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Livro I, Vol. 1, p Marx, Karl, O Capital, Tradução Barbosa, Regis e Kothe, Flávio, São Paulo, Abril Cultural, 1983,

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6º Colóquio Internacional Marx e Engels

Título do trabalho: Sobre a Gênese do Projeto de Crítica da Economia Política

Autor: Mauro Castelo Branco de Moura

Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal da Bahia GT1. A Obra Teórica de Marx

Parece pertinente que se empregue no exame do desenvolvimento teórico e científico de Marx seu próprio conselho, ou seja, que se tenha em mente, para o estudo da gênese do projeto de crítica da economia política, sua versão mais acabada, uma vez que para ele: “A reflexão sobre as formas da vida humana, e, portanto, também sua análise científica, segue sobretudo um caminho oposto ao desenvolvimento real. Começa post festum e, por isso, com os resultados definitivos do processo de desenvolvimento”1. A dificuldade neste caso é que se trata de um projeto inacabado, no qual, mesmo com relação às partes em que o próprio autor levou seu texto ao prelo, não há versão definitiva. Com efeito, o projeto de crítica da economia política inicia-se em 1844, no exílio parisiense, e queda inconcluso com a morte do autor, em 1883. Muitas metamorfoses e mudanças de rumo houveram ao longo de todos esses anos, cujos momentos mais importantes deixaram como legado os seguintes textos: Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, Miséria da Filosofia e Manifesto Comunista, Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie (1857-1858), Zur Kritik der politischen Ökonomie (1859) e, finalmente, O Capital.

Coroamento deste grandioso projeto, O Capital, no entanto, só teve o primeiro, de um total de quatro livros que constavam no projeto original, publicado em vida pelo autor. Não obstante, mesmo este conheceu três versões distintas: a primeira edição alemã (1867), a segunda edição alemã (1872-1873) e a versão francesa (1872-1875), traduzida por Joseph Roy, porém profundamente reformulada pela revisão que Marx procedeu, ao ponto de que em seu posfácio tenha aconselhado que: “Sejam quais forem as imperfeições literárias dessa edição francesa, ela possui valor científico independente do original e deve ser consultada mesmo pelos leitores familiarizados

1 Marx, Karl, O Capital, Tradução Barbosa, Regis e Kothe, Flávio, São Paulo, Abril Cultural, 1983, Livro I, Vol. 1, p. 73.

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com a língua alemã”2. Foi provavelmente por esta razão que Engels preparou a terceira edição alemã3, póstuma, tomando por base a segunda edição alemã, porém a ela aditando inúmeras passagens da versão francesa4. A obstinação de Marx em reformular o texto já publicado fez com que tivéssemos esta pluralidade de versões, sem que se possa saber ao certo que rumo tomaria o restante de sua obra magna caso ele próprio tivesse tido a possibilidade de levá-la ao prelo em vida.

Sem embargo, não obstante à diversidade das versões do Livro I, pode-se afirmar, sem qualquer sombra de dúvida, que sua análise do desdobramento da forma dinheiro a partir do desenvolvimento das tensões imanentes à forma mercadoria permanece incólume em todas elas. Aliás, desde a Zur Kritik... de 1859, cujo projeto geral é abandonado, porém a temática ali tratada “ Mercadoria e Dinheiro” permanecerá e será retomada na Primeira Seção (três primeiros capítulos) d’O Capital. O próprio Marx se jactará de ter sido o primeiro pensador em conseguir decifrar o enigma do dinheiro, apresentando-o como um desdobramento da forma valor constitutiva da forma mercadoria. Ironicamente, acerca desta primazia, ele diz o seguinte: “Toda pessoa sabe, ainda que não saiba mais do que isso, que as mercadorias possuem uma forma comum de valor, que contrasta de maneira muito marcante com a heterogeneidade das formas naturais que apresentam seus valores de uso – a forma dinheiro. Aqui cabe, no entanto, realizar o que não foi jamais tentado pela economia burguesa, isto é, comprovar a gênese dessa forma dinheiro, ou seja, acompanhar o desenvolvimento da expressão do valor contida na relação de valor das mercadorias, de sua forma mais simples e sem brilho até a ofuscante forma dinheiro. Com isso desaparece o enigma do dinheiro”5.

Desvendar o enigma do dinheiro parece ter sido um dos principais logros do projeto de crítica da economia política, uma vez que a forma dinheiro é constitutiva e conditio sine qua non para a revelação da forma capital, objeto da obra magna. Aliás,

2 Ibid, p. 25. 3

A maioria das edições d’O Capital toma por base a quarta edição alemã, inclusive as duas versões brasileiras (uma traduzida por Reginaldo Sant’Anna e a outra por Regis Barbosa e Flávio Kothe), que, na verdade, é a terceira edição alemã expurgada dos erros. As exceções canônicas ficam por conta da versão francesa, em cuja língua, no entanto, traduziu-se a quarta edição alemã, e a inglesa, baseada na terceira edição alemã, com tradução de Samuel Moore e Edward Aveling, porém com a ajuda Leonor Marx (a filha mais nova do autor) e a supervisão do próprio Engels.

4 No prefácio à terceira edição alemã (1883) Engels declara o seguinte: “[...] Marx pretendia reelaborar grandemente o texto do volume I, formulando de modo mais preciso certos pontos teóricos, acrescentando novos e complementando, até o presente, o material histórico e estatístico. Seu mau estado de saúde e o desejo de chegar à redação final do volume II obrigaram-no a renunciar a isso. Só o mais necessário devia ser modificado, só deviam ser inseridos os acréscimos contidos na edição francesa [...] e publicada nesse ínterim” (Ibid, p. 27).

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desde Aristóteles que a temática permanece irresoluta (vide Ética a Nicômaco, Livro V, Capítulo 5). Por esta razão e com plena consciência da importância de seu descobrimento científico, no Prefácio da Primeira Edição d’O Capital Marx afirma que: “A forma do valor, cuja figura acabada é a forma do dinheiro, é muito simples e vazia de conteúdo. Mesmo assim, o espírito humano tem procurado fundamentá-la em vão há mais de 2000 anos, enquanto, por outro lado, teve êxito, ao menos aproximado, a análise de formas muito mais complicadas e replenas de conteúdo. Por quê? Porque o corpo desenvolvido é mais fácil de estudar do que a célula do corpo. Além disso, na análise das formas econômicas não podem servir nem o microscópio nem reagentes químicos. A faculdade de abstrair deve substituir ambos. Para a sociedade burguesa, a forma celular da economia é a forma de mercadoria do produto do trabalho ou a forma do valor da mercadoria”6.

Com efeito, Marx desde a Zur Kritik... de 1859 vem tratando de mostrar que o valor é um atributo social dos produtos do trabalho humano e que, portanto, a forma dinheiro e a forma capital não são entes autônomos alheios às relações sociais, mas, pelo contrário, produtos delas7. O grande engodo da economia política e que atinge aos melhores clássicos, como Ricardo, por exemplo, é aceitar a forma capital como um fato natural, sem problematizá-la8. Por isso, para Marx “É uma das falhas básicas da Economia Política clássica não ter jamais conseguido descobrir, a partir da análise da mercadoria e mais especialmente, do valor das mercadorias, a forma valor, que justamente o torna valor de troca. Precisamente, seus melhores representantes, como A.

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Ibid, p. 12.

7 Antecipando a análise do fetichismo da mercadoria Marx afirma o seguinte na Zur Kritik de 1859: “Não é outra coisa senão a rotina da vida cotidiana o que faz parecer trivial e óbvio o fato de uma relação social de produção assumir a forma de um objeto; de tal maneira que a relação das pessoas em seu trabalho se apresenta como sendo um relacionamento de coisas consigo mesmas e de coisas com pessoas. Contudo, no que diz respeito à mercadoria, essa mistificação é muito simples. Pois geralmente se tem uma maior ou menor impressão de que a relação das mercadorias como valores de troca é mais uma relação de pessoas com sua atividade produtiva recíproca. Em relações de produção mais elevadas desaparece essa aparência de simplicidade. Todas as ilusões do sistema monetário decorrem do fato de que não se nota que o dinheiro apresenta uma relação social de produção mas é visto apenas na forma de uma coisa natural com propriedades determinadas. Entre os economistas modernos, por exemplo, que sorriem superiores das ilusões do sistema monetário, essa ilusão se trai, tão logo estes operam com categorias econômicas mais complexas como ‘capital’”(Marx, Karl, Para a Crítica da Economia Política, Tradução Malagodi, Edgard, São Paulo, Abril Cultural, 1982, p. 36).

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David Ricardo inicia seus Princípios de Economia Política e Tributação afirmando o seguinte: “O produto da terra – tudo que se obtém de sua superfície pela aplicação combinada de trabalho, maquinaria e capital – se divide entre três classes da sociedade, a saber: o proprietário da terra, o dono do capital necessário para seu cultivo e os trabalhadores cujos esforços são empregados no seu cultivo”8 (Ricardo, David, Princípios de Economia Política e Tributação, Tradução Sandroni, Paulo, São Paulo, Abril Cultural, 1982, p. 39). Destarte, para ele, as propriedades, fundiária e do capital, ao lado do trabalho, são fatos tão naturais, que podem ser constatados empiricamente, sem a necessidade de serem submetidos a questionamento.

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Smith e Ricardo, tratam a forma valor como algo totalmente indiferente ou como algo externo à própria natureza da mercadoria. A razão não é apenas que a análise da grandeza de valor absorve totalmente sua atenção. É mais profunda. A forma valor do produto de trabalho é a forma mais abstrata, contudo, também a forma mais geral do modo burguês de produção, que por meio disso se caracteriza como uma espécie particular de produção social e, com isso, ao mesmo tempo historicamente. Se, no entanto, for vista de maneira errônea como a forma natural eterna de produção social, deixa-se também necessariamente de ver o específico da forma valor, portanto, da forma mercadoria, de modo mais desenvolvido da forma dinheiro, da forma capital, etc. Encontra-se por isso entre economistas, que concordam inteiramente com a medida da grandeza de valor por meio do tempo de trabalho, os mais contraditórios e confusos conceitos de dinheiro, isto é, da figura terminada do equivalente geral”9.

A queixa de Marx permanece atual. Num mundo de derivativos e quejandos, enquanto o capital fictício perambula motu proprio irrefreado, ninguém se preocupa em saber em que consiste a riqueza abstrata, pelo menos até o momento em que seu fluir não encontre os naturais obstáculos da crise. Nelas, os limites da sociedade burguesa tornam-se patentes e como vaticinaram Marx e Engels sua superação se dá “Mediante a preparação de crises mais gerais e mais violentas e a diminuição dos meios de evitá-las”10. O desvendamento da tríade fetichóide (mercadoria, dinheiro e capital) parece crucial para a compreensão do movimento da riqueza abstrata e, por tanto, para a construção das alternativas sociais de superação da socialidade burguesa. Com este propósito erigiu Marx seu grandioso projeto.

Engels e Hess e o Giro de Marx para a Economia Política

O interesse de Marx pela economia política e, conseqüentemente, por sua crítica, teve início no exílio parisiense. A publicação no Deutsch-Französische Jarbüncher, do qual era editor, do artigo de Engels intitulado Umrisse zu einer Kritik der Nationalökonomie certamente despertou-lhe o interesse, motivando-o à redação dos cadernos que ensejaram a publicação póstuma dos famosos Manuscritos

9 Marx, Karl, O Capital, op. cit., p. 76, nota 32.

10 Marx, Karl e Engels, Friedrich, Manifesto do Partido Comunista, Tradução Nogueira, Marco Aurélio e Konder, Leandro, Petrópolis, Vozes, 1996, p. 72.

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Filosóficos de 1844. Aliás, este estudo de Engels sempre foi reiteradamente mencionado, com muitos encômios, por Marx, ao longo de sua obra, ademais de, valeria a pena recordar, Lage der arbeitenden Klasse in England, cujos materiais e fontes também serviram de base para a elaboração de partes importantes d’O Capital. Já no famoso prefácio à Zur Kritik de 1859 Marx declarava peremptoriamente o seguinte: “Friedrich Engels, com quem mantive por escrito um intercâmbio permanente de idéias desde a publicação de seu genial esboço de uma crítica das categorias econômicas (nos

Anais Franco-Alemães), chegou por outro caminho (compare o seu trabalho Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra) ao mesmo resultado que eu [...]”11.

Em seu artigo, Engels começa sustentando o comprometimento de classe da economia política, definida por ele como “um sistema acabado de fraude lícito, toda uma ciência sobre o modo de enriquecer-se”12. Entretanto, sua crítica não se limitou, evidentemente, a uma mera condenação moral da “economia política”, mas ele trata de mostrar que seu discurso, ou seja, o discurso da economia política, não pode ir além de certos limites e que há perguntas que nunca são feitas, como aquela acerca da razão de ser da propriedade privada. Em suas próprias palavras: “O século XVIII, o século da revolução, revolucionou também a Economia. Porém, assim como todas as revoluções deste século pecaram por unilateralidade e ficaram estagnadas na contradição, assim como ao espiritualismo se opôs o materialismo abstrato, à monarquia a república e ao direito divino o contrato social, vemos que tampouco a revolução econômica pôde sobrepor-se à contradição correspondente. As premissas seguiram de pé em todas as partes; o materialismo não atentou contra o desprezo e a humilhação cristãos do homem e se limitou a opor ao homem, em vez do Deus cristão, a natureza como algo absoluto; a política não pensou jamais em tentar investigar as bases sobre as quais repousava o Estado; e, à Economia não se lhe passou pela mente deter-se a perguntar pela razão de ser da propriedade privada. Daí que a nova Economia não representasse mais do que um progresso pela metade [...]”13. No fundo, ao não ultrapassar certos limites, a economia política não passaria de uma, em alguns casos refinada, dogmática. O que o leva a denominar Adam Smith de “o Lutero econômico”, pois teria elaborado

11 Marx, Karl, Marx, Karl, Para a Crítica da Economia Política, op. cit., p. 26.

12 Engels, Friedrich, Esbozo de Crítica de la Economia Política, in Breves Escritos Económicos [compilação], Trad. Roces, Wenceslao, México, Grijalbo, 1978, p. 9.

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algo análogo ao reformador, fazendo com que “a franqueza católica [deixasse] o posto à hipocrisia protestante”14.

Engels, neste artigo, trata de demonstrar que o capital é um desdobramento, uma objetivação substantivada do trabalho, que se torna autônomo e independente, submetendo-o (ao trabalho) em seguida. Para ele: “O divórcio entre o capital e o trabalho, nascido da propriedade privada, não é outra coisa que o desdobramento do trabalho em si mesmo”15. E mais adiante acrescenta: “O trabalho, o elemento fundamental da produção, a ‘fonte da riqueza’, a atividade humana livre, fica muito mal parada nas mãos dos economistas. Assim como antes se separava o capital do trabalho, agora o trabalho volta a cindir-se; o produto do trabalho se enfrenta a este como salário, divorcia-se dele e é determinado também, como de costume, pela competição [...]”16. Assim, a propriedade privada, que também separa o homem da terra, impede que o desenvolvimento das forças produtivas tenha como resultado uma melhoria geral das condições de vida das populações, promovendo uma melhor distribuição da riqueza gerada, além da diminuição da jornada de trabalho, pelo crescente aumento de produtividade do mesmo. Segundo Engels: “A capacidade de produção de que dispõe a humanidade é ilimitada. As inversões de capital, trabalho e ciência podem potencializar até o infinito a capacidade de rendimento da terra. [...] a ciência vai submetendo, cada vez mais, dia após dia, as forças naturais ao domínio do homem. Esta capacidade ilimitada de produção, manejada de um modo consciente e no benefício de todos, não tardaria em reduzir ao mínimo a massa de trabalho que pesa sobre a humanidade [...]”17.

A responsabilidade pelo fato de que a miséria se dissemine em meio à abundância, a uma produção nunca dantes vista de riqueza, inclusive sem que a duração ou intensidade da jornada de trabalho diminua à mesma proporção que o aumento de produtividade, está no instituto da propriedade privada. Ao não questioná-la a economia política torna-se cúmplice desta situação. Por isso, desde o início de seu artigo Engels

14 Ibid., p.11. Marx utiliza-se de recursos metafóricos análogos ao afirmar, por exemplo, que: “O fato católico do ouro e prata, como encarnação imediata do trabalho social, e por isso, como modo de ser da riqueza abstrata, confrontarem –se com as demais mercadorias profanas fere naturalmente o point d’honneur (pudor) protestante da economia burguesa que, por temor aos preconceitos do sistema monetário, perde, por muito tempo, a faculdade de julgar os fenômenos da circulação monetária [...]” (Marx, Karl, Para a Crítica da Economia Política, Trad. Malagodi, Edgard, in Marx, Col. “Os Economistas”, São Paulo, Abril Cultural,1982, p. 114.

15 Ibid., p.19. 16 Ibid., p.20. 17 Ibid., p.24.

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afirmava que: “[...] na crítica da economia política investigaremos as categorias fundamentais, poremos a descoberto a contradição introduzida pelo sistema de liberdade comercial e tiraremos as conseqüências que se desprendem dos dois termos da contradição. A expressão riqueza nacional surgiu só pelo afã de generalização dos economistas liberais. Esta expressão carece de todo o sentido, enquanto persistir a propriedade privada. A ‘riqueza nacional’ é muito grande, mas isto não impede que o povo inglês seja o mais pobre sob o sol”18. E para que não se tome o final da passagem citada como mero fruto de uma retórica grandiloqüente, não se deve esquecer que, logo em seguida, em 1845, Engels publicaria seu famoso estudo sobre a situação da classe operária na Inglaterra.

Sem embargo, se a influência de Engels mereceu o reconhecimento elogioso do próprio Marx na obra madura, há outro personagem cuja importância para o surgimento do projeto de crítica da economia política não pode ser desdenhada: trata-se de Moses Hess. É provável que certo distanciamento (que não levou a uma ruptura definitiva como em outros casos)19, aprofundado pela conjuntura da revolução de 1848, porém palpável pela crítica dura ao “socialismo verdadeiro” presente no Manifesto Comunista tenha colaborado para esta omissão. Há certa convergência entre importantes comentaristas (Lukács, Cornu, Mac Lellan e Löwy, por exemplo) em atribuir a Hess a primazia na adesão ao comunismo entre os alemães. Ademais, Hess teria sido o responsável pela conversão ao comunismo, primeiro de Engels e depois de Marx. Segundo Michael Löwy, a adesão de Marx ao comunismo ter-se-ia dado em três etapas, sendo que na primeira, a do “comunismo filosófico”, a influência de Hess teria cumprido um papel central20. Ainda que não se refira explicitamente a esta influência na obra madura, Marx não a omite no contexto da juventude. Nas páginas introdutórias dos Manuscritos de 1844 ele afirma, por exemplo, o seguinte: “Naturalmente compreende-se que, além dos socialistas francecompreende-ses e inglecompreende-ses, tive também em vista os socialistas alemães. Entretanto, os trabalhos alemães judiciosos e originais acerca desta ciência se

18 Ibid., p.12.

19 Franz Mehring, em sua célebre biografia de Marx, num contexto em que comenta as propostas de aliança com a burguesia formuladas pelos “verdadeiros socialistas”, afirma o seguinte, mencionando a revolução de 1848: “Na revolução, que assinou a sentença de morte a todas suas elucubrações, marcharam sempre na ala esquerda da burguesia; nenhum destes ‘verdadeiros’ socialistasdesertou de seu campo para entrar no governo e um deles, Moses Hess, ingressou como militante nas filas da social-democracia; entre todos os matizes do socialismo burguês de então e até do de hoje, seguramente não haverá ninguém que possa ter, neste ponto, a consciência mais tranqüila que ele” (Mehring, Franz, Carlos Marx, Tradução Roces, Wenceslao, Barcelona, Grijalbo, 1967, p. 127).

20 Cf. Löwy, Michael, A Teoria da Revolução no Jovem Marx, Tradução Gonçalves, Anderson, Petrópolis, Vozes, 2002, pp. 91-94.

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reduzem – afora os escritos de Weitling – aos artigos de Hess publicados nas Vinte e

uma folhas e ao “Esboço de Crítica da Economia Política” de Engels, nos Anais Franco-Alemães, onde esbocei também, em forma muito geral, os primeiros elementos

do presente trabalho”21. Porém, o texto de Hess que provavelmente mais o influenciou foi o Über das Geldwesen. Inicialmente destinado à publicação na revista de Marx e Ruge, o artigo, no entanto, só seria publicado um ano mais tarde nos Anais Renanos22.

Neste artigo, por exemplo, Moses Hess afirmará peremptoriamente que: “Deus está para a vida teórica como o dinheiro está para a vida prática neste mundo ao revés: o poder alienado do homem, sua atividade vital posta em leilão. O dinheiro é o valor humano expresso em números, é a marca de nossa escravidão, o estigma indisfarçável de nossa servidão”23. Com a assertiva denota, entre outras coisas, ser a possível fonte originária de inspiração de Marx quando, em paráfrase à obra de Shakespeare, assevera que “o dinheiro é a divindade visível [...]”24. Ademais, desloca o fulcro da alienação feuerbachiana, sob cuja influência estavam submetidos muitos dos jovens hegelianos, para o domínio da economia política. E mais, apresenta a forma dinheiro como um problema crucial. Destaca, além disso, o caráter encobridor da relação salarial, assinalando ironicamente acerca do trabalhador livre que: “Como nós não podemos mais ser vendidos contra nossa vontade, devemos nos vender voluntariamente! Não podemos mais de resto nos vender, devemos continuamente nos alugar por um salário: continuamente, pois, e sempre voluntariamente, devemos nos desfazer de nossa liberdade”25.

À guisa de conclusão seria possível concordar com as palavras de Cornu quando afirma, acerca dos artigos de Marx publicados no Deutsch-Französische Jarbüncher, que “Para chegar a uma concepção ao mesmo tempo a mais concreta e mais exata do proletariado, da luta de classes e do comunismo, faltava-lhe ainda proceder a uma análise profunda da sociedade burguesa e de sua base, o sistema capitalista. O ajudaria um artigo de Engels, ‘Esboço de Crítica da Economia Política’, aparecido na

21 Marx, Karl, Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844, in Escritos de Juventud, Tradução Roces, Wenceslao, México, Fondo de Cultura Económica, 1982, pp. 557-558.

22 Segundo Auguste Cornu “Hess deveria, no entanto, exercer uma influência ainda mais profunda sobre Marx e Engels por seu artigo ‘Sobre a Essência do Dinheiro” que ele tinha enviado aos Anais Franco-Alemães, mas que só apareceu um ano mais tarde, em 1845, nos Anais Renanos, em conseqüência da supressão da revista” (Cornu, Auguste, Moses Hess et la gauche hégélienne, Paris, Félix Alcan, 1934, pp. 93-94).

23 Hess, Moses, L’Essence de l’argent, Tradução Cadiot, Pierre, in Fontenay, Elisabeth, Les Figures juives de Marx, Alençon, Editions Galilée, 1973, p. 124.

24 Marx, Karl, Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844, op. cit., p. 643. 25 Hess, Moses, L’Essence de l’argent , op.cit., p. 137.

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mesma revista e um artigo de Hess ‘Sobre a Essência do Dinheiro’, também a ela destinado”26

26 Cornu, Auguste, Carlos Marx Frederico Engels, em 4 Tomos, Havana, Editorial de Ciencias Sociales, 1976, Tomo II, p. 513.

Referências

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