QUESTÕES RELATIVAS À OBRIGAÇÃO DE PROCESSAR OU EXTRADITAR (Bélgica vs. Senegal)
Sumário do julgamento de 20 de julho de 2012
A Corte começa expondo o histórico processual (parágrafos 1-14). Ela lembra que, em 19 de fevereiro de 2009, a Bélgica apresentou, junto à Secretaria da Corte, uma petição instituindo processos contra o Senegal, em relação a uma disputa sobre “o cumprimento do Senegal com a sua obrigação de processar o Sr. H[issène] Habré[, ex-presidente da República do Chade, por atos, incluindo crimes de tortura e crimes contra a humanidade que a ele são imputados na condição de autor, co-autor ou cúmplice,] ou de extraditá-lo para a Bélgica para efeitos de procedimentos penais”. Em sua petição, a Bélgica baseou suas declarações na Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Punições Cruéis, Desumanas ou Degradantes de 10 de dezembro de 1984 (doravante “a Convenção contra a Tortura” ou “a Convenção”), bem como no Direito Internacional Consuetudinário. A Corte observa que na referida petição, Bélgica invocou, como a base para a jurisdição da Corte, o artigo 30, parágrafo 1, da Convenção contra a Tortura e as declarações feitas, nos termos do artigo 36, parágrafo 2, do Estatuto da Corte, pela Bélgica em 17 de junho de 1958 e pelo Senegal em 2 de dezembro de 1985.
Em 19 de fevereiro de 2009, a fim de proteger seus direitos, a Bélgica também apresentou um pedido para a indicação de medidas provisórias, sobre o qual a Corte proferiu uma decisão, em 28 de maio de 2009. Nesta decisão, a Corte considerou que as circunstâncias, como, em seguida, se apresentaram à Corte, não foram suficientes para exigir o exercício de seu poder, nos termos do artigo 41 do Estatuto, para indicar medidas provisórias.
I. Contexto histórico e factual (parágrafos 15-41)
A Corte recorda que, depois de tomar o poder em 7 de junho de 1982, à frente de uma rebelião, Sr. Hissène Habré foi Presidente da República do Chade por oito anos, período em que violações em larga escala dos direitos humanos foram alegadamente cometidas, incluindo prisões de adversários políticos reais ou presumidos, detenções sem julgamento ou em condições desumanas, maus tratos, torturas, execuções extrajudiciais e desaparecimentos
forçados. Deposto em 1 de dezembro de 1990, o Sr. Habré solicitou asilo político ao governo senegalês, um pedido que foi concedido. Ele vive em Dakar desde então.
Desde 25 de janeiro de 2000, uma série de processos relativos a crimes alegadamente cometidos durante a presidência do Sr. Habré foram instituídos diante de ambas as cortes senegalesa e belga por cidadãos do Chade, cidadãos belgas de origem do Chade e pessoas com dupla nacionalidade belga-chadiana, juntamente com uma associação de vítimas. A questão da instauração de processos contra o Sr. Habré foi também mencionada por cidadãos do Chade ao Comitê das Nações Unidas contra a Tortura e ao Tribunal Africano dos Direitos Humanos e dos Povos.
Em 19 de setembro de 2005, o juiz da instrução belga emitiu um mandado internacional de prisão in absentia contra o Sr. Habré, acusado como o autor ou co-autor, inter alia, de violações graves do Direito Internacional Humanitário, tortura, genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra, base na qual a Bélgica solicitou a extradição do Sr. Habré do Senegal e a Interpol divulgou um “alerta vermelho”, servindo como um pedido de detenção provisória com vistas à extradição.
Num julgamento datado de 25 de novembro de 2005, a Câmara de Acusação do Tribunal de Apelação de Dakar pronunciou-se sobre o pedido de extradição da Bélgica, sustentando que, como “uma corte de direito comum, não [poderia] extender sua competência para questões relacionadas à investigação ou repressão de um chefe de Estado por atos alegadamente cometidos no exercício das suas funções”; que ao Sr. Habré deve “ser dada imunidade jurisdicional”, a qual “pretende sobreviver à cessação de suas funções como presidente da República”; e que não poderia, portanto, “julgar a legalidade dos processos e a validade do mandado de prisão contra um chefe de Estado”.
No dia seguinte à entrega do mencionado julgamento, o Senegal submeteu à União Africana a questão da instauração dos processos contra o Sr. Habré. Em julho de 2006, a Assembleia dos Chefes de Estado e de Governo da União inter alia “decid[iu] considerar o caso Hissène Habré como da competência da União Africana, [...] mandat[ou] a República do Senegal processar e garantir que Hissène Habré seja julgado, em nome da África, por uma corte senegalesa competente, com garantias de julgamento justo” e “mandat[ou] o presidente da União Africana, em consulta com o presidente da Comissão [da União], fornecer ao Senegal a assistência necessária para a realização eficaz do julgamento”.
Por nota verbal de 11 de janeiro de 2006, a Bélgica, referindo-se ao processo de negociação em curso previsto no artigo 30 da Convenção contra a Tortura e tomando nota do encaminhamento do “caso Hissène Habré” para a União Africana, afirmou que interpretou a
referida Convenção e, mais especificamente, a obrigação aut dedere aut judicare (isto é, “processar ou extraditar”), prevista no artigo 7 da mesma, “como a imposição de obrigações apenas em um Estado, neste caso, no contexto do pedido de extradição do Sr. Hissène Habré, a República do Senegal”. A Bélgica ainda solicitou ao Senegal para “gentilmente notificá-la da sua decisão final de conceder ou recusar o [...] pedido de extradição” em relação ao Sr. Habré. Segundo a Bélgica, o Senegal não respondeu a esta nota. Por nota verbal, de 9 de março de 2006, a Bélgica voltou a se referir ao processo de negociação em curso previsto no artigo 30 e explicou que interpretou o artigo 4, o artigo 5, parágrafos (1) (c) e (2), o artigo 7, parágrafo (1), o artigo 8, parágrafos (1), (2) e (4), e o artigo 9, parágrafo (1), da Convenção, como “estabelecendo a obrigação, para um Estado em cujo território a pessoa acusada de ter cometido qualquer infração prevista no artigo 4 da Convenção é encontrado, de extraditá-la caso não a processe pelos delitos mencionados no referido artigo.” Consequentemente, a Bélgica solicitou ao Senegal para “gentilmente informá-la sobre se sua decisão de submeter o caso Hissène Habré à União Africana [deveria] ser interpretada no sentido de que as autoridades senegalesas já não pretend[iam] extraditá-lo para a Bélgica ou tê-lo julgado por suas próprias cortes”.
Por nota verbal datada de 4 de maio de 2006, a Bélgica, tendo notado a ausência de uma resposta oficial das autoridades senegalesas para suas notas e comunicações anteriores, mais uma vez, deixou claro que interpretou o artigo 7 da Convenção contra a Tortura como exigindo que o Estado em cujo território o suposto infrator está localizado extradite-o ou processe-o, e afirmou que “a decisão de submeter o caso Hissène Habré para a União Africana” não poderia aliviar o Senegal de sua obrigação de julgar ou extraditar o acusado desses crimes, de acordo com os artigos pertinentes da Convenção. Ela acrescentou que uma disputa não resolvida em relação a essa interpretação levaria à recorreção do processo de arbitragem previsto no artigo 30 da Convenção. Por nota verbal de 9 de maio de 2006, o Senegal explicou que suas notas verbais de 7 e 23 de dezembro 2005 constituíram uma resposta ao pedido de extradição da Bélgica. Ela firmou que, ao submeter o processo à União Africana, o Senegal, a fim de não criar um impasse jurídico, o Senegal estava agindo de acordo com o espírito do princípio “aut dedere aut punire”. Finalmente, ela tomou conhecimento da “possibilidade [do] recurso ao processo de arbitragem previsto no artigo 30 da Convenção”. Em uma nota verbal de 20 de junho de 2006, que o Senegal afirma não ter recebido, a Bélgica “not[ou] que a tentativa de negociação com o Senegal, que começou em novembro de 2005, não te[ve] sucesso” e, portanto, pediu ao Senegal para apresentar o litígio à arbitragem “sob condições a serem acordadas mutuamente”, em conformidade com o artigo
30 da Convenção. Além disso, de acordo com um relatório da embaixada da Bélgica em Dakar, dando sequência a uma reunião realizada em 21 de junho de 2006 entre o Secretário-Geral do Ministério das Relações Exteriores do Senegal e o embaixador belga, este último expressamente convidou o Senegal a adotar uma posição clara sobre o pedido para submeter a questão à arbitragem. De acordo com o mesmo relatório, as autoridades senegalesas tomaram conhecimento do pedido de arbitragem belga e o embaixador belga chamou a atenção para o fato de que os seis meses de prazo nos termos do artigo 30 começaram a correr a partir daquele ponto.
A Corte observa, ainda, que o Comitê das Nações Unidas contra a Tortura expressou, numa decisão de 17 de maio de 2006, que o Senegal não tinha adotado tais “medidas que possam ser necessárias” para estabelecer sua jurisdição sobre os crimes listados na Convenção, em violação ao artigo 5, parágrafo 2, do último. O Comitê também afirmou que o Senegal não tinha conseguido cumprir as suas obrigações nos termos do artigo 7, parágrafo 1, da Convenção, de submeter o caso relativo ao Sr. Habré às suas autoridades competentes para fins de procedimento criminal ou, em alternativa, uma vez que um pedido de extradição havia sido feito pela Bélgica, de cumprir com este pedido.
A Corte, então, observa que, em 2007, o Senegal implementou uma série de reformas legislativas, a fim de colocar o seu direito interno em conformidade com o artigo 5, parágrafo 2, da Convenção contra a Tortura. Os novos artigos 431-1 a 431-5 do seu Código Penal definiram e proscreveram formalmente o crime de genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e outras violações do Direito Internacional Humanitário. Além disso, sob os termos do novo artigo 431-6 do Código Penal, qualquer indivíduo poderia “ser julgado ou condenado por atos ou omissões [...], que, no momento e lugar em que foram cometidos, eram considerados como uma ofensa criminal de acordo com os princípios gerais do direito reconhecidos pela comunidade das nações, quer eles constituam ou não uma transgressão legal em vigor naquele momento e naquele lugar”. Além disso, o artigo 669 do Código de Processo Penal senegalês foi alterado para a seguinte redação: “Qualquer estrangeiro que, fora do território da República, foi acusado de ser o autor ou cúmplice de um dos crimes previstos nos artigos 431-1 ao 431-5 do Código Penal [...] pode ser processado e julgado de acordo com as disposições das leis senegalesas ou leis aplicáveis no Senegal, se ele está sob a jurisdição do Senegal ou se a vítima é residente no território da República do Senegal, ou se o governo obtém sua extradição.” Um novo artigo 664bis também foi também incorporado no Código de Processo Penal, segundo o qual “[os] tribunais nacionais terão jurisdição sobre todos os crimes, puníveis ao abrigo da lei do Senegal, que são cometidos fora do território da
República por um nacional ou um estrangeiro, se a vítima for de nacionalidade senegalesa, no momento em que os atos são cometidos” .
O Senegal informou a Bélgica destas reformas legislativas por notas verbais de 20 e 21 de fevereiro de 2007. Na sua nota verbal de 20 de fevereiro, o Senegal também lembrou que a Assembleia da União Africana, durante a sua oitava sessão ordinária, realizada em 29 e 30 de janeiro de 2007, tinha “apelado para os Estados-membros [da União], [...] parceiros internacionais e toda a comunidade internacional a mobilizar todos os recursos, em especial os recursos financeiros, necessários para a preparação e boa condução do julgamento [do Sr. Habré]”. Na sua nota verbal de 21 de fevereiro, o Senegal afirmou que “o princípio da não retroatividade, embora reconhecido pela lei senegalesa[,] não impossibilita o julgamento ou a condenação de qualquer indivíduo por atos ou omissões que, no momento em que foram cometidos, eram considerados criminosos sob os princípios gerais do Direito reconhecidos por todos os Estados”. Depois de ter indicado que tinha estabelecido “um grupo de trabalho encarregado de produzir as propostas necessárias para definir as condições e os procedimentos adequados para processar e julgar o ex-presidente do Chade, em nome da África, com as garantias de um julgamento justo e imparcial”, o Senegal afirmou que o referido julgamento “exig[ia] fundos substanciais que o Senegal não pode mobilizar sem a assistência da comunidade [i]nternacional”.
Por nota verbal datada de 8 de maio de 2007, a Bélgica lembrou que tinha informado ao Senegal, por meio de nota verbal no 20 de Junho 2006 “do seu desejo de constituir um tribunal arbitral para resolver a diferença de opinião na falta de encontrar uma solução por meio de negociação, conforme estipulado pelo artigo 30 da Convenção [contra a Tortura]”. Ela observou que “ela não recebeu resposta da República do Senegal [a sua] proposta de arbitragem” e reservou os seus direitos com base no referido artigo 30. Ela tomou conhecimento das novas disposições legislativas do Senegal e perguntou se estas disposições permitiriam que o Sr. Habré fosse julgado no Senegal e, em caso afirmativo, dentro de que prazo. Finalmente, a Bélgica fez ao Senegal uma oferta de cooperação judicial, que previa que, em resposta a uma carta rogatória das autoridades competentes do Senegal, a Bélgica iria transmitir ao Senegal uma cópia do processo de investigação belga contra o Sr. Habré. Por nota verbal de 5 de outubro de 2007, o Senegal informou a Bélgica da sua decisão de organizar o julgamento do Sr. Habré e convidou a Bélgica para uma reunião de doadores potenciais, com vista a financiar este julgamento. A Bélgica reiterou sua oferta de cooperação judiciária por notas verbais de 2 de dezembro de 2008, 23 de junho de 2009 , 14 de outubro de 2009, 23 de fevereiro de 2010, 28 de junho de 2010, 05 setembro de 2011 e 17 de janeiro de
2012. Por notas verbais, de 29 de julho de 2009, 14 de setembro de 2009, 30 de abril de 2010 e 15 de junho de 2010, o Senegal acolheu favoravelmente a proposta de cooperação judiciária, afirmou que havia apontado juízes de investigação e manifestou a sua vontade de aceitar a oferta logo que a próxima Mesa Redonda de Doadores ocorresse. As autoridades belgas não receberam nenhuma carta rogatória para esse fim das autoridades judiciais do Senegal.
Em 2008, o Senegal alterou o artigo 9 da sua Constituição, a fim de prever uma exceção ao princípio da não retroatividade das leis penais, tornando possível processar, julgar e punir “qualquer pessoa para qualquer ato ou omissão que, no tempo em que foi cometido, foi definido como crime nos termos das regras do Direito Internacional relativas a atos de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra”.
Como indicado acima, em 19 de fevereiro de 2009, a Bélgica protocolizou a petição instituindo os procedimentos presentes junto à Corte. Em 8 de abril de 2009, durante as audiências relativas ao pedido de indicação de medidas cautelares apresentado pela Bélgica – no final do qual pediu a Corte “para indicar, na pendência de uma decisão final sobre o mérito”, medidas cautelares exigindo que o respondente tome “todas as medidas ao seu alcance para manter Sr. H. Habré sob o controle e vigilância das autoridades judiciais do Senegal, para que as regras do Direito Internacional, das quais a Bélgica solicita cumprimento, sejam aplicadas corretamente” –, o Senegal declarou solenemente perante a Corte que não permitiria que o Sr. Habré deixasse seu território enquanto o processo estivesse pendente. Durante as mesmas audiências, ele afirmou que “[o] único impedimento [...] para a abertura do julgamento do Sr. Hissène Habré no Senegal [era] financeiro” e que o Senegal “concordou em julgar o Sr. Habré, mas, logo no início, disse a União Africana que seria incapaz de arcar com os custos do julgamento sozinho”.
A Corte continua a observar que, por julgamento de 18 de novembro de 2010, a Corte de Justiça da Comunidade Econômica dos Estados do da África Ocidental (doravante denominado “Tribunal de Justiça da CEDEAO”) pronunciou-se sobre um pedido apresentado em 6 de outubro de 2008, em que Sr. Habré pediu à corte para declarar que os seus direitos humanos seriam violados pelo Senegal se procedimentos fossem instituídos contra ele. Tendo observado inter alia que haviam evidências apontando para potenciais violações dos direitos humanos do Sr. Habré, como resultado de reformas constitucionais e legislativas do Senegal, a Corte considerou que o Senegal deve respeitar as decisões proferidas por suas cortes nacionais e, em particular, respeitar o princípio da coisa julgada, e, consequentemente, ordenou que ele respeitasse o princípio absoluto da não retroatividade. Constatou-se, ainda, que o mandato que o Senegal recebeu da União Africana foi, de fato, para elaborar e propor as
medidas necessárias para o processo e julgamento do Sr. Habré a ter lugar, no âmbito estrito de especiais procedimentos internacionais adhoc.
Após a entrega deste julgamento pela Corte de Justiça da CEDEAO, em janeiro de 2011, a Assembleia de Chefes de Estado e de Governo da União Africana “ped[iu] a Comissão para realizar consultas com o Governo do Senegal, a fim de finalizar as modalidades para o rápido julgamento de Hissène Habré por um tribunal especial com um caráter internacional consistente com a decisão da Corte de Justiça da CEDEAO”.. Na sua décima sétima sessão, realizada em julho de 2011, a Assembleia “confirm[ou] o mandato conferido ao Senegal para julgar Hissène Habré em nome de África" e “encorajou [a última] a leva a cabo a sua responsabilidade legal, de acordo com a Convenção das Nações Unidas contra a Tortura[,] a decisão do Comitê das Nações Unidas [...] contra a Tortura[,] bem como o referido mandato para colocar Hissène Habré em julgamento célere ou extraditá-lo para qualquer outro país disposto a colocá-lo em julgamento.”
Em 12 de janeiro e 24 de novembro de 2011, o relator do Comitê contra a Tortura, no seguimento das comunicações, lembrou ao Senegal, no que diz respeito à decisão do Comitê proferida em 17 de maio de 2006, de sua obrigação de submeter o caso do Sr. Habré para suas autoridades competentes para o propósito de processá-lo, se não o extraditou.
Em 15 de março de 2011, 05 de setembro de 2011 e 17 de janeiro de 2012, a Bélgica dirigiu ao Senegal mais três pedidos de extradição do Sr. Habré. Os dois primeiros pedidos foram declaradas inadmissíveis; o terceiro ainda está pendente nos tribunais senegaleses.
Na sua décima oitava sessão, realizada em janeiro de 2012, a Assembleia dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana observou que o Tribunal de Apelação de Dakar ainda não tinha tomado uma decisão sobre o quarto pedido da Bélgica para a extradição. Ela observou que Ruanda estava preparada para organizar o julgamento do Sr. Habré e “ped[iu] à Comissão [da União Africana] para continuar as consultas com países e instituições parceiras e com a República do Senegal e, posteriormente, com a República de Ruanda[,] com vistas a garantir o julgamento célere de Hissène Habré e considerar as modalidades práticas, bem como sobre as implicações jurídicas e financeiras do julgamento”.
II. Jurisdição da Corte (parágrafos 42-63)
Tendo recordado as duas bases jurisdicionais invocadas pela Bélgica – ou seja, o artigo 30, parágrafo 1, da Convenção contra a Tortura e as declarações feitas pelas partes nos termos do artigo 36, parágrafo 2, do Estatuto da Corte – a Corte nota que o Senegal contesta a
existência de sua jurisdição em qualquer base, sustentando que as condições estabelecidas nos instrumentos pertinentes não foram cumpridas e, em primeiro lugar, que não há disputa entre as partes.
A. A existência de uma disputa (parágrafos 44-55)
A Corte recorda que, nas reivindicações incluídas em sua petição, a Bélgica pediu que a Corte julgasse e declarasse que “a República do Senegal é obrigada a instaurar processos criminais contra o Sr. H. Habré por atos incluindo crimes de tortura e crimes contra a humanidade, que são alegados contra ele como autor, co-autor ou cúmplice; falhando o processo do Sr. H. Habré, a República do Senegal é obrigada a extraditá-lo para o Reino da Bélgica para que nela possa responder por esses crimes diante das cortes belgas”. Em suas alegações finais, a Bélgica solicitou a Corte Internacional de Justiça a concluir que o Senegal violou suas obrigações nos termos do artigo 5, parágrafo 2, da Convenção contra a Tortura, e que, ao não tomar medidas em relação aos crimes alegados do Sr. Habré, o Senegal violou e continua a violar suas obrigações nos termos do artigo 6, parágrafo 2, e artigo 7, parágrafo 1, daquele instrumento e sob outras normas do Direito Internacional. A Corte observa que, por sua vez, o Senegal alega que não há disputa entre as partes no que diz respeito à interpretação ou aplicação da Convenção contra a Tortura ou de qualquer outra lei relevante do Direito Internacional e que, como consequência, a Corte não tem competência no presente caso. A Corte observa, portanto, que as partes, assim, têm apresentado visões radicalmente divergentes sobre a existência de uma disputa entre elas e, se alguma disputa existe, seu objeto. Tendo em conta que a existência de uma disputa é uma condição da sua jurisdição sob ambas as bases jurisdicionais invocadas pela Bélgica, a Corte começa por examinar esta questão.
Baseando-se em sua jurisprudência anterior, a Corte recorda sobre este propósito que, a fim de estabelecer se existe um conflito, “deve ser demonstrado que a alegação de uma parte se opõe positivamente pela outra” (África do Sudoeste (Etiópia vs. África do Sul; Libéria vs. África do Sul), Exceções Preliminares, Julgamento, Relatórios da CIJ de 1962, p. 328), entendendo-se que “caso exista uma disputa internacional, essa é uma questão de determinação objetiva” (Interpretação de Tratados de Paz com a Bulgária, Hungria e Romênia, Primeira Fase, Opinião Consultiva, Relatórios da CIJ de 1950, p. 74) e que “[a] determinação da Corte deve levar a uma análise dos fatos. O assunto é um de substância, não de forma.” (Aplicação da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação Racial (Geórgia vs. Rússia), Exceções Preliminares, Julgamento de 01 de abril de 2011, parágrafo 30.) A Corte também observa que a “disputa deve, em princípio, existir no momento da apresentação do pedido ao Tribunal” (ibid.).
A Corte inicia por examinar o primeiro pedido da Bélgica para que a Corte Internacional de Justiça declare que o Senegal violou o artigo 5, parágrafo 2, da Convenção contra a Tortura, o que exige que um Estado parte da Convenção “tome todas as medidas que sejam necessárias para estabelecer sua jurisdição” sobre atos de tortura quando o presumível autor está "presente em qualquer território sob sua jurisdição", e que Estado não o extradite para um dos Estados mencionados no parágrafo 1 do mesmo artigo. A Corte observa que, enquanto a Bélgica afirma que o fato de que o Senegal não cumpriu com a sua obrigação nos termos do artigo 5, parágrafo 2, “em tempo hábil”, produziu consequências negativas relativas à implementação de algumas outras obrigações decorrentes da Convenção, ela reconhece, no entanto, que o Senegal finalmente cumpriu com sua obrigação através, por um lado, das suas reformas legislativas de 2007 (que estendem a jurisdição das cortes senegalesas sobre certos crimes, incluindo tortura, crimes de guerra, crimes contra a humanidade e crime de genocídio supostamente cometidos por um estrangeiro fora do território do Senegal, independentemente da nacionalidade da vítima) e, por outro, da Emenda Constitucional de 2008 (que agora evita que o princípio da não retroatividade em matéria penal impeça o julgamento de um indivíduo por atos que eram crimes sob o Direito Internacional no momento em que foram cometidos).
A Corte considera que qualquer disputa que possa ter existido entre as partes no que diz respeito à interpretação ou à aplicação do artigo 5, parágrafo 2, da Convenção terminou no momento em que o pedido foi apresentado. Ela conclui, portanto, que não tem competência para decidir sobre a alegação da Bélgica relativa à obrigação decorrente desta disposição do tratado. Ela afirma, no entanto, que isso não impede a Corte de considerar que as consequências, geradas pela conduta do Senegal em relação às medidas exigidas por esta disposição, possam incidir sobre a conformidade com certas outras obrigações decorrentes da Convenção, tendo a Corte competência a esse respeito.
A Corte considera, em seguida, a alegação da Bélgica de que o Senegal violou outras duas obrigações do tratado, que, respectivamente, necessitam de um Estado parte da Convenção, quando uma pessoa que supostamente cometeu um ato de tortura é encontrada no seu território, para estabelecer “uma investigação preliminar dos fatos” (artigo 6, parágrafo 2), e, “se não extraditá-la”, para “submeter o caso às suas autoridades competentes para fins de procedimento criminal” (artigo 7, parágrafo 1). Sobre este ponto, a Corte observa que o Senegal afirma que não há disputa no que diz respeito à interpretação ou à aplicação destas
disposições, não só porque não há disputa entre as partes sobre a existência e o alcance das obrigações nelas contidas, mas também porque ele cumpriu tais obrigações. Com base nos intercâmbios diplomáticos entre as partes, a Corte considera que as alegações da Bélgica fundadas sobre a interpretação e aplicação dos artigos 6, parágrafo 2, e 7, parágrafo 1, da Convenção se opuseram positivamente pelo Senegal; ela conclui, portanto, que uma disputa existia no momento da apresentação da petição e observa que essa disputa ainda existe.
A Corte observa que a petição da Bélgica também inclui um pedido para que a Corte declare que o Senegal violou uma obrigação sob o direito internacional consuetudinário para “apresentar procedimentos penais contra Sr. H. Habré” por crimes contra a humanidade supostamente cometidos por ele; a Bélgica posteriormente estende este pedido para cobrir os crimes de guerra e genocídio, ambos em seu Memorial e nas audiências. Sobre este ponto, o Senegal também afirma que nenhuma disputa surgiu entre as partes.
A Corte nota que, embora seja verdade que o mandato de detenção internacional belga em relação ao Sr. Habré – transmitido ao Senegal com um pedido de extradição em 22 de setembro de 2005 – se referiu às violações do direito humanitário internacional, tortura, genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra, assassinatos e outros crimes, nenhum documento declarou ou insinuou que o Senegal tinha uma obrigação sob o Direito Internacional de exercer sua jurisdição sobre tais crimes caso não extraditasse o Sr. Habré. Quanto à competência da Corte, o que importa é se, na data em que o pedido foi apresentado, existia uma disputa entre as partes em relação à obrigação senegalesa, sob o direito internacional consuetudinário, de tomar medidas em relação aos crimes acima mencionados atribuído ao Sr. Habré. À luz dos intercâmbios diplomáticos entre as partes, a Corte considera que tal disputa não existia naquela data. As únicas obrigações referidas na correspondência diplomática entre as partes são as decorrentes da Convenção contra a Tortura. A Corte considera que, sob tais circunstâncias, não havia razão nenhuma para o Senegal tratar, em suas relações com a Bélgica, a questão do julgamento dos supostos crimes do Sr. Habré no âmbito do direito internacional consuetudinário. A Corte afirma que os fatos que constituíram os alegados crimes podem ter sido intimamente ligados aos supostos atos de tortura. No entanto, a questão de saber se existe uma obrigação de um Estado de julgar crimes sob o direito internacional consuetudinário que foram alegadamente cometidos por um estrangeiro no exterior é claramente distinta de qualquer questão do cumprimento das obrigações deste Estado sob a Convenção contra a Tortura e levanta diferentes problemas legais.
A Corte conclui que, no momento da apresentação do pedido, a disputa entre as partes não se relacionou às violações das obrigações sob o direito internacional consuetudinário e
que ela, portanto, não tem competência para decidir sobre as alegações belgas relacionadas a isso. É, portanto, apenas no que diz respeito à disputa relativa à interpretação e aplicação do artigo 6, parágrafo 2, e artigo 7, parágrafo 1, da Convenção contra a Tortura que a Corte terá que determinar se existe base legal de jurisdição.
B. Outras condições para a competência (parágrafo 56-63)
A Corte, em seguida, se volta para outras condições que deverão ser cumpridas para que ela tenha jurisdição sob o artigo 30, parágrafo 1, da Convenção contra a Tortura, nos termos do qual: “Qualquer disputa entre dois ou mais Estados partes relativa à interpretação ou aplicação da presente Convenção que não possa ser resolvida por meio de negociação será, a pedido de um deles, submetidas à arbitragem. Se, dentro de seis meses, a partir da data do pedido de arbitragem, as partes serem incapazes de concordar sobre a organização da arbitragem, qualquer uma dessas partes pode submeter a disputa à Corte Internacional de Justiça, mediante solicitação feita em conformidade com o Estatuto da Corte.” Estas condições são que a disputa não possa ser resolvida por meio de negociação e que, depois de um pedido de arbitragem ter sido feito por uma das partes, elas tenham sido incapazes de concordar sobre a organização da arbitragem dentro de seis meses a contar desse pedido.
No que diz respeito à primeira destas condições, a Corte afirma que deve começar por averiguar se houve, “no mínimo[,] uma tentativa genuína de uma das partes em disputa para se envolver em discussões com a outra parte da disputa, com o intuito de resolver a disputa” (Aplicação da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (Geórgia vs. Rússia), Exceções Preliminares, Julgamento de 1 de Abril de 2011, parágrafo 157). De acordo com a jurisprudência da Corte, “a pré-condição de negociação é atendida somente quando houve fracasso das negociações, ou quando as negociações se tornaram inúteis ou encontrarem um impasse” (ibid., parágrafo 159). A exigência de que a disputa “não possa ser resolvida por meio de negociação” não pode ser entendida como se referindo a uma impossibilidade teórica de se chegar a um acordo. Isso significa que, como a Corte notou em relação a uma disposição formulada semelhante, “não existe uma probabilidade razoável que novas negociações levariam a um acordo” (África do Sudoeste (Etiópia vs. África do Sul, Libéria vs. África do Sul), Exceções Preliminares, Julgamento, Relatórios da CIJ de 1962, p. 345).
A Corte observa que, enquanto a Bélgica declarou expressamente que as inúmeras trocas de correspondência e várias reuniões realizadas pelas partes, entre 11 de janeiro de
2006 e 21 de junho de 2006, caíram no âmbito do processo de negociação nos termos do artigo 30, parágrafo 1, da Convenção contra a Tortura, o Senegal não se opôs à caracterização da Bélgica das trocas diplomáticas como negociações. Tendo em vista a posição do Senegal que, apesar de não ter concordado com a extradição e ter tido dificuldades em realizar um julgamento, no entanto, cumpriu com as suas obrigações decorrentes da Convenção, as negociações não realizaram nenhum progresso no sentido de resolver a disputa. Tendo notado que esta divergência de pontos de vista entre as partes persistiu até a fase oral, a Corte conclui que a condição prevista no artigo 30, parágrafo 1, da Convenção de que a disputa não pode ser resolvida por negociação foi cumprida.
No que diz respeito à submissão da controvérsia à arbitragem sob a interpretação do artigo 7 da Convenção contra a Tortura, a nota verbal do Ministério das Relações Exteriores belga de 04 maio de 2006 observou que “[a] disputa não resolvida relativa a essa interpretação o levaria a recorrer ao procedimento arbitral previsto no artigo 30 da Convenção contra a Tortura”. Em uma nota verbal de 9 de maio de 2006, o embaixador do Senegal em Bruxelas respondeu que: “quanto à possibilidade da Bélgica recorrer ao procedimento arbitral previsto no artigo 30 da Convenção contra a Tortura, a embaixada só pode tomar conhecimento do presente, reafirmando o compromisso do Senegal para o excelente relacionamento entre os dois países em termos de cooperação e a luta contra a impunidade.” Tendo posteriormente realizado um pedido direto de recorrer à arbitragem em uma nota verbal de 20 de junho de 2006, a Bélgica comentou, em nota, que “a tentativa de negociação com o Senegal, que começou em novembro de 2005, não havia prosperado”, e que a Bélgica “em conformidade com o artigo 30, parágrafo 1, da Convenção contra a Tortura, pediu consequentemente ao Senegal para submeter a disputa à arbitragem, sob condições a serem acordadas mutuamente”.
A Corte observa que a Bélgica reiterou este pedido para arbitragem em sua nota verbal de 8 de maio de 2007, a qual o Senegal não respondeu. Embora a Bélgica não tenha feito qualquer proposta detalhada para determinar as questões a serem submetidas à arbitragem e a organização dos procedimentos de arbitragem, na opinião da Corte, isso não significa que a condição de que “as partes são incapazes de chegarem a um acordo sobre a organização da arbitragem” não foi cumprida, uma vez que um Estado pode adiar propostas sobre estes aspectos para o momento em que uma resposta positiva é dada, em princípio, ao seu pedido para resolver a disputa por arbitragem. A Corte recorda que já disse, a respeito de uma disposição de tratado semelhante, que “a falta de acordo entre as partes quanto à organização de uma arbitragem não pode ser presumida. A existência de tal divergência pode seguir
apenas a partir de uma proposta de arbitragem pelo requerente, à qual o respondente não deu nenhuma resposta ou que manifestou a sua intenção de não aceitar” (Atividades Armadas no território do Congo (Novo Aplicativo: 2002) (República Democrática do Congo vs. Ruanda), Competência e Admissibilidade, Julgamento, Relatórios da CIJ de 2006, p. 41, parágrafo 92.) A Corte conclui que o presente caso é um no qual a incapacidade das partes de concordar sobre a organização da arbitragem resulta da ausência de qualquer resposta por parte do Estado para o qual o pedido de arbitragem foi dirigido.
Em relação à segunda condição prevista no artigo 30, parágrafo 1, da Convenção contra a Tortura, a saber, que pelo menos seis meses devem se passar após o pedido de arbitragem antes que o caso seja submetido à Corte, a Corte considera que, no presente caso, esta exigência foi cumprida, uma vez que o requerimento foi apresentado mais de dois anos após o pedido de arbitragem ter sido feito.
Tendo determinado que as condições estabelecidas no artigo 30, parágrafo 1, da Convenção contra a Tortura foram cumpridas, a Corte conclui que tem competência para conhecer a disputa entre as partes relativa à interpretação e aplicação do artigo 6, parágrafo 2, e artigo 7, parágrafo 1, do mesmo instrumento. Tendo chegado a esta conclusão, a Corte não acha necessário considerar se a sua jurisdição também existe em relação à mesma disputa com base nas declarações feitas pelas partes nos termos do artigo 36, parágrafo 2, de seu Estatuto.
III. Admissibilidade dos pedidos belgas (parágrafos 64-70)
A Corte observa que a divergência de pontos de vista entre as partes quanto à posição da Bélgica, que baseou suas alegações não só no seu status como uma das partes da Convenção, mas também na existência de um interesse especial que distinguiria a Bélgica das outras partes da Convenção e lhe daria um direito específico no caso do Sr. Habré.
Baseando-se no objeto e na finalidade da Convenção, que é “tornar mais eficaz a luta contra a tortura [...] em todo o mundo”, a Corte considera que os Estados partes da Convenção têm um interesse comum de assegurar, tendo em vista os seus valores compartilhados, que atos de tortura sejam evitados e que, caso venham a ocorrer, que seus autores fiquem impunes, independentemente da nacionalidade do infrator ou das vítimas, ou do local onde ocorreram os crimes alegados. A Corte considera que todos os outros Estados partes têm um interesse comum no cumprimento dessas obrigações por parte do Estado em cujo território o suposto autor está presente, que o interesse comum implica que as obrigações em questão são devidas por qualquer Estado parte a todos os outros Estados partes da Convenção. Conclui-se
que todos os Estadps partes “têm um interesse legal” na proteção dos direitos envolvidos (Barcelona Traction, Light and Power Company, Limited, Julgamento, Relatórios da CIJ de 1970, p. 32, parágrafo 33) e que estas obrigações podem ser definidas como “obrigações erga omnes”, no sentido de que cada Estado parte tem interesse no cumprimento delas, em qualquer caso.
A Corte conclui que a Bélgica, como um Estado parte da Convenção contra a Tortura, tem legitimidade para invocar a responsabilidade do Senegal pelas alegadas violações de suas obrigações nos termos do artigo 6, parágrafo 2, e artigo 7, parágrafo 1, da Convenção no presente processo. Por isso, as reivindicações da Bélgica com base nestas disposições de tratado são admissíveis. Em vista desta admissibilidade, a Corte considera que não há necessidade de pronunciar-se sobre se Bélgica também tem um interesse especial no que diz respeito ao cumprimento do Senegal com as disposições relevantes da Convenção no caso do Sr. Habré.
IV. As violações alegadas da Convenção contra a Tortura (parágrafos 71-117)
A Corte recorda que, enquanto em sua petição inicial, a Bélgica solicitou-lhe que julgasse e declarasse que o Senegal é obrigado a instaurar um processo criminal contra o Sr. Habré e, na sua falta, a extraditá-lo para a Bélgica, nas suas alegações finais, pediu à Corte que julgasse e declarasse que o Senegal violou e continua a violar as suas obrigações nos termos do artigo 6, parágrafo 2, e artigo 7, parágrafo 1, da referida Convenção ao não intentar ação criminal contra o Sr. Habré, a menos que o extradite. O requerente também destacou, durante o processo, que as obrigações decorrentes destas duas disposições da Convenção e do artigo 5 estão intimamente ligadas umas com as outras no contexto de alcançar o objeto e a finalidade da Convenção, que é de tornar mais eficaz a luta contra a tortura. Assim, incorporando a legislação adequada no direito nacional (artigo 5, parágrafo 2), permitiria ao Estado em cujo território o suspeito está presente imediatamente fazer uma investigação preliminar dos fatos (artigo 6, parágrafo 2), uma condição necessária a fim de permitir que o Estado, com conhecimento dos fatos, submeta o caso às suas autoridades competentes para fins de procedimento criminal (artigo 7, parágrafo 1).
A Corte observa que p Senegal contesta as alegações da Bélgica e considera que não violou qualquer disposição da Convenção contra a Tortura. O respondente sustenta que a Convenção divide a obrigação dedere aut judicare aut em uma série de ações que um Estado deve tomar e que as medidas que ele tomou até agora mostram que ele cumpriu com os seus
compromissos internacionais, que são, em grande medida, deixados ao critério do Estado em causa. Depois de ter afirmado que ele resolveu não extraditar o Sr. Habré, mas sim organizar o seu julgamento e julgá-lo, o Senegal sustenta que adotou reformas constitucionais e legislativas em 2007-2008, em conformidade com o artigo 5 da Convenção, para que lhe permitisse realizar um julgamento justo e equitativo do alegado autor dos crimes em questão razoavelmente rápido. Afirma ainda que as medidas tomadas para restringir a liberdade do Sr. Habré, nos termos do artigo 6 da Convenção, bem como outras medidas tomadas em preparação para o julgamento do Sr. Habré, contempladas sob a égide da União Africana, devem ser consideradas como os primeiros passos para o cumprimento da obrigação de processar prevista no artigo 7 da Convenção.
A Corte afirma que, embora não tenha jurisdição sobre a alegada violação do artigo 5, parágrafo 2, da Convenção mencionada anteriormente, deve-se notar que o desempenho do Estado de sua obrigação de estabelecer a jurisdição universal de suas cortes sobre o crime de tortura (artigo 5, parágrafo 2) é uma condição necessária para permitir uma investigação preliminar (artigo 6, parágrafo 2), e para a apresentação do caso às suas autoridades competentes para fins de procedimento criminal (artigo 7, parágrafo 1). O objetivo de todas essas obrigações é permitir que processos sejam instaurados contra o suspeito, na ausência de sua extradição, e alcançar o objetivo e propósito da Convenção, que é o de tornar mais eficaz a luta contra a tortura ao evitar a impunidade dos perpetradores de tais atos.
A Corte observa que a obrigação do Estado de criminalizar a tortura e de estabelecer sua jurisdição sobre ela, que encontra o seu equivalente nas disposições de muitas convenções internacionais para o combate de crimes internacionais, tem que ser implementada pelo Estado em causa logo que ele é vinculado à Convenção. Esta obrigação tem, em particular, um caráter preventivo e dissuasivo, uma vez que, equipando-se com os instrumentos jurídicos necessários para julgar esse tipo de crime, os Estados partes asseguram que os seus sistemas legais irão operar para tal efeito e se comprometem a coordenar os seus esforços para eliminar qualquer risco de impunidade. A este respeito, a Corte considera que, ao não adotar a legislação necessária até 2007, o Senegal atrasou a apresentação do caso às suas autoridades competentes para efeitos de procedimento criminal, na medida em que, em 04 de julho de 2000 e 20 de Março de 2001, respectivamente, a Corte de Apelação de Dakar e a Corte de Cassação senegalesa foram levadas a concluir que as cortes senegalesas não tinham jurisdição para apreciar uma ação contra o Sr. Habré, que havia sido indiciado por crimes contra a humanidade, atos de tortura e barbárie, na ausência de uma legislação adequada permitindo tais processos no ordenamento jurídico nacional. A Corte conclui que o atraso na adoção da
legislação exigida necessariamente afetou a implementação senegalesa das obrigações impostas pelo artigo 6, parágrafo 2, e artigo 7, parágrafo 1, da Convenção. A Corte, tendo em conta a ligação que existe entre as diferentes disposições da Convenção, em seguida, analisa as alegadas violações do artigo 6, parágrafo 2, e artigo 7, parágrafo 1, da Convenção.
A. A alegada violação da obrigação prevista no artigo 6, parágrafo 2, da Convenção (parágrafos 79-88)
Depois de recordar que, nos termos do artigo 6, parágrafo 2, da Convenção, o Estado, em cujo território a pessoa acusada de ter cometido atos de tortura está presente, “deve imediatamente realizar uma investigação preliminar dos fatos”, a Corte observa que, enquanto a Bélgica considera que a obrigação decorrente desta disposição é uma processual – no sentido de que o referido Estado deve tomar medidas eficazes para reunir provas, se necessário, por meio de assistência judicial mútua, dirigindo cartas rogatórias a países que possam ser capazes de o ajudar -, o Senegal considera que é simplesmente uma obrigação de resultado, porque o inquérito visa estabelecer os fatos, e não conduz necessariamente à acusação, uma vez que o procurador pode, à luz dos resultados, considerar que não existem motivos para tais procedimentos. Em qualquer caso, as reivindicações do Senegal demonstram que esse cumpriu com a referida obrigação.
Na opinião da Corte, a investigação preliminar prevista no artigo 6, parágrafo 2, é destinada, como qualquer inquérito realizado pelas autoridades competentes, a confirmar ou não as suspeitas sobre a pessoa em questão. Tal inquérito é conduzido pelas referidas autoridades que têm a tarefa de elaborar um dossiê e coletar fatos e provas; isso pode ser constituído por documentos ou depoimentos de testemunhas relacionados aos eventos em questão e ao possível envolvimento do suspeito na matéria em causa. A Corte considera que a cooperação das autoridades do Chade deveria ter sido procurada neste caso, e de qualquer outro Estado onde queixas foram apresentadas em relação ao caso, de modo a permitir ao Senegal cumprir com sua obrigação de realizar uma investigação preliminar. A Corte observa que o Senegal não incluiu nos autos qualquer material demonstrando que realizou tal inquérito em relação ao Sr. Habré. Ela considera que não é suficiente, como sustenta o Senegal, para um Estado parte da Convenção ter adotado todas as medidas legislativas necessárias para a sua implementação; ele também deve exercer a sua jurisdição sobre qualquer ato de tortura que está em causa, a começar pelo estabelecimento os fatos. O questionamento à primeira vista que o juiz de instrução no Tribunal Regional hors classe de Dakar conduziu, a fim de
estabelecer a identidade do Sr. Habré e de informá-lo dos atos de que foi acusado, não pode ser considerado como cumprimento da obrigação prevista no artigo 6, parágrafo 2, uma vez que não envolve qualquer inquérito sobre as acusações contra o Sr. Habré.
A Corte observa que, embora as escolhas dos meios para a realização do inquérito permaneçam nas mãos dos Estados partes, tendo em conta o caso em questão, o artigo 6, parágrafo 2, da Convenção exige que medidas que devem ser tomadas tão logo o suspeito é identificado no território do Estado, a fim de conduzir uma investigação deste caso. O estabelecimento dos fatos em causa, que é uma etapa essencial no processo, foi imperativo no presente caso, pelo menos desde o ano de 2000, quando uma queixa foi apresentada no Senegal contra o Sr. Habré. Além disso, o Senegal não abriu uma investigação sobre os fatos em 2008, quando outra denúncia contra o Sr. Habré foi apresentada em Dakar após as alterações legislativas e constitucionais feitas em 2007 e 2008.
Uma vez que o próprio Senegal declarou, em 2010, perante a Corte de Justiça da CEDEAO, que não havia processo pendente ou processo em curso contra o Sr. Habré nas cortes senegalesas, a Corte conclui que o Senegal violou sua obrigação nos termos do artigo 6, parágrafo 2, da Convenção por não ter imediatamente iniciado uma investigação preliminar assim que as suas autoridades competentes tinham motivos para suspeitar do Sr. Habré, que estava em seu território, por ser responsável por atos de tortura. A Corte considera que este ponto foi atingido, no mais tardar, quando a primeira queixa foi apresentada contra o Sr. Habré, em 2000.
B. A alegada violação da obrigação prevista no artigo 7, parágrafo 1, da Convenção (parágrafos 89-117)
Tendo citado o artigo 7, parágrafo 1, da Convenção, que estabelece que: “[o] Estado parte no território, sob cuja jurisdição uma pessoa acusada de ter cometido qualquer crime referido no artigo 4 se encontra, deve, nos casos previstos no artigo 5, se não extraditá-la, submeter o caso às suas autoridades competentes para fins de procedimento criminal”, a Corte observa que a obrigação de submeter o caso às suas autoridades competentes para fins de procedimento criminal (doravante denominada “obrigação de julgar”), que deriva desta disposição, foi formulada de maneira a deixar para as referidas autoridades a decisão de dar início ou não no processo, respeitando, assim, a independência dos sistemas judiciais dos Estados partes. As autoridades, assim, permanecem responsáveis por decidir sobre a possibilidade de iniciar um processo, à luz da evidência diante delas e das normas do processo
penal. No presente caso, a Corte é da opinião de que a alegação da Bélgica relativa à aplicação do artigo 7, parágrafo 1, levanta um certo número de questões sobre a natureza e o significado da obrigação nele contida e seu âmbito temporal, bem como a sua aplicação no presente caso.
1. A natureza e o significado da obrigação prevista no artigo 7, parágrafo 1 (parágrafos 92-95)
A Corte esclarece a natureza e o significado da obrigação de julgar, indicando que o artigo 7, parágrafo 1, exige o Estado em cujo território o suspeito está presente a submeter o caso às suas autoridades competentes para fins de procedimento criminal, independentemente da existência de um pedido prévio para a extradição do suspeito. Este Estado é, portanto, obrigado a fazer uma investigação preliminar (artigo 6, parágrafo 2) imediatamente a partir do momento que o suspeito se encontre presente em seu território, entendendo-se que a obrigação de submeter o caso às autoridades competentes, nos termos do artigo 7, parágrafo 1, pode ou não resultar na instauração de um processo, à luz das evidências diante dele, relativo às acusações contra o suspeito. A Corte afirma que se, no entanto, o Estado em cujo território o suspeito está presente recebeu um pedido de extradição em qualquer um dos casos previstos nas disposições da Convenção, ele pode aliviar-se da sua obrigação de julgar por aderir a essa solicitação. A escolha entre a extradição ou a submissão para julgamento, nos termos da Convenção, não significa que as duas alternativas devem receber o mesmo peso, pois, enquanto a extradição é uma opção oferecida ao Estado pela Convenção, o julgamento, por outro lado, é uma obrigação internacional prevista pela Convenção, cuja violação é um ato ilícito envolvendo a responsabilidade do Estado.
2. O âmbito temporal da obrigação prevista no artigo 7, parágrafo 1 (parágrafos 96-105)
Em relação à questão relativa à aplicação temporal do artigo 7, parágrafo 1, da Convenção, de acordo com a época em que os crimes foram alegadamente cometidos e as datas de entrada em vigor da Convenção para o Senegal (26 de junho de 1987) e para a Bélgica (25 de junho 1999), a Corte, após ter constatado que não há nenhuma divergência clara entre as visões das partes sobre a questão, considera que a proibição da tortura é parte do direito internacional consuetudinário e tornou-se uma norma imperativa (jus cogens). Essa proibição é baseada em uma prática internacional generalizada e na opinio juris dos Estados,
tendo em conta o fato de que ela aparece em numerosos instrumentos internacionais de aplicação universal e foi introduzida no direito doméstico de quase todos os Estados, e que os atos de tortura são regularmente denunciados em instâncias nacionais e internacionais.
No entanto, a Corte afirma que, de acordo com o disposto no artigo 28 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, que reflete o direito consuetudinário sobre a questão da interpretação dos tratados, a obrigação de julgar os alegados responsáveis por atos de tortura no âmbito da Convenção aplica-se somente aos fatos ocorridos após a sua entrada em vigor para o Estado em causa. Ela, assim, observa que nada na Convenção contra a Tortura revela a intenção de exigir um Estado parte a criminalizar, nos termos do artigo 4, atos de tortura que ocorreram antes de sua entrada em vigor para esse Estado, ou a estabelecer sua jurisdição sobre tais atos em conformidade com o artigo 5. Segue-se que a obrigação de julgar não se aplica a tais atos. Isto foi confirmado pelo Comitê das Nações Unidas contra a Tortura, em sua decisão de 23 de Novembro de 1989 no caso de OR, MM e MS vs. Argentina, no qual afirmou que “‘tortura’, para fins da Convenção, só pode significar a tortura que ocorre após a entrada em vigor da Convenção."”
A Corte conclui que a obrigação do Senegal de processar nos termos do artigo 7, parágrafo 1, da Convenção não se aplica a atos que supostamente teriam sido cometidos antes da Convenção ter entrado em vigor, para isso em 26 de Junho de 1987. Ela observa, porém, que, uma vez que as denúncias contra o Sr. Habré incluem uma série de delitos graves supostamente cometidos após essa data, o Senegal está sob a obrigação de apresentar as alegações sobre tais atos às suas autoridades competentes para fins de procedimento criminal. A Corte afirma ainda que, apesar de o Senegal não ser obrigado, ao abrigo da Convenção, a instituir procedimentos relativos aos atos que foram cometidos antes de 26 de junho de 1987, nada nesse instrumento impede de fazê-lo.
Com relação à pergunta sobre o efeito da data de entrada em vigor da Convenção, para a Bélgica, no âmbito da obrigação do Senegal para julgar, a Corte observa uma notável divergência entre as visões das partes. Enquanto a Bélgica afirma que o Senegal ainda estava vinculado à obrigação de processar o Sr. Habré depois da Bélgica ter se tornado parte da Convenção, e que, portanto, tinha o direito de invocar perante a Corte as violações da Convenção ocorridas depois de 25 de julho de 1999, o Senegal contesta o direito da Bélgica de exercer a sua responsabilidade por atos que teriam ocorrido antes dessa data, uma vez que a obrigação prevista no artigo 7, parágrafo 1, pertence, segundo o respondente, à “categoria de obrigações erga omne divisíveis” e que só o Estado lesado pode pedir que sua violação seja sancionada. O Senegal, em conformidade, conclui que a Bélgica não tinha o direito de invocar
o status de Estado lesado em relação a atos anteriores a 25 de julho de 1999 e não poderia requerer a aplicação retroativa da Convenção.
A Corte considera que a Bélgica goza de direito, com efeitos a partir de 25 de julho de 1999, data em que se tornou parte da Convenção, para solicitar que a Corte se pronuncie sobre a conformidade do Senegal com a sua obrigação nos termos do artigo 7, parágrafo 1 (a mesma conclusão também sendo válida em relação ao artigo 6, parágrafo 2). No presente caso, a Corte observa que a Bélgica invoca a responsabilidade do Senegal para a conduta desta última, a partir do ano 2000, quando uma queixa foi apresentada contra o Sr. Habré no Senegal.
3. Implementação da obrigação prevista no artigo 7, parágrafo 1 (parágrafos 106-117)
A Corte recorda as respectivas posições das partes sobre a implementação da obrigação de processar. A Bélgica, embora reconhecendo que o prazo para a implementação da referida obrigação depende das circunstâncias de cada caso, e, em particular, das provas reunidas, considera, em primeiro lugar, que o Estado em cujo território o suspeito está presente não pode adiar indefinidamente o cumprimento da obrigação que lhe incumbe de levar o assunto às suas autoridades competentes para fins de procedimento criminal, uma vez que a procrastinação por parte deste Estado pode violar tanto ambos os direitos das vítimas e os do acusado. A Bélgica também é da opinião de que as dificuldades financeiras invocadas por Senegal não podem justificar o fato de que este último não tem feito nada para conduzir uma investigação e iniciar um processo. Finalmente, o requerente alega que o encaminhamento que o Senegal fez da questão para a União Africana, em janeiro de 2006, não o exime de cumprir suas obrigações nos termos da Convenção, particularmente desde que, na sua sétima sessão, em julho de 2006, a Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana determinou ao Senegal “processar e garantir que Hissène Habré fosse julgado, em nome da África, por uma corte senegalesa competente, com garantias de um julgamento justo”. A Bélgica sustenta ainda que o Senegal não pode confiar em seu direito interno, ou no julgamento da Corte de Justiça da CEDEAO, de 18 de novembro de 2010, a fim de evitar sua responsabilidade internacional.
A Corte observa que, por sua vez, o Senegal tem repetidamente afirmado, ao longo do processo, a sua intenção de cumprir a sua obrigação nos termos do artigo 7, parágrafo 1, da Convenção, tomando as medidas necessárias para instaurar processos contra o Sr. Habré. O Senegal afirma que só procurou apoio financeiro a fim de preparar o julgamento sob
condições favoráveis, dada a sua natureza única, tendo em conta o número de vítimas, a distância que as testemunhas teriam de viajar e a dificuldade de obtenção de provas e que, ao se referir a questão para a União Africana, nunca foi sua intenção a de se aliviar de suas obrigações. Em relação ao julgamento da Corte de Justiça da CEDEAO, o Senegal observa que ele não é uma restrição de natureza doméstica, afirmando que, embora tendo em conta o seu dever de cumprir com a sua obrigação convencional, ele não deixa de estar sujeito à autoridade desta Corte, que o obrigava a fazer mudanças fundamentais ao processo iniciado em 2006, projetado para resultar em um julgamento a nível nacional, e para mobilizar esforços no sentido de criar um tribunal ad hoc de caráter internacional, estabelecimento do qual seria mais complicado.
A Corte considera que o dever do Senegal de cumprir com as suas obrigações nos termos da Convenção não pode ser afetado pela decisão da Corte de Justiça da CEDEAO, que as dificuldades financeiras levantadas pelo Senegal não podem justificar o fato de não dar início ao processo contra o Sr. Habré e que o encaminhamento da questão para a União Africana não pode justificar os atrasos do Senegal no cumprimento de suas obrigações nos termos da Convenção. A Corte observa que, nos termos do artigo 27 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, que reflete o direito consuetudinário, o Senegal não pode justificar a sua violação da obrigação prevista no artigo 7, parágrafo 1, da Convenção contra a Tortura, invocando disposições do seu direito interno, em particular, invocando as decisões quanto à falta de jurisdição proferidas por suas cortes em 2000 e 2001, ou o fato de que não adotou a legislação necessária nos termos do artigo 5, parágrafo 2, da referida Convenção até 2007.
A Corte observa que, embora o artigo 7, parágrafo 1, da Convenção não contém qualquer indicação quanto ao prazo para cumprimento da obrigação que ele prevê, está necessariamente implícito no texto que ele deve ser implementado dentro de um tempo razoável, de forma compatível com o objeto e a finalidade da Convenção, razão pela qual processos devem ser realizados sem demora. No presente caso, a Corte conclui que a obrigação prevista no artigo 7, parágrafo 1, exigiu ao Senegal tomar todas as medidas necessárias para a sua implementação o mais rápido possível, em particular, uma vez que a primeira denúncia tinha sido apresentada contra o Sr. Habré em 2000. Tendo falhado em fazê-lo, o Senegal violou e permanece violando suas obrigações nos termos do artigo 7, parágrafo 1, da Convenção.
A Corte recorda que, nas suas alegações finais, a Bélgica pediu à Corte para declarar e julgar, em primeiro lugar, que o Senegal violou suas obrigações internacionais ao não incorporar, no devido tempo, ao seu direito nacional, as disposições necessárias para permitir às autoridades judiciais senegalesas o exercício da jurisdição universal prevista no artigo 5, parágrafo 2, da Convenção contra a Tortura, e que violou e continua a violar as suas obrigações internacionais ao abrigo do artigo 6, parágrafo 2, e artigo 7, parágrafo 1, da Convenção por não instaurar um processo penal contra o Sr. Habré para os crimes que ele é acusado de ter cometido, ou, caso contrário, por não extraditá-lo para a Bélgica para efeitos de processo penal. A Bélgica também pediu a Corte que julgasse e declarasse que o Senegal deve cessar tais atos internacionalmente ilícitos mediante a apresentação sem demora do “caso Hissène Habré” às suas autoridades competentes para fins de procedimento criminal ou, na sua falta, extraditando o Sr. Habré para Bélgica sem mais delongas.
A Corte recorda que a falta de adoção, pelo Senegal, até 2007, das medidas legislativas necessárias para instaurar processo com base na jurisdição universal atrasou a aplicação das suas obrigações previstas na Convenção. A Corte recorda ainda que o Senegal não cumpriu sua obrigação nos termos do artigo 6, parágrafo 2, da Convenção de fazer uma investigação preliminar dos crimes de tortura que teriam sido cometidos pelo Sr. Habré, bem como a obrigação prevista no artigo 7, parágrafo 1, de submeter o caso às suas autoridades competentes para fins de procedimento criminal. O objetivo destas disposições do tratado é impedir que os alegados autores de atos de tortura fiquem impunes, ao assegurar que eles não consigam encontrar refúgio em qualquer Estado parte. O Estado em cujo território o suspeito está presente, de fato, tem a opção de extraditá-lo para um país que tenha feito tal pedido, mas sob a condição de que é para um Estado que tem jurisdição, em alguma capacidade, nos termos do artigo 5 da Convenção, para processar e julgá-lo.
A Corte sublinha que, ao não cumprir suas obrigações nos termos do artigo 6, parágrafo 2, e do artigo 7, parágrafo 1, da Convenção, o Senegal envolveu sua responsabilidade internacional. Consequentemente, o Senegal é obrigado a cessar este ato ilícito contínuo, de acordo com o direito internacional geral sobre a responsabilidade dos Estados por atos internacionalmente ilícitos. O Senegal deve, portanto, tomar, sem demora, as medidas necessárias para submeter o caso às suas autoridades competentes para fins de procedimento criminal, se não extraditar o Sr. Habré.
Por estas razões, A CORTE,
(1) Por unanimidade,
Declara que tem competência para julgar a disputa entre as partes quanto à interpretação e aplicação do artigo 6, parágrafo 2, e artigo 7, parágrafo 1, da Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Punições Cruéis, Desumanas ou Degradantes, de 10 de dezembro de 1984, que o Reino da Bélgica apresentou à Corte em seu requerimento apresentado na Secretaria em 19 de fevereiro de 2009;
(2) Por quatorze votos a dois,
Declara que não tem competência para julgar as reivindicações do Reino da Bélgica relativas às alegadas violações, pela República do Senegal, de obrigações decorrentes do direito internacional consuetudinário;
A FAVOR: presidente Tomka; vice-presidente Sepúlveda-Amor; juízes Owada, Keith, Bennouna, Skotnikov, Cançado Trindade, Yusuf, Greenwood, Xue, Donoghue, Gaja, Sebutinde; juiz ad hoc Kirsch;
CONTRA: juiz Abraham; juiz ad hoc Sur; (3) Por quatorze votos a dois,
Declara que as reivindicações do Reino da Bélgica baseadas no artigo 6, parágrafo 2, e no artigo 7, parágrafo 1, da Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Punições Cruéis, Desumanas ou Degradantes de 10 de dezembro de 1984 são admissíveis;
A FAVOR: presidente Tomka, vice-presidente Sepúlveda-Amor, juízes Owada, Abraão, Keith, Bennouna, Skotnikov, Cançado Trindade, Yusuf, Greenwood, Donoghue, Gaja, Sebutinde; juiz ad hoc Kirsch;
CONTRA: juiz Xue e juiz ad hoc Sur ; (4) Por quatorze votos a dois,
Declara que a República do Senegal, ao não fazer imediatamente uma investigação preliminar dos fatos relacionados aos crimes supostamente cometidos pelo Sr. Hissène Habré, violou a sua obrigação nos termos do artigo 6, parágrafo 2, da Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Punições Cruéis, Desumanas ou Degradantes de 10 de dezembro de 1984;
A FAVOR: presidente Tomka, vice-presidente Sepúlveda-Amor, juízes Owada, Abraão, Keith, Bennouna, Skotnikov, Cançado Trindade, Greenwood, Donoghue, Gaja, Sebutinde; juízes ad hoc Sur e Kirsch;
CONTRA: juízes Yusuf, Xue; (5) Por quatorze votos a dois,
Declara que a República do Senegal, ao não submeter o caso do Sr. Hissène Habré às suas autoridades competentes para fins de procedimento criminal, violou a sua obrigação nos termos do artigo 7, parágrafo 1, da Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Punições Cruéis, Desumanas ou Degradantes de 10 de dezembro de 1984;
A FAVOR: presidente Tomka, vice-presidente Sepúlveda-Amor, juízes Owada, Abraão, Keith, Bennouna, Skotnikov, Cançado Trindade, Yusuf, Greenwood, Donoghue, Gaja, Sebutinde; juiz ad hoc Kirsch;
CONTRA: juiz Xue e juiz ad hoc Sur; (6) Por unanimidade,
Declara que a República do Senegal deve, sem mais delongas, submeter o caso de Sr. Hissène Habré às suas autoridades competentes para fins de procedimento criminal, se não o extraditar.
O juiz Owada anexa uma declaração ao acórdão da Corte; juízes Abraão, Skotnikov, Cançado Trindade e Yusuf anexam opiniões individuais ao acórdão da Corte; juiz Xue anexa uma opinião divergente ao acórdão da Corte; o juiz Donoghue anexa uma declaração ao acórdão da Corte; o juiz Sebutinde anexa um parecer em separado ao ao acórdão da Corte; o juiz ad hoc Sur anexa opinião divergente ao acórdão da Corte.