DESPACHO DE PROCESSO C-21/99 Ρ

Texto

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DESPACHO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Terceira Secção) 19 de Outubro de 1999 *

No processo C-21/99 P,

N, antigo funcionário da Comissão das Comunidades Europeias, residente em Bruxelas (Bélgica), representado por G. Sakellaropoulos, advogado no foro de Atenas, com domicílio escolhido no Luxemburgo no gabinete de A. May, 31, Grand-Rue,

recorrente,

que tem por objecto um recurso do despacho do Tribunal de Primeira Instância das Comunidades Europeias (Quinta Secção) de 30 de Novembro de 1998, N/

/Comissão (T-97/94, ColectFP, p. I-A-621 e p. II-1879), destinado à anulação daquele despacho e a que o Tribunal de Justiça decida de acordo com os pedidos apresentados pelo recorrente perante o Tribunal de Primeira Instância,

sendo a outra parte no processo:

Comissão das Comunidades Europeias, representada por G. Valsesia, consultor jurídico principal, e por F. Duvieusart-Clotuche, membro do Serviço Jurídico, na

* Língua do processo: francês.

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qualidade de agentes, com domicílio escolhido no Luxemburgo no gabinete de C.

Gómez de la Cruz, membro do Serviço Jurídico, Centre Wagner, Kirchberg,

demandada em primeira instância,

O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Terceira Secção),

composto por: J. C. Moitinho de Almeida, presidente de secção, C. Gulmann (relator) e J.-P. Puissochet, juízes,

advogado-geral: F. G. Jacobs, secretário: R. Grass,

ouvido o advogado-geral, profere o presente

Despacho

ι Por petição que deu entrada na Secretaria do Tribunal de Justiça em 29 de Janeiro de 1999, N interpôs, nos termos do artigo 49.° do Estatuto CE do Tribunal de Justiça, um recurso do despacho do Tribunal de Primeira Instância de 30 de Novembro de 1998, N/Comissão (T-97/94, ColectFP, p. I-A-621 e p. ΙΙ-1879, a seguir «despacho impugnado»), que negou provimento ao seu recurso visando a anulação do relatório de classificação de serviço, elaborado pela Comissão para o período de 1 de Julho de 1989 a 30 de Junho de 1991 (a seguir «relatório de classificação controvertido»), e a indemnização dos danos materiais e morais pretensamente sofridos em virtude daquele relatório.

2 Tratando-se dos factos que estão na origem do litígio entre N e a Comissão, remete-se para os n.os 1 a 8 do despacho impugnado.

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Despacho impugnado

3 Por petição que deu entrada em 9 de Março de 1994, Ν interpôs recurso perante o Tribunal de Primeira Instância, solicitando que este se dignasse:

— anular o indeferimento implícito da Comissão à sua reclamação contra o relatório de classificação controvertido, apresentada em 11 de Agosto de 1993;

— anular o relatório de classificação controvertido;

— decidir que compete à Comissão elaborar um novo relatório de classificação de serviço para o período em causa;

— condenar a Comissão a pagar ao recorrente, a título de perdas e danos, um montante equivalente a três anos do seu salário, como reparação dos danos materiais e morais sofridos;

— reconhecer ao recorrente o direito de, posteriormente, reclamar da Comissão todas as perdas e danos nos termos do artigo 24.°, n.° 2, do Estatuto dos Funcionários das Comunidades Europeias (a seguir «Estatuto»);

— condenar a Comissão nas despesas.

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4 A Comissão sustenta que o recurso é inadmissível.

5 Quanto ao pedido de anulação do relatório de classificação controvertido, o Tribunal de Primeira Instância recordou, em primeiro lugar, nos n.os 22 e 23 do despacho impugnado, que, para que um funcionário ou antigo funcionário possa interpor recurso nos termos dos artigos 90.° e 91.° do Estatuto, é necessário que tenha um interesse pessoal na anulação do acto impugnado e que esse interesse seja apreciado no momento da introdução do recurso.

6 Em seguida, o Tribunal de Primeira Instância considerou, nos n.os 25 e 26 do despacho impugnado, que, como documento interno, o relatório de classificação de serviço tem como função primordial assegurar à Administração uma informação periódica sobre a execução do serviço pelos funcionários e desempenha um papel importante na evolução da sua carreira. Por conseguinte, em princípio, só afecta o interesse da pessoa classificada até à cessação definitiva das suas funções. Posteriormente a essa cessação, já não é admissível a interposição de um recurso pelo funcionário, excepto provando a existência de uma circunstância particular justificativa de um interesse pessoal e actual em obter a anulação do relatório em causa.

7 Assim, o Tribunal de Primeira Instância concluiu, nos n.os 27 e 28 do despacho impugnado, que, tendo sido exonerado com efeitos a partir de 1 de Dezembro de 1993, o recorrente já não estava ao serviço da Comissão no momento da interposição do seu recurso e que nem o facto de ter apresentado uma reclamação contra o relatório de classificação controvertido quando ainda era funcionário nem a existência de um elo entre o presente recurso e aquele que foi interposto contra a decisão de exoneração são de molde a justificar um interesse pessoal e actual.

8 O Tribunal de Primeira Instância considerou, por outro lado, no n.° 29 do despacho impugnado, que N não fundamentou a invocação da má fé da Comissão e que não podia censurar-lhe o facto de esta não ter respondido antes de 1 de Dezembro de 1993 à sua reclamação apresentada em 11 de Agosto de 1993, na medida em que dispunha para o fazer, por força do artigo 90.°, n.° 2, do Estatuto, de um prazo de quatro meses a contar desta última data.

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9 Por fim, o Tribunal de Primeira Instância acrescentou, no n.° 30 do despacho impugnado, que a expectativa de um julgamento equitativo na acepção do artigo 6.° da Convenção Europeia para a Protecção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais, assinada em 4 de Novembro de 1950 (a seguir

«CEDH»), não era susceptível de afastar as condições de admissibilidade do recurso estabelecidas pelo direito comunitário, dado que a simples alegação, sem qualquer justificação, de uma necessidade de ser reabilitado moral e profissio- nalmente não era suficiente para demonstrar um interesse pessoal do recorrente.

10 Relativamente ao pedido de indemnização, o Tribunal de Primeira Instância realçou, no n.° 32 do despacho impugnado, que, em virtude da sua estreita ligação com o pedido de anulação, devia ser igualmente declarado inadmissível.

1 1 Consequentemente, o Tribunal de Primeira Instância rejeitou o recurso na íntegra.

O presente recurso

12 No seu recurso, Ν pede que o Tribunal de Primeira Instância se digne

— anular o despacho impugnado,

— dar provimento ao seu pedido apresentado no Tribunal de Primeira Instância,

— condenar a Comissão nas despesas.

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13 A Comissão pede a rejeição do recurso por, em parte, ser inadmissível e, em qualquer caso, carecer de fundamentação, bem como a condenação do recorrente nas despesas.

1 4 Em apoio do seu recurso, o recorrente invoca quatro fundamentos. Primeiro, a violação pelo Tribunal de Primeira Instância do princípio da protecção e do respeito da personalidade, em segundo lugar, erro de apreciação do Tribunal de Primeira Instância relativamente à má fé da Comissão, em terceiro lugar, a omissão do exame do mérito da causa por parte do Tribunal de Primeira Instância e, em quarto lugar, erro de apreciação do Tribunal de Primeira Instância relativamente à existência de um dano pessoal do recorrente.

Apreciação do Tribunal de Justiça

15 Por força do artigo 119.° do seu Regulamento de Processo, quando o recurso for manifestamente inadmissível ou manifestamente improcedente, o Tribunal de Justiça pode, a todo o tempo, rejeitá-lo em despacho fundamentado, sem dar início à fase oral.

16 Convém recordar, liminarmente, que, segundo a jurisprudência constante do Tribunal de Justiça, resulta dos artigos 168.°-A do Tratado CE (actual artigo 225.° CE) e 51.°, primeiro parágrafo, do Estatuto (CE) do Tribunal de Justiça que o recurso só pode assentar em fundamentos relativos à violação de normas jurídicas, com exclusão de qualquer apreciação da matéria de facto (v., nomeadamente, acórdão de 28 de Maio de 1998, New Holland Ford/Comissão, C-8/95 P, Colect., p. I-3175, n.° 25).

17 Além disso, nos termos do artigo 112.°, n.° 1, alínea c), do Regulamento de Processo do Tribunal de Justiça, o recurso deve especificar os fundamentos e argumentos jurídicos invocados.

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is Resulta destas disposições que um recurso deve indicar de forma precisa os elementos criticados da decisão cuja anulação é pedida bem como os argumentos jurídicos que sustentam especificamente o pedido.

19 Segundo a jurisprudência constante, não cumpre com esta exigência o recurso que se limita a repetir ou a reproduzir textualmente os fundamentos e os argumentos já apresentados perante o Tribunal de Primeira Instância, incluindo os que se baseavam em factos expressamente afastados por esta jurisdição. Com efeito, tal recurso constitui, na realidade, um pedido de simples reanálise da petição apresentada no Tribunal de Primeira Instância, o que, nos termos do artigo 49.° do Estatuto (CE) do Tribunal de Justiça, escapa à competência deste (v., nomeadamente, acórdão New Holland Ford/Comissão, já referido, n.os 23 e 24).

Primeiro fundamento: quanto à violação cometida pelo Tribunal de Primeira Instância do princípio da protecção e do respeito da personalidade

20 No seu primeiro fundamento, N acusa o Tribunal de Primeira Instância de ter violado o princípio da protecção e do respeito da personalidade. Alega, na primeira parte deste fundamento, que o Tribunal de Primeira Instância cometeu um erro ao decidir, nos n.os 22 e 23 do despacho impugnado, que, para que um funcionário ou antigo funcionário possa interpor um recurso nos termos dos artigos 90.° e 91.° do Estatuto, é necessário que ele tenha um interesse pessoal na anulação do acto impugnado e que esse interesse seja apreciado no momento da interposição do recurso. Segundo o recorrente, é no dia da apresentação da sua reclamação junto da Comissão, ou seja, em 11 de Agosto de 1993, que deveria verificar-se a existência do seu interesse em agir.

21 A este respeito, basta verificar que o Tribunal de Primeira Instância decidiu com razão que, de acordo com jurisprudência constante, o interesse pessoal de um funcionário ou antigo funcionário na anulação do acto impugnado é apreciado no momento da interposição do recurso (v., nomeadamente, acórdão de 12 de Julho de 1979, List/Comissão, 124/78, Recueil, p. 2499, n.° 7)

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22 Por conseguinte, deve ser rejeitada a primeira parte do primeiro fundamento, por ser manifestamente infundada.

23 Na segunda parte do primeiro fundamento, N defende que o Tribunal de Primeira Instância cometeu um erro ao considerar, no n.° 28 do despacho impugnado, que o recorrente não provava a existência de uma circunstância particular justifica- tiva da manutenção de um interesse pessoal e actual em agir em recurso de anulação. N alega que tal interesse subsiste mesmo após a cessação das suas funções, dado que o relatório de classificação controvertido lhe permitiria fazer prova das suas capacidades científicas e profissionais, fora do quadro comuni- tário.

24 A este respeito, cumpre realçar, tal como fez o Tribunal de Primeira Instância no n.° 25 do despacho impugnado, que resulta da jurisprudência do Tribunal de Justiça que o relatório de classificação de serviço constitui um documento interno que tem por função primária assegurar à Administração uma informação periódica sobre a execução do serviço prestado pelos seus funcionários (v., nomeadamente, acórdão de 3 de Julho de 1980, Grassi/Conselho, 6/79 e 97/79, Recueil, p. 2141, n.° 20). Posteriormente à cessação definitiva das suas funções, não é admissível a interposição de recurso por parte de um funcionário, excepto para provar a existência de uma circunstância particular justificativa de um interesse pessoal e actual em obter a anulação do relatório em causa.

25 Tendo em conta estas conclusões, não merece crítica a apreciação feita pelo Tribunal de Primeira Instância, segundo a qual o recorrente não provou a existência de tal circunstância.

26 Deve pois ser rejeitada a segunda parte do primeiro fundamento, por carecer manifestamente de fundamentação.

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Segundo fundamento: quanto ao erro de apreciação do Tribunal relativamente à má fé da Comissão

27 N o seu segundo fundamento, o recorrente censura ao Tribunal de Primeira Instância o facto de ter considerado, no n.° 29 do despacho impugnado, que ele, recorrente, n ã o tinha fundamento para sustentar que a Comissão tinha agido de má fé no tratamento da sua reclamação. Considera que o Tribunal de Primeira Instância n ã o se devia ter baseado em actuações antiestatutárias da Comissão e que se devia ter pronunciado sobre a noção de má fé, n o exercício do seu poder discricionário. Por conseguinte, o despacho impugnado n ã o era equitativo nos termos do artigo 6.° da C E D H , pois privava o funcionário dos seus meios de defesa e violava o princípio de que ninguém pode obter benefício dos seus próprios actos ilegítimos.

28 Mas, convém reconhecer que este fundamento se limita a repetir os argumentos já apresentados perante o Tribunal de Primeira Instância, sem demonstrar em que é que o despacho impugnado enferma de erro de direito, de forma que visa essencialmente o mero reexame da argumentação relativa à má fé de que a Comissão teria feito prova ao rejeitar a reclamação do recorrente após a data da cessação das suas funções, a que o Tribunal de Primeira Instância já respondeu.

29 Convém, assim, rejeitar o segundo fundamento como manifestamente inadmissí- vel.

Terceiro fundamento: quanto à omissão do exame do mérito da causa por parte do Tribunal de Frimeira Instância

30 Pelo terceiro fundamento, N acusa o Tribunal de Primeira Instância de n ã o ter examinado o mérito da causa, com o propósito de evitar qualquer observação quanto ao mesmo, que o teria obrigado a proceder a u m exame comparativo dos . serviços prestados pelo recorrente ao longo do período controvertido e dos

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períodos precedentes. Sustenta que a fundamentação, no n.° 30 do despacho impugnado, é gerador de uma incompatibilidade entre a ordem jurídica comunitária e o artigo 6.° da CEDH.

31 A este respeito, basta verificar que a análise da admissibilidade de um recurso constitui uma questão prévia necessária à apreciação do mérito pelo Tribunal de Primeira Instância. As condições de admissibilidade devem pois estar presentes para que o recurso seja apreciado quanto ao mérito.

32 Consequentemente, convém rejeitar o terceiro fundamento por manifesta improcedencia.

Quarto fundamento: quanto ao erro de apreciação do Tribunal de Primeira Instância relativo à existência de um dano pessoal do recorrente

33 Através do quarto fundamento, N acusa o Tribunal de Primeira Instância de ter cometido um erro de apreciação jurídica ao considerar que o atraso na redacção do relatório de classificação controvertido não lhe tinha causado qualquer dano pessoal. O Tribunal de Primeira Instância não teria tido em conta o prejuízo moral, científico e profissional resultante da não redacção daquele relatório, que devia ter sido elaborado, o mais tardar, até ao dia 31 de Dezembro de 1991, o que tinha privado o recorrente da possibilidade formal de participar validamente num concurso em 1993. Daqui resultou que o Tribunal de Primeira Instância não seguiu a sua própria jurisprudência, segundo a qual a ausência de relatório de classificação de serviço é imputável, em larga medida, ao comportamento da Comissão e causa ao funcionário um prejuízo moral porque o coloca num estado de incerteza ou de inquietação quanto ao seu futuro.

34 Este fundamento baseia-se numa leitura manifestamente errada do despacho impugnado.

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35 Com efeito, o Tribunal de Primeira Instância, no n.° 32 do despacho impugnado, limitou-se à questão da admissibilidade do pedido de indemnização formulado pelo recorrente, julgando esse pedido inadmissível na medida em que estava estreitamente ligado ao pedido de anulação, ele próprio inadmissível. Por conseguinte, o Tribunal de Primeira Instância não abordou o mérito da questão do dano pessoal eventualmente sofrido por Ν em virtude do atraso na redacção do relatório de classificação de serviço controvertido.

36 O quarto fundamento deve pois ser rejeitado como manifestamente infundado.

37 Resulta d o c o n j u n t o d a s considerações q u e p r e c e d e m q u e o s f u n d a m e n t o s a p r e s e n t a d o s p e l o r e c o r r e n t e e m a p o i o d o seu r e c u r s o s ã o q u e r m a n i f e s t a m e n t e inadmissíveis quer m a n i f e s t a m e n t e infundados. O recurso deve p o r t a n t o ser rejeitado, em aplicação do artigo 119.° do Regulamento de Processo.

Quanto às despesas

38 Nos termos do artigo 69°, n.° 2, do Regulamento de Processo, aplicável a este processo por força do artigo 118.°, a parte vencida é condenada nas despesas se tal tiver sido pedido. Tendo a Comissão pedido a condenação do recorrente e tendo este sido vencido, deve ser condenado nas despesas.

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Pelos fundamentos expostos,

O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Terceira Secção) decide:

1) O recurso é rejeitado.

2) N é condenado nas despesas.

Proferido no Luxemburgo, em 19 de Outubro de 1999.

O secretário

R. Grass

O presidente da Terceira Secção

J. C. Moitinho de Almeida

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Referências

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