Capítulo 1
Prevenção das Toxicodependências
O fenómeno das toxicodependências representa um problema social preocupante para as sociedades actuais. Embora ainda longe de uma caracterização rigorosa, é hoje consensual que os problemas relacionados com o consumo de substâncias psicoactivas representam um dos mais sérios desafios que se coloca à humanidade (Szapocznik et al., 2007). As respostas a este desafio têm variado em função da evolução das concepções de intervenção que marcaram diferentes momentos sócio-históricos (Morel, Boulanger, Hervé & Tonnelet, 2001). Porém, quase todas as propostas de intervenção sustentam o papel crucial desempenhado pelas estratégias de prevenção, visível na multiplicação de acções preventivas, realizadas em diferentes contextos e com métodos muito diversificados (Negreiros, 1999).
O consumo de substâncias psicoactivas é especialmente problemático quando tem início na infância e na adolescência (Loeber, Stouthamer-Loeber & White, 1999). Quanto mais cedo o consumo é iniciado, mais rápido é o progresso para a toxicodependência (Grant, Stinson & Harford, 2001); e maior é a interferência negativa no desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças e dos adolescentes (Brook & Newcomb, 1995). No entanto, as investigações têm demonstrado que é possível prevenir o consumo de substâncias psicoactivas por crianças e adolescentes (NIDA, 2003; Szapocznik et al., 2007).
Para uma maior compreensão da prevenção das toxicodependências como resposta de intervenção ao uso e/ou abuso de substâncias psicoactivas, começa-se neste capítulo, por enquadrar teoricamente o conceito de prevenção, distinguindo as suas vertentes. Seguidamente, são explorados os processos de protecção e os processos de risco, com maior peso na infância e na adolescência, que, respectivamente, diminuem e aumentam o risco do consumo de substâncias. Por fim, são abordados os principais princípios dos programas de prevenção das toxicodependências, nos seus diferentes níveis e domínios de intervenção, e é apresentado o programa de prevenção considerado neste estudo: o Programa Intervir.
1.1 Prevenção das Toxicodependências: Aspectos Teóricos e Conceptuais
A valorização da prevenção como principal estratégia de intervenção nas toxicodependências foi acompanhada de mudanças no próprio conceito de prevenção
(Moreira, 2005). Caplan (1964) desenvolveu uma concepção tripartida da prevenção que distingue prevenção: (a) primária (conjunto de medidas dirigidas a uma determinada população, com o objectivo de diminuir a incidência da perturbação ou problema); (b) secundária (conjunto de medidas para diagnosticar e tratar certa perturbação ou problema precocemente); e (c) terciária (conjunto de medidas para recuperar uma população que teve uma certa perturbação ou problema). Mais recentemente, o Institute of Medicine (citado por Nation et al., 2003) propôs uma tipologia de prevenção em termos de prevenção: (a) universal (acções dirigidas à população em geral); (b) indicada (acções dirigidas a grupos de indivíduos que se encontram numa situação de maior risco de que a população em geral); e (c) selectiva (acções dirigidas a grupos de alto risco). Em ambas as concepções, prevenir significa desenvolver actividades que impeçam ou dificultem a chegada de determinada condição (Moreira, 2005).
Assim, a prevenção das toxicodependências pode entender-se como um processo activo na implementação de acções e estratégias de intervenção que visam modificar, retardar ou evitar o uso e/ou abuso de substâncias psicoactivas (Cunha Filho & Ferreira-Borges, 2008).
1.2 Processos de Protecção e Processos de Risco
As estratégias de prevenção das toxicodependências são normalmente desenvolvidas com base nos resultados das investigações acerca dos processos, ou factores, que potenciam ou diminuem o consumo de substâncias psicoactivas na infância e na adolescência (DiClemente & Cobb, 1999; Hawkins, Catalano & Arthur, 2002). Desta forma, a prevenção assenta nos dados sobre os processos de protecção e os processos de risco que indicam as características individuais ou ambientais que, no primeiro caso, fortalecem as capacidades biológicas, psicológicas e sociais para funcionar de um modo adaptado na sociedade e, no segundo caso, reduzem essas mesmas capacidades (Ornelas, 2008). Neste sentido, os processos de protecção podem constituir um atributo ou característica individual, condição situacional e/ou contexto ambiental que inibe, reduz ou atenua a probabilidade do uso e/ou abuso de substâncias psicoactivas, enquanto que, os processos de risco aumentam essa mesma probabilidade (NIDA, 2003). Em todo o caso, os processos de protecção e os processos de risco não devem ser encarados, por si só e de forma linear e directa, como percursores da toxicodependência. É da combinação entre ambos que pode resultar uma maior resiliência ou vulnerabilidade em relação a comportamentos aditivos (Moreira, 2005). Por outro lado, os processos de protecção e os processos de risco assumem valores diferentes dependendo dos traços de personalidade,
da fase de desenvolvimento e dos contextos em que o indivíduo está inserido (DiClemente & Cobb, 1999; Menezes, 2007), que devem ser tidos em conta no delineamento das actividades preventivas no âmbito da toxicodependência (NIDA, 2003).
De acordo com o National Institute of Drug Abuse (2003), é possível caracterizar os processos de protecção e os processos de risco em cinco níveis que devem constituir o foco da prevenção: (a) indivíduo; (b) família; (c) pares; (d) escola; e (c) comunidade.
Similarmente, Dunn e Mezzich (2007) referem que, nos períodos da infância e da adolescência, os processos de protecção e os processos de risco identificados mais frequentemente em relação ao uso e abuso de substâncias psicoactivas passam pelos seguintes domínios de intervenção: (a) auto-regulação; (b) competência social; (c) envolvimento parental e funcionamento familiar; e (d) envolvimento escolar e desempenho académico.
Os processos de risco podem influenciar o uso e abuso de substâncias psicoactivas de várias formas, no entanto a presença de fortes processos de protecção podem reduzir a influência dos processos de risco com maior peso (Hawkins, Catalano & Miller, 1992). Desta forma, um objectivo importante da prevenção passa por balancear os processos de protecção e os processos de risco, de modo a que os primeiros inibam os segundos (Hawkins et al., 2002; NIDA, 2003).
Como tal, Dunn & Mezzich (2007) defendem que as estratégias preventivas devem ter em conta: (a) a interrelação entre factores individuais e contextuais no envolvimento dos adolescentes no uso de substâncias psicoactivas; (b) a continuidade significativa do risco entre os períodos da infância e da adolescência; e (c) a importância de intervenções preventivas nos vários níveis, tendo em conta os diferentes domínios de intervenção.
1.3 Programas de Prevenção das Toxicodependências
Na implementação de estratégias preventivas, os programas de prevenção das toxicodependências têm vindo a assumir um papel central (Moreira, 2005; NIDA, 2003; Szapocznik et al., 2007). Segundo Moreira (2005), um programa de prevenção é “…um plano de actividades intencionalmente organizadas de forma a impedir a ocorrência da condição à volta da qual se organiza o programa” (p. 31).
Nos últimos anos, as investigações têm demonstrado que os programas de prevenção que apresentam resultados mais positivos são compreensivos e integradores, isto é, programas que incluem vários domínios de intervenção, dirigidos a níveis que influenciam o desenvolvimento e a perpetuação de comportamentos aditivos, como a família, a escola, a
comunidade, etc. (Nation et al., 2003). Como tal, grande parte dos programas de prevenção das toxicodependências procuram abranger vários níveis de intervenção – a criança e o adolescente, a família, a escola, os pares e a comunidade – através da combinação de diferentes abordagens (Brounstein, Gardner & Backer, 2007). Na Tabela 1 estão descritos alguns objectivos de intervenção para cada nível de intervenção.
Tabela 1: Níveis e Objectivos de Intervenção dos Programas de Prevenção Compreensivos e Integradores
Níveis de Intervenção Objectivos de Intervenção
Indivíduo
Fornecer informações sobre as drogas;
Desenvolver a capacidade de auto-regulação e as competências sociais e cognitivas.
Família Treinar a eficácia parental e o envolvimento familiar;
Promover a comunicação entre a criança e os pais.
Pares Promover normas de ausência do uso de substâncias.
Escola
Promover políticas escolares anti-drogas;
Treinar a abordagem dos professores com as turmas; Criar normas escolares sobre o uso de substâncias;
Desenvolver um clima escolar positivo e uma aprendizagem cooperante.
Comunidade
Criar zonas escolares sem drogas;
Fornecer informações sobre o álcool e/ou o tabaco;
Promover o envolvimento e a intervenção em rede das organizações comunitárias e das instituições na redução do uso de substâncias.
Sociedade
Desenvolver a mudança na abordagem dos meios de comunicação social sobre o consumo de substâncias;
Criar leis que diminuam a disponibilidade de drogas.
Nota. Adaptado de “Research to practice: Bringing effective prevention to every community”, P. J. Brounstein, S. E. Gardner & T. E. Backer, 2007, Preventing youth substance abuse: Science-based programs for children and adolescents, p. 50.
No entanto, de acordo com o contexto em que estão inseridos, os programas podem assumir organizações muito diferentes e existe, por isso, uma grande variedade de programas de prevenção. Desta forma, o National Institute of Drug Abuse (2003) sugere vários princípios que devem ser considerados na elaboração de um programa de prevenção, de modo a aumentar o seu grau cobertura, eficácia e eficiência, independentemente da sua orientação teórica (ver Tabela 2).
Tabela 2: Princípios dos Programas de Prevenção das Toxicodependências
Princípios de Prevenção
1. Os programas de prevenção devem ser concebidos de modo a aumentar os processos de protecção e a anular ou reduzir os processos de risco, considerando que: (a) existe uma relação entre os
processos de protecção e os processos de risco; (b) o impacto dos processos de protecção e dos processos de risco depende do estádio de desenvolvimento e do contexto do indivíduo; (c) as intervenções mais precoces têm impactos mais positivos.
2. Os programas de prevenção devem ter como objectivo todas as formas de abuso de drogas, incluindo as drogas legais.
3. Os programas de prevenção devem dirigir-se aos problemas de abuso de drogas; aos riscos; e às características específicas, mais salientes em cada comunidade e população.
4. Os programas de prevenção devem reforçar o envolvimento familiar e as competências parentais. 5. Os programas de prevenção devem incluir estratégias que promovam o desenvolvimento de competências para resistir à oferta de droga; o reforço do compromisso pessoal e as atitudes contra o abuso de drogas; o aumento de competências sociais (comunicação, relação com os pares, auto-eficácia, assertividade, capacidade de resolução de problemas, etc.); o envolvimento escolar; e o desenvolvimento da inteligência emocional.
6. Os programas de prevenção desenvolvidos no meio escolar devem chegar a diferentes populações; e identificar e intervir em diferentes sub-populações em risco.
7. Os programas de prevenção comunitária são mais eficazes quando combinam dois ou mais níveis de intervenção, como a família e a escola.
8. Os programas de prevenção comunitária são tanto mais eficazes, quanto maior for a coordenação entre as organizações, as escolas, os meios de comunicação social, etc.
9. Os programas de prevenção devem definir os seguintes aspectos: (a) estrutura (i. e., o modo como é organizado e construído); (b) conteúdo (i. e., a informação, as competências e as estratégias do programa); e (c) aplicação (i. e., o modo como o programa é adaptado, implementado e avaliado). 10. Os programas de prevenção devem ser de longo prazo, com intervenções repetidas no tempo, de forma a reforçar os objectivos de prevenção originais.
11. Os programas de prevenção devem incluir estratégias de intervenção dirigidas a grupos-alvo estratégicos, como os professores e os pais.
12. Os programas de prevenção devem incluir métodos interactivos (grupos de discussão, role-plays, etc.), mais do que o ensino de técnicas isoladas.
Nota. Adaptado de “Preventing drug use from children and adolescents: A research-based guide”, National Institute of Drug Abuse, 2003, pp. 2-5.
1.3.1 O Programa Intervir
O Programa Intervir – programa municipal de prevenção das toxicodependências na cidade de Lisboa – apoia técnica e financeiramente, em parceria com as Juntas de Freguesia de
Lisboa, projectos de prevenção das toxicodependências (ver Anexo A) dirigidos a grupos ou contextos que apresentem maior vulnerabilidade face a situações de risco e/ou comportamentos de risco (prevenção selectiva), bem como intervenções junto da população em geral (prevenção universal). O Programa Intervir não considera acções dirigidas a indivíduos que apresentem comportamentos de risco (prevenção indicada). Mais concretamente, os projectos do Programa Intervir dirigem-se aos seguintes grupos-alvo: (a) grupo-alvo final – crianças e jovens em situações de risco e/ou com maior probabilidade de apresentarem consumos de drogas; e (b) grupo-alvo estratégico – pais/encarregados de educação, professores e pessoal não docente, profissionais de saúde, técnicos que trabalham na área da intervenção social. A Tabela 3 descreve o objectivo geral e os objectivos específicos do Programa Intervir.
Tabela 3: Objectivos do Programa Intervir
Objectivos Descrição
Objectivo Geral
Promover projectos de prevenção das toxicodependências, incluindo o consumo de álcool e tabaco, que visem evitar ou retardar o consumo de drogas junto das crianças e jovens da cidade de Lisboa.
Objectivos Específicos
(a) Promover o desenvolvimento de acções que privilegiem a prevenção selectiva; (b) Promover o reforço de processos de protecção junto das crianças e jovens; (c) Promover acções de formação dirigidas aos pais e/ou encarregados de educação; (d) Promover acções de formação dirigidas às equipas técnicas dos projectos;
(e) Promover a qualidade da componente avaliativa do Programa, de forma a permitir o conhecimento do seu impacto na comunidade e o reajustamento ao nível das estratégias de intervenção;
(f) Promover a utilização de indicadores comuns a todos os projectos; (g) Promover a prática da intervenção em rede.
Fonte. Regulamento do Programa Intervir (2009)
Os projectos que integram o Programa Intervir são normalmente operacionalizados através das seguintes acções: (a) realização de sessões de informação/sensibilização no âmbito da prevenção do consumo de drogas; (b) promoção de actividades de treino de competências pessoais, sociais e emocionais, visando o reforço de processos de protecção; (c) dinamização de sessões de formação parental; e (d) realização de actividades lúdico-pedagógicas.