• Nenhum resultado encontrado

A filosofia positivista de Augusto Comte

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "A filosofia positivista de Augusto Comte"

Copied!
13
0
0

Texto

(1)

A

ILOSOFIA POSITIVISTA DE AUGUSTO

COMTE

EUSAMARIACASTELOGUIMARÃESI

MARIAVIEIRALIMACOELH02

IIIII dução

Esse estudo tem comoobjetivo revisitar a corrente filosófica positivista e 1IIIIIIIluêncianaformação política, social, cultural eeducacional dopovobrasileiro. Augusto Com te éum filósofo que representa opensamento do século I ,criou o termo positi vismo para designar uma diretriz filosófica que busca IIINlundamentos nas ciências ena organização técnica eindustrial da socie-dlid\"moderna. Somente o método científico éusado para se chegar ao conhe-IIIII mio. Reflexões oujuízos quenão se podecomprovar pelo método científico, 1111,10ospostulados dametafísica, não levam ao conhecimento enãotêmvalor.

Da obra deCornte destacam-se trêspartes fundamentais. ALeidos três Isutdos onde considera que as sociedades humanas passam por três estágios ao "111'o de sua evolução, oteológico, ometafísico e opositivo. A classificação di" ciências, onde estabelece uma ordem para oestudo intelectual que vai do IlIdis simples para o mais complexo. A reforma da sociedade que propunha 11111rcestruturação11 intelectual emoral das pessoas para instituir aordem.

O positivismo teve grande influência nos setores das elites brasileiras, 11'incipalmente junto aos militares, durante a campanha da Proclamação da 11,'pública. Defendendo um regime republicano que tenha uma estrutura forte, I" (' iam uma "ditadura republicana" que vemacompanhando as elites militares .11'longo daRepública e se manifestando até o golpe militar de 1964.

A partir dessas formulações este trabalho está organizado em partes que "" formasintética, descrevem asnoçõesbásicas do positivismo deAugusto Cornte, 11Mlemas centrais da filosofia comteana e ainfluência dopositivismo no Brasil.

Noções Básicas Sobre o Positivismo e Seu Precursor - Comte O pensamento positivista surgiu nointerior doIluminismo eda socie-.ludcburguesa, nofinal doséculo XVIII eteve seuapogeu no século XIX, em nnurgonismo ao movimento socialista ouMarxismo.

I )rientadora Educacional eProfessora do ensino médio e superior. Mestranda da UFC. IProfessora da Universidade Estadual do Ceará - Uece eDiretora do Centro Regional ti· Desenvolvimento Educacional- Crede 10, em Russas.

(2)

AFILOSOFIA POSITIVISTADEAUGUSTO COMTE

Enquanto asinteligências individuais não aderirem, graças a um assentimento unânime, a certo número de idéias gerais capazes de formar uma doutrina social comum, não sepode dissimular que o estado das nações permanecerá de modo ne-cessário, essencialmente revolucionário, a despeito de todos os paliativos políticos possíveis de serem adotados - compor-tando realmente apenas instituições provisórias (COM TE, 1996, p. 40)

Augusto Comte foio grande precursor dafilosofia positivista. Inspira-do em Saint-Simon, de quem foi secretário, que lhe passou o entusiasmo de Turgot e Condocert, desenvolveu aidéia de que" os fenômenos sociais bem como os físicos podiam ser reduzidos a lei científica e que toda a filosofia devia concentrar-se no progresso moral epolítico da humanidade". Éna ela-boração dessas leisque reside o grande papel dasciências.

Segundo Augusto Comte, aderrota do \luminismo e o fracasso da Re-volução Francesa foram ocasionados pela falta de concepções científicas. Para ele, a política tinha que seruma ciência exata.

Nesse contexto, Comte abordou como um dos temas centrais de sua filosofia, anecessidade deuma reorganização completa dasociedade, partindo da regeneração das idéias e das ações dos homens, portanto de uma reestruturação intelectual daspessoas enão darevolução das instituições soci-ais, como defendiam os socialistas da época, demonstrando assim oseu espíri-to conservador, além de referendar aideologia burguesa que estava no poder. Esse tema demonstrava afilosofia comtiana como uma teoria da ciência, uma organização da sociedade e uma religião, tendo como núcleo a afirmação de que" a sociedade só pode ser convenientemente organizada através de uma completa reforma intelectual dohomem".(COMTE, 1996,p.8). Para isso seria necessário fornecer aoshomens novos hábitosde pensar de acordo com o esta-dodasciências do seu tempo.

Para elaborar alei que rege toda afilosofia positivista, Comte partiu da explicação do desenvolvimento da inteligência humana, ou seja, a evolução histórica do conhecimento, desde osprimórdios até os dias "atuais" e assim a definiu:

Essa lei consiste emque cada umade nossas concepções prin-cipais, cada ramo denossos conhecimentos, passa sucessiva-mente por três estados histáricos diferentes: estado teológico ouficticio, estado metafisico ou abstrato, estado científico ou positivo Em outros termos, o espírito humano, por sua natu-reza, emprega sucessivamente, em cada uma de suas investi-gações, trêsmétodos defilosofar; cujo caráter é essencialmente diferente e mesmo radicalmente oposto: primeiro o método

(3)

A FILOSOFIA POSITIVISTA DE AUGUSTO COMTE

ológico, em segundo, ométodo metafisico,finalmente o méto-dopositivo. Daí três sortes defilosofia ou de sistemas gerais de concepções sobre o conjunto defenômenos, que se excluem mutuamente: aprimeira é oponto de partida necessário da inteligência humana, a terceira, seu estadofixo edefinitivo; a segunda, unicamente destinada aservir detransição. (COM TE,

1996, p.22).

1\ lei dos três estados sintetiza opensamento Comtiano sobre a evo lu-111luxtórica ecultural da humanidade.

Defendendo o estado científico ou positivo como o mais perfeito no d e-\I ulvimcnto da inteligência humana, passou a adotar o termo Positivismo para I, 11'1111uma d1' iretriz filosófica marcada pelo" culto da ciência epela sacralização IlIlIwlodo científico", (COTRlM, 1999, p. 181), gerando assim confiança e o ti-1111l'iI\) muito forte em relação ao progresso guiado pela "técnica e pela ciência".

A principal característica doestado positivo éa "subordinação dairnagi

-11011II1I 'da argumentação àobservação", (COMTE, 1996, p.9 ) reconhecendo que:

Somente são reais os conhecimentos que repousam sobrefatos observados ... Considerando como absolutamente inacessível e vazia de sentido para nós ainvestigação das chamadas cau-sas, sejam primeiras, sejamfinais. (COMTE, 1996, p. 24). Essa renúncia ao conhecimento das causas e dos fenômenos torna a c i-111111c1omo investigação do real, sendo apesquisa das leis gerais que regem os

ItIUIll1enOSnaturais, residindo aío grande ideal das ciências.

Baseado nessas leis, o homem torna-se capaz de prever os fenômenos U uurais, podendo agir sobre a realidade, gerando daí olema da filosofia pos

i-111" "ver para prever". Desse modo o conhecimento científico torna-se um 1I1~llumento de transformação da realidade e de domínio do homem sobre a uutureza. Essas transformações visam oprogresso, que deve estar subordinado ,I urdem e daí um outro lema positivista direcionado à sociedade "ordem e I'llIgrcsso".(COTRIM, 1999, p.185).

Esse lema ficou muito claro, quando Cornte se refere à ciência social I111110a mais importante de todas eque a sua fundação teórica coincide com a ~'ionde necessidade de regeneração da Europa Ocidental, afirmando que:

Uma sistematização real de todos os pensamentos humanos constitui pois nossa primeira necessidade social, igualmente quanto à ordem e oprogresso (COMTE, 1996 p.7l). Para ele, uma verdadeira ciência deveria analisar todos os fen ôme-IIIIS, mesmos os humanos, como Jatos. Assim, a filosofia corntiana está base -IId~1na certeza de que a ciência éo único conhecimento, aúnica moral e a

(4)

5

0

0ilos(']r!au)dilos

A FILOSOFIA POSITIVISTA DE AUGUSTO COMTE

única religião possível, explicitada em suas teses fundamentais, (conforme

ZILLLES, 1987, p.133):

1 - O único conhecimento verdadeiro possível é a ciência, e seu método é o único válido. Não mais interessam as causas ou princípios meta físicos, pois esses não têm valor porque são inacessíveis ao método da ciência.

2 - O método da ciência é puramente descritivo. Como teoria do saber, o positivismo nega-se a investigar uutra realidade que não os fatos e a relação entre os mesmos. Quanto à expli-cação, sublinha decididamente o como e evita responder ao que, por quê e para quê.

3 - Sendo o método da ciência o único válido, deve ser estendi-do a tuestendi-dos os campos da pesquisa e da atividade humana em geral. Desta forma, toda vida individual e social deve orien-tar-se no método da ciência. O positivismo pretende, pois, ob-servar toda manifestação do homem na ciência. A própria filosofia reduz-se aos resultados da ciência.

Essas teses sintetizam os fundamentos do Positivismo que estão explicitados na lei dos três estados no Discurso sobre o Espírito Positivo.

Nessa obra Comte aponta as principais características que diferenciam o positivismo das demais filosofias:

Realidade: pesquisa de fatos concretos, acessíveis à nossa inteli-gência, deixando delado a preocupação com mistérios impenetrá-veis referentes às causas primeiras e últimas dos seres.

Utilidade: busca de conhecimentos destinados ao aperfeiçoamento individual e coletivo do homem, desprezando as especulações oci-osas, vazias e estéreis.

Certeza: obtenção de conhecimentos capazes de estabelecer a har-monia lógica namente do próprio indivíduo e a comunhão emtoda a espécie humana, abandonando as dúvidas indefinidas e os i nter-mináveis debates metafísicos.

Precisão: estabelecimento de conhecimentos que se opõem ao vago, baseados em enunciados rigorosos, sem ambigüidades.

Organização: tendência a organizar, construir metodicamente, sis-tematizar o conhecimento humano.

Relatividade: aceitação de conhecimentos científicos relativos. Se não fossem relativos, não poderia ser admitida a continuidade de novas pesquisas, capazes de trazer teorias com teses opostas ao conhecimento estabelecido. Assim, a ciência positiva é relativa porque admite o aperfeiçoamento e a ampliação dos conhecimen

(5)

A FILOSOFIA POSITIVISTA DE AUGUSTO COMTE

Itil) TrêsEstados: Centro da Filosofia Comtiana

Alei dostrês estados fundamenta a Filosofia Positiva e sintetiza opensa

-111lil"til' Cornte sobre aevolução histórica e cultural dahumanidade.

l'lIra Cornte o mundo étransformado e conduzido pelas idéias e é a

,tlll~11(1tia inteligência humana que comanda o desenrolar da história. Ele I"II11'lU ' nós não podemos conhecer o espírito humano, senão através de ,I"I 11.cssivas, obras decivilização ehistória dosconhecimentos e dasc

iên-I iên-I 1/111li'inteligência produziu alternadamente no curso dahistória. A filoso -II I' 1IIIIIlstadahistória é uma filosofia dahistória do espírito através dasciências.

1111\l espírito humano, para explicar o universo passa sucessivamente por I, Isuulo : Oteológico, ometafísico e o positivo.

No estado teológico ohomem compreende o mundo, anatureza apar

-II dllcrença em seres sobrenaturais. Ascausas primeiras e finais de todos os

I II,',~sfíoproduzidas pela açãode agentes sobrenaturais, tornando o

conheci-11111111absoluto, pois o homem não coloca qualquer problema dando-se por 111leito com aexplicação do mundo pelos deuses epelos espíritos.

A mentalidade teológica desempenha também muita influência naco

-,111social e navida moral, uma vez que gera acrença em poderes imutáveis

•I,,,dos na autoridade, tendo naorganização política correspondência com a IIIIIIIIII'quiaemilitarismo.

Nesse estado, aexperiência é muito pouca, tudo éapelado para a di

-Illdllde, seja na forma fetichista, transformação de objetos ou seres naturais 111divino, seja na forma politeísta, várias divindades, ou monoteísta, uma só ./1 lntlnde. Essa forma é amais desenvolvida do espírito humano e serve de 11111'ição paraoestado metafísico.

O estado metafísico caracteriza-se pela concepção de "forças" para plicar osdiferentes grupos defenômenos, substituindo osdeuses doestado

li'ilugico. Estas forças, químicas, vitais, reúnem-se numa sóchamada" na

tu-" li"equivalente aodeus único (monotefsrno).

Ametafísica diferencia-se do teológico, porque procura explicar ana

-11111'/[1Íntima das coisas, suas causas primeiras efinais, desfazendo aidéia de

uliordinação da natureza edo homem do sobrenatural. No plano político, o • uulometafísico corresponde a"substituição dos reispelosjuristas e a soei

-,d ulc metafísica origina-se deum contrato e tende a basear o estado na sob e-111111d11o povo". (SILVA, 1982, p.2).

O estado positivo éaquele quea humanidade sóalcançou com oadvento dll Iilosofia positivista, e noqual passou a observar diretamente os fenômenos, a lunitar-se aosdados do sentido e a guiar-se pelaluzda experiência. É oestado em 1/111o e' spírito renuncia aprocurar os"finsúltimos" e a responder aos"porquês". noção de causa, transposição abusiva daexperiência interior doquerer para a 1IIIIIIreza,ésubstituída pelanoção de lei.

Segundo Comte, o estado positivo caracteriza-se pelo reconhecimento d,'que" somente são reais osconhecimentos que repousa~n sobre fatos obser

(6)

AFILOSOFIA POSITIVISTA DE AUGUSTO COMTE

vados", (COTRIM,1999, p.185 ), subordinando assim aimaginação e a argu -mentação àobservação.

Em sua primeira lição no curso de Filosofia Positiva, aodefinir a Lei dos três estados diz que:

No estado positivo o espírito humano, reconhecendo a

im-possibilidade de obter noções absolutas, renuncia a proc

u-rar a origem e o destino do universo, a conhecer as causas

internas dos fenômenos, para preocupar-se unicamente em descobrir, graças ao uso bem combinado do raciocínio eda observação, suas leis efetivas a saber, suas relações invari -áveis de sucesso e similitude. A explicação dos fatos, redu

-zida então a seus termos reais, se resumem de agora em

diante na ligação estabelecida entre os diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais, cujo número o progresso

da ciência tende cada vez mais a diminuir. (COMTE, 1996,

p.22-23)

A Lei dos três estados é então oprimeiro tema básico do positivismo, isto é, afilosofia da história onde esclarece a evolução doconhecimento uni -versal humano.

Classificação das Ciências - A Hierarquia do Saber

Conforme Augusto Cornte, as ciências devem serclassificadas consi

de-rando o maior ou menor grau de simplicidade ougeneralidade dos respectivos

fenômenos estudados. Partindo desse princípio ele estabeleceu uma ordem lóg

i-ca para o estudo intelectual, que devia ser obedecida pela educação científica pois sem aqual amédia geral doshomens seráincapaz deatingir o estado ma du-ro daracionalidade positiva. Até mesmo asinteligências superiores não podiam

dispensar essa ordem, pois correriam o risco deficar com lacuna emsuaforma

-ção racional e estas serem preenchidas porconhecimentos de origem teológica

ou metafísica.

Com o mesmo princípio de estudar os fenômenos partindo do mais simples e geral para os mais complexos e específicos, Comte classificou as

ciências hierarquicamente assim: matemática, astronomia, física, química, bi

-ologia e sociologia.

A sociologia, para Comie, representa a " totalização do saber", que

culminaria com a"formulação deumsistema verdadeiramente indivisível, onde

toda decomposição éradicalmente artificial (...)".(COMTE, 1996,p.ll). O·termo sociologia foi criado pelo próprio Cornte, que utilizava um amplo sentido, compreendendo os estudos depsicologia, ética, direito, econ o-mia política e afilosofia daHistória. .

(7)

AFILOSOFIA POSITIVISTA DE AUGUSTO COMTE

1',11;1Corrue, a sociologia tem como aspecto fundamental, adistinção

11 11 1IIIIçasocial, representada pelo conceito de ordem, e adinâmica social,

I' 1111,111p1e1lo conceito de progresso. A estática pesquisaria os elementos

111111t1lll" da sociedade, como a família, a propriedade, a linguagem, o dire

i-I"'III"'!\),~IC,c a dinâmica, por outro lado,pesquisaria as leis dodesenvolv i-11111"11 '1'1'.ssivoda sociedade. Comte firma a idéia de que a dinâmica social II """lIdinada àestática, e que o progresso deve partir da ordem para aperfei

-1111 1'1"llIelllos sociais permanentes. Portanto, oseu projeto dereforma social

I1I ,',/I//O/" por princípio, aordem por base e oprogresso porfim.

I' -ntão, aclassificação da ciências, osegundo tema básico dafilosofia

11I11.t1l11

I

'

f

'

/DI

ma das Instituições

1\ reforma das instituições para Comte está baseada nos fundamentos

u u II~dasociologia e deveria seguir os seguintes passos: reforma intelectu

-li 111111ma moral e por último, reforma política eatravés destas, areorganiza -111tllIsociedade, Para ele, "as idéias governam e subvertem o mundo",

IIIMTU,1996,p.39), isto é, "todo mecanismo social repousa finalmente so-11' upiuiôcs" .(COMTE, 1996, p.39 - 40). Segundo ele, a"grande crise

polí-11," I moral das sociedades atuais provém em ultima análise, da anarquia

11111"I'Iual" (COMTE, 1996, p.40).

onforme Comte, aRevolução Francesa destruiu muitos valores im -,,"l.lIlIe. da sociedade européia enão foicapaz de oferecer fundamentos para

, 11'"gunização dasociedade burguesa emergente, sendo necessária uma nova 11111'.ientífico-industrial, para formular esses novos fundamentos enisso con

-I11'11grande tarefa da filosofia, só afilosofia positiva pode serconsiderada a 111111b'1as1e sólida da reorganização social" , (COMTE, 1996, p.39),

AFilosofia Positiva tem como finalidade maior restabelecer a ordem I/li sociedade capitalista eindustrial,

Em relação aosconflitos sociais existentes entre o proletariado indu

s-111111eoscapitalistas, Comte tem uma posição conservadora. Para ele, "todas

I medidas sociais deveriam serjulgadas em termos de seus efeitos sobre a

III"se mais numerosa e mais pobre, concordando dessa forma com a divisão

tI,l' classes sociais, a exploração industrial, e legitimando a existência dos

Irnprcendedores capitalistas e dos operadores diretos, o proletariado".

Ii'OTRIM, 1999, p,187).

Para ostrabalhadores prega uma doutrinação positivista, comoobje

ti-vo de inspirar o gosto por trabalhos práticos e mecânicos, preparando-os para

Jll'I'ccber que:

A harmonia afetiva, mesmo privada e, sobretudo pública,

so-mente épossível mediante aevidente necessidade de subordinar

(8)

AFILOSOFIA POSITIVISTA DEAUGUSTO COMTE

a existência humana a essaascendência exterior, única a tomar

disciplináveis nossos instintos egoistas. (COMTE, 1996p.84).

Nos últimos quinze anos de sua vida, Comte criou uma nova religião

denominada Religião da Humanidade, inspirado emsuadeusa Clotilde deVaux

e os santos eram os pensadores Dante, Shakespeare, Galileu, Adam Smith,

etc(COTRIM, 1999, p.188).

Para difundir a nova religião elaborou também um Catecismo

Positivista, onde deixou explícitas suas concepções dogmáticas, autoritárias e

conservadoras.

o

Positivismo no Brasil e sua Influência na Educação

A corrente filosófica positivista exerceu considerável influência no mundo inteiro, e em particular no Brasil, por ser um país de pouca tradição cultural e com ideologia inconsistente para dar conta dos anseios

desenvolvimentistas que ocorriam naquela época.

Asidéias positivistas chegaram ao Brasil por volta de 1850,durante o

Segundo Império, trazidas porbrasileiros que completaram os estudos naFrança,

tendo alguns sido alunos do próprio Augusto Comte. Nesse período, asitu

a-ção sócio-política no Brasil eradeinsatisfação entre ospolíticos e intelectuais.

O Imperador D.Pedro Ilcentralizava opoder em suas mãos detal forma, que

tinha ocomando dos partidos e estadistas, fazendo edesfazendo ministérios e

ministros, de acordo com o seu interesse. Oimperador sempre neutralizava a

oposição e a luta política travava-se entre dois partidos, o Conservador e o Liberal, que revezavam-se nopoder.

Agrande questão política da época era aescravatura, combatida pelos positivistas edefendida pelos conservadores, que tinham o trabalho escravo

como suporte daeconomia basicamente agrícola.

Asmedidas adotadas pelo Imperador eram paliativas evisavam uma

"abolição progressiva", através da sanção de leis regulamentadoras, inicial -mente em relação ao tráfico de escravos, depois quanto aos escravos idosos e ainda aLei doVentre Livre, que alongo prazo acabaria aescravatura nopaís.

Juntamente com oproblema da escravidão, começa aformação deuma

classe de profissionais, filhos, representantes ou herdeiros dos senhores de engenho edas fazendas decafé, cuja a formação intelectual originava-se geral

-mente de um curso de humanidades em Colégio Jesuíta ecomplementada na Universidade deCoimbra, inicialmente, e depois, nas duas faculdades de Di

-reito brasileiras (Recife e São Paulo). '

Dentro do contexto exposto, percebe-se que o Brasil não possuía

uma filosofia definida e aspirava por idéias que oferecessem uma nova con -cepção de valores ede orientações dos seus atos eoPositi vismo vem pr e-encher esta lacuna.

(9)

firlLOSOFIA POSITIVISTADE AUGUSTO COMTE

dlHllrinas comtianas começaram a aparecer na Escola Militar do

I 111111111desde 1850. e posteriormente foram se difundindo no Colégio

" I11 I IlIlll da Marinha, Escola de Mediana e Escola Politécnica. Aqui as 11 111'.ruvistas eram basicamente cientificistas eaplicadas aos campos da I I t\1 1II'IIlútica e Biologia. A tendência apostólica se efetiva apartir de

I 1"'1 MI11Iel Lemos eRaimundo Teixeira.

I

nu

etunto, o marco inaugural do Positivismo no Brasil foi a obra

I111 1'1'1''ira Barreto - As Três Filosofias, onde apontava a filosofia II I tu como capaz de substituir a tutela intelectual, que aIgreja Católica , II1111puís.

1'111importante também o papel dos ortodoxos como Miguel Lemos e 0111111111'Icixeira111 Mendes, que tendo iniciado no positivismo através da ma

-1111111li"das ciências exatas, viram na ciência de Augusto Comte "as bases I 111111p1olítica racional e pressentiram, na sua coordenação filosófica o con

-," '11111'111d0efinitivo da ordem edo progresso, como diria mais tarde o pró -(lill t\lll'lIel Lemos". (COMTE, 1996, p.13).

Seguindo também os ensinamentos de Cornte, Benjamirn Constant de -11 -111vcu lima forte atividade doutrinária, tendo como principio a educação

II I Pritos para organização da sociedade em nível positivo, instaurando I 111111111regime de Ordem e Progresso. Essa doutrinação que Cornte preten

-101dirigir ao proletariado europeu, no Brasil foi voltada para aburguesia e

I uvolvcu-se prioritariamente nas Escolas do Exército.

Essas atividades originaram, entre alguns brasileiros, um ideal de

re-1"lhll, tisemelhante à ditadura sociocrática positivista, uma filosofia política, '111I 1,'111como pressuposto que a "sociedade caminha necessariamente para

11111.ice1 truturação racional ou científica". Segundo eles somente uma ditadu

-I ,"l'iocrática nos moldes positivistas, resolveria os nossos problemas. Daí

I'I urum adefender o republicanismo.

A campanha republicana no Brasil setravou entre anti-rnonarquistas e

uivcrvadores, bem como dentro do próprio Partido Republicano, reforçada

I"I"atividades da Igreja Positivista, que formava o grupo dos ortodoxos. I111I.ranto, aProclamação da República deve ser creditada aos chamados

dis-Idl'i\ICS ou militares políticos que, como Benjamin Constant, realizaram uma

1.III,ra doutrinária.

O"apogeu do positivisrno" no Brasil, aconteceu imediatamente àPro

-,lnmação da República, deixando marcas muito fortes nas medidas adotadas, .1 quais podemos citar:

a bandeira republicana com o seu dístico ORDEM EPR

OGRES-SO;

a separação da Igreja e do Estado;

o decreto dos feriados; ocasamento ci vil;

(10)

AFILOSOFIA POSITIVISTA DE AUGUSTO COMTE

Ospositivistas influenciaram também a formação da Assembléia

Cons-tituinte organizada um ano após a Proclamação da República, alcançando re-formas como liberdades religiosa e profissional, proibição do anonimato na imprensa, abolição de medidas anticlericais, edepois, a reforma educacional

de Benjamin Constant, que expandiu asidéias positivistas.

A influência dessas idéias foram muito fortes no processo histórico

brasileiro eteve como núcleo irradiador dessa doutrina o Rio Grande do Sul,

através de Júlio de Castilho. Segundo ele, "a república é legítima, não por direito divino nem por direito popular, mas por direito científico e

histórico".(SILVA, 1982,p.3). Nasce então umafacção política conservadora e anti-democrática que dominou o Rio Grande do Sul durante 40anos econt a-minou o país todo. Dentre os pontos básicos positivistas adotados pelo castinhismo estão:

o centralismo do poder em mãos dochefe doexército;

a continuidade administrativa garantida pela reeleição do governante.

Essa atitude absolutista e antidemocrática perdurou por muito tempo, chegando até Getúlio Vargas, queprocurou implantá-Ia anível nacional (1930

-1945), principalmente nochamado Estado Novo.

Após Getúlio Vargas, asidéias positivistas voltam ao ideário político

brasileiro no período da Ditadura Militar, que sob a égide da ordem para

ga-rantir o desenvolvimento euma sociedade organizada, colocou maisuma vez o

poder centralizado, desta vez, nas mãos dos militares.

E hoje, encontraríamos ainda traços positivistas no Brasil? Se olhar -mos o modelo político imposto pelo governo eo comportamento de alguns

políticos na condução das políticas públicas deste país, com certeza daremos conta, que idéias positivistas ainda estão presentes nocontexto sócio-político

brasileiro.

Positivismo e Educação Brasileira

Comte deixou claro, ao estabelecer aFilosofia Positiva, ane -cessidade de uma reforma geral do sistema de educação. Na Ia lição do seu

curso de Filosofia Positiva assim adefendeu:

Osbons espíritos reconhecem unanimemente anecessidade de substituir nossa educação européia, ainda essencialmente te-ológica, metafisica e literária, por uma educação positiva, conforme ao espírito de nossa época e adaptada às necessid a-des da civilização moderna (COMTE, 1996, p.37).

(11)

A rlLOSOFIA POSITIVISTADEAUGUSTO COMTE

IIIIcomo influenciou a vida política e social de muitos países, a

I I1'11'invista foi marcante nos sistemas educacionais, inaugurando o 1 I 111I uiu" na Educação.

I'"" (t(ldotti, o"pensamento positivista caminhou na pedagogia, para I 111"" 1110,que só considerava válida aformação utilizada praticamente 101I i"I'Nl'ntc, imediata",(GADOTTI, 1995, p.LlO),combinando assim

11111IIIIIIHlo positivo, que considera a experiência como base para o

11t, 1111111110.

NII I':ducação brasileira opositivismo repercutiu com maior intensid a-111di 11'1minados momentos históricos. No final do século passado, com a 1,111111 111do primeiro projeto de formação do educador.

( "ulotti descreve ainfluência nesse contexto no seguinte trecho:

Apesar de pouco entusiasmo que os educadores progressistas

demonstram pelo pensamento pedagógico positivista, devido suas implicações político-ideológicas, ele trouxe muitas con

-tribuições para o avanço da educação, principalmente pela

crítica que exerceu sobre o pensamento humanista cristão.

(GADOTTl, 1995, p. 111)

Outro momento de propagação do positivismo foi oda Ditadura Mili

-I li' tulada apartir de 1964. O modelo educacional adotado tinha como base

I"d Ij'ogia tecnicista calcada no princípio da neutralidade e a escola funciona 11I upcrfciçoar a ordem social vigente. As informações, os princípios e as leis "I urbclecidas e ordenadas numa seqüência lógica e os conhecimentos são .lu.ulos ao observável emensurável.

Para referendar essa pedagogia, a reforma do ensino de 10e 20 graus

," 1I1111izou-se com aLDB 5692/71, que ampliou a carga horária de disciplinas

,I, IIII'IIStécnicas, supervalorizando o ensino profissionalizante e em contrapartida,

"dll/inLlo as horas aulas das ciências humanas e sociais e objetivando a I,uuinalidade dos estudos para amaioria dos alunos.

Apesar das reformas educacionais que aconteceram apartir de rrÍeados ,1,I unos oitenta, ainda épossível perceber algumas "nuances" do positivismo

1111pcusarnento educacional brasileiro, disfarçadas na proposta de educação

1"IIIIssional ena ênfase das ciências exatas no currículo das nossas escolas.

onc

l

usão

O positivisrno manifestou-se de modo variado em diversos países oci

-",'''Iais a partir da segunda metade do século XIX, ereflete no plano filosófico

u cntusiasmo burguês pelo progresso capitalista epelo desenvolvimento

técni-111 industrial, em contraposição a corrente marxista também muito discutida

IItIcpoca, o que caracteriza o conservadorismo de Comte e sua posição reacio

(12)

A FILOSOFIA POSITIVISTA DE AUGUSTO COMTE

nária frente as questões conflitantes daquele período, defendendo uma doutri

-na baseada na consolidação da ordem pública para garantir o progresso da

sociedade.

Comte, ao desenvolver sua corrente filosófica trouxe uma base positi -va, naturalista e materialista, para as ideologias econômico sociais admitindo

como fonte única do conhecimento a experiência, os dados sensíveis. A filoso

-fia é reduzida àmetodologia e a sistematização das ciências, inaugurando "o

culto a ciência e asocialização do método científico".

Entretanto, exerceu influência benéfica no desenvolvimento das ciên

-cias da natureza.

Porfalta de uma ideologia sólida ainfluência do positivismo foi muito

forte no pensamento político e social brasileiro sendo refletida principal

-mente no movimento da Proclamação da República, na elaboração da

pri-meira Constituição republicana, deixando marcas até no símbolo brasileiro

mais significativo que é a Bandeira Nacional com o seu dístico ORDEM E

PROGRESSO.

A repercussão do Positivismo no Brasil se deu também no plano edu

-cacional, consolidando a concepção burguesa na educação, reproduzindo o

estereótipo de aluno condizente com os filhos daclasse alta, e controlando o

acesso dos filhos dos trabalhadores. Essa repercussão é também sentida no

currículo escolar com a supremacia das disciplinas da área de ciências e a

introdução da sociologia, que é a base da filosofia comtiana.

Em diversos momentos históricos do Brasil desde a primeira repúbli

-ca, como no período ditatorial de Getúlio Vargas, e no golpe militar de 1964,

as idéias positivistas são percebidas nas ações políticas e conseqüentemente

no campo educacional e consolidadas em Leis, como é o caso da Lei de

Refor-ma de Ensino de 10e 20Graus, a Lei 5692/71, onde otecnicismo e a neutrali

-dade eram abase de todo processo educacional.

Hoje, ainda é possível notar em algumas práticas de políticos, ed uca-dores, governantes resquícios de uma concepção positivista.

Entretanto, é importante considerar que toda corrente filosófica tenta explicar o conhecimento, e não pode ser negada ouexaltada deforma extrema.

Bibliografia

CARVALHO, José Murilo. A Formação das Almas - oimaginário da Rep

ú-blica no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

COMTE, Auguste. Curso de Filosofia Positiva - Discurso Preliminar sobre o

Conjunto do Positivismo. Trad. José Arthur Giannotti e Miguel Lemos.

São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996.

COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: Ser, Saber e Fazer. São Pau

-lo: Saraiva, 1999.

GADOTTI, Moacir. História dasidéiaspedagógicas. SãoPaulo: Ática, 1995.

(13)

1\FILOSOFIA POSITIVISTA DE AUGUSTO COMTE

II li II,!tIS\': arlos. Democratização da Escola Pública. A pedagogia

cri-, "cri-, 1111'/(// dos conteúdos. São Paulo: Edições Loyola, 1995 (Coleção 1""1/11)

I I I" li,tono JI'. O que é positivismo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1996,

li ItI"!'1 () Primeiros Passos).

NnrlyMoreira Domingues. Positivismo no Brasil, Filosofia em Revi s-10/ H :1-4.Universidade Federal do Maranhão. 1982.

4NI" '('111, Aldo. Filosofia e Ciências Humanas. São Paulo: Edições

IlIylllll, 1979.

111 1 " llrhano. Grandes tendências da filosofia do século XX e sua

influên-, /1/ 1111Brasil. Caxias do Sul: Educs, 1987.

Referências

Documentos relacionados