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Metodologia___completo[1] Josué de Castro

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Academic year: 2021

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Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária

ITERRA

Instituto de Educação Josué de Castro

IEJC

Método Pedagógico

(Texto Interno)

Coletivo Político Pedagógico CPP

Veranópolis Abril de 2.003

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Sumário

Paulo Cerioli, osfs Setembro de 20031

Introdução ... 004

Retomando para não esquecer ... 006

I – Princípios Pedagógicos e Filosóficos ... 006

II – Objetivo do IEJC ... 007 III – Sujeitos ... 007 Método Pedagógico ... 009 1 – Engenharia Social ... 012 1.1 - Alternância 1.2 – Tempos Educativos 1.3 – Trabalho 1.4 – Gestão Democrática 1.5 – Pesquisa 2 – Arquitetura Social 2.1 – Lógica 2.2 – Estrutura Orgânica 2.3 – Organicidade 2.4 – Inserção 2.5 – Coletividade 3 – Ambiente Educativo 3.1 – Princípio orientativo 3.2 – Jeito de funcionamento 3.3 – Tempos Educativos 3.4 – Situações de aprendizado 3.5 – Espaços pedagógicos 3.6 – Cotidiano 4 – Estudo

4.1 – Ênfase na Concepção de Mundo 4.2 – Ênfase na Aprendizagem

4.3 – Ênfase na Capacitação 4.4 – Lógica das didáticas 4.5 – Competências

1 Feito a partir do roteiro de apresentação do método do IEJC para as turmas (Técnico em Saúde Comunitária –

Turma 1 em maio de 2001; Técnico em administração de Cooperativas – Turma 7 em outubro de 2002; Pedagogia da Terra – Turma 1, em fevereiro de 2003) e textos existentes sobre aspectos do método. Passou pelo CPP do IEJC em março de 2003 e por um debate com os educadores permanentes do IEJC em abril de 2003.

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4.6 – Elementos do estudo 4.7 – Organização do Currículo 5 – Movimento 5.1 – Partir da existência 5.2 – Domínio da dialética 5.3 – Tensão 5.4 – Fases do processo

5.5 – Leitura pedagógica do processo 6 – Acompanhamento 6.1 – Pressupostos 6.2 – Níveis 6.3 – Princípios 6.4 – Interação pedagógica 6.5 – Registro e sistematização 6.6 – Direção Político Pedagógica 7- Personalidade 7.1 – Articulação de Projetos 7.2 – Convivência 7.3 – Comportamentos 7.4 – Hábitos 7.5 – Valores 7.6 – Emoção 7.7 - Mística

8 – OFOC: Oficina Organizacional de Capacitação 8.1 – Condições objetivas

8.2 – Princípios metodológicos 8.3 – Estratégias pedagógicas 8.4 – Objetivo

Temos / Nossos Limites Anexos

A – Acordos B – Histórico

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Introdução

“Cada pessoa que eduquemos deve ser útil à causa da classe (trabalhadora)” Anton Makarenko2

Este texto é uma nova tentativa de reflexão teórica3, a pedido do CPP - Coletivo

Político Pedagógico do IEJC – Instituto de Educação Josué de Castro. Esta reflexão é feita a partir das condições práticas (condições objetivas e subjetivas e do desenvolvimento do processo pedagógico) que exigem a cada momento um voltar-se à prática com novas interações educacionais.

O método pedagógico do Instituto4 não é fechado, dogmatizado por o acharmos

absolutamente correto ou pronto, pois está em continua gestação através do questionamento e da contribuição dos educadores e educandos que dele participam. Esta teoria está sendo produzida no calor da vida escolar e em um instituto de educação onde se vive nele determinados períodos da vida. Ela acontece em uma escola real, em movimento: é um método que se faz e refaz a partir da Pedagogia do Movimento como se fosse um “rio” (com seu leito largo ou estreito por causa da distância entre as suas margens formando estreitos ou “espraiamentos” e com seu declive mais ou menos acentuado) onde corre a “água” do cotidiano do processo formativo / educativo que é formada pelo “oxigênio” trazido pelos Movimentos Sociais Populares do Campo (MSPdoC)5, principalmente o MST – Movimento dos

Trabalhadores Rurais Sem Terra, e pelo “hidrogênio” da realidade / subjetividade dos seres humanos que nele se inserem como educandos e como educadores.

O porque ele está assim (o retrato deste texto) só é possível compreender através da historicidade deste processo educativo (iniciado em 1990) que nos ajuda a perceber, além das contradições, o movimento do pensamento dos responsáveis por sua constituição e implementação.

Aqui, pretendemos apenas apresentar sua espinha dorsal, a saber, os elementos que o constituem, mas que também já mudaram e podem mudar. O que o determina são os sujeitos envolvidos e o objetivo desta escola: “a formação política do cidadão para a construção do socialismo”6. Apostamos na “construção de uma

sociedade socialista através de uma ciência dialética (com objetivos práticos / um objetivo político determinado) chamada pedagogia, construída como parte integrante de um coletivo de produção social”.7

Espero que este texto seja mais do que um emaranhado de termos técnicos destinados apenas a iniciados. O risco é, pela abstração, o método ser visto como uma

2 CAPRILES, René. Makarenko: o nascimento da pedagogia socialista. p. 97

3 Iniciada em janeiro de 2001 com o texto “Pedagogia do Movimento: método pedagógico” (inacabado), que por sua

vez é um repensar sobre a tentativa de re-elaboração do texto “OFOC: Oficina Organizacional de Capacitação” de dezembro de 2.000.

4 A partir deste momento o termo “Instituto” passa a ser sinônimo de IEJC.

5 A partir daqui utilizaremos a sigla “MSPdoC” para dizer “Movimentos Sociais Populares do Campo”, como o

MST, o MAB, o MPA e assim por diante.

6 Makarenko, em CAPRILES, René. Makarenko: o nascimento da pedagogia socialista. p. 90 7 CAPRILES, René. Makarenko: o nascimento da pedagogia socialista. p.35 e 36

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“máquina” dissociada do processo educativo em andamento que é composto de pessoas, de vida, que é muito mais do que um monte de células organizadas, morrendo e se reproduzindo.

O temor é que, ao cristalizar o método em uma espécie de esquema “belo e bem amarrado” que leva as pessoas a imaginar / projetar uma escola ideal. Ou pior, que tenha partido de uma escola fictícia, construída através de debates quixotescos, mesmo sendo bem-intencionados.

Para quem olhar este texto de fora do processo corre o risco de ter a impressão de que ele não consegue ser o todo: apenas junta uma série de questões. De fato, há um limite no descrever todas as relações. Ou talvez seja a tentativa de fazer um ser humano perfeito, com as melhores intenções, e no final produza um “ser estranho”. Apenas temos uma determinada intenção (objetivo) e procuramos ir produzindo um método que nos ajude a materializá-lo. Sabemos distinguir utopia (perspectiva, sonho) de projeto humano histórico (realizável, viável). No fundo, somos um “laboratório” de pensar a formação humana por estarmos construindo historicamente (a 13 anos) um método e, o esforço daqui bebe no esforço da humanidade.

É bom lembrar que este texto considera que os leitores já tenham conhecimento de outros dois: “Princípios da Educação no MST”8 e “Projeto Pedagógico” do IEJC9.

8 Em MST – Caderno de Educação no 8. 9 Em ITERRA – Cadernos do ITERRA no 2.

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Retomando para não esquecer

“Um verdadeiro estímulo da vida humana é a alegria do amanhã. Na técnica pedagógica esta alegria do amanhã é um dos objetos mais importantes do trabalho. Primeiro, é preciso organizar a própria alegria, faze-la viver e converte-la em realidade. Em segundo lugar, é necessário ir transformando insistentemente os tipos mais simples de alegria em tipos mais complexos e humanamente significativos. Aqui existe uma linha muito interessante: da satisfação mais simples até o mais profundo sentido do dever.”10

O Instituto de Educação Josué de Castro - IEJC pertence ao Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária – ITERRA.

O Instituto é uma Escola do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, com vários cursos, e seus educandos são por ele selecionados. Também está aberta a educandos de organizações aliadas e a articulação Via Campesina.

I – Princípios Filosóficos e Pedagógicos

No Caderno de Educação no 8 temos os Princípios de Educação no MST11. Aqui

passaremos apenas a os citar. Vejamos: a) Princípios Filosóficos

1) Educação para a transformação social. 2) Educação para o trabalho e a cooperação.

3) Educação voltada para as várias dimensões da pessoa humana. 4) Educação com / para valores humanistas e socialistas.

5) Educação como um processo permanente de formação e transformação humana.

b) Princípios Pedagógicos

1) Relação entre prática e teoria.

2) Combinação metodológica entre processos de ensino e de capacitação. 3) A realidade como base da produção do conhecimento.

4) Conteúdos formativos socialmente úteis. 5) Educação para o trabalho e pelo trabalho.

6) Vínculo orgânico entre processos educativos e processos políticos. 7) Vínculo orgânico entre processos educativos e processos econômicos.

10 Capa final do livro Anton Makarenko: vida e obra – a pedagogia da revolução. 11 Para compreender melhor cada princípio procure MST. Caderno de Educação no 8.

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8) Vínculo orgânico entre educação e cultura. 9) Gestão democrática.

10) Auto-organização dos estudantes e das estudantes.

11) Criação de coletivos pedagógicos e formação permanente dos educadores e das educadoras.

12) Atitude e habilidades de pesquisa.

13) Combinação entre processos pedagógicos coletivos e individuais.

II – Objetivo do IEJC

Jamais podemos nos esquecer que o IEJC é uma escola a serviço dos MSPdoC que tem por finalidade formar o ser humano (visa ensinar e aprender a sermos humanos: ser gente), garantindo a escolarização, e ao mesmo tempo garantindo “a formação política do cidadão para a construção do socialismo”12.

Como toda escola ou instituto de educação está presente um ideal de ser humano e um projeto de sociedade: nos propomos a formar um cidadão participativo13

para uma sociedade igualitária.

No Instituto temos a intenção de contribuir no processo de formação humana que resulte na formação de sujeitos sociais que contribuam com a transformação da sociedade.

Procuramos estar em sintonia com a política de formação de quadros do MST e contribuir assim, dentro de nossos limites, na formação de militantes ou lutadores do povo. Temos consciência de que não fazemos tudo.

Como ensino médio nos propomos a contribuir na formação integral: de gente com uma determinada concepção de história (de mundo); de pessoas não alienadas, mas emancipadas e cidadãs; de personalidades, com valores que fazem parte de um projeto popular, que procuram superar, se tem, os desvios de caráter; de seres humanos concretos que se socializam; de uma identidade campesina que está em formação; de sujeitos da história felizes.

Makarenko nos diz: “estou convencido de que a finalidade de nossa educação reside não somente em educar um homem (e uma mulher) de espírito criador, um homem-cidadão capacitado para praticar com a máxima eficiência na edificação do Estado. Nós devemos educar, também, uma pessoa que seja obrigatoriamente feliz”.14

E ser feliz, para ele, é saber-se contribuídor na produção da transformação da sociedade porque está realizando o seu papel no processo histórico em andamento.

III - Sujeitos

Trabalhamos com “Sujeitos do Campo”, pessoas concretas que moram e vivem na terra, com sua cultura camponesa e “sub-culturas” demarcadas pelas regiões. São pessoas históricas, muitas delas com experiência de serem sujeitas da história, marcadas pelas contradições da visão de mundo que carregam e do opressor que

12 Makarenko, em CAPRILES, René. Makarenko: o nascimento da pedagogia socialista, p. 90. 13 Antigamente tínhamos o lema “Educando para a Cooperação”.

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introjetaram por vivermos numa sociedade de classes. São trabalhadores e ou filhos de trabalhadores, de ambos os gêneros, condicionados pelos meios de produção.

No início eram acampados e assentados, pessoas mais maduras, forjadas pela vida e pela luta. Hoje já vem os que nasceram nos acampamentos e após o assentamento de sua família: eles fazem parte da segunda geração e conhecem o MST apenas pela narração de histórias e pelos livros, a não ser que seus assentamentos continuam com forte vinculo orgânico com o Movimento. Vem também pessoas que estão entrando agora na luta, algumas procurando voltar para a terra (pois estavam nas periferias) e que praticamente não conhecem o MST.

Além destes há pessoas enviadas por outras organizações, especialmente as participantes da Via Campesina.

Mas, esta descrição geral é insuficiente. Nem é suficiente saber se ele é um dos nossos, quanto tempo está no MST, se é assentado ou acampado, onde mora, o seu sexo, a sua idade e outros dados. Nós acreditamos que a realidade onde a pessoa vive é a matriz de onde ele se forma, se constitui como sujeito, como pessoa humana e, como militante. Para isto precisamos conhecer cada uma das pessoas que estão em nosso processo educativo: a sua maneira de perceber o mundo; o seu jeito de compreender o trabalho; o como ele percebe o seu papel na história; os saberes e experiências que ele já têm; o seu jeito de se relacionar com os demais e com o conjunto da natureza; os desvios ideológicos que ele introjetou; as qualidades e os defeitos que ele percebe em si mesmo ou deixa de perceber, e assim por diante.

Cada educando e educador que chega ao Instituto, por ser um sujeito humano inserido em um processo histórico e por estar em processo de formação, precisa ser cuidadosamente diagnosticado ao longo dos dias, semanas, meses.

Nossa tarefa é ajuda-las a ser dar conta, de forma cada vez mais crítica, de como são, como vivem e convivem, como trabalham; e outros “como”, pois esta é a base para que possam propor alternativas e procurar se transformar.

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Método Pedagógico

I – Algumas observações preliminares

Apresentamos uma sistematização do método pedagógico do IEJC. Não é a primeira e nem será a última. É apenas o resultado do que estamos produzindo ao longo de alguns anos (desde 1989).

Para ajudar no entendimento gostaríamos de lembrar de que a compreensão deste método depende da absorção das matrizes pedagógicas e da percepção das relações que existem entre as partes. Elas são apresentadas separadas para facilitar a descrição, mas na sua implementação fazem parte do mesmo todo e se inter-relacionam.

Portanto, não devemos ter a pretensão de que estudando parte por parte do método, isoladamente, iremos compreender o todo. O estudo de cada uma das partes implica em perceber a sua relação com as demais partes.

Como o método está em permanente construção, a experiência nos leva a alertar para evitar o equivoco de achar que fazendo alterações pontuais, a partir de analises superficiais ou de constatações periféricas, pode qualificar o método: pode-se resolver um aspecto e cria, ao mesmo tempo, problemas maiores. Cada alteração precisa ser antecipada teoricamente e analisada em todas as suas possíveis implicações.

Mais, este texto não concretiza o método, isto é, não diz que isto deve ser feito assim e aquilo deve ser feito de outro jeito, com os devidos passos, senão deixa de ser “caminho” e passa a ser “receita”.

Finalmente, este não é um texto para ser lido e guardado e assim atuarmos a partir das lembranças que temos dele. Há textos que precisamos ter claro em nossa mente e para isto precisamos voltar a “beber de sua fonte”. Ele é um texto para ser pesquisado, estudado, debatido, aprofundado e, sempre que necessário, alterado.

II – Relembrando as matrizes pedagógicas que assumimos

Este método pedagógico é baseado no movimento da realidade, dentro e fora do Instituto, e na articulação dialética das seguintes “matrizes” de formação humana:

a) Educação Popular (Freire) – Entendida como Educação do Popular ou Pedagogia do Oprimido, que se reconhece como tal15 e assume um compromisso de classe e

compromete todo o nosso trabalho com uma metodologia (prática  teoria  prática) que seja capaz de tornar os membros das classes populares sujeitos plenos da construção de um Projeto Popular de sociedade.

b) Formação Político Ideológica (Makarenko / Plekhanov / Marx) – Compreendida como a formação política do trabalhador cidadão e trabalhadora cidadã para o

15 ’A pedagogia do oprimido’ não é uma listagem de métodos de como ensinar aos oprimidos e excluídos. Nem uma

metodologia para trabalhar com eles (...). É a pedagogia que os próprios oprimidos aprendem e põem em prática para recuperar a humanidade que lhes foi roubada, para serem humanos em condições inumanas. É ‘a pedagogia dos homens empenhando-se (eles) em sua libertação’. Cf. ARROYO: p. 247.

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socialismo, a partir de uma concepção de história e do papel dos trabalhadores nesta história como contribuidor na transformação da sociedade.

c) Trabalho / Economia (Pistrak / Makarenko / Marx) – Compreende o trabalho como a atividade específica do ser humano, orientada para a transformação da natureza, auxiliado por instrumentos de trabalho, para que assim possa satisfazer as suas necessidades, mas, que ao transformar a natureza, transforma a si mesmo, a sua atitude frente a natureza, frente aos outros seres humanos e frente a si mesmo, mudam suas idéias, seus ideais e sua possibilidade de conhecer e transformar a realidade. Pelo trabalho nos produzimos como sujeitos sociais e culturais (nos inserimos em uma cultura fazendo). As formas como produzimos nos produzem: o como trabalhamos nos forma ou deforma.

O trabalho para ser educativo exige reflexão sobre o que se faz, o como se faz, o porque se faz assim ou porque se organiza o trabalho assim e não de outro modo. Para que esta reflexão possa acontecer é necessário que haja um tempo / espaço para isto.

Faz parte desta matriz a compreensão de que a economia é mais um pedagogo neste processo educativo.

d) Coletividade (Makarenko) – Aposta na coletividade, por causa de suas condições múltiplas de interação, possibilidades de inter-relações e como espaço educativo privilegiado do ser humano que vive em uma sociedade marcada pelo individualismo. Sozinhos nós não aprendemos a ser gente: não nos humanizamos. e) Capacitação (Santos de Morais) – Intui diferentes métodos de formação e aposta na

necessidade do exercício prático (aprender fazendo), com base no primado do objeto (numa situação que requeira este aprendizado), como alavanca para a construção das competências que precisamos aprender para intervir com pertinência na realidade (saber-fazer).

f) Pedagogia do Movimento (Caldart) – Implica na compreensão: do Movimento Social Popular (MSP) como lugar de formação de sujeitos sociais, pois nele acontecem processos de formação humana, e como principio educativo; de que sujeitos sociais se formam e aprendem na dinâmica da luta social organizada e de que ela é a base material deste processo educativo (na ação ele transforma e se transforma); de que a luta social que forma os sujeitos é aquela que se produz e reproduz como práxis revolucionária da sociedade e da vida das pessoas (quanto mais estranhamento no movimento da história, mais forma sujeitos sociais); de que o MSP se dá dentro de um processo histórico maior que têm as suas leis próprias; e que a escola (IEJC) entendida como lugar de formar sujeitos humanos pode ter o MSP e o movimento da história como princípios educativos.

III – Elementos do método

Entendemos aqui por método pedagógico o jeito de colocar em movimento a formação humana desde as condições objetivas que encontramos em cada momento, curso, turma ou grupo de educandos, e as definições pedagógicas que estão neste projeto.

O método pedagógico não tem uma definição ou receita prévia à prática. Construir o método de educar é a própria prática dos educadores e dos educandos envolvidos no

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processo. Mas, pela leitura das práticas que já desenvolvemos ou acompanhamos, é possível identificar alguns elementos ou aspectos básicos desta construção. 16 São os seguintes17:

1. Engenharia Social ou montagem do processo pedagógico.

2. Arquitetura Social ou estratégia de inserção, organização e de funcionamento da coletividade do Instituto.

3. Ambiente Educativo ou “cenários” de aprendizagem.

4. Estudo: Ênfase na concepção de mundo, na aprendizagem e na capacitação. 5. Movimento ou o processo em andamento e a leitura / interpretação do mesmo. 6. Acompanhamento ou “ninguém se educa sozinho”.

7. Personalidade: formação do caráter

8. OFOC: Oficina Organizacional de Capacitação ou intencionalidade do processo.

Desenho de um átomo com oito (8) elétrons orbitando.

16 ITERRA – Cadernos do ITERRA no 2. p. 26.

17 Aqui ele já está diferente do Caderno anteriormente citado. Lá são seis (6) e aqui são oito (8) elementos básicos

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1 - Engenharia Social

Que é a vida, senão atividade? Marx

A expressão “Engenharia Social” foi retirada do método do “laboratório experimental”.18 Ela é a combinação dos elementos básicos que configuram um

processo pedagógico, como o assumido pelo Instituto, e, conseqüentemente, da montagem dos cursos que nele vão acontecer. Os elementos que compõem a Engenharia Social formam e determinam o “leito” onde o método vai acontecer.

A subtração ou a substituição de um dos elementos forja uma nova configuração, alterando as relações e, conseqüentemente, a experiência pedagógica e o aprendizado.

Faz parte da Engenharia Social do IEJC:

1.1 - Alternância

A Escola, local onde acontece o desenvolvimento do processo educativo / formativo, funciona no regime ou sistema de alternância19. Cada turma de educandos

tem um período onde a maior influência é a da escola e um período onde a maior influência é a da comunidade entendida como o Movimento a que pertence (é do MST, por exemplo). Mas, em ambos os períodos ambos influenciam. São eles:

a) Tempo Escola (TE): Acontece principalmente no Instituto (em Veranópolis) e também em atividade de campo, promovidas pela escola, em conjunto com os interessados (uma prática de campo ou uma OCAP – Oficina de Capacitação Pedagógica, por exemplo).

b) Tempo Comunidade20 (TC): É a continuidade do processo de formação, mantendo

o enraizamento com a comunidade ou coletivo de origem (trabalho na roça) e de participação no Movimento que o enviou (na organicidade e na luta) ou onde o Movimento que o enviou determinar.21 É um momento de experimentação,

socialização e pesquisa de campo, além de atividades orientadas pela escola (leitura, ...). Para os Sem Terra o MST é o pedagogo do TC.

Os cursos, por causa da alternância, estão divididos em Etapas que variam em tamanho (número de dias) e quantidade (número de etapas) conforme o curso. Em cada etapa existe o TE e o TC.

Todos os cursos têm uma Etapa Preparatória, com seu TE e TC, em vista da seleção dos educandos, da inserção no processo do Instituto e para um resgate do MST (um banho de Movimento).

18 SANTOS DE MORAIS, Clodomir. A capacitação ... p. 78

19 Não confundir com a Pedagogia da Alternância, utilizada pelas EFAs – Escolas Família Agrícola, por exemplo. 20 No início este tempo era acompanhado pelos educadores da Escola (iam a campo, visitando os educandos em suas

comunidades de origem), depois passou a ser tarefa dos Movimentos.

21 Todos os educandos do IEJC devem ser indicados e assumidos pela comunidade ou coletivo de origem, com aval

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Por exemplo:

Atualmente acontecem no IEJC os seguintes cursos:

a) Normal Médio (ex-Magistério) – MAG = Etapa Preparatória (EP) + 6 etapas

b) Técnico em Administração de Cooperativas – TAC (médio e profissionalizante)= EP + 6 etapas

c) Técnico em Saúde Comunitária – TSC (médio e profissionalizante) = EP + 7 etapas

d) Comunicação Popular – CP (médio) = EP + 6 etapas e) Pedagogia da Terra (superior) = EP + 8 etapas

Também acontecem no Instituto outros cursos e oficinas (de artes, por exemplo).

1.2 - Tempos educativos: sua existência

Os tempos educativos nascem para reforçar dois princípios importantes de nossa pedagogia:

a) Um é a necessidade de mudar a existência dos educandos (seu jeito de viver e de perceber o mundo) criando assim uma abertura para o questionamento e a busca de uma nova síntese, já que os nossos educandos vêm de uma cultura (ou sub-cultura) onde o tempo é dividido pelas tarefas de acordo com o dia, sem levar em conta o tempo cronológico, e por isto nem são vistos como tempo: fica uma espécie de “tempo natural” gerido pelo espontaneísmo e condicionado pela objetividade da sobrevivência (ter que tratar as vacas e tirar o leite diariamente no início da manhã, por exemplo). Propositalmente sub-dividimos o dia em vários tempos controlados cronologicamente o que cria um impacto cultural gerado pelo exercício de controles de unidades de tempo cobrados pela interação social (o atraso de um atrapalha a vida dos outros);

b) O outro é de que “escola não é só lugar de estudo, e menos ainda aonde se vai apenas para ter aulas, por melhor que sejam, devam ser. O Instituto é uma escola, um lugar de formação humana, e por isso as várias dimensões da vida devem ter lugar nela, sendo trabalhadas pedagogicamente”.22 Por isto além do tempo aula

temos outros tempos e, quando necessário, podem ser criados sub-tempos dentro dos tempos maiores.

Concomitantemente, os tempos educativos visam contribuir no processo de organização (acento maior no tempo escola) e auto-organização dos educandos (acento maior no tempo comunidade). É um exercício de aprender a organizar o tempo pessoal e o tempo coletivo em relação às tarefas necessárias. É um meio para se garantir os fins que se deseja alcançar, levando-os a gerir interesses, estabelecer prioridades, assumir compromissos com responsabilidade. Pois “educar o ser humano significa capacitá-lo para utilizar adequadamente seu tempo imediato”23.

O Instituto pode organizar os tempos que achar melhor para o processo educativo que está desenvolvendo. É preciso definir quais tempos educativos e a

duração de cada um deles, evitando que o cotidiano fique muito “picado”. A duração

22 MST - Caderno de Educação no 9. p. 25

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de cada tempo não precisa ser a mesma, pois depende da finalidade de cada um (ver item 3.3).

É importante destacar que nem em todas as etapas os tempos devem permanecer os mesmos: eles podem ser alterados em vista da caminhada de cada educando e do amadurecimento do processo educativo da turma (etapa em que se encontra). O mesmo acontece em relação ao grau dos cursos (médio ou superior). A alteração deve levar em conta: o grau; a caminhada de cada turma (etapa em que se encontra); a organização do conjunto (escola) e visando uma maior auto-organização pessoal dos educandos (já no TE).

O processo educativo vai questionar a existência de uns tempos e os suprimir se perderem a sua finalidade, bem como propor a existência de outros24.

Há os educandos que estão fazendo o seu TC no Instituto. Eles devem participar dos tempos educativos comuns (tempo formatura, por exemplo) e ter os seus tempos educativos próprios: definir quais e sua duração (tempo trabalho e tempo estudo, por exemplo).

Também há os educadores que devem ter os seus tempos educativos.

Todos os tempos educativos, de todos os educandos, devem ter o respectivo acompanhamento.

A experiência nos mostrou ser necessário estabelecer um tempo limite dia para a soma dos tempos educativos que não pode ultrapassar a doze (12) horas dia (pode ser menos) e um limite semana de não mais que seis (6) dias por semana ou 72 horas semanais (ou 4.320 minutos) de segunda-feira a sábado (a princípio o domingo é livre, salvo atividades de sobrevivência) para garantir o descanso e espaços subjetivos, pois há o risco de sufocamento porque os educadores querem mais tempo, o Movimento também e o processo também. Nas doze horas dias não se conta o tempo das reuniões de gestão (CNBI, Conselho Fiscal, Conselho de Disciplina, CNBT, por exemplo), nem os tempos de militância (preparação mística, atividades de luta, ...). Pode haver atividades extras, desde que sejam oferecidas para quem quiserem e forem acertadas pelos interessados.

Os tempos educativos podem ser diários ou semanais. Quando passam a ser ocasionais é melhor trata-los como “outras atividades pedagógicas”, tais como: visitas educativas; jornadas pedagógicas; oficinas de capacitação pedagógica; ...25

Por exemplo:

Atualmente, para as turmas do médio, temos os seguintes tempos educativos:

a) Tempo Formatura – Tempo diário de 20 minutos (120 minutos por semana), de segunda a sábado. É um tempo do conjunto do IEJC. b) Tempo Aula – Tempo diário de 5 horas, de preferência de

segunda a sábado (30 horas ou 1.800 minutos por semana), por turma. Nele está incluído um momento de intervalo (15 minutos dia), a combinar.

c) Tempo Trabalho – É um tempo semanal de 15 horas ou 900 minutos por semana que é distribuído conforme as necessidades de

24 Hoje se fala em “tempo de maturação do conhecimento”. 25 MST – Caderno de Educação no 9. p. 43-44.

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funcionamento do Instituto. Nem todos trabalham ao mesmo tempo.

d) Tempo Oficina – É de 220 minutos por semana, normalmente dividido em 2 dias.

e) Tempo Leitura – É de 180 minutos por semana. f) Tempo Estudo – É de 430 minutos por semana.

g) Tempo Cultura – Tempo de uma vez por semana, de 100 minutos. Pode haver um tempo maior desde que acordado com os educandos. h) Tempo Notícias – É de 60 minutos por semana (em uma

atividade). Mas, todos devem ser desafiados a buscar informações diariamente.

i) Tempo Reflexão Escrita – Tempo diário de 20 minutos (120 minutos por semana), de segunda a sábado. Mas deve acontecer no domingo por iniciativa e organização pessoal.

j) Tempo Educação Física – Tempo de 100 minutos por semana, em duas vezes.

k) Tempo Núcleo de Base (NB) – Tempo de 200 minutos por semana, em dois momentos.

l) Tempo Verificação de Leitura (VL) – Tempo de 90 minutos por semana, em uma vez.

Para os educandos em Tempo Comunidade no Instituto há os seguintes tempos:

a) Tempo Trabalho – 40 horas semanais (segunda-feira a sábado). b) Tempo Leitura e Estudo – Pelo menos 90 minutos dia (540

minutos por semana).

c) Tempo Formatura – O mesmo dos educandos que estão no Tempo Escola (médio).

d) Tempo Núcleo de Base (NB) – Tempo de 120 minutos por semana, em dois momentos. Além disso, mais atividades propostas pelo MST.

e) Tempo Reflexão Escrita - O mesmo dos educandos que estão no Tempo Escola (médio).

f) Tempo Notícias - O mesmo dos educandos que estão no Tempo Escola (médio).

g) Tempo Cultura - O mesmo dos educandos que estão no Tempo Escola (médio), mais outras atividades de iniciativa deste grupo de educandos.

1.3 - Trabalho

Entre os nossos princípios filosóficos temos a “educação para o trabalho e a cooperação” e entre os princípios pedagógicos “a educação para o trabalho e pelo trabalho” e o “vínculo orgânico entre processos educativos e processos econômicos”26

e, ao mesmo tempo, uma das pedagogias em movimento: “pedagogia do trabalho e da produção”.27

26 Cf. Princípios da Educação citados na p. 7. Ver também Boletim da Educação no 4 “Escola, trabalho e

cooperação” e Boletim da Educação no 5 “O trabalho e a coletividade na educação”. 27 MST - Caderno de Educação no 9. p. 8-9 e 33-37

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Nossa concepção de trabalho é de que ele é a atividade específica do ser humano concreto (seu esforço físico e mental) orientada para transformar a natureza para que satisfaça as suas necessidades. O trabalho é o meio de suprir necessidades que só é possível alcançar com a ajuda dos instrumentos de trabalho e através de esforços coletivos. Para Marx “o trabalho em primeiro lugar, um processo entre a natureza e o homem, processo em que este realiza e controla mediante sua própria ação seu intercambio de materiais com a natureza”28. E mais, o trabalho é a

possibilidade de aperfeiçoamento do ser humano que se forma a partir da suas relações com o conjunto da natureza.

O Instituto precisa ter um estreito vínculo com o trabalho socialmente útil. “Todos trabalhando”, executando o processo decidido / planejado, é a nossa regra. Cada um deve ter um tempo, que pode variar (uns estão no TE, outros estão fazendo aqui o TC, outros vieram para cumprir uma tarefa específica, ...), e um lugar ou posto de trabalho que fazem parte do processo educativo nele desenvolvido.

No Instituto deve existir trabalho para todos. A existência do trabalho exige de quem dele participa um esforço físico e mental em vista da transformação e do cuidado do meio em que vive (todos vivemos) e, ao transforma-lo, nos transformamos a nos mesmos: nos humanizamos. Ao mesmo tempo, através do trabalho cultivamos a nossa raiz (somos trabalhadores e nos orgulhamos disso) e, ao mesmo tempo, alimentamos a nossa identidade como integrantes da classe trabalhadora (somos forjadores de uma sociedade socialista). Vemos o trabalho como um valor e por isto precisamos ter gosto pelo trabalho, apesar dele estar atualmente sendo corrompido por causa da exploração do capital.

Mas não basta trabalharmos de qualquer jeito. É importante o jeito de

trabalhar. Visamos passar do espontaneísmo individual para a planificação coletiva do

trabalho em vista de uma tentativa de superação do individualismo, o que exige uma análise do processo produtivo que está sendo utilizado e o desafio de o torna-lo o mais socialmente dividido possível neste momento do processo. O horizonte é o processo produtivo socialmente dividido (PPSD).

Isto exige a qualificação dos trabalhadores, sejam educandos ou educadores, para que eles possam responder as atribuições de seus postos de trabalho para que eles tenham a oportunidade de se transmutar de aprendiz para mestre, considerando que os mestres em algumas “competências” serão aprendizes de outras. Qualificação que só é possível através do monitoramento e da abertura ao aprender a fazer, e, ao questionar-se sobre jeito que faz e o como utiliza as ferramentas / equipamentos frente às orientações coletivas de produção (o Processo Operacional Padrão – POP, por exemplo).

O Instituto deverá se preocupar com o aprendizado das pessoas29 (ser aprendiz)

em relação aos postos de trabalho que nele existem para que mais tarde assumam o mesmo posto como trabalhadores responsáveis e capazes.

O trabalho para ser útil exige resultados que precisam ser avaliados coletivamente (Desempenho e Gestão no Trabalho -DGT, por exemplo) e que são frutos de uma ação coordenada. Cada grupo de trabalhadores (unidade de produção) deve estar sob a responsabilidade e o comando de um trabalhador.

28 Marx. C. O Capital. Obras, t. 23, p. 188.

29 Como normalmente há mais educandos que postos de trabalho, os destinados ao serviço externo podem estar

vinculados a determinados postos como aprendizes e que passariam a lá estar quando não houver trabalho a fazer fora ou dentro do Instituto.

(17)

“Um dos nossos desafios é superar a discriminação entre o trabalho mecânico (manual) e intelectual, educando para ambos no mesmo processo produtivo.”30

E finalmente, o trabalho implica na necessidade da reflexão sobre a

organização e o jeito do trabalho que deve acontecer, de compreender qual o

processo produtivo utilizado e todas as fases / etapas deste processo produtivo, de se envolver no planejamento da produção e da comercialização, não apenas nos momentos de avaliação do trabalho, mas em outros espaços educativos.

O trabalho não acompanhado da capacitação, da instrução e da educação política e social não proporciona proveito educativo. Mesmo sendo um educador natural, o trabalho sem reflexão é insuficiente. É neste processo conjunto que o trabalho se torna educativo.

Nem sempre vemos o trabalho como um “dever social” e o pedagogo do ser humano. Achamos que o trabalho precisa ser diminuído e, se possível, aumentando os ganhos. A formação ideológica deve estar vinculada ao trabalho e este deve trazer melhorias para a vida social. É impossível construir uma sociedade nova sem trabalho. Ele deve produzir alimentos, embelezar a moradia, cuidar do meio ambiente, aperfeiçoar os conhecimentos e superar as limitações. Produzir é trabalhar. Planejar, estudar para dar respostas aos problemas também o é.

Faz-se necessário um tempo / espaço para refletirmos sobre o trabalho: o como trabalhamos; o porque organizamos o trabalho desde jeito e não de outro; e assim por diante. Mas, isto não necessariamente quer dizer que devemos criar um outro tempo educativo para isto, mas que devemos fazer esta reflexão, em momentos adequados ou criados para isto, nos tempos já existentes

1.4 - Gestão democrática

A “Gestão democrática” é um dos princípios pedagógicos do MST. “Todos gerindo”, no comando do processo, é uma outra regra nossa. Isto exige que todos, educadores e educandos, devidamente organizados, participem da gestão do todo o processo educativo, inclusive da convivência cotidiana. Não basta refletir e debater sobre a gestão: é necessário vivenciar espaços de participação democrática, educando-se para a democracia social (que não é sinônimo da democracia do estado burguês e da via eleitoral).

Pela gestão democrática queremos superar as práticas de caciquísmo e de presidencialismo (quando um decide por todos), por um lado, e de assembleísmo por outro (todos se reúnem o tempo todo para tomarem as decisões em conjunto).

A democracia social exige:

a) A decisão coletiva das iniciativas a partir dos princípios organizativos e da estratégia política do MST.

b) A direção coletiva de cada processo pedagógico, mas com responsabilidade pessoal.

c) A participação de todos os envolvidos no processo de gestão, passando de beneficiários para protagonistas.

d) Um alto nível de informação (quantidade) e um claro processo de comunicação (qualidade) que envolva a todos os participantes.

(18)

e) A superação da mania das pessoas acharem que o importante é ter a sensação delas estarem na gerência do negócio (apenas participar), ainda que o negócio não melhore em nada. A participação precisa ser qualificada.

O desafio é garantir a “radicalização da gestão” através da participação real dos educandos (por escolha de representantes e através da autogestão31) em todas as

fazes do processo (da análise, decisão, planejamento, execução, avaliação) e em todas as instâncias de gestão.

O Instituto se rege pela co-gestão entre educadores e educandos, salvaguardando os papéis de cada um, e pela autogestão da coletividade que sofre a influência orçamentária do ITERRA e política do MST, bem como da influência econômica e ideológica da sociedade onde ele está inserido.

É bom lembrar que a gestão democrática está baseada em acordos entre os participantes. Estes acordos são traduzidos em normas ou regras, expressas em um documento (um regimento interno, por exemplo). Elas são históricas, a saber: podem ser mudadas quando deixam de responder a necessidade do conjunto; e atingem a membros que passam a participar do processo após a sua definição e não se dão conta de que o documento é fruto de uma decisão coletiva.

1.5 - Pesquisa32

Na Pedagogia do Movimento somos continuamente desafiados a intervir na realidade. Nossa ação se qualifica na medida em que sabemos interpretar a realidade para transformá-la. A radicalidade desta necessidade está na afirmação de Mao Tse Tung de que “sem pesquisa não há direito à palavra”. Precisamos aprender a “inquirir” sobre os problemas para resolve-los, utilizando a leitura (visão de mundo) mais adequada, e assim ir superando a nossa auto-suficiência de achar que já conhecemos ou sabemos tudo de tudo. O estranhamento da realidade (que rompe com a naturalização do olhar), o inquirir / pesquisar deve ser uma postura de vida.

Precisamos, ao mesmo tempo, desenvolver a nossa reflexão sobre a realidade pesquisada, a partir de categorias, em vista da elaboração de soluções com seu respectivo método (caminho de implementação). E finalmente, junto com o cultivo da oralidade, desenvolver a escrita. Isto acontece ao longo das etapas do curso.

No Instituto os educandos deverão fazer, entre outros, um exercício de pesquisa que seja socialmente útil para o Movimento, através da realização de um trabalho de conclusão de curso (TCC) ou monografia, bem como a sua defesa pública.

31 Espécie de parlamentarismo (cada parte escolhe e controla o seu representante). 32 Veja Caderno do ITERRA no 3. p. 7 a 18.

(19)

2 - Arquitetura Social

33

“Educar é o aprendizado coletivo das possibilidades de vida” Pedro Tierra

Arquitetura Social é a estratégia de inserção, de organização e de

funcionamento da Escola, compreendida como uma coletividade.

Ela inclui a lógica da organização, a sua estrutura orgânica, e o seu coração: a organicidade necessária para o desenvolvimento do processo pedagógico. Trata, ao mesmo tempo, da inserção dos educandos e educadores nos vários níveis (escala) da coletividade para que possam viver / participar do mesmo e assim entender / compreender e se apropriar de cada uma das partes e da relação entre elas, passando a perceber a sua totalidade.

Em determinado momento da nossa caminhada a confundimos com a “Engenharia Social” apesar de perceber que era mais: aí forjamos a expressão “Arquitetura Social” que alguns reduzem, indevidamente, apenas a “estrutura orgânica” quando não confundem esta com a “organicidade”.34

Organicidade quer dizer coletividade em movimento, relação entre as diversas partes do todo, entre as tarefas e seus objetivos, entre as pessoas que participam do processo de construção da coletividade. Implica em fluxo permanente de informações e ações. É a dinâmica cotidiana que garante a continuidade de uma organização coletiva.

Faz parte da Pedagogia do Movimento a dimensão de enraizamento das pessoas em coletividades com memória e com projeto de futuro. Essas coletividades são os acampamentos, os assentamentos, a família Sem Terra, o próprio MST. E este enraizamento acontece através de um método específico de inserção na dinâmica desta coletividade, ou em sua organicidade. Este método de inserção diz respeito ao desafio pedagógico de ajudar as pessoas a fazer parte de uma organização que já tem objetivos e princípios definidos, que já tem uma história e um acúmulo de experiências que as pessoas que entram precisam assumir, e logo passar a construir como sujeitos.

O IEJC considera que é elemento fundamental de seu método pedagógico uma intencionalidade específica na inserção de seus educandos e educadores em sua própria organicidade, bem como na organicidade do conjunto do MST. Para isso, são elementos metodológicos importantes, a distribuição coletiva das tarefas que dão vida à organização, o acompanhamento e a avaliação das tarefas realizadas, e o processo de crítica e autocrítica da postura de cada pessoa no processo de construção da coletividade.

33 No Projeto Pedagógico do IEJC aparece como “Inserção na organicidade da escola e do MST” (p. 27), mas é mais

do que isto, por isto volto a denominação “Arquitetura Social” a definindo como estratégia de inserção, organização e funcionamento.

(20)

Enquanto existir algum educando fora ou alheio à dinâmica do Movimento e da Escola o “sinal de alerta” dos educadores deverá permanecer ligado!35

Para isto é necessário conhecer os educandos e a organização (coletividade) onde todos estamos inseridos.

2.1 – Lógica

O fundamento da Arquitetura Social é a necessidade de darmos um “salto de qualidade”36. O processo exige de nós condições para enfrentar os desafios que as

circunstâncias históricas apresentam. Precisamos passar, no MST, de um “movimento de massa” para uma “organização de massa”.

Este é o passo (salto) a ser dado pelo conjunto da organização. Como Escola temos a tarefa de procurar ser o “espelho” desta nossa necessidade futura (ser uma organização de fato), evitando ser um mero reflexo do nosso jeito atual de ser na base.

Como fazemos parte do movimento, o trazemos para a escola. Nossa tarefa é irmos construindo no Instituto esta organização para ajudar / contribuir para que o todo o Movimento dê esta salto qualitativo. Nosso desafio é sermos um “espelho melhorado” e não um mero reflexo.

É um equivoco nosso, como educandos e como educadores, achar que temos o direito ou podemos “baixar a guarda”, neste processo educativo, no tempo comunidade.

A finalidade37 deste salto é termos a capacidade histórica de fazermos a

transformação em nosso país e de irmos implementando, desde já, um Projeto Popular.

2.2 - Estrutura Orgânica

A estrutura orgânica é a forma de organizarmos os educandos e educadores que temos, constituindo assim a “coluna vertebral”38 que garante o funcionamento da

Escola. Dela fazem parte: as instâncias, com as suas funções; as atribuições das pessoas; os fluxos de decisão, execução e controle; ... Estamos falando de algo vivo, que se move através da estrutura onde estão inseridos.

Nós, após vários ensaios, tomamos como base a estrutura orgânica do MST, com o seu jeito de funcionamento e os seus princípios organizativos, adaptada para uma Escola. Não somos um assentamento e nem um acampamento, mas uma escola de formação de militantes.

Assumimos uma estrutura horizontal de decisão, em escala, onde se prioriza a organização de toda a base em Núcleos e nos demais espaços que têm funções bem definidas, em vez de uma estrutura vertical, em níveis, onde se prioriza a organização da instância superior (Direção) deixando a coordenação sem importância, os setores esvaziados e os núcleos sem saber a sua função.

O Instituto, como organização, tem uma estrutura orgânica expressa em um organograma com vários espaços que vão dos Núcleos de Base (NB) até as Unidades com seus Postos de Trabalho. Este movimento é composto de uma “democracia

35 ITERRA – Cadernos do ITERRA no 2. p. 27 a 28.

36 Título de um texto de BOGO, Ademar. O salto de qualidade. 2002. 37 Aprofundar esta idéia a partir do livro “O Estado e a Revolução” de Lênin.

(21)

ascendente” que se completa com uma “democracia descendente”.39 O papel de cada

um dos espaços está descrito no Regimento Interno.

Entendemos por “democracia ascendente” a que vai dos NB, onde estão inseridos todos os participantes, até o Encontro (ou Assembléia) de todos os NB. Nela acontecem os debates de base e vai até a tomada de decisão feita pelo conjunto da coletividade.

Entendemos por “democracia descendente” a que vai do Encontro até os Postos de Trabalho. Ela vai da tomada de decisão feita pela coletividade até a implementação da mesma feita por quem tem a atribuição de a executar.

Por exemplo:

I - A Democracia Ascendente (escala) e formada pelos seguintes coletivos.

a) Núcleos de Base (NB)

b) Turmas com sua Coordenação dos Núcleos de Base (CNBT)

c) Instituto com seu Encontro de todos os coletivos e sua Coordenação dos Núcleos de Base (CNBI)

d) Coletivo de Acompanhamento Político Pedagógico (CAPP)

II - A Democracia Descendente (níveis) é formada pelas seguintes instâncias.

a) Encontro

b) Coordenação dos Núcleos de Base do Instituto - CNBI c) Coordenação Executiva (CE)

d) Setores c) Unidades

d) Postos de Trabalho com suas atribuições (APT)

Por ser uma estrutura horizontal assumimos a democracia direta (e não a representativa onde se escolhe alguns que passam a decidir em nome dos demais)40,

onde os NB escolhem os seus coordenadores e ratificam os Coordenadores das Turmas e os Coordenadores do Instituto, bem como opinam e decidem sobre as questões básicas do processo de gestão. Os coordenadores devem assumir os interesses da coletividade (Turma ou Instituto), conforme o caso, sem corporativismo.

Através desta prática organizativa ampliamos as responsabilidades e o poder de decisão para todos os participantes do processo e, ao mesmo tempo, adotamos como método de construção das decisões através da produção do maior consenso possível (acordos), em vista do funcionamento41 e não através de resolver tudo por “votação”.

Assumimos os Princípios Organizativos do MST, em seu amadurecimento. Eles vão evoluindo em seu conteúdo e forma, pois eles são aplicados sobre circunstâncias históricas.

a) Organizar os trabalhadores na base , para ela se tornar base de fato, através dos Núcleos de Base. Garantir neles a participação das mulheres e dos jovens e o

39 Vide “Anexo A”.

40 Não confundir democracia direta com voto direto que escolhe pessoas para a democracia representativa. 41 Linha da “Consulta Popular”.

(22)

comando partilhado de gênero (coordenado por um homem e uma mulher)42 e, ao

mesmo tempo, um ensaio de coordenação em conjunto.

b) Ter uma Direção Coletiva em vez de um “presidente”. Isto implica na construção de uma visão comum do processo, uma decisão pela maioria, e a distribuição das tarefas e funções entre os membros de direção. Isto, atualmente, exige envolver a base organizada na tomada das decisões e distribuir as tarefas para o conjunto dos participantes.

c) Vinculação com a massa que exige o acompanhamento permanente da caminhada que o povo está fazendo, do seu processo formativo e dos espaços de base. O estar com e onde está a massa é beber das esperanças e temores do povo. É necessário participar das instâncias de base sabendo ser este um espaço privilegiado de auscultar43 as necessidades dos participantes e perceber a leitura

que os mesmos tem do processo em andamento. É um momento onde podemos interagir através da prosa informal.

d) Centralismo Democrático que passa pelo entendimento de que deve acontecer a máxima democracia no processo de leitura, discussão e na tomada das decisões, bem como nas avaliações da caminhada. E pela compreensão de que, após a decisão tomada pelas instâncias da organização, todos devem se subordinar44 a

ela, inclusive os que tinham outra proposta, fazendo o humanamente possível para a sua melhor execução.

e) Ter uma Disciplina Consciente que passa pela compreensão da subordinação pessoal aos princípios e objetivos da organização ou movimento que opta participar (ser militante) e pelo respeito a sua organicidade, implementando as decisões coletivas.

f) Fazer e seguir um Planejamento em vista da “práxis” (ação refletida). Precisamos superar o espontaneísmo.

g) Profissionalismo , pois todos devem ser militantes da organização e, ao mesmo tempo, ser um especialista ou ter o devido domínio técnico para a realização de suas tarefas / atribuições e funções. Isto exige de nós a busca de aperfeiçoamento e, ao mesmo tempo, a busca de qualificação para responder a outras demandas do Movimento que ainda estão a descoberto (polivalência).

h) Dedicar-se ao Estudo, especialmente da “ciência da história”, para compreender o movimento da realidade, entender o seu funcionamento e cada parte e a sua interligação e relação. Isto exige de nós formação político-ideológica, qualificação técnica ou profissional e desvelamento do conhecimento desenvolvido pela humanidade ao longo dos anos.

i) Participar de momentos de Crítica e Autocrítica como forma de avaliação de nossa prática e de nosso jeito de viver, visando conhecer e buscar superar os nossos limites, crescer como militantes, nos formar como seres humanos.

42 Este princípio causa nova contradição, por termos uma realidade diferente dos Assentamentos e Acampamentos:

de NB não terem um dos gêneros ou terem apenas um representante que automaticamente passa a fazer parte da coordenação. Atualmente, caso não tenha ou a única pessoa não queira e o NB concorde, o referido NB passará a ter apenas um coordenador mesmo que prejudique o ensaio de coordenação em conjunto, para manter a linha assumida pelo MST para o seu conjunto.

43 Escutar com a devida atenção.

44 Subordinar (subordinação) está relacionado a princípios que assumo como meus (passam a fazer parte do meu

projeto de vida). É distinto de se submeter (submissão) que está relacionado a pessoas, a saber, quando alguém passa a “mandar” em mim.

(23)

Assumimos o método de direção do MST, que está em reformulação permanente. O dirigente troca o “mando” autoritário pelo “comando” democrático (decisão em conjunto em vista de romper com a dependência da base do patrão); o “mando único” pelo “rumo único”. Só assim o “senhor” abre espaço para o coordenador que faz consulta, não impõe; conscientiza, não decreta. E o “juiz” que decreta sentenças abre espaço para o articulador de propostas de superação. O “espontâneo” abre espaço para a planificação das atividades levando em conta as condições objetivas e subjetivas e os objetivos a serem alcançados.

2.3 – Organicidade

Entendemos por organicidade a relação entre cada uma das partes de um todo, como se fosse um corpo vivo, entre si e com o todo. Ninguém pode perder a noção do conjunto e isto só é possível se sabe como funciona e a finalidade de cada uma das partes do todo e qual o seu papel em vista da realização dos objetivos estratégicos da organização. Embora as tarefas sejam diferentes, as partes têm a mesma importância.

Olhar para a organicidade é pensar nas relações entre os espaços / instâncias, em vista do bom funcionamento do conjunto.

Cuidar da organicidade é manter a estrutura em movimento, evitando possíveis “tromboses”45. É zelar pela funcionalidade, no cotidiano do processo. Se uma parte vai

mal, o conjunto sofre.

Ela depende da participação de todos os envolvidos no processo educativo, levando em conta a intencionalidade pedagógica planificada e assumida pela coletividade, como “militantes” em formação para enfrentar os desafios que as circunstâncias apresentam em cada momento do processo.

2.4 - Inserção dos educandos e educadores

Os educandos e educadores devem se inserir (sentir-se) co-participantes do processo pedagógico. A inserção deve acontecer:

a) No Instituto: Isto significa participar tanto da “democracia ascendente” (decidir / comandar) como da “democracia descendente” (se subordinar as decisões coletivas), levando em conta a versão atual do Projeto Pedagógico (PROPED) do Instituto, este Método Pedagógico e o Regimento Interno.

b) No Curso: Contribuindo na implementação do “Projeto Pedagógico” do Curso (PROPED-Curso) através do planejamento de cada etapa via “Projeto Metodológico” da Etapa (PROMET). No PROMET, a partir da Etapa Preparatória os educandos podem contribuir na elaboração do mesmo, o quanto antes, e aumentar a sua colaboração com o passar das etapas.

c) No MSPdoC de origem: Estar interligado a uma instância de base do seu Movimento, bem como a outros espaços de participação / formação, com tarefas pessoais definidas.

d) No movimento da história: tendo uma leitura, o mais exata possível, do processo, e, participando das lutas (práxis) e realizando as tarefas políticas, seja no tempo escola como no tempo comunidade.

45 Formação anormal de um coágulo nos vasos sanguíneos, provocado por diferentes causas. A conseqüência é o

(24)

A inserção dos educandos no Instituto acontece na Etapa Preparatória e a cada novo início de tempo escola (TE). Consta da divisão dos participantes em vista da constituição dos Núcleos de Base (NB), condição de existência na coletividade; do reconhecimento do espaço físico (prédio e arredores), do contato com a estrutura orgânica e explicação de seu funcionamento; do conhecimento das regras da casa; da inserção nos postos de trabalho; no contar dos acontecimentos que marcam o andamento do processo educativo; e da apropriação do projeto metodológico.

A inserção dos educadores, especialmente dos que vem para contribuir no acompanhamento das turmas (CAPP), exige o conhecimento: dos princípios educativos; dos objetivos do instituto; do projeto pedagógico; deste método pedagógico; do projeto pedagógico do curso; do projeto metodológico da etapa; do andamento do processo (compreender a realidade atual da escola); de uma visão histórica do processo; do funcionamento do Instituto e o conhecimento do espaço físico. A finalidade é ajuda-los a olhar o conjunto: da parte ao todo, com suas relações. Para isto deverão ser organizados momentos de estudo.

Também deve ser pensado o processo de embarque ou re-embarque num processo em andamento e que nunca para, apenas altera o ritmo (retomar: a sistematização do processo anterior, relatório analítico do TE anterior, ...).

Também faz parte da inserção: o conhecimento de suas tarefas como CAPP; os postos de trabalho (ou unidade ou setores) onde vão atuar; o acompanhamento de um grupo de pessoas (educandos); o acompanhamento de um ou mais Núcleo de Base; o acompanhamento de um ou mais tempos educativos; o resgate do processo em andamento (do Instituto, do Curso e dos encaminhamentos da turma).

O importante é perceber que a inserção não é um momento, mas um processo que não termina após os primeiros dias (não confundir apenas com o que acontece na inserção inicial de cada etapa).

2.5 - Coletividade

Não defendemos a centralidade do processo educativo no indivíduo, pois isto contribui para o crescimento do individualismo. Nem defendemos o “coletivismo” como algo que suprime a subjetividade dos participantes. Propomos a educação das pessoas (educandos e educadores) através da sua inserção em um coletivo, ou melhor, em uma coletividade. Ela é o instrumento de contato com a personalidade.

A coletividade, segundo Makarenko, “é um grupo de trabalhadores livres, unidos por objetivos e ações comuns, organizado e dotado de órgãos de direção, de disciplina e responsabilidade. A coletividade é um organismo social em uma sociedade humana saudável.”46 Em outro momento ele diz que “a coletividade é um organismo social vivo

e, por isso mesmo, possui órgãos, (sistema de) atribuições, (sistema de) responsabilidades, correlações e interdependência entre as partes. Se tudo isso não existe, não há um coletivo, há uma simples multidão, uma concentração de indivíduos.”47. Ela não se reúne de maneira casual, mas com objetivos definidos e uma

atividade conjunta para realizar estes objetivos, com responsabilidade mútua.48

Portanto, para ser uma coletividade devemos levar em conta:

a) Haver uma opção dos participantes (formada por trabalhadores livres): não pode ser constituída por decreto.

46 MAKARENKO. La coletividad y la educacion de la personalidad. p. 6

47 CAPRILES, René. Makarenko: o nascimento da pedagogia socialista. p. 13 e 154 48 SCHUKINA, G. I. Teoría y metodología de la educación comunista en la escuela. p. 18.

(25)

b) Ter objetivo comum, que é o do Instituto, dado pela Mantenedora. c) Ter “ações comuns” em vista da sobrevivência econômica e política.

d) Buscar uma “movimentação comum” (que não quer dizer todos fazendo juntos a mesma coisa) através de: órgãos, atribuições, correlação, interligação das responsabilidades e interdependência entre as partes.

e) Ter direção (rumo comum), disciplina consciente (por sentir-se parte e dependente de um todo) e responsabilidade (comprometimento mútuo).

f) Fazer prevalecer os interesses sociais (projeto de sociedade) aos interesses individuais (projeto de vida), quando for impossível adequar ambos.

g) Que apenas a soma mecânica dos indivíduos não é uma coletividade, Nem estar em um grupo para fazer uma determinada tarefa (uma reunião, por exemplo). Coletividade é um complexo único, na busca da solidariedade de classe.

Enfim, algo planejado / combinado (planificado). Se tudo isto não existe, não há coletivo, há simplesmente um grupo ou um aglomerado de indivíduos. Uma família, nem sempre é uma coletividade.

A coletividade precisa estar em permanente construção e, por isto, em constante avaliação: ser produzida e reproduzida. Várias partes simples podem executar tarefas elaboradas e planejadas. Um componente isolado é incapaz de grandes feitos, pois dificilmente a parte muda o todo. Mas, a coletividade impressiona pela complexidade e pela eficiência.

O desenvolvimento de uma coletividade (de base) segue algumas etapas49, a

saber:

a) A coletividade começa com a organização de uma atividade concreta, levando em conta as experiências anteriores, que une os integrantes do mesmo porque precisam realizar em conjunto. Nesta fase eles precisam de um acompanhamento maior.

b) A segunda etapa é quando os membros da coletividade começam a propor atividades e a ajudar no crescimento dos seus integrantes.

c) A terceira etapa é o período de florescimento da coletividade, isto é, quando eles propõem atividades em vista da coletividade maior, vivem relações humanas e cumprem em conjunto, de forma organizada, as tarefas a eles destinadas.

Uma coletividade não se baseia pelo igualitarismo religioso e nem pela igualdade matemática ou cartesiana. Uma coletividade assume o princípio de dar a cada um conforme a necessidade de cada um; necessidade esta reconhecida pelo conjunto da coletividade.

Makarenko nos chama a atenção de que “a mais alta missão da coletividade, o princípio básico de sua vida, é a preocupação com o indivíduo (a pessoa).”50 Para isto

“organizou a vida na colônia mediante um sistema de interligação coletiva das responsabilidades, de forma que os próprios educandos sentiam-se parte fundamental do todo”.51 Cria uma coletividade única (IEJC), forte e influente, com formas que

obriguem cada educando a fazer parte da movimentação comum, pois assim vai desaparecendo a idéia do “indivíduo” e prevalecendo os interesses sociais da comunidade.52

Assumimos a coletividade como educadora da personalidade coletiva. Queremos produzir um movimento de reprodução do ser humano ou de humanização,

49 SCHUKINA, G. I. Teoría y Metodología de la educación comunista en la escuela. p.32-33. 50 CAPRILES, René. Makarenko: o nascimento da pedagogia socialista. p. 7

51 CAPRILES, René. Makarenko: o nascimento da pedagogia socialista. p. 85 52 CAPRILES, René. Makarenko: o nascimento da pedagogia socialista. p. 91

(26)

pois nos formamos na luta incessante pela nossa própria humanização. O objetivo é educar seres humanos: os comandantes53 da nova sociedade. O processo de

humanização implica na formação do saber (conhecimentos), do fazer (habilidades ou competências) e do ser (valores e hábitos que se expressão em comportamentos e posturas).

Na coletividade da escola existe o coletivo dos educadores e o coletivo dos educandos como dois coletivos constitutivos: eles são diferentes, por causa de seus papéis específicos no processo, mas não distintos, pois fazem parte da mesma coletividade da escola e por isto se inter relacionam.

A mesma coletividade (Instituto) está organizada em diferentes coletivos que se inter-relacionam entre si horizontalmente (escala). Makarenko denomina isto de “corte transversal da coletividade” e olha a “coletividade para dentro”. Vejamos os coletivos aqui existentes:

a) A Coletividade Primária: Ela é a coletividade de Base, para nós, são os Núcleos de Base (NB). A eles cabe esta tarefa educativa e não as unidades ou os setores. Eles devem ser constituídos o mais heterogêneo possível (no início levando em conta pelo menos o sexo e a unidade da federação – UF - ou região dos participantes).

Os NB têm como função: ser a instância base do processo de gestão (da escola e do MST), fazer a formação político ideológica, implementar as tarefas determinadas pelas coletividades maiores (turma < Escola < Movimento).

Os membros do NB têm como atribuição: conhecer os membros de seu NB (história de vida, limites e virtudes) e assumir a reeducação de seus membros através do companheirismo (entre ajuda, ...) e da crítica cotidiana. Os NB permitem que re-eduquemos o nosso olhar pedagógico (ver os sujeitos concretos, como eles são / estão).

Os NB não podem se transformar em um espaço artificial (com atividades como ir à aula de uma determinada disciplina). Ele é o espaço onde se convive e se organiza o cotidiano. Nesta coletividade cada um deve saber o que fazer pelo bem da comunidade (coletividade maior), o como fazer e o quando fazer, em um trabalho sincronizado e organizado como se cada um fosse uma célula de um corpo. Além disso é o espaço da educação da personalidade e da formação político-ideológica. Sempre que possível os NB devem ser pedagogicamente acompanhados. Eles devem ser um espaço de “ensaio prático” e de avaliação de camaradagem (companheirismo), de subordinação entre iguais, ...

Nos NB todos os educandos podem assumir o “comando”, escolhidos pelos educandos membros do núcleo e ratificados pela turma, conforme as orientações vigentes no Instituto.54

Os coordenadores dos NBs da Turma escolhem os seus coordenadores que coordenam a Turma, mas devem ser pedagogicamente acompanhados.

A permanência dos membros em um NB vária conforme a necessidade do processo pedagógico.

53 Cf. o poema de Betold Brecht que desafia e convoca a todos: “Você precisa assumir o comando”. Está no sentido

de co-mandar ou de mandar com.

54 Ser dois coordenadores, um homem e uma mulher, em vista da questão de gênero. Isto vale para cada NB e para a

Referências

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