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Boletim da Educação – Número 12 Edição Especial – Dezembro 2014 II Encontro Nacional de Educadoras e Educadores da Reforma Agrária

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Boletim da Educação – Número 12

Edição Especial – Dezembro 2014

II Encontro Nacional de

Educadoras e Educadores da Reforma Agrária

II ENERA

Textos para estudo e debate

Lutar, Construir Reforma Agrária Popular!

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Copyright © 2014, MST

Diagramação e capa: Zap Design

Imagem da contra capa: Cartaz do I ENERA Impressão: Cromosete

1ª edição: dezembro de 2014

SECRETARIA NACIONAL DO MST Al. Barão de Limeira, 1232

Campos Elíseos

01202-002 - São Paulo - SP Telefone: (11) 2131-0850 www.mst.org.br

PEDIDOS E DISTRIBUIÇÃO: Editora Expressão Popular Ltda Rua Abolição, 201 – Bela Vista CEP 01319-010 – São Paulo – SP

Tel: (11) 3522-7516 / 4063-4189 / 3105-9500 editora.expressaopopular.com.br

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Apresentação ...5

PARTE 1 – DOCUMENTOS PREPARATÓRIOS II Encontro Nacional de Educadores e Educadoras da Reforma Agrária (II Enera) ...7

Coordenação do Setor de Educação, novembro 2014 – MST Educação 30 anos: balanço projetivo ...13

Manifesto das Educadoras e dos Educadores da Reforma Agrária ao Povo Brasileiro (1997) ...19

PARTE 2 – TEXTOS POR EIXOS TEMÁTICOS Programa Agrário do MST VI Congresso Nacional do MST – Fevereiro de 2014 ...21

MST Compromissos 2014 ...47

Plataforma da Via Campesina para a Agricultura ...49

Educação básica no Brasil: entre o direito social e subjetivo e o negócio ...53

Gaudêncio Frigotto Os empresários e a política educacional: como o proclamado direito à educação de qualidade é negado na prática pelos reformadores empresariais ...61

Luiz Carlos de Freitas Organização, estratégia política e o Plano Nacional de Educação ...71

Roberto Leher Forum Nacional de Educação do Campo ...91

MST e Educação ...95

O MST e a escola: concepção de educação e matriz formativa ...101

Desafios de Formação da Juventude ...115

II Seminário Nacional da Infância Sem Terra ...123

Seminário Nacional de Educação de Jovens e Adultos da Reforma Agrária ...131

A Educação no MST: desafios e diretrizes para superá-los ...133

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APRESENTAÇÃO

Em fevereiro de 2014 realizamos o VI Congresso Nacional do MST celebrando os 30 anos do Mo-vimento e atualizando nosso Programa Agrário. Foi um momento de balanço político e organizativo, de luta e de olhar para frente, analisando nossos desafios no contexto mais amplo das lutas da classe trabalhadora. Reafirmamos a luta pela terra, pela reforma agrária e pelo socialismo, reorganizando nossa estratégia em torno da “reforma agrária popular”, a partir da análise do cenário de lutas e de nossas possibilidades de atuação.

Foi no bojo dos desafios postos por esse novo ciclo de lutas e de construção que o MST tomou a decisão de fazer o II Encontro Nacional de Educadoras e Educadores da Reforma Agrária (II Enera) em setembro de 2015 e, a propósito, continuar e ampliar o trabalho de base iniciado em preparação ao VI Congresso.

Pretendemos que o II Enera seja um encontro de caráter político, formativo, organizativo, mobi-lizador e celebrativo. Um dos seus grandes objetivos é ampliar o número de educadoras e educadores que compreendam o momento atual da questão agrária e passem a contribuir na luta e na construção da reforma agrária popular, discutindo o papel da educação nesse processo. Outro grande objetivo é organizar coletivamente a denúncia e as mobilizações contra o fechamento das escolas do campo, como uma consequência direta do avanço do agronegócio e da lógica mercantil protagonizada pelo “Movimento Compromisso Todos pela Educação”, dos empresários, que está pautando a educação em nosso país. Queremos discutir mobilizações conjuntas com outras organizações de trabalhadores para enfrentar essa avalanche do capital sobre a agricultura e a educação. Queremos também valorizar e celebrar nosso percurso de 30 anos e reafirmar a Pedagogia do Movimento em nosso plano de futuro.

Esta edição especial do Boletim da Educação traz para uso do conjunto do MST uma coletânea de textos de orientação e de apoio a estudos e debates para o processo de preparação do II Enera que deverá acontecer entre fevereiro e agosto de 2015. O Boletim está organizado em duas partes. Na primeira parte socializamos documentos já produzidos de planejamento e orientação à preparação do II Enera nos Estados, em cada assentamento, acampamento e nas escolas. Junto, colocamos o Mani-festo produzido no I Enera, realizado em 1997, retomando a memória de discussões e lutas do nosso percurso, como inspiração para as reflexões deste novo momento.

Na segunda parte selecionamos alguns textos relacionados aos eixos de estudo e debate que devem compor o II Enera, e que também integrarão as atividades de preparação nos Estados. Alguns textos são documentos ou produções internas ao MST e outros foram cedidos por autores amigos do Movi-mento para nos ajudar na tarefa de analisar a realidade sobre a qual trabalhamos. A seleção feita não esgota o tratamento dos temas, mas pode ser um ponto de partida ou uma contribuição para nossas discussões.

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O desafio de nos prepararmos coletivamente para este encontro é também força para prosseguir nossa jornada. Bom estudo e bons debates a todas e todos!

Rumo ao II Enera!

Lutar, Construir Reforma Agrária Popular!

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II ENCONTRO NACIONAL DE

EDUCADORES E EDUCADORAS DA

REFORMA AGRÁRIA (II ENERA) – PLANO

GERAL

Coordenação do Setor de Educação, novembro 2014

Memória

O I Encontro Nacional de Educadores e Educadoras da Reforma Agrária (Enera) aconteceu em Bra-sília/DF, nas dependências da Universidade de Brasília, de 28 a 31 de julho de 1997, com a participação de 534 delegados, de 22 estados e 46 convidados de universidades ou outras instituições educacionais parceiras, além de representação do MAB e das pastorais sociais da CNBB. Os delegados eram das várias frentes de atuação do setor de educação, com predomínio de alfabetizadores de jovens e adultos.

O encontro teve o apoio principal do Unicef e da UnB (com presença e algum apoio da Unesco), mas com autonomia do MST no planejamento e na condução do encontro. Reforma agrária, projeto popular para o Brasil, papel da educação na construção do projeto, formação de educadores, nova LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (que tinha sido aprovada em 1996) foram os temas de estudo e debate no encontro. Os grupos de trabalho que se reuniram nas tardes foram os seguintes: Escolas de 1ª a 4ª séries; Escolas de 5ª a 8ª séries; Educação de Jovens e Adultos; Educação Infantil.

A homenagem principal foi ao educador Paulo Freire, que morreu meses antes, no dia 2 de maio de 1997: um vídeo gravado com ele no final do ano anterior compôs a mesa de abertura do I Enera. Os parti-cipantes aprovaram durante o encontro o “Manifesto das Educadoras e dos Educadores da Reforma Agrá-ria ao povo brasileiro”, cuja redação primeira foi feita no processo de preparação do encontro. Também elaboraram e aprovaram algumas “resoluções finais” (tarefas). Entre abril e junho de 1997 – no calor da Marcha Nacional a Brasília –, foram realizados 20 encontros estaduais de preparação ao Enera, envolvendo 1.600 educadores. O lema, que foi divulgado em cartaz e também no painel construído durante o encon-tro, continua como chamada até hoje: “Movimento Sem Terra: com escola, terra e dignidade”.

Foi no I Enera que aconteceu a 1ª Ciranda Infantil Nacional (batizada com esse nome). Foi também durante o I Enera que aconteceu uma reunião com os convidados das universidades que acabou desenca-deando a criação do Pronera, o que ocorreu em 16 de abril de 1998. No ato de encerramento do Enera, o MST foi convocado pelas outras entidades presentes a chamar um encontro de educadores de todo o meio rural, o que acabou acontecendo em 1998, com a I Conferência Nacional por uma Educação Básica do Campo.

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Caráter do II Enera

Pretende-se um encontro de caráter político, formativo, organizativo, mobilizador e celebrativo. O pro-cesso de preparação nos Estados e a realização do encontro nacional deve ajudar a massificar entre os educadores a compreensão do momento atual da questão agrária e afirmar politicamente o programa de luta e construção da reforma agrária popular, discutindo o papel da educação na sua implementa-ção e mobilizando para as denúncias e lutas necessárias desse período. Devemos também radicalizar a denúncia contra o fechamento das escolas do campo, como uma consequência direta do avanço do agronegócio e da lógica mercantil protagonizada pelo “Movimento Compromisso Todos pela Educa-ção”, dos empresários, que está pautando a educação em nosso país. E organizar desde o trabalho de base a mobilização dos educadores na luta pela educação nas áreas de reforma agrária e pela educação do campo, articulada com as lutas gerais dos trabalhadores por educação e por um projeto popular de desenvolvimento do país. Queremos também valorizar e celebrar nosso percurso de 30 anos, reafirmar a Pedagogia do Movimento e discutir nosso plano de futuro.

Objetivos

a) socializar e aprofundar compreensão do Programa Agrário do MST, atualizado nos debates de preparação e realização do VI congresso, em fevereiro de 2014;

b) analisar a política educacional brasileira atual e sua incidência sobre as práticas educativas desen-volvidas nas áreas de reforma agrária;

c) avançar na formulação coletiva do nosso projeto educativo estratégico discutindo papel da educa-ção no momento histórico atual e na construeduca-ção da reforma agrária popular;

d) fazer um balanço político dos 30 anos de trabalho do MST com a educação e definir lutas, tarefas e compromissos político-pedagógicos e organizativos principais para o próximo período;

e) fortalecer a organização e a participação dos estudantes dos assentamentos e acampamentos; f) celebrar nosso percurso, socializar experiências e nos mobilizar para continuidade da luta e da construção da educação da classe trabalhadora;

g) denunciar a precarização da educação pública por atuação dos setores privados e discutir mobili-zações conjuntas com outras organimobili-zações de trabalhadores.

Participantes

Delegados dos Estados: educadores das várias frentes, dirigentes do Movimento e militantes dos dife-rentes setores; lideranças de acampamentos e assentamentos; estudantes dos nossos cursos de formação de educadores; estudantes (jovens) de escolas de ensino médio (a meta é reunir um grupo de cem estu-dantes de diferentes Estados).

Convidados: apoiadores de outras instituições, organizações da Via Campesina e outras organizações de trabalhadores da educação (até 10% da delegação de cada Estado mais convidados nacionais). Os convites a entidades nacionais serão de responsabilidade da secretaria nacional do MST.

Meta: mil participantes.

Período e local: 21 a 25 de setembro de 2015, em Luziânia/GO, na sede da CNTI.

Temas de estudo e debate: a) Reforma Agrária Popular

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• Exigências ao trabalho de educação.

b) Pedagogia do Movimento, Educação do Campo, Educação da Classe Trabalhadora. • Fundamentos e relações.

• Análise da relação entre conteúdo e forma escolar.

• Análise do percurso de construção da Pedagogia do Movimento. • Perspectivas de avanço estratégico e tático.

c) Situação da Educação Brasileira

• Análise estrutural: conexões entre política educacional, modelo de desenvolvimento, forma social. • Contradições, lutas e organização dos trabalhadores da educação, práticas contra-hegemônicas. d) Balanço político dos 30 anos de trabalho do MST com a educação e definição de lutas, tarefas e

compromissos político-pedagógicos e organizativos principais para o próximo período (construção de síntese para discussão a partir dos processos de preparação nos estados).

e) Grupos de trabalho e minisseminários temáticos:

Grupos de Trabalho

Para socialização e debate de práticas de ocupação da escola pela Pedagogia do Movimento:

• Serão organizados em torno de 15 Grupos de Trabalho. Em cada GT serão apresentadas e discuti-das quatro práticas (em torno de 60 práticas no conjunto do Enera). Haverá debate sobre as práti-cas socializadas e em cada GT se deverá garantir o registro das apresentações e discussões.

• A organização das apresentações será feita previamente por uma equipe nacional a partir das práti-cas inscritas pelos Estados (depois da realização dos encontros estaduais), considerando diversida-de diversida-de Estados, frentes, tipo diversida-de práticas... Para ajudar na organização e também na construção da memória do II Enera, haverá uma ficha de inscrição com uma descrição resumida de cada prática que deverá ser preenchida e enviada à equipe nacional.

• A distribuição dos participantes pelos GT será feita por crachás.

• As práticas a serem socializadas: “escola” aqui está sendo entendida em sentido alargado e estamos orientando que sejam indicadas práticas de todas as frentes de atuação do setor: educação infantil, educação de jovens e adultos, ensino fundamental e médio, ensino superior, ensino técnico, edu-cação especial em áreas de assentamento, jornadas Sem Terrinha, jornadas da juventude, trabalho de base nos acampamentos e assentamentos, formação de educadores, atividades dos centros de formação...

• Haverá um GT específico para socialização de práticas entre os jovens/estudantes que vierem como delegados dos estados para o II Enera.

Seminários temáticos:

• Serão organizados em torno de dez seminários com realização simultânea a partir de inscrições realizadas no credenciamento e o tamanho das salas disponíveis.

• Os temas serão definidos no processo de construção do programa geral do encontro. Alguns temas que estão sendo sugeridos: – agroecologia e alimentação escolar; – agronegócio na escola pública; – reformas empresariais na educação / avaliação educacional; – indústria cultural e educação do campo; – gênero e educação; – juventude; – infância; – educação especial; – educação profissional (debates atuais); – métodos de trabalho de base.

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Apresentações artístico-culturais

• Mostra ou feira por regiões, incluindo intercâmbio de produções e práticas. • Apresentações de grupos externos ao longo da programação.

• Jornada Socialista.

• Uma equipe constituída por representantes dos setores de educação, cultura e juventude será res-ponsável pelo planejamento e coordenação das atividades.

Ato Político

Caráter a definir a partir de análise da conjuntura do período.

Preparação nos Estados

• Trabalho de base nos assentamentos e acampamentos, cursos e escolas, de acordo com a organici-dade de cada Estado e aproveitando o jornal especial de preparação ao II Enera a ser enviado. • Encontros estaduais de educadores: tamanho, caráter, preparação local de acordo com as

possibili-dades de cada Estado, mas realização como condição de participação no encontro nacional. Focos prioritários: – Programa Agrário MST; – Balanço do trabalho de educação no Estado (organicida-de, lutas e práticas); – conjuntura educacional do Estado... É importante garantir no encontro um momento para socialização de práticas e também seminários temáticos (com temas relacionados às questões da realidade do Estado), na forma semelhante ao que será o encontro nacional.

• Período: março a julho 2015.

Lema

Na preparação trabalhar com o lema do VI Congresso: Lutar, Construir Reforma Agrária Popular! Se no processo surgirem propostas de lema específico a questão será rediscutida.

Manifesto do II Enera

Produção coletiva e processual:

• Há uma equipe elaborando a primeira versão do texto a partir de discussão feita no coletivo nacio-nal de educação e interlocução nas instâncias nacionais do MST.

• O texto deverá ser discutido nos encontros estaduais e será feita uma sistematização geral das con-tribuições dos Estados.

• Durante o II Enera haverá discussão coletiva em vista de aprovação do texto final. • Meta: lançamento do Manifesto até o final do II Enera.

Materiais de apoio à preparação • Jornal Especial II Enera.

• Coletânea de textos já produzidos (internos e externos) sobre os temas principais de estudo. • Painel e cartaz: produção a ser feita pela Brigada de Audiovisuais do MST.

Equipes de Trabalho

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Finanças

• Equipe nacional do MST responsável pela articulação de apoios diversos visando as despesas gerais do encontro nacional e a reprodução dos materiais de preparação.

• Estados responsáveis pela busca de recursos para as atividades de preparação estadual e para o des-locamento dos participantes até Luziânia/GO.

• Contribuição financeira de cada participante no credenciamento: 50 reais.

Lutar, Construir Reforma Agrária Popular!

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MST EDUCAÇÃO 30 ANOS:

BALANÇO PROJETIVO

Roteiro para discussão coletiva

A proposta é organizar discussões (nacionais e nos Estados) considerando os grandes objetivos do nosso trabalho, relacionados aos objetivos estratégicos do Movimento de “lutar pela terra, pela reforma agrária e pelo socialismo”, na compreensão atual que temos sobre eles. Uma questão geral pode ser sobre qual a contribuição do trabalho de educação para que mais pessoas avancem na apropriação dos obje-tivos do MST e possam ser atingidas, dentro das condições objetivas de cada momento e de cada lugar onde o Movimento está organizado. E também fazer um balanço sobre a forma de atuação e o funcio-namento do setor de educação ao longo do percurso de 30 anos, completados em 2014.

Das discussões em geral queremos identificar o que conseguimos fazer até aqui: alguns aprendizados do nosso percurso histórico e elementos da situação atual a ser enfrentada no próximo período. Tam-bém precisamos discutir sobre qual a atualização necessária no conteúdo e na forma de nosso trabalho, em função das novas exigências da reforma agrária popular e as condições existentes em cada Estado e região.

Pontos para o balanço

1. Na relação com os objetivos estratégicos do Movimento podemos sintetizar os grandes objetivos do trabalho de educação em três principais que precisam ser objeto desse balanço:

a) Lutar pela universalização do acesso à escola pública de qualidade social. Fazemos essa luta desde a questão específica da dívida histórica da sociedade brasileira em relação aos trabalhadores do campo e pela exigência de dar esse passo para inserir efetivamente toda nossa base social na luta e construção da reforma agrária e das transformações socialistas do campo, da sociedade. No balanço projetivo podemos considerar:

• como está a situação educacional das áreas de reforma agrária / do campo: acesso aos vários níveis de escolarização, condições das escolas, educadores... É importante considerar dados do censo es-colar que estão sendo divulgados, bem como algumas análises feitas por pesquisadores do nosso campo;

• como está a mobilização da base pela ampliação do acesso e qualidade da educação;

• elementos de nossa realidade político-pedagógica: como está a disputa pela condução das escolas, das práticas de EJA, de educação infantil, da formação de educadores; quem está com o controle, quais são as referências mais fortes para nossos educadores, nossas comunidades; em que escolas estamos conseguindo incidir e de que forma...

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edu-cação do campo (práticas não apenas escolares) e contribuam na formação de lutadores e construtores, na direção de um projeto educativo socialista, protagonizado pelos próprios trabalhadores (do campo e da cidade, de todo o mundo). Considerar:

• o conteúdo e a forma da elaboração político-pedagógica nesse percurso;

• como temos garantido o diálogo com outras experiências e organizações de trabalhadores;

• como analisamos o enraizamento da Pedagogia do Movimento: nas instâncias organizativas, na militância, na base..., no conjunto de nossas práticas educativas;

• temos territórios conquistados com relativa autonomia de construção dos caminhos de transforma-ção da escola?

c) Contribuir pelas práticas de educação das diferentes gerações, e especialmente da infância e juventude, na escola e fora dela, com a implementação da política de formação do MST. Considerar:

• processos de desenvolvimento cultural e de consciência política das comunidades onde atuamos, que podem ser evidenciados pelo grau de exigência de qualidade da vida humana em suas diferen-tes dimensões e capacidade política e organizativa para lutar por essa qualidade;

• processos de auto-organização e de participação social das crianças e jovens dos nossos acampa-mentos e assentaacampa-mentos;

• como estamos conseguindo integrar formação geral, capacitação técnica e formação política em nossas práticas de educação escolar nos vários níveis...

2. Precisamos fazer uma discussão específica sobre a atuação e o funcionamento do setor de educação: Áreas de atuação: talvez caiba analisar nosso percurso em termos de focos do trabalho, ênfases, tarefas assumidas...

Construção da organicidade (do MST, do trabalho de educação nas áreas de acampamentos e as-sentamentos). O que fizemos, os problemas atuais, as transformações necessárias no nosso método de construção...

Relações com o Estado (considerar o sentido estrito e o ampliado de Estado que inclui a sociedade civil organizada desde as classes sociais principais em confronto). O que foi mudando nesse percurso, o que aprendemos, qual o lugar dessa relação nas prioridades atuais de trabalho do setor, o que precisa ser mu-dado para atingirmos nossos objetivos...

Relações com a sociedade (população) em geral. O que foi mudando nesse percurso, o que aprendemos, qual o lugar dessa relação nas prioridades atuais de trabalho do setor, o que precisa ser mudado para que se consiga avançar nos apoios e romper o cerco ideológico contrário ao Movimento, aos trabalhadores pobres do campo...

Sobre alguns desafios gerais do momento atual

Podemos organizar esse debate projetivo a partir de três pontos principais: – quais são os enfrenta-mentos principais do momento atual; – quais nossas lutas e construções prioritárias, considerando os no-vos desafios formatino-vos postos pela reforma agrária popular; – que ajustes precisamos fazer no trabalho do setor de educação para dar conta desses desafios. Alguns elementos introdutórios a cada ponto a par-tir de debates que estamos fazendo, mas que precisam ser discutidos, complementados, aprofundados:

1. Precisamos identificar quais são os enfrentamentos principais do momento atual

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ideológica do agronegócio: no conjunto da sociedade; entre os camponeses, em nossos assentamentos. Te-mos muitos camaradas de lutas que ainda não entenderam o confronto de lógicas de agricultura como parte da luta de classes hoje e porque combatemos o agronegócio. E isso fica ainda mais grave pela ofen-siva do agronegócio nas escolas públicas, inclusive as de assentamentos, para continuar com a hegemonia ideológica mesmo diante das contradições explosivas do modelo da agricultura capitalista. Precisamos enfrentar essa ofensiva porque ela mascara a lógica destrutiva desse modelo e subordina educadores e estudantes, com discursos aparentemente inovadores.

O segundo grande enfrentamento é a política educacional dominante, comandada pelos interesses do capital (empresários), com marca de “inclusão excludente” do conjunto dos trabalhadores e ao mesmo tempo exclusão descarada de alguns segmentos, o que é indicado, por exemplo, pelo fechamento acele-rado de escolas no campo.

O que especialmente devemos ajudar a denunciar/enfrentar é a ingerência dos empresários na política educacional, através do “Movimento Todos pela Educação” e suas implicações principais: ofensiva das grandes empresas capitalistas sobre secretarias de educação ou diretamente sobre as escolas; visão depen-dente e (mais uma vez) colonizada de copiar programas de fora (especialmente dos EUA); retirada da autonomia das escolas, dos educadores que passam a ser preparados como executores de uma pedagogia padronizada por testes, cartilhas produzidas pelas empresas, e remunerados pelo desempenho; educação cada vez mais unilateral, voltada à formação de mão de obra (para aumentar o chamado “exército in-dustrial de reserva”), na dualidade que prevê uma pequena elite de trabalhadores com qualificação mais sofisticada e a imensa maioria com qualificação mínima para empregos precários, com exacerbação, nesse caso da cisão entre trabalho manual e intelectual, prática e teoria...

A política educacional atual torna muito mais difícil fazer o enfrentamento à pedagogia do capital em nossas práticas educativas porque tira a autonomia das escolas, porque legitima a atuação das empresas no sistema educacional, ao mesmo tempo em que precariza o sistema público. E há ainda uma grande apatia ou desconhecimento da maioria dos pais, educadores, estudantes, militantes e dirigentes das or-ganizações sobre o que são e o que representam para os trabalhadores as chamadas “reformas empresa-riais” da educação. Isso está no geral da sociedade e está entre nós, na nossa base.

2. Lutas e construções prioritárias na relação com os desafios da reforma agrária popular

A centralidade do enfrentamento ao agronegócio e da luta pela reinserção da reforma agrária na agen-da pública exige que mais gente (trabalhadores do campo e agen-da ciagen-dade) entenagen-da o que está acontecendo no campo, na agricultura hoje, e mais amplamente compreenda o ônus à humanidade de transformar tudo em mercadoria e especialmente os alimentos, a água, a natureza...

Nossas escolas precisam se envolver no embate ideológico, cada vez mais acirrado. Não é verdade que não temos alternativas! E que cada vez mais gente saiba disso é desafio educativo fundamental a ser assumido pelos educadores da reforma agrária, bem como da Educação do Campo, o que quer dizer que os próprios educadores precisam ser educados sobre isso, em função da forte ofensiva do discurso ideológico do agronegócio sobre todos.

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água, ao conjunto dos recursos naturais? O que deixaremos como herança para nossos filhos e netos? – Quem deve controlar a produção agrícola de um país?

Uma ideia fundamental a ser firmada é de que a função principal da agricultura é de produzir alimen-tos, saudáveis e ambientalmente sustentáveis, para o conjunto da população e dinamizando o território onde são produzidos. Outras funções somente deveriam ser desenvolvidas depois da função principal ter sido realizada. E alimentos não devem ser tratados como mercadorias, mas como direito humano fundamental, de todas as pessoas em todo o mundo e a qualquer tempo.

Um desafio educativo grandioso que se desdobra do debate da reforma agrária popular é o de uma formação dos camponeses (novas e velhas gerações) baseada no aproveitamento crítico dos saberes e ex-periências dos antepassados e apropriação ou produção de conhecimentos científicos necessários aos desafios de construção de uma nova lógica de agricultura. Essa formação necessita da universalização do acesso à educação escolar básica, da elevação do patamar de acesso dos trabalhadores camponeses à educação de nível superior e aos bens culturais produzidos pela humanidade, além de uma capacitação técnico-profissional pensada (revolucionada) desde o conjunto dos fundamentos do projeto de reforma agrária popular.

Considerando esses desafios formativos e a realidade atual da educação brasileira (e mundial), o mo-mento é de defesa intransigente da educação pública em nosso país, ameaçada pelas investidas dos setores privados e empresariais nacionais e transnacionais sem precedentes na história do próprio capitalismo.

Desde nossa atuação específica, mas na articulação necessária com outras organizações e forças da classe trabalhadora, isso implica em continuar/radicalizar a luta pelo acesso das famílias trabalhadoras do campo à educação escolar pública. Isso se refere às lutas mais amplas pela universalização do acesso à edu-cação básica e pela democratização do acesso à eduedu-cação profissional (que não se reduza à lógica Prona-tec) e à educação superior (que não se reduza à educação a distância)... E no campo há uma ilusão a ser combatida de que, porque temos um “Pronacampo”, a questão do direito e do acesso já está resolvido, enquanto as escolas continuam fechando...

Nossa radicalidade implica principalmente em realizar lutas coletivas, massivas pelo acesso dos tra-balhadores do campo à educação pública e no próprio campo. Nessa perspectiva uma luta emblemática é a que estamos fazendo contra o fechamento de escolas: precisamos continuar com a campanha do MST “fechar escola é crime!” e nos mobilizar pela agilização e desburocratização da construção de novas es-colas no campo. Isso é estrutural e na lógica atual de expulsão das famílias do campo pela agricultura capitalista parece até que é “exigir o impossível”, por isso deve ser nossa prioridade. Da mesma forma que devemos afirmar políticas ou mesmo programas que pressionem o sistema na direção do acesso dos camponeses à escola em todos os níveis, com atenção especial à dívida histórica que tem nosso país com a alfabetização de jovens e adultos.

3. Ajustes na forma e conteúdo do trabalho de educação feito pelo MST (discutir a partir do balanço e da análise dos enfrentamentos principais – trazemos aqui apenas alguns elementos preliminares)

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pedagógica e sem nos distanciarmos do conjunto de objetivos estratégicos do MST, especialmente na síntese atual expressa no programa agrário de 2014. E este “sair de si mesmo” hoje precisa começar pelo campo, potencializando vínculos com organizações de trabalhadores do campo e articulações existentes em torno da Educação do Campo, mas não pode ficar no campo, especialmente no embate com a política educacional e nos esforços de quebra de hegemonia do agronegócio. Há uma discussão a ser feita em cada Estado sobre quais as alianças prioritárias, do ponto de vista estratégico e do ponto de vista tático, para avançarmos enquanto classe trabalhadora nos enfrentamentos principais identificados.

E é importante reafirmar que, assim como no início de nosso trabalho, mas agora talvez com exigên-cias mais amplas e mais complexas, a educação é chamada a contribuir, desde o seu trabalho específico, com a construção de alternativas, de políticas de enfrentamento ao capital, especialmente na agricultura (como ajudar a multiplicar as experiências de agroecologia em nossos assentamentos, por exemplo), mas também na própria educação, nas transformações da forma escolar subserviente ao capital, no trabalho cultural contra-hegemônico, na afirmação da identidade da agricultura camponesa...

Não podemos deixar de avançar em nossas formulações político-pedagógicas vinculadas à estratégia do Movimento. E para isso é preciso garantir espaços com autonomia (ainda que sempre relativa) que nos permitam avançar radicalizando (indo à raiz) nossas formulações e práticas em vista das novas exi-gências formativas...

O setor precisa se organizar em cada Estado, cada região, para intencionalizar, fortalecer e acompa-nhar práticas educativas e experimentações pedagógicas que firmem uma concepção de educação capaz de formar os trabalhadores na perspectiva dos novos desafios, reafirmando a Pedagogia do Movimento e continuando sua construção histórica desde as condições objetivas e os desafios de cada realidade con-creta...

Precisamos retornar às bases de nossa construção originária, buscando materializar na forma de tra-balho uma relação cada vez mais orgânica com as questões da produção, considerando agora os conteú-dos postos pela atualização de nosso programa agrário.

Da mesma forma que nas definições de nossa divisão de tarefas será necessário garantir que o setor se ocupe mais com as questões dos rumos da educação brasileira: no momento atual está mais difícil atuar no particular de nossas áreas sem compreender e atuar no geral.

E precisamos discutir sobre como dar conta de nossas tarefas específicas avançando no trabalho intersetorial, cada vez mais necessário, especialmente em relação ao grande desafio educativo de nossa base para que assuma o combate à hegemonia do agronegócio e para que mais gente se aproprie de fer-ramentas de análise que permitam identificar com rigor as contradições principais de cada realidade e transformá-las em lutas coletivas concretas...

Esse debate está apenas no começo...

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MANIFESTO DAS EDUCADORAS E DOS

EDUCADORES DA REFORMA AGRÁRIA

AO POVO BRASILEIRO (1997)

No Brasil, chegamos a uma encruzilhada histórica. De um lado está o projeto neoliberal, que destrói a Nação e aumenta a exclusão social. De outro lado, há a possibilidade de uma rebeldia organizada e da construção de um novo projeto. Como parte da classe trabalhadora de nosso país, precisamos tomar uma posição. Por essa razão, nos manifestamos.

1. Somos educadoras e educadores de crianças, jovens e adultos de acampamentos e assentamentos de todo o Brasil, e colocamos o nosso trabalho a serviço da luta pela reforma agrária e das transformações sociais.

2. Manifestamos nossa profunda indignação diante da miséria e das injustiças que estão destruindo nosso país, e compartilhamos do sonho da construção de um novo projeto de desenvolvimento para o Brasil, um projeto do povo brasileiro.

3. Compreendemos que a educação sozinha não resolve os problemas do povo, mas é um elemento fundamental nos processos de transformação social.

4. Lutamos por justiça social! Na educação isto significa garantir escola pública, gratuita e de quali-dade para todos, desde a educação infantil até a universiquali-dade.

5. Consideramos que acabar com o analfabetismo, além de um dever do Estado, é uma questão de honra. Por isso nos comprometemos com esse trabalho.

6. Exigimos, como trabalhadoras e trabalhadores da educação, respeito, valorização profissional e condições dignas de trabalho e de formação. Queremos o direito de pensar e de participar das decisões sobre a política educacional.

7. Queremos uma escola que se deixe ocupar pelas questões de nosso tempo, que ajude no fortaleci-mento das lutas sociais e na solução dos problemas concretos de cada comunidade e do país.

8. Defendemos uma pedagogia que se preocupe com todas as dimensões da pessoa humana e que crie um ambiente educativo baseado na ação e na participação democrática, na dimensão educativa do trabalho, da cultura e da história de nosso povo.

9. Acreditamos numa escola que desperte os sonhos de nossa juventude, que cultive a solidariedade, a esperança, o desejo de aprender e ensinar sempre e de transformar o mundo.

10. Entendemos que para participar da construção desta nova escola, nós, educadoras e educadores, precisamos constituir coletivos pedagógicos com clareza política, competência técnica, valores huma-nistas e socialistas.

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12. Trabalhamos por uma identidade própria das escolas do meio rural, com um projeto político--pedagógico que fortaleça novas formas de desenvolvimento no campo, baseadas na justiça social, na cooperação agrícola, no respeito ao meio ambiente e na valorização da cultura camponesa.

13. Renovamos, diante de todos, nosso compromisso político e pedagógico com as causas do povo, em especial com a luta pela reforma agrária. Continuaremos mantendo viva a esperança e honrando nossa Pátria, nossos princípios, nosso sonho...

14. Conclamamos todas as pessoas e organizações que têm sonhos e projetos de mudança, para que juntos possamos fazer uma nova educação em nosso país, a educação da nova sociedade que já começa-mos a construir.

MST

REFORMA AGRÁRIA: UMA LUTA DE TODOS!

1º Encontro Nacional de Educadoras e Educadores da Reforma Agrária Homenagem aos educadores Paulo Freire e Che Guevara

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PROGRAMA AGRÁRIO DO MST

VI Congresso Nacional do MST – Fevereiro de 2014

Lutar, Construir Reforma Agrária Popular!

Apresentação

Estimados companheiros e companheiras militantes do MST

Em agosto de 2011, a direção nacional do MST deu início a um processo de debates e discussões em preparação ao VI Congresso Nacional. De lá para cá, fizemos diversos seminários nacionais, regionais e estaduais. Fizemos debates nos cursos de formação, nas instâncias estaduais e nos coletivos dos diferen-tes setores. Acreditamos que a ampla maioria de nossa militância se envolveu nesse debate.

Formulamos dois documentos básicos. O primeiro é o programa agrário do MST para o período de 2014-2019. O segundo contém as principais linhas políticas setoriais do MST, em especial, sobre a Fren-te de Massas, a Produção e os desafios da tática da nossa luta. Também, atualizamos as normas gerais, sobre funcionamento das nossas instâncias.

Aqui, nesta cartilha, apresentamos o que sistematizamos, dos debates e discussões, sobre o Programa Agrário. Como podem ver, temos uma análise inicial sobre o diagnóstico da realidade agrária brasileira. Depois, há um capítulo sobre a natureza da reforma agrária nos tempos atuais. Segue o capítulo dos fun-damentos de uma reforma agrária de novo tipo que defendemos para a sociedade brasileira e a proposta de um programa de Reforma Agrária Popular.

E, ao final, apresentamos o lema, do próximo congresso nacional, deliberado por mais de 300 dirigen-tes, na reunião da Coordenação Nacional do Movimento: Lutar, Construir Reforma Agrária Popular!

O lema serve para incentivar e orientar nossas lutas e práticas de trabalho e organização. Serve, tam-bém, para dialogar com a sociedade, manifestando os objetivos centrais da nossa luta para os próximos anos.

Aqui está a síntese de dois anos de debates e de uma construção coletiva. Centenas de companheiras e companheiros participaram ativamente dessa elaboração coletiva, aqui apresentada.

Este documento, não deve ser visto como uma receita ou um produto já acabado. Ao contrário, são ideias que construímos, com base em conhecimentos científicos e da nossa prática concreta da luta de clas-ses do dia a dia, em todo o país. Assim, deve ser visto como uma síntese histórica para esse momento. A implantação do nosso Programa de Reforma Agrária Popular depende, em parte, da nossa capacidade de reivindicar e pressionar os governos. Obter conquistas do Estado burguês é um fator importante na luta de classes e na formação de uma consciência política dos nossos militantes. Importante, mas insuficiente.

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Depende, sobretudo, da nossa capacidade de fortalecer internamente a nossa organização. Precisa-mos de um MST forte, com efetivos mecanisPrecisa-mos de democracia interna, que incentivem e possibilitem a participação de todos e todas nas discussões e tomadas de decisões da nossa organização.

Depende da nossa capacidade de ir acumulando forças e irmos construindo em nossos assentamen-tos, em nossas escolas, centros de formação, enfim, em todos os nossos espaços conquistados, o nosso modelo de agricultura para o campo brasileiro.

Depende da nossa capacidade de construirmos alianças concretas em torno do programa com os de-mais setores do campesinato e com toda classe trabalhadora urbana.

Depende da capacidade de dialogar e conquistar amplos setores da sociedade brasileira, para cons-truir uma hegemonia – um consenso – que compreenda e defenda o nosso modelo de agricultura. De-pende da democratização do Estado brasileiro, da mudança de seu caráter burguês. E de termos um governo hegemonicamente popular.

Por isso, esse programa seguirá em construção permanente. Seguirá sendo atualizado de acordo com o andar das nossas lutas, conquistas e novos desafios, ao longo da história! Esperamos que cada compa-nheira, cada companheiro possa aprofundar estes estudos, compartilhar com outros companheiros/as, utilizá-los para debates nas escolas, cursos e centros deformação.

Devemos, também, utilizar esta cartilha para debater nossas ideias e propostas junto aos demais se-tores da sociedade. Assim esperamos contribuir para a construção de um futuro melhor para o nosso país, alicerçado nos ideais socialistas, e legarmos, para as gerações futuras, uma sociedade brasileira so-cialmente justa, igualitária, democrática e fraterna, como todos e todas nós sonhamos.

Coordenação Nacional do MST Brasília, agosto de 2013

I. O processo de desenvolvimento do capitalismo no campo

1. Contexto histórico

1. O capitalismo mundial, a partir da década de 1980, ingressou numa nova fase de seu desenvolvi-mento, sendo agora hegemonizado pelo capital financeiro e pelas empresas privadas transnacionais, oli-gopolizadas, que controlam o mercado mundial das principais mercadorias. Isso significa que o processo de produção de riquezas continua sendo realizada pelo trabalho na esfera da indústria, agricultura e do comércio. No entanto, as taxas de acumulação e de divisão do lucro se concentram na esfera do capital financeiro e das grandes empresas privadas capitalistas oligopolizadas que atuam em nível mundial. (Segundo dados do Pnud – Agência de Desenvolvimento das Nações Unidas, as 700 maiores empresas controlam 80% do mercado mundial!)

2. Em 1980 o PIB mundial (que teoricamente representa a produção de todas as mercadorias no ano) estava em torno de 15 trilhões de dólares e havia em circulação ao redor de 16 trilhões de dólares em equivalente moeda. Agora, em 2010, o PIB mundial passou para 55 trilhões (concentrado cada vez mais em um menor número de países – EUA, Europa, China e Japão) e o volume de moeda em circulação ascendia a 150 trilhões de dólares. Isso acrescido do capital fictício representado por títulos e documen-tos de crédito.

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das empresas transnacionais, os banqueiros (o capital financeiro), a burguesia proprietária das empresas de comunicação de massa e os grandes proprietários de terra para controlarem a produção e a circulação das commodities (mercadorias agrícolas padronizadas). Como resultado esperado, controlam os preços e o volume das commodities em circulação, portanto, dominam os mercados e ficam com a maior margem da renda agrícola e do lucro produzidos.

4. Na organização da produção das mercadorias impuseram a racionalidade do capital através da produção em escalas em áreas contínuas e do monocultivo, com o objetivo de obter produtividade máxima do trabalho e maior rentabilidade econômica. Para isso, substituem a força de trabalho pela mecanização intensiva. E se utilizam de volumes cada vez maiores de fertilizantes químicos industriais e de agrotóxicos.

5. As empresas transnacionais que controlam a produção de agrotóxicos passaram a controlar a oferta de sementes, tanto as híbridas quanto as geneticamente modificadas em laboratórios. Estas sementes conhecidas como transgênicas são portadoras de genes que tornam as plantas mais suscetíveis a doenças e pragas exigindo o uso obrigatório, e mais intensivo, de agrotóxicos. Essas sementes transgênicas são patenteadas como propriedade privada permitindo legalmente que se cobre ‘direitos de uso’ pelos agri-cultores: os commodities.

6. Esse modelo de produção resultou numa matriz tecnológica de produção universalizada a partir da década de 1990, com aplicação da biotecnologia (em particular da transgenia), da informática e das técnicas de irrigação, tudo controlada pelas empresas privadas transnacionais. Poderia ser considerada como é uma nova fase da modernização conservadora iniciada na década de 1960, mas diferente e mais intensa do que a anterior, a qual foi a chamada de ‘revolução verde’ pelo uso intensivo de insumos agro-químicos de origem industrial.

7. Essa forma de produzir tornou-se cada vez mais dependente do adiantamento do capital finan-ceiro, na forma do crédito rural, para financiar o acesso aos insumos adquiridos nos mercados como sementes, mudas e sêmen; fertilizantes e herbicidas químicos; agrotóxicos e hormônios; máquinas, tra-tores, implementos e veículos de transportes.

8. Esse modelo de produção agrícola foi massivamente adotado pelas empresas capitalistas no campo e passou a denominar-se como o modelo do agronegócio. Tornar a agricultura como um negócio para acumulação de riqueza e de renda sob o controle do grande capital.

9. Com a crise internacional do capitalismo, a partir de 2008 percebeu-se uma ofensiva de entrada de capital estrangeiro tanto do capital financeiro quanto do fictício, que migrou do Hemisfério Norte para o Hemisfério Sul. Esses capitais foram investidos na agricultura, na apropriação privada da natu-reza (terras, água, hidrelétricas, fontes de energia, minérios, usinas de etanol) bem como no controle de commodities (soja, milho, laranja, cacau, aves, suínos, carne bovina etc.).

10. No caso do Brasil, as estatísticas revelam que no período de 2008-2012 ingressaram no país ao redor de 80 bilhões de dólares de capital financeiro estrangeiro para aplicar apenas na aquisição de bens da natureza.

11. Além da ofensiva em investimentos estrangeiros para o controle da produção e dos mercados agrí-colas, tem-se constatado uma ofensiva do capital internacional do Hemisfério Norte, para investirem e controlarem, através de grandes empresas privadas transnacionais, as riquezas minerais do Brasil como ferro, bauxita, ouro, cobre, nióbio etc. E também controlar as fontes de energia como petróleo e gás na-tural, etanol, hidrelétricas e parques eólicos.

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man-teve o superávit primário no orçamento da união, como forma de garantir pagamento de juros da dí-vida interna, e não teve o controle do câmbio. Isso significa que a taxa de câmbio deixada à “mercê do mercado” flutuou de acordo com os interesses de especulação do capital privado internacional sobre a nossa economia. Os Estados Unidos (EUA) emitem a moeda dólar sem controle e jogam no mercado internacional para que paguemos o seu déficit.

13. Este processo ocorrido durante os oito anos de governo Lula, resultou numa transferência para o capital financeiro de mais de 700 bilhões de reais, somente para pagamento de juros da dívida interna. O que contribuiu para concentração e centralização do capital, pois, segundo estudos de Márcio Poch-mann, os credores e beneficiários desses juros são menos de cinco mil capitalistas.

14. O agronegócio passou a ter uma expressiva função econômica no modelo do capital financeiro (gerar saldos comerciais para ampliar as reservas cambiais, condição essencial para atrair os capitais es-peculativos para o Brasil). E este avanço do agronegócio bloqueia e protege as terras improdutivas para futura expansão dos seus negócios, travando a obtenção de terras para a reforma agrária.

15. O Estado brasileiro, mais além do seu arcabouço jurídico de proteger os interesses da classe do-minante, tem cumprido um papel fundamental de garantir a hegemonia do modelo do agronegócio na produção agrícola. Ele atua na garantia de transferência de recursos públicos, via investimentos e através do financiamento compulsório destinado a ele, recolhendo da poupança nacional depositada nos ban-cos.

16. Esse modelo afeta, sob as mais distintas dimensões, a articulação político-partidária e legislati-va, as formas de pressão sobre os governos e a natureza da disputa do poder político no contexto das contradições de classes sociais. A constituição de uma bancada ruralista pluripartidária é emblemática, colocando os interesses das empresas capitalistas direta e indiretamente relacionadas com o capital no campo, acima dos interesses sociais.

2. As mudanças estruturais na propriedade da terra, produção, emprego e renda

17. O processo de desenvolvimento do capital resultante da implantação de cima para baixo desse modelo econômico, estruturalmente cada vez mais dependente do exterior e que organiza a produção unicamente sob a forma de negócio capitalista na forma do agronegócio, provocou mudanças estruturais na forma de apropriação privada da terra e dos recursos naturais, na produção, nas condições de reali-zação dos mercados, na composição das classes sociais, no perfil da estrutura do emprego, na tecnologia utilizada e na produção científica e tecnológica no âmbito da pesquisa agropecuária em todo Brasil.

18. Os empresários capitalistas, brasileiros e estrangeiros, passaram a priorizar os investimentos na produção de soja, milho, de cana-de-açúcar (com suas usinas para açúcar e etanol), no cultivo extensivo de eucalipto para extração de celulose e produção de carvão vegetal (para as usinas guseiras siderúrgicas de exportação do minério de ferro) e pecuária bovina extensiva.

19. As 50 maiores empresas agroindustriais de capital estrangeiro e nacional passaram a controlar praticamente todo comércio das commodities agrícolas no Brasil e, indiretamente, a composição da ofer-ta agropecuária do país.

20. Houve uma crescente centralização do capital que atua na agricultura: uma mesma empresa controla sementes, fertilizantes, agroquímicos, o comércio, a industrialização de produtos agrícolas e na produção e o comércio de máquinas agrícolas.

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E depois repartem suas taxas de mais-valia com as empresas fornecedoras dos insumos, com as empresas compradoras das mercadorias e com os bancos que adiantaram o capital financeiro.

22. Nos últimos dez anos, houve um processo acelerado da concentração da propriedade da terra. O índice que mede a concentração da propriedade da terra continua crescendo. O índice de Gini em 2006 estava em 0,854, que é maior inclusive do que o registrado em 1920, quando recém havíamos saí-do da escravidão. Nas estatísticas saí-do cadastro de imóveis rurais saí-do Incra vê-se que entre 2003 e 2010, as grandes propriedades passaram de 95 mil unidades para 127 mil unidades. E a área controlada por elas passou de 182 milhões de hectares para 265 milhões de hectares, em apenas oito anos.

23. Analisando-se as grandes propriedades classificadas pelos critérios da lei agrária de 1993, com base nas informações declaradas pelo proprietário de imóvel rural ao Incra, constatou-se que em 2003, havia 47 mil grandes propriedades improdutivas, as quais detinham 109 milhões de hectares, e que, em 2010, passaram a ser 66 mil grandes propriedades improdutivas, controlando 175 milhões de hectares. Embora as estatísticas do Incra apresentem falhas, ainda assim elas indicam uma tendência da concen-tração e crescimento do número de imóveis improdutivos.

24. Analisando os dados por estabelecimentos (critério adotado pelo IBGE), percebe-se que no últi-mo censo de 2006, havia 22 mil grandes propriedades acima de dois mil hectares de terra, que seriam os grandes latifúndios. E outros 400 mil estabelecimentos entre 100 e 2 mil hectares, que seriam os es-tabelecimentos rurais modernos que constituem a maior parte do modelo de agronegócio.

25. Os grandes e médios proprietários que representam o agronegócio controlam 85% das terras e praticamente toda produção de commodities para exportação...

26. Constatou-se, também, uma concentração da produção agrícola por produto e, em 2010, 80% das commodities e das terras por elas utilizadas se destinavam a soja, milho, cana-de-açúcar e pecuária extensiva.

27. Houve um aumento acelerado na desnacionalização da propriedade da terra, com avanço da presença de empresas estrangeiras. Mas é impossível ter aferição estatística confiável, pois o capital es-trangeiro compra as ações de empresas brasileiras, que possuem as terras sem necessidade de alterar o cadastro no Incra. No entanto, estima-se que as empresas estrangeiras devem controlar mais de 30 mi-lhões de hectares de terras no Brasil.

28. O agronegócio possui prioridades regionais de cultivos e criações para a sua expansão. A soja é prioridade em todas as regiões; a cana-de-açúcar na região Centro-Sudeste; a celulose no Sul da Bahia, Norte do Espírito Santo e Mato Grosso do Sul. Já a madeira para produção de carvão ganha dimensão no Norte do país e em Minas Gerais, sobretudo onde se instalaram as indústrias siderúrgicas. No semi-árido nordestino, as frutas irrigadas. E no litoral do Nordeste, o camarão cultivado. A pecuária extensiva vai ficando nas regiões mais degradas e na fronteira agrícola, “desbravando e amansando” a terra para o avanço paulatino do capital.

29. Quanto à pecuária leiteira, essa vem sendo empurrada para região Sul do Brasil, na medida em que a cana-de-açúcar vai ocupando as pastagens do Sudeste. Outro produto importante é o algodão que cresce nas grandes fazendas do Centro-Oeste.

30. Houve um aumento significativo da produtividade agrícola por hectare e por trabalhador, em todos os ramos de produção. No entanto, essa produtividade esteve combinada com o aumento de es-cala dos monocultivos e com o uso intensivo de agrotóxicos e máquinas agrícolas. E o aumento das margens de lucro não resultou em melhorias das condições de vida dos trabalhadores, que produziram essa riqueza.

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“Ma-pito” (Sul do Maranhão, Sul do Piauí, Oeste da Bahia e Norte de Tocantins). Nesse sentido, o capital enfrenta alguns empecilhos jurídicos para sua expansão, como o Código Florestal, que impõe reserva nativa de 80% da área do imóvel, para o bioma da Amazônia, e 40% para os imóveis no cerrado. E estabelecem restrições com relação às áreas de quilombolas as quais depois de reconhecidas não podem mais ser vendidas. O mesmo ocorre com as áreas indígenas. Além dessas limitações jurídicas os povos indígenas enfrentam a sanha do capital pela invasão impune dos seus territórios principalmente na re-gião Centro-Oeste.

32. No modelo do agronegócio está contemplada uma parceria ideológica de classe entre os grandes proprietários da terra e os empresários dos meios de comunicação da burguesia, em especial televisão, revistas e jornais, que fazem a defesa e a propaganda permanente das empresas capitalistas no campo como único projeto possível, moderno e insubstituível. Além da pressão econômica a reprodução ideo-lógica dos interesses de classe das classes dominantes é agora realizada pelos meios de comunicação de massa. E há uma simbiose entre os grandes proprietários dos meios de comunicação, as empresas do agronegócio, as verbas de publicidade e o poder econômico.

33. Percebe-se que no desenvolvimento das forças produtivas no nível do Brasil o número de máqui-nas agrícolas vendidas (tratores e colheitadeiras) tem aumentado no tamanho de potência, mas não no número de unidades. Na década de 1970, quando os agricultores familiares tinham acesso ao crédito rural subsidiado que estava vinculado à agroindústria de maneira mais intensa, o mercado de tratores era de 75 mil unidades/ano. E agora, nos últimos anos, baixou para 36 mil unidades/ano, embora tenha aumentado a potência média.

34. Mas, no geral, os índices de mecanização da agricultura brasileira são baixíssimos, comparados com os volumes de produção. O número total de tratores existentes na agricultura brasileira é de apenas 802 mil tratores, segundo o último censo do IBGE (uma média de dois tratores para cada propriedade do agronegócio). Comparando-se com o nível de desenvolvimento das forças produtivas da agricultura dos Estados Unidos, em 1920, eles já possuíam 900 mil tratores na agricultura!

35. A hegemonia desse modelo econômico se amplia para o controle de todos os bens da natureza, como os minérios, a água, as florestas e as fontes de energia. Em todos esses setores está havendo con-centração e centralização do capital, assim como a desnacionalização das empresas que os controlam.

3. As classes sociais

36. Diversos pesquisadores sociais adequaram os dados estatísticos da produção agropecuária e flo-restal para chegar aos dados aproximados da condição de classes sociais na agricultura brasileira. Assim, pode-se dizer que há um setor capitalista-empresarial, (aqueles que possuem e controlam os meios de produção e a produção), que seria representado por aproximadamente 450 mil estabelecimentos agríco-las, que possuem 300 milhões de hectares e controlam toda produção de commodities para exportação. Essa seria a classe dominante no campo brasileiro.

37. Os assalariados rurais permanentes: aqueles que trabalham nos estabelecimentos rurais acima de mil hectares. São cerca de 400 mil assalariados. Assalariados rurais temporários e outros 1,8 milhões de assalariados nas propriedades de 500 a 2 mil hectares, totalizando, assim, 2,2 milhões de trabalhadores assalariados para o agronegócio.

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2006 (Censo) é de 2,2 milhões, parte dos quais é constituída por alguns membros das famílias de cam-poneses pobres que migram de suas regiões para trabalhos temporários na colheita da cana, laranja e do café. E o de assalariados rurais permanentes foi de dois milhões.

39. Os camponeses: as estatísticas do IBGE (censo, 2006) identificaram 4,8 milhões de estabelecimen-tos rurais classificados como agricultores familiares, com áreas menores de 100 hectares. Esse seria o núme-ro apnúme-roximado de famílias que vivem supostamente na condição social de camponeses. Destes, um milhão de famílias, aproximadamente, seriam camponeses com renda agrícola que garanta a reprodução social da família e alguma poupança, que vivem de seu trabalho familiar, contratam esporadicamente trabalho assa-lariado e estão integrados no mercado. São os que acessam as linhas de crédito do Pronaf. A maioria deles produz as mercadorias integradas à agroindústria, como suínos, aves, fumo, leite, frutas e hortigranjeiros.

40. Há outras 3,8 milhões famílias de camponeses pobres que estão inviabilizados por esse modelo, que produzem basicamente para subsistência e vendem pequenos volumes de excedentes, sem condições de manter poupança mínima. Entre eles está a base social que lutaria por terra e reforma agrária. Eles estão à margem do modelo econômico do agronegócio, excluídos de políticas públicas, a maioria deles sobrevive com bolsa família do governo ou são dependentes da aposentaria de um membro da família mais idoso. Para os empresários capitalistas, esses camponeses pobres constituem ou reserva de força de trabalho ou fornecedores simples de alimentos para as áreas urbanas locais.

41. Nos vários segmentos de famílias camponesas há 14 milhões de trabalhadores adultos que traba-lham no campo, sob as mais diferentes situações de relações sociais de produção.

42. Há uma superexploração do trabalho agrícola no Brasil. Entre os camponeses, pelo aumento da jornada de trabalho, pelo envolvimento de toda família, e pela baixa remuneração recebida. Entre os proletários rurais, empregados no agronegócio, há uma superexploração relativa, em função da compa-ração dos seus salários, que são maiores do que os camponeses, mas muito menores do que seus equi-valentes trabalhadores das mesmas commodities agrícolas em outros países do mundo. Em média, os tratoristas brasileiros recebem apenas 20% do salário de seu equivalente nos países do Hemisfério Norte, para trabalhar na mesma produção de soja, milho etc.

43. Há ainda casos de trabalho não pago, análogo da escravidão. Segundo os dados do Ministério do trabalho e Polícia Federal registram-se ao redor de cinco mil casos por ano. Apesar da ignomínia que eles representam e devem ser condenados de todas as formas, não é a forma principal de acumulação de capital do agronegócio.

4. As contradições do modelo de produção do capital versus os interesses da sociedade

44. O modelo de produção da agricultura industrial adotado pelo agronegócio é totalmente depen-dente de agroquímicos, estes, por sua vez, são dependepen-dentes de fontes esgotáveis de petróleo, nitrogênio, fósforo e potássio. E, mais, têm seus preços estabelecidos no nível mundial, controlados por um pequeno grupo de empresas transnacionais em práticas de oligopólio. No caso brasileiro, agrava-se essa depen-dência devido às importações, o que afeta inclusive a soberania nacional da produção agrícola. Na últi-ma safra foram importados 16 milhões de toneladas de fertilizantes. O Brasil está importando 75% de todos fertilizantes químicos utilizados.

45. O controle oligopolista das grandes empresas transnacionais sobre o comércio de alimentos leva ao estabelecimento de preços de monopólio (ver Guilherme Delgado) e num processo de padronização dos alimentos, que em médio prazo vai afetar inclusive a saúde pública.

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os 20 maiores países agrícolas no mundo. No entanto, consome 20% da produção mundial de venenos. Os venenos destroem a biodiversidade, alteram o equilíbrio do meio ambiente, contribuem para as mu-danças climáticas e, sobretudo, afetam a saúde das pessoas, com a proliferação de doenças e do câncer. O modelo do agronegócio não consegue produzir alimentos sadios.

47. O controle e a introdução da propriedade privada sobre as sementes por parte das empresas trans-nacionais coloca em risco o modelo de agricultura familiar e afeta a soberania alimentar do país, em médio prazo. Quem controlar as sementes e mudas controlará a agricultura como um todo.

48. A propriedade privada por empresas estrangeiras dos recursos da natureza como terra, água, florestas e minérios gera uma contradição entre os interesses do povo brasileiro com os interesses dos empresários capitalistas.

49. O modelo em curso de dominação mundial do capital que impôs uma redivisão do trabalho e da produção no mundo condenou os países do Hemisfério Sul a serem produtores apenas de matérias--primas, agrícolas e minerais. Isso vai aumentar as desigualdades no mundo e aumentarão os conflitos sociais em médio prazo.

50. A riqueza produzida na agricultura e os excedentes do trabalho agrícola, que antes ficavam na mesma região (mesmo que fosse para os capitalistas), hoje são apropriados em outras esferas e outros centros urbanos, gerando maiores desigualdades sociais e regionais.

51. A expansão da monocultura elimina a biodiversidade e traz maior dependência econômica, maior fragilidade social e graves consequências ambientais, que começam a ser percebidas em todas as regiões.

52. O modelo do agronegócio, ao contrário da etapa do capitalismo industrial, não distribui renda e nem gera emprego para juventude. O capital aplica um modelo de produção agrícola, sem agricultores e com pouca mão de obra. Isso traz como contradição a falta de futuro da juventude, o aumento da mi-gração e o despovoamento do interior.

53. Os grandes proprietários de terra (que antes, enquanto latifundiários, auferiam todos os lucros e exerciam o poder político decorrente desse poder econômico), agora têm que dividir seus ganhos, e perdem poder político. E, portanto, passam a ter contradições, ainda que secundárias, com os outros capitalistas. Certamente, serão perceptíveis na próxima geração dos herdeiros dos latifundiários, que tampouco conseguem se reproduzir como latifundiários.

54. O modelo do agronegócio expulsa permanentemente mão de obra do campo. Que migram para as cidades. Porém, num segundo momento, quando concentram a produção e fazem novos investimen-tos, não estão conseguindo levar mão de obra para o campo para trabalhar como seus empregados. Muito menos entre a juventude. Assim, gera-se uma contradição, pois o modelo não atrai mão de obra e em médio prazo será um grave limitante.

55. A lógica predominante na apropriação dos bens da natureza é apenas o lucro. É a busca perma-nente da renda extraordinária que a exploração dos bens naturais proporciona. Isso vai gerando uma contradição permanente, por serem bens limitados frente às crescentes necessidades da população de se alimentar e atender suas necessidades.

II. A natureza da luta pela reforma agrária: contexto histórico e desafios atuais

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Ao final do capítulo, relatamos os desafios que o MST e as lutas pela reforma agrária enfrentam no momento atual, em nosso país.

2. Na transição do feudalismo europeu – e até mesmo do modo de produção asiático e das sociedades pré-capitalistas em geral – para o capitalismo comercial, os camponeses lutaram pela direito ao acesso a terra, contra as oligarquias rurais e senhores feudais. Essas lutas, restritas às demandas dos próprios camponeses, ainda não se caracterizavam como lutas pela reforma agrária.

3. Somente a partir do desenvolvimento do capitalismo industrial no século 18, a expressão “reforma agrária” começou a ser utilizada. Neste período, a Reforma Agrária passou a ser uma política de governo e de Estado para mudar a estrutura de propriedade e de produção agrícola de um país e, consequente-mente, atender as demandas das nascentes sociedades urbano-industriais.

4. A mudança na estrutura fundiária atendia aos interesses imediatos dos camponeses que lutavam pela posse da terra e contra a espoliação dos grandes proprietários. Mas ia além, era uma exigência para impulsionar os processos de industrialização e para criar e consolidar o mercado interno das sociedades capitalistas.

5. No processo de desenvolvimento do capitalismo industrial, o desafio de desenvolver o mercado interno para suas fábricas confrontou-se com a enorme concentração da propriedade da terra e o fato de que a maioria da população vivia no campo e sem terra e sem renda, estava excluída desse mercado. Para resolver essa contradição, as burguesias industriais, que controlavam as estruturas do Estado, impuse-ram contra os interesses das oligarquias rurais a Reforma Agrária. A democratização da propriedade da terra aos camponeses.

6. Ao democratizar a propriedade da terra, desapropriando os senhores das terras e superando os resquícios do feudalismo, o Estado burguês visava transformar os camponeses em produtores de mer-cadorias para a indústria e de alimentos para a população urbana e, com isso, obter renda para serem compradores/consumidores das mercadorias de origem industrial.

7. Esse tipo de Reforma Agrária, iniciado nos países da Europa ocidental e nos Estados Unidos, a partir de 1870, estendeu-se pelos países de todo Hemisfério Norte até a década de 1950, com a guerra da Coreia. Todas elas, nos diferentes países e tempos históricos, serviram de apoio aos processos de de-senvolvimento industrial implantado pela burguesia.

8. Essas mudanças nas estruturas fundiárias, feitas pelo Estado burguês, são as chamadas reformas agrárias clássicas burguesas ou, simplesmente, reformas agrárias burguesas. Em comum, elas têm as se-guintes características básicas: eram realizadas pelas burguesias industriais; potencializavam o mercado interno através da democratização da propriedade da terra; e, buscaram transformar os camponeses em produtores e consumidores de mercadoria.

9. Dessa matriz de reforma agrária clássica burguesa, surgiram inúmeras outras propostas em países periféricos adequadas à suas realidades, aos desafios que se propunha superar e, sobretudo, à correlação das forças políticas do período histórico em que foram implantadas. Aqui na América Latina, o governo John Kennedy chegou a promover uma reunião continental em Punta del Este (1961) para estimular que os governos fizessem reforma agrárias burguesas, como forma de desenvolver o mercado interno e impedir que os camponeses se radicalizassem como havia acontecido na revolução cubana. E os econo-mistas da Cepal (Organismo das Nações Unidas para América Latina) difundiram essa tese como forma de enfrentar o subdesenvolvimento durante toda década de 1960.

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terras férteis ao longo do rio Nilo aos camponeses na década de 1960. No Brasil, a inclusão da Reforma Agrária nas Reformas de Base do governo João Goulart, pode ser vista como uma tentativa desse tipo de reforma agrária, dentro de um projeto de desenvolvimento nacional capitalista.

11. Há, também, as reformas agrárias anticoloniais, que representavam a distribuição de terras aos camponeses crioulos, que as tomavam dos capitalistas colonizadores. E que nem se chamavam de re-forma agrária, mas apenas o direito à terra de quem nelas trabalhasse e morasse. Assim se consolidou a distribuição de terras a camponeses, na revolução social do Haiti (1804) por Dessalines, e na década de 1810, no Uruguai (governo Artigas) e Paraguai (governo França) e de certa forma a distribuição de terras feita durante a revolução mexicana de 1910-1920.

12. Por outro lado, houve o impulso das lutas de liberação nacional, após a II Guerra Mundial (1939-1945), no continente asiático e africano. As forças que promoveram as lutas pela independência dos seus países expropriaram as terras dos colonos europeus e as entregaram aos camponeses. Foram reformas agrárias que buscaram, sobretudo, consolidar a soberania política do país. Países como Moçambique, Angola, Guiné-Bissau, Tanzânia, Zimbawe, Argélia, Líbia... se enquadram nesse exemplo de reforma agrária.

13. Há também as reformas agrárias de governos populares que, em distintos processos históricos, se propunham a fazer uma transição do capitalismo para uma sociedade socialista. As reformas agrárias ocorridas em Cuba, com a Revolução de 1959, Vietnam, a partir da vitória sobre os Estados Unidos em 1973, e a da Nicarágua sandinista, em 1979, são alguns desses exemplos.

14. Por último, há as reformas agrárias propostas pelas revoluções populares que ousaram superar as formas de organização capitalista. São as Reformas Agrárias socialistas. Estas nacionalizaram a proprie-dade da terra, como um bem de toda nação, socializaram a proprieproprie-dade dos meios de produção e cole-tivizaram, de diferentes formas, o trabalho agrícola. Foram reformas agrárias realizadas dentro de um conjunto de políticas adotadas por governos resultantes de revoluções sociais e que se propunham cons-truir o socialismo. Portanto, estavam subordinadas às mudanças radicais no modo de produção geral da sociedade. Podemos citar como exemplos desse tipo de reforma agrária as que ocorreram resultantes das revoluções russa (1917), iugoslava (1945) chinesa (1949) e da Coreia do Norte (1956).

15. No Brasil, ao longo da nossa história, tivemos diversas propostas e tentativas de realizar uma re-forma agrária dentro dos marcos do desenvolvimento do capitalismo nacional. Alguns abolicionistas, como Joaquim Nabuco (1849-1910), defenderam com ênfase que a liberdade do povo negro deveria ser acompanhada de um processo de distribuição de terras. Foram derrotados pela oligarquia rural, escra-vocrata e controladora do poder político, os chamados coronéis das terras.

16. Ainda na transição – da plantation (grandes fazendas de monocultivo que utilizavam trabalho escravo e se dedicavam a exportação) do capitalismo comercial escravocrata para o capitalismo indus-trial, surgiram os primeiros movimentos camponeses e houve muita luta e disputa pela terra, em todo território. As comunidades camponesas lideradas por líderes religiosos – como a de Canudos/BA (1894-1896), Contestado/SC (1912-1916) e Caldeirão/CE (1926-1937) – exemplificam esse tipo de luta pela terra. Buscavam garantir a sobrevivência, o trabalho e a reprodução camponesa, em condições naturais e políticas extremamente desfavoráveis. Nem sequer foram chamadas de reforma agrária por esses luta-dores camponeses.

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