A
FETOS
DA
MEMÓRIA
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MEMÓRIAS
DO
AFET
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Fabrício Marques
Escritor
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rês expoentes falam de suas ligações com a Faculdade de Letras da UFMG. No final dos anos de 1950 e começo dos anos 60 três jovens participam intensamente da vida acadêmica e cultural de Belo Horizonte. Affonso Romano de Sant’Anna sai com amigos, de jeep pela capital mineira. Pára na porta da casa de Ângela Vaz Leão e, ali mesmo, faz uma serenata para a professora. Outro jovem estudante, Silviano Santiago, encontra os amigos do Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais (CEC) e do grupo “Complemento” para ver filmes, discuti-los e inebriar-se com a vida noturna belo-horizontina. E Heitor Martins, entre outras atividades, trabalha como jornalista profissional, escolhe alunos da escola de Guignard como ilustradores de suplementos literários. O primeiro desenho de Álvaro Apocalipse na imprensa é publicado por ele.Quase meio século depois, eles percorreram trajetórias de sucesso, com reconhecimento no país e no exterior. A Revista Aletria, do Curso de Pós-Graduação em Estudos Literários da FALE, convidou Heitor, Silviano e Affonso, três dos mais representativos nomes ligados à Faculdade, para falar da época em que estudaram e/ou lecionaram na Faculdade de Letras. São três visões históricas, em depoimentos pessoais e tocados pela afetividade.
Em 1960, o professor Heitor Martins mudou-se para Albuquerque, New Mexico, a fim de lecionar Universidade do Novo México. Dois anos depois, viaja a Belo Horizonte para defender tese de livre-docência em Literatura Portuguesa. No mesmo ano, aceita convite para lecionar na Universidade de Tulane, em Nova Orleans. É substituído, em Albuquerque, por Silviano Santiago, que passa o cargo posteriormente para Luís Carlos Alves. Em 1968, transfere-se para a Universidade de Indiana, em Bloomington, Indiana, onde se torna responsável pelo programa de Português. Leciona também Literatura Hispano-Americana. De 1972 a 76, Heitor Martins foi chefe do Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Indiana. Intermitentemente, durante cinco anos (1978-83), foi professor titular visitante da Universidade de Brasília, onde implantou o programa de pós-graduação em Literatura Brasileira. Ao mesmo tempo mantinha seu trabalho nos EUA. Em 1997, aposentou-se, pela Universidade de Indiana, recebendo o título de “emeritus”.
Dos mais destacados intelectuais do país, romancista, contista, poeta, crítico literário e professor, Silviano Santiago nasceu em Formiga (MG) e atualmente mora no Rio de Janeiro (RJ). Três vezes vencedor do Prêmio Jabuti, é autor de livros importantes como “Em liberdade”, considerado um dos dez melhores romances brasileiros dos últimos 30 anos, e “Stella Manhattan”, ambos temas constantes em teses de mestrado e doutorado nas universidades brasileiras, latino-americanas e norte-americanas. É também autor de “Uma história de família”, “Viagem ao México”, “De cócoras”, “O falso mentiroso”.
Entre os seus livros de ensaio, destacam-se “Uma literatura nos trópicos”, “Nas malhas da letra” e “O cosmopolitismo do pobre”. Silviano é graduado em Letras Neolatinas pela Universidade Federal de Minas Gerais, doutor pela Universidade de Paris-Sorbonne. Lecionou nas universidades de Yale, Stanford, Texas, Indiana e Toronto. Atualmente, é professor aposentado de Literatura Brasileira da Universidade Federal Fluminense.
Com mais de 40 livros publicados – os mais recentes são “Desconstruir Duchamp”, “A cegueira e o saber” e “O enigma vazio: impasses da arte e da crítica” –, professor em diversas universidades brasileiras – UFMG, PUC/RJ, URFJ, UFF –, no exterior, o poeta e ensaísta Affonso Romano de Sant’Anna lecionou nas universidades da Califórnia (UCLA), Koln (Alemanha), Aix-en-Provence (França). Em 1968, no ano de fundação da FALE, retorna aos Estados Unidos para, durante dois anos, participar como bolsista do International Writing Program, na cidade de Iowa, dedicado a jovens escritores de todo o mundo. Nos anos 70, dirigindo o Departamento de Letras e Artes, PUC/RJ, estruturou a pós-graduação em literatura brasileira do Brasil. Trouxe ao Brasil conferencistas estrangeiros como Michel Foucault.
A Faculdade de Letras (FALE) da UFMG foi fundada em 26 de novembro de 1968. Enquanto área da Faculdade de Filosofia, Letras já funcionou no Colégio Marconi, no Instituto de Educação (até 1948), no Edifício Acaiaca e no prédio da rua Carangola. Nesse local, tornou-se Faculdade de Letras e, a partir de 1983, localiza-se no Campus da UFMG. Os depoimentos concentram-se especialmente na “era” do Edifício Acaiaca. A leitura em conjunto dos três depoimentos permite encontrar pontos de contato entre eles. O mais interessante, talvez, seja a história da revista “Complemento”, lançada, entre outros, por Silviano Santiago, e que recebe atenção especial de Heitor Martins. Há 42 anos, um grupo de jovens artistas e intelectuais mineiros, com interesses diversos, mas unidos por um interesse comum – a paixão pelo cinema – lançou uma revista que permanece como signo daquele tempo, e que revelou pelo menos dois talentos de projeção nacional: Silviano Santiago e Ivan Ângelo. Logo no início de 1956, ano em que João Cabral de Melo Neto lança “Duas águas” e a poesia concreta surge em São Paulo, Juscelino Kubitschek toma posse como presidente da República.
A revista foi sendo gestada nas sessões do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), criado em 1951 por Jacques do Prado Brandão. Jacques foi um dos mentores do grupo, ao lado de Fritz Teixeira de Salles e João Etienne Filho. O roteiro é repisado por Silviano: gerada no CEC, teve suas ramificações no Marconi e, posteriormente, nas Faculdades de Filosofia(então no Edifício Acaiaca) e de Ciências Econômicas (instalada na Tamoios). O restaurante das Ciências Econômicas era também um bom ponto de encontro, já que lá todos se reuniam para almoçar. “Complemento” durou quatro números, publicados de 1956 a 1958. O título foi tirado de um poema de Ferreira Gullar.
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OTAS DEMEMÓRIA SOBRE A FAFI(
DÉCADADE1950
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Heitor Martins
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ntrei para a FAFI (Faculdade de Filosofia da UMG) em 1952, creio que no primeiro ano em que ela funcionou nos andares 19 e 20 do Edifício Acaiaca, no centro de BH. A FAFI começava então a ser o centro mais importante do que poderíamos chamar de “cultura liberal” do Estado. Como não estava dividida em “faculdades” mas apenas em cursos, tínhamos ativa interação com alunos de História, Sociologia, Filosofia, Ciências Exatas etc. Embora sua função prática fosse a formação de professores do ensino secundário, a verdade é que a maioria dos que estávamos lá nem de longe pensávamos em seguir tal profissão. Tivemos alguns professores notáveis: Mário Casassanta, José Carlos Lisboa, Eduardo Frieiro, Vicenzo Spinelli, Rodrigues Lapa, Abgar Renault, J. Lourenço de Oliveira, Aída Costa. E cruzávamos, nos corredores, com Milton Campos, Artur Versiani Veloso, Cláudio Brandão, Alaíde Lisboa, Orlando de Carvalho, e um alemão enorme, o professor Ansorge, que lecionava Filosofia Grega.Por acordo da FAFI com a Alliance Française, tivemos alguns excelentes professores de Literatura Francesa, como Damien Saunal e Maurice Vouzelot. Lembro-me de longas discussões que tive com este último sobre Literatura Espanhola, que era uma de suas paixões. Logo depois de entrar para a FAFI participei – junto com Geraldo Nunes, Sebastião Nery e Felipe Calvo – da criação de duas publicações mimeografadas, “A Onda” e “Sebas” (esta última em homenagem a Sebastiana, funcionária da cantina), participação que nos valeu uma suspensão por alguns dias (coisa que nunca tinha acontecido antes com qualquer aluno). Na época, escrevi um poema herói-cômico, “Os Muares Satisfeitos”, em decassílabos neoclássicos. Saiu anônimo em “A Onda” – Ítalo Mudado deu-me o título (que vinha de uma auto-avaliação crítica de um catedrático carioca), e o professor Veloso acreditou que era de autoria de um colega docente desafeto. O diretor da escola era o professor Camilo Alvim, um homem extremamente cordato e intelectualmente honesto, de quem nossa irresponsabilidade abusou até mais não poder. Posteriormente – e numa veia de maior “seriedade” – fiz o primeiro número da revista “Mural” – que seria a publicação oficial do Diretório Acadêmico, e que parece ter durado por mais alguns números.
Meu interesse fundamental era a Literatura Brasileira, cuja representação docente, naquela época, me parecia extremamente fraca. Daí meu interesse dirigir-se então às Literaturas Espanhola e Portuguesa, principalmente por influência de dois grandes professores: José Carlos Lisboa e Rodrigues Lapa. Foi este último que me levou a fazer um concurso de livre-docente para Literatura Portuguesa, com tese sobre um autor bilíngue, em 1962. Embora aprovado, nunca lecionei na UFMG. Minha tese foi publicada em Portugal. Foi neste momento (meados da década de 1950) que começou também uma divisão política entre os estudantes: de um lado a UJC, União da Juventude Comunista, e do outro a JUC, Juventude Universitária Católica. Ninguém percebia a ironia que estas siglas, ao se misturarem, nos pregariam no futuro. Sem participar oficialmente de quaisquer das duas, acompanhei seus membros em muitas aventuras: campanha “Pra Coréia Não
Vou”, de um lado, e, do outro, visitas a favelas na periferia de BH, para ver a condição de vida dos pobres. Sem esquecer a campanha do “petróleo é nosso”, e alguns de nós estávamos presentes quando os alunos da Escola de Direito montaram uma torre de petróleo na Praça Afonso Arinos. Embora ateu, frequentei também o convento dos dominicanos no bairro da Serra, levado por uma colega, por quem me apaixonara, e que achava que eu andava meio doido. No que, provavelmente, estaria certa, pois só consegui terminar os três anos de bacharelado em 1960, oito anos depois de começar.
Já em 1952, o professor Vicenzo Spinelli lançou a semente do Teatro Universitário, sob o patrocínio da União Estadual de Estudantes. Lá estávamos eu, Carlos Kroeber, Teresinha Alves Pereira, Floriano Correa Vaz e mais vários outros alunos da FAFI, além de Ezequias Marques Andrade, que vinha de mais longe, do Teatro do Sesi, de João Ceschiatti, no qual também participei. Lembro de termos apresentado um recitativo coral (de autoria do professor Spinelli), um pequeno auto medieval e uma peça de um ato de Pirandello (“A Patente”). Esta semente vai florescer depois na grande produção de base do Teatro Universitário, da qual participou a maioria destes elementos, e que foi “Crime na Catedral”, de T. S. Eliot, com uma impressionante direção de Giustino Marzano. [Minha atuação teatral sempre foi atrás dos bastidores e quase sempre como publicitário.]
É interessante notar que todas estas atividades estão ligadas ao fato de que estávamos na FAFI.
Durante este período, estive dois anos no Exército (excluído do CPOR em processo interno contra “esquerdistas”, fui para o corpo de tropa e o golpe do general Lott estendeu meu tempo obrigatório de serviço), e fui jornalista da “Tribuna da Minas”, do “Diário de Minas”, do “Binômio” e do “”Diário da Tarde” (levado por Cyro Siqueira, que queria renovar um jornal então muito popular, mas pouco respeitado). Ajudei Guy de Almeida quando ele e Charles Corfield dirigiam o suplemento de “O Diário”, ajuda que durou pouco porque a hierarquia católica do jornal censurou o meu “esquerdismo”(!?). E, durante uma semana, trabalhei na revista “Alterosa”. Durante anos, no “Diário de Minas”, eu e Mauro Santayana fomos responsáveis pela seção de reportagem geral. No “Diário da Tarde” Cyro pôs-me como copydesk e responsável pelo noticiário internacional. Além disso, escrevia muito sobre literatura.
Por ser jornalista profissional, e tendo especial interesse em artes em geral, fui responsável por dar publicidade a material escrito por muitos dos jovens autores belorizontinos daquela época. E também por escolher alunos da escola de Guignard como ilustradores de suplementos literários. Tenho orgulho de ter publicado na imprensa o primeiro desenho de Álvaro Apocalipse [fato de que ele me lembrava sempre que nos encontrávamos] e ter trabalhado junto com Chanina, Augusto Degois, Yara Tupinambá e Vicente Abreu em várias ocasiões.
Poderia estender-me, noite adentro, por uma quantidade de lembranças da FAFI que ainda estão vivas na memória. Grandes colegas, como Ítalo Mudado (figura basilar do teatro em BH) e Floriano Corrêa Vaz (hoje decano de juízes trabalhistas em São Paulo), Silviano Santiago (um dos mais brilhantes escritores brasileiros de hoje), Carlos Kroeber (ator premiado de cinema, teatro e telenovelas), Manuel Cunegundes e Sebastião Nery (políticos e jornalistas eméritos), Teresinha Alves Pereira (professora universitária
e escritora), Luís Carlos Alves (poeta e professor), Antônio Ribeiro de Almeida (ex-professor de Psicologia Social da USP e hoje “blogueiro” maior), Ana Maria Viegas (professora e tradutora), Magda Becker (pedagoga), Letícia Mallard, Melânia Aguiar e Maria Lúcia Lepécki (nomes que qualquer estudante de Literatura Brasileira sabe identificar), Márcio Quintão Moreno (físico), Déa Fenelon (historiadora), Edison Moreira, poeta e livreiro maior (que um de nós definira, por sua alegria, como um “aeróbio em estado de sorriso”). Grandes acontecimentos, como o início dos passos de Silviano Santiago, Domingos Muchon, Affonso Romano de Sant’Anna e Teresinha Alves Pereira (com o livro “Quatro Poetas”, editado pelo DA da FAFI), ou nossa colega francesa, Liliane Jacqueline, dançando a “dança dos véus”, como Salomé, na peça de Oscar Wilde, no edifício do Brasil Palace Hotel, com direção de Zuleika Melo e Carlos Leite; Afonso Romano de Sant’Anna, um dos fundadores do Coral Universitário, que muitas vezes encontrávamos na entrada do Edifício Acaiaca, cantarolando temas que o Coral estava ensaiando. E a doce lembrança das meninas nossas colegas que vinham do Colégio Santa Maria, liam romances católicos franceses e discutiam neo-tomismo nos corredores do décimo nono andar do Edifício Acaiaca.
Em 1960 – terminado o bacharelado, casado, com um cabide de empregos burocráticos, e sem possibilidade de seguir uma carreira universitária em Minas – fui convidado para vir para os EUA pela então adida cultural em BH, Miss Elinor Halle. E aqui começa minha carreira docente. Neste momento também acaba minha relação com a ainda UMG. De tudo, como diria Machado de Assis, creio ter um “pequeno saldo”: estes anos fabulosos não morreram nem sofreram o impacto de uma realidade que poderia tê-los deformado.
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Talvez a melhor avaliação do que tenha sido a “Geração Complemento” foi feita pelo Professor João Antônio de Paula: “[a revista “Complemento”] sob vários aspectos foi porta-voz da geração com a maior amplitude de interesses intelectuais de quantas surgiram em Belo Horizonte pela convocação das artes plásticas, do cinema, do teatro, do balé, da literatura, do ensaísmo filosófico e político” [“Livraria Amadeu: os livros e a cidade”. Belo Horizonte: Conceito, 2006, p. 53]. E não só em BH, mas provavelmente em todo o Brasil. Basta compará-la, em BH, com as que imediatamente a antecederam [“Edifício”, “Vocação”] e sucederam [“Tendência”], e, no país, com publicações como “Mapa”, do grupo de Gláuber Rocha, em Salvador, para se ter idéia desta multiversidade de interesses que tentávamos instalar. As outras foram, em sua quase totalidade, revistas literárias. Creio que uma das razões fundamentais desta multiversidade de “Complemento” tenha sido a mudança radical que se deu na intelectualidade jovem de Minas Gerais: até então o intelectual jovem buscava a Escola de Direito para se formar; a partir do início da década de 1950, a então Faculdade de Filosofia é federalizada e passa a ser o ambiente para onde se dirigia quem tinha interesse numa educação liberal, não profissionalizante. A maioria dos colaboradores de “Complemento” está, de uma maneira ou de outra, ligada à Faculdade de Filosofia.
Neste sentido renovador, creio que há duas publicações fundamentais no Brasil daqueles anos: “Complemento” e o “SDJB – Suplemento Dominical do Jornal do Brasil”,
com o qual mantínhamos estreito contacto, e com o qual alguns de nossos colegas colaboraram. Fundamentalmente queríamos defender um espírito de renovação, libertado do Modernismo de 1922 e do conservantismo da geração que nos antecedeu, mas sem o radicalismo ideológico da arte concreta paulistana. Foi o grupo ligado a “Complemento” quem primeiro discutiu em BH, de maneira positiva, mas não subserviente, a experiência da arte concreta e a importância da parte realmente vanguardista do Modernismo [Oswald de Andrade, com quem tive oportunidade de conviver nos últimos meses de sua vida]. Não é à toa que admirávamos então, mais que todos, a Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Drummond, que fora o ídolo do grupo de “Edifício”, e a “Geração de 45,” que marca o espírito de “Vocação,” não eram assim tão importantes para nós. Por sinal, como poeta preferíamos Jorge de Lima, cuja “Invenção de Orfeu” é o grande acontecimento da época, e o João Cabral de Melo Neto de “O Cão Sem Plumas” [cuja primeira edição artesanal, emprestada por Bueno de Rivera, foi copiada à máquina por Ítalo Mudado e assim circulou entre nós] e os portugueses, Fernando Pessoa à frente, que Cecília Meireles introduzira no Brasil através de uma memorável antologia.
MINHA PARTICIPAÇÃO: desde alguns anos antes do surgimento da revista, Ary Xavier, a quem eu acompanhava, vinha tentando conseguir dinheiro para uma revista (ainda sem nome). O único apoio que recebemos foi do poeta José Oswaldo de Araújo, então diretor de um banco. Ary teve também a idéia de uma série de volumes de poesia (as “plaquetas de poesia”), que apareceram antes de revista, mas que são anunciadas como “Edições Complemento”. A primeira “plaqueta” [1955], de minha autoria, foi planejada por Ary Xavier e é a única que demonstra graficamente o aspecto renovador que se instaurava. Nossa ligação com a Escolinha de Guignard era dada por Ruth Michel, aluna, que ilustrava este primeiro volume. Outros autores: Eloy Silveira Reis (com ilustrações de Vicente Abreu), Pierre Santos (com ilustrações de Yara Tupinambá), Ary Xavier (com ilustrações de Vicente Abreu) e Teotônio [dos Santos] Júnior (com ilustrações de Augusto Degois).
Mas “Complemento” não é só literatura: há Klaus Viana e o balé; os alunos de Guignard e Franz Weissmann e as artes plásticas; Silvio Castanheira e a música clássica; e principalmente o teatro e o interesse pelo cinema no qual literalmente todos participávamos. Na verdade, creio que havia dois grupos em “Complemento”, devido a uma pequena diferença de idade (cerca de três anos, o que é muito quand on a dix-sept ans). Eu fazia parte do grupo mais velho: Luís Carlos Alves, Ary Xavier, Floriano Corrêa Vaz, Carlos Kroeber, Vicente Abreu, Augusto Degois, Pierre Santos. Do grupo mais jovem participavam Silviano Santiago, Ezequiel Neves, Teotônio Santos Júnior, Ivan Ângelo, Argemiro Ferreira, Valmiki Vilela, Mônica Lisboa, Maurício Gomes Leite. Em posição intermédia: João Marschner, Teresinha Alves Pereira, Décimo de Castro, Klaus Viana. Esta divisão parece corresponder também ao nosso ano de ingresso na Faculdade de Filosofia (onde entrei em 1952). Havia também uma “fenda” no que diz respeito às ligações com intelectuais de gerações anteriores: alguns, como eu, tínhamos contacto com Bueno de Rivera, Edmur Fonseca, João Ceschiatti e Wilson de Figueiredo; os mais jovens eram dos círculos de Jacques do Prado Brandão e João Etienne Filho. Se a revista “Complemento” era um desejo de todos, foi o grupo mais jovem (principalmente Teotônio dos Santos Jr.) quem conseguiu fundos suficientes para torná-la realidade. Foram eles
também que sugeriram o nome (tirado de um verso de Ferreira Gullar) e a epígrafe de João Etienne Filho que abre o primeiro número da revista. Etienne, na época, tinha contacto com os mais jovens principalmente por suas funções como treinador de basquetebol.
Há um outro elemento curioso a considerar: através de mim, de Ary Xavier e Teresinha Alves Pereira dá-se uma abertura bem grande para a literatura hispano-americana, principalmente na Argentina. O contacto com o grupo vanguardista de “Poesía Buenos Aires” é importante, não só pela virada em direção à América Latina, mas também porque, através deles, passávamos a conhecer melhor a escola de “design”, de Ulm, na Alemanha, onde pontificavam Max Bill e Tomás Maldonado (irmão de Edgar Bailey, um dos líderes de “Poesía Buenos Aires”). Teresinha, viajando pela Argentina, solidificou estas relações – que duram até hoje – principalmente pelo seu relacionamento com Alejandra Pizarnik, que se tornou uma das figuras mais importantes da literatura feminina argentina contemporânea.
Outras influências fundamentais: o aparecimento do “rock’n’roll” (principalmente Little Richard), a presença da “beat generation” [Guinsberg e Kerouac foram amplamente lidos], a “juventude transviada” [Marlon Brando, James Dean], o aparecimento da “bossa nova” e do “cinema novo”, com Nelson Pereira dos Santos de “Rio 40 Graus” (filme que tinha sido proibido e teve exibição especial, “para a imprensa,” no Cine Acaiaca, por intervenção de José Morais, um dos nossos primeiros críticos de cinema e que era assessor de imprensa do então governador JK). Neste momento, parece que, definitivamente, passa-se da relação prioritária com o mundo cultural francês para o norte-americano.
Em BH, o movimento cultural daquele momento é bastante impressionante: há uma extensa programação de música clássica, que cobre todos os anos da década de 1950; Klaus Viana reforma o espírito da dança clássica brasileira com uma preocupação nacional [sua coreografia de “O Caso do Vestido” é clássica]; JK moderniza Minas e o país (ironicamente, é ele quem traz a BH a primeira Bienal de São Paulo e a “Figura Tripartite,” de Max Bill, que vai ser o grande crítico do já então serôdio modernismo de Niemeyer); o CEC é fundado (sou um dos fundadores!) e vem dar ao Brasil o primeiro clube de cinema moderno; João Marschner, Carlos Kroeber, Ezequiel Neves, Jota Dângelo, Mamélia Dorneles, Ester Mellinger, Teresinha Alves Pereira, Donato Donatti e tantos outros trazem a preocupação experimental no teatro. A criação da Editora Itatiaia, por Pedro Paulo Moreira, coloca BH, na área editorial, ao pé das outras capitais culturais do país. Alguns dos membros do grupo de “Complemento” vão trabalhar na Itatiaia, que tinha uma loja modesta no Edifício Dantés, onde se estabelece um dos nossos principais pontos de encontro. Todas as tardes lá estavam José Nava, Emílio Moura, Jacques do Prado Brandão e um grupo de “Complemento”. Certo dia, a Itatiaia recebeu Aldous Huxley; de outra feita, Sartre. A edição de “O Doutor Jivago”, traduzido por mim, por Oscar Mendes e Milton Amado, vai ser um acontecimento nacional. Como eu tinha alguma experiência como editor de livros – trabalhei em São Paulo como editor da Difusão Européia do Livro, em seus primórdios, tendo organizado a edição brasileira do “Bom Dia, Tristeza”, de Françoise Sagan – passei a fazer o mesmo trabalho para a Itatiaia. Pierre Santos substituiu-me em São Paulo, onde fez excelente carreira, antes do coração trazê-lo de volta a BH.
Havia dois pontos principais de encontro do grupo: a Churrascaria Camponesa, mais dada aos five o’clock teas, dos que ainda eram menores de idade; e a “Tirolesa” (na avenida Amazonas, logo acima do Ed. Dantés). Foi nesta segunda que Carlos Kroeber inventou a bebida oficial do grupo, “mosca”, que era realmente um “cuba-livre” sem muita sofisticação [Coca Cola e conhaque Castelo]. Lá se reunia também a Academia do Tirol, grupo de poetas parnasianos que sobrevivia ainda bem atuante (Edison Moreira, Nilo Aparecida Pinto, Peri Ogibe Rocha, Soares da Cunha, Sebastião Noronha, Antônio “Tote” Avelar, Gentil Tomás Tinano, este autor de um poema épico, as “Tinaníadas”). Curiosamente nunca houve conflito entre os dois grupos. Foi lá também que certa noite, alguém trouxe um comprimido de Namuron (um sedativo forte) e colocou-o na “mosca” de um de nós – talvez a primeira experiência de uso de droga que tenha acontecido entre intelectuais de BH.
Costumávamos também nos encontrar aos domingos, cedo, na Praça Sete, onde ficava a Sapataria Bristol (atual Ed. Viúva Guerra), para comprar os jornais cariocas, por causa dos suplementos literários, nos quais já começávamos a colaborar.
O espírito “bacharelesco” que existia em Belo Horizonte é substituído por um espírito liberal e multifacetado. A “geração Complemento” não produziu estas mudanças, mas esteve presente nelas e foi, de certa maneira, sua voz mais explícita.
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EMBRANÇAS DA FALESilviano Santiago
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ão boas as lembranças do final dos anos 1950. Não era fácil o período por que atravessou o estudante. Não digo espinhoso. Digo complicado. Exigia mais do que as forças pós-adolescentes. Cursava a Faculdade pela manhã, almoçava no restô da Faculdade de Ciências Econômicas, trabalhava à tarde na loja comercial de meu pai, jantava em casa e à noite encontrava meus amigos do Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais (CEC) e do grupo Complemento para ver filmes, discuti-los e inebriar-me com a vida noturna belo-horizontina. Não devo ter sido bom aluno. Esforçava-inebriar-me. Ficava meio que envergonhado diante de alguns professores. Era, no entanto, auxiliado pelo conhecimento e o gosto pela literatura e as artes, que vinha desenvolvendo desde os anos 1952, quando Jacques do Prado Brandão se tornou meu mentor e Maurício Gomes Leite, o melhor amigo. Dedicava-me aos estudos universitários durante os fins de semana, no quarto dos fundos da casa da Rua Mato Grosso.I
MPORTÂNCIANAFORMAÇÃOCom o ensinamento dos mestres José Carlos Lisboa (literatura espanhola), Rodrigues Lapa (literatura portuguesa) e Damien Saunal (literatura francesa), passei a traduzir em linguagem racional a expressão sentimental de meu amor pelas letras. Gostava dum título de José Guilherme Merquior, Razão do poema. Ao abandonar gradativamente a crítica cinematográfica e dedicar-me à leitura de livros de literatura e de critica literária, passei também a escrever poemas e contos. Ler e escrever se superpunham e a mistura explodiu num ensaio que escrevi sobre a poesia de Carlos Drummond para a revista Mosaico (do DCE) e poemas que saíram publicados em 4 Poetas (idem), antologia que reuniu quatro estudantes de Letras: Affonso Romano de Sant’Anna, Domingos Muchon, Teresinha Alves Pereira, com prefácio de Fábio Lucas.
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RESENÇANOSESTUDOSLITERÁRIOSECULTURAISÀ minha época e nos anos anteriores, a FALE era modesta nas ambições intelectuais, contava com poucos professores de nítida formação universitária e não havia alunos que buscavam a profissionalização imediata. A biblioteca era imoral. Basta acrescentar que a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras se situava nos andares altos do Edifício Acaiaca, em plena Avenida Afonso Pena. O acesso era por elevadores congestionados; as salas eram mínimas, ruidosas ou ventosas e os corredores, uma balbúrdia sem fim. Não menciono o entra-e-sai na sala do Diretório Acadêmico. No entanto, dominava uma seriedade no ensino e nos estudos que foi determinante nos passos futuros da Faculdade, quando a sede foi transferida para prédio próprio, na rua
Carangola. Apesar de viver e ensinar no estrangeiro, mantinha contacto intermitente com as velhas gerações e me informava sobre as novas. Com a transferência da Faculdade para o campus da Pampulha, creio que o equilíbrio entre instalações condignas, ensino, aprendizado e eventos acadêmicos foi sendo buscado e encontrado. Nasceram publicações de alto valor. Pela razão exposta, não sei quando foi dado o grande salto. Foi dado. Na segunda metade dos anos 1970, já na PUC-Rio, pressentia, sentia que as sucessivas gerações de novos professores e alunos tinham como meta a constituição de um núcleo sólido e plural de estudos literários e linguísticos, que ia pouco a pouco se igualando às congêneres de São Paulo e do Rio de Janeiro. Meus substitutos no CNPq foram sucessivamente dois jovens professores da UFMG. Hoje, o curso recebe a nota mais alta na avaliação da CAPES. Parabéns.
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OMESDEDESTAQUEEntre os imediatamente anteriores – e então jovens professores – cito em ordem alfabética: Ângela Vaz Leão, Maria José de Queiroz, Maria Luiza Ramos e Solange Ribeiro de Oliveira. Entre os colegas e contemporâneos, cito: Affonso Romano de Sant’Anna, Heitor Martins, Lélia Parreira Duarte, Letícia Malard, Luiz Carlos Alves, Melânia Silva de Aguiar, Ruth Silviano Brandão e Teresinha Alves Pereira. Nas gerações posteriores, não há como calar a voz do coração. Sou levado a enumerar, pela admiração que se traveste com a roupagem da amizade: Ana Lúcia Gazzola, Eneida Maria de Sousa, Ivete Walty, Leda Maria Martins, Lisley de Souza Nascimento, Lúcia Castello Branco, Maria Antonieta Pereira, Maria Esther Maciel, Myriam Ávila, Reinaldo Marques e Wander Melo Miranda. As ausências correm por conta da memória de velho.
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MA ENORMIDADE DE LEMBRANÇASAffonso Romano de Sant’anna
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omeço por lembrar que fui reprovado, por culpa minha, no primeiro vestibular que fiz para Neolatinas, em 1958. Havia acabado de chegar a Belo Horizonte, vindo de Juiz de Fora, e decidi tentar assim mesmo, embora bem despreparado sobretudo em latim. No ano seguinte, em 1959, tentei de novo, e acho que tirei penúltimo lugar. Nunca fui bom de acompanhar as normas, o cânone.Naquela época a faculdade era no Edifício Acaiaca, nos três últimos andares. A gente chegava cedinho, lá pelas 7 horas, para aulas que terminavam ao meio-dia, fazia filas para o elevador e lá ia todo mundo, tinha gente da área de biologia (como meu colega de pensão e futuro professor Deusdedith de Barros Jr), filosofia, história, enfim, era tudo ali concentrado naqueles três andares: biblioteca, salas de aula, direção. Durante três anos ali estive com uma turma maravilhosa. Homens, éramos só três: o Geraldo Magalhães, que viria a fazer cinema; Marcus Freitas, que foi fazer tese em Paris e por lá ficou quase a vida inteira; e o Mário Fontana, que, sendo já cronista social, rompendo a madrugada, aparecia às vezes. Das moças, várias seguiram a carreira do magistério, como a Consuelo Santiago (que era sempre a primeira da turma com seus cadernos impecáveis), Ruth Silviano Brandão, Melânia Aguiar e Dirce Duval. Mas o contato com colegas de outras áreas foi fecundo. Lembro-me especialmente de Luis Carlos Alves, Eder Simões e Carlos Duval. Letícia Mallard, que estava em turma mais adiantada, começava a ser já uma pessoa querida com quem manteria contato vida afora. Recordo-me, na área da filosofia, também de José Henrique, que viria depois a ser reitor da UFMG e que enquanto estudante publicou uma tradução de Heidegger, “O que é metafísica”, numa coleção que eu dirigia no DCE. Naquele tempo não havia, felizmente, o maldito sistema de créditos que foi importado dos Estados Unidos, então a mesma turma ia unida até o fim.
Dessa fase há uma enormidade de lembranças, que, tivesse eu a memória do Pedro Nava, seriam interessantes se narradas. Foi ali que entrei em contato com grandes mestres: Ângela Vaz Leão (de quem fui rapidamente monitor) e sua minuciosa tese, “O período hipotético começado pelo se”; Rodrigues Lapa (de quem fui instrutor), que nos dava aulas encantadoras, seja sobre a literatura medieval ou sobre os árcades mineiros; Wilson Cardoso (de quem fui assistente) e suas inesquecíveis aulas sobre Graciliano Ramos; Ayres da Matta Machado, bem humorado, um sábio com o ar tão humilde; José Carlos Lisboa, que nos desvendou o universo da literatura espanhola e ampliou a paixão pelo Barroco; Alaíde Lisboa e sua vivacidade; Lourenço Oliveira, e seu empenho em nos fazer ver outras formas de diagramar as estruturas linguísticas; as jovens mestras Maria José de Queirós, Magda Soares, Iria Renault, o jovem Sami Sirial, o Mr. Sonnald, Rubens Romanelli e Ricardo Averini -que chegou a me indicar para uma bolsa na Itália pensando que eu poderia me especializar em literatura italiana. Com Averini, que era
especialista em Barroco, fizemos uma inesquecível viagem a cidades barrocas mineiras, e aquela excursão deve ter muito a ver com o meu futuro livro “Barroco, do quadrado à elipse” (Ed. Rocco).
No período da faculdade no Acaiaca, enquanto diretor de Cultura do Diretório Acadêmico, publiquei a revista “Mural” e o volume de poesia com colegas – “4 Poetas” (Affonso Romano de Sant’Anna, Teresinha Pereira, Domingos Muchon e Silviano Santiago). Naquele edifício lancei meu primeiro livro, “O desemprego do poeta”, numa cerimônia em que fui saudado pelo professor Rodrigues Lapa. O “lançamento” também foi real, pois juvenilmente lançamos vários exemplares do livro lá de cima do 19º andar. Quando mudamos para o novo prédio na rua Carangola, ali fiz o último ano (1962), no qual se cursavam as “didáticas”. Era um paraíso de larguras comparado com o aperto do Acaiaca. Mas aí é que as coisas começaram a esquentar na política nacional. É o período que antecede à derrubada de Jango, e em breve o edifício teria as marcas da repressão, os professores e alunos passariam por um período amargo. Também tive meus problemas com os militares e policiais, que me impediram de sair do país para ir lecionar nos Estados Unidos, em 1964.
Mas foi nessa fase da Carangola que comecei a dar aulas de literatura brasileira. No primeiro ano que lecionei havia algo curioso, pois de repente estava lecionando para colegas. O professor Wilton e a Faculdade estavam fazendo um investimento em mim. Um investimento que foi fundamental na minha vida, pois, quando era aluno, para meu suplício, trabalhava no Banco do Comércio Varejista, forma de pagar minha sobrevivência. Era um desperdício. Ficava ali seis horas mexendo com números (fui um péssimo funcionário) enquanto meus colegas tinham o dia inteiro para estudar. Ah, como os invejava!
Mesmo sem tempo, com alguns colegas fazíamos seminários extras, ou sábado à tarde com o professor Rodrigues Lapa (para estudar Cláudio Manuel da Costa) ou, às vezes, à noite com o professor Sonnal (sobre o romanceiro espanhol). Numa dessas idas à noite na faculdade, fui surpreendido com a notícia de que numa reunião de congregação haviam indicado meu nome para monitor, sem que eu tivesse feito qualquer solicitação. Aquilo foi um presente dos céus. Foi minha alforria do banco e assim pude começar a me dedicar mais aos estudos. Se não tivesse isto ocorrido, se não houvesse essa confiança e investimento no jovem escritor, eu teria talvez seguido integralmente a carreira jornalística, pois, quando fui fazer o curso de neolatinas, não pensava em lecionar. O desejo, o projeto era forçar-me a organizar minhas leituras. Achava, com razão, que ia sair dali com uma visão geral de meia dúzia de literaturas, que ia ler com método.
Abro um parágrafo para mencionar o fato de que a FAFI não tinha, em principio, restaurante para os estudantes. E isto acabou me levando aos restaurantes da Faculdade de Direito e da de Ciências Econômicas, e isto propiciou o conhecimento e a amizade com pessoas de minha geração que ajudaram a fazer a história do período. Para se ter uma idéia, Betinho, Bolívar Lamounier, Simon Schwartzman, Vinícius Caldeira Brant, Ivan Otero, Amaury Souza, Teotônio Júnior, Juarez Brito, Otávio Cintra, Paulo Haddad e outros estavam nessa geração. Da Faculdade de Direito me lembro de Adauto Novaes, Salomão Amorin, Carmo Chagas, José Mário Penido, José Salomão Amorin.
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Como eu lamento que tenham acabado com o tipo de ensino que nos davam as Neolatinas, Anglo Germânicas e Clássicas! Como tenho eu pena dos alunos que sofreram o impacto da reforma universitária que largou o modelo europeu pelo americano! Toda vez que em alguma conferência menciono o fato de que, além de filologia, latim, linguística, português, estudávamos língua e literatura francesa, língua e literatura italiana, língua e literatura espanhola, além da literatura brasileira, da portuguesa e hispano-americana, vejo nos olhos dos alunos de hoje, pasmo e inveja. E ficam mais impactados se lhes digo que tínhamos que escrever trabalhos pelo menos em francês e espanhol.
Não tínhamos a estrutura de um campus, como ocorre hoje, mas tínhamos um contato muito produtivo com os professores. Frequentávamos suas casas para reuniões informais, a pretexto de entregar trabalhos. Havia uma sensação de que éramos uma família. Para se ter uma noção, tenho que repetir algo que sempre me toca e emociona a querida Ângela Vaz Leão: fazíamos serenata para os professores. Entrávamos no jeep do Artur e lá íamos noite adentro, acordando os mestres, e no caso de D. Ângela, ela ainda nos convidava a entrar em sua casa para ouvir George Brassens.
Naquele tempo não havia os cursos de mestrado e doutorado de hoje. As pessoas faziam exame para livre docência e catedrático. Então, os concursos eram como grandes justas medievais. Vinham examinadores famosos de todo o país, pois não era como hoje que todo dia e em qualquer sala tem alguém apresentando uma tese. Um concurso parava a cidade. Os jornais entravam na disputa. Como esquecer os verdadeiros embates que foram a disputa da cátedra de literatura por Neif Safady, contestado por Rodrigues Lapa, e a disputa para a cátedra de literatura brasileira entre Maria Luiza Ramos e Wilton Cardoso. Era um tempo em que os candidatos e a banca se tratavam de Vossa Excelência ou Senhor e a defesa da tese tinha um toque encantadoramente medieval. Ali naquelas justas também se aprendia muito, os alunos tomavam partido, eram grandes aulas, era a hora de nos orgulharmos de nossos mestres.
Aquele naipe de professores que mencionei tinha uma nomeada nacional. Eles chegaram àquele posto por vocação, quando lecionar em universidade não oferecia, como hoje, bons salários nem condições de pesquisa, bolsas, viagens etc.
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Na verdade, estive como aluno aí de 1959 e a 1962 e depois lecionei até 1965, quando aceitei o convite para ir lecionar nos Estados Unidos na Universidade da California, UCLA. Quando aí estava, os estudos tinham uma vertente filológica, estilística e histórica. O estruturalismo ainda não havia aportado com a força que teria nos anos 70. Como vim de um regime anterior, em que não havia a formalização dos cursos de mestrado e doutorado, inscrevi-me logo para o doutorado, e fiz as provas eliminatórias, de domínio conexo e comecei a preparar a tese quando estava já nos Estados Unidos. Voltei em 1967 por seis meses, mas me convidaram para o Internacional Writing Program, em Iowa, e para lá fui em 1968. Voltei na metade de 1969 com a tese pronta (“Carlos Drummond de Andrade, o poeta gauche no tempo e espaço”), que nessa época foi defendida diante de uma banca composta pelo orientador Wilton Cardoso, Ângela Vaz Leão, Neif Safady, Maria Luiza Ramos e Aires da Matta Machado.
Portanto, a travessia estruturalista e pós-modernista, eu a fiz já na PUC-RJ, para onde fui em 1970 a fim de organizar a pós-graduação em literatura brasileira. Aliás, alguns alunos da UFMG foram obter seus diplomas de pós-graduação conosco na PUC-RJ, que se tornou, como se sabe, o grande foco de debates. Ali, não só recebemos alunos de todo o país, mas realizei, enquanto diretor do Departamento de Letras e Artes, uma série de encontros que afetaram estruturalmente os estudos literários do país.
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Na verdade, tentava fazer uma aliança e/ou percorrer vários espaços extrapolando a universidade. Na área literária havia duas gerações atuando na cidade, a geração “Tendência” e a “Geração Complemento”. Colaborava nos quatro suplementos literários semanais: “Estado de Minas”, “Folha de Minas”, “Diário de Minas” e “O Diário”, e em alguns do Rio e São Paulo. Rompendo o preconceito entre gerações, eu dialogava com todas elas, incluindo também poetas da geração modernista, como Emílio Moura e Henriqueta Lisboa, ou Bueno de Rivera, da Geração 45. Do mesmo modo, atuava como cantor no “Madrigal Renascentista”, e interagia com os atores do “Teatro Universitário”, do “Teatro Experimental”, com Klauss Viana/Angel Viana e sua escola de dança, e com o Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais.
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Como jovem aluno-professsor fui, nesse período fecundo e decisivo de minha formação na UFMG, um dos organizadores da “Semana Nacional de Poesia de Vanguarda” (1963), ocorrida na Reitoria, e fundador do Centro Popular de Cultura, ligado à UNE, que tinha a pretensão utópica de através da arte ajudar a transformação do país. Foi nesse período e com o apoio da reitoria que publiquei meu primeiro livrinho, “O desemprego do poeta”.
Enfim, lembro-me com certa ternura da cerimônia de formatura lá no grande auditório da Secretaria de Saúde, perto da Praça Raul Soares. O paraninfo foi o inesquecível mestre Rodrigues Lapa e eu havia sido escolhido orador da turma disputando com vários colegas. Lembro-me que, considerando a realidade que nossa geração já enfrentava, em certa parte do discurso eu dizia: “Não entramos na vida como quem entra num jardim”.