Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Vigésima Sétima Câmara Cível

Texto

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AGRAVANTE: AMIL ASSISTÊNCIA MÉDICA INTERNACIONAL S/A

AGRAVADO: ESPÓLIO RUBENS MATOS SILVANO REP/P/S/INV MARIA DE FÁTIMA BORGES SILVANO

RELATORA: DES. TEREZA CRISTINA SOBRAL BITTENCOURT SAMPAIO

ACÓRDÃO

AGRAVO INOMINADO INTERPOSTO CONTRA DECISÃO MONOCRÁTICA PROFERIDA EM SEDE DE APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER C/C INDENIZATÓRIA. PLANO DE SÁUDE. RECUSA EM AUTORIZAR PROCEDIMENTO DE MONITORIZAÇÃO NEUROFISIOLÓGICA MULTIMODAL. ABUSIVIDADE.

INFRINGÊNCIA DO CDC. FALECIMENTO DO AUTOR.

TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. DANO MORAL CONFIGURADO.

- É inaceitável a recusa da ré em autorizar a procedimento de monitorização neurofisiológica multimodal, sendo certo que, consoante entendimento consolidado, cabe ao médico a escolha do tratamento mais adequado a seu paciente. Esta é, inclusive, a orientação firmada no enunciado nº 211 da súmula deste E. Tribunal de Justiça.

- Conduta abusiva da ré devidamente comprovada nos autos.

- Cirurgia que foi realizada sem o equipamento necessário, eis que não autorizado pela parte ré, vindo o autor falecer alguns meses depois. Possibilidade de sobrevida minada pela resistência do réu. Aplicação da Teoria da Perda da Chance.

- Dano moral configurado. Quantum indenizatório razoavelmente arbitrado.

- Manutenção da sentença.

AGRAVO INOMINADO AO QUAL SE NEGA PROVIMENTO.

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Vistos, relatados e discutidos estes autos do Agravo Inominado nº 0025480-13.2012.8.19.0209, de que são partes as acima mencionadas ACÓRDAM os Desembargadores da 27ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Relator.

Cuida-se de agravo inominado interposto por AMIL ASSISTÊNCIA MÉDICA INTERNACIONAL S/A contra a decisão monocrática de fls. 378/388 (indexador 378), que negou seguimento ao recurso de apelação interposto pela parte ré, ora agravante, com fulcro no artigo 557, caput, do CPC.

O recorrente apresentou o agravo inominado de fls. 390/423 (indexador 390), aduzindo, em síntese, que o autor não teria encaminhado à ré a documentação necessária para a liberação do equipamento necessário; que o procedimento cirúrgico fora autorizado, mas que o médico deixara de requerer a monitorização multimodal neurofisiológica; que foi submetida à avaliação técnica da consultoria da empresa a necessidade do equipamento requerido; que a análise técnica foi desfavorável apenas ao kit de neuromonitorização, autorizando, todavia, todos os demais materiais hábeis ao ato cirúrgico; que a cirurgia acabou por ser realizada sem o referido equipamento;

que a cirurgia ocorreu em setembro de 2012 e o apelado veio a falecer em fevereiro de

2013, em decorrência única e exclusiva do gravíssimo tumor cerebral que o acometia,

não havendo que se falar, portanto, em perda de uma chance, ante a não autorização

do kit de neuromonitorização; a inexistência de dano moral a ser ressarcido e, caso

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assim não entenda este Tribunal, que a verba indenizatória seja reduzida e o excessivo valor arbitrado a título de honorários advocatícios.

É o relatório.

VOTO

O artigo 557, do CPC, permite ao Relator o julgamento monocrático do recurso, seja negando-lhe seguimento, seja dando-lhe provimento, sempre que sobre a questão já exista posicionamento jurisprudencial ou súmula do Tribunal local ou dos Tribunais Superiores.

Na hipótese dos autos, a decisão hostilizada está alicerçada em reiteradas decisões deste Egrégio Tribunal, não merecendo, portanto, qualquer reparo.

Neste sentido, convém transcrever as fundamentações constantes na decisão monocrática vergastada. Confira-se:

“A relação entre as partes é de consumo, devendo assim ser analisada à luz da Lei nº 8.078/90.

Neste sentido, o verbete nº 469 da Súmula do E. Superior Tribunal de Justiça que assim dispõe:

“Aplica-se o Código de Defesa do Consumidor aos contratos de plano de saúde”.

O demandante narra que em 2006 descobriu ser portador de um

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tumor cerebral, sendo que em 2012, o tumor evoluiu para a condição de malignidade. Aduz que foi encaminhado pedido de autorização para procedimento cirúrgico, sendo que o procedimento de monitorização multimodal neurofisiológica não foi autorizado pela parte ré, razão pela qual interpôs a presente ação.

Consoante documentos acostados aos autos (fls. 18 – index 43 e 45) foi requerido à parte ré, em 29/08/2012, autorização para o procedimento de monitorização multimodal neurofisiológica.

Segundo o médico que assistia o autor a ausência do procedimento imporia prejuízo neurológico e redução da qualidade de sobrevida do paciente (fls. 20 – indexador 53).

No entanto, a cirurgia foi realizada sem 19/09/2012 sem o equipamento necessário, eis que não autorizado pela parte ré, vindo o autor falecer alguns meses depois.

Cabe aqui destacar que é inaceitável a recusa da ré em autorizar o procedimento reclamado, sendo certo que, consoante entendimento consolidado, cabe ao médico a escolha do tratamento mais adequado a seu paciente. Esta é, inclusive, a orientação firmada por este E. Tribunal de Justiça no enunciado nº 211 da súmula do E. TJRJ: “Havendo divergência entre o seguro saúde contratado e o profissional responsável pelo procedimento cirúrgico, quanto à técnica e ao material a serem empregados, a escolha cabe ao médico incumbido de sua realização.”

A escolha do procedimento a ser utilizado durante a cirurgia, inclusive quanto à sua marca, cabe exclusivamente ao médico assistente, na medida em que respectiva decisão é inerente à sua atividade profissional, no que tange aos aspectos de sua qualidade. Não pode a operadora de saúde se substituir àquele para decidir quanto ao procedimento/material cabível para o atendimento da patologia apresentada pelo paciente.

A ré tenta fazer crer ser legítima sua conduta, quando, na verdade, se mostra evidente a abusividade perpetrada em face do consumidor.

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In casu, há inequívoca violação ao princípio da boa-fé e segurança jurídica, não se podendo desconsiderar a legítima expectativa do autor em ver-se protegida pelo plano de saúde contratado, o que restou frustrado.

Em que pese o autor se encontrar gravemente enfermo não significa que se possa se admitir a falha na prestação dos serviços da seguradora de saúde.

Decerto, inexiste nos autos elementos que comprovem com exatidão que a ausência do equipamento na cirurgia tenha causado como consequência a diminuição da sobrevida do paciente. Entretanto é inegável que quando se lida com a vida e a saúde de pacientes em estado grave acometidos por doenças crônicas em fase avançada ou terminal, como no caso do autor, é necessário por a disposição do paciente todo o tratamento possível que surta algum efeito eficaz, trazendo para o enfermo uma sobrevida, expectativa de melhora ou algum conforto.

Ocorre que tal chance foi tolhida ao autor pela injustificada recusa da ré em autorizar o procedimento requerido.

Por outro lado, é evidente que a resistência da réu na liberação do procedimento médico de que o paciente necessitava trouxe para o paciente e seus familiares, sofrimento, angústia e sensação de impotência, mormente em razão da situação vivenciada, que ultrapassam e muito a esfera de mero aborrecimento.

Diante disso, configura-se inarredável a imputação de ofensa a direito da personalidade e ocorrência de dano moral, consoante entendimento jurisprudencial desta Corte expresso no verbete sumular nº 209: “Enseja dano moral a indevida recusa de internação ou serviços hospitalares, inclusive home care, por parte do seguro saúde somente obtidos mediante decisão judicial".

No que concerne ao valor da indenização do dano moral, a quantia deve atender a capacidade das partes, o dano e sua repercussão. Considerados esses requisitos e o fato de que na responsabilização civil fundada na perda da chance o que se

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indeniza não é o prejuízo em si, mas sim a oportunidade desperdiçada, atende ao princípio da razoabilidade manter o valor da reparação do dano moral em R$ 50.000,00, como fixada pelo prudente arbítrio do juiz a quo.

Neste sentido, seguem os reiterados entendimentos exarados por esta Corte:

ACÓRDÃO APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER CUMULADA COM INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. ALEGAÇÃO DE DEMORA E NÃO AUTORIZAÇÃO NA INTERNAÇÃO DE PACIENTE, QUE VEIO A FALECER.

ALEGAÇÃO DA SEGURADORA DE SAÚDE RÉ QUE O HOSPITAL RÉU NÃO TINHA CREDENCIAMENTO PARA INTERNAÇÃO DECORRENTE DE COMPLICAÇÕES DE CÂNCER. SUSTENTAÇÃO DO HOSPITAL DEMANDADO NO SENTIDO DE NÃO HAVER BASE LEGAL DETERMINANDO QUE A REDE HOSPITALAR PROMOVA A INTERNAÇÃO SEM RECEBER A DEVIDA CONTRAPRESTAÇÃO. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA, COM CONDENAÇÃO DOS RÉUS, SOLIDARIAMENTE, EM INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS NO VALOR DE R$300.000,00 (TREZENTOS MIL REAIS), DEVIDAMENTE CORRIGIDO A CONTAR DO JULGADO E ACRESCIDO DE JUROS DE MORA DE 1% AO MÊS, A CONTAR DA CITAÇÃO. CONDENAÇÃO DOS RÉUS EM DESPESAS PROCESSUAIS E HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS NO PERCENTUAL DE 10% (DEZ POR CENTO). INCONFORMISMO DAS RÉS QUE NÃO SE SUSTENTA. LEGITIMIDADE PASSIVA DA SEGUNDA RÉ (HOSPITAL DAS CLÍNICAS DE NITERÓI), EIS QUE JÁ HOUVE RELAÇÃO JURÍDICA DE DIREITO MATERIAL ENTRE AS PARTES. NO MÉRITO, RELAÇÃO DE CONSUMO.

APLICAÇÃO DO CDC. EVIDENTE FALHA NA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS PRESTADOS PELAS RÉS/APELANTES. HOSPITAL RÉU QUE NÃO NEGA A RECUSA NA INTERNAÇÃO DO PACIENTE, SUSTENTANDO QUE ESTA NÃO FOI AUTORIZADA PELA EMPRESA DE PLANO DE SAÚDE RÉ. AUTOR QUE FOI INTERNADO POR DIVERSAS VEZES NO HOSPITAL SEGUNDO RÉUS EM RAZÃO DE COMPLICAÇÕES EM SEU ESTADO DE SAÚDE. DOCUMENTOS DE FLS. 148/149 QUE COMPROVAM

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QUE O HOSPITAL EM QUESTÃO ESTÁ CREDENCIADO PARA TRATAMENTO E INTERNAÇÃO PARA A ESPECIALIDADE DE ONCOLOGIA. HOSPITAL RÉU QUE AFIRMA QUE O PLANO DE SAÚDE NÃO AUTORIZOU A INTERNAÇÃO E O TRATAMENTO, O QUE CORROBORA OS FATOS DESCRITOS NA PEÇA EXORDIAL. AUTOR QUE SOMENTE FOI INTERNADO APÓS MAIS DE 30 HORAS DA ENTRADA NO HOSPITAL E QUE VEIO A FALECER EM VIRTUDE DA DEMORA NO ATENDIMENTO ADEQUADO. DIREITO À SAÚDE COMO GARANTIA FUNDAMENTAL AMPARADA PELA CONSTITUIÇÃO FEDERAL.

TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE. SERVIÇO PRECÁRIO QUE ENSEJA A CONDENAÇÃO DAS RÉS EM DANOS MORAIS.

VERBA INDENIZATÓRIA FIXADA EM R$300.000,00 (TREZENTOS MIL REAIS), EM OBSERVÃNCIA AOS

PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E DA

PROPORCIONALIDADE, DESTACANDO-SE, SOBRETUDO, QUE A FALHA NA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS POR PARTE DAS RÉS RESULTOU NA MORTE DO SEU SEGURADO.

MANUTENÇÃO DO DECISUM. NEGADO PROVIMENTO AOS RECURSOS.

(1628801-57.2011.8.19.0004 - APELACAO - DES. ROBERTO GUIMARAES - Julgamento: 10/09/2014 - VIGESIMA QUARTA CAMARA CIVEL CONSUMIDOR)

Apelação Cível. Relação de Consumo. Ação Indenizatória.

Seguradora de Saúde e Hospital Credenciado. Alegação de falha na prestação de serviços de "home care" e atendimento em CTI.

Paciente que vem a óbito. Pretensão indenizatória formulada por seus genitores. Possibilidade. Instituto do Dano Moral Reflexo ou Ricochete. Sentença de procedência quanto ao plano de saúde e de improcedência quanto ao nosocômico. Apelos do autor e do primeiro réu. Hipótese de responsabilidade objetiva, a teor do art.

14 do CDC. Prova pericial que concluiu pela existência de nexo de causalidade entre a demora no atendimento e a perda de chance de cura. Paciente criança, portadora de diversas patologias, desde o nascimento, que vivia em casa, sob os cuidados de "home care", fornecido pelo plano. Situação de agravamento do quadro da criança, necessitando de atendimento emergencial. Plano de saúde que não enviou médico ao local, eis que o profissional

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apenas atendeu, orientou e prescreveu medicações por telefone, por mais de uma vez. Atendimento presencial que só se efetivou na ida posterior. Demora que impediu que o menor tivesse chance de cura. Óbito ocorrido no hospital, ora segundo réu, cujas alegadas falhas não se provaram. Flagrante falha na prestação dos serviços. Conduta da seguradora que atenta contra a Dignidade Humana. Inteligência de Teoria da Perda de Uma Chance. Nexo de causalidade demonstrado, que sequer pode ser afastado sob a alegação de que o menor "já era enfermo".Danos morais configurados. Pais que sofreram enorme abalo psicológico ao verem seu filho não ter uma chance de cura, muito embora o tenham incluído como dependente do plano de saúde em voga.

Verba indenizatória que deve ser majorada para R$ 100.000,00 para cada autor, que melhor se ajusta aos Princípios da Razoabilidade e da Proporcionalidade, bem como às peculiaridades do caso concreto. Precedentes citados: 0045465- 14.2009.8.19.0066 - APELAÇÃO DES. ROGERIO DE OLIVEIRA SOUZA - Julgamento: 05/11/2013 VIGÉSIMA SEGUNDA CÂMARA CÍVEL 0008818-50.2007.8.19.0208 - APELAÇÃO DES.

CARLOS AZEREDO DE ARAUJO - Julgamento: 10/10/2013 - NONA CÂMARA CÍVEL - 0094582-09.2008.8.19.0001 - APELAÇÃO - DES. ANDRE RIBEIRO - Julgamento: 21/03/2013 SÉTIMA CÂMARA CÍVEL; 0008171-16.2004.8.19.0061 APELAÇÃO DES. ALEXANDRE CÂMARA - Julgamento:

14/03/2012 - DÉCIMA TERCEIRA CÂMARA CÍVEL.

PROVIMENTO PARCIAL DO PRIMEIRO RECURSO.

DESPROVIMENTO DO SEGUNDO.

(0163528-28.2011.8.19.0001 - APELACAO - DES. REGINA LUCIA PASSOS - Julgamento: 26/02/2014 - VIGESIMA QUARTA CAMARA CIVEL CONSUMIDOR)

Por fim, a irresignação quanto ao valor fixado a título de honorários sucumbenciais, também não merece guarida.

O valor dos honorários advocatícios deve remunerar condignamente o trabalho desenvolvido pelo causídico, comportando minoração apenas quando fixado em quantia exorbitante, fato não constatado nestes autos.

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É de ser mantido, portanto, o valor dos honorários, nos termos previstos na sentença, tendo em vista que foi fixado em harmonia com o disposto no artigo 20 do Código de Processo Civil.”

Assim, não merece censura a decisão vergastada, devendo ser mantida por seus próprios fundamentos.

Isto posto, nega-se provimento ao presente recurso.

Rio de Janeiro, de de 2015.

Desembargadora TEREZA CRISTINA SOBRAL BITTENCOURT SAMPAIO

Relatora

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