se mostrado ineficiente, o caminho seria integrar? ou unificar as forças policiais?
Inicialmente se faz necessário pontuarmos que o tema da unificação das polícias estaduais (civil e militar) é periódico no que se refere as reformas estruturais no contexto de segurança pública do país, cada vez mais tida como insuficiente para o enfrentamento da criminalidade crescente, com a consequente elevação dos índices de violência, nas mais diversas regiões do Brasil.
É bem verdade que a segurança pública não é apenas uma questão de polícia, mas, sem dúvida nenhuma, cabe a ela uma participação relevante na preservação e na manutenção da ordem pública.
O objeto de estudo se prende ao fato de que no país, o sistema existente lamentavelmente, a polícia - como existe hoje, compartimentalizada em polícia militar e polícia civil - não atende às necessidades da sociedade, relativamente à sua segurança.
Neste contexto, temos o escopo de delinear os argumentos que levam alguns estudiosos a defender a unificação das polícias como sendo parte importantíssima da solução para os problemas correlatos à segurança pública.
Há de se destacar que, existem propostas em tramite no Poder Legislativo federal, voltadas a esta temática. Fazendo parte deste estudo, trazer à baila tais proposituras, e em um exercício de interpretação, dos textos, extrair aquele que, mais contribuições traria a temática de unificação das polícias estaduais, sempre com o fito de alcançarmos o melhoramento e aprimoramento do ciclo de segurança pública existente.
Para a elaboração desse trabalho foi realizada uma pesquisa bibliográfica abarcando as ciências humanas, sociais e pesquisa realizada com os integrantes do sistema de segurança pública no Brasil
Finalmente, pretende-se esclarecer, por meio de fundamentos teóricos, a questão da unificação das polícias estaduais, analisando-se as viabilidades estrutural
e jurídica desta nova polícia, consolidando-se o exercício do ciclo completo de polícia como sendo a solução mais viável para as melhorias na área da segurança pública.
Este trabalho é dividido em 03 (três) capítulos, o primeiro capítulo versa sobre polícia e segurança pública e suas vertentes. No segundo capítulo iremos tratar dos modelos de polícia existentes no país. O terceiro capítulo abordaremos a temática unificação das polícias, os aspectos legais e as nuances traçadas pelas correntes existentes e acostados nos trabalhos acadêmicos que abarquem este assunto. Destaca-se ainda em face de considerações finais que, alguns estudiosos da temática, indicam que a legislação atinente ao tema, constituem-se de empecilhos para o avanço do modelo existente, pois evidencia que qualquer que seja a proposta, obrigatoriamente deverá passar por uma alteração de dispositivos legais, sobretudo a alterações na constituição federal.
1 POLÍCIA E SEGURANÇA PÚBLICA
Peters (1985), Bretas (1997), Napoli (2003) e Bittner (2003), apud Rondon Filho (2013), “são exemplos de autores que restringem a visão de polícia a sua institucionalização que aconteceu com o surgimento do estado moderno século XVIII” Por outra ótica, Bayley (2001), apud Rondon Filho (2013), “não impõe limite estatal a existência da polícia, estendendo sua compreensão as famílias, clãs, tribos, igrejas e corporações dando exemplos de proteção privada em substituição a polícia estatal”
Segundo Foucault, apud, Azevedo (2008), as relações sociais conflituosas contaram com violência de ambas as partes para apaziguamento das controvérsias desde o absolutismo do século XVIII, sendo que os mecanismos de controle social, neste período estavam adstritos a interesses das classes dominantes e de grupos políticos.
No entanto entendemos que esta linha de raciocínio não procede, pois Caetano (2012), defende a ideia que a violência sempre existiu, independentemente do regime político absolutista.
A partir destas considerações, podemos dizer que o surgimento do aparato policial, se deu em um primeiro momento, com o fito de o estado “monopolizar” o poder de polícia, segundo o qual, passa a ter a incumbência de interceder em relações de conflito, objetivando a manutenção de um estado ordeiro, segundo os aspectos legais.
No Brasil, as instituições policiais estaduais, na forma em que são concebidas atualmente, correspondem a um arranjo, do que elas representavam no período de seu surgimento, ou seja, possuem umbilicalmente, um controle do estado, e deste modo, ainda neste século, se prestam a atenderem os anseios da classe política, bem como das forças dominantes.
As polícias brasileiras (civil e militar), constituíram-se nos moldes do modelo Francês e Português, onde desde sua fundação prestaram-se muito mais aos atendimentos de camadas influentes e de grupos políticos, do que a serviço da sociedade de um modo geral (Souza, 1999).
Entretanto somos de entendimento que, isto se justifica, pelas influências culturais advindas desde a época da colonização, onde a polícia brasileira tem suas origens históricas em Portugal, onde se encontra a origem das policias militares,
sendo certo que este modelo português está revestido de uma enorme influência francesa.
Ocorre porém que, com o advento da constituição cidadã promulgada no ano de 1998, a ordem social está voltada para o atendimento da sociedade (daí a denominação de constituição cidadã). Entretanto, o nosso legislador, não se ateve a inovação necessária no tocante a reforma constitucional do texto referente a segurança pública, especialmente no artigo 144 da constituição federal, o qual versa sobre as competências constitucionais das policias estaduais, onde foi mantido o sistema de dualidade policial no âmbito estadual, com um corporação civil (Polícia Judiciária Civil), responsável pela apuração das infrações penais e outra militar (Policia Militar) com a incumbência de preservação da ordem pública e policiamento ostensivo.
Conforme Araújo (2002):
A unificação policial (união das polícias civis e militares) tem sido assunto amplamente discutido, como sendo uma das possibilidades de modernização da atuação estatal no combate ao crime. A existência de uma polícia com direção única, reestruturada e com objetivos integrados sanaria muitos defeitos encontrados no paradigma atual.
No universo da segurança pública, a questão da unificação das polícias estaduais é alvo de debates intensos, por se tratar de uma alternativa ao modelo existente, e se mostra como uma ferramenta interessante, que merece ser discutida.
Conforme nos ensina Tavares dos Santos (1999, p.10-13), no começo do século XXI, o problema da conflitualidade e das formas de violência das mutações nas espécies de crimes, da crise que assola as organizações policiais e dos conflitos sociais, se amolda na necessidade peremptória de outras nuances de ações coletivas, pois as lutas sociais são corroboradas por outros atores, e neste sentido possuem bandeiras diversas de reinvindicações:
Estamos na presença de um social heterogêneo, no qual nem indivíduos, nem grupos parecem reconhecer valores coletivos. Esse contexto da origem a múltiplos arranjos societários, a múltiplas logicas de condutas. Predominando tal situação é valido, falar em sociedade fragmentada, plural, diferenciada, heterogênea (GROSSI PORTO).
Ainda seguindo esta linha de raciocínio, Tavares dos Santos (2012, p. 16-32), preconiza que a desigualdade social entre as classes, é tida por vários autores como
sendo uma das nuances para a origem da violência, pois contribuem para a chamada segregação urbana, acarretando uma exclusão social, caracterizada pela falta de emprego, trabalhos precários, baixos salários e sistema educacional ineficiente.
Neste diapasão, somos da ótica que por mais que seja explorado pelos meios de comunicação (Redes sociais, Rádios, Jornais, Televisão, Internet), a associação com os índices alarmantes de violência, não é verdade que segurança pública seja uma questão exclusiva de polícia.
Nas palavras de Tavares dos Santos (2012), as condições citadas são maximizadas no âmbito na américa latina, pois a maior parte das vítimas, bem como maior parte dos autores da violência são homens jovens:
Em todo pais, o alvo preferencial dessas mortes compreende adolescentes e jovens adultos masculinos, em especial procedentes das chamadas classes populares urbanas, tendência que vem sendo observada em inúmeros estudos sobre mortalidade por causas violentas (...) Aumentou a proporção de adolescentes representados na criminalidade violenta. No primeiro período, era menor a proporção de crimes violentos cometidos pelos adolescentes face a proporção de crimes violentos cometidos na população em geral. No segundo período, essa tendência se inverte.
Segundo Grassi Porto “a violência passa a ser consumida num movimento
dinâmico em que o consumo participa também do processo de sua produção, ainda que como representação”.
Nossa sociedade se encontra em constante mutação, e conforme Tavares dos Santos, as origens dos conflitos são significativamente outras, neste viés é sobremodo oportuno dizer que a evolução da segurança pública, necessita estar atrelada a ideia de cidadania, que contemple políticas sociais, projetos sociais, corroborando da denominada emergência da planificação emancipatória.
A partir desses apontamentos, após situarmos algumas nuances da violência, bem como os fatores sociais associados, passarmos a declinar sobre as policias estaduais brasileiras, traçando um paralelo acerca de suas competências constitucionais, e sobre a eficácia deste modelo no contexto atual de sociedade.
Por este norte, é evidente que com a evolução da sociedade, todo este aparato estatal necessita evoluir, pois as respostas que a sociedade espera nos dias de hoje (especialmente nos serviços de segurança pública), não guardam correlação nenhuma com os contextos sociais em que as policiais foram criadas, naquela época, com uma ênfase quase que exclusiva, de servir o estado e as camadas sociais mais elevadas.
A partir destes apontamentos, utilizamos os argumentos de Grossi Porto, que afirma que a violência nos parâmetros atuais tem se mostrado um “produto”, onde nossa sociedade atravessa uma fase de dramatização da violência e sua espetacularização dos crimes, sobretudo os violentos, campo este, utilizado de forma enfática pelos meios de comunicação.
2. A POLÍCIA BRASILEIRA
É sobremodo imperioso ressaltar que, para entendermos as particularidades e individualidades de cada polícia brasileira, bem como o nascedouro da discussão sobre unificação e as razões apontadas para tanto, se torna fundamental analisarmos o trato constitucional que o legislador atribuía as organizações policiais no Brasil.
Segundo nos ensina Di Pietro (2007, p. 105), o serviço de polícia judiciaria é inerente a instituições especificas para este fim;
Afirma-se que a polícia judiciária é privativa de corporações especializadas, como a polícia civil e a própria polícia militar, enquanto que a polícia administrativa se reparte entre vários órgãos estatais de fiscalização, como a vigilância sanitária na saúde, a previdência, a área tributária, entre outros.
Podemos afirmar deste modo que, a Polícia Militar igualmente exerce a atividade de polícia judiciária no seu âmbito da caserna, quando da apuração de crimes de natureza militar, sejam próprios ou impróprios, com base na legislação especifica, ou seja o Código Penal Militar e de Processo Penal Militar.
Por este norte, é certo dizer que tanto a Polícia Judiciaria Civil, como a Policia Militar, são instituições que podem tranquilamente, desempenhar atividades atreladas a funções de polícia judiciaria, ressalvadas as competências conforme a natureza do delito.
Passaremos a discorrer inicialmente a competência da Polícia Judiciária Civil, e neste sentido, segundo Meirelles e Espírito Santo1: “Se tratando da Polícia Civil, as
suas atribuições de índole judiciária, cabendo apurar infrações penais da sua autoria e presidir os atos processuais, previstos os atos pelas autoridades competentes aos DELEGADOS DE POLÍCIA”. Ainda “Na atualidade à Polícia Militar está atribuída à tarefa do Policiamento Ostensivo, com implicações mais elásticas, todavia, conforme a realidade mostra, interferindo na área de prevenção e repressão do delito”
1 MEIRELLES, Amauri e ESPIRITO SANTO, Lúcio Emilio. Teoria da compatibilização eficaz disponível
Conforme exposto no parágrafo quinto do artigo 144 da Constituição Federal2, é incumbência das polícias militares no âmbito dos estados, realizar atividades de polícia ostensiva e a preservação da ordem pública, bem como a vinculação e subordinação, sob a ótica de serem força auxiliar e reserva do Exército Brasileiro. Sendo responsáveis pelas funções de polícia judiciária da Justiça Militar, conforme estampado na legislação especifica (Código Penal Militar e de Processo Penal Militar) tanto no âmbito federal quanto no estadual.
No que se refere a atribuição e competência constitucional da Polícia Judiciária Civil, conforme o parágrafo quarto do artigo 144 da Constituição Federal3, às polícias civis incumbem as funções de polícia judiciária, ressalvada a competência da Polícia Federal, e a apuração de infrações penais, exceto as militares. São dirigidas por delegados de polícia de carreira.
Em relação à hierarquia funcional, tanto a Policia Civil, quanto a Policia Militar, estão subordinadas aos Governadores dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios, ressalvando que caso do Distrito Federal4, onde a competência é União para organizar e manter a Polícia Civil, assim como a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros.
Conforme apontamentos feitos por Vieira (2010), além da atribuição constitucional em relação a polícia judiciaria civil, há o texto expresso no Código de Processo Penal, disciplinador da atuação da polícia judiciária conforme aludido anteriormente, ao tratar do inquérito policial, prescrevendo que:“A polícia judiciária será exercida pelas autoridades policiais no território de suas respectivas circunscrições e terá por fim a apuração das infrações penais e da sua autoria”. (Art. 4º da Lei nº 9.043, de 9.5.1995). Esta competência não exclui outras autoridades do poder de investigar5.
É evidente que as polícias de nível federal podem se enquadrar no gênero polícias civis, dado que não são polícias militares, sujeitas a regime próprio em relação
2 Art. 144 § 5° da Constituição Federal 3 Art. 144 § 4° da Constituição Federal 4 Artt. 21, XIV da Constituição Federal
aos servidores em geral. Resta verificar os regimes constitucionais a que estão sujeitos os militares e policiais, tanto para organização e manutenção dos respectivos órgãos, quanto para se legislar a respeito.
Insta frisar que no dia a dia do sistema policial brasileiro “estas diferenças geram crises entres os órgãos policiais, principalmente entre a Polícia Civil e a Polícia Militar” (LAZZARINI, 2003, p. 83).
Oportuno se faz esclarecer que, apesar das diferentes denominações, as “instituições policiais” acima citadas satisfazem ao exercício de função administrativa, ou seja, todas desempenham função administrativa, de administração pública, dentro de suas respectivas competências previstas em legislação.
Neste viés Lazzarini (2003), nos ensina que, no árduo exercício da manutenção da ordem pública, no aspecto da segurança pública, a polícia atua em três fases quanto ao crime (prevenção, repressão – imediata e mediata – e execução) e três níveis quanto à persecução criminal (polícia de investigação, polícia judiciária e polícia penal).
Por este norte, temos que a prevenção pode ser resultado do patrulhamento ordinário6 é aquela decorrente das ações de manutenção da ordem executadas pela polícia militar, além da prevenção geral proveniente da investigação criminal intentada pela polícia civil, no sentido de permitir a devida responsabilização penal dos infratores.
No cenário existente, podemos dizer que temos uma polícia judiciária, que por seu turno se adstringe a investigar delitos, bem como na indicação de seus autores, e uma polícia militar de caráter preventivo, com o fito de garantir a ordem pública através da “ostensividade”.
Conforme preconiza Amaral (2003) apud Rondon (2012), a expressão polícia civil, é repetitiva, pois a natureza da função policial é eminentemente civil, e neste sentido ao nos remetermos à polícia, per si, nos indicaria a ideia de civilidade.
Ocorre que com a disposição atual, e a coexistência de duas instituições direcionadas pelo legislador como responsáveis pela segurança pública nos estados membros, uma se reveste do caráter militarizado (Policia Militar) a outra por se tratar
6 Segundo a Lei nº 13022 de 08.08.2014, que versa sobre o estatuto das guardas municipais, no Artigo
3º, Inciso III, o patrulhamento preventivo é doravante, também da competência destes órgãos municipais.
de uma instituição não militar, tem contornos de “civil”, gerando a dualidade do sistema atual.
Neste sentido, este cenário exposto não tem se mostrado eficaz ao longo dos anos para a minimização dos índices de violência, que crescem assustadoramente, e permeiam a sensação de insegurança no seio da sociedade.
Segundo dados obtidos em pesquisa7 realizada no âmbito do estado de mato grosso no ano de 2010, entrevistou quatro mil pessoas, tendo como margem de erro 1,5% e um grau de confiança de 97%, e a relação de confiança da sociedade encontra-se estremecida:
Agora com foco na Policia Militar, os sentimentos mais comuns em relação a mesma são de pouca confiança (37,3%) e de confiança suficiente (29,6%), casos extremos aparecem de maneira mais reduzida (17,7%) e confia muito (15,4%). Registra-se, no entanto, que a soma dos que confiam muito ou de maneira suficiente (45%) fica 10% aquém da soma dos demais, confiam pouco e não confiam (55%).
No que tange a percepção dos entrevistados acerca da Polícia Judiciária Civil, encontram-se em patamares parecidos:
Como aconteceu com a avaliação da Polícia Militar, no que se refere a Polícia Civil, os sentimentos mais presentes foram de pouca confiança (37,5%), e de confiança suficiente foi de (32,5%), enquanto as posturas mais extremas contaram com menor porcentagem: confiam nada (16,9%) e confiam muito (13,1%). Não menos importante é registrar que a soma das avaliações negativas (confiam pouco e nada) superam as positivas (confiam suficiente e muito) em aproximadamente 10 pontos percentuais.
Há de se destacar ainda que, em linhas gerais o nível de reciprocidade de confiança entre a sociedade e as instituições policiais estaduais, estão em constante conflito, pois para a sociedade, não há como desassociar o fato de que a origem do aparato policial, se deu, em princípio para servir o estado, e não o cidadão, conforme corroborada na citada pesquisa.
7 Pesquisa de Condições de Vida e Vitimização no Estado de Mato Grosso, realizada em novembro
de 2010, disponível no site: http://www.seguranca.mt.gov.br/estatisticas2.php?IDCategoria=3032, acessado em 18.01.2015.
Segundo Rondon Filho (2012), não podemos desprezar a crise atravessada pela segurança pública:
Sabemos que as instituições policiais (Polícia Militar e Polícia Civil) atravessam, por assim dizer, uma “crise existencial”, e as falhas são, normalmente, justificadas em um arcabouço jurídico concebido como imutável, como se o direito positivo fosse o determinante social e não a sociedade como fonte material daquele. É a síndrome de Polifemo para visualização do problema, o que demonstra uma clara defesa de reserva de poder e resistência à transição paradigmática.
Pelo exposto, não podemos deixar de lado a crise8 existencial que assola as instituições policiais, uma vez que é certeiro que para a mudança do quadro atual de segurança pública, está adstrito de forma umbilical ao caminho a ser seguido pelas instituições policiais, quer seja a integração, quer seja a unificação.
Segundo a revisão feita por Bessa (2011), com o regime militar, a partir do ano de 1964, houve um distanciamento não apenas entre as policias militares e a comunidade, mas também uma dicotomia em a Polícia Civil e a Policia Militar: “O regime militar fez mais do que afastar os policiais militares das comunidades. Criou divisões profundas entre as polícias civis e militares. Razão pela qual passou a existir no Brasil duas grandes ‘meias polícias’”.
Deste modo, entendemos que o modelo atual, tem laços históricos como o período da ditadura militar, e o citado “afastamento” das policias se acentuou no governo militar, contribuindo para o quadro de distanciamento atualmente existente no âmbito das policias estaduais.
É bem verdade que as policiais atuam da forma que estão concebidas constitucionalmente, ou seja, a Policia Militar se restringe a polícia ostensiva e preservação da ordem pública, e a Policia Civil por seu turno trata-se de uma polícia judiciária, e tem como escopo principal a figura do pós-crime, revestindo –se, portanto, do caráter repressivo.
8 Segundo Rondon Filho: A compreensão do fenômeno – crise na segurança pública brasileira –
encontra alguns impedimentos de ordem teórica e política, uma vez que atinente a organizações que disputam poder e contam com aspectos materiais e simbólicos, gerando uma complexidade quase sempre não apreendida pelos analistas. RONDON FILHO, Edson Benedito. Polícias brasileiras: completar ou mitigar o ciclo? In: Revista Unidade, n 72. Porto Alegre: BMRS, 2012.
No que se refere à polícia militar, o Cel PM Zaqueu Barbosa, comandante geral da PMMT, manifestou-se da seguinte forma:
MidiaNews – Então, o senhor diria que, sem uma Política de Segurança Pública, a população nunca terá essa sensação de segurança? Coronel Zaqueu Barbosa – A Polícia Militar, por si só, não resolve os problemas dos índices de criminalidade, porque não se faz Segurança Pública apenas com a Polícia Militar. Quando há essa interação, se você analisar todo o Estado, vai ver a integralização e isso está acontecendo hoje no Estado, a efetividade e eficácia dos resultados no trabalho da Segurança Pública se tornam melhores.9
Ora como muito bem explanado pelo Comandante Geral da PMMT, a Polícia Militar, sozinha não resolve as questões de criminalidade, sendo obrigatório o engajamento de outros atores do estado. Por este caminho é notório que para a melhoria dos resultados, se faz necessário a modernização do quadro atual de segurança pública.
A partir deste cenário de segurança pública exposto, necessário se faz exposição sobre a temática unificação das policias estaduais, procedimento que adotamos a seguir.
9 Entrevista do Comandante Geral da PMMT, vinculada no site: www.midianews.com.br, acessado
3. UNIFICAÇÃO DAS POLÍCIAS ESTADUAIS
A característica deste trabalho, está adstrita a uma constatação evidente, ou seja, a segurança pública está assolada por uma crise, e por este enfoque torna-se extremamente relevante, trazer à baila, a proposta da unificação das policiais estaduais, que tem ganhado uma ênfase maior, de acordo com o período histórico em que o assunto é trazido à tona.
Não temos a pretensão, de trazer uma resposta pronta e tampouco um projeto acabado em cima da temática, embora entendermos ser esta a saída mais viável e plausível para se mudar o atual cenário de segurança pública.
O mapa da segurança pública nos dias atuais, nos mostra duas instituições que buscam e disputam o mesmo espaço, ou seja, cada qual “puxa a sardinha”, para o seu lado, quer seja em nuances de apoio da sociedade, quer seja, pela “sub exploração” dos meios de comunicação, nos mostrando instituições que ao invés de convergirem para o mesmo local, acabam por brigar por um espaço, que dificilmente separadas, chegarão a ocupar.
É bem verdade que, nas duas instituições policiais (civil e militar), os discursos nem sempre são uníssonos acerca da unificação.
Entrementes, no tocante a unificação das policias, há de se destacar e definir o conceito de ciclo completo de polícia, pois a vertente da unificação, passa invariavelmente por este prisma. Neste sentido utilizaremos a definição trazida por Rondon Filho (2012), vejamos:
Assim, temos no ciclo completo de polícia uma única instituição policial realizadora das funções preventivas, através do policiamento ostensivo, e das funções repressivas ou investigativas; o que não acontece em nosso país onde as polícias militares ou rodoviária federal realizam as funções preventivas e as polícias judiciárias civis realizam as funções investigativas ou judiciárias, criando-se mais uma etapa no sistema apuratório de infrações – é o ciclo de polícia secionado – o que pode, em tese, aumentar a taxa de atrito.
Conforme exposto, o ciclo completo de polícia, decorre da existência de uma instituição policial única, capaz de realizar tanto a parte preventiva por meio do dito policiamento ostensivo, como a parte repressiva, pós delito, com o viés investigativo.
A ideia de unificação, seria uma alternativa para de mitigar a denominada
“taxa de atrito”, pois teríamos uma instituição policial uníssona, e com a
reponsabilidade de agir de forma ostensiva e preventiva (Função atual da Polícia Militar) e também com a incumbência de investigação e repressão (Função atual da Polícia Civil).
A revisão feita por Souza Neto (2005), traz o conceito de “taxa de atrito”, como sendo uma consequência da ineficácia do sistema de justiça criminal, no atual cenário de segurança pública, analisemos:
Essas ineficiência e ineficácia do Sistema de Justiça Criminal acabam por privilegiar a impunidade, tornando-se um óbice inconteste ao combate à criminalidade e à violência. Essas ocorrências criminais, intituladas de oficiais porque são do conhecimento do Sistema, mas que não são resolvidas pelo aparato estatal, quer através de um indiciamento, de uma denúncia, de uma condenação ou da prisão, acabam gerando "perdas" no fluxo normal do Sistema de Justiça Criminal, e o maior ou menor grau delas é que vai indicar quão é eficiente o Sistema como um todo. Esse percentual de "perda" é tecnicamente chamado de "taxa de atrito”.
Segundo Rondon (2012), no ano de 2001, durante o congresso nacional dos delegados de polícia realizado na cidade de Rio Quente – GO, elaboraram a Carta de Rio Quente e deliberaram, por unanimidade por uma polícia única e de natureza civil. Deste modo, é cristalino que naquele momento a ideia que permeava, sobretudo no âmbito dos delegados, seria a alternativa da unificação das policiais estaduais, mantendo o caráter civil da função policial.
Em contrapartida, podemos asseverar que naquele período este entendimento não era corroborado pelos oficiais das policiais militares, pois segundo Rondon Filho (2012):
Na mesma linha de raciocínio manifestou-se o Conselho Nacional de Comandantes Gerais das Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares do Brasil em declaração ao povo brasileiro e, em especial, às autoridades responsáveis pela segurança pública do país, editada na carta de Belo Horizonte, em 1999, defendendo a integração de esforços dos órgãos componentes do sistema de segurança pública.
Destacamos ainda o custo elevado, para fazer funcionar duas policiais distintas, com funções constitucionais apartadas, e a notória ineficiência existente na permanência deste sistema dubio, com estruturas operacionais e administrativas paralelas e submetidas a gestões distintas, uma civil e uma militar.
Segundo Bicudo (2000), a segurança pública não pode ser tida como questão única e exclusiva de polícia, entretanto a polícia incumbe uma participação de grande valor, no que chamamos de preservação e manutenção do estado de paz pública. Bicudo (2000), traz à baila o fato de, infelizmente no nosso país, as forças policiais no âmbito dos estados por serem fragmentadas em duas instituições (Civil e Militar), não correspondem as expectativas da sociedade.
Trata-se de um modelo esgotado, e que fora montado, nos anos da ditadura militar, para a segurança do estado, na linha da segurança nacional, segundo o qual quem não é amigo é inimigo e como qual deve ser tratado, linha de atuação que qualificou, naquele período da nossa história, a atuação policial.
Ora por este norte, não há espaço para se falar em polícia cidadã (deriva de constituição cidadã), uma vez que no seio da sociedade contemporânea, não se admite uma instituição policial com esta vertente, hoje acima de tudo, o policial (civil ou militar), antes de mais nada é o primeiro (ou ao menos deveria ser), a ter como bandeira principal a defensa dos direitos humanos,
Assim como é evidente a evolução da sociedade e mesmo a mutação das relações conflituosas, é imprescindível que as forças policiais também sejam atualizadas e não possam coexistir nos dias atuais, com a mesma ótica em que foram concebidas, ou seja, com o fito quase que exclusivo de atender os anseios do estado.
No que se refere a polícia militar Bicudo (2000), aduz:
As policias militares passam, momento em que se interrompe a guerrilha, ao enfrentamento ao crime convencional. Vão desenvolver, então, sua guerra contra o crime, utilizando as mesmas práticas e valendo-se da mesma impunidade. Os métodos e equipamentos utilizados nas operações policiais apagaram a linha de separação que havia entre operações militares e operações policiais. Como as políticas públicas não tem tido condições de encontrar soluções para a criminalidade, o crime é resolvido mediante métodos militares, sob a inteira responsabilidade do aparelho militar central.
Ora, com este raciocínio, concordamos com os argumentos favoráveis a unificação do aparelho policial (civil e militar), pois a manutenção do quadro existente, nos remete a existência da Policia Militar nos dias de hoje, está relacionado com um lastro, resquício do período ditatorial, dando enfoque na característica civil da função policial, muito alicerçado nesta forte associação das policias militares ao regime de governo militar adotado no Brasil, na época do Golpe Militar.
Araújo (2002), defende que a unificação das policiais estaduais tem sido assunto recorrente, como uma alternativa para a evolução do quadro atual, pois versa sobre uma hipótese de modernização da atuação do estado frente a onda de crimes que aterroriza a sociedade. E a existência de uma polícia com gestão única, e restruturada seria suficiente, para mudar o atual contexto da segurança pública no país, teria o viés de otimizar os recursos existentes.
Segundo Araújo (2012), podemos elencar alguns aspectos favoráveis a unificação das forças policiais, dentre eles:
1 – Unidade de direção;
2 – Planejamento estratégico operacional único; 3 – Uniformização dos procedimentos de abordagem; 4 – Unicidade de efetivo empregado na área administrativa; 5 – Serviços de inteligência policial único.
Dentro deste contexto, deduzimos que ao serem colocadas no plano das ações, a unificação poderia (deveria) inclusive, reduzir significativamente os custos (escassos) para a manutenção da estrutura policial estatal.
Com o escopo de enfatizar a temática abordada, traremos à baila dados extraídos de uma pesquisa recente, realizada pelo Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas - CPJA, da Escola de Direito da FGV em São Paulo e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com a SENASP, a qual colheu opiniões de profissionais de segurança pública (onde foram obtidos 21.101 retornos válidos entre 30/06 e 18/07/2014 período de realização da pesquisa), e teve como intento algumas nuances sobre a reforma e modernização da segurança pública, analisemos:
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Opinião dos Policiais Brasileiros sobre Reformas e Modernização da Segurança Pública, Pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas - CPJA, da Escola de Direito da FGV em São Paulo e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com a SENASP, acessado em 15.01.2015.
Gráfico 1: Opinião dos profissionais sobre o modelo atual de polícia
De posse das opiniões obtidas nesta parte da pesquisa, a partir do gráfico nº 1, podemos traçar um breve diagnóstico acerca do que pensam, os servidores de segurança pública, no que tange ao modelo atual de polícia.
0,00% 5,00% 10,00% 15,00% 20,00% 25,00% 30,00% 35,00% 40,00% É preciso reformular o atual modelo de segurança pública do país, aperfeiçoando a gestão como estratégia para aumentar a eficiência
das ações e levando em conta que a prevenção à violência deve se articular a ações não-políticas. O atual modelo de segurança pública no Brasil é adequado e os ajustes devem ser concentrados na obtenção e incremento de novos recursos humanos, materiais e financeiros O atual modelo de segurança pública no
Brasil deve ser amplamente reformulados, pois os problemas do país na área só serão resolvidos com a revisão dos procedimentos e do modo como se organizam as corporações do sistema de segurança. Defendo mudanças no atual modelo de segurança pública, com a adoção maciça
de ferramentas e tecnologias de gestão e de capacitação como instrumentos de enfrentamento dos gargalos e deficiências atuais, e de aumento da eficiência das políticas públicas. 20,56% 8,07% 39,96% 31,42%
E da interpretação dos resultados, sobressai que, se agruparmos os votos obtidos daqueles que defendem uma mudança substancial no atual modelo de segurança pública, somarmos os resultados obtidos a grande maioria dos servidores de segurança pública (20,56%, 39,96% e 31,42%,) são de entendimento que são necessárias reformas de forma substancial do sistema atual adotado no país. Corroborando o discurso daqueles que defendem a unificação das policiais estaduais. Já os que entendem que o modelo atual seja o mais apropriado as nossas realidades correspondem a apenas 8,07% do universo de entrevistados. Destaca-se ainda o fato de que esta minoria, entende que com a manutenção do atual modelo, é imprescindível o incremento em investimentos no setor, nas áreas de recursos humanos, materiais e financeiros.
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Opinião dos Policiais Brasileiros sobre Reformas e Modernização da Segurança Pública, Pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas - CPJA, da Escola de Direito da FGV em São Paulo e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com a SENASP, acessado em 15.01.2015.
Gráfico 2: Opinião dos profissionais sobre o modelo mais adequado a realidade brasileira
Analisando as assertivas constantes no gráfico nº 2, a grosso modo, podemos constatar que a maioria dos entrevistados, se mostra amplamente favoráveis a criação de uma “nova polícia”, com ênfase no caráter civil e com enfoque no ciclo completo de polícia. 27,10% 7,88% 6,51% 3,58% 14,22% 4,96% 21,86% 8,95% 4,95%
Criação de uma nova polícia, de ciclo completo, de caráter civil, com hierarquia e organizada em carreira única.
Criação de uma nova polícia, de ciclo completo, de caráter civil, com hierarquia e organizada em diferentes carreiras
Implantação de polícias com ciclo completo de policiamento, atuando,cada uma delas, de acordo com os tipos de crimes.
Implantação de polícias com ciclo completo de policiamento, atuando,cada uma delas, em uma circunscrição geográfica determinada.
Manutenção do atual modelo de policias estaduais, sem alterações quanto à divisão de atribuições entre polícia militar (ostensiva) e polícia civil (judiciária)
Não tenho opinião formada sobre o assunto
Unificação das Polícias Militares com as Polícias Civis, formando novas policias estaduais integradas(de ciclo completo) e civis.
Unificação das Polícias Militares com as Polícias Civis, formando novas policias estaduais integradas(de ciclo completo) e militares.
Dentre dos itens a serem respondidos pelos entrevistados, há aqueles que, acreditam que a manutenção do contexto atual de segurança pública, seja o mais apropriado, com duas instituições e sem alteração no tocante as atribuições de cada uma, esses, representam apenas, 14,22 % do universo de entrevistados.
Corroborando este contexto, temos em tramite no âmbito do congresso nacional algumas Propostas de Emenda à Constituição, versando sobre a unificação das policias estaduais e desmilitarização do aparato policial, dentre as quais destacamos: PEC nº 430/200910, a PEC nº 102/201111 e a PEC 51/201312.
A grosso modo as PEC’s elencadas estão parecidas, no que se refere a ideia principal, ou seja, sugerem alterações no texto constitucionais, que aquiesçam a vertente de unificação das policias estaduais, atribuindo ao estado
As propostas de desmilitarização da polícia brasileira, estão revestidas de um caráter bastante polêmico, e não gera consenso nem entre as classes de profissionais envolvidos, por hora, temos uma instituição que defende a unificação, em outro momento os papeis de invertem, e quem antes defendia a adoção deste novo modelo, agora se posiciona contrário, talvez resida na polêmica acerca da proposta, o fato de praticamente o congresso nacional, não ter de igual modo chegado a um consenso, dificultando a aprovação desta inovação do aparelho de segurança pública.
10 PEC 430/2009: autor Celso Russomano PP/SP - Altera a Constituição Federal para dispor sobre a
Polícia e Corpos de Bombeiros dos Estados e do Distrito Federal e Territórios, confere atribuições às Guardas Municipais e dá outras providências. Explicação: Cria a nova Polícia do Estado e do Distrito Federal e Territórios, desconstituindo as Polícias Civis e Militares. Desmilitariza os Corpos de Bombeiros Militar que passa a denominar-se: Corpo de Bombeiros do Estado e do Distrito Federal e Territórios, e institui novas carreiras, cargos e estrutura básica.
11 PEC 102/2011: autor Blairo Maggi PR/MT – Altera os art. 144 e 167 da Constituição Federal
permitindo a unificação das polícias estaduais e piso salarial nacional com base na PEC 300
12 PEC 51/2013: autor Lindbergh Farias PT/RJ - Altera os arts. 21, 24 e 144 da Constituição; acrescenta
os arts. 143-A, 144-A e 144-B, reestrutura o modelo de segurança pública a partir da desmilitarização do modelo policial.
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Opinião dos Policiais Brasileiros sobre Reformas e Modernização da Segurança Pública, Pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas - CPJA, da Escola de Direito da FGV em São Paulo e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com a SENASP, acessado em 15.01.2015.
Gráfico 3: Opinião dos profissionais sobre as formas de desmilitarização das polícias.
Em relação ao gráfico nº 3, evidenciamos quais as percepções dos servidores de segurança pública, sob a ótica de como se daria as formas de desmilitarização das polícias, e dentre o leque de perguntas respondidas, proporcionalmente, a que ganha maiores contornos, se trata daquela que versa sobre a modernização dos regimentos disciplinares, de modo a adequá-los, a Constituição Federal de 1988, pois dos entrevistados 83,2 % acreditam que está modernização de regimentos e códigos
4,1 3,8 1,9 1,9 1,6 2,0 2,9 5,5 3,9 3,6 9,5 12,3 10,5 10,8 2,7 1,1 4,5 7,4 5,0 28,4 43,4 38,2 42,0 8,6 2,3 16,3 25,2 23,8 20,6 26,1 29,7 28,6 17,4 10,5 15,5 17,9 63,5 37,7 16,4 19,7 17,0 69,3 83,2 58,3 45,7 - 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 80,0 90,0 Reorientar o foco do trabalho das polícias militares
para proteção do direitos de cidadania Extinção dos Inquéritos policiais militares Vedação de punições administrativas e disciplinares
Redução dos mecanismos internos de controle (corregedorias, comissões de justificção, de diciplina,
entre outras)
Eliminação de hierarquias Regulamentação do direito à sindicalização e de
greve dos policiais militares
Modernizção dos regimentos e códigos disciplinares de modo a adequá-los à CF de 1988 Retirar as polícias militares e os corpos de bombeiros
militares como forças auxiliares do exército (subordinação e fim da inspetoria e PMs
Fim da justiça militar para as polícias militares
Concordo totalmente Concordo em parte Discordo totalmente Discordo em parte Não sei
disciplinares é de fundamental importância. Neste sentido abrimos um parêntese, pois os regimentos disciplinares das policiais militares, guardam uma relação umbilical com os regimentos disciplinares do exército de onde teriam sido originados, durante o período do governo militar, motivo pelo qual existe um vasto número de itens que, por seu turno não teriam sido recepcionados pela nossa constituição da república, o que os torna inconstitucionais13.
Outro aspecto constante neste gráfico que carece ser debatido, trata-se do número considerável de servidores de segurança pública, que defendem o direito a sindicalização e greve, em torno de 69,3% dos entrevistados. A ausência deste direito constitui uma afronta aos direitos trabalhistas conquistados ao longo dos anos pelo trabalhador brasileiro, e por mais que seja uma vedação constitucional, os servidores em sua maioria, entendem que tal direito deveria ser regulamentado, o que acarretaria, a nosso ver, uma maior representatividade, e um aumento no poder de negociação com o poder público.
O redirecionamento do trabalho policial (Policia Militar), com o foco voltados para a proteção dos direitos e cidadania, vem em seguida com o número expressivo de 63,5 % dos entrevistados. Ou seja, os servidores de segurança pública, reconhecem de forma intrínseca, que o modelo atual de se fazer segurança pública, não está direcionado para a vertente de proteção dos direitos e da cidadania, o que vai de encontro com o que a sociedade espera dos responsáveis pelo serviço de segurança pública no país.
No que concerne ao serviço de correção e controle da atividade policial, entre os entrevistados, aqueles que preconizam a manutenção do controle interno por meio corregedorias, comissões de justificação e disciplina, representam 38,2% dos entrevistados, o que nos remete a assegurar que na visão dos servidores, o serviço de controle da atividade policial, necessita ser fortalecido e não mitigado.
13 Decreto Lei nº 1329 de 21 de Abril de 1978 traz alguns itens inconstitucionais, no anexo de
transgressões tais como: itens 1 - Faltar à verdade, 18 - Não cumprir ordem recebida, 38 - Recorrer ao judiciário sem antes esgotar todos os recursos administrativos, 42 - Portar-se sem compostura em lugar público, 43 - Frequentar lugares incompatíveis com seu nível social e o decoro da classe.
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Opinião dos Policiais Brasileiros sobre Reformas e Modernização da Segurança Pública, Pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas - CPJA, da Escola de Direito da FGV em São Paulo e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com a SENASP, acessado em 15.01.2015
Gráfico 4: Hierarquia e disciplina nas polícias
No tocante a hierarquia nas policias para 86,2% dos entrevistados, os profissionais de segurança pública devem ser organizados em estruturas hierárquicas e de gestão mais eficientes. Sendo que para 80,1% existe um rigor excessivo em questões internas às corporações policiais e pouco rigor em questões que afetam a segurança pública. 3,8 3,3 5,7 5,4 3,9 3,8 5,3 3,4 9,9 10,5 76,9 75,9 16 37,9 53,4 77,2 86,3 86,2 17,3 18,7 80,1 58,3 41,3 19,4 0 20 40 60 80 100
Profissionais de segurança pública precisam focar mais no resultado e menos nos aspectos
burocráticos-formais
Profissionais de segurança pública devem ser organizados em estruturas hierárquicas e de gestão
mais eficientes
Hierarquia e disciplina rigorosas tornam desnecessário o controle externo da atividade de
segurança? (por exemplo, as ouvidorias) Hierarquia e disciplina rigorosas tornam desnecessário o controle interno da atividade de
segurança? (por exemplo, as corregedorias) Há muito rigor em questões internas às corporações
policiais e pouco rigor em questões que afetam a segurança pública
A hierarquia nas polícias e demais forças de segurança provocam desrespeito e injustiças
profissionas
Polícias militares devem ser julgados pela justiça militar
As polícias militares e os corpos de bombeiros militares devem ser subordinadas ao exército, como
forças auxiliares, e devem se organizar de modo semelhante ao exército
Concordo Discordo Não sei
Acerca do Modelo de Organização, denota-se que 62,2% dos entrevistados acreditam que as carreiras dos policiais não são adequadas do modo como estão organizadas. Já 8% dos entrevistados acreditam que o modelo atual de segurança pública é adequado, e para nossa surpresa, nada menos que 80,9 % dos entrevistados acreditam que as policias deveriam der organizadas em carreira única.
Já para 86 % dos entrevistados, o foco do trabalho policial deve ser o resultado, e menos burocracia ao passo que 58, 3% acreditam que a hierarquia nas policiais e demais forças de segurança pública, provoca desrespeito e injustiças aos profissionais.
No viés da desmilitarização das policias, 73,7 % apoiam a desvinculação ao exército, sendo que levarmos em consideração a opinião dos policiais militares este patamar se eleva a 76,1 % os que apoiam esta medida.
Para o 86,7 % do universo de entrevistados defendem a regulamentação ao direito de greve, para os servidores das policias militares. E nada menos que 87,3% dos entrevistados, o foco do trabalho das policias militares, deveria ser orientado para proteção dos direitos de cidadania, enfatizamos ainda que 59,6 % dos entrevistados já foram humilhados ou desrespeitados por superiores hierárquicos.
A citação desta pesquisa, não é aleatória, pois para o entendimento e concepção de um novo modelo, nada mais salutar do ouvir quem integra o sistema de segurança pública no âmbito nacional.
Dos resultados colhidos a partir de alguns dados descritos acima, enfatizamos que o universo da pesquisa esteve restrito a 21.101 retornos válidos entre 30/06 e 18/07/2014, período de realização da pesquisa14. Assim sendo tratou-se de uma espécie de censo, onde conforme extraído do próprio endereço eletrônico onde a pesquisa foi vinculada:
Por se tratar de consulta censitária, os resultados não podem ser diretamente expandidos para o universo de policiais brasileiros. Trata-se de uma amostra não probabilística e que deve ser matizada e contextualizada qualitativamente. Desse modo, não obstante tecnicamente os dados não se constituírem em um retrato exato das opiniões de todos os policiais brasileiros, eles nos autorizam algumas análises e hipóteses exploratórias sobre reformas das polícias no Brasil e incentivam a participação destes profissionais na definição dos rumos de suas instituições.
14 Pesquisa realizada pelo centro de pesquisas jurídicas aplicadas – CPJA, da escola de direito da FGV
em São Paulo e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em pareceria SENASP, disponível em: http://www.seguranca.mt.gov.br/estatisticas2.php?IDCategoria=3032, acessado em 18.01.2015
Uma vez realizadas estas considerações passaremos, em um segundo momento a fazer uma interpretação, de forma contextualizada, acerca de o que o agente público de segurança, opina sobre a temática abordada neste trabalho acadêmico.
Inicialmente no que se refere a modernização do sistema de segurança pública, os agentes de segurança pública, possuem um entendimento maioritário (62,2%), que a segurança pública da forma como está atualmente concebida, sobretudo na questão organizacional, não estão adequadas. Ou seja, os profissionais que atuam na área, constataram que o modelo atual é ineficiente.
Ainda neste aspecto, salta aos olhos na pesquisa que no universo de entrevistados a maioria significativa (80,9%) dos servidores de segurança pública, corroboram do entendimento que as policias deveriam ser organizadas em carreira única.
Destacamos ainda o fato de que uma parcela considerável dos servidores de segurança pública (58, 3%) enfatizou que a hierarquia nas polícias e demais forças de segurança pública, provoca desrespeito e injustiças aos profissionais. Aqui o que impressiona é a divergência que se dá na forma em que o servidor necessita ser “defensor” dos direitos da cidadania, e a discrepância da forma em que este mesmo servidor é tratado na sua instituição.
Embora tais apontamentos sejam interessantes para se traçar uma espécie de “diagnóstico” do modelo atual sob a ótica do servidor, a parte que mais nos chama a atenção na presente pesquisa, são os questionamentos feitos acerca da desmilitarização da polícia, e por este ponto de vista entendemos que do universo de servidores entrevistados um total de 73,7 % se mostram favoráveis a desvinculação da força policial ao exército, sendo que este número salta para 76,1 %, se considerarmos apenas os policiais militares entrevistados. Neste diapasão, é evidente o total descontentamento dos integrantes dos órgãos de segurança pública, mesmo no seio dos servidores civis (que em tese, seriam os mais indiferentes ao sistema militar). E os próprios militares (que segundo alguns teóricos, seria contrários a desmilitarização), aderem de forma majoritária o fim da militarização da força policial.
Um fator que pode ter contribuído para este ambiente favorável a desmilitarização, quer seja dos servidores civis e militares, pode ser tido o fato de 59,6 % dos entrevistados já terem sofrido alguma espécie de humilhação ou mesmo desrespeito por parte de seus “superiores hierárquicos”.
Outro aspecto que carece ser debatido, se trata da opinião dos servidores de segurança pública no que se refere ao modelo mais adequado de segurança pública mais adequado a realidade brasileira, conforme dados obtidos na pesquisa:
Segundo Luís Flavio Sapori15 (2013), acerca da questão integração das policiais estaduais, é importante frisar que em relação aos subsídios, é cristalino que a remuneração média no âmbito nacional de um policial civil em inicio carreira é consideravelmente maior a remuneração inicial bruta de um policial militar, quer seja analisado o subsidio de um delegado iniciante na carreira com um tenente da PM, quer seja comparado o subsidio de um Agente de Policia Civil com um Soldado da PM;
No que diz respeito à remuneração, a principal evidência é a de que a média nacional da remuneração inicial bruta dos policiais civis é superior à média da remuneração inicial bruta dos policiais militares. Um Delegado em início de carreira recebe aproximadamente R$ 10.500 por mês, ao passo que um Tenente da Polícia Militar recebe aproximadamente R$ 6.500 por mês. A mesma discrepância é observada na média da remuneração do Agente de Polícia, no patamar de R$ 3.200 mês, comparativamente à do Soldado, no patamar de R$ 2.600 mês.
Ainda segundo Sapori (2013), a discrepância constatada pelo levantamento destes dados é fato problemático, pois compõe um impedimento á relação das polícias nos diversos estados. Os litígios das instituições atinente as carreiras policiais tornam-se prioridade nas relações instituições-governo, indicando muitas disparidades nos subsídios entre as instituições policiais, bem como no seio de cada corporação policial, contribuindo pera acentuar as relações intra-instituições, o que vem afetando a eficiência no controle do crime.
A discussão acerca da modernização do sistema de segurança pública adotado no Brasil, já é bem antigo, pois:
15 Membro do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Coordenador
do Centro de Pesquisas em Segurança Pública (CEPESP) da PUC Minas, Publicado na 7ªEdição do anuário brasileiro de segurança Pública, 2013, pag. 80.
O sistema policial brasileiro é arcaico, adotado somente em alguns países subdesenvolvidos. “É incompreensível uma polícia militarizada com a obrigação de ser, ao mesmo tempo, militar, policial, guarda de trânsito e subordinada ao Exército e ao Governo do Estado”. (Paulo P. Silva, “O Globo”, 26 Mai 85), apud (Meirelles e Espirito Santo, 2011).
Como se vê, este cenário se arrasta desde antes do advento da promulgação da CF/1988, nos indicando a existência da crise que atravessa o sistema de segurança pública no país.
Conforme Orlando Fernandes de Oliveira, apud Meireles16 e Espírito Santo (2011):
Outros vão mais longe e, referindo-se à realidade do Estado em que vivem, afirmam: “Polícia Militar é resquício do “Pequeno Exército Paulista”, de que fala Dalmo de Abreu Dalari em seu opúsculo de idêntico nome e a respeito do qual o Suplemento de “O Estado” publicou, há tempos, uma resenha. Exército que tal é coisa do passado, de um passado remoto, irreversível, uma página virada no livro da História de São Paulo”.
A partir destes apontamentos, sobressai a ideia contundente de que o modelo atual de coexistência de duas instituições de segurança pública, está ultrapassado, e apenas é utilizado em países subdesenvolvidos, pois a diretriz do serviço policial, permeia de forma robusta pela defesa da cidadania e defesa dos direitos humanos.
16MEIRELLES, Amauri e ESPIRITO SANTO, Lúcio Emilio. Teoria da compatibilização eficaz disponível em www.pm.mt.gov.br.bibliotecadigital, acesso em 25.01.2015)
3.1 VANTAGENS DA UNIFICAÇÃO
O cerne da questão, segundo os que defendem a unificação das policias estaduais com veemência, esta adstrito ao de que a segurança publica por sua natureza complexa e transversal, não pode ser tratada como o viés militar, mas sim de natureza estritamente civil.
A duplicidade do modelo policial no âmbito do estado, gera uma dicotomia no que tange ao atendimento de ocorrências policiais, sendo necessário o acionamento de duas instituições públicas para o atendimento da mesma ocorrência.
Diante do que fora apresentado, a questão da unificação das policiais estaduais passa obrigatoriamente por alterações de alguns dispositivos da constituição federal, e a partir dessa eventual reforma, brotariam alguns avanços interessantes, por este caminho Silva Filho (2010), apud Rondon Filho (2012) enumera algumas justificativas para a unificação das policiais estaduais, vejamos:
a) Surgimento de uma carreira policial única, onde os integrantes da instituição seriam submetidos a um único certame público, devendo contemplar a formação de bacharelado em direito.
b) Orçamento anual unificado, com possibilidades de ganho reais de ganho neste orçamento, pois existiria uma única instituição policial no estado.
c) Fortalecimento do policiamento comunitário, pois a sociedade teria o denominado ciclo completo de polícia a seu alcance, quer seja na faceta ostensiva ou na investigativa.
d) Canal unificado de recebimento de denúncias, gerando um maior grau de confiabilidade neste serviço, que é de fundamental relevância para o trato com a segurança pública.
e) Controle unificado de ocorrências policiais, pois as ocorrências seriam geradas por uma única instituição, que seria responsável, desde o isolamento do local de crime, até a instrução do inquérito policial.
f) Fim do atrito existente entre as policias militares e civil, pois a partir de então, integraria a única instituição policial do estado.
g) Fortalecer a idéia de que o secretário de segurança pública, fosse um policial de carreira da polícia estadual, conhecedor dos problemas e desafios da instituição policial.
É bem verdade que, as proposituras aqui dispostas, poderia gerar algum descontentamento por categorias de uma ou outra instituição, embora seja oportuno reforçar a evidente supremacia do interesse público que norteia esta pesquisa acadêmica.
A questão da unificação das policias poderia nos oportunizar um ganho, no que tange ao reconhecimento da sociedade, uma vez que os resultados obtidos, seria fruto do trabalho de uma única instituição policial.
Uma questão recorrente acerca da unificação seria a questão do controle externo na atividade policial, o que poderia contribuir consideravelmente para a dissipação da “ideia de corporativismo” amplamente explorado pela mídia, que permeia as duas instituições, corroborando para uma melhor aprovação social do trabalho da polícia, denotando a grosso modo, para o cidadão que em casos de desvios de conduta, serão apurados, por um órgão independente e autônomo, e não por integrantes das próprias instituições, como ocorre, na conjuntura atual.
3.2 DESVANTAGENS DA UNIFICAÇÃO
No que se refere aos aspectos negativos que envolvem a temática, temos que inicialmente, registrar a vital necessidade de alteração do texto constitucional, o que certamente já pode ser tido como uma questão negativa, pois para qualquer mudança, incorreria obrigatoriamente, em alteração do texto constitucional, o que convenhamos, por não se tratar de um assunto já pacificado, decorria um lastro temporal considerável.
Segundo Bastos (1999, p.9/10) apud Rondon Filho (2012) os aspectos negativos que envolvem a unificação das policias residem em:
a) Ataca os que defendem a unificação, a quem chama de “ideólogos do caos”, dizendo que estes alimentam “a doce ilusão de que soluções encontradas nos Estados Unidos e nos países da Europa são aplicáveis no Brasil;
b) Reporta à diferença cultural entre o Brasil e a Europa, a qual retrata como sendo “constituída por países de povos e culturas milenares, totalmente diferente da formação do povo e da cultura brasileira;
c) Possível sindicalização de 500 mil policiais militares (desmilitarizados) com aumento do poder aos sindicatos em contraposição a uma suposta diminuição
de poder dos Governadores, “pela retirada de uma força operativa a serviço da cidadania, que a qualquer momento poderá ser usada, também na defesa do Estado”.
d) Alega que a desmilitarização enfraquecerá a defesa da ordem pública, ocorrendo uma redução do poder de defesa interna e externa e que a quebra do vínculo hierarquia e disciplina é uma grave ameaça às corporações militares.
e) Bastos se refere a esta ideia como sendo desprovida de fundamentação lógica e considera impossível unir instituições heterogêneas.
f) As atividades das polícias civis e militares são incompatíveis (no seu ponto de vista), uma vez que o policiamento ostensivo exige homens uniformizados e a atividade de polícia judiciária exige pessoal e viaturas descaracterizadas.
g) A desconstitucionalização dos órgãos que compõem o Sistema de Segurança Pública é visto por Bastos como uma verdadeira “torre de babel”, pois favorecerá “surgimento de diretrizes e doutrinas diferentes, o que dificultará o relacionamento das polícias dos Estados vizinhos”, além de “desobrigar o Governo Federal das questões da Segurança Pública, transferindo as responsabilidades para os Estados e para os Municípios”.
Na mesma linha, porém mais comedido em seus argumentos Cardoso (1999, p. 32/33), apud Rondon Filho (2012):
h) É contrário à unificação invocando o profissionalismo dos policiais militares e consequente eficiência;
i) Também, na visão de que “a comunidade dificilmente apoiará uma mudança na Polícia que apague dos estatutos policiais o regime militar”.
A discussão sobre a segurança pública necessita de envolvimento de vários seguimentos da sociedade, e por este prisma, a chegada a um consenso, e assim sendo, esperar em uma pacificação durante o tramite nas casas de leis da federação (Câmara dos Deputados e Senado Federal), pode ser tida como pouco provável.
É certo que as instituições policiais, tanto a Policia Militar quanto a Policia Civil, são revestidas de um viés histórico admirável, uma vez que se tratam de organizações centenárias, e com o advento de uma polícia única, esta historicidade, poderia ser mitigada e ficaria em um segundo plano, frente a nova instituição policial. Atualmente as instituições que compõe o ciclo de enfrentamento a violência, (especialmente a Policia Civil e Policia Militar) tem se concentrado suas forças, efetivo e recursos no embate a violência de forma direta e reativa, não atuando nas nuances
que envolvem a segurança pública como um todo (Serviço Social, Educação, Saúde, Emprego, Habitação) e o melhoramento do contexto de segurança, passa por questões que nem sempre são correlatos a área de segurança (conforme citado acima), e a criação de uma nova polícia, poderia “levar a crer” que esta seria, por si só seria a “tabua de salvação” do cenário atual, o que por questões obvias, não podemos concordar.
Os defensores do manutenção do atual modelo, preconizam que, a integração das ações policiais civil e militar, com um aumento de recursos pelos gestores públicos, seria fundamental para que as instituições possam ter a oportunidade de mostrar seu valor, e diante do que dentro dos parâmetros atuais as forças policiais já fazem muito, frente aos parcos recursos dispensados pelo governo, e em uma evolução natural, após a tentativa de integração das forças policiais, e o citado aumento de investimento, em não sendo suficientes para a mudança do atual quadro de segurança pública, a partir de então, serem analisadas com uma maior criticidade e discussão junto com a sociedade, a questão da unificação, e em sendo está a saída, que a questão da unificação seja praticada de forma gradativa e planejada, não de forma abrupta.