A MÍSTICA CRISTÃ NA CONTEMPORANEIDADE
Aluno: Yan Piorno
Orientadora: Maria Clara Lucchetti Bingemer
Introdução
No período em que vivemos, o cristianismo sofre, devido à aceleração histórica e suas respectivas demandas, com a perda de espaço na sociedade. Entender o conflito da atualização da mensagem cristã e mística com a vivência pós-moderna é o nosso desafio nesta pesquisa.
A vida de Santa Tereza Benedita da Cruz, mais conhecida como Edith Stein,nos dá conteúdo satisfatório para observarmos a vivência cristã dentro deste contexto, em que a queda das referências ideológicas, a percepção ambígua e multiforme da realidade já são características inerente em boa parte da população, que se sente fragilizada, fragmentada e sem parâmetros. Dissolve-se a concepção integral do ser humano, sua relação com o mundo e com Deus.
Edith nos faz aprender a dialogar com as diferenças, a ser ecumênicos e a, acima de tudo, testemunhar uma vida de oração capaz de entusiasmar qualquer um no que se refere à mística.
Nosso intuito é o de desvendar nesta sociedade pós-moderna sua relação com a mística, alem de observar em Edith Stein sua experiência de fé e de como esta pode contribuir para o dialogo ecumênico e ao contemporâneo pensamento cristão.
Partindo do contexto histórico hodierno, buscou-se compreender o período de transição da modernidade para a pós-modernidade, mostrando que esta nova contextualização é marcada pela crise do ser humano devido a suas decepções e reações acerca da razão absoluta. Todas as afirmações transformam-se em dúvidas constantes que tornam o ser humano um ser fragmentado, sem base fixa, o que gerou um esvaziamento do sentido de história universal. Posteriormente, é identificado o contexto do surgimento do termo “pós-modernidade” como sendo o contexto artístico que, tinha por características uma liberdade de formas e sem bases fixas tornando-a uma arte independente. Tais características serão utilizadas para expressar, também, o contexto em desenvolvimento.
Assim, fez-se necessário, a partir desse estudo, elencar algumas características dos seres humanos que fazem parte deste novo paradigma histórico. Serão vistos como sendo contraditórios, fragmentados e sucessíveis a constantes mudanças, valorizando mais a liberdade individual em detrimento da liberdade coletiva.
A idéia que o ser humano tem de Deus acompanha a idéia de transformação pela qual ele passa. Por isso, com o enfraquecimento da idéia de Deus enfraquece-se, também, a idéia de homem, ficando reduzido a uma imagem difusa e insignificante. A religião é vista como algo exclusivo e privado, onde são apenas acolhidas as verdades convenientes ao interesse de cada um. As religiões passam a ser vistas como um “supermercado” em que só se consome o que é atraente, prático e rápido.
Ao se desenvolver a mística neste contexto vemos o quanto esta é desvalorizada e desacreditada, sendo vista como algo distante e irreal. Faz-se necessário compreender que o real sentido da mística envolve o ser humano como um todo, não só no seu aspecto religioso, mas também político e social. Tal desvalorização ocorre no seu próprio desenvolvimento histórico. A mística passa a ser vista apenas no âmbito sentimental e emocional, gerando um dualismo espiritual-corporal, em que o corpo seria a “prisão da alma”, sendo por isso desvalorizada socialmente.
Assim, o verdadeiro místico cristão é aquele que, em seu tempo, realiza uma profunda experiência com Cristo e a vive dentro de sua realidade e que, a partir desta, é impulsionado a mudar o quadro de injustiça social no qual está inserido. Alguém que é atuante, não passivo e conivente com qualquer espécie de opressão.
Edith Stein ou Santa Tereza Benedita da Cruz, viveu num período de um profundo embate político. Os sentimentos intensos das guerras mundiais estavam aflorados numa inesgotável tensão global. Judia, convertida ao cristianismo no contexto de perseguição ao seu povo, nos oferece material suficiente de como a vivência mística pode ser exemplo de transformação e nutrição de fé no período em que vivemos. Como confrontar esta existência mística com a conjuntura pós-moderna, foi e é a nossa provocação.
Primeiro passo
Foi necessário ler todo o material já pesquisado pela aluna bolsista anterior, principalmente no que se refere à modernidade e à pós-modernidade. Apontamos as devidas transformações e acontecimentos na transição de um período para outro.
Percebemos a crise do ser humano diante da investida sobre a razão absoluta. Todas as afirmativas transformaram-se em dúvidas constantes, fragmentando-o. Os
parâmetros pos-modernos não são mais seguros, mas sim incertos, num vazio existencial e histórico.
Classificamos as características e estudamos a pós-modernidade e como o ser humano se transformou neste período. De como se passou a valorizar principalmente a liberdade individual. Seu entendimento de si mesmo muda e sua relação com Deus também. Modificam-se assim, seus valores e o modo de ver a sua realidade. A idéia que o ser humano tem de Deus acompanha sua forma de ver o mundo e a si mesmo. Fica tudo reduzido a uma imagem difusa e insignificante.
Em relação à mística, partimos do conceito desenvolvido numa perspectiva cristã e percebemos como ela está desvalorizada e desacreditada, como algo distante e irreal. Já que a mística cristã leva em conta a integridade do ser humano, seja subjetivo, seja em suas relações coletivas, seja em seu aspecto religioso, seja também no aspecto político e social somos levados a afirmar em nossa analise que, longe de um dualismo, a mística considera todos os aspectos em que o ser humano está inserido. Trata-se, portanto, de uma experiência humana altamente integradora.
Segundo Passo
Neste segundo passo fizemos um levantamento bibliográfico sobre a vida da Santa e o que seria pertinente para este estudo. Para isto, lemos um breve livro biográfico: “Edith Stein - Uma Santa em Auschwitz”, três textos sobre a Santa do livro
“Profetas e profecias: Numa visão interdisciplinar e contemporânea.”, também o
capítulo IV do livro “As Santas Doutoras: espiritualidade e emancipação da Mulher.” Vimos o filme “A Sétima Morada” e participamos de um seminário realizado na PUC, promovido pelo Centro Loyola, com a conferencista “Professora Doutora Irmã Jacinta
Turolo Garcia”. A partir da pesquisa dessas fontes podemos elencar o que seria
pertinente e coerente com nossa linha de trabalho.
O primeiro livro que citamos nos dá muito sucintamente todos os detalhes da vida de Edith. Já os textos seguintes nos mostram seu lado contemplativo, sua linguagem no silêncio do amor, sua experiência mística do amor ao outro, sua busca de respostas e o encontro destas na Verdade, da “loucura da Cruz” como o começo da verdadeira felicidade. Vimos igualmente como a profetisa que antes era uma intelectual segura e uma pioneira do pensamento e da ação, ao se tornar cristã, torna-se profundamente religiosa e dócil. O Capítulo IV citado anteriormente mostra-nos como a mulher Stein consegue superar com firmeza e coragem os desafios de sua época.
Verdadeira defensora de seu gênero não titubeia ao enfrentar conceitos machistas e opressores.
O filme “A Sétima Morada” demonstra bem toda sua luta e do seu povo por sobrevivência e por dignidade durante as perseguições nazistas. Também exibe os seus sofrimentos provenientes da recém entrada no catolicismo e os conflitos de sua época por ser uma mulher inteligente e independente. Perseguida, desde a academia até ao campo de concentração, liberta-se cada vez mais até seu martírio. Uma odisséia libertadora de profunda paz e intimidade com sua cruz, com Deus.
No seminário todos os pontos acima foram colocados, porém um nos chamou mais a atenção: a Irmã Jacinta fez uma leitura diferenciada do processo da, até então, dita conversão da Edith Stein. A conferencista discorre claramente que não foi um processo de conversão, mas sim uma passagem do judaísmo ao catolicismo. Não há uma ruptura com sua origem, mas uma adequação da sua fé na qual já existia a revelação cristã. Isto possibilitou um lindo diálogo com os seus parentes, principalmente com sua mãe. Ensina-nos assim, com muita ternura e humildade, o ecumenismo e o macro-ecumenismo, o dialogo inter-religioso, dimensão tão importante hoje para a teologia. E o ensina não teoricamente, mas com sua experiência e sua pratica. O diálogo está nas semelhanças e não nas diferenças.
Assim, Edith é mais do que testemunho de fé e vivência cristã. E testemunha do que significa ser verdadeiramente humana. Ela conseguiu desafiar sua época, seus medos, sua origem. Conseguiu se transformar, sem ruptura total de suas origens, mas pelo contrário, conseguindo ver o que havia de comum entre Cristianismo e Judaísmo. A partir dai foi que estabeleceu seu dialogo. Percebeu que o que havia de comum não eram só as semelhanças, mas sim que a linguagem do amor não precisa de tradução. Nos seus serviços altruístas em pleno campo de concentração e no respeito a sua mãe judia que não aceitava sua passagem ao cristianismo, ela falava com a linguagem do coração. Sua fé nestes momentos parece-nos inabalável, capaz de contagiar todos a sua volta.
Queremos colocar também que, para compreender o que os autores desejavam articular, todos os livros citados acima foram integralmente lidos, confrontados e discutidos com a orientadora e com a conferencista citada, Irmã Jacinta Turolo.
Terceiro Passo
Buscamos focar nosso trabalho nos pontos em que a Edith desempenhou um papel marcante. Nosso primeiro foco foi a questão da mulher. Seu ideal é a formação
humana em geral e a formação feminina. Sempre preocupada com a formação interior dos seus alunos, Stein tenta passar para suas alunas o desafio de se perceber como elas são e o devem ser, desdobrando sua humanidade, sua feminilidade e sua individualidade, sem deixar de notar seu enredamento e unidade. Nenhumas destas características são estudadas separadamente levando em conta suas ligações.
Para entendermos a questão do feminino e do masculino na atualidade, recorremos ao livro Feminino e Masculino de Rose Marie Muraro e Leonardo Boff. Vimos em outros textos o quanto é difícil fazer qualquer trabalho ontológico em relação a este tema, por isso, recorremos mais às questões da mulher de hoje e seus desafios. Como a Santa alemã pode nos acrescentar para encararmos o desafio de uma vivência mística confrontando com a mulher dos nossos tempos?
Quarto Passo
Neste momento em que as pessoas perderam as referências sólidas os valores altruístas também estão abrandados. No livro a Ciência da Cruz, nossa entusiasmada profeta nos oferece um grande desafio para esta geração descomprometida com o outro: a Cruz. Este símbolo tão equivocadamente entendido como algo que representa uma postura de submissão a um intenso sofrimento, no coração de Edith aflora com outro significado. Como possibilidade de ajudar, consolar o próximo na oferta do sangue precioso de Cristo.
Depois do seu contato com São João da Cruz, fundador da Ordem Carmelita a qual pertencia, através de um trabalho encomendado pela sua Priora, Edith permitiu que a semente da Cruz lhe fizesse um novo significado da sua conduta de fé e de vida, ajudando a superar e a resistir toda violência que passou. A Cruz passou a ser mais do que uma opção de vida devocional, passou a ser seu sobrenome, passou a ser sua essência.
Partindo desta experiência da Cruz, podemos dialogar com a sociedade contemporânea sedenta de significados e sentido de vida. O Senhor crucificado exige uma vivência comprometida com o outro. Uma profunda conversão de significados.
Nesta parte da pesquisa fica este desafio: é possível a adesão à Cruz nos dias de hoje? Como fazê-la seguindo o modelo da Santa Tereza Benedita da Cruz?
Quinto Passo
Depois de longa jornada sobre a vida e obra de Edith Stein, procuramos sintetizar a pesquisa e a responder as indagações que vinculam a Santa aos desafios que
a pesquisa propõe. Finalizamos este processo e elaboramos as conclusões finais deste processo.
Procuramos nesta pesquisa, diante dos desafios dados ao cristianismo e à atualização da sua mensagem, observar na vida e obra de Edith respostas que pudessem orientar e dar sentido à prática da mística cristã nesta época em que a humanidade vive profunda crise de sentidos, em que a queda das referências ideológicas, a percepção ambígua e multiforme da realidade são características inerente desta geração, que se sente fragilizada, fragmentada e sem parâmetros, dissolve-se a concepção integral do ser humano e a sua relação com o mundo e com Deus.
Sexto passo
Continuando nossa pesquisa sobre a grande filósofa, pensadora e mística Edith Stein, tomaremos nesta fase da pesquisa um conceito preciso que não foi por nós suficientemente trabalhado nas fases anteriores: o conceito de empatia. Trata-se de um conceito-chave no pensamento steiniano e de algo que vai influenciar sobremaneira o pensamento atual, pós-moderno, fragmentado e individualista. Edith considera ser empático uma aprendizagem de colocar-se no lugar do outro. Assim fazendo, seu pensamento nos faz aprender a dialogar com as diferenças, a ser ecumênicos e a, acima de tudo, a testemunhar uma vida de oração capaz de entusiasmar qualquer um no que se refere à mística.
Nosso intuito é o de desvendar nesta sociedade pós-moderna sua relação com a mística, além de observar em Edith Stein sua experiência de fé e de como esta pode contribuir para a superação da atual crise de sentidos. Partindo do contexto histórico hodierno, buscou-se nas etapas anteriores da pesquisa compreender o período de transição da modernidade para a pós-modernidade, mostrando que esta nova contextualização é marcada pela crise do ser humano devido a suas decepções e reações acerca da razão absoluta. Faz-se necessário compreender que o real sentido da mística envolve o ser humano como um todo, não só no seu aspecto religioso, mas também político e social. A mística passa a ser vista apenas no âmbito sentimental e emocional, gerando um dualismo espiritual-corporal, em que o corpo seria a “prisão da alma”, sendo por isso desvalorizada socialmente. A mística e o pensamento steiniano são inseparáveis. Toda a filosofia de Edith Stein nasce de sua experiência pessoal, existencial, religiosa e mística. E também e não menos do seu enfoque empático, do seu desejo de pensar a partir do lugar do outro. Nosso objetivo aqui é ler a obra steiniana ou
mesmo reler algumas obras da pensadora já abordadas por nós tendo como perspectiva e chave de leitura a empatia.
Sétimo passo
Finalizamos nossa pesquisa sobre a mística na contemporaneidade dentro da perspectiva steiniana. Durante este percurso observamos a vida, obra, mística e o olhar especial de Edith sobre a questão da mulher. Neste último momento, iremos explorar o pensamento da santa. Procuraremos as chaves que a guiaram nas suas dissertações e vida desde o judaísmo, ateísmo ao cristianismo católico.
Pesquisamos as referências que nortearam o pensamento da Edith Stein, como estas o influenciaram e averiguar as devidas proposições para nosso tempo. A referência do pensamento steiniano é capaz de nos proporcionar material teológico para as questões da mística hodierna. Passando pelo seu pensamento, poderemos verificar quais conteúdos podem auxiliar para o entendimento e enfrentamento destas questões místicas.
Percorreremos as bases filosóficas desde seu mentor Husserl até Tomás de Aquino, sem esquecer-se de Santa Tereza e São João da Cruz. Em três períodos diferentes poderemos sintetizar bem o pensamento steiniano: o fenomenológico, desde sua tese de doutorado em Göttingen até a conversão ao catolicismo; o período da passagem nos Carmelos, com conteúdo mais antropológico direcionado à educação; e, por fim, sua produção final com caráter mais místico.
Claro que teremos que direcionar nossa investigação às maiores influências como seu mentor Husserl, a teologia de Tomás de Aquino e a espiritualidade de Santa Tereza D’Ávila e São João da Cruz.
Para passarmos por Husserl teremos que lembrar as principais características filosóficas da fenomenologia, sem ignorar as relações que Stein fez com a filosofia teológica aristotélica de Tomás de Aquino. Temas antropológicos e existenciais serão abordados nos santos espanhóis, São João da Cruz e Santa Tereza D’Ávila, como a liberdade e o mal.
Conclusão
Esta pesquisa nos mostra que, apesar das diversas transformações pelas quais passa, o ser humano sempre tende a buscar o sagrado, pois necessita de um apoio na transcendência para que continue a sua luta diária em meio aos diversos sofrimentos que o afligem.
Vemos também que a figura do místico cristão é totalmente idealizada e não vista no seu verdadeiro aspecto: como um ser humano que, inserido em seu contexto e em total comunhão com Cristo, assume a vida deste como sua. Isso se reflete em sua própria experiência de vida, dentro de suas relações, dentro da história da qual faz parte. Logo, o místico cristão, mesmo em um contexto não religioso e mesmo ateu, e alguém que vive e atua, também, dentro do contexto da pós-modernidade.
Apontamos a capacidade que Edith tinha no diálogo ecumênico inter-religioso, visto que sua origem é judaica. Isso faz com que seja um arquétipo cristão devido a sua ternura ao enfrentar as brutalidades de sua época. Sua luta parece ser um bom exemplo de como, em situação conflituosa, o ser humano pode desenvolver uma mística mais autêntica. Leremos mais sobre sua vida, procurando perceber como ela pode nos responder a candente questão de como a Mística de nossa época passa por mudanças e de como isto pode ser significativo para o futuro da religião, alem de influir no que se refere ao comportamento da sociedade.
Apesar da modernidade não ser propícia ao religioso vemos que o homem pós-moderno busca um retorno ao sagrado. Mas essa é na maioria das vezes, pelo menos em nível consciente, uma busca por soluções de problemas psíquicos, espirituais, materiais e existenciais. Neste contexto, há hoje uma reinvenção do crer que encontra novas maneiras de expressar a experiência de Deus e a mística cristã. Isso é o que pretendemos explorar nesta pesquisa com destaque para o caso da filósofa judia que se torna carmelita, Edith Stein
Pretendemos fazer leituras de algumas obras sobre seu pensamento e sua mística. Isso seguramente nos levara a uma reflexão mais aprofundada sobre a relação entre judaísmo e cristianismo procurando ver como estas duas pertenças religiosas se entrelaçam na experiência de Edith Stein.
A mística da Edith Stein vai muito além dos conhecidos caminhos espirituais dos santos que balizaram a sua fé: Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz.
Santa Teresa Benedita da Cruz experimentou na sua vida a Noite Escura na sua Última Morada no campo de concentração. Neste período aterrorizante, ela nunca deixou de testemunhar a fé, a esperança e o amor. Sempre afável soube doar-se nas situações mais difíceis. Por isso, tomamos sua vida como exemplo que desafia qualquer inquietação desta era Pós-moderna.
Procuramos provocar as pessoas a perceberem, através da vida e mística de Edith Stein, o quanto neste momento é possível experimentar Cristo e de ter ou de dar sentido à vida, de dar norte a qualquer situação de crise.
A atualização da mensagem cristã também foi alvo de nossos interesses. Cada vez mais é imperativo apresentar uma conexão desta mensagem com o mundo em que vivemos. Stein é um belo elo que une com simplicidade o ser humano repleto de anseios à Cristo. Sua coragem e vigor diante dos conflitos que lhe foram proporcionados oferecem bom exemplo de que como a fé pode transformar situações perturbadoras em momentos de crescimento e de desenvolvimento humano.
Partimos da vida da Santa, colhemos os dados mais importantes, da sua conversão, do seu despojamento ao diálogo ecumênico desde o seio familiar, da sua capacidade de atitudes de alteridade nas suas investidas como enfermeira, professora e irmã carmelita, da sua inclinação do desenvolvimento das mulheres tendo Maria como exemplo, da sua vida acadêmica, do desenvolvimento da sua mística desde Santa Teresa a São João da Cruz e, por fim, do seu testemunho no Carmelo e campo de concentração. No primeiro momento falamos sobre as questões ecumênicas e familiares, de como a sua conversão não resultou num completo desligamento de sua origem judaica e como esta experiência significou um belo testemunho de tolerância e amor. Depois observamos sua aplicação na questão da mulher moderna, do quanto ela sempre incentivou a emancipação e autonomia da mulher, sempre orientando suas alunas com palavras e vida.
Por fim, entramos mais na questão da mística em São João da Cruz. Lá podemos ressaltar toda a sua entrega à Cruz. Neste momento, parece que a Santa, dentro do Carmelo, tendo que escrever escondida, tem certa intuição do que estava por vir. Edith, com muita humildade, mergulha profundamente no mistério de Cristo via Cruz, buscando uma maior aproximação com Deus, uma maior intimidade com o Cristo e sua Cruz. Permitindo que a semente da Teologia da Cruz afetasse sua vida de tal maneira que redirecionasse suas atitudes e possibilitando experimentar alegrias verdadeiras.
Edith Stein já diz no seu próprio nome de santa o que ela tem a nos oferecer: “Santa”, distinta desde sua juventude por nunca estra satisfeita com as respostas que davam aos seus questionamentos. Sempre procurou o conhecimento nos estudos a fim de acalentar sua alma. Somente diante da morte de um amigo que conheceu “Teresa” e disse satisfeita: aqui está a verdade. “Benedita da Cruz” pelo profundo amor a Cristo e, assim, ao próximo.
Santa Teresa Benedita da Cruz desenvolveu a mística da vida, mesmo quando sabia que iria morrer. Mística que diz a humanidade que viva intensamente junto a Vida, junto a Cristo. A esperança e alegria da santa mostra ao mundo que a vida tem sentido sim, tem significado maior do que qualquer dor, do que qualquer crise. É possível apostar com todo entusiasmo em si e no outro, pois a verdade que ela tanto procurou é o próprio Amor. Mas não é um amor vazio de significado ou de simples sentimento. É o amor que cultiva em nós o comprometimento com o outro. Que nos apresenta que a melhor maneira de corresponde a este Amor é amando. É assumindo a Cruz que liberta, consola e dá esperança.
A antropologia teológica de Gesché ilumina a prática de alteridade da santa, filósofa e professora Edith Stein. O ser humano capaz de criar e recriar sua realidade em busca da felicidade, pela fé que não fere sua humanidade, ultrapassa seus limites da compreensão. Consegue transcender sua própria condição e se abrir ao outro, à ética.
Edith, sempre inquieta com a realidade do outro, consegue fazer de sua fé uma fé coerente e humana. Humana capaz de aflorar as potencialidades mais admiráveis nas situações mais adversas.
Edith sempre se apresentou preocupada com o desenvolvimento de seus alunos, principalmente as alunas. Reconhecida como excelente educadora, Stein desenvolveu um método que estimulava o desenvolvimento humano. Analisamos sua antropologia pedagógica à luz da teológica. O livro O Ser Humano da autoria de Adolphe Gesché, nos possibilitará pensar sobre esses aspectos antropológicos de Edith Stein. Ajudou também e, sobretudo, a embasar teologicamente seu conceito filosófico de "empatia". O conceito de ser humano como criatura e criador de Gesché entre outros aspectos antropológicos nos fornecem recursos suficientes para desenvolver uma dialética capaz de captar as riquezas pedagógicas de Edith e possibilitar um diálogo com o mundo de hoje. Mundo que vive em crise de busca de sentidos, por isso as potencialidades humanas são alvo de nossa atenção.
Edith nos fornece no seu pensamento material suficiente para abordarmos os aspectos antropológicos desde o indivíduo e sua relação com o outro, do ser humano isolado às relações coletivas. O desenvolvimento humano está atrelado à sua integralidade em todas as dimensões, tanto material quanto espiritual. Podemos, assim, partir para as perspectivas relevantes a pós-modernidade e a solubilidade do ser humano, sempre levando em conta a liberdade e sua realização. Assim, os aspectos
éticos são relevantes para a realização do ser humano no trabalho de empatia e alteridade.
Referências
VANNINI, Marco. Introdução à Mística. 1.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005.
PEDRA, João Alberto. Edith Stein: Uma Santa em Ausschwitz. 1.ed. Curitiba: Edições Rosário, 1998.
BORRIELO, L. Dicionário de mística. São Paulo: Loyola: Paulus, 2003. 1084 p.
BINGEMER, Maria Clara Lucchetti; YUNES, Eliana. Profetas e profecias: Numa visão interdisciplinar e contemporânea. 1.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
JOSAPHAT, Carlos. As Santas Doutoras: espiritualidade e emancipação da Mulher. 2.ed. São Paulo: Edição Paulinas, 2005.
A SÉTIMA MORADA: SANTA EDITH STEIN. Direção: Marta Meszaros. Produção: Paulinas Comep. Ano de lançamento: 2007. Tempo: 110 min. Cor: Colorido. Midia: rmvb, 236 mb. Recomendação: livre.
STEIN, Edith. A mulher: Sua missão segundo a natureza e a graça; tradução Alfred J. Keller. 1. ed. Bauru: EDUSC, 1999.
BOFF, Leonardo; MURARO, Rose Marie. Feminino e Masculino: uma nova
consciência para o encontro das diferenças. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.
STEIN, Edith. A Ciência da Cruz; tradução D. Beda Kruse. 6. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2011.
GESCHÉ, Adolphe. O ser humano; tradução Euclides Martins Balancin. ed. São Paulo: Paulinas, 2003.
KUSANO, Mariana Bar. Antropologia de Edith Stein: Entre Deus e a Filosofia. Dissertação de Mestrado em Ciência da Religião. PUC-SP. São Paulo, 2009.