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USOS DO BIG DATA NO COMBATE AO TERRORISMO

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Academic year: 2021

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USOS DO BIG DATA NO COMBATE AO TERRORISMO

Cleide Luciane Antoniutti* RESUMO

Big data assume papel central no atual contexto da explosão informacional, em que predomina o aumento do volume, da velocidade e da variedade de informações produzidas por indivíduos e máquinas no século XXI. Este estudo discute sua utilização no suporte às atividades vinculadas à defesa e segurança nacional na identificação, prevenção e combate ao terrorismo. Para a realização deste trabalho foram feitas consultas em livros, artigos científicos e reportagens sobre a temática. Utilizou-se a pesquisa exploratória e qualitativa. Os resultados encontrados na pesquisa demonstram que diante de um cenário ainda de muitos desafios e aprendizado, em que as principais áreas nas quais o antiterrorismo precisa focar são o compartilhamento de dados de forma responsável, adotando as tecnologias certas para termos dados analíticos preditivos, em tempo real e utilizando estas informações que proporcionam insights relevantes para a execução de ações, a partir do grande volume de dados produzidos principalmente na internet e ambientes das redes sociais. Outros trabalhos são necessários para que discussões mais aprofundadas sejam feitas sobre a importância do uso do Big data e sua efetiva utilização no combate ao terrorismo.

Palavras-chaves: Big data.Segurança nacional.Vigilância. Terrorismo.

USES OF BIG DATA IN COMBATING TERRORISM

ABSTRACT

Big data plays a central role in the current context of information explosion, in which

predominates the increasing volume, velocity, and variety of information produced by individuals and machines in the twenty-first century. This paper discusses its use to support activities related to national defense and security in identifying, preventing and combating terrorism. For this work, books, scientific articles and reports were consultated on the subject. We used the exploratory and qualitative research. Based on this scenario, the results in the survey shows many challenges and learning, which the main areas of anti-terrorism needs to focus on. They are the responsible way data sharing, adopting the right technologies to have predictive analytical data in time real, and using this information to provide relevant insights ____________________

* Jornalista pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR); Especialista em Marketing (FESP - PR); Mestrado em Sociologia Política pela Universidade Federal do Paraná e Doutorado em Ciência da Informação (IBICT/ECO-UFRJ); professora do curso de Jornalismo do Centro Universitário Carioca (Rio de Janeiro). Contato <[email protected]>.

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for the implementation of actions, from the large volume of data produced mainly on the internet and environments of social networks. Further research is needed to further discussion about the importance of Big data uses and its actual using in the fight against terrorism.

Keywords: Big data. National security.Surveillance. Terrorism.

USOS DE BIG DATA PARA COMBATIR EL TERRORISMO

RESUMEN

Big data asume un papel central en el actual contexto de la explosión de informaciones, en el que predomina el aumento de volumen, de la velocidad y de la variedad de informaciones producidas por personas y máquinas en el siglo XXI. En este trabajo se discute su uso en el apoyo a las actividades vinculadas a la defensa y a la seguridad nacional en la identificación, prevención y combate al terrorismo. Para realizar este trabajo se hicieron consultas a libros, artículos científicos y reportajes sobre el tema. Se utilizó la investigación exploratoria y cualitativa. Los resultados obtenidos demuestran que ante un escenario que aún demanda muchos desafíos y aprendizaje, una de las principales áreas en que el antiterrorismo tiene que centrarse es el intercambio de datos de modo responsable, adoptando las tecnologías adecuadas para tener datos analíticos predictivos, en tiempo real y utilizando estas informaciones que proporcionan insights importantes para la ejecución de acciones, a partir del gran volumen de datos producidos principalmente en el internet y en las redes sociales. Se necesita realizar otros trabajos para profundizar las discusiones sobre la importancia del uso do Big data y su uso efectivo en el combate al terrorismo.

Palabras clave: Big data. Seguridad Nacional. Vigilancia. Terrorismo. 1 INTRODUÇÃO

O presente estudo tem como objetivo discutir o conceito de Big data e a importância do seu uso para segurança nacional no combate ao terrorismo. Tal discussão está baseada na hipótese de que com a ampliação do acesso à internet e o surgimento de redes sociais, propiciou-se um ambiente ideal para que usuários produzam e obtenham cada vez mais acesso à informação, tanto para quem exerce o controle e a vigilância antiterrorista, quanto para quem pratica o crime contra a humanidade.

A estruturação em rede das sociedades mais desenvolvidas e a criação da internet são traços fundamentais do ambiente estratégico do século XXI. Estamos vivendo a era dos prossumidores, ou seja, usuários que além de consumirem também são ativos na produção de informações. Isso tem contribuído de maneira incisiva para que se tenha atualmente o excesso informacional, um emaranhado de novos dados, novas informações que circulam diariamente e em tempo real, sem que eles fiquem limitados a fronteiras geográficas, dentro do conceito de desterritorialidade.

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A partir disso, considera-se que o modo pelo qual os diferentes agentes fazem uso da informação conduz, de forma simultânea, ao aparecimento tanto de novas oportunidades como de novas ameaças à sociedade, entre elas o próprio terrorismo. Cabe lembrar que embora a história da humanidade esteja pontuada por inúmeros atentados terroristas, o ataque de extremistas islâmicos às torres gêmeas americanas do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001 – possivelmente por ter sido praticamente transmitido ao vivo – parece ter impactado o mundo com o medo – agora tangível e próximo – decorrente de uma das piores faces da intolerância, o fundamentalismo religioso. Os teóricos que estudam a temática afirmam que o marco representativo desse atentado institucionalizou mecanismos de prevenção e defesa em inúmeros países, levando o avanço da tecnologia e metodologias para monitorar tais informações, entre elas está o uso do Big data.

Neste trabalho fazemos uma revisão bibliográfica sobre as temáticas explosão da informação, Big data, vigilância e terrorismo. Em seguida, a partir de pesquisas realizadas em artigos científicos e reportagens em revistas e jornais brasileiros, apresentamos exemplos de como alguns países vêm utilizando Big data nas ações de inteligência no combate ao terrorismo.

2 A EXPLOSÃO DA INFORMAÇÃO

Na história da humanidade, desde que a escrita tornou possível gravar textos e preservá-los além da capacidade da memória dos indivíduos, iniciou-se um processo de acúmulo de informação. Assim, a “explosão da informação” recebe contribuições iniciais e significativas a partir da socialização da informação influenciada por Gutenberg, por volta de 1448, desde a invenção da imprensa. O aperfeiçoamento das técnicas chinesas da prensa de tipos móveis, construída em placas de metal – material mais resistente na época e de possível reutilização – e também a formulação de uma tinta mais aderente viabilizaram a reprodução de obras em grande volume. Entretanto, é perceptível que o feito de Gutenberg culminou em outros efeitos, quando se avaliam as marcas deixadas pela mudança no cenário da época. Uma delas seria o surgimento de um grande volume de obras, somado à inexistência de um sistema eficaz de catalogação, ou seja, havia uma dificuldade em encontrar a informação disponível. Além do intenso fluxo de conteúdos, que tornava inviável a leitura de tantos artigos. De 1453 a 1503 cerca de oito milhões de livros foram publicados, que foi uma produção de conteúdo maior que toda a sociedade havia gerado via escribas nos 1200 anos anteriores.

Mais que uma ordem de livros o que alguns contemporâneos percebiam era uma “desordem de livros” que precisava ser controlada. Este é certamente um problema com que nós também estamos brigando atualmente, nos primórdios da mídia eletrônica. (BURKE, 2003, p. 175).

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Para alguns estudiosos, a chegada do computador no meio social e a evolução da tecnologia, principalmente a móvel, contribuíram na última década para o acúmulo dos dados. O mundo não apenas está mais cheio de informação, como também a informação está se acumulando com mais rapidez (SCHÖNBERGER-MAYER; CUKIER, 2013).

Em um discurso realizado em 1990, Neil Postman transmitiu suas ideias em relação à tecnologia da computação e à informação. Em suas palavras, Postman é categórico em afirmar que a informação se virou contra nós. Para ele havia um tempo em que a informação nos ajudava a resolver questões específicas, porém, após Gutenberg e a explosão de dados, o caos foi trazido até os tempos atuais (POSTMAN, 1990).

Segundo Burke (2012), “explosão” é uma imagem pessimista para o que outrora foi chamado de maneira otimista de progresso ou crescimento do conhecimento. Essa nova metáfora é combinada com dois conceitos: a expansão rápida e a fragmentação. Para Burke (2012), do ponto de vista de um consumidor sofrendo de “angústia de informação”, a metáfora tradicional de se sentir afogado ou as metáforas novas de “ruído”, “neblina de dados” ou “sobrecarga de informação” parecem mais apropriadas. “Lemos, por exemplo, que um dilúvio de dados ou um tsunami de dados está se quebrando nas praias do mundo civilizado.” (BURKE, 2012, p. 311).

Assim, a verdadeira revolução na era da informação não está nas máquinas que calculam os dados, e sim nos dados em si e na maneira como a sociedade os usa; a preocupação se volta para a gerência do exponencial volume de dados e também para o controle dessas informações.

Perspectiva de Gantz e Reinsel (2012) é de que, entre os anos de 2005 e 2020, o universo digital cresça 300 vezes, partindo de 130 para 40.000 exabytes de dados, ou seja, haverá uma média de 5.200 gigabytes de dados para cada habitante da terra. Segundo eles, somente na área de segurança, englobando as atividades de investigação criminal e inteligência militar, cerca de 45% dos dados referentes ao tema poderão ser candidatos à utilização em Big data em 2020.

3 BIG DATA

O grande volume de dados heterogêneos produzidos por diferentes fontes autônomas, distribuídas e descentralizadas que geram rapidamente dados com relações complexas e em evolução é chamado Big data (ANTONIUTTI; ALBAGLI, 2014). Segundo a literatura Big data é um termo genérico para dados que não podem ser contidos em repositórios usuais. Refere-se a dados volumosos demais para caber em um único servidor, não estruturados demais para se adequar a um banco de dados estruturado em linhas e colunas ou fluidos demais para serem armazenados em um data warehouse estático. O aspecto mais complexo do Big

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data não é o volume, mas a sua falta de estrutura que dificulta a análise para conhecimento, inovação e valor (DAVENPORT, 2014).

A discussão mais geral sobre Big data encontra-se nos 3 Vs – Volume, Variedade e Velocidade. Muitos teóricos ainda acrescentam um quarto V, que é a Veracidade e um quinto V, que é o Valor dos dados.

Assim, a variedade e a velocidade são variáveis tão ou mais importantes quanto a variável volume. Lidar com variedade é mais difícil do que lidar com volumes grandes, pois o Big data utiliza dados em formatos completamente diferentes uns dos outros. A velocidade, por sua vez, exige da organização que os processos de negócio afetados sejam responsivos na velocidade que os dados analisados permitam tomar alguma ação efetiva.

Figura 1 – Os cinco Vs

Fonte: VERAS, 2015.

As fontes de dados para o Big data são diversas incluindo celulares, computadores, redes sociais e sensores.

O Big data neste trabalho contextualiza-se a partir das discussões da sociedade informacional estabelecida por Castells (1999), em que a informação e a tecnologia se colocam como uma discussão central para a sociedade na atualidade e como estratégia para a área de Defesa. Entendemos que a estruturação em rede

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das sociedades mais desenvolvidas, como a nossa, e a criação do ciberespaço são traços fundamentais do ambiente estratégico do século XXI. A partir disso, consideramos que o modo pelo qual os diferentes agentes fazem uso da informação conduz, de forma simultânea, ao aparecimento de novas ameaças e que precisam ser identificadas.

Schönberger-Mayer e Cukier (2013) observam que apesar de haver uma crença implícita entre os tecnólogos de que Big data remonta à revolução do silício, em essência, o avanço rumo ao Big data é uma continuação da antiga busca da humanidade por medir, registrar e analisar o mundo. Para esses autores os sistemas modernos de Tecnologia da Informação e da Comunicação (TIC) possibilitam Big data, mas não são os únicos responsáveis pelo seu surgimento. “A revolução da TI é evidente, mas a ênfase estava mais no T, na tecnologia. É hora de voltarmos o olhar para o I, a informação.” (SCHÖNBERGER-MAYER; CUKIER, 2013, p.54). Nesse sentido, os autores abordam que a fim de captar informações quantificáveis, de datificar, é preciso saber como medir e registrar essa medição, o que exige um conjunto certo de instrumentos, além do desejo de quantificar e registrar.

Ciências como a astronomia e a genômica, que vivenciaram uma explosão informacional nos anos 2000, cunharam o termo Big data (SCHÖNBERGER-MAYER; CUKIER, 2013). Este termo, relacionado aos grandes volumes de dados, foi primeiramente citado no relatório “Data, data, everywhere: a special report on managing information”, do periódico britânico The Economist (CUKIER, 2010). Entretanto, durante estes anos, o termo foi sendo utilizado e relacionado a data warehouses ou soluções de business intelligence (BI), com data sets de terabytes de dados.

No entanto, Big data representa muito mais que isto. Atualmente, o conceito está migrando para todos os campos do conhecimento humano (ANTONIUTTI; ALBAGLI, 2014) e já podemos encontrar o termo sendo evidenciado em diversos trabalhos e sendo usado para diversas finalidades, inclusive no combate a crimes e atos de terrorismo.

4 TERRORISMO

Reportagem do Washington Post contabilizou que, em 2015, os ataques do Estado Islâmico em solo estrangeiro mataram cerca de 820 pessoas. Nesses ataques estão incluídos o ataque ao jornal francês Charlie Hebdo, um massacre numa praia da Tunísia, a derrubada do voo russo Metrojet 9268, no Egito, o bombardeio de Beirute, e os atentados de Paris. Esses atentados empiricamente são chamados de terrorismo, que conceitualmente significa ataque indiscriminado a inocentes e a tentativa de introduzir o medo e o terror na vida cotidiana.

Assim, o êxito do ato terrorista, enquanto violência qualitativa, reside nas estratégias da ação pontual: o “atentado” concentra-se num ponto limitado no

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tempo e no espaço, apanhando de surpresa a multidão anônima e passante, e que pode ser praticado pelos indivíduos dessa mesma população (DADOUN, 1993). A principal característica desse terrorismo é que ele ataca, sobretudo, os civis. Eles querem o maior número de mortos e a maior visibilidade possível. É muito difícil se proteger desse tipo de ataque (MAXWELL, 2002, p. 19).

Para Norberto Bobbio (apud WELLAUSEN, 2002) o terrorismo, como recurso comum à violência, distingue situações diversas, conforme seu peso político. Tanto pode ser um instrumento de governo para se manter no poder, quanto instrumento de libertação nacional em nações dominadas; de uma forma ou de outra, o terrorismo é sempre a quebra da ordem imposta pelo poder dominante.

Apesar dessa discussão conceitual, ainda não existe consenso acerca da definição de terrorismo de forma mundial. Em 2000, foi estabelecido um Comitê Especial no âmbito da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) a fim de estabelecer uma Convenção Global sobre Terrorismo Internacional, entretanto ainda não foi estabelecido um critério único para todos os países.

O Artigo 2º do projeto da referida Convenção prescreve a seguinte definição universal de terrorismo:

Quando o propósito da conduta, por sua natureza ou contexto, é intimidar uma população, ou obrigar um governo ou uma organização internacional a que faça ou se abstenha de fazer qualquer ato. Toda pessoa nessas circunstâncias comete um delito sob o alcance da referida Convenção, se essa pessoa, por qualquer meio, ilícita e intencionalmente, produz: (a) a morte ou lesões corporais graves a uma pessoa ou; (b) danos graves à propriedade pública ou privada, incluindo um lugar de uso público, uma instalação pública ou de governo, uma rede de transporte público, uma instalação de infra-estrutura, ou ao meio ambiente ou; (c) danos aos bens, aos locais, às instalações ou às redes mencionadas no parágrafo 1 (b) desse artigo, quando resultarem ou possam resultar em perdas econômicas relevantes. (REVISTA BRASILEIRA DE INTELIGÊNCIA, 2007, p. 14).

O Governo Francês, em 1991, entendeu o terrorismo como uma ação deliberada, tendendo, através da intimidação ou da violência, a derrubar as instituições democráticas ou a subtrair uma parte do território nacional à autoridade do Estado.. Já os Estados Unidos utilizam três definições de terrorismo, conforme o interesse das respectivas instituições: Departamento de Estado, Departamento de Defesa e Federal Bureau of Investigation (FBI), que são apresentadas a seguir.

Para o Departamento de Estado “o terrorismo consiste no uso premeditado da violência executada contra alvos não-combatentes por agentes subnacionais ou

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clandestinos, habitualmente destinada a influenciar uma audiência”. Esta definição visa alargar o objetivo dos terroristas a militares que não estejam em combate, tal como aconteceu com o ataque ao USS Cole, no Yemen, em 2000 (FONSECA JÚNIOR, 2009).

Para o Departamento de Defesa Americano o terrorismo é o uso calculado da violência ou da ameaça da violência contra indivíduos ou propriedades, para infundir o medo, com a intenção de intimidar governos ou sociedades com o fim de perseguir objetivos que geralmente são políticos, religiosos ou ideológicos. Já para o FBI “terrorismo é o uso ilegal da força ou violência contra pessoas ou para intimidar ou coagir um governo, população civil, com a intenção de alcançar objetivos políticos ou sociais”. Esta definição, muito semelhante à anterior, introduz uma nova variante dos fins terroristas, que são os objetivos sociais (FONSECA JÚNIOR, 2009).

O Grupo de Trabalho (GT) constituído pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CREDEN), do Conselho de Governo (organismo do Poder Executivo), composta por integrantes de vários ministérios civis e militares, – que tem a atribuição de analisar, estudar e propor soluções de governo para temas de segurança –, elaborou três definições de terrorismo, que ainda estão em estudo. A definição genérica elaborada pelo GT da CREDEN (2007) classifica como terrorismo “[...] todo ato com motivação política ou religiosa, que emprega força ou violência física ou psicológica, para infundir terror, intimidando ou coagindo as instituições nacionais, a população ou um segmento da sociedade.” (BRASIL, 2002 apud REVISTA BRASILEIRA DE INTELIGÊNCIA, 2007, p. 57).

A Agência Brasileira de Inteligência Nacional (ABIN) segue a definição de terrorismo específica elaborada pela CREDEN que considera:

Ato de devastar, saquear, explodir bombas, sequestrar, incendiar, depredar ou praticar atentado pessoal ou sabotagem, causando perigo efetivo ou dano a pessoas ou bens, por indivíduos ou grupos, com emprego da força ou violência, física ou psicológica, por motivo de facciosismo político, religioso, étnico/racial ou ideológico, para infundir terror com o propósito de intimidar ou coagir um governo, a população civil ou um segmento da sociedade, a fim de alcançar objetivos políticos ou sociais. (REVISTA BRASILEIRA DE INTELIGÊNCIA,2007, p.14).

Esse conceito abrange todas as formas e tipos de terrorismo que adotamos como referência para este trabalho.

5 VIGILÂNCIA DE DADOS

A ameaça terrorista está presente tanto no mundo virtual quanto no físico. Foi a partir dos atentados de 2001 nos Estados Unidos contra as Torres Gêmeas – World

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Trade Center -, que o mundo passou a se preocupar mais com a vigilância e a coleta de informações de seus cidadãos em diferentes ambientes. Hoje, qualquer pessoa, ao utilizar ou realizar uma ação no meio online, pode ser analisada, armazenada e rastreada. Dessa forma, qualquer rastro digital (BRUNO, 2013) é possível de ser identificado.

Assim, sob tal perspectiva, é possível esboçar a partir de David Lyon (2007), um conceito de surveillance (vigilância). Nesse caso, a vigilância toma outra conotação. Ela é a atenção concentrada, sistematizada e rotineira aos dados pessoais cujo objetivo é influenciar, gerenciar, proteger ou dirigir. Em explicação, concentrada, pois seus alvos finais são, via de regra, os indivíduos. Sistematizada, uma vez que essa atenção não é aleatória ou ocasional: é deliberada e depende de determinados protocolos e técnicas. Rotineira, porque “normalizada”, ou seja, compreendida como parte inescapável do cotidiano em todas as sociedades atuais, uma vez que dependem da associação crescente entre a tecnologia da informação e a administração burocrática.

Dessa forma, a surveillance é um fenômeno onipresente nas sociedades contemporâneas, podendo ser considerada “[...] one of those major social processes that actually constitute modernity as such” (LYON, 2007, p. 14).

Lemos (2009), ao fazer referências à tese de vigilância de Foucault, afirma que a nova vigilância da sociedade de controle está em todos os lugares e, ao mesmo tempo, em lugar nenhum.

Diferente dos “internatos”, os atuais meios de vigilância não se dão mais em espaços fechados, mas nos “controlatos” dos perfis da Internet, nos bancos de dados em redes sociais interconectadas, nos deslocamentos com o telefone celular monitorando o “roming” do usuário, na localização por GPS, nos rastros deixados pelo uso de cartões eletrônicos, nos smartcards dos transportes públicos, nos sinais emitidos e captados por redes bluetooth, nas etiquetas de radiofreqüência que acompanham produtos e compradores... Certamente tudo está menos visível e mais difuso, tornando essa invisibilidade vigilante mais performativa e o controle dos movimentos mais efetivo. (LEMOS, 2009, p. 630).

Para esse autor, não se trata mais de fechar e imobilizar para vigiar, mas de deixar fluir o movimento, monitorando, controlando e vigiando pessoas, objetos e informação para prever consequências e exercer o domínio sobre as “modulações”.

Nesta configuração, o Big data, nas palavras das pesquisadoras Danah Boyd e Kate Crawford (2012) no artigo Critical Questions for Big Data, emergiu como um sistema de conhecimento que está mudando os objetos de estudo, além de deter

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o poder de informar como nós entendemos as redes de trabalho e comunidades humanas (BOYD; CRAWFORD, 2012).

Turion (2013) também pontua que ferramentas Big data podem ser úteis no apontamento, com grande margem de segurança, de situações de prevenção e solução de crimes, os quais possivelmente não ocorreriam a partir de um processo amostral, em que estaria suscetível a não descoberta de um ou outro detalhe importante ou esclarecedor.

Mike Rogers, diretor da National Security Agency (NSA) (em português: Agência de Segurança Nacional) norte-americana defende amplamente o uso do Big data no monitoramento de informações. Segundo Rogers, sem esse tipo de dado, o trabalho para o combate a ataques terroristas seria bem árduo, e a análise de tais informações é fundamental para evitar ataques de qualquer ordem (HEKIMA, 2015).

Errol S. Van Engelen (2015) aponta em seu artigo Big Data Will Effectively Fight Terrorism in The Free World que será possível, no futuro, prever com confiança atividades terroristas combinando observações de fontes como redes sociais, pesquisas de Internet, hábitos de compra e localização de smartphone.

Destaca-se, assim, que a vigilância de dados (CLARKE, 1994) ou de rastros pessoais (BRUNO, 2012) na internet é uma via privilegiada de conhecimento, classificação e intervenção sobre indivíduos e grupos.

6 METODOLOGIA

Para Gil (2008) qualquer classificação de pesquisa deve seguir algum critério e a partir daí serão norteados todos os objetivos a serem alcançados numa investigação científica. Dessa forma, a pesquisa empreendida neste estudo é exploratória e qualitativa (GIL, 2008). A pesquisa exploratória tem como objetivo levar o pesquisador a conhecer mais sobre uma temática que ainda é pouco conhecida tanto no campo acadêmico quanto prático. Nesse trabalho, o nosso olhar está direcionado para o Big data na área de segurança nacional.

Como bem observa Gil (2008), ao final de uma pesquisa exploratória, o pesquisador conhecerá mais sobre aquele assunto, e estará apto a construir hipóteses. A pesquisa exploratória depende da intuição do explorador (neste caso, da intuição do pesquisador). Como qualquer pesquisa, ela depende também de uma pesquisa bibliográfica, pois mesmo que existam poucas referências sobre o assunto pesquisado, nenhuma pesquisa hoje começa totalmente do zero. Haverá sempre alguma obra, ou entrevista com pessoas que tiveram experiências práticas com problemas semelhantes ou análise de exemplos análogos que podem estimular a compreensão.

Assim, para o desenvolvimento deste trabalho foram feitas pesquisas em livros, artigos científicos, sites especializados e reportagens jornalísticas sobre a

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temática. A seguir, destacamos a parte empírica do tema, com discussões sobre como o uso do Big data está sendo empregado por alguns países na inteligência e na segurança nacional em relação ao terrorismo.

7 ANÁLISE DOS RESULTADOS

Como já discutido anteriormente, com o Big data, analisar, armazenar, processar e decodificar milhares de dados online não só se tornou simples, como também é uma das principais linhas investigativas para a descoberta de grupos terroristas ou possíveis fontes de informação relevantes. Esta parte do trabalho tem por objetivo apresentar empiricamente como alguns países estão usando o Big data e a tecnologia na prevenção e combate ao terrorismo, bem como como tem sido tomados os cuidados em relação a possíveis ataques terroristas, principalmente em grandes eventos mundiais como as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro.

O terrorismo não está somente nas ruas, mas nas redes sociais e para combater isso, a NSA (Agência Nacional de Segurança) norte-americana utiliza, principalmente o Twitter e o Facebook para descobrir quem são e onde estão os maiores terroristas ao redor do mundo. Os terroristas costumam usar redes sociais para recrutar interessados e para divulgar suas mensagens (HEKIMA, 2015). Segundo o Telegraph foram publicados quase 40 mil tweets (comunicação em rede social) de apoio ao Estado Islâmico no dia em que o grupo terrorista dominou a cidade iraquiana de Mosul, em 2014. Com o mesmo propósito, existe um projeto financiado pelo Departamento de Defesa dos EUA em que cientistas da computação na Universidade do Estado do Arizona estão tentando descobrir como o Estado Islâmico é capaz de recrutar terrorista por mídias sociais, para recomendar as melhores maneiras de impedir que isso aconteça. Para isso, eles usam inteligência artificial para entender o foco dos terroristas em determinados grupos étnicos.

A Statistical Analysis System (SAS) tem um grupo de especialistas em segurança nacional que vasculha mídias sociais à procura de informações específicas como: há terroristas se comunicando com o público? O que eles estão comunicando? Ela também compila indicadores para saber se a mensagem dos terroristas é eficaz e se as pessoas estão se alinhando com esses grupos. Os rastros deixados pelos usuários de redes sociais são classificados e posteriormente servem de indicativos de comportamento e tendências. Assim, com o uso de Big data é possível entender séries de repetição comportamental e aumentar as chances de previsão de ataques.

Por exemplo, o sistema Dfuze, da Inglaterra, é utilizado pelo governo britânico justamente para analisar ataques já ocorridos e descobrir um padrão para ações executadas por terroristas. Assim, os usuários do sistema

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verificam dados que vão de imagens a documentos relacionados aos ataques para encontrar tendências e evitar novas tragédias. Vale ressaltar que o Dfuze permite o fácil compartilhamento de dados entre seus analistas e não é uma ferramenta exclusiva da Scotland Yard, sendo usado em diversos países como Austrália, Hungria e Singapura.

Figura 2 – Dfuze

Fonte:BARRIE, 2014.

O que o Dfuze pode fazer? É um software que permite aos usuários compartilhar imagens de bombas e detalhes do dispositivo. Dados do suspeito, tais como datas de nascimento, nomes e endereços podem ser inseridos, bem como informações sobre a suspeita de atividade criminosa e vínculos organizacionais. Além disso, inclui entrevistas com suspeitos, testemunhas e vítimas, bem como informações de incidentes e relatórios de mídia.

Os dados podem ser adicionados, armazenados de forma segura, compartilhados, ligados, pesquisados e recuperados. Para ajudar a identificar e rastrear fabricantes de bombas, a tecnologia acelera a cooperação entre investigadores de incidentes e aplicação da lei em todo o mundo e em centros de dados-bomba internacionais. O uso de bancos de dados como Dfuze pode ajudar os pesquisadores a avançar em casos de explosivos por encontrar materiais semelhantes, técnicas e outros dados de fundo. Ele pode ser usado em diferentes plataformas, incluindo uma interface Web, um aplicativo móvel, e um banco de dados de código aberto chamado Relatório Desk (BARRIE, 2014).

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Outro ponto interessante do uso do Dfuze é que o acesso é móvel e em tempo real. Isto significa que os operadores de campo podem acessar informações vitais a caminho de um incidente. Quando eles estão em cena, os usuários podem fazer upload de dados cruciais, incluindo várias imagens, áudio e vídeos da cena e enviá-lo de volta ao comando instantaneamente.

Command também pode monitorar a localização de incidentes, posições da unidade e operadores de conexão para o servidor seguro, bem como visualizar exatamente onde as imagens foram capturadas (BARRIE, 2014).

Dfuze Mobile pode excluir automaticamente os dados da cena a partir do dispositivo depois que ele é carregado, garantindo dados seguros (BARRIE, 2014).

O Bulk Phone Meta data Collection Program da NSA é uma das ferramentas do governo americano para investigação por meio de dados telefônicos. Esse sistema de monitoramento foi trazido a público por Edward Snowden, analista de sistemas da CIA que ficou famoso mundialmente por divulgar a coleta e uso indiscriminado dos dados por parte do governo de Obama. O programa consegue gravar conversas telefônicas de qualquer pessoa no mundo para investigações secretas do país.

A tecnologia de armazenamento, de acordo com o texto Big Data Helping Terrorist Activities, Attacks, de Yasmin Tadjdeh (2015), está atualmente sendo empregada em 40 países, incluindo Austrália, Singapura, Canadá, Países Baixos e Hungria, cada um deles contendo sua própria base de dados e a habilidade de trocar e criptografar informações. Segundo informações do site em Israel, um dos líderes do órgão de segurança, Ronen Horowitz, já afirmou que o Big data e a análise de dados são amplamente utilizados pelos militares e pelas agências de inteligência, são focadas em rastrear, sendo os principais alvos chefes do grupo palestino Hamas. Nesse caso, o fluxo de dados desestruturados na forma de vídeos, imagens, textos e discursos foi utilizado para matar inimigos e muito foi investido em tecnologia de Big data para utilizar informações e convertê-las em análises mais precisas (BARRIE, 2014).

No Brasil, a Agência Nacional de inteligência (ABIN) depois de identificar as ameaças feitas pelo Estado Islâmico em um perfil do Twitter de Maxime Hauchard - terrorista francês, integrante do EI - de que o país era o próximo alvo, intensificou suas ações de combate ao terrorismo nos Jogos Olímpicos de Agosto de 2016.

A frase “Brasil, vocês são nosso próximo alvo. Podemos atacar esse país de m...” foi postada uma semana depois dos atentados coordenados na França em novembro de 2015, que deixaram 129 mortos e dezenas de feridos. Segundo o diretor de Contraterrorismo da ABIN, Luiz Alberto Sallaberry, em depoimento à imprensa brasileira, “[...] a partir do momento da postagem, houve maior intensidade nos discursos de agressividade dos autoproclamados seguidores desse grupo terrorista no Brasil.” (WERNECK; HEMERSON, 2015, não paginado). A partir

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disso, o Estado Islâmico criou um canal de propaganda em língua portuguesa dentro de um aplicativo na internet, que funciona como uma agência de notícias e veicula, todos os dias, fotos, vídeos e textos com informações das frentes de combate da organização. Nesse canal é feita a apologia da crueldade e alia as já conhecidas práticas do grupo à retórica religiosa radical. A propaganda apela à conversão. É um chamamento a novos soldados. Desde que esse canal foi criado, vem sendo monitorado pelos agentes brasileiros de inteligência com a ajuda de outras agências internacionais.

Segundo a reportagem da Revista Veja (2016), o maior desafio é identificar os responsáveis pela estratégia de recrutamento de brasileiros. Em parceria com a revista portuguesa Sábado, Veja descobriu que um dos alvos prioritários da vigilância, neste momento, é um militante do Estado Islâmico que se identifica nas redes de propaganda do grupo como Ismail Abdul Jabbar Al-Brazili – ou, simplesmente, “O Brasileiro”. É ele um dos responsáveis, por exemplo, por abastecer com textos em português o canal de propaganda recém-criado. Há indicações de que Al-Brazili não tem o Brasil apenas no nome de guerra – de acordo com informações oficiais, ele seria, de fato, um combatente brasileiro do EI.

No que se refere ao acompanhamento dos Jogos Olímpicos, todas as forças e o governo estão envolvidos. Também entrou em atividade no Rio um CISE (Centro de Inteligência dos Serviços Estrangeiros) que, segundo a ABIN, reúne representantes de cerca de 100 serviços de inteligência de outros países. Esses centros produzirão ferramenta [de informação online], documentos que são chamados de síntese de inteligência, uma pela manhã e outra à tarde, descrevendo como foi o andamento dos jogos no dia. Desde o ano passado 40 suspeitos de terrorismo estão sendo monitorados pela inteligência brasileira (VALENTE, 2016).

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da discussão apresentada, observamos que Big data vem se tornando protagonista no contexto atual da explosão informacional (CASTELLS, 1999) e seu uso é essencial às atividades de defesa nacional. Vimos como coletar e analisar informações da internet e de outros ambientes, como das redes sociais, é importante para a inteligência no que se refere às estratégias de defesa contra os crimes. Apontamos também os desafios e os impactos dessas ações frente ao monitoramento e usos dos dados pessoais no combate ao terrorismo.

Diante de um cenário ainda de muitos desafios e aprendizado, observamos que as principais áreas nas quais o antiterrorismo precisa focar são o compartilhamento de dados de forma responsável, adotando as tecnologias certas para termos dados analíticos preditivos, em tempo real e utilizando destas informações para obter insights relevantes para a execução de ações, a partir do grande volume de dados produzidos.

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Assim, a aplicação destas medidas garantirá que as autoridades acompanhem de perto o movimento dos terroristas tanto online quanto off-line. Mesmo não sendo a discussão principal deste trabalho, vale destacar que essa forma de atuação da investigação de defesa e segurança nacional causará um forte impacto nos direitos democráticos na sociedade e que merecem ser mais bem discutidas, pois indivíduos sem ligação ao crime podem simplesmente combinar com padrões por coincidência. E esse é um dos grandes desafios dos especialistas em tecnologia e informação: saber identificar seus objetos de análises com muita precisão.

Por outro lado, com a necessidade de criação de mais políticas de compartilhamento de dados essenciais, aumenta também a quantidade de informação trocada colaborativamente entre países. A esperança é que o uso da tecnologia insira mais inteligência nos processos investigativos e torne o medo dos indivíduos dos ataques terroristas cada vez menor.

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Recebido em: 27/07/2016 Aceito em: 20/08/2016

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Figura 1 – Os cinco Vs
Figura 2 – Dfuze

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