UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA EL´ETRICA
EEL7531: FUNDAMENTOS DE CONTROLE
INTRODUC
¸ ˜
AO AO CONTROLE N ˜
AO-LINEAR
Professor: Aguinaldo Silveira e Silva
Sum´
ario
1 Introdu¸c˜ao 1
1.1 Modelo matem´atico . . . 1
1.2 Existˆencia e solu¸c˜ao de equa¸c˜oes diferenciais . . . 2
1.3 Pontos de equil´ıbrio . . . 3
1.4 Exemplos de sistemas n˜ao-lineares . . . 4
1.4.1 Sistema el´etrico de potˆencia . . . 4
1.4.2 Ecologia . . . 5
2 Sistemas de segunda ordem 9 2.1 Introdu¸c˜ao . . . 9 2.2 Plano de estado . . . 9 2.3 Campo vetorial . . . 9 2.4 Sistemas lineares . . . 10 2.5 Sistemas n˜ao-lineares . . . 14 2.6 Teorema de Hartman-Grobman . . . 16
3 Teoria de estabilidade de Lyapunov 17 3.1 Introdu¸c˜ao . . . 17
3.2 Defini¸c˜oes de estabilidade . . . 18
3.3 Fun¸c˜oes definidas em sinal . . . 19
3.4 Teoremas de estabilidade . . . 20
3.4.1 Regi˜ao de atra¸c˜ao . . . 24
3.5 M´etodos para a constru¸c˜ao de fun¸c˜oes de Lyapunov . . . 25
3.5.1 M´etodo de Krasovskii . . . 25
3.5.2 Fun¸c˜oes tipo Lur’e . . . 25
3.6 Aplica¸c˜oes do m´etodo de Lyapunov . . . 26
CAP´
ITULO
1
Introdu¸
c˜
ao
Modelos lineares s˜ao usados em v´arios campos da ciˆencia para representar uma amplo espectro de sis-temas. No entanto, sistemas reais apresentam algum tipo de n˜ao-linearidade. Em muitos casos a faixa de opera¸c˜ao limitada do sistema faz com que o efeito destas n˜ao-linearidades seja limitado sendo que o modelo linear ´e adequado para uma an´alise qualitiva e mesmo quantitativa suficientemente precisa.
O fato de que engenheiros procurem sempre modelos lineares ´e explicado pelo fato de que a teoria de sistemas lineares ´e bem consolidada e os resultados s˜ao gerais. J´a no caso de sistemas n˜ao-lineares, os resultados s˜ao mais limitados e freq¨uentemente aplic´aveis somente a classes de sistemas n˜ao-lineares.
Em muitas aplica¸c˜oes reais, onde as n˜ao-linearidades tem grande influˆencia no comportamento do sistema tem-se que aplicar t´ecnicas de an´alise e s´ıntese derivadas da teoria de sistemas n˜ao-lineares.
Neste cap´ıtulo s˜ao apresentados alguns conceitos fundamentais de sistemas n˜ao-lineares e defini¸c˜oes b´asicas. Conceitos matem´aticos essenciais usados na formaliza¸c˜ao de resultados s˜ao ent˜ao apresentados. Finalmente alguns exemplos de sistemas f´ısicos n˜ao-lineares s˜ao discutidos para ilustrar a vasta gama de aplica¸c˜oes da teoria de sistemas n˜ao-lineares.
1.1
Modelo matem´
atico
Sistemas n˜ao-lineares podem s˜ao representados por um sistema de equa¸c˜oes diferenciais da forma ˙ x1 = f1(t, x1, x2, . . . , xn, u1, u2, . . . , um) (1.1.1) ˙ x2 = f1(t, x1, x2, . . . , xn, u1, u2, . . . , um) (1.1.2) .. . (1.1.3) ˙ xn = f1(t, x1, x2, . . . , xn, u1, u2, . . . , um) (1.1.4) (1.1.5) No sistema dado pela Equa¸c˜ao 1.1.5 x1, x2, . . . , xn s˜ao os estados do sistema e u1, u2, . . . , um s˜ao entradas externas no sistema.
Podemos escrever este sistema de uma forma bastante compacta se definirmos o vetor de estados
x= x1 x2 .. . xn
o vetor de fun¸c˜oes n˜ao-lineares f = f1 f2 .. . fn e o vetor de fun¸c˜oes de entrada ou for¸cantes
u= f1 f2 .. . fn
O vetor f ´e conhecido como campo vetorial, por raz˜oes que s˜ao discutidas no pr´oximo cap´ıtulo. Com estas defini¸c˜oes a Equa¸c˜ao 1.1.8 pode ser escrita como
˙x = f (t, x, u) (1.1.6)
´
E importante observar que os estados e as entradas s˜ao fun¸c˜oes do tempo, ou seja, rigorosamente dever´ıamos escrever x(t) = [x1(t)x2(t) . . . xn(t)]T e u(t) = [u1(t)u2(t) . . . , um(t)]T, mas para facilitar a nota¸c˜ao n˜ao representamos esta dependˆencia.
Observa-se ainda que a Equa¸c˜ao 1.1.6 depende explicitamente do tempo. Isto significa que admitimos que parˆametros do sistema possam variar com o tempo.
A entrada u caracteriza um sistema for¸cado. Se U n˜ao aparece explicitamente na equa¸c˜ao ent˜ao o sistema ´e n˜ao-for¸cado, dado pela Equa¸c˜ao 1.1.7.
˙x = f (t, x) (1.1.7)
O sistema n˜ao-for¸cado ocorre mesmo quando existe uma entrada mas esta entrada ´e uma fun¸c˜ao do estado x do sistema ou ainda se tivermos uma entrada constante. A entrada constante comporta-se como um parˆametro e n˜ao aparece explicitamente na equa¸c˜ao.
O interesse neste curso ser´a em sistemas que n˜ao dependem explicitamente do tempo. Um sistema que depende explicitamente do tempo ´e chamado n˜ao-autˆonomo. Um sistema que n˜ao depende expli-citamente do tempo ´e chamado de sistema autˆonomo. Na continua¸c˜ao deste curso nos concentraremos em sistemas n˜ao-for¸cados autˆonomos. Portanto a partir de agora consideraremos sistemas descritos pela Equa¸c˜ao 1.1.8.
˙x = f (x) (1.1.8)
1.2
Existˆ
encia e solu¸
c˜
ao de equa¸
c˜
oes diferenciais
A solu¸c˜ao do Sistema 1.1.8 ser´a o vetor de fun¸c˜oes do tempo x(t). Para cada condi¸c˜ao inicial no tempo t0, x0= x(t0), teremos uma solu¸c˜ao. Vamos admitir que esta solu¸c˜ao existe e ´e ´unica para cada condi¸c˜ao inicial. A solu¸c˜ao ser´a uma curva em um espa¸co de dimens˜ao n + 1. Para um sistema de segunda ordem a solu¸c˜ao que passa por x0 e t0 ´e mostrada na Figura 1.1(a).
Se considerarmos que para o mesmo tempo t0 podemos ter qualquer ponto no plano transversal ao eixo dos tempos como condi¸c˜ao inicial, podemos pensar na solu¸c˜ao do Sistema 1.1.8 como uma fam´ılia de curvas, algumas das quais s˜ao mostradas na Figura 1.1(b). Representamos estas solu¸c˜oes como φt= φ(x, t) que indica que para cada valor de t temos um valor associado do estado x(t). Esta fam´ılia de solu¸c˜oes constitui um fluxo φt. O fluxo
Da Equa¸c˜ao 1.1.8 segue que para um conjunto U ⊆ Rn e um intervalo I = (a, b) ⊆ R dφ dt(x, t) τ = f (φ(x, τ )) (1.2.1)
EEL-UFSC 3 x1 x2 t x0 t0
(a) Solu¸c˜ao que passa por x0 em t0
x1 x2 t x0 t0 U (b) Fluxo de um sistema para todo x ∈ U e τ ∈ I
Para uma dada condi¸c˜ao inicial em t = 0 dada por x(0) = x0 procura-se a solu¸c˜ao φ(x0, t) tal que φ(x0, 0) = x0. Esta solu¸c˜ao tamb´em ´e denotada por x(x0, t) ou x(t). A solu¸c˜ao φ(x0, .) define uma curva solu¸c˜ao, trajet´oria ou ´orbita da equa¸c˜ao diferencial 1.1.8.
Quando consideramos o Sistema 1.1.8, uma quest˜ao que surge ´e em que condi¸c˜oes este sistema possui uma solu¸c˜ao. Ou seja dada uma condi¸c˜ao inicial x0 = x(t0) existe um vetor x(t) que satisfaz esta para algum intervalo de tempo [t0, t)? Ainda mais, ser´a que esta solu¸c˜ao ´e ´unica? Como o nosso interesse ´e usar o Sistema 1.1.8 para representar o comportamento de sistemas reais, vemos que uma resposta afirmativa a estas quest˜oes ´e crucial para que o modelo matem´atico tenha utilidade.
Do ponto de vista matem´atico a condi¸c˜ao de existˆencia e unicidade de solu¸c˜ao para o Sistema 1.1.8 ´e dada pela condi¸c˜ao de Lipschitz:
f(y) − f (x) ≤ K |x − y| para algum K < ∞ (constante de Lipschitz).
Para modelos que representam sistemas f´ısicos, a condi¸c˜ao de Lipschiz ´e sempre satisfeita.
1.3
Pontos de equil´ıbrio
Os pontos de equil´ıbrio, tamb´em chamados pontos fixos ou zeros, s˜ao solu¸c˜oes da equa¸c˜aO diferencial para as quais o campo vetorial se anula. Para a Equa¸c˜ao 1.1.8, os pontos de equil´ıbrio s˜ao dados por
f(x) = 0
A solu¸c˜ao da Equa¸c˜ao 1.3 por si s´o pode apresentar consider´avel dificuldade.
Deve-se ainda observar que um sistema n˜ao-linear pode apresentar um ´unico, v´arios, infinitos ou nenhum ponto de equil´ıbrio. No caso de sistemas lineares o sistema tem um ou inifinitos pontos de equil´ıbrio.
Em muitos casos vamos supor que o ponto de equil´ıbrio ´e a origem. Por exemplo, para um sistema de segunda ordem, o ponto x = [0 0]T, tamb´em representado por (0, 0) ´e o equil´ıbrio. Ou seja,
f(0, 0) = f1(0, 0) f2(0, 0) = 0
A suposi¸c˜ao de que a origem ´e um ponto de equil´ıbrio n˜ao constitui perda de generalidade. Realmente, cada ponto de equi´ıbrio pode ser transladado para a origem.
Supondo o sistema:
˙x = f (x) (1.3.1)
com ponto de equi´ıbrio xe, ou seja, f (x e) = 0.
Definindo-se novas vari´aveis de estado tais que y = x − xe, tem-se x = y + xe. Substituindo-se em 1.3.1, tem-se
´
E f´acil de verificar que o ponto y = [0 0] ´e agora um ponto de equi´ıbrio de 1.3.2.
A mudan¸ca de vari´aveis de estado corresponde a uma transla¸c˜ao de eixos, sendo que o novo sistema de coordenadas tem a sua origem no ponto de equil´ıbrio que se deseja transladar para a origem.
1.4
Exemplos de sistemas n˜
ao-lineares
Nesta se¸c˜ao estudaremos alguns exemplos de sistemas n˜ao-lineares encontrados n˜ao s´o em engenharia el´etrica mas tamb´em em outras ´areas. Mostraremos que t´ecnicas de an´alise n˜ao-linear n˜ao s˜ao suficientes para analisar todos os aspectos do comportamento destes sistemas.
1.4.1 Sistema el´etrico de potˆencia
O sistema el´etrico ´e um exemplo de um sistema n˜ao-linear, bem conhecido por sua importˆancia social e econˆomica e que mostra a importˆancia de t´ecnicas de an´alise n˜ao-linear para o estudo de seu desempenho. Vamos considerar um sistema constitu´ıdo de uma ´unica m´aquina s´ıncrona conectada a uma barra infinita, representado na Figura 1.1. Embora este possa parecer um modelo muito simples, ele pode ser usado para descrever uma usina (a m´aquina s´ıncrona) conectada a uma grande rede (a barra infinita).
V∞∠0o
jX Eq∠δ
Figura 1.1: Sistema m´aquina barra-infinita
Usaremos um modelo simples para a m´aquina, que ser´a representada pelas equa¸c˜oes que descrevemo movimento do rotor (equa¸c˜oes de Newton para o movimento rotacional). Estas equa¸c˜oes s˜ao:
˙δ = ω
M ˙ω = Pm− Dω − Pmaxsenδ onde Pmax =
EqV
X , ´e a m´axima potˆencia transmitida pela linha, M ´e a in´ercia da m´aquina, D ´e um coeficiente de amortecimento, ω ´e a velocidade do rotor e δ ´e o ˆangulo da m´aquina.
Podemos imediatamente, a partir dos conceitos apresentados na se¸c˜ao anterior concluir que este ´e um sistema n˜ao-linear e autˆonomo.
Os pontos de equiil´ıbrio s˜ao dados por 0 = ω
0 = Pm− Dω − Pmaxsenδe sendo portanto dados por
δe = sen−1 Pm Pmax ωe = 0
Observa-se que o sistema tem infinitos pontos de equil´ıbrio, pois existem infinitos arcos que atendem `
a condi¸c˜ao sobre o ˆangulo δ. No entanto, do ponto de vista f´ısico, temos interesse em trˆes pontos dados por (δe, 0), com δe ∈ (−π, π), (π − δe, 0) e −π − (δe, 0).
Vamos aplicar uma pequena perturba¸c˜ao que desloque o sistema do seu ponto de equil´ıbrio e logo a seguir retiraremos a perturba¸c˜ao. A trajet´oria do sistema no espa¸co de fase ´e apresentada na Figura 1.2.
EEL-UFSC 5
V∞∠0o
jX Eq∠δ
Figura 1.2: Sistema m´aquina barra-infinita
Observa-se que o sistema retorna ao ponto de equil´ıbrio δe. Vamos agora aumentar o per´ıodo em que a perturba¸c˜ao permanece no sistema. A traj´et´oria se afasta do ponto de equil´ıbrio e n˜ao retorna mesmo ap´os a retirada da perturba¸c˜ao.
Vamos agora simular uma trajet´oria como uma condi¸c˜ao inicial muito pr´oxima do ponto de equil´ıbrio (π − δe, 0). O sistema se afasta deste ponto de equil´ıbrio e portanto o ponto de equl´ıbrio ´e inst´avel.
Este comportamento do sistema est´a associado aos conceitos de estabilidade transit´oria e estabilidade para pequenas perturba¸c˜oes de sistemas el´etricos. Ferramentas da teoria de sistemas lineares permitem a an´alise e a determina¸c˜ao de a¸c˜oes de controle para manter a estabilidade do sistema.
1.4.2 Ecologia
Uma das aplica¸c˜oes de sistemas n˜ao-lineares ´e o estudo de modelos que representam sistemas ecol´ogicos e equil´ıbrio em sistemas envolvendo presas e predadores.
Um modelo bem conhecido ´e a equa¸c˜ao de Lotka-Volterra. Este modelo foi desenvolvido pelo ma-tem´atico italiano Volterra para modelar a rela¸c˜ao entre peixes predadores e peixes presas.
˙
x1 = x1+ x1x2 (1.4.1)
˙
x2 = −x2− x1x2 (1.4.2)
Esta equa¸c˜ao descreve um sistema ecol´ogico onde x1 ´e o n´umero de predatores e x2 ´e o n´umero de presas. Se x2 = 0 (nenhuma presa) ent˜ao da equa¸c˜ao ˙x1 = −x1 segue que a solu¸c˜ao ´e x1 = x10e−t, ou seja, a popula¸c˜ao de predadores cai exponencialmente a zero. Por outro lado, se x1 = 0 (o n´umero de predadores ´e zero) ent˜ao da equa¸c˜ao ˙x2 = x2 segue que a solu¸c˜ao ´e x2 = x20et, ou seja, a popula¸c˜ao de presas aumenta exponencialmente.
Como veremos no Cap´ıtulo 4, a solu¸c˜ao desta equa¸c˜ao, em um sistema com predatores e presas, ´e peri´odica e a existˆencia de solu¸c˜oes peri´odicas ´e um dos t´opicos da teoria de sistemas n˜ao-lineares. Esta teoria encontra ampla aplica¸c˜ao a sistemas biol´ogicos.
Exerc´ıcios
1. Para o sistema de controle da Figura 1.3, sem o tacˆometro (chave S aberta) fa¸ca o gr´afico da trajet´oria para uma condi¸c˜ao inicial e (0) = 2, ˙(e) (0) = 0.
Dados: τm = 0, 5 seg; k = 8; δ = 0, 5
Considere agora o tacˆometro (kt= 0, 5) , ou seja, chave S fechada. Plote a trajet´oria e comente sobre o efeito da realimenta¸c˜ao tacom´etrica.
Figura 1.3: Figura para o Exerc´ıcio 1
2. O sistema de controle a rel´e da Figura 1.4 usa um rel´e com zona morta e um la¸co de realimenta¸c˜ao derivativa. Plote a trajet´oria para entrada zero e condi¸c˜oes iniciais c (0) = 2, ˙c (0) = 5. Calcule o tempo de resposta o sistema. Determine o erro em regime permanente.
Figura 1.4: Figura para o Exerc´ıcio 2
3. Considere o sistema ¨ x − 0, 1 − 10 3 ˙x ˙x ˙x + x + x2 = 10 a) Encontre os pontos de equil´ıbrio.
b) Estude a estabilidade de cada um deles.
EEL-UFSC 7 a) ¨ x = 2xy − 4y − 8 ¨ y = 4y2− x2 b) ¨ x = 4y2− x2 ¨ y = 2y − 2 c) ¨ x = 4 − 4x − 2y ¨ y = xy
CAP´
ITULO
2
Sistemas de segunda ordem
2.1
Introdu¸
c˜
ao
Neste cap´ıtulo estudaremos sistemas de segunda ordem. O estudo destes sistemas apresenta vantagens j´a que as solu¸c˜oes de sistemas de segunda ordem podem ser representadas por curvas no plano, e como resultado muitos conceitos relacionados a sistemas n˜ao-lineares tem uma interpreta¸c˜ao geom´etrica simples. Por outro lado, nem todos os resultados v´alidos para sistemas de segunda ordem podem ser estendidos para sistemas de ordem superior.
2.2
Plano de estado
O sistema de segunda ordem pode ser representado de forma gen´erica por por ˙
x1 = f1[t, x1(t), x2(t)] ˙
x2 = f2[t, x1(t), x2(t)] (2.2.1)
Consideraremos apenas sistemas autˆonomos e tamb´em n˜ao representaremos explixitamente a de-pendˆencia no tempo das vari´aveis de estado. O sistema a ser considerado ent˜ao ´e
˙
x1 = f1(x1, x2) ˙
x2 = f2(x1, x2) (2.2.2)
Representado uma solu¸c˜ao [x1, x2] de 2.2.2 no plano x1, x2 resulta em um gr´afico no espa¸co de estado chamado trajet´oria. No caso especial onde a primeira equa¸c˜ao em 2.2.2 ´e
˙
x1 = x2(t) o espa¸co de estado ´e chamado plano de fase.
2.3
Campo vetorial
Dado o sistema de segunda ordem autˆonomo 2.2.2 a cada vetor [x1 x2]T pode-se associar um vetor [f1(x1, x2) f2(x1, x2)]T chamado campo vetorial.
Defini¸c˜ao 1 Um campo vetorial ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua f : R2 → R2. A dire¸c˜ao do campo vetorial f no ponto x ∈ R2 ´e dada por
θt= tan−1 f2(x1x2) f1(x1, x2) De 2.2.2 segue que dx2 dx1 = f2(x1x2) f1(x1, x2) (2.3.1) e portanto o vetor f (x) ´e tangente `a trajet´oria em x.
2.4
Sistemas lineares
Nesta se¸c˜ao desenvolveremos um estudo de sistemas lineares. A primeira vista parece que estamos deixando de lado uma classe mais geral de sistemas para abordar um caso particular. No entanto, um importante resultado, apresentado no final desta se¸c˜ao permite relacionar o comportamento das trajet´orias de um sistema n˜ao-linear em uma vizinhan¸ca dos pontos de equil´ıbrio com o comportamento de um sistema linear obtido a partir deste sistema n˜ao-linear. Ou seja, a partir deste ´ultimo podemos obter informa¸c˜oes sobre a natureza dos pontos de equil´ıbrio e forma das trajet´orias de um sistema n˜ ao-linear. Na seq¨uˆencia estudaremos a forma das trajet´orias de um sistema linear.
Seja o sistema linear autˆonomo de segunda ordem dado por ˙
x1 = a11x1+ a12x2 ˙
x2 = a21x1+ a22x2 (2.4.1)
com condi¸c˜oes iniciais dadas por
x1(0) = x10
x2(0) = x20 (2.4.2)
O sistema 2.4.1 pode ser escrito na forma matricial ˙x = A x x(0) = x0 (2.4.3) onde x = [x1x2]T e A= a11 a12 a21 a22
Uma solu¸c˜ao de 2.4.1 pode ser obtida facilmente se a matriz A for diagonalizada. Isto permite desacoplar as duas equa¸c˜oes, resolvendo-as uma de cada vez e obtendo a forma das trajet´orias.
A diagonaliza¸c˜ao de A pode ser feita por uma transforma¸c˜ao de similaridade. Isto significa obter um novo vetor de estado z
z= M−1x (2.4.4)
onde M ´e uma matriz conveniente.
Usando 2.4.4 em 2.4.1 chega-se facilmente `a nova equa¸c˜ao de estado
˙z = M−1A M x (2.4.5)
Com uma escolha adequada de M a matriz M−1A M´e diagonal e dada por M−1A M= λ1 0 0 λ2 (2.4.6)
EEL-UFSC 11
onde λ1 e λ2 s˜ao os autovalores reais de A. λ1 e λ2 n˜ao s˜ao necessariamente distintos mas a matriz diagonal pode ser obtida no caso de autovalores iguais se autovetores linearmente independentes puderem ser obtidos.
No caso em que os autovalores s˜ao repetidos e autovetores linearmente independentes n˜ao puderem ser obtidos pode-se ainda obter a forma de Jordan
M−1A M= λ1 1 0 λ2 (2.4.7) Se os autovalores forem complexos conjugados dados por α ± jβ pode-se obter a forma
M−1A M= α β −β α (2.4.8) A an´alise das formas diagonalizadas permite o estudo da forma das solu¸c˜oes. De 2.4.5 e 2.4.6 segue que
˙
z1 = λ1z1 ˙
z2 = λ2z2 (2.4.9)
com condi¸c˜oes iniciais
z1(0) = z10 z2(0) = z20 As solu¸c˜oes s˜ao dadas por
z1 = z10eλ1t z2 = z20eλ2t Supondo λ1 6= 0 tem-se
ln z1 = ln z10+ λ1t ln z2 = ln z20+ λ2t Eliminando-se o tempo nestas equa¸c˜oes tem-se
z2 = z20 z1 z10
λ2λ1
(2.4.10) Quando λ1 e λ2 s˜ao complexos conjugados, dados por λ1,2 = α ± β o sistema pode ser escrito como
˙
z1 = α z1+ β z2 (2.4.11)
˙
z2 = −β z1+ α2z2 (2.4.12)
com condi¸c˜oes iniciais
z1(0) = z10 z2(0) = z20
A forma das trajet´orias pode ser obtida facilmente com uma transforma¸c˜ao de coordenadas para a forma polar.
Definindo-se:
r = (z12+ z22)12 (2.4.13)
φ = tg−1z2 z1
(2.4.14) Derivando-se 2.4.13 com rela¸c˜ao ao tempo tem-se
˙r = α(z 2 1+ z22) (z21+ z22)12 ou ˙r = α r (2.4.15)
Derivando-se 2.4.14 com rela¸c˜ao ao tempo tem-se ˙
φ = −β (2.4.16)
Portanto, o sistema obtido ´e
˙r = α r (2.4.17)
˙
φ = −β (2.4.18)
O comportamento das trajet´orias pode ser estudado usando a Equa¸c˜ao 2.4.10, para o caso onde os autovalores s˜ao reais, ou a Equa¸c˜ao 2.4.18, para o caso onde os autovalores s˜ao complexos conjugados.
Dependendo de λ1 e λ2 v´arios casos podem ocorrer. 1. Caso onde λ1 e λ2 reais de mesmo sinal e negativos
Se λ2 < λ1 < 0 ent˜ao as trajet´orias s˜ao dadas pela Figura 2.1(a) Se λ2 < λ1 < 0 ent˜ao as trajet´orias s˜ao dadas pela Figura 2.1(b).
Estes dois casos caracterizam um ponto de equil´ıbrio chamado n´o est´avel.
z1 z2 (a) λ1> λ2 z1 z2 (b) λ1< λ2
Figura 2.1: N´o est´avel
2. Caso λ1 e λ2 reais de mesmo sinal e positivos
Se λ2 > λ1 > 0 ent˜ao as trajet´orias s˜ao dadas pela Figura 2.2(a). Se λ1 > λ2 > 0 ent˜ao as trajet´orias s˜ao dadas pela Figura 2.2(b). Neste caso o ponto de equil´ıbrio ´e um n´o inst´avel
EEL-UFSC 13 z1 z2 (a) λ1> λ2 z1 z2 (b) λ1< λ2
Figura 2.2: N´o inst´avel
z1
z2
(a) λ1>0 > λ2
z1
(b) λ1<0 < λ2
Figura 2.3: Ponto de sela
3. Caso onde λ1 e λ2 reais de sinais opostos
No caso onde λ1< 0 < λ2 as trajet´orias s˜ao mostradas na Figura 2.3(a). No caso onde λ1> 0 > λ2 as trajet´orias s˜ao mostradas na Figura 2.3(b). Estes casos caracterizam um ponto de sela.
4. Caso onde λ1 e λ2 s˜ao complexos conjugados com α < 0. A forma das trajet´orias ´e mostrada pela Figura 2.4(a).
O ponto de equil´ıbrio neste caso ´e chamado um foco est´avel. 5. Caso onde λ1 e λ2 s˜ao complexos conjugados com α > 0.
A forma das trajet´orias ´e mostrada pela Figura 2.4(b).
O ponto de equil´ıbrio ´e chamado neste caso de foco inst´avel. 6. Caso onde α = 0. Os autovalores s˜ao imagin´arios puros.
A forma das trajet´orias ´e mostrada na Figura 2.5. O ponto de equil´ıbrio ´e chamado de centro.
z1 z2 (a) ℜα < 0 z1 z2 (b) ℜα > 0 Figura 2.4: Foco z1 z2 Figura 2.5: Centro
2.5
Sistemas n˜
ao-lineares
Nesta se¸c˜ao ser˜ao considerados sistemas autˆonomos dados por ˙
x1 = f1(x1, x2) (2.5.1)
˙
x2 = f2(x1, x2) (2.5.2)
O sistema n˜ao-linear pode ser linearizado em torno do ponto de equil´ıbrio. Um resultado importante ´e que, em geral, pode-se determinar o comportamento das trajet´orias do sistema n˜ao-linear em uma
EEL-UFSC 15
Tabela 2.1: Pontos de equil´ıbrio para o sistema linearizado e n˜ao-linear Sistema linearizado Sistema n˜ao-linear
Ponto de equil´ıbrio y1= 0, y2 = 0 Ponto de equil´ıbrio x1= 0, x2 = 0
N´o est´avel N´o est´avel
N´o inst´avel N´o inst´avel
Ponto de sela Ponto de sela
Foco est´avel Foco est´avel
Foco Inst´avel Foco inst´avel
Centro Nada se afirma
vizinhan¸ca do ponto de equil´ıbrio, a partir do comportamneto das trajet´orias do sistema linear, a n˜ao ser em alguns casos especiais. A formaliza¸c˜ao deste resultado ser´a apresentada mais adiante.
No desenvolvimento a seguir (0, 0) ´e considerado o ponto de equil´ıbrio do sistema 2.5.2, ou seja
0 = f1(0, 0) (2.5.3)
0 = f2(0, 0) (2.5.4)
Isto sempre pode ser feito, atrav´es de uma transla¸c˜ao de eixos, como mostrado na Se¸c˜ao. Na vizinhan¸ca do pode de equil´ıbrio (0, 0) pode-se expandir f1 e f2 em s´erie de Taylor.
f1(x1, x2) = f1(0, 0) + ∂ f1(x1, x2) d x1 (0,0) x1+ ∂ f1(x1, x2) d x2 (0,0) x1 (2.5.5)
+ · · · + termos de ordem mais elevada (2.5.6) f2(x1, x2) = f2(0, 0) + ∂ f2(x1, x2) d x1 (0,0) x1+ ∂ f2(x1, x2) d x2 (0,0) x1 (2.5.7)
+ · · · + termos de ordem mais elevada (2.5.8) Desde que f1(0, 0) = f2(0, 0) = 0 e desprezando-se os termos restantes da s´erie pode-se definir o sistema linear: ˙ y1 = a11y1+ a12y2 (2.5.9) ˙ y2 = a21y1+ a22y2 (2.5.10) onde a11= ∂ f1d x(x11,x2) (0,0) a12= ∂ f1(x1,x2) d x2 (0,0) a21= ∂ f2d x(x11,x2) (0,0) a22= ∂ f2(x1,x2) d x2 (0,0)
A rela¸c˜ao entre as trajet´orias do sistema linearizado e as trajet´orias do sistema n˜ao-linear em uma vizinhan¸ca do ponto de equil´ıbrio ´e dada pela Tabela 2.1
Portanto, a n˜ao ser que a matriz
A=
a11 a12 a21 a22
tenha autovalores com parte real zero, pode-se determinar o comportamento das trajet´orias do sistema n˜ao-linear em uma vizinhan¸ca do ponto de equil´ıbrio a partir das trajet´orias do sistema linearizado.
No caso de centro no sistema linearizado observa-se que as oscila¸c˜oes n˜ao crescem ou decrescem. Os termos desprezados na s´erie de Taylor ´e que v˜ao indicar se h´a crescimento ou decrescimento das oscila¸c˜oes. Portanto nada se pode concluir sobre o sistema n˜ao-linear.
Se o ponto de equl´ıbrio ´e tal que a matriz jacobiana calculada neste ponto de equil´ıbrio n˜ao tem autovalores com parte real zero, ent˜ao o ponto de equil´ıbrio ´e chamado hiperb´olico ou n˜ao-degenerado.
2.6
Teorema de Hartman-Grobman
Os resultados da se¸c˜ao anterior podem ser resumidos atrav´es do importante teorema de Hartman-Grobman. Este teorema ´e aplic´avel a sistemas de qualquer ordem e portanto generaliza os resultados anteriores.
Teorema 2.1 Se a matriz jacobiana do sistema linearizado n˜ao tem autovalores zero ou imagin´arios puros ent˜ao existe um homeomorfismo definido em alguma vizinhan¸ca U de (0, 0) em ℜn que leva local-mente ´orbitas do fluxo n˜ao-linear de 2.5.2 `aquelas do fluxo linear de 2.5.10. O homeomorfismo preserva o sentido das ´orbitas e pode ser escolhido para preservar a parametriza¸c˜ao no tempo.
Em termos mais simples podemos interpretar este resultado dizendo que a cada solu¸c˜ao do sistema linearizado existe um mapeamento (homeomorfismo) que leva a uma ´orbita do sistema n˜ao-linear. O sentido ´e preservado, ou seja, se a orbita do sistema linear se aproxima ou se afasta do ponto de equil´ıbrio a ´orbita do sistema n˜ao-linear tamb´em se aproximar´a ou afastar´a, respectivamente, do ponto de equil´ıbrio.
CAP´
ITULO
3
Teoria de estabilidade de Lyapunov
3.1
Introdu¸
c˜
ao
O m´etodo direto de estudo da estabilidade de um ponto de equil´ıbrio ´e de natureza distinta dos m´etodos baseados em lineariza¸c˜ao. Nestes estuda-se a estabilidade para pequenas perturba¸c˜oes e o enfoque ´e em termos locais. No caso do m´etodo direto a caracteriza¸c˜ao da solu¸c˜ao n˜ao ´e necessariamente em termos locais.
A origem do m´etodo direto encontra-se na mecˆanica cl´assica onde esta caracteriza¸c˜ao n˜ao local aparece das leis da est´atica e dinˆamica. Assim, Torricelli (1608-1647) apresentou o enunciado de que ”Corpos pesados conectados n˜ao podem come¸car a mover-se se o centro comum de gravidade deles n˜ao mover-se para baixo”. Lagrange (1736-1813) por sua vez apresentou o enunciado de que ”Um sistema mecˆanico que est´a em um estado onde sua energia potencial tem um m´ınimo isolado, est´a em um estado de equil´ıbrio est´avel”.
Estas id´eias de estabilidade em mecˆanica foram generalizadas por Aleksandr Mikhailovich Lyapunov, ent˜ao professor na Universidade de Kharkov, em sua tese de doutorado submetida `a Universidade de Moscou em 1892 e intitulada ¨O problema geral da estabilidade do movimento¨. O m´etodo proposto por Lyapunov teve uma imensa influˆencia na teoria da estabilidade de sistemas dinˆamicos e continua como um dos fundamentos daquela teoria.
A id´eia b´asica do m´etodo de Lyapunov pode ser resumida pelo desenvolvimento a seguir, no qual consideraremos apenas sistemas autˆonomos. No entanto o m´etodo ´e geral e aplica-se a sistemas n˜ ao-autˆonomos.
Seja o sistema descrito por
˙x = f (x) (3.1.1)
sem for¸cas externa atuando. Seja 0 um dos pontos de equil´ıbrio deste sistema (ou, poss´ıvelmente, o ´unico ponto de equil´ıbrio). Supondo que a energia deste sistema possa ser definida por uma fun¸c˜ao V tal que V (0) = 0 (min´ımo global) e V (x) > 0 para x 6= 0.
Dada uma condi¸c˜ao inicial x0 6= 0, ent˜ao V (x0) > 0. Se a dinˆamica do sistema ´e tal que dVdt ≤ 0 ent˜ao a energia n˜ao aumenta e dependendo de V isto pode indicar a estabilidade do ponto de equil´ıbrio O. Se
dV
dt ≤ 0 ent˜ao a energia se reduzir´a a zero e pode-se concluir a estabilidade do ponto de equil´ıbrio O. A teoria de estabilidade de Liapunov permite a escolha da fun¸c˜ao V para um determinado sistema. Ou seja, a fun¸c˜ao V n˜ao precisa ser necessariamente a energia associada ao sistema. A seguir ser˜ao apresentados os teoremas b´asicos sobre estabilidade, estabilidade assint´atica e instabilidade, que formam
o n´ucleo do m´etodo direto de Liapunov. No final do cap´ıtulo alguns m´etodos para a gera¸c˜ao de fun¸c˜oes de Liapunov s˜ao apresentados assim como exemplos aplicando os m´etodos. A quest˜ao da determina¸c˜ao de dom´ınios de estabilidade tamb´em ´e abordada.
3.2
Defini¸
c˜
oes de estabilidade
Nesta se¸c`ao s˜ao apresentadas as defini¸c˜oes de estabilidade no sentido de Lyapunov. No desenvolvimento a seguir ser´a considerado que 0 ´e o ponto de equil´ıbrio, o que sempre pode ser feito com uma mudan¸ca de referˆencia.
Defini¸c˜ao 2 O ponto de equil´ıbrio 0 ´e est´avel se, dado um ǫ > 0, existe um δ(ǫ) tal que para qualquer condi¸c˜ao inicial ||x(t0|| < δ(ǫ) tem-se que ||x(t, x0|| < ǫ.
A Figura 3.1 ilustra esta defini¸c˜ao no plano de fase 3.1(a) e a trajet´oria 3.1(b).
δ ǫ x(0) xe
(a) Espa¸co de es-tado δ ǫ x0 t x2 x1 (b) Resposta no tempo
Figura 3.1: Ponto de equil´ıbrio est´avel Um ponto de equil´ıbrio ´e inst´avel se ele n˜ao for est´avel.
Analisando esta defini¸c˜ao concluimos que o ponto de equil´ıbrio est´avel implica que a trajet´oria n˜ao se afastar´a do ponto de equil´ıbrio mas tamb´em n˜ao precisar´a retornar ao mesmo. Em muitas aplica¸c˜oes a trajet´oria deve retornar ao ponto de equil´ıbrio.
Defini¸c˜ao 3 O ponto de equil´ıbrio 0 ´e assint´oticamente est´avel se as duas condi¸c˜oes seguintes forem atendidas:
1. ele ´e est´avel
2. ||x(t, x0)|| → 0 quando t → ∞.
A Figura 3.2 ilustra esta defini¸c˜ao no plano de fase 3.2(a) e a trajet´oria 3.2(b).
Os conceitos de estabilidade vistos at´e aqui s˜ao essencialmente conceitos locais. Para um sistema com v´arios pontos de equil´ıbrio cada ponto de equil´ıbrio ter´a uma condi¸c˜ao de estabilidade. Porisso fala-se da estabilidade de pontos de equil´ıbrio e n˜ao da estabilidade de sistemas. Um conceito global de estabilidade ser´a visto mais adiante com a defini¸c˜ao de estabilidade assint´otica global.
Defini¸c˜ao 4 O ponto de equil´ıbrio 0 ´e assint´oticamente est´avel globalmente se ele for assint´oticamente est´avel para qualquer x0 ∈ Rn.
Observa¸c˜ao 1 Todas as defini¸c˜oes acima podem ser estendidas para sistemas n˜ao-autˆonomos. Consulte, por exemplo, as referˆencias
EEL-UFSC 19
ǫ δ xe
x(0)
(a) Espa¸co de es-tado δ ǫ x0 t x2 x1 (b) Resposta no tempo
Figura 3.2: Ponto de equil´ıbrio assint´oticamente est´avel
3.3
Fun¸
c˜
oes definidas em sinal
Nesta se¸c˜ao apresentaremos a defini¸c`ao de fun¸c˜oes de sinal definido, que ser˜ao usadas nos teoremas de estabilidade de Lyapunov.
Defini¸c˜ao 5 Uma fun¸c˜ao V (x) ´e definida positiva localmente em uma vizinhan¸ca ω da origem se ela ´e definida e cont´ınua em ω, V (0) = 0 e V (x) > 0 para x 6= 0 e x ∈ ω.
Exemplo 3.3.1 A fun¸c˜ao V (x) = x21 + x22 ´e definida positiva. Esta fun¸c˜ao ´e representada na Fi-gura 3.3(a).
x1
x2
V(x)
(a) Fun¸c˜ao definida postiva
x1
x2
V(x)
(b) Fun¸c˜ao definida negativa
Figura 3.3: Fun¸c˜oes definidadas em sinal
Defini¸c˜ao 6 Uma fun¸c˜ao V (x) ´e definida negativa localmente em uma vizinhan¸ca ω da origem se ela ´e definida e cont´ınua em ω, V (0) = 0 e V (x) < 0 para x 6= 0 e x ∈ ω.
Exemplo 3.3.2 A fun¸c˜ao V (x) = −(x21+ x22) ´e definida negativa. Esta fun¸c˜ao ´e representada na Fi-gura 3.3(b).
As defini¸c˜oes seguintes introduzem a id´eia de fun¸c˜oes semi-definidas em sinal, que tornam menos severas as exigˆencias de sinal na vizinhan¸ca permitindo que as fun¸c˜oes sejam zero ao inv´es de estritamente positivas ou negativas.
Defini¸c˜ao 7 Uma fun¸c˜ao V (x) ´e semi-definida positiva localmente em uma vizinhan¸ca ω da origem se ela ´e definida e cont´ınua em ω, V (0) = 0 e V (x) ≥ 0 para x 6= 0 e x ∈ ω.
Exemplo 3.3.3 A fun¸c˜ao V (x) = x21 ´e semi-definida positiva. Para qualquer x = [0 x2]T a fun¸c˜ao ´e zero. Esta fun¸c˜ao ´e representada na Figura 3.4(a).
x1
V(x)
x2
(a) Fun¸c˜ao semi-definida positiva
x2
V(x)
x1
(b) Fun¸c˜ao semi-definida negativa
Figura 3.4: Fun¸c˜oes semi-definidas
Defini¸c˜ao 8 Uma fun¸c˜ao V (x) ´e semi-definida negativa localmente em uma vizinhan¸ca ω da origem se ela ´e definida e cont´ınua em ω, V (0) = 0 e V (x) ≤ 0 para x 6= 0 e x ∈ ω.
Exemplo 3.3.4 A fun¸c˜ao V (x) = −x21 ´e semi-definida negativa. Para qualquer x = [0 x2] a fun¸c˜ao ´e zero. Esta fun¸c˜ao ´e representada na Figura 3.4(b).
3.4
Teoremas de estabilidade
Nesta se¸c˜ao s˜ao apresentados os teoremas que fundamentam a teoria de estabilidade Liapunov. ´E impor-tante novamente ressaltar que abordaremos apenas o caso de sistemas autˆonomos mas a teoria ´e geral e n˜ao se limita a este tipo de sistema. N˜ao ser˜ao apresentadas demonstra¸c˜oes para estes teoremas, mas estas podem ser encontradas em muitas referˆencias.
Teorema 3.1 Seja o sistema 3.1.1. Se em uma vizinhan¸ca U do ponto de equil´ıbrio 0 existe uma fun¸c˜ao escalar V (x) com as primeiras derivadas parciais cont´ınuas e tal que
1. V (x) ´e definida positiva em U 2. V (x) ´e semi-definida negativa em U˙ ent˜ao o ponto de equil´ıbrio 0 ´e est´avel.
Esta teorema apenas assegura a estatabilidade do ponto de equil´ıbrio, mas n˜ao assegura que a tra-jet´oria retorna ao ponto de equil´ıbrio, ou seja, que a estabilidade ´e ass´ınt´otica. Isto ´e assegurado pelo pr´oximo teorema.
Teorema 3.2 Seja o sistema 3.1.1. Se em uma vizinhan¸ca U do ponto de equil´ıbrio 0 existe uma fun¸c˜ao escalar V (x) com as primeiras derivadas parciais cont´ınuas e tal que
1. V (x) ´e definida positiva em U 2. ˙V (x) definida negativa em U
EEL-UFSC 21
ent˜ao o ponto de equil´ıbrio 0 ´e assint´oticamente est´avel.
O pr´oximo teorema fornece as condi¸c˜oes para determinar se o ponto de equil´ıbrio ´e inst´avel.
Teorema 3.3 Seja o sistema 3.1.1. Se em uma vizinhan¸ca U do ponto de equil´ıbrio 0 existe uma fun¸c˜ao escalar V (x) com as primeiras derivadas parciais cont´ınuas e tal que
1. V (x) ´e definida positiva em U 2. ˙V (x) definida positiva em U ent˜ao o ponto de equil´ıbrio 0 ´e inst´avel.
Os teoremas apresentados indicam apenas a estabilidade local do ponto de equil´ıbrio. O teorema seguinte apresenta as condi¸c˜oes para a estabilidade global.
Teorema 3.4 Seja o sistema 3.1.1. Se existe uma fun¸c˜ao escalar V (x) com as primeiras derivadas parciais cont´ınuas e tal que
1. V (x) ´e definida positiva 2. ˙V (x) definida negativa 3. V (x) → ∞ quando ||x|| → ∞
ent˜ao o ponto de equil´ıbrio 0 ´e globalmente assint´oticamente est´avel.
Neste caso qualquer que seja a condi¸c˜ao inicial, a trajet´oria retornar´a ao ponto de equil´ıbrio.
As condi¸c˜oes de estabilidade assint´otica local ou global exigem que a derivada da fun¸c˜ao V (x) seja˙ definida negativa. No entanto, um resultado devido a LaSalle permite que, com algumas restri¸c˜oes adicionais, a fun¸c˜ao precise ser apenas semi-definida negativa.
Teorema 3.5 Seja o sistema 3.1.1, com f cont´ınua, e seja V (x) uma fun¸c˜ao escalar com as primeiras derivadas parciais cont´ınuas e tal que em uma vizinhan¸ca U da origem se tenha
1. V (x) ´e definida positiva localmente 2. ˙V (x) ´e semi-definida negativa
3. o conjunto R definido por ˙V (x) = 0 n˜ao contem nenhuma trajet´oria de 3.1.1 al´em da trajet´oria trivial x ≡ 0
ent˜ao o ponto de equil´ıbrio 0 ´e assint´oticamente est´avel.
Uma vers˜ao deste teorema existe tamb´em para a estabilidade assint´otica global, mas n˜ao ser´a apre-sentado aqui.
Observa¸c˜ao 2 Uma fun¸c˜ao V (x) a ser considerada para testar a estabilidade de um um ponto de equil´ıbrio ´e chamada uma fun¸c˜ao candidata de Lyapunov. Se esta fun¸c˜ao comprova a estabilidade do ponto de equil´ıbrio ela ´e chamada de fun¸c˜ao de Liapunov. Na continua¸c˜ao deste texto usaremos comu-mente fun¸c˜ao de Lyapunov sem distinguir os casos anteriores.
Observa¸c˜ao 3 ´E interessante notar que os teoremas n˜ao indicam como a fun¸c˜ao V (x) pode ser determi-nada. Este ´e um problema apresentado pelo m´etodo mas em alguns caso pode-se seguir um procedimento sistem´atico para construir tais fun¸c˜oes.
Observa¸c˜ao 4 Uma vez que tenhamos determinado que um ponto de equil´ıbrio ´e assint´oticamente est´avel, s´o sabemos que existe uma vizinhan¸ca deste ponto para a qual trajet´orias que partem desta vizinhan¸ca retornam ao ponto de equil´ıbrio. Seria muito ´util se o conjunto de todas as condi¸c˜oes iniciais para as quais a trajet´oria volta ao ponto de equil´ıbrio pudesse ser determinado. Uma estimativa deste conjunto pode realmente ser conseguida usando fun¸c˜oes de Lyapunov como ser´a visto na pr´oxima se¸c˜ao.
A esta altura ´e conveniente analisarmos melhor o significado da derivada da fun¸c˜ao V (x). Esta ´e uma fun¸c˜ao escalar (o valor de V (x) ∈ ℜ) de v´arias vari´aveis (o vetor x = [x1 x2· · · xn]T). Para calcular a derivada devemos ent˜ao fazer
V (x) dt = ∂V (x) ∂x1 ˙ x1+ ∂V (x) ∂x2 ˙ x2+ · · · + ∂V (x) ∂xn ˙ xn (3.4.1) ou ainda V (x) dt = ∂V (x) ∂x1 ∂V (x) ∂x2 · · · + ∂V (x) ∂xn ˙ x1 ˙ x1 .. . ˙ x1 (3.4.2)
Considerando que o gradiente de V (x), ´e dado por ∇V (x) = ∂V (x) ∂x1 ∂V (x) ∂x2 · · · +∂V (x) ∂xn ]T
e a Equa¸c˜ao 3.1.1 tem-se que
˙
V (x) = ∇TV (x) . f (x) (3.4.3)
ou seja, oa derivada de V (x) ´e o produto escalar do gradiente de V (x) com o campo vetorial.
A Equa¸c˜ao 3.4.3 indica que estamos calculando a derivada de V (x) ao longo das trajet´orias do sistema 3.1.1, o que ´e mostrado pelo fato de termos usado o vetor f no calculo desta derivada. A derivada de uma fun¸c˜ao escalar em uma dire¸c˜ao (aqui a dire¸c˜ao dada pelo campo vetorial) ´e chamada derivada de Lie.
A Equa¸c˜ao 3.4.3 permite ainda uma interpreta¸c˜ao do significado do m´etodo de Lyapunov. Lembrando que o gradiente d´a a dire¸c˜ao de m´aximo crescimento da fun¸c˜ao em cada ponto, ele ser´a perpendicular `
as curvas de n´ıvel da fun¸c˜ao V (x). Lembrando ainda que o produto escalar ´e negativo se o ˆangulo entre os dois vetores ´e maior do que 90◦, a derivada da fun¸c˜ao ser´a negativa se o campo vetorial (tangente `as trajet´orias) ¨entrar¨ na curva de n´ıvel de V (x) da dire¸c˜ao de curvas de n´ıvel de menores valores.
A seguir analisaremos alguns exemplos de aplica¸c˜ao do m´etodo de Lyapunov. Exemplo 3.4.1 Seja o sistema linear dado por
˙x1 = x2 (3.4.4)
˙x2 = −x1 (3.4.5)
O ponto de equil´ıbrio ´e dado por [0 0]T, ou seja ´e a pr´opria origem.
Temos que procurar uma candidata `a fun¸c˜ao de Lyapunov, o que n˜ao ´e uma tarefa simples. Uma boa tentativa ´e uma fun¸c˜ao quadr´atica dada por
V (x) = x21+ x22 (3.4.6)
Esta fun¸c˜ao atende aos requisitos para ser uma fun¸c˜ao de Lyapunov
V (0) = 0 (3.4.7)
EEL-UFSC 23
A derivada em rela¸c˜ao ao tempo desta fun¸c˜ao ´e calculada por 3.4.3 ˙ V (x) = ∂V ∂ x1 d x1 d t + ∂V ∂ x2 d x2 d t = 2 x1x˙1+ 2 x2x˙2 Substituindo-se as derivadas ˙x1 e ˙x2 obtidas do sistema 3.4.5 obtem-se
˙
V (x) = 2 x1x2− 2 x2x1 = 0
Portanto a origem ´e um ponto de equil´ıbrio est´avel. Observe que n˜ao ´e poss´ıvel concluir sobre a estabilidade assint´otica j´a que a derivada de V (x) ´e apenas semi-definida negativa.
Exemplo 3.4.2 Seja o sistema
˙x1 = x1(x21+ x22− 1) − x2 (3.4.9) ˙x2 = x1+ x2(x21+ x22− 1) (3.4.10) A origem ´e um ponto de equil´ıbrio deste sistema. Vamos analisar a sua estabilidade. Novamente a fun¸c˜ao quadr´atica
V (x) = x21+ x22 ser´a considerada para esta an´alise.
A derivada em rela¸c˜ao ao tempo desta fun¸c˜ao ´e ˙
V (x) = 2 (x21+ x22) (x21+ x22− 1)
Pode-se facilmente verificar que para uma vizinhan¸ca da origem esta fun¸c˜ao ´e definida negativa. Esta vizinhan¸ca ´e dada por x ∈ x21+ x22 < 1. esta fun¸c˜ao ´e definida negativa
Portanto 0 ´e assintoticamente est´avel.
Exemplo 3.4.3 Neste exemplo vamos usar o teorema de LaSalle para provar a estabilidade assint´otica de um ponto de equil´ıbrio.
Seja o sistema dado por
˙δ = ω (3.4.11)
˙ω = 1
M (Pm− Pmaxsen δ) − D
M ω (3.4.12)
Estas equa¸c˜oes descrevem o comportamento de uma m´aquina s´ıncrona conectada a uma barra infinita, como visto no Cap´ıtulo 1. O objetivo ´e estudar a estabilidade do ponto de equil´ıbrio dado por [δe 0]T.
Uma candidata para fun¸c˜ao de Lyapunov deste sistema ´e V (x) = 1
M M ω 2−Z δ
δe
(Pm− Pmaxsen delta) dδ (3.4.13) Esta fun¸c˜ao ´e do tipo energia e corresponde `a soma da energia cin´etica e potencial da m´aquina. A fun¸c˜ao 3.4.13 pode ainda ser escrita como
V (x) = 1 M M ω 2−Pm M (δ − δ e) +Pmax M (cos δ − cos δ e) (3.4.14) Calculando-se ˙V (x) tem-se ˙ V (x) = −D ω2 (3.4.15)
Portanto a fun¸c˜ao ´e apenas semi-definida negativa o que permite apenas concluir a estabilidade do ponto de equilibrio. No entanto, a fun¸c˜ao ´e zero no eixo horizontal dado por omega = 0. Se uma trajet´oria atingir este eixo, da equa¸c˜ao 3.4.12 verifica-se que ˙δ = 0, mas ˙ω 6= 0, e portanto a trajet´oria cruza este eixo. Somente no ponto de equil´ıbrio tem-se ˙ω = 0. Usando-se o teorema de LaSalle conclui-se que o ponto de equil´ıbrio ´e assintoticamente est´avel.
3.4.1 Regi˜ao de atra¸c˜ao
Os resultados anteriores permitiram determinar se um ponto de equil´ıbrio ´e assintoticamente est´avel, como ilustrado pelos exemplos apresentados. Se o ponto de equil´ıbrio ´e assintoticamente est´avel, isto apenas assegura que existe uma vizinhan¸ca do ponto de equil´ıbrio, que pode ser muito pequena, onde as trajet´orias que se originam dentro desta vizinhan¸ca retornam ao ponto de equil´ıbrio. Uma quest˜ao importante nas aplica¸c˜oes ´e saber qual o conjunto de condi¸c˜oes iniciais para as quais as trajet´orias retornam para o ponto de equil´ıbrio. Este conjunto constitui o dom´ınio de atra¸c˜ao do sistema.
O seguinte teorema d´a algumas propriedades da regi˜ao de atr¸c˜ao.
Teorema 3.6 Se x = 0 ´e uma ponto de equil´ıbrio est´avel assintoticamente de 3.1.1 ent˜ao seu dom´ınio de atra¸c˜ao ´e um conjunto aberto invariante e a fronteira deste conjunto ´e formado por trajet´orias do sistema 3.1.1.
A determina¸c˜ao do dom´ınio de atra¸c˜ao exato de um sistema n˜ao ´e f´acil. Simula¸c˜ao pode ser usada para determinar este dom´ınio. Determina¸c˜ao anal´ıtica do dom´ınio de atra¸c˜ao s´o ´e poss´ıvel para alguns sistemas simples. Mas pode-se obter uma estimativa do dom´ınio de atra¸c˜ao usando fun¸c˜oes de Lyapunov.
O seguinte teorema permite estimar o dom´ınio de atra¸c˜ao.
Teorema 3.7 Seja V (x) uma fun¸c˜ao escalar e D ∈ ℜnum conjunto aberto e suponha que U = x / V (x) < K com U ⊂ D, ´e um conjunto compacto (limitado e aberto). Seja ˙V (x) a derivada de V (x) ao longo das trajet´orias de ??, e 0 ∈ U um ponto de equil´ıbrio de ??. Se
• V (0) = 0
• V (x) > 0 para x 6= 0, x ∈ U • ˙V (x) < 0 para x 6= 0, x ∈ U • ˙V (x) = 0 para x = 0
ent˜ao a origem ´e um ponto de equil´ıbrio assintoticamente est´avel e todas as trajet´orias que partem de U convergem para a origem quando t → ∞.
O teorema pode ser usado para estimar o dom´ınio de atra¸c˜ao como indicado na Figura 3.5.
˙ V(x) > 0 ˙ V(x) = 0 ˙ V(x) < 0 V(x) = K Limite da regi˜ao de atra¸c˜ao
Figura 3.5: Dom´ınio de atra¸c˜ao
Nesta figura o conjunto ˙V (x) = 0 separa o D em duas regi˜oes, uma em que ˙V (x) < 0 e outra em que ˙V (x) > 0. A maior curva de n´ıvel de V (x) na regi˜ao onde ˙V (x) < 0 corresponde ao conjunto U e ´e uma estimativa do dom´ınio de atra¸c˜ao. Note que poderia se pensar que todo o conjunto onde V (x) > 0 e
˙
V (x) < 0 pertence ao dom´ınio de atra¸c˜ao, mas isto n˜ao ´e verdade. Uma trajet´oria que parte de um ponto externo `a eq¨uipotencial V (x) = K, mesmo com ˙V (x) < 0 pode se deslocar para a regi˜ao onde ˙V (x) > 0. Isto n˜ao ocorrer´a para uma trajet´oria que parta de um ponto que esteja no interior da eq¨uipotencial, pois, como a derivada de V (x) ´e negativa, a trajet´oria tender´a a eq¨uipotenciais de menor valor, at´e o ponto de equil´ıbrio.
EEL-UFSC 25
3.5
M´
etodos para a constru¸
c˜
ao de fun¸
c˜
oes de Lyapunov
O m´etodo de Lyapunov n˜ao indica como fun¸c˜oes que provem a estabilidade ou n˜ao do ponto de equil´ıbrio podem ser construidas. As fun¸c˜oes n˜ao s˜ao ´unicas e distintas fun¸c˜oes podem ser fun¸c˜oes de Lyapunov para um ponto de equil´ıbrio. Na literatura v´arios m´etodos foram desenvolvidos para permitir uma procura sistem´atica por fun¸c˜oes de Lyapunov. Aqui, apenas dois m´etodos s˜ao apresentados visando dar uma id´eia de tais m´etodos. Uma consulta `a literatura ´e recomend´avel para ser ter uma vis˜ao mais completa dos m´etodos dispon´ıveis.
3.5.1 M´etodo de Krasovskii Seja o sistema dado por
˙x = f (x) (3.5.1)
com f (0) = 0, ou seja, a origem ´e o ponto de equil´ıbrio de interesse. Seja a candidata a fun¸c˜ao de Lyapunov
V = fT P f (3.5.2)
onde P ´e sim´etrica definida positiva. A derivada de V ´e dada por
˙ V = ˙fTP f + fT P ˙f (3.5.3) Desde que ˙f = ∂f ∂x ∂x ∂t (3.5.4)
e denotando por J a matriz jacobiana, ou seja, J = ∂f
∂x chega-se a ˙ V = fTJTP f + fT P J f (3.5.5) = fT(JT P+ P J) f (3.5.6) Seja a matriz Q= JT P+ P J (3.5.7)
Se condi¸c˜oes puderem ser impostas para garantir que Q ´e definida negativa (ou semi-definida negativa) e desde que V ´e definida positiva (pois ´e quadr´atica e P ´e definida positiva, ent˜ao V ser´a uma fun¸c˜ao de Lyapunov para a estabilidade da origem de 3.5.1
Exemplo 3.5.1
3.5.2 Fun¸c˜oes tipo Lur’e
Um problema que originou muitos trabalhos, foi a quest˜ao da estabilidade de um sistema linear, dado por uma fun¸c˜ao de transferˆencia G(s), com uma realimenta¸c˜ao n˜ao-linear f (.), como mostrado na Figura ??. A fun¸c˜ao n˜ao-linear f (.) atende a uma condi¸c`ao de setor como mostrado na Figura ??.
O sistema ´e descrito pelas equa¸c˜oes
˙x = A x − f (σ) (3.5.8)
σ = cT x (3.5.9)
Este problema gerou uma s´erie de trabalhos e Lur’e demonstrou que uma candidata a fun¸c˜ao de Lyapunov para esta classe de sistemas ´e dada pela soma de uma fun¸c˜ao quadr´atica e a integral da n˜ao-linearidade:
V (x) = xT P x+ Z σ
0
f (σ) dσ (3.5.10)
O teorema de Kalman-Yakubovich permite determinar a matriz P. Com isto uma candidata a fun¸c˜ao de Lyapunov pode ser determinada, mas n˜ao avan¸caremos al´em deste ponto.
3.6
Aplica¸
c˜
oes do m´
etodo de Lyapunov
O m´etodo de Lyapunov constitui um dos fundamentos da teoria da estabilidade de sistemas dinˆamicos e ´e uma ferramente ´util em muitas casos para demonstrar a estabilidade de pontos de equilibrio e estimar dom´ınios de estabilidade al´em de ser uma importante ferramenta te´orica usada para derivar resultados.
Nesta se¸c˜ao daremos alguns exemplos do uso imediato do m´etodo de Lyapunov como ferramenta de an´alise de sistemas em engenharia e inclusive sintese de controladores.
3.6.1 Estabilidade transit´oria de sistemas el´etricos
O ponto de equil´ıbrio de um sistema el´etrico pode ser est´avel mas o sistema quando sujeito a uma grande perturba¸c˜ao, um curto-circuito por exemplo, pode ser inst´avel. Um sistema el´etrico pode estar sujeito a muitas perturba¸c˜oes (falta ´e o termo t´ecnico usado na ´area), como curto-circuitos, perdas de linhas e perda de gera¸c˜ao. Para a opera¸c˜ao segura do sistema, deve-se verificar se estas faltas causam a perda da estabilidade do sistema, para que a¸c˜oes possam ser tomadas de modo a evitar esta condi¸c˜ao. Usualmente esta verifica¸c˜ao ´e feita atrav´es da simula¸c˜ao do sistema para cada poss´ıvel falta cr´ıtica. Isto envolve um grande n´umero de simula¸c˜oes j´a que em grandes sistemas milhares de poss´ıveis faltas devem ser consideradas. Al´em do tempo computacional envolvido as curvas resultantes de cada simula¸c˜ao devem ser analisadas para verificar se realmente indicam instabilidade.
O problema da estabilidade transit´oria pode ser analisado facilmente pelo m´etodo direto de Lyapunov. O que realmente estamos querendo saber ´e se o estado do sistema, ap´os a retirada da falta, pertence ao dom´ınio de atra¸c˜ao do ponto de equil´ıbrio p´os-falta. Este ponto de equil´ıbrio pode ser diferente do pontos antes da falta (ponto de equil´ıbrio pr´e-falta), por exemplo, no caso em que h´a uma mudan¸ca de topologia como conseq¨uˆencia da perda de uma linha.
Poder´ıamos ent˜ao resolver o problema de estabilidade transit´oria seguindo o seguinte procedimento. 1. Estimar o dom´ınio de atra¸c˜ao de um ponto de equil´ıbrio p´os-falta.
2. Simular o sistema sob falta desde o ponto de equil´ıbrio pr´e-falta at´e o instante em que a falta ´e retirada. Este ´ultimo ´e o estado do sistema p´os=falta.
3. Verificar se o estado do sistema p´os-falta pertence ao dom´ınio de atra¸c˜ao estimado do ponto de equil´ıbrio p´os-falta.
4. Se o estado p´os-falta pertence `a estimativa do dom´ınio de atra¸c˜ao, o sistema ´e est´avel. Caso contr´ario nada se pode afirmar, j´a que n˜ao se tem o dom´ınio exato de atra¸c˜ao e portanto o sistema ainda pode ser est´avel. Neste caso deve-se simular o sistema para verificar se o mesmo ´e est´avel ou inst´avel.
O m´etodo apresentado permite uma filtragem, identificando os casos que s˜ao realmente est´aveis e separando-os daqueles que necessitam ser simulados. Isto pode representar uma consider´avel redu¸c˜ao do esfor¸co de an´alise da estabilidade transit´oria.
Muitas vezes o problema ´e saber que o m´aximo tempo que uma falta pode permanecer no sistema sem que haja perda da estabilidade transit´oria. Um curto-circuito, por exemplo, pode permancer por algum tempo antes de ser isolado. O mesmo procedimento anterior pode ser usado neste caso. A ´unica diferen¸ca ´e que o sistema sob falta seria simulado at´e o momento em que a fronteira do dom´ınio de atra¸c˜ao estimado. O tempo correspondente ´e o tempo cr´ıtico de retirada da falta. No caso de um curto-circuito, este seria o tempo em que o curto-circuito deveria ser retirado. Assim o m´etodo pode ser usado para ajuste das prote¸c˜oes do sistema.
Os grandes obst´aculos ao amplo uso desta abordagem em sistemas reais s˜ao a necessidade de usar modelos simplificados do sistema para tornar nfacilitar a determina¸cao de uma fun¸c˜ao de Lyapunov e a dificuldade de conseguir estimativas do dom´ınio de atra¸c˜ao que n˜ao sejam muito pessimistas com rela¸c˜ao ao dom´ınio exato de atra¸c˜ao do sistema.
EEL-UFSC 27
Como a estabilidade transit´oria de sistemas de potˆencia envolve um horizonte de tempo bastante curto, em geral da ordem de 1 segundo, a modelagem simplificada ´e em geral satisfat´oria. Mesmo assim a presen¸ca atualmente no sistema de equipamentos r´apidos que influenciam a estabilidade transit´oria pode tornar necess´aria a modelagem de tais equipamentos. A simpifica¸c˜ao do modelo da rede tamb´em tem sido usada e isto pode levar a resultados conservadores (pessimistas).
O problema de determinar uma melhor estimativa do dom´ınio de atra¸c˜ao ´e mais complexo. M´etodos aproximados tem sido usados que conduzem a bons resultados. Ainda assim este ainda ´e um problema em aberto, que ´e objeto de pesquisa.
Na UFSC foi desenvolvido o programa SLEP, para an´alise da estabilidade transit´oria de sistemas el´etricos. Este programa foi usado na an´alise do sistema interligado brasileiro, permitindo filtrar um grande n´umero de contingˆencias est´aveis.
Exerc´ıcios
1. Considere o sistema ˙˙ x − 0, 1 −10 3 ˙x ˙x ˙x + x + x2= 10 (3.6.1)• Encontre os pontos de equil´ıbrio. • Estude a estabilidade de cada um deles. 2. Considere o sistema descrito por
˙
x1 = x2− a(x21+ x22) (3.6.2)
˙
x2 = −x1− a x2(x21+ x22 (3.6.3) com a > 0. Use V (x) = x21+ x22 como candidata `a fun¸c˜ao de Lyapunov e verifique se a origem ´e assintoticamente est´avel.
3. Considere o sistema: ˙ x1 = x2− 3 x3− x1(x2− 2 x3)2 (3.6.4) ˙ x2 = −2 x1+ 2 x3− x2(x1+ x3)2 (3.6.5) ˙ x3 = 2 x1− x2− x3 (3.6.6)
Verifique ´e a fun¸c˜ao V (x) = 2 x2
1+x22+3 x23´e uma fun¸c˜ao de Lyapunov para a an´alise da estabilidade da origem deste sistema.
4. Considere o sistema dado por
˙
x1 = −3 x2− x1+ x31 (3.6.7)
˙
x2 = −2x2+ x1− x31 (3.6.8)
Escolha V (x) = 2 x21− 2 x1x2+ 3 x22 e determine uma estimativa da regi˜ao de atra¸c˜ao para a origem. 5. Seja o sistema
˙
x1 = x2 (3.6.9)
˙
x2 = −2 b x1− a x2− 3 x21 (3.6.10) • Determine os pontos de equil´ıbrio.
• Examine a estabilidade da origem usando V (x) = b x2
1+ x31+ x22
2 como candidata a fun¸c˜ao de Lyapunov.
• Determine uma estimativa da regi˜ao de atra¸c˜ao para a origem. 6. Considere o sistema dado por
˙
x1 = −x1+ x22 (3.6.11)
˙
x2 = −x2+ x22 (3.6.12)
• Determine os pontos de equil´ıbrio.
• Verifique se V (x) = x21+x22´e uma fun¸c˜ao de Lyapunov para este sistema e estude a estabilidade da origem. Se esta for est´avel estime a regi˜ao de atra¸c˜ao.