Os escravos da antiga Comarca de
Ribeirão Preto
Carlo Guimarães Monti
Carlo Guimarães Monti
Doutor em História e Cultura Social pela Universidade Estadual Paulista — FCHC-UNESP/Franca; Mes-tre em História Social pela Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), graduado em História pela Univer-sidade Federal de Ouro Preto (1994). Professor Adjunto do Centro Universitário Barão de Mauá, em Ri-beirão Preto (SP), desde 1996; coordenador da Especialização em História, Cultura e Sociedade desde 2002. Pesquisa escravidão e economia nos séculos XVIII e XIX. Atua na produção de material didático, com foco em metodologia, trabalha com programa de aperfeiçoamento de professores. Desenvolveu pesquisas em que foi bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), do CNPq e da CAPES. Trabalha nas graduações de História, Serviço Social e Jornalismo.
1 — Os aspectos históricos e as fontes primárias1
O trabalho ora apresentado tem por intuito estudar o conjunto de es-cravos pertencentes à vila/cidade de São Simão, quando era essa a cabeça de sede da atual cidade de Ribeirão Preto. A historiografia tem como certo que parte dos ocupantes iniciais do nordeste paulista passaram ou tiveram negócios em São Simão antes de chegar a então terra apossada por José Dias Campos, na primeira década dos oitocentos, que se tornou a vila de São Sebastião do Ribeirão Preto. Por isso, a necessidade de verificarmos os padrões escravistas vigentes na época para melhor entendermos a história da escravidão na atual região de Ribeirão Preto2.
O arraial de São Simão pertencia à câmara de Mogi-Mirim e à Província de São Paulo até 1842, quando sendo elevada a freguesia de São Simão passou ao comando do município de Casa Branca3. O surgimento do arraial, que teve vez
ainda no século XVIII, na mesma época da entrada do caminho de “Goyases”, sendo essa estrada a que levava às minas de Goiás, iniciando em Mogi-Mirim, cortava os municípios atuais de Mogi Guaçu, Casa Branca, Tambaú, Cajuru,
Alti-1 Esta pesquisa foi realizada para o ciclo de palestras A cidade como fonte de pesquisa II, promovido pela Seção de Atividades Culturais/PCARP/USP e pelo Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto, em 4 de junho de 2002. A atual versão incorporou alguns dados de trabalhos produzidos posterior-mente a 2002.
2 PINTO, Luciana Suarez Galvão. Um estudo sobre a composição da riqueza em Ribeirão Preto com base
nos inventários post-mortem (1866-1888). 2002. (Cópia eletrônica de trabalho inédito). “Segundo
Wanderley dos Santos, José Dias Campos era português e, juntamente com seus filhos, apossou-se das terras em questão no ano de 1811. Sua família promoveu a abertura de estradas ligando a fazenda com as freguesias de Batatais e Casa Branca, via São Simão, com porto no rio Pardo.” (p. 3).
nópolis, Batatais, Patrocínio Paulista, Franca, Ituverava, Igarapava, até chegar ao Rio Grande4.
Acredita-se que em Casa Branca parte de uma bandeira decidiu não mais continuar com a viagem para Goiás e instalou-se nas terras além. Os res-ponsáveis pela empreitada em novas terras eram Simão da Silva Teixeira e seu ir-mão que posteriormente formaram o primeiro patrimônio. Inicialmente, os irir-mãos plantavam e criavam gado para ser comercializado na freguesia de Casa Branca, assim dando origem a São Simão que foi elevado a município em 18655.
O período ora estudado nessa pesquisa data da época anterior e pos-terior à elevação da Vila à categoria de município, ocasião a partir da qual pelo funcionamento da Câmara temos o início da escritura dos registros locais.
O conjunto documental no qual acessamos as informações que serão trabalhadas compreendem os inventários post-mortem (relação dos bens de um falecido) e matrículas de escravos (em 1872, todos escravos e suas informações eram relacionados nessa lista que podia vir junto com os inventários). O primeiro conjunto documental contém informações acerca dos plantéis (conjunto dos es-cravos de um proprietário), dos senhores e suas posses; enquanto o segundo cita informações mais específicas acerca dos cativos.
Os dados utilizados nesta pesquisa foram extraídos de 89 inventários, sendo 46% deles com listas de matrícula, entre os anos de 1861 e 1887. Os in-ventários escolhidos, ao longo desses 26 anos, que serão abordados são aqueles que possuíam escravos, de um total de 217 existentes no fórum da cidade de São Simão utilizamos 41%, ou seja, essa era a quantidade de senhores que faleceram no período e que possuíam cativos6. Um total de 917 escravos compunha os que
4 CHIACHIRI FILHO, J. Do Sertão do Rio Pardo à Vila de Franca do Imperador. Rib. Preto: Ribeira, 1982. 5 OLIVEIRA, Fausto Pires de. Elementos para a História de São Simão. São Paulo, 1975. “Com a intensificação da circulação de tropas e pessoas nesse trajeto, aos interesses dos particulares em auferir lucros com o fornecimento de abrigo e mantimentos aos viajantes juntaram-se as preocupa-ções da coroa em facilitar, de forma controlada, as vias de acesso ao ouro. Uma série de sesmarias foram solicitadas nesse trajeto, tendo como justificativa a instalação de pousos para a comodidade dos viajantes e aumento do real dízimo”, Brioschi (1999, p. 47). Retirado de PINTO, Luciana Soarez Galvão. Op. cit. p. 2.
6 OLIVEIRA, L. de O. Economia e História. Franca — século XIX. Franca: UNESP, 1997. (Série História Local, 7). Para Franca, tivemos um trabalho realizado com a mesma base de fontes, no qual 53,3% dos inventários consultados tinham escravos no período de 1875-1885; para período anterior, 1822-1830 somente 3,2% dos senhores não possuíam cativos. Ao que parece, em São Simão a propriedade cativa esteve concentrada.
estavam sujeitos a um senhor compreendendo cerca de 10 escravos possuídos por proprietário, média essa, até que alta para uma área ainda não inserida numa atividade econômica de grande porte7.
A maior parte dos dados que possuímos são referentes aos anos entre 1871 e 1880 que concentram 62,3% das informações. Os anos iniciais 1761 a 1870 somaram 17,3%, enquanto que o período final 1881 a 1887 representaram 19,4%. No geral, a base do que será aqui indicado vai estar referendando os anos intermediários. A queda de 40% nos dados do segundo para o terceiro período é uma provável decorrência dos anos finais da escravidão nos quais o sistema já dava sinais claros de exaustão, assim como, o fato de ter sido efetivamente o ano de 1874, o momento em que o município de Ribeirão Preto foi apartado do de São Simão, assim separando os plantéis. Quanto ao tacanho número de cativos no primeiro período, acreditamos ser resultante de uma economia, ainda, totalmente voltada para o mercado local, coisa esta que muda com a chegada do café nos idos de 1971.
Ao passo que temos 217 inventários registrados para São Simão até 1887, para Ribeirão Preto temos 183, desses somente 8% são anteriores a 1875, após essa data podemos notar um crescimento dos inventários para 30% sobre o montante geral entre os anos de 1875 e 1879. Com isso, é possível indicarmos que até o ano de 1875 quase todos os inventários ainda continuavam a serem lançados em São Simão. Posteriormente a essa data é que uma parte desses do-cumentos passaram a ser registrados em Ribeirão Preto. São Simão não estava sofrendo um processo de migração populacional e, sim, uma fragmentação de seu território que na prática vai ocorrendo paulatinamente permitindo-nos a obten-ção de muitas informações do conjunto cativo que demora a ter os seus dados lançados noutro município.
7 MARCONDES, R. L. A propriedade escrava no Vale do Paraíba Paulista durante a década de 1870. Texto para discussão. Série Economia. São Paulo: FEA/USP-Ribeirão Preto, 2000, 30p. (mimeografa-do). Esse trabalho lança informações de quatro cidades. Decidimos utilizar somente duas: Bananal e Lorena. A média em Bananal foi de 15,2%, cidade do Vale do Paraíba, produtora de café. OLIVEIRA, L. L. de. Op. cit. Para Franca, tivemos 5,3%, local onde a economia era baseada na criação de gado e agricultura de subsistência. Podemos perceber que São Simão tem um padrão de posse de cativos intermediário se comparado as duas regiões anteriormente estudadas, no entanto demonstrando que os cativos tinham importância produtiva no local, tal afirmação está apoiada na quantidade de es-cravos por senhor.
2 — Os proprietários
Alguns pontos acerca dos senhores de escravos devem ser indicados para melhor podermos analisar a massa cativa.
A quantidade de senhores e senhoras que nos deixaram documentos foi bastante próxima, com ligeira vantagem para os 48 proprietários contra 41 senhoras.
Sendo assim, os homens concentraram 59% dos cativos. Na divisão do sexo de seus escravos não há muita diferença, as mulheres possuíam um pouco mais de homens em seus plantéis. Por sua vez, os senhores possuíam uma quantidade bastante próxima de escravas e escravos, caso esse curioso por não demonstrar uma maior quantidade de homens como ocorre em outras regiões como no Vale do Paraíba Paulista, região de grande produção agrícola voltada para o mercado.
Quanto à atividade econômica, conseguimos verificar o ramo de atu-ação de cerca de 60% dos inventariados. Do total identificado, temos 31% dos meios de produção voltados para a agricultura, desses 80% indicaram a presença do cultivo do café, além da cana-de-açúcar e algodão. Outra atividade bastante praticada foi a pecuária indicada em 21% dos inventários, agricultura e pecuária estiveram juntas como principais atividades em 6% dos casos. Se diferenciarmos os sexos em função da atividade econômica, notaremos que as senhoras estavam mais envoltas pela agricultura do café e pela pecuária.
Uma grande gama de documentos denotava simplesmente a presença de fazendas não nos permitindo maiores percepções, em 48% das vezes só a posse da propriedade foi indicada. Os sitiantes pouco foram indicados nos inventários, uma evidência da concentração da terra em São Simão, ou do caráter da fonte uti-lizada, pois pessoas não abastadas tinham pouco a patentear em um inventário, por sua vez, temos a demonstração do pequeno valor das terras no período, entre as quais somente as grandes propriedades compunham monta.
Nos documentos estudados, sobressai o início da divisão das fazendas, que em época ainda não tinham sido fragmentadas. Uma boa parcela dos inven-tários nos informou o local de moradia dos inventariantes. Como não podia deixar de ser, 65% moravam na própria cidade ou em fazendas do município. A área de
Ribeirão Preto era o local de moradia de 33% dos senhores, também Casa Branca, Araraquara e São Carlos foram indicadas.
Mulheres contribuíram com inventários em maior quantidade nos anos iniciais do estudo. Os seus plantéis ficavam acima dos cinco escravos; após 1878, a maior parte das informações são dadas pelos inventários dos homens, momento em que seus plantéis são os maiores.
Os senhores estavam com a maior parte dos seus escravos alocados em plantéis de 11 a 30 cativos. Já as senhoras tinham 44% seus cativos em plantéis de até 5 pessoas, também superam os homens na categoria de 6 a 10 elementos. Nas outras categorias de posse, os proprietários as superavam. Um único senhor possuía uma grande quantidade de mão de obra cativa, era José Bento Nogueira com seus 43 cativos, dono da Fazenda Cangueira do Campo em Ribeirão Preto8.
É provável que a menor quantidade de cativos das senhoras deva-se ao fato do cabedal dessas demonstrar-se posterior a divisão de bens ocorrida com a morte de seus maridos.
Tabela 1 Monte-Mor por valor
Ver: Fontes manuscritas São Simão, Cajuru, ver SOUZA, Jéferson Mateus de. 2004. 30 fls. Estrutura econômica e escravidão em Cajuru: 1864-1888. Trabalho de Conclusão do Curso de História Licenciatura Plena — Centro Universitário Barão de Mauá, Ribeirão Preto.
Uma última tentativa de análise da condição econômica dos proprietá-rios de escravos em São Simão pode ser conseguida através do monte-mor (valor final dos bens de um inventariante). Ao todo, 73% dos documentos nos legaram tal valor que pode ser acompanhado na Tabela 1.
Inicialmente, devemos salientar que entre o período de 1851-1887, a inflação existente ficou ao redor dos 70%. Tamanho montante inflacionário traz distúrbios acerca de qualquer análise de valores no decorrer dos anos, todavia utilizaremos o monte-mor como uma forma a mais de referência da condição econômica e não como a única referência.
Com os dados da Tabela 1, é possível deduzirmos o significativo
pa-drão de acúmulo demonstrado pelos inventariantes estudados, para além da mé-dia geral de 10 escravos por senhor. No que diz respeito aos montes, temos a maior parcela acima dos dois mil contos de réis e uma pequena parcela de senhores que possuía bens até os quinhentos réis. A comparação desses valores aos de outras regiões evidencia o abastado padrão local. Para Franca, Lélio de Oliveira estudou os inventários entre 1875-1885 (anos em que, assim como os seguidos por nós, sofreram com a inflação), e levantou que em 9,2% dos inven-tariantes de lá, o monte chegou até 1.000$0009. Em uma outra categoria, entre
1 e 2 contos, cerca de 26,2% da riqueza dos senhores ia até esse patamar, com isto, temos que 35,4% dos senhores estudados possuíam bens que não passavam dos 2.000$000. Enquanto que em Cajuru temos também 35% dos inventariantes nesta faixa. No caso do grupo estudado por nós, somente 7,7% encontravam-se até essa categoria.
Em uma série intermediária de acúmulo dos bens entre os dois mil e os dez mil contos de réis, tivemos para Franca 38,3% dos montes, já São Simão concentrou no grupo entre os 2.000$000 e os 14.999$000, um total de 35,4% dos inventariantes, ou seja, nessa divisão intermediária, os senhores e senhoras estudados mantêm um padrão próximo ao de Franca. A comparação com Cajuru, mais uma vez, demonstra a baixa concentração de renda nessa cidade.
É acima dos 15.000$000, que a maior diferença apresentou-se, tendo em vista os 56,9% representados pelos bens dos que estudamos estavam neste
patamar, enquanto somente 26,2% dos que foram estudados em Franca somavam tal valor e 21%, no caso de Cajuru.
O que fica manifesto neste esforço de análise do padrão de riqueza dos inventariantes da área estudada é que ocorreu um acúmulo significativo de riquezas, demonstrado pelo padrão geral de posses de cativos e pelo valor dos montes. Mesmo sabendo que os bens avaliados em inventários resultam do acú-mulo de uma vida ou de gerações, vamos tentar relacionar esses dados com o da produção local.
Notamos que 30% dos inventariados já cultivavam o café. Em 1878, Ana Gabriela Nogueira possuía 20.000 pés de café nas fazendas Campo Alegre e Dois Irmãos; João Ferreira de Freitas, em 1885, indicava trabalhar com essa cul-tura em São Simão; também Jeremias José Macedo, na mesma data, trabalhava em sua fazenda Rio Claro com o café; já em 1871, Floriana Maria das Neves tinha pés de café na fazenda das Posses e na São Lourenço, assim como Maria Francisca do Nascimento10. O quadro da produção econômica deve ser pensado como um
emaranhado de atividades em meio as quais o café já se fazia presente11. A
pecu-ária, talvez em um momento anterior, tenha sido a alavanca inicial do acúmulo econômico que permitiu ser São Simão uma das portas de entrada para o cultivo do café na região. Mas desde a década de 1870, o café demonstrou-se presente no município. Café este que depois gerou sabida opulência em Ribeirão Preto e não só aí, antes já podemos notar os seus primeiros frutos.
As dívidas (passivas: aquela que alguém deve) também podem ser uti-lizadas para medirmos os elementos de formação da economia local, que vão aparecer em maior quantidade somente após 1872, contudo ainda sem que os valores sejam significativos. Teremos que esperar alguns anos pela frente para que a carga das dívidas venha a ser expressiva. Posteriormente a 1883, isso ocorre e as dívidas vão assinalando a sua representação diante da composição das rique-zas. Certamente, nesse momento, estaremos vendo um resultado da inflação e da constante fragmentação do território simonense.
10 Fórum de São Simão. Caixa 4-a-1878, caixa 6-a-1885, caixa 1-a-1871. Segundo ofício. 11 PINTO, Luciana Soarez Galvão. Op. cit.
3 — O conjunto cativo
A análise dos cativos pertencentes aos inventariantes de São Simão, entre os anos de 1861 e 1887, demonstrou uma grande simetria ao que tange à divisão dos sexos, com leve vantagem para os homens no conjunto total ao repre-sentarem 50,3% dos plantéis. A participação dos sexos, tão próxima, demonstra, mais uma vez, que as atividades produtivas não estavam totalmente voltadas para a grande lavoura12. Uma economia de subsistência ou de pequeno comércio
é indicada pela participação alta do sexo feminino nos plantéis.
Uma outra explicação possível para a grande quantidade de mulheres cativas seria a utilização destas para a procriação, hipótese esta que será aven-tada como prática de época. O índice de 33% de crianças que encontramos nos inventários corrobora essa explicação. O fato dos plantéis de senhores e senhoras não demonstrarem um maior apreço pelo sexo masculino dá margens a tais supo-sições. Na Tabela 2, podemos acompanhar a constante presença das cativas no
decorrer dos anos; depois veremos as crianças.
No período inicial não temos uma supremacia do sexo feminino jun-to aos plantéis até pelo menos 1868, mesmo seguindo uma tendência de alta.
Tabela 2
Percentagem dos cativos por anos
12 Em Franca, os homens representavam 55% das amostras entre 1875-1885. A economia local estava atrelada a “vocação mercantil, caracterizado pela produção de bens de subsistência endereçados aos mercados locais e outras regiões do centro-sul do Brasil”. (p. 72). Para a divisão dos sexos, os índices próximos de Franca e São Simão podem ser um indício de que atividades econômicas correlatas eram desenvolvidas em ambos os espaços. OLIVEIRA, L. L. de. Op. cit.
Posteriormente a essa data, elas passam a ser a maioria nos lançamentos entre os anos de 1871-1875. Para os anos posteriores, a presença feminina vai caindo, justamente no momento em que mapeamos algumas fazendas desenvolvendo o cultivo do café. Na fase final da escravidão fica patente a subtração do elemento feminino junto aos plantéis.
Como as fontes aqui trabalhadas são inventários post-mortem e listas de matrícula, temos de tomar alguns cuidados no que diz respeito ao acompa-nhamento espacial dos cativos, pois esses só eram lançados nos inventários com a morte de um senhor. Mesmo nos apoiando, também, nas listas de matrícula, que são fontes mais lineares, é necessário buscar um leque maior de informações passível de cruzamentos.
O Gráfico 1 possibilita tal coisa, podemos acompanhar como ocorreu a
distribuição dos cativos no decorrer dos anos e, posteriormente, contrastá-la com as informações apresentadas.
Gráfico 1
Dois momentos distintos são indicados pelo Gráfico 1: um que vai de
1861 a 1872, em que temos uma situação de crescimento dos plantéis; e outro, posterior a 1876, no qual ocorre uma queda constante na quantidade de escravos lançados, com exceção no ano de 1884. O momento entre 1873 e 1875 não é passível de contribuição pela inconsistência nos dados.
Ao sobrepormos a variação da presença feminina nos plantéis, a dis-tribuição dos escravos, por anos, deixa visível que a queda na quantidade de escravas não é uma decorrência da simples tendência no comportamento dos inventários. A tendência de queda é geral, sendo a diminuição de todos cativos maior do que aquela sofrida pelas cativas, no período. Ao fazermos um corte, que vai do ano de 1881 a 1886, outra perspectiva surge, em um momento em que os plantéis lançados se caracterizam por serem maiores e pertencentes a proprietá-rios e não a proprietárias, temos aí a menor partição das cativas. Pode ser esse período revelador da ocasião de um vínculo veemente do trabalho escravo ao cultivo do café, daí a menor quantidade de mulheres.
Outro possível indício de que os senhores utilizavam o quadro de proxi-midade quantitativa entre os sexos para estimular a procriação pode ser percebido pelo comportamento na variação dos números de crianças no decorrer dos anos.
Durante quase todo o período, a proporção de crianças demonstrou-se estável não ocorrendo variações significativas ao passo do tempo. Somente depois de 1879 é que o seu percentual vai sofrendo algumas variações no sentido decrescente. Sem esquecermos as implicações da Lei do Ventre Livre que entra em vigor a partir de 1871 e que, provavelmente, demonstra aí os seus reflexos sobre o conjunto de crianças13.
Já os cativos entre 15 e 49 anos representam 57% da nossa amostra (Ver Tabela 3), posterior a 1876 há um aumento no lançamento de escravos com
mais de 40 anos, contudo em qualquer ocasião aqueles acima de 50 anos não ul-trapassaram os 10%, apenas três tinham mais de 70 anos e nenhum beirava os 80 anos. Nem após a Lei do Sexagenário temos a diminuição no percentual de cativos
13 Ordem das leis abolicionistas: proibição do tráfico de escravos em 1850; Eusébio de Queiroz editada em 1869 proibindo a separação das famílias por ocasião de venda ou doação; a Lei do Ventre Livre (1871); a regulamentação do Fundo de Emancipação para a libertação dos escravos (1872); Lei dos Sexagenários (1885) e culminando na Abolição (1888).
acima dos 50 anos. Acima dos 60 anos; poucos cativos chegavam; lei essa de re-sultados mais psicológicos do que práticos. Um bom estudo a ser feito é sobre o papel concreto das leis abolicionistas no conjunto cativo do interior do país.
(1) Ver: Fontes manuscritas. (2) MARCONDES, R. L. A propriedade escrava no Vale do
Pa-raíba Paulista durante a década de 1870. Texto para discussão. Série Economia. São Paulo:
FEA/USP-Ribeirão Preto, 2000, 30p. (mimeografado). (3) MARCONDES, R. L.; GARAVA-ZO, J. A propriedade e a hipótese de crescimento vegetativo em Batatais: a Classificação
dos escravos (1875), 2002. (4) OLIVEIRA, L. L. de O. Economia e História. Franca — século XIX. Franca: UNESP, 1997. (Série História Local, 7). (5) SOUZA, Jéferson Mateus de. 2004.
30 fls. Estrutura econômica e escravidão em Cajuru: 1864-1888. Trabalho de Conclusão do Curso de História Licenciatura Plena — Centro Universitário Barão de Mauá, Ribeirão Preto.
Tabela 3
População escrava segundo faixa etária
É passível de comparação a idade dos cativos estudados por nós e os auferidos em Franca, onde somente 16,7% dos cativos tinham entre 0 e 15 anos. A representatividade das crianças em São Simão é duas vezes maior do que em Franca. Os dados dos dois estudos foram tirados dos inventários, assim como os dados de Cajuru que demonstram patamares muito próximos aos de Franca. O comportamento das crianças em São Simão demonstra padrões mais próximos aos de Batatais, local em que os estudos também vieram apoiar a nossa tese de crescimento vegetativo dos escravos na região.
Em estudo sobre algumas cidades localizadas no Vale do Paraíba, re-alizado por Renato Marcondes utilizando os livros de classificação dos escravos, ao mapear a propriedade cativa em quatro cidades da região, entre os anos de 1872 e 1874, levanta o maior índice de participação de crianças para Lorena que
demonstrou ter 29,5% da população cativa entre 0 a 14 anos, ainda abaixo da porcentagem encontrada em São Simão. As cidades do vale eram produtoras, em época, ou estavam próximas a se tornarem significativas produtoras de café14.
Os adultos na faixa de 15 a 49 anos somavam algo ao redor de 62,1% a 81,2% no vale, enquanto em Franca somavam 50,8%; ao que vemos, São Simão fica em uma situação intermediária com os seus 57% de cativos adultos, bem próxima a Cajuru. É na categoria acima dos 50 anos que temos a menor participa-ção, apenas 10%, ao compararmos com o vale que ficou entre 5% e 13% e Franca que indicou para os acima de 41 anos um total de 19,7%, demonstrando que os cativos de São Simão não se encontravam na região há muito tempo, ou em face a um trabalho compulsório, característico das grandes lavouras, não chegavam muito longe na sua expectativa de vida. Em função da distribuição da faixa etária, São Simão fica entre Franca e o Vale do Paraíba paulista.
A razão de sexo (número de homens por 100 mulheres) foi de 102. Segundo o perfil do plantel cativo estudado, esse se aproxima daqueles que eram aplicados em atividades econômicas que se caracterizam entre uma região mer-cantil de subsistência tendendo à produção de grande lavoura.
Então os plantéis, em nossa pesquisa, sofreram variações dentro do corte temporal estudado, o padrão delineado por um destaque no número de mu-lheres e crianças e uma maior concentração de cativos vão tendo vez, a ponto de, em 1876, os escravos acima de quarenta anos aparecerem em maior quantidade.
O grupo cativo estudado demonstrou englobar um significativo número de jovens e adultos confirmados pelos padrões de cor e naturalidade.
Dos que tiveram a cor informada, o que ocorreu em 76,2% das vezes, os crioulos, escravos nascidos no Brasil, considerados cativos de pele mais escura do que os mestiços. Esses, de pele mais clara, representavam 17,3%, ao passo que os crioulos somavam 42,3%. O que há de certo nesses dados é que todos esses eram escravos nascidos no Brasil, pois uma outra categoria de cor utilizada para classificar os cativos foi arrolada nos inventários, os pretos que somaram 40,1%, quantidade bem próxima dos crioulos.
A cor dos cativos que é fator de peso dentro de uma sociedade escra-vista é ponto de grande confusão, pois os avaliadores ao utilizarem a expressão crioulo poderiam estar indicando aquele que era preto de pele e nascido no Brasil, uma forma de diferenciação entre os mais claros: pardo, cabra, etc., e os outros.
Ao empregarem somente a expressão “preto”, poderiam estar referin-do-se a um escravo preto de pele, mas não nascido no Brasil. Era indicado aí, o cativo de nação, o estrangeiro15. Mas como os nossos dados são para os últimos
momentos da escravidão, posterior a lei Antitráfico de 1850, é bem pouco pro-vável que os cativos de nação fossem muitos por aqui. Na verdade, 32,4% nos informaram, além da cor, a naturalidade dos quais 20% eram africanos. O restante havia nascido mesmo no Brasil, sendo assim, acreditamos que no máximo, somen-te 22% dos 280 escravos indicados como pretos podiam ser de nação.
Somado a isto, as leis de proibição do tráfico, agora, intraprovincial teremos que 53% dos cativos, além de serem brasileiros, tinham nascido na própria Província de São Paulo e os que indicaram nascer em outra freguesia, indicaram Casa Branca. Os que vieram de outras províncias somaram 27%, sendo a grande maioria advinda de Minas Gerais. Bem, se a maior parte dos cativos de São Simão nasceram no Brasil e na Província de São Paulo, é patente que tínhamos uma reprodução interna significativa, a qual é corroborada pela faixa etária de tenra idade que encontramos junto aos plantéis que foram envelhe-cendo com o cerco das leis como a do Ventre Livre que inibia a renovação desses plantéis.
O estado conjugal ajuda a esclarecer a origem do grande percentual de crianças encontradas. Em 55,6% dos plantéis tivemos o estado indicado que pode ser acompanhado na Tabela 4.
Novamente, o conjunto cativo de São Simão ficou em um arranjo inter-mediário com relação a Franca e as cidades do vale. A relação conjugal foi a base, ora utilizada para indicar este comportamento. Observando a Tabela 4, é possível
afirmar que as percentagens levantadas por nós estão seguindo de perto as incor-poradas para Franca ao tocante a casados e viúvos, ao passo que a categoria de
15 EISENBERG, P. L. Ficando Livre: As alforrias em Campinas no século XIX. Estudos Econômicos 17(2): 175-216, mai/ago, 1987. Nesse trabalho, o autor aborda com propriedade a questão da cor e nacionalidade.
Tabela 4
Estado conjugal e constituição familiar
solteiros aproximou-se mais do vale, assim como temos números bem próximos para os filhos de pais solteiros, um pouco mais tímido para os filhos casados.
Metade dos que estavam casados teve filhos e, 54% dos que não eram casados também os tiveram. Nos casos em que o estado conjugal foi citado, os homens representaram a maioria tanto na categoria de casados, como na de sol-teiros. Para as crianças, o sexo que aparece em quantidade é o feminino. Meninas estavam com seus pais ou, ao menos, com um deles, tanto no grupo de casados
Ver: Fontes manuscritas. 1 — OLIVEIRA, L. L. de O. Economia e História. Franca — século
XIX. Franca: UNESP, 1997. (Série História Local, 7). 2 — MARCONDES, R. L. A propriedade escrava no Vale do Paraíba Paulista durante a década de 1870. Texto para discussão. Série
como no de solteiros. Tendo em vista o alto índice de procriação, chegando à casa dos 50% demonstra um patamar de estabilidade dos próprios plantéis nos quais estavam as famílias.
Destarte, notamos uma parcela significativa do grupo cativo com al-guma forma de relação familiar em São Simão. Cerca de 40% tiveram qualquer elo indicado, sendo que, ao menos, um quarto desses participantes eram de famílias nucleares. Ora, se 29% dos cativos estudados demonstraram estar em contato com um tipo de família ampla fica manifesto um caráter estável dos plantéis que poderia ser revertido em filhos. Dentre a categoria filhos, os que tinham entre 01 e 14 anos e mantinham contato com, pelo menos, um dos pro-genitores representavam 41%, ou seja, nasceram e continuaram junto ao menos com um de seus pais. Estamos falando aí de 13% dos cativos que encontramos nos plantéis estudados. Esses provavelmente nasceram e viviam em São Simão com seus parentes. E mais: entre esses 52% tiveram a indicação de contato com progenitores casados, uma parcela maior do que os filhos que eram resultantes de relações consensuais. A maior parte das crianças foi gerada no interior de famílias nucleares.
Percorrendo outros pontos passíveis de análise deveremos ver se a famí-lia escrava sofria alguma interferência advinda do tamanho do plantel. Se ocorria um maior incentivo a sua formação em aglomerações maiores ou menores, tendo em vista, que a média geral de cativos por senhor foi de 10 escravos, veremos a di-visão da propriedade escrava de forma pormenorizada para posteriormente a com-pararmos com a organização familiar. Na Tabela 5 temos os padrões de posse.
O processo de concentração do elemento cativo em São Simão, nova-mente pode ser observado. À medida que cerca de 40% dos cativos encontravam-se nos plantéis de 1 a 5 escravos, esencontravam-ses pertenciam a um pouco mais de 40% dos proprietários estudados, o que pode parecer um padrão proporcional de distri-buição, toma outro sentido quando temos em mente que só 41% dos inventários estudados possuíam escravos. O padrão médio de posse e o padrão de grande plantel existiam em maior quantidade do que o pequeno, provavelmente indican-do que a inversão econômica sobre o elemento cativo era largamente praticada, assim como, eram eles significativamente empregados nas atividades econômicas locais que, por sua vez, possibilitaram plantéis de significativa grandeza para o nordeste da Província de São Paulo em época.
Cotejando a estrutura de posse encontrada em São Simão com a que é conhecida para outras áreas estudadas, não oferece dúvida que o patamar de menor concentração de cativos era pequeno. Na maior parte das regiões da pro-víncia, tivemos algo acima de 50% dos proprietários aí estabelecidos, contraria-mente ao nosso caso. O segundo grupo de 6 a 10 cativos, que compreende os plantéis medianos, demonstra uma primazia para os inventários de São Simão, mas sem diferenças gritantes. Certamente, está vinculado às maiores concen-trações de cativos, o ponto mais díspar da posse em São Simão, pois é a partir daí que 33% dos escravos encontram-se, quantidade acima de qualquer um dos estudos que indicamos.
Além de concentrada, a posse cativa em São Simão também demons-trou centrar pelo menos um terço do universo servil. Esses existiam aglutinados a plantéis com mais de 11 escravos, é bem provável que a experiência de vida de tais conjuntos tenha passado pela dimensão dos agrupamentos em que viviam. Portanto, na Tabela 6 comparamos o padrão de posse com o estado conjugal, na
tentativa de percebermos quais são as inferências entre um ponto e outro.
Tabela 5
Padrões de propriedade escrava
*Ver: Fontes manuscritas. **SOUZA, Jéferson Mateus de. 2004. 30 fls. Estrutura econômica e escravidão em Cajuru: 1864-1888. Trabalho de Conclusão do Curso de História Licenciatura Plena — Centro Universitário Barão de Mauá, Ribeirão Preto. OLIVEIRA, L. L. de O.
Tabela 6
Padrões de propriedade e variações no estado conjugal
Os dados que foram cruzados na Tabela 6 possibilitam elucidar
al-gumas questões, como é o caso da localização dos escravos adultos casados junto aos plantéis. Podemos perceber que entre os pequenos plantéis, tivemos uma ínfima quantidade de casais. Ao contrário, nos plantéis que tinham entre 6 e 20 cativos, a quantidade de casamentos foi a maior encontrada, tendendo a um perfil decrescente, todavia ainda representativo ao atingir os grandes plantéis. Os adultos casados concentravam-se em quantidade nos plantéis de 11 a 20 cativos. A possibilidade de encontrar um(a) companheiro(a) nestes era ajudada pela maior opção de escolha promovida pela estabilidade que este tipo de ajuntamento gerava.
Já o grupo dos solteiros foi encontrado nos grandes plantéis, voltados provavelmente, a um tipo de atividade de grande lavoura.
Foram os plantéis médios e os grandes que concentraram a maior parte das crianças, indicando que essas nasciam em quantidade em plantéis estáveis de pais casados. Para além da presença da família escrava, a experiência cativa em
Ver: fontes manuscritas. (1) — Essa parte da tabela demonstra, por meio dos sinais positivo (+) e negativo (–), a maior ou menor incidência do estado conjugal, em face ao padrão dos plantéis.
São Simão teve em seu cotidiano a geração e a manutenção de novos elementos mancípios que provavelmente engrossaram as frentes de trabalho.
Como afirmou José Antônio Lages, em seu artigo que abriu caminho ao estudo do negro em São Simão e Ribeirão Preto, o trabalho cativo perdurou no “Novo Oeste Paulista” chegando a ser praticado junto com a mão de obra assalariada representada pelos imigrantes europeus16. Todavia deve ser revista a
afirmação de que “O plantel de escravos no Oeste Novo era quase todo ele originá-rio de regiões mais antigas... sugerindo um intensivo tráfico interno...”. Os dados trabalhados pelo pesquisador em parte não indicaram as desventuras de novas gerações sendo criadas na região para o doloroso fim do trabalho compulsório.
16 LAGES, José A. C. Escravidão no oeste paulista — continuidade e resistência: um estudo sobre a
última década do trabalho escravo em Ribeirão Preto e São Simão. Estudos de História. Franca 2(1):
85-102, 1995.
MONTI, Carlo. The slaves belonged district of São Simão; 1861-1887. Revista Diálogos. v. 1, n. 1, 2005.
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Estudos Econômicos. 17(2): 175-216, mai/ago, 1987. Nesse trabalho, o
autor aborda com propriedade a questão da cor e nacionalidade. LAGES, José A. C. Escravidão no oeste paulista — continuidade e
resistên-cia: um estudo sobre a última década do trabalho escravo em Ribeirão Preto e São Simão. Estudos de História. Franca 2(1): 85-102, 1995. MARCONDES, R. L.; GARAVAZO, J. A propriedade e a hipótese de
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2002.
MARCONDES, R. L. A propriedade escrava no Vale do Paraíba Paulista
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Fontes
Arquivo do Fórum de São Simão – Seção de Arquivo Geral.
1º Ofício: caixas 1, 2 e 3.