A CONSTRUÇÃO DAS MASCULINIDADES: OS DISCURSOS E AS IMAGENS NA EDUCAÇÃO FÍSICA INFANTIL
Prof. Dr. Erik Giuseppe B. Pereira Doutor em Ciência do Movimento - UAA/PY
Prof. Dr. José Fernandes Filho Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ
Resumo
As relações de gênero no espaço escolar podem reproduzir estereótipos, preconceitos, resistências e até mesmo novos valores e atitudes que enaltecem visões dominantes sobre as relações entre homens e mulheres, presentes em nossa sociedade. Este estudo tem como objetivo analisar as percepções e práticas da masculinidade na Educação Física Infantil. Com base nas leituras e resultados obtidos, pretendemos, com este estudo, apresentar um contributo no meio acadêmico e assim, iniciar uma discussão ao alcance de propostas centradas na construção social da masculinidade na esfera da Educação Física Infantil. A pesquisa é de abordagem qualitativa, onde os atores sociais são aqueles que representam com efetividade a comunidade da Educação Infantil, a saber: uma turma de vinte e cinco alunos de ambos os sexos, quatro responsáveis e oito professores regentes de classe, dentre esses últimos uma professora de educação física. A metodologia foi de cunho etnográfico e os instrumentos consistiram de observação, diário de campo e entrevistas cujos dados reportaram-se à Análise de Discurso e Análise de Imagens. Os resultados permitem inferir que deve haver maior preocupação de estudiosos e professores com as relações de gênero nas atividades escolares, especialmente no espaço aberto da Educação Física, pois este propicia a liberdade de ação dos(as) alunos(as) e a conseqüente expressão de seu raciocínio lógico-crítico, pelo entendimento e exercício das regras e pela vivência plena de sua corporeidade e motricidade.
Palavras-chaves: Educação Física; Infância; masculinidades; Análise de discurso e de imagem.
1- ABRINDO AS CORTINAS...
O propósito principal do tema supracitado foi analisar as percepções e práticas das masculinidades na Educação Física Infantil. Com base nas leituras e resultados obtidos, pretendemos, com este estudo, apresentar um contributo no meio acadêmico e assim, iniciar uma discussão ao alcance de propostas centradas na construção social da masculinidade na esfera da Educação Física Infantil.
A literatura aponta que os estudos de gênero têm se mostrado como um campo multidisciplinar, com uma pluralidade de influências (SAFFIOTTI, 1987; SCOTT, 1995; LOURO, 1995; 1997; CONNELL, 1995; ALMEIDA, 1996; ALMEIDA, 2000; ROMERO, 2003 e 2007; PEREIRA, 2002; PEREIRA e ROMERO, 2004, entre outros). Na tentativa de reconstruir experiências
excluídas, várias áreas do saber têm socializado o conhecimento produzido tendo em conta o gênero como categoria de análise.
Na Educação Física e nos esportes, os estudos de gênero ainda estão em fase de construção, conforme revelaram os resultados de pesquisa com o propósito de mapear a produção de gênero no âmbito da Motricidade Humana (ROMERO e et. al., 2003 e ROMERO, 2007).
Nesse sentido, ao compreender o gênero como categoria constituída social e historicamente em meio às relações de poder, estamos assumindo o caráter plural das masculinidades e feminilidades. Além disso, esta concepção de gênero engendrada em relações de poder permite que possamos ampliar os objetos de análise para problematizar como o aspecto social é generificado. Conseqüentemente, faz-se um movimento de análise que foca também os processos que debatem sobre gênero, os saberes que constituem estes espaços sociais e educativos, tais como: a família, a escola e a infância e; como estas concepções se articulam de forma a serem tomadas como ‘verdades’ (PEREIRA, 2002 e PEREIRA e ROMERO, 2004).
O conceito de infância hoje decorre de uma forma de organização da sociedade que supõe proteção, manutenção física, suporte afetivo por parte da família e ações socializadoras das demais instituições na inserção social dos pequenos.
Quem já deixou de ouvir frases como: “homem não chora!”, “menino não brinca de roda!” ou ainda “homem não dança!”1! Nesses casos, é fundamental que se questione o modelo de eficiência que tem servido como parâmetro de referência às atividades ditas femininas ou masculinas. A partir do que foi exposto, a presente proposta de investigação foi procurar resposta(s) para a seguinte indagação: Como se configuram as percepções e práticas da masculinidade nas aulas de Educação Física Infantil?
2- TRILHA METODOLÓGICA
1
Todas essas expressões são natural e comumente utilizadas nas aulas de educação física no que concerne à construção das masculinidades.
O estudo se caracterizou por ser de caráter etnográfico e de natureza qualitativa. Os atores sociais foram aqueles que representam com efetividade a Educação Infantil, a saber: os alunos de ambos os sexos, os seus responsáveis, seus professores regentes de classe e os professores de Educação Física. De acordo com o status do ator social, o instrumento empregado foi assim discriminado: 1- para os professores e os responsáveis pelas crianças: entrevista semi-estruturada; 2- para as crianças, foi utilizado a observação participativa e o diário de campo (HAGUETTE, 1987). Foram também feitas filmagens com a decapturação e transcrição das mesmas (JOLY, 1996).
3- ALGUMAS CENAS E FALAS DOS ATORES
CENÁRIO 1 – A OUSADIA FEMININA VERSUS A AGRESSÃO MASCULINA
DESCRIÇÃO da cena 1: Uma menina, no espaço masculino, tudo indica que ousa pegar um brinquedo dos meninos, sob a vigilância permanente de meninos.
AS FALAS
À pergunta sobre quais as brincadeiras de menina uma das professoras respondentes falou: Professora Vera: “Ah brincadeira de menina é mais casinha, brincar de mãe, brincar de escola, telefonista, gostam de telefonar, conversar com amiga, brincam de mãe, a mãe conversando com a amiga, eles dramatizam isso direitinho”.
Questionamos a uma das mães se o filho tinha amigos ou parentes do sexo feminino que brincasse com ele e a mãe prontamente respondeu: Mãe
Julia : “Tem a Stefanny. Ela brinca de carrinho, ele nunca gosta de brincar de
boneca, ela tem de brincar de carrinho, com a bola. Ela acaba por ser a única menina, já sobressai o machismo dele.”
DESCRIÇÃO da cena 2- No segundo momento, a mesma menina procura escamotear e, disfarçadamente, sai do espaço, sendo observada e, aparentemente ameaçada pelos atentos meninos.
Quando adentramos no assunto e indagamos se ao brincarem com as brincadeiras ou os jogos das meninas, se surgiam comentários em relação aos meninos por essa prática, a mesma professora completou: “Ás vezes, às vezes falam: ‘Ah tia ! Vai virar mulher, ó. Tá brincando de boneca ... Ó tia! Fulano tá com a boneca, vai virar mulher, vai virar boiola.” Uma das mães, falando sobre seu filho, a nosso pedido, mencionou que o menino gostava de brincar, entre outras coisas, com bonecos. Tivemos a curiosidade de saber que tipo de boneco, quando a mesma esclareceu que: Mãe Julia: “Boneco de luta. São os que ele mais gosta. Carrinho, agora caminhão, ele tem uma paixão muito grande por isso”.
CENÁRIO 2 - UNIVERSOS FEMINILIZADOS VERSUS UNIVERSOS MASCULINIZADOS
DESCRIÇÃO da cena 1: Quando a dinâmica começa, logo são construídos universos diferenciados: o feminino e o masculino.
AS FALAS
Sobre os comportamentos de meninos e meninas frente aos brinquedos considerados apropriados ao seu sexo, a opinião das professoras credita à cultura, como vemos na fala a seguir:
Mãe Maria Helena: “Brincadeira de menino é de menino, brincadeira de
menina é de menina, senão acaba virando (...)”. No entanto seu ponto de vista não é compartilhado com outra mãe. Ela afirma não se importar com a escolha dos brinquedos de seu filho, conforme podemos observar seu depoimento: Mãe
Julia: “(...) imagina menino brincar de carrinho vai ser homem, se tiver que ser
gay vai ser! Então não tem esse negócio! Lógico que menino tem que brincar de carrinho, mas ele não tem isso, se ele brincar de boneca eu vou bater nele por isso? Não.”
DESCRIÇÃO da cena 2: Na imagem percebemos, com exatidão, a divisão de espaços sociais: meninos de um lado e meninas de outro lado.
Professora Vera: “Exatamente, é o que eu te falei também, já vem da família,
a raiz; a família tem medo e já começa a direcionar o menino para as atividades agressivas.” Mãe Julia: “A avó dele fala: ‘Ah, não pode brincar de boneca porque um vizinho também que ele brinca de boneca, viu Breno se brincar(sic) de boneca vai virar gay.(...)”
CENÁRIO 3- BRINQUEDOS FEMINILIZADOS VERSUS BRINQUEDOS MASCULINIZADOS
DESCRIÇÃO da cena 1: Em primeiro plano vemos meninos brincando com máscara de super-herói. Enquanto, no fundo da imagem, as meninas se divertem com as “panelinhas” e bonecas.
AS FALAS
Professora Vera: “Na maioria das vezes eles diferenciam brincadeiras,
brincadeiras de menino e brincadeiras de menino. “Ah tia, eu to brincando de super-herói e não é para brincar de super herói, é brincadeira de menino, ela quer brigar, sai que você é menina, vai para lá com a casinha, com a boneca. Sobre a possibilidade de seu filho brincar com as meninas de boneca uma das mães revelou sua discordância: Mãe Maria Helena: “Ah não! Não queria que ele brincasse disso não. Pode até brincar de comidinha, que é normal; (por)que mais tarde ele pode fazer comida. Meu marido faz comida faz comida, aí não tem problema algum. Agora...ele brincar de Barbie??? Nada a ver!”
CENÁRIO 4 - A FAMÍLIA SEXUADA
Sobre a origem dos comportamentos e atitude sexuados as docentes e os responsáveis pelas crianças da pesquisa responsabilizam a família. No seu entendimento, e nesse espaço que a hierarquia de gênero se estabelece.
Professora Vera: “(...) eu to trabalhando primavera, aí trabalho primavera, vou
desenhar flores! Tem pai que reclama: ‘Flor não é para você fazer não, ah vai ficar na escola fazendo florzinha!’, existe este tipo de atitude de pai com medo que isso desvirtue.” Professora Simone: “. A família também reforça isso, claro! Você é homem não vai brincar de boneca não vai brincar de casinha; você é menina não vai jogar futebol. Os meninos não podem chorar tem que ser fortes.” Para nossa curiosidade de saber o porquê dessa situação a mãe
assim se justifica: Mãe Julia: “[...] mas o pai dele: ‘que isso garoto, tá brincando de panelinha, virou viado!’ O pai dele é muito machista, eu não tenho esse tipo de preconceito, eu acho que se você for sapatona vai ser sapatona, independente se você vai brincar de bola de gude ou de boneca e se ele tiver que virar gay brincando de panelinha ou de boneco (...)”.
ABAIXANDO AS CORTINAS
Este estudo destacou que os dados evidenciam a persistência determinante de normas, crenças, tabus, estereótipos e valores socioculturais que interferem na construção do corpo masculino. A pesquisa confirma que aspectos relacionados às “arquiteturas” das relações de gênero têm fundos socioculturais e históricas (SCOTT, 1995). Destarte, respondendo à questão norteadora da presente investigação somos levados a inferir que a Educação Física, ao que tudo indica, vem atuando como legitimadora e reprodutora de uma ideologia hegemônica, sexista, patriarcal e machista, sedimentando o “status quo”. Presenciamos, ainda, a influência do paradigma biológico, do sexismo e de estereótipos sexistas presentes nas imagens e nos discursos dos entrevistados, o que contribui no conjunto de mecanismos que auxiliam e reforçam a construção sociocultural e histórica dos corpos; no caso presente – o corpo masculino. A discriminação e o preconceito sexual, portanto, constituiu a ênfase maior em nossas análises. No que tange à percepção dos responsáveis e das professoras entrevistadas em relação à discriminação de atividades físicas segundo o sexo deduzimos que, para os entrevistados, existem alguns preconceitos concernentes à prática de atividades físicas ditas femininas e que sejam freqüentadas pelos homens. Isso nos leva a crer que existe uma educação diferenciada que os indivíduos do sexo masculino recebem e levam à valorização de atitudes que condizem com o comportamento masculino esperado pela sociedade.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Maria Isabel. Masculino e feminino: tensão insolúvel, sociedade brasileira e organização da subjetividade. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
ALMEIDA, Marlíse. Dimensões da masculinidade no Brasil. Cadernos do
núcleo transdisciplinar de estudos de gênero- NUTEG. Niterói/RJ: EDUFF,
CONNELL. Robert. Políticas da masculinidade. In: Educação e Realidade. Porto Alegre, vol. 20, n.º2, p. 184-206, jul./dez, 1995.
HAGUETTE, Teresa. Metodologia qualitativa na sociologia. Petropólis: Vozes, 1987.
JOLY, Martine. Introdução à análise da imagem. Campinas: Papirus, 1996. LOURO, Guacira. Produzindo sujeitos masculinos e cristãos. In: VEIGA-NETO (Org.): Crítica pós-estruturalista a educação. Porto Alegre: Sulina, 1995. p. 83-107.
______ Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista.
Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1997.
PEREIRA, E. G. B. A construção sociocultural do corpo masculino nos
discursos de graduandos em educação física. Rio de Janeiro, 2002. 97 f.
Dissertação (Mestrado em Ciência da Motricidade Humana). Universidade Castelo Branco.
PEREIRA Erik G. B. e ROMERO, Elaine. “... para ser macho não pode negar fogo, tem que ser viril. Então não tem nada a ver com a dança”. Revista da
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ROMERO, Elaine; NEVES, Carlos G.; MARTINS, Simone C.; BRAZ, Irles M. A.; MOTTA, Alexandre F. A produção acadêmica e o estado da arte de gênero na educação física. In: II Conferência do Imaginário e das Representações Sociais em Educação Física, Esportes e Lazer. Rio de Janeiro. Anais. Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, 2003. p. 88-94.
ROMERO, Elaine. Inventory of Brazilian Physical Education Gender Studies.
The FIEP Bulletin, Foz do Iguaçu, v. 77, n. 2, p. 658-661, 2007.
SAFFIOTI, Heleieth. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987.
SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e