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A REDE QUE RENOVA O MUNDO

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Academic year: 2020

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A REDE QUE RENOVA O MUNDO* Marcus Minuzzi**

Resumo: a Teoria da Comunicação, especialmente a partir de suas matrizes sociológicas, conta com poucos avanços na tarefa de interpretar o papel da mídia. O presente artigo busca refletir sobre a nova feição da comunicação, incluídas as chamadas redes sociais, a partir do conceito de mito. Considera-se a rede mundial de compu-tadores, neste contexto, como potência de recriação do ser humano, a partir da atuação de forças instintivas dionisíacas.

Palavras-chave: Mito. Comunicação. Internet. Redes sociais.

O

capitalismo cabe no planeta? Talvez não por muito tempo. O lento

processo ativado pela revolução técnico-científica, de democrati-zação da informação, parece chegar ao limiar de um novo patamar para o utópico desejo da comunicação total e sem ruídos. A rede mundial de computadores ascende à condição de “musa” do novo mundo que se deverá estar criando. A musa é tudo aquilo que inspira um desejo por amor sem fim.

A internet, por seu caráter revolucionário, de quebra de paradigma, conquista amores intensos. O artifício representado pela existência da rede orna o colo desta apaixonante “mulher”: o humano e destrutivo desejo de expansão territorial, carreado pelo impulso sexual, onde antes feria o palco real da ação humana, ou seja, a terra, antes que a natureza seja arrasada completamente, agora ativa o território virtual, logo imaterial, que tudo consegue suportar.

A terra suporta o mundo antigo da civilização técnico-científica com maior resistência, então, se o suporte de um novo mito

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acolhedora-mente for leve como o ar. O corpo virtual da rede ascende, portanto, à condição de uma espécie de nau que, comportando um número ilimitado de passageiros, permita à ilusão humana sonhar um novo tempo. O pre-sente artigo, na esteira destas reflexões, buscará desenvolver a hipótese de que a internet representa a forma pela qual a utopia moderna expande-se enquanto mito.

ENTRE O MEDO DO MUNDO

Morin (1997) nos fala de uma “vedetização” a que procede a cul-tura de massas, em meados do século passado. Nascem os astros (atores e atrizes cinematográficos; reis, rainhas, príncipes e princesas; campeões esportivos; presidentes) a que o pensador francês chama de “olimpianos”. Sabe-se que, na mitologia grega, Dionísio, divindade grega relacionada à embriaguez e à liberação sexual, era um deus do povo.

“Pouco inteligentes” são as massas. Freud, autor da afirmação acima, antecipa o problema das redes sociais. “A arte”, segundo ele, “oferece sat-isfações substitutivas para as mais antigas e mais profundamente sentidas renúncias culturais e, por esse motivo, ela serve, como nenhuma outra coisa, para reconciliar o homem com os sacrifícios que tem de fazer em benefício da civilização” (FREUD, 1996, p. 23).

O paraíso perdido é o mito fundador da cultura ocidental. A ser-pente simboliza tais instintos, de que tanto fala Freud. Que redes de relacionamento formam-se neste momento? Os atos que as compõem canalizam o medo da solidão e do abandono. A troca no ciberespaço guarda um aspecto sexual inconsciente: uma orgia forma-se entre as culturas. A repressão dos instintos, no dizer de Freud, faz com que se conforme um depósito de vontades não satisfeitas que, no entanto, permanecem atuando. Freud diferencia um tipo mais antigo de re-pressão, que atinge a todos os indivíduos de uma determinada cultura e que volta a se manifestar em cada criança que nasce. Neste sentido, deve-se distinguir

entre privações que afetam a todos e privações que não afetam a todos, mas apenas a grupos, classes ou mesmo indivíduos isolados. As primeiras são as mais antigas; com as proibições que se estabeleceram, a civilização – quem sabe há quantos milhares de anos? – começou a separar o homem de sua condição animal primordial. Para nossa surpresa, descobrimos que

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hosti-lidade para com a civilização (grifo no original). Os desejos instituais

que sob ela padecem nascem de novo com cada criança [...]. Entre esses desejos encontram-se os do canibalismo, do incesto e da ânsia de matar (FREUD, 1996, p. 20).

O anseio infinito pelo prazer orienta o processo civilizatório. A cul-tura, antes de qualquer coisa, reprime esta busca. A heroicização consiste em dotar um indivíduo do poder supremo de renúncia aos instintos. É o caso extremo do Cristo, que, conforme o relato bíblico, morreu por amor à humanidade. O ritual de sacrifício do herói transforma-se em uma tra-dição narrativa. No Ocidente, além da narração sobre o sacrifício crístico, desponta o poema épico da Ilíada e da Odisseia, de Homero.

O retorno ao lar é o mito que se apresenta no poema de Homero (2000). O Odisseu leva vinte anos para regressar à casa depois de finda a Guerra de Tróia. A espera de sua esposa, Penélope, é acompanhada da corte de outros homens, que ambicionam tomar seu lugar de esposo. Com um reino a ser defendido, Ulisses erra pelo Mar Mediterrâneo enquanto não descobre o caminho de volta. O mar representa o perigo. A nuvem de azar que atordoa Ulisses faz Penélope tecer um longo bordado em que deposita seu propósito de manter-se firme na espera.

Na universal e milenar tradição, o herói, redentor ou mártir, ou ainda redentor e mártir, fica sobre si, às vezes até a morte, a infelicidade e o sofrimento. Ele expia as faltas do outro, o pecado original de sua família, e apazigua, com seu sacrifício, a maldição ou a cólera do destino. A grande tradição precisa não só de castigo dos maus, mas do sacrifício dos inocentes, dos puros, dos generosos. O sacrifício é a morte ou uma longa vida de provações (MORIN, 2002, p. 93).

No caso de Ulisses, o sacrifício não chega a ser a morte, mas a longa dor da espera. O mar que o Odisseu atravessa é cheio de fantasmas, como as sereias, que prometem o torpor da beleza feminina, que desvia o herói de seu curso. A filósofa brasileira Olgaria Matos (1989), com base em Adorno e Horkheimer, interpreta esta passagem da Odisseia como “mortificação dos instintos”: o herói resiste à beleza do canto das sereias amarrando-se ao mastro do navio.

O canto é um convite à entrega ao feminino. Tal entrega do homem ao mistério antropologicamente representa o alimento da recordação do mito. Como o leito de um rio, a espécie é o suporte do escoar de mitos.

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A destinação de qualquer mito aponta para o futuro. Homero canta com tal beleza a glória de seus antepassados que reserva-lhes um lugar no futuro.

Olgaria Matos lembra que os marinheiros de Ulisses têm os ouvidos tapados com cera, como modo de impedir-lhes a audição do canto: se o ouvissem, se jogariam ao mar. Ulisses prende-se ao mastro porque não tapou seus próprios ouvidos. Assim, pode ouvir o canto com a garantia de que não se atirará ao encontro da morte. A técnica de renúncia parcial ao encanto, segundo Matos, deve ser lida como sublimação. “Ulisses [...] pode desfrutar do encanto porque transformou sua tentação em objeto meramente contemplativo, em arte, em espetáculo; e, quanto maior a tentação, mais fortemente faz com que seus homens o amarrem ao mas-tro” (MATOS, 1989, p. 133).

O DEUS NA REDE

A rede social constituída pelo Orkut promove a possibilidade de todo indivíduo ter o meio necessário ao estrelato. A democracia produz este efeito. A vitória no Orkut está relacionada a uma aferição do número de contatos feitos entre um usuário e os demais membros da rede. O Twitter afere igualmente seus campeões.

O fenômeno da mídia de massas conseguiu, a partir da segunda metade do século passado, formar um Olimpo humano, em substi-tuição ao Olimpo sagrado. A polis grega, conforme Hannah Arendt (1997), nega a necessidade, ou aquilo que é propriamente do campo dos instintos (na acepção freudiana): a polis representa o átrio no qual os cidadãos farão a tentativa de se igualar aos deuses. Ou seja, a demo-cracia grega antecipou o processo de ampliação do espaço público na sociedade capitalista. O modelo dos deuses alimentava o drama vivido na polis: a árdua tarefa de ornar o rito da convivência. O Olimpo se confundia com o real.

DaMatta (2000), ao teorizar sobre o trabalho do antropólogo, determina a diferença entre sociedade e cultura, comparando a realidade destes dois conceitos com a execução de uma peça teatral. O texto da peça, sempre fixo, representa a cultura. Os atores, o palco e os responsáveis pela montagem do espetáculo representam a sociedade.

[...] É sempre bom usar [...] a comparação com o teatro para expressar claramente a diferenciação entre sociedade e cultura. Realmente, no teatro

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temos sempre um problema fundamental de ajustamento interpretativo entre um texto (grifo no original), digamos, Romeu e Julieta de Shakes-peare, e um sistema de ações concretamente dados num dado local (o palco e o teatro). Ou seja, estão aqui colocados os ingredientes básicos do fenômeno social: temos valores e idéias que devem ser vistos e ouvidos (e não lidos) e o problema de atualizá-los em um conjunto de ações dra-máticas, práticas. [...] Creio que o texto serve bem como uma metáfora da cultura, tal como estou apresentando aqui; ao passo que a sociedade é o plano representado pelo espetáculo teatral na sua prática dramática e cênica. Um não vive sem o outro, embora o texto possa sobreviver às várias interpretações do drama (DAMATTA, 2000, p. 53).

O drama permanente do corpo e seu abandono – e essa é uma afirmação nossa – representa o texto básico que vem se encenando no mundo ocidental desde seus primórdios.

Habermas (1984), ao escrever sobre a estruturação da esfera públi-ca, faz notar o quanto o novo homem que surge na Europa a partir do século XVIII forma um modo de organização social cujo núcleo é o amor livre, no sentido de casamentos que se constituem sem obrigatoriedade de vínculo que não seja o amoroso (ou a chamada “comunhão por afeto”). A comunicação orna o rito da busca por esse casamento.

A novidade representada pelas redes sociais efetivamente está no aumento do desejo pelo corpo amoroso. O poeta Carlos Drummond de Andrade assim escreve:

Olha, amor, o que fazes desses jovens (ou velhos) debruçados na água mansa, relendo a sempre-palavra das estórias que nosso entendimento não alcança.

O medo alimenta a procura por trocas naturalmente inviáveis. O corpo do deus é o mito. A razão não o decifra. A mulher artisticamente é conquistada. O maior corpo é o corpo livre amoroso, assim como o projetado pela esfera pública burguesa. Nietzsche acusa o limite de um dogmatismo platônico, em que se esconderia um muito grave erro – “o mais duradouro e o mais perigoso de todos os erros cometidos até agora [...], a saber, a invenção platônica do espírito puro e do bem em si” (NIETZSCHE, 2008, p. 18).

A neurose, segundo Freud, corresponde a um “comportamento associal” de determinados indivíduos em reação à frustração do

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instin-to, entre eles o instinto do incesto. A rua expandida representada pela internet auxilia na contenção da incestuosidade reprimida. O processo do mito é um processo de expansão. A população que ostenta perfis em redes sociais da internet gesticula, de modo inconsciente, no sentido de casar-se com o mito do próprio amor.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O rito simboliza o mito. Com o medo de carregar o ascendente amor em nosso corpo, combatemos a possibilidade do mito. O rito de conviver com a diferença estimula a troca. A maior atração a unir diferenças é, não o amor, mas o sexo. O sexo, no entanto, alimenta também a força reprodutora que reparte o mundo em corporeidades autônomas.

O amor ativa a divisão dos doloridos dramas de cada indivíduo. A rede de indivíduos articulada pela antiga mídia os unia em torno de amores em comum (os olimpianos de Morin). Com a internet, cada indivíduo cogita, em tese, a possibilidade de o astro ser ele mesmo. O astro sobe rapidamente. O novo mito recebe o assédio através do corpo exposto na rede. Com a internet, o rito capaz de tornar o amor coletivo uma razão para o fim das desigualdades sociais é menos ilusório. O alimento ocidental da palavra se tornou farto e viçoso: a internet humaniza a difícil tarefa do convívio social através do contato ao mesmo tempo real e virtual, corporal e simbólico, próximo e distante.

NETWORK RENEWING THE WORLD

Abstract: the Theory of Communication, especially from their mothers socio-logical account with little progress on the task of interpreting the role of the media. This article aims to discuss the new face of communication, including social networking calls from the concept of myth. It is considered the world wide web in this context as a force for rebuilding the human being, from the performance of Dionysian instinctual forces.

Keywords: Myth. Communication. Internet. Social Networks. Nota

1 “uma das características fundamentais de Dionisio ‘deus do povo’, é sua uni-versalidade social” (BRANDÃO, 2007).

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Referências

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.

ANDRADE, Carlos Drummond. Antologia poética. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

BRANDÃO, Junito S. Mitologia grega. Petrópolis: Vozes, 2007.V. II.

DaMATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. In: FREUD, Sigmund. Obras

psicológicas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro : Imago,

1996, v. XXI, p. 15-63.

HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública – investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

HOMERO. Odisseia. Rio de Janeiro: Cultrix, 2000.

MATOS, Olgaria. Masculino e feminino. Revista USP, São Paulo, p. 133-138, jun./jul./ago. 1989.

MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: neurose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Porto Alegre: L&PM, 2008.

* Recebido em: 16.04.2010. Aprovado em: 04.05.2010.

** Jornalista, doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISNOS). Professor no curso de Jornalismo da Faculda-de Araguaia (Goiânia/GO). E-mail: [email protected].

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