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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Marcos Beck Bohn
A Notícia e a “Passagem” do Tempo
A interferência do fluxo noticioso na percepção humana de passado,
presente e futuro
MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA
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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Marcos Beck Bohn
A Notícia e a “Passagem” do Tempo
A interferência do fluxo noticioso na percepção humana de passado,
presente e futuro
MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Comunicação e Semiótica, sob a orientação do Prof. Dr. Jorge de Albuquerque Vieira.
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Marcos Beck Bohn
A Notícia e a “Passagem” do Tempo
A interferência do fluxo noticioso na percepção humana de passado,
presente e futuro
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Comunicação e Semiótica, sob a orientação do Prof. Dr. Jorge de Albuquerque Vieira.
APROVADO EM:___ DE ______________ DE 2014.
BANCA EXAMINADORA
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RESUMO
Esta pesquisa examina o grau de interferência da notícia audiovisual na percepção humana da passagem do tempo. Em um ambiente contemporâneo onde os meios de comunicação definem suas próprias escalas temporais, novas relações temporais podem se estabelecer entre o indivíduo telespectador e as notícias consumidas. Bastante mutáveis e eventualmente nada similares entre si, tais intervalos de tempo delimitados externamente interagem com a linha do tempo interna do sujeito. Assim, o presente trabalho empreende uma reflexão interdisciplinar sobre (i) o modo de delimitação e consolidação do tempo pela notícia; (ii) o modo como oscila – avança e recua, acelera e atrasa – o tempo da notícia; e, por fim, (iii) a eventual descontinuidade entre o tempo da notícia audiovisual e o tempo subjetivo do indivíduo. Como base teórica, parte-se da filosofia de Henry Bergson e de sua descrição do modo humano de recordar: através de paradas virtuais no tempo. A verdadeira duração, aquilo que sentimos e vivemos, está ausente da lembrança. Compreendemos o tempo através de uma representação linear, sendo nossas lembranças constituídas por registros fixos no tempo unidimensional e anterior de nossa memória, caracterizando uma descrição filosófica condizente com a neurociência de Antonio Damásio e Gerald Edelman. As definições de tempo e memória, por sua vez, são desenvolvidas a partir de uma perspectiva geral e sistêmica, portanto, ontológica
– notadamente, a de Mario Bunge. Assim, a memória é vista como fundamental para a manutenção da autonomia do indivíduo. Já o conceito de tempo é considerado a partir da percepção humana primordial que o sustenta e cria, aquela de antes de e depois de algum evento (conforme Kenneth G. Denbigh). O tempo, neste trabalho, é o tempo irreversível da fenomenologia (conforme Ilya Prigogine e Isabelle Stengers). Quanto aos eventos, podem vir a ser retratados pelas notícias, constituindo assim um novo evento audiovisual, em que uma representação de fatos é elaborada sobre uma representação do tempo, continuamente recriando e reforçando a lógica humana linear de retrospecção. Considera-se, entretanto, que a intensidade do fluxo noticioso possa estar além da capacidade de processamento interna do indivíduo. A investigação analisa a íntegra de um telejornal, especificamente no que tange aos intervalos de tempo estabelecidos em cada notícia separadamente. Tal análise indica ser possível tomar como procedente a hipótese de que o fluxo noticioso contemporâneo, ao interagir com as paradas virtuais da recordação do indivíduo, pode alterar sua memória, interferindo em sua autonomia.
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ABSTRACT
This research examines the degree of interference of the audiovisual news in the human perception of time. In the contemporary environment, where the media define their own temporal scales, new temporal relations can be established between the individual viewer and the news consumed. Quite changeable and eventually anything similar, such externally delimited time intervals interact with the internal timeline of the subject. Thus, the present work undertakes an interdisciplinary reflection about (i) the way of demarcation and consolidation of time by the news; (ii) the way oscillates – advances and retreats, accelerates and delays – the time of news; and, finally, (iii) the possible descontinuity between the time of audiovisual news and the subjective time of the individual. The philosophy of Henry Bergson and his depiction of the human way of recollecting – through virtual halts in time – will constitute the theoretical framework of this work. Real duration, what we feel and live, is absent from remembrance. We comprehend time through a linear representation, our remembrances consisting of records fixed in the one-dimensional and anterior time of our memory, characterizing a philosophic description consistent with the neuroscience of Antonio Damásio and Gerald Edelman. The definitions of time and memory are developed from a general and systemic, and therefore ontological, perspective, notably as discussed by Mario Bunge. Thus, memory is seen as fundamental to the maintenance of the autonomy of the individual. Time is considered as arising from the primordial human perception that sustains and creates it, the one of earlier than and later than any event (according to Kenneth G. Denbigh). Time, in this work, is the irreversible time of phenomenology (according to Ilya Prigogine and Isabelle Stengers). As for events, they can as well be portrayed by the news, thus constituting a new audiovisual event, in which a representation of facts is elaborated on a representation of time, continually recreating and reinforcing the linear human logic of retrospection. It is considered, however, that the intensity of the news flow may be beyond the
individual‟s internal processing capacity. This research analyses the full of a newscast,
focusing on the time intervals established in each news separately. The analysis of this empirical data will offer plausible evidence for sustaining the argument made here that the contemporary news flow, when interacting with the virtual halts of the recollection of an individual, may alter the memory, interfering in the person´s autonomy.
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AGRADECIMENTOS
A execução de um empreendimento como este seria menos prazerosa e menos desprovida de sentido se, ao final, inexistissem espaço – e tempo – para se manifestar a importância de algumas pessoas para e durante o processo. Agradecimentos, então:
Ao Professor Doutor Jorge de Albuquerque Vieira, orientador, pela generosidade com que compartilhou reflexões que se expandem, tanto espacial como temporalmente, para muito além dos limites do universo, por vezes caótico, desta investigação. O aconselhamento preciso e o acolhimento precioso que dele recebi foram fundamentais para as ideias aqui apresentadas;
À Professora Doutora Christine Greiner, por alertar-me sobre a necessidade de aceitar a imprecisão de Bergson acerca da localização da memória fora do corpo. Além de ampliar a compreensão de sua filosofia, o acréscimo que isso trouxe à pesquisa reforçou substancialmente, acredito o argumento que busco apresentar;
Ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, pela abertura à interdisciplinaridade, primordialmente, e pela isenção concedida através de bolsa da Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, Capes, a qual também sou grato;
À Cida Bueno, secretária do Programa, cujo apoio e prontidão colaboraram muito para a organização e continuidade desta pesquisa;
A Cilene Frias e Ricardo Melo, chefes de redação do SBT que viabilizaram uma licença de quatro meses para dedicação exclusiva a esta dissertação durante o segundo semestre de 2013;
A Jorge Sacramento, por relembrar-me de que o processo é dinâmico;
E, por fim, a meus pais. A minha mãe, pela rica e intensa trajetória, nem sempre linear em sua duração, e que adquire mais coerência com este trabalho. A meu pai, pela presença de sua memória.
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VLADIMIR: That passed the time.
ESTRAGON: It would have passed in any case. VLADIMIR: Yes, but not so rapidly.
[Pause.]
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SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO... 1.1 A relação notícia-tempo-indivíduo... 1.2 A notícia perante Bergson... 1.3 Hipótese... 1.4 Descrição dos capítulos...
2 REFERENCIAL TEÓRICO... 2.1 Abordagem ontológica... 2.1.1 Realidade sistêmica... 2.1.2 Parâmetros sistêmicos... 2.1.3 Função memória... 2.2. O conceito de tempo... 2.2.1 O medir linear do tempo... 2.2.2 Tempo irreversível, tempo primordial... 2.2.3 O tempo é presente... 2.2.4. A notícia é presente... 2.2.5 O sentido do tempo... 2.2.6 A linearidade do tempo... 2.3 Memória linear... 2.3.1 A imprecisão de Bergson... 2.3.2 A memória é presente... 2.3.3 A função da memória... 2.3.4 Mais que o lugar, a existência da memória... 2.3.5 Mente linear...
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3.3.2 Primeira notícia – Comparativo da repressão a manifestações... 3.3.3 Segunda notícia – Arco-e-flecha na guarda municipal... 3.3.4 Terceira notícia – O relógio da morte... 3.3.5 Quarta notícia – Nobel de Química... 3.3.6 Quinta notícia – Giro internacional... 3.3.7 Sexta notícia – Gasta mais quem ganha mais... 3.3.8 Sétima notícia – Aumento da taxa Selic e índice da inflação... 3.3.9 Oitava notícia – Poderes especiais para Maduro... 3.3.10 Nona notícia – Uma mulher no banco central americano... 3.3.11 Décima notícia – Câmara aprova o Mais Médicos... 3.3.12 Décima primeira notícia – Julgamento dos recursos do mensalão... 3.3.13 Décima segunda notícia –Chamada de série de reportagens... 3.3.14 Décima terceira notícia – Gols da Série B... 3.3.15 Décima quarta notícia – Morte de Norma Bengell... 3.3.16 Décima quinta notícia – Encerramento...
4 CONCLUSÃO... 4.1 Notícia, parte da memória... 4.2 A notícia e a existência do tempo...
BIBLIOGRAFIA...
ANEXO A... 50 52 52 53 53 54 55 55 56 57 58 59 60 61 61
62 63 65
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1 INTRODUÇÃO
Esta pesquisa toma a notícia como objeto de investigação. Dentro de um universo noticioso que permeia e atua de forma contundente na sociedade ocidental, pretende-se discutir a existência de uma interferência das notícias audiovisuais na percepção humana do tempo. As notícias consideradas são aquelas apresentadas em telejornais diários de emissoras de televisão aberta brasileiras. As particularidades e os temas específicos da notícia em si fogem, entretanto, ao escopo deste trabalho. Os acontecimentos que a notícia relata e transmite, assim como o modo como o faz, com sobriedade ou exaspero, conjuntamente às opções editoriais e políticas das instituições emissoras, constituem elemento secundário para esta investigação. Aquilo que a este trabalho interessa está, ou pode estar, acredita-se, presente em qualquer notícia de televisão, independentemente do que trate e de como trate1. Fala-se da relação das notícias audiovisuais com o tempo, e de como o tempo é expresso e manejado por elas. Igualmente, busca-se discutir não os exíguos minutos que costumam durar cada uma delas – mesmo que essa breve duração, quando reunidas as notícias para compor um telejornal diário, converta-se em item concernente ao debate aqui proposto. O conteúdo de cada notícia é considerado na maneira como lida com o tempo durante o processo de relatar a história ali contida. Assim, o efeito do fluxo noticioso contemporâneo sobre a percepção do indivíduo é o que intriga e motiva esta investigaçâo.
1.1 A relação notícia-tempo-indivíduo
Detentores de uma linguagem própria e do poder de manifestá-la, os organismos midiáticos audiovisuais possuem condições de definir suas próprias escalas temporais. Bastante mutáveis e eventualmente nada similares entre si, tais formas de delimitar intervalos de tempo interagem com as linhas do tempo internas de cada um de nós. Tem-se em conta mais que o corriqueiro anunciar de eventos esportivos e culturais ou de novas atrações, sempre a coroar datas em nosso calendário. O intuito deste trabalho é avaliar o papel do jorro noticioso naquilo que entendemos como passagem do tempo, examinando a participação da notícia em nossa contínua e subjetiva construção do passado, com sua respectiva ação sobre o
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presente e, por conseguinte, sobre o futuro. Interdisciplinar em sua gênese, a reflexão proposta é voltada para três pontos da relação notícia-indivíduo, a saber, (i) o modo de delimitação e consolidação do tempo pela notícia; (ii) o modo como oscila – avança e recua, acelera e atrasa
– o tempo da notícia; e, por fim, (iii) a eventual descontinuidade entre o tempo da notícia audiovisual e o tempo subjetivo do indivíduo. Através desse procedimento metodológico, espera-se tecer considerações que permitam uma aproximação à questão fundamental desta pesquisa, a qual pode ser expressa como qual a interferência – ou o grau de interferência – do fluxo noticioso contemporâneo na percepção humana do tempo?
Diante da combinação de elementos aparentemente segmentados que a questão apresenta, fruto já de sua concepção originalmente interdisciplinar, considera-se necessário abordá-la de maneira a conciliar os termos – oriundos de áreas científicas distintas – que a compõe. Para isso, a investigação se vale da ontologia como conduzida por Mario Bunge:
“Perspectivas ontológicas (ou metafísicas) são respostas para questões ontológicas. E questões ontológicas (ou metafísicas) são questões com um alcance extremamente amplo” (1977, p. 1). Mesmo sem a pretensão de vasculhar toda a variedade de aspectos concernentes a eventuais interferências que o fluxo noticioso audiovisual a nos envolver possa ter em nossa percepção da passagem do tempo, acredita-se que a pergunta inicial deste trabalho condiz com uma adjetivação a defini-la como ampla, geral – ontológica, portanto. É a partir da correlação entre alguns dos elementos que se considera mais relevantes neste processo perceptivo que se busca formular reflexões a respeito de sua natureza.
Tem-se como premissa que das notícias televisivas emerge mais que o saber de fatos não fisicamente presenciados, tenham eles acontecido muito perto ou muito longe. Uma informação não necessariamente explícita ou central é, conforme se tentará indicar, contiguamente trazida pela notícia: informação secundária ou até mesmo subliminar a definir intervalos temporais referentes ao acontecimento e à narrativa do acontecimento. Em outras palavras, uma gestão externa do tempo atinge continuamente o tempo interno do sujeito espectador, podendo, assim, uma nova relação se estabelecer para o indivíduo: uma relação, antes inexistente, do espectador e de sua memória com a temporalidade do fato como narrado pela notícia audiovisual. Constitui essa nova aliança um novo vínculo temporal entre o sujeito e aquilo que ele acaba de se dar a conhecer.
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discreprante, de nosso tempo subjetivo e imediatamente circundante. Tanto na velocidade da narrativa em si (lenta, rápida), como no relacionar do fato descrito com outros eventos (passados ou futuros, similares ou antagônicos). E essa é uma lida com o tempo, uma vez que a ela nos submetemos, sobre a qual não temos controle.
1.2 A notícia perante Bergson
O pensamento de Henri Bergson acerca da maneira como assentamos nossas recordações – em intervalos lineares e temporalmente fixos na memória – é o ponto de partida para esses questionamentos. As notícias não aparentam estar desconectadas de uma conduta linear e retrospectiva, e seria uma surpresa se o estivessem, produto eminentemente humano que são. Além de lidar com a representação de fatos passados, fazem-no através de uma compreensão espacial e unidimensional do tempo. A notícia é uma representação de fatos elaborada sobre uma representação do tempo, continuamente recriando e reforçando a lógica humana linear de retrospecção. De acordo com Bergson, existe na mente humana algo que chega a ser uma confusão entre espaço e tempo. Tal desalinho, para o filósofo, é em grande parte devido à linguagem, manifestando-se no fato de que a “duração é sempre expressa em termos de extensão; os termos que designam tempo são emprestados da linguagem de espaço”
(1968, p. 13). As palavras que usamos para contar o tempo retratam medidas espaciais e lineares, como se o tempo efetivamente corresse sobre uma linha, talvez semelhante àquelas que periodicamente traçamos e as quais imaginamos, ilusioriamente, darem-nos algum controle sobre aquilo que retratam.
Neste cenário, mesmo que composta por palavras e imagens, a notícia audiovisual tem na linguagem verbal sua maior ferramenta, ainda muito semelhante a uma estética radiofônica. A imagem pode ser seu maior alicerce, mas, sem a coadnução de uma descrição oral, seria provavelmente insuficiente como elemento transmissor primordial da informação noticiosa, ao menos no formato a que estamos habituados. As exceções, se é que existem, dificilmente prescindiriam de alguma intervenção falada, por menor que fosse, como uma simples frase dita por um locutor a anunciar a imagem que estaria por vir. Desse modo, a análise é prioritariamente conduzida a partir da linguagem verbal, mantendo-se sempre à tona, entretanto, a indelével importância das imagens na consolidação das relações temporais lineares expressas pela notícia audiovisual.
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maneira como constituímos nossa memória – dispondo instantâneos de nossas lembranças (como fotografias daquilo que vivemos) sobre nossa linha do tempo interna e individual –
apresenta consonância com a compreensão alcançada pela neurociência a respeito do funcionamento cerebral. O cérebro lida de forma linear com os estímulos que recebe, sejam eles externos ou provenientes do corpo. A mente apresentar semelhante linearidade é bastante razoável. Há coerência em nossa memória distribuir linearmente as recordações que guarda. Mais ainda, é precisamente a partir da percepção de um ordenamento sequencial entre eventos que a noção de tempo surge na consciência humana. A mente consciente, fruto de uma atividade cerebral que é, ao que tudo indica, linear, reconhece a existência de uma sucessão igualmente linear de acontecimentos a configurar um antes e um depois. A evolução do mundo em que estamos inseridos, e no qual temos a consciência de estar, manifesta-se para nós através de eventos consecutivos. É dessa continuidade que floresce na mente humana o conceito de tempo. E essa sequência de fatos e momentos, quando por um de nós vivenciada, é assim também armazenada, de uma forma linear e unidimensional, em nossa memória. Memória essa fundamental para nossa permanência e desenvolvimento como indivíduos e como espécie; em suma, essencial a nossa autonomia diante de um tempo que passa sem cessar, ou diante de nossa passagem sem cessar pelo tempo da vida neste universo.
1.3 Hipótese
A reunião de pensamentos advindos de estudos dedicados a diferentes ciências, brevemente apresentada acima, constitui o cerne desta pesquisa. A discussão aqui desenvolvida o é dentro de uma perspectiva que tem na ontologia seu referencial primeiro e fundamental, a qual se ambiciona seguir a partir do entendimento de que “uma das vantagens da prática ontológica é que, ao lidarmos com traços muito gerais de coisas, podemos utilizar
os mesmos para fazer comparações e conexões inter e transdisciplinares” (VIEIRA, 2008, p. 26). Da mesma forma, é igualmente também a partir de uma perspectiva interdisciplinar que está elaborada a hipótese deste trabalho, exposta abaixo e cujos termos buscam congregar elementos concernentes ao referencial teórico como um todo, dentro de uma abordagem sistêmica.
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tornado disponível pelos meios de comunicação. A processualidade interna e biológica do sujeito talvez não esteja preparada para lidar com as variadas e diversas escalas temporais oferecidas ininterruptamente pelas notícias. Portanto, a hipótese cuja coerência se investiga é assim formulada: o fluxo noticioso contemporâneo, ao interagir com as paradas virtuais do tempo de recordação subjetivo do indivíduo, pode alterar sua memória, interferindo em sua autonomia.
1.4 Descrição dos capítulos
A notícia nos transmite informações que amplamente definem o espaço que ocupamos e o tempo em que vivemos. O que pode reivindicar uma sociedade cuja maioria parece delegar a outros o controle cotidiano do seu tempo passado, presente e futuro? As particulares paradas virtuais de nossa recordação individual, únicas e instrospectivas e através das quais contamos e recontamos nosso próprio tempo, talvez não mais nos pertençam. Se alterada a memória, repertório de informações que construímos e carregamos para posicionarmo-nos ante o mundo, pode redundar também alterada nossa autonomia.
A prática ontológica aparenta ser apropriada ao desenvolvimento desta discussão, ao indicar, conforme Bunge, o reconhecimento, a análise e a inter-relação “dos principais traços
do mundo real como conhecido através da ciência”, permitindo que se produza “um retrato unificado da realidade” (1977, p. 5). Afinal, de acordo com o autor, toda questão científica é derivada da questão primeira da ontologia, que inquire, simplesmente, como é o mundo.
Inicia-se o referencial teórico com uma apresentação dos termos da hipótese que requerem uma definição mais aprofundada: tempo, interferência das notícias e memória. A diversidade entre tais elementos leva à referida abordagem ontológica, conduzida a partir de uma realidade sistêmica onde parâmetros como permanência, ambiente e autonomia são definidos, para a posterior apresentação da função memória, fundamental para este trabalho.
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concomitantemente). Apresenta-se ainda a noção de colapso relacional, segundo a qual depois que duas quaisquer coisas internalizam uma relação, isso não pode mais ser desfeito – sendo que essa internalização, por sua vez, indica o sentido do fluir do tempo.
A parte final do referencial teórico aprecia o entendimento de Bergson acerca de como armazenamos nossas recordações – em intervalos linearmente fixos na memória –, mas não sem ressaltar a imprecisão do filósofo acerca da localização da memória fora do corpo. Seu pensamento é colocado à contraluz de estudos mais recentes provindos da neurociência, e nessa contraposição se encontrará uma peculiar similaridade acerca da função da memória, redundando numa melhor compreensão de por que possuímos uma mente que lida com o tempo – e não só com o tempo – de forma linear.
A metodologia apresenta a análise da íntegra de um telejornal, em busca de referências temporais e do manejo do tempo por parte das notícias. Quando somos então conduzidos à conclusão e a considerações finais sobre a participação das noticias e dos meios de comunicação em nossa percepção da passagem do tempo, em plena concordância com
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2 REFERENCIAL TEÓRICO
O impulso para refletir sobre tempo e memória surge do interesse em observar a interferência, ou o grau de interferência, do vertiginoso fluxo noticioso destas primeiras décadas do século XXI em nossa percepção da passagem do tempo. A abordagem que se considera apropriada é calcada na interdisciplinaridade, permitindo relacionar, de forma coerente, conceitos oriundos de campos científicos distintos – contudo, complementares. As notícias exibidas em telejornais diários de emissoras de televisão aberta brasileiras constituem o substrato de onde será selecionada a amostra da pesquisa.
Estende-se, como pano de fundo, o pensamento de que o consumo e a exposição aos meios noticiosos, por parte dos espectadores, é componente fundamental da organização da sociedade. A relação que se considera haver entre órgão emissor e sujeito receptor de notícias não é, entretanto, igualitária. Acredita-se na existência de uma forma de precedência (BUNGE, 1979, p. 250) entre aquele que se propõe a prover informação e aquele que a consome. Ao assistir a um telejornal ou a uma única notícia separadamente, o sujeito adquire alguma informação (qualquer que seja, mesmo um novo relato de algo que já conhecia) que antes não possuía. Por mais que detenha o alardeado poder de trocar de canal ou de desligar o aparelho televisor (ou algum artefato tecnológico que o substitua), o indivíduo é o polo subsequente– e menos potente – nessa relação.
Desde sua gênese impressa nos séculos XV e XVI, e mesmo antes de sua consolidação, ainda no início do século XVII, no formato em que as consumimos hoje, as notícias têm sido instrumento imperioso em nosso conhecer de um mundo próximo e distante (HABERMAS, 1989; THOMPSON, 1995). Igualmente, os entes que as emitem são atores de um processo que flui dentro da integralidade do ambiente socioeconômico em que vivemos. Thompson observa que os meios de comunicação, quaisquer que sejam, ao prescindir da materialidade da presença física, geram algo distinto dos encontros da vida cotidiana:
De um modo fundamental, o uso de meios de comunicação transforma a organização espacial e temporal da vida social, criando novas formas de ação e interação, e novos modos de exercício do poder, os quais não estão mais vinculados ao compartilhamento de um local comum (1995, p. 4, tradução nossa).
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participação dos órgãos comunicativos. Por notório que seja, as notícias audiovisuais e seus emissores adquiriram uma participação que abrange a totalidade da vida do indivíduo e da sociedade, tanto local como globalmente, e é desse modo que essa investigação as considera. O fluxo noticioso é a célere e afiada extremidade do polo mais forte de uma coexistência emissor-receptor em que o tempo é um só para todos – ao contrário, ao que tudo indica, do poder de contá-lo.
2.1 Abordagem ontológica
A qualidade interdisciplinar está no âmago da discussão aqui proposta, revelando-se já nos termos que exprimem seu objetivo primordial: discutir a eventual interferência do fluxo noticioso em nossa percepção da passagem do tempo. A começar pela busca de uma definição de (1) o que é o tempo e de como se poderia retratar e atestar sua passagem. Será o tempo que passa, ou seremos nós que passamos no tempo? Do mesmo modo, (2) como estimar a interferência das notícias em um único indivíduo, considerando o substancial – senão pleno –
grau de subjetividade envolvido nessa relação? E mais: que tipo, qual forma de interferência? A própria noção de um intenso fluxo noticioso poderia ser questionada, uma vez que a intensidade da exposição ao – assim considerado – contínuo jorro informativo contemporâneo igualmente depende, ou deveria depender, em larga medida, do sujeito espectador. Além disso, há diversas alternativas possíveis para se definir e abordar (3) percepção e memória, atributos humanos sem os quais as questöes aqui apresentadas inexistiriam.
É fato que a reunião de elementos variados possa concorrer para um menos profundo esmiuçar de suas características, ao contrário daquele encontrado em estudos restritos pela especificidade. Por outro lado, e mais importante para a presente pesquisa, o percorrer de rotas interdisciplinares deve viabilizar uma compreensão como um todo da relação notícia-tempo-indivíduo. A fundamentação teórica que se propõe almeja, portanto, o geral e o completo:
A complexidade exige que possamos entender e modelar a interação entre coisas e processos de naturezas muitas vezes bem diversas, sob pena de não captação do que há de fundamental nesses sistemas (VIEIRA, 2008, p. 25).
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ontológica que se está a falar, a permitir, conforme Vieira, uma maior clareza no entendimento de conceitos como, entre outros, tempo e processo, essenciais para a presente discussão. A ontologia possibilita a “comparação entre objetos de ciências específicas nas tentativas inter e transdisciplinares”, uma necessidade “flagrante nas ciências da complexidade” (ibid). A presente investigação é efetivamente uma tentativa interdisciplinar que busca, ao congregar ciências distintas, encontrar pontos de convergência que colaborem para ilustrar – como um todo – o modo como o sujeito espectador percebe o tempo na forma em que é manejado pelas notícias. O enfoque ontológico proporciona abordar a questão de maneira condizente com seu entrelaçamento com a plenitude tanto do ambiente como do indivíduo, cotidiano em que o processo humano de apreensão do tempo das notícias se dá sem separações a determinar os limites de aplicabilidade de uma ciência em detrimento de outra. Busca-se, em suma, a prática de uma ontologia científica, conforme apresentada por Bunge:
Se isso é assim então não é preciso haver qualquer hostilidade entre ciência e metafísica (científica). Não há sequer uma lacuna, menos ainda um abismo, entre elas: a ontologia é ciência geral e as ciências factuais são metafísica específica. Em outras palavras, ambas ciência e ontologia investigam a natureza das coisas, mas, enquanto a ciência o faz em detalhe e assim produz teorias abertas a escrutínio empírico, a metafísica é extremamente geral e pode somente ser verificada por sua coerência com a ciência (1977, p. 16, grifo no original, tradução nossa).
Desse modo, é fundamental que a reunião de correntes científicas e filosóficas não necessariamente similares aqui aplicada o seja de forma coerente, abordando e clarificando a relação notícia-tempo-indivíduo como um todo. Cabe ressaltar que Bunge trata ontologia e metafísica quase como sinônimos, levando Vieira a ponderar que:
[...] “embora a rigor haja diferenças entra as duas áreas, é nesse sentido que estaremos adotando aqui uma certa identificação entre uma „Teoria da Realidade‟ (Metafísica) com uma „Teoria do Ser ou dos Objetos‟ (Ontologia). Mais ainda, toda ciência será uma Ontologia Regional, na medida em trabalha com tipos de objetos específicos” (2008, p. 22).
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delimitar os conceitos científicos e os parâmetros ontológicos utilizados na análise do processo aqui investigado.
2.1.1 Realidade sistêmica
Colocadas lado a lado, diferentes interpretações da realidade podem colaborar para o entendimento da relação notícia-tempo-indivíduo da maneira como esta se apresenta na realidade: integrada ao cotidiano do sujeito e, no que tange às possíveis consequências da imersão do indivíduo nesse universo noticioso, sem separação formal entre o que concerne a este ou àquele campo científico. A existência de um cenário – qualquer que seja – e de um período de tempo em que um indivíduo dedica sua atenção às notícias audiovisuais é tomada como real. Vieira ressalta, entretanto, que “admitir uma realidade implica a necessidade de hipóteses ontológicas sobre a mesma” (2008, p. 24). Para o autor, em consonância com
Bunge, essas hipóteses podem ser expressas como a realidade é sistêmica, complexa e legaliforme (obedece a leis). Assim, dentro de uma ontologia científica a nos auxiliar na investigação de uma realidade sistêmica e complexa, congregamos também com Bunge na concepção de que todas as coisas interagem com pelo menos alguma outra coisa, constituindo sistemas:
Um sistema, então, é um objeto complexo, cujos componentes são mais inter-relacionados do que livres. Se os componentes são conceituais, o sistema também o é; se eles são concretos ou materiais, então eles constituem um sistema concreto ou material. (1979, p. 4, tradução nossa).
Independentemente se conceitual ou concreto, um sistema possui ainda, segundo o autor, uma composição, um ambiente e uma estrutura bem definidos. A composição é basicamente aquilo que o compõe, enquanto a estrutura é a relação entre esses componentes e também destes com o ambienteem que o sistema se insere. “O ambiente deve ser incluído na
descrição de um sistema porque seu comportamento depende criticamente da natureza do seu
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é o conjunto de todas as coisas não pertencentes ao sistema, mas que agem sobre ele ou sofrem alguma ação exercida por ele sobre elas. Já o sistema que tampouco agir ou sofrer ação alguma por parte de outra coisa é tido como um sistema fechado, sendo que, efetivamente, o único sistema sempre fechado é o universo (BUNGE, 1979, p. 6-9).
Igualmente tomando a realidade como formada por sistemas abertos, Vieira amplia a conceituação de sistema apresentando, em paralelo a Bunge, a definição seguida por Avanir Uyemov, segundo a qual um agregado de coisas será um sistema quando, além de interagirem,
tais elementos “venham a partilhar propriedades” (VIEIRA, 2008, p. 29-30). Conforme observado por Vieira, entretanto, a definição de Uyemov exibe uma limitação ao deixar de explicitar a existência de um sistema ambiente (como referido por Bunge) a envolver qualquer outro sistema. A referência a este sistema envoltório é necessária porque todos os sistemas – exceto o universo – são sempre abertos em algum nível. Apesar desta pequena discrepância, ambas definições de sistema são, para Vieira, compatíveis. Assim, uma vez que não são conflitantes, serão mantidas à tona. Ainda mais significativos, contudo, são os parâmetros sistêmicos relacionados por Vieira, a alguns dos quais é necessário dedicar pormenorizada atenção.
2.1.2 Parâmetros sistêmicos
Parâmetros sistêmicos são características comuns a todo e qualquer sistema, presentes à revelia da natureza e das particularidades de cada um. Seguem-se aqui as definições conforme apresentadas por Vieira (2008, p. 31-42). Desse modo, são duas as classes de parâmetros sistêmicos: os básicos ou fundamentais, existentes em todo e qualquer sistema em qualquer momento de sua história; e os evolutivos, que podem surgir ao longo da história e da evolução de qualquer sistema, mas não necessariamente em todos os sistemas. Pela relevância que possuem para o desenvolvimento desta pesquisa, sendo através deles que se chegará a uma primeira noção do que pode ser uma ideia de passagem do tempo, cabe observar em mais detalhe os parâmetros básicos ou fundamentais – que vem a ser permanência, ambiente (este, já citado, mesmo que ainda não especificamente como parâmetro sistêmico) e autonomia.
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(contraditoriamente, talvez aqueles que mais facilmente pereçam), a permanência é algo buscado por todos os entes da realidade, sejam eles produtos da natureza ou criação humana (meios de comunicação inclusos). Distinta, mesmo que não apartada da ideia de sobrevivência, a permanência é a duração no tempo de quaisquer objetos, inclusive os anteriores ao surgimento da vida ou que prescindem dela como a conhecemos. O saber científico atual permite concluir, pondera Vieira, expandindo a reflexão para o âmbito da cosmologia e do universo (único sistema sempre fechado em todos os níveis), que a permanência dos sistemas nele contidos (ou seja, tudo que existe) nada mais é que uma estratégia encontrada pelo próprio universo para garantir sua própria permanência.
Para que a evolução universal prossiga a contento, é preciso que os sistemas contidos no universo sejam abertos, possibilitando a troca de matéria, energia e informação com outros sistemas. O mais proximamente imediato, indica Vieira, costuma ser o ambiente, segundo parâmetro sistêmico básico ou fundamental. É no sistema ambiente que se acumulam os estoques necessários para garantir os processos de permanência. O universo, em última instância, é o ambiente de todas as coisas e de todos os sistemas – mas alguma proximidade é requerida para que trocas efetivas aconteçam. Nesse sentido, Bunge faz observação relevante ao ressaltar que, com exceção da astronomia e da cosmologia, a atenção se localiza “não nas
transações de um um sistema com o resto do universo, mas somente naquela porção do
mundo que exerce uma influência significativa sobre a coisa de interesse” (1979, p. 9,
tradução nossa). Um sistema aberto, portanto, encontra nas trocas com seu ambiente imediato os elementos (de conhecimento, inclusive, como também culturais e emocionais) necessários a sua permanência.
Por fim, a autonomia, diretamente ligada aos estoques referidos acima, armazenados pelos sistemas ao longo do tempo através de trocas com o ambiente. Espécie de internalizações a colaborar para a permanência do sistema, os estoques (de informações, de energia, etc.) garantem a autonomia. Além disso, prossegue Vieira, o estoque informativo, ao participar do processo evolutivo de um sistema, adquire uma qualidade histórica, originando o que Bunge designa como uma função memória. Antes de nela concentrar esforços, cabe concisamente mencionar que os três parâmetros sistêmicos fundamentais – permanência, ambiente e autonomia– atuam em conjunto: a permanência sendo viável no ambiente através do qual se elabora a autonomia, que, por sua vez, constitui-se, conforme explicitado por Vieira, em memória ou hábito.
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tempo será, enfim, trazida à investigação.
2.1.3 Função memória
Considerar-se-á uma conceituação geral da função memória, aplicável a qualquer sistema, sempre tendo em mente o caráter fundamental da memória (conjunto de estoques) para a autonomia e para a permanência de, igualmente, qualquer sistema:
Uma função memória conecta o sistema presente ao seu passado, possibilitando possíveis futuros. Em sistemas de baixa complexidade, a memória é simples (...), mas em sistemas complexos ela pode surgir exatamente com o significado a que estamos habituados, como na memória de um ser humano, um complexo processo cerebral e celular (VIEIRA, 2008, p. 35).
Além disso, a relação de uma coisa ou de um sistema com seu passado surge, segundo Bunge, quando o estado da coisa ou do sistema, em sua evolução, deixa de depender apenas da fase atual de um qualquer processo, passando a depender também de um ou de alguns estados anteriores (1977, p. 247). Essa operação do passado sobre o presente constitui a função memória. De maneira correlata e subsequente, é possível designar a ação da função memória M sobre um determinado estado E do sistema no tempo t. Sendo esse estado denotado por E(t),:
[...] este estado é o resultado da elaboração de estados passados E(t–τ) por meio da memória M, ou seja, E(t) = E(t – τ) * M(τ), tal que * indica uma operação executada por M sobre o estados passados. (...) Podemos pois conceber a ideia de memória como a de uma transformação interna ao sistema, na evolução de seus estados no tempo (SANTAELLA e VIEIRA, 2008, p. 87).
Sendo ainda a função memória diretamente ligada à autonomia de um sistema, considera-se coerente o entendimento de que a memória, além de armazenar o estoque de informações necessário à permanência de um sistema, representa também o histórico de suas transformações ao longo da passagem do tempo. Transformações essas que são também produto das trocas ocorridas entre um sistema e seu ambiente. De acordo com Santaella e Vieira, “a continuada interação sistema/ambiente altera os dois, criando processos e
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natureza ocorre é chamada de internalização da relação. Por fim, considerando que a definição ontológica da função memória é condizente com o entendimento de memória para o senso comum, a definição será útil na tentativa de quantificação dos efeitos, sobre o sujeito, da internalização de relações temporais que se considera alheias ao ritmo – quiçá à capacidade –
de processamento mental do indivíduo espectador.
Mais que a antiga e recorrente mera impressão de um relógio a correr mais rápido, a percepção atual da passagem do tempo pode efetivamente não ser a mesma que tiveram os anteriores a nós, desprovidos que eram da possibilidade de se colocar diante de uma tela incessantemente a prover estímulos audiovisuais dotados de uma cronologia própria e estranha ao alternar do que é dia e noite. Para levar a termo, e de forma apropriada, tal discussão, faz-se necessário elaborar algumas considerações acerca do conceito de tempo.
2.2 O conceito de tempo
O trabalho aqui desenvolvido tem na vida cotidiana seu ponto de partida e seu ambiente de investigação. Leva em conta aspectos da relação indivíduo-notícia como essa se dá no dia-a-dia dos sujeitos. Ao se falar em tempo e na interferência que o fluxo noticioso possa representar na percepção de sua passagem, busca-se coerência com o tempo como habitualmente o percebemos. Em outras palavras, conforme Vieira (2008), uma abordagem realizada através de uma perspectiva objetiva, realista e crítica: a realidade existe, é sistêmica, complexa e obedece a leis (sendo organizada, não caótica). Imersos na rotina deste cenário, comungamos no leigo entendimento – advindo do corriqueiro virar dos dias – de que o tempo passa. Mesmo assim, talvez não haja uniformidade naquilo que tal percepção representa, por generalizada e eminentemente humana que seja. Para um determinado sujeito, o tempo que leva para determinada coisa acontecer pode parecer mais tempo do que para outro, mesmo que este tempo seja o mesmo. Pode igualmente levar mais tempo, e ainda assim parecer menos. Alguns dias se arrastam; outros, costumeiramente os mais memoráveis, só se percebe que passaram quando de fato já se foram.
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subjetividades, o tempo inexiste como objeto tangível: dependemos dele e sentimos seus efeitos, mas ele continua inacessível e fora de nós. Ao percebermos a etérea e indelével presença do tempo, com suas inevitáveis consequências, criamos representações que possibilitem, de alguma forma (novamente, mesmo que falha) lidar com ele. Em face da inviabilidade de apreendê-lo e confiná-lo, elaboramos interpretações que deem uma forma e um sentido ao tempo – tanto um sentido físico e fenomenológico, de onde vem e para onde vai, quanto um sentido ontológico, o que é o tempo para o homem.
2.2.1 O medir linear do tempo
O tempo, entretanto, não parece possuir qualquer verdadeira trajetória, uma vez que a existência dessa pressuporia um deslocamento no espaço. Mas é precisamente através de uma ideia – mesmo que enganosa – de trajetória temporal que lidamos com o tempo. Tal compreensão funciona diante das demandas, inclusive as de sobrevivência e permanência, do mundo macroscópico e consciente dos humanos. Parte considerável da ciência, notadamente a Física e os avanços dela advindos com as descobertas de Newton e Einstein, baseia-se também em uma noção de medida espacial do tempo.
Por descaracterizada que seja, a prática científica de tomar o tempo como se palpável fosse é condizente com a realidade cotidiana. A imagem temporal resultante, entretanto, deixa de lado aquilo que constitui a essência do tempo – a duração. A observação é do francês Henry Bergson, cujos pensamentos são a inspiração primeira e fundamental desta investigação. Conforme reflexão elaborada pelo filósofo ainda nas primeiras décadas do século XX, contemporâneo de Einstein que foi, o medir da duração é efetuado através de uma linha, que passa a espelhar o tempo. Na visão de Bergson, esse modo de medir
“contrasta radicalmente com todos os outros processos de medida”, por eliminar da
representação exatamente aquilo que deseja representar. A linha traçada e medida, enfatiza Bergson, é imóvel – enquanto o tempo é mobilidade:
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As notícias, objeto da presente discussão, retratam eventos passados e, eventualmente, tentam contemplar os futuros. Ao reproduzir o quando dos fatos que reconta e prediz (através de datas, horários), uma notícia trabalha com delimitações temporais que, se alinhadas às paradas virtuais no tempo descritas por Bergson, a elas parecem se assemelhar. O intervalo temporal pode não estar explicitamente contado ou medido (tantos anos, algumas horas...), ou nem mesmo ser o mote principal do que é ali contado, mas o lidar noticioso com o tempo se dá através de momentos fixos cronologicamente. A duração do fato original, ao ser narrado pela notícia, está dela excluída, dando origem a outro fato ou evento, a notícia em si, com sua própria duração.
Bergson (1968), no entanto, vai além e chega a dizer que o tempo não só é o que está
acontecendo, como leva tudo a acontecer. Essa consideração remete à “ideia de um tempo universal defendida por Bergson”, conforme comentam Prigogine e Stengers (1992, p. 197) ao citarem o debate havido entre Bergson e Einstein – que o filósofo teria perdido, por um erro na interpretação de parte das teorias da relatividade de Einstein. Para a reflexão aqui estruturada, a relevância deste paralelo está naquilo que os autores consideram ser uma característica que seu trabalho compartilha com o de Bergson: a visão de que “o ponto de
partida de qualquer pensamento que busque a realidade deve ser nossa experiência mais
íntima” (Prigogine e Stengers, p. 15). Os autores partem dessa concepção para propor uma inversão aos procedimentos da física tradicional. Veja-se.
2.2.2 Tempo irreversível, tempo primordial
Dito de forma bastante breve, o tempo para a física clássica é uma grandeza como outra qualquer e, assim, a partir do estabelecido pelas equações da dinâmica, possuiria um caráter que não entraria em desacordo com uma crença em sua reversibilidade. A percepção da passagem do tempo, aludida parágrafos acima como pertinente à vida cotidiana e condizente com a realidade, seria, conforme ressaltado por Prigogine e Stengers (contrários a esse entendimento que são), nada mais que “derivada relativamente às leis fundamentais da física” (1992, p. 6). Existiria um tempo reversível, de tal forma que os eventuais processos irreversíveis da natureza seriam particularidades de um tempo a ser, para nós, inacessível.
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irreversível. O tempo fenomenológico deve abranger o tempo das equações, a flecha do tempo não deve ser ignorada: “Ou nós chegamos a identificar o tempo irreversível em todos os
níveis, ou então não poderemos compreendê-lo em nenhum lugar” (1992, p. 16). O tempo cotidiano, em que o leigo e o cientista comungam do mesmo calendário, ampulheta de sentido único cuja areia não cessa de escorrer, não pode ser apartado do tempo da ciência.
Por outro lado, se Bergson excede ao considerar que o tempo leva tudo a acontecer, Prigogine e Stengers podem ter também exacerbado ao afirmar, categoricamente, a existência do tempo como algo, para nós, inatingível. Ao analisar o surgimento do universo a partir de uma perspectiva fenomenológica, eles estabelecem considerações bastante interessantes acerca de por que o tempo não apresenta a reversibilidade ainda hoje seguida por determinadas correntes da física tradicional. Observam os autores que “Einstein permitiu-nos pensar a unidade indissociável do espaço-tempo e da matéria. No entanto, esta unidade não
significa equivalência”. Na sequência de seu raciocínio, expõem ainda que o tempo que conhecemos é o tempo de nosso universo, surgido, segundo a ciência, com o Big Bang, mas que a flecha desse tempo não é criada pelo surgimento do universo e, sim, “atualizada pela flutuação que desencadeia o nascimento desse Universo. O tempo precede a existência” (p.
167-8, grifo nosso). Por mais válida que seja a intenção de unificar os conceitos de tempo da ciência e do cotidiano, e reafirmando o vínculo desta pesquisa com o tempo da realidade diária, da fenomenologia, será que somos providos, como espécie, de efetivas condições de processamento cerebral e de compreensão consciente para poder afirmar que o tempo, mesmo que o seja, é anterior a tudo?
Kenneth Denbigh, para quem o tempo deve ser prioritariamente encarado como um conceito humanamente construído, apresenta concordância com Prigogine e Stengers quando estes dizem que a unidade inseparável do espaço-tempo e da matéria não significa que sejam equivalentes. Comenta Denbigh que, por mais que as medidas de intervalos espaciais e temporais não sejam, conforme Einstein, invariantes (exceto dentro de um único sistema de
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quaisquer dois eventos, um observador em movimento registraria um intervalo de tempo entre eles que diferiria daquele mensurado por um observador parado. Mas isso apenas para grandes intervalos e grandes distâncias. No corriqueiro dia-a-dia, essas diferenças temporais entre eventos, se existem, são insignificantes e inobserváveis.
Para a intenção presente, acata-se a dificuldade, quiçá a incapacidade, de tratarmos a duração em termos que lhe sejam genuínos correspondentes. Tempo e espaço, por indissociáveis que possam ser, não são equivalentes, a tal ponto que:
[...] é um lugar-comum que nós não temos um aparelho sensorial que forneça conhecimento de relações temporais tanto quanto os sentidos que temos para prover conhecimento de relações espaciais (DENBIGH, 1981, p. 11, tradução nossa).
É exibindo este desequilíbrio na habilidade para perceber espaço e tempo que estamos imersos em um ambiente permeado por notícias produzidas e oferecidas por meios de comunicação. Empresas públicas ou privadas que, também em busca de permanência, fazem parte de nosso tempo e de nossa duração – mesmo que lidemos com essa duração sem estarmos aptos a plenamente representá-la, mais aptos que somos para falar e apreender o mundo em termos de espaço que de tempo:
Habitualmente, quando falamos de tempo, nós pensamos na medição da duração, e não na duração em si. Mas essa duração que a ciência elimina, e a qual é tão difícil de conceber e expressar, é o que se sente e vive (BERGSON, 1968, p. 12, tradução nossa).
Sentimos e vivemos o tempo acompanhados por empresas que, em legítimo processo ontológico – o que não é o mesmo que dizer eticamente legítimo –, batalham para permanecer, assim como todos nós. O lidar dos meios de comunicação com o tempo, em contínua busca por solidificar sua permanência, atraindo e retendo o telespectador, é parte desse processo, refletindo-se nos noticiários que apresentam.
2.2.3 O tempo é presente
Demonstrar a presença da flecha do tempo em todos os níveis da matéria, do muito
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desprovida de vínculo pleno com a realidade uma ciência que ignore o tempo irreversível do cotidiano e da fenomenologia. Descobertas ocorridas a partir dos anos 1950 levaram, segundo eles, à “necessidade de ultrapassar a negação do tempo irreversível que constitui a herança
deixada pela física clássica” (1992, p. 13). Com profundidade e detalhamento, sustentam ser possível – e necessário – encontrar o tempo irreversível em qualquer dimensão da matéria, tentativa essa em que diversos outros cientistas fracassaram. Notadamente Boltzmann, que falhou ao tentar explicar a irreversibilidade dos processos termodinâmicos microscópicos através das leis da dinâmica macroscópica, reino da física clássica em que impera um tempo tido como reversível. Inadvertidamente, Boltzman fez uso do reversível para tentar explicar o irreversível.
Para Prigogine e Stengers, como dito, a abordagem deve ser inversa, não havendo desacordo entre os dois níveis da matéria, o muito grande e o muito pequeno. Se pista falsa há, está presente no nível macroscópico, cujo estado de equilíbrio obnubila a presença da flecha do tempo, sempre observável no nível microscópico. Assim, a singularidade deixa de estar na irreversibilidade e se transfere para os processos teoricamente reversíveis, ponto de partida e objeto da física clássica e dinâmica, em que a reversão das consequências as remeteria, supostamente, de volta às causas existentes quando da condição inicial. Essa “nova coerência”, como a chamam Prigogine e Stengers, promoveria um reencontro com “a
diferença intrínseca entre o passado e o futuro, sem a qual não podemos nem pensar, nem
falar, nem agir” (1992, p. 192). A vida, lugar-comum de que eventualmente nos esquecemos, dá-se no agora.
O tempo relevante para esta investigação é o do cotidiano, da experiência íntima. Em duas palavras, o tempo presente – que só existe em nossa consciência porque reconhecemos a diferença intrínseca entre o que passou e que está por vir. Para Denbigh, a percepção da existência de uma realidade presente2 precede “qualquer outro conceito temporal” (1981, p.
14, tradução nossa). A ordem temporal que coletivamente adotamos depende fundamentalmente de uma noção de presente coletivo. Trabalhamos, como espécie e como sociedade, com um acordo intersubjetivo de coexistência em um mesmo e único presente –
um tempo simultâneo e compartilhado. Sem a consciência primeira de que os eventos a se ordenarem tenham sido, em algum momento, presentes a todos nós, a construção de uma sequência temporal coerente seria inviável. Somente com essa condição atendida, afirma Denbigh, é que pôde emergir a noção de que um evento aconteceu antes ou depois de outro,
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com a subsequente ordenação entre antes e depois, coletivamente acordada, a partir desse critério.
Fora claramente percebido pelos antigos – embora talvez nunca explicitamente declarado – que há uma ordem serial única de eventos (isto é, que o tempo é unidimensional), e isso, é claro, foi a base para o estabelecimento de um sistema confiável para a datação de eventos através do uso de calendários e relógios primitivos (1981, p. 12, tradução nossa).
O consenso público acerca de uma ordem entre os acontecimentos, ainda anterior a qualquer formalização científica, é que teria originado o conceito de tempo que utilizamos. É igualmente interessante, também conforme Denbigh, que os termos que designam o surgimento de uma ordem temporal já pressupõem a existência desse ordenamento (1981, p. 13). Palavras como antes e depois fazem sentido graças a um contexto em que eventos se sucedem continuamente. O mesmo vale para suceder, cedo, tarde, e assim se poderia seguir citando exemplos que, indefinidamente, remeteriam a uma noção de ordenamento temporal compartilhado sem o qual essas palavras sequer fariam sentido. Diferença entre antes e depois que está também presente nas notícias – inclusive se manifestando através delas. Seja pelos eventos que retratam, originalmente ordenados no tempo coerente e sequencial da realidade de que são extraídos; seja pelo evento que a própria exibição das notícias vem a ser, elas também ordenadas em um telejornal a pervadir e alterar o ambiente do indivíduo espectador, imiscuindo-se no repertório de relações internalizadas pelo sujeito durante a continuidade do tempo presente que comunga com as noticias.
2.2.4. A notícia é presente
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(...) se um corpo existe durante um intervalo temporal (...), ele existe igualmente durante qualquer parte do intervalo, enquanto uma propriedade correspondente não se aplica ao espaço, uma vez que se um corpo existe por todo um volume, somente uma parte do corpo existe em alguma parte do volume (WHITEHEAD apud DENBIGH, 1981, p. 46, tradução nossa).
Denbigh segue e encontra sucinta clareza ao expressar que a diferença entre tempo e espaço está presente na própria noção de existência de um corpo. Enquanto um volume ocupa nada mais que o espaço correspondente a suas dimensões, estará presente na integralidade do tempo em que existir. Considera-se viável expandir esse raciocínio para um evento. Enquanto durar, o evento ocupará todo o tempo de sua duracão – o que não impede, a priori, que outros eventos concomitantes também o façam, em qualquer conjunto de momentos ou mesmo na integralidade de um mesmo intervalo de tempo. A notícia retrata fatos, eventos. Quando de sua veiculação, se torna ela também um evento – a preencher, durante determinado intervalo (exclusivamente ou não), a íntegra do tempo do ambiente aonde aporta sua transmissão.
Assim como os termos que designam o ordenamento temporal já pressupõem a existência desse, é significativo observar a utilização, ou mesmo a necessidade de utilização, de verbos que pressupõem a existência de uma dimensionalidade espacial para referir tempo, como ocupar e existir. Eventual evidência, manifesta na linguagem, de nossa efetiva maior capacidade de compreender e lidar com o espaço do que com o tempo.
Tempo que compartilhamos com as notícias quando de sua veiculação. Condições necessárias para tal, é preciso eletricidade, um aparelho receptor que opere a contento e, claro, que esteja ligado. O que ainda assim não garante que se esteja a prestar atenção àquilo que é exibido. O tempo aceita e permite que dois ou mais eventos ocorram simultaneamente em um mesmo intervalo. Mais coisas podem acontecer em um ambiente enquanto um aparelho receptor audiovisual está nele ligado. A relação com uma notícia que ocupe a temporalidade do ambiente depende também, portanto, da disponibilidade do indivíduo. O noticioso pode apenas estar lá, sem que se atente para o que comunica – o que tampouco impede que alguma efetiva troca entre sujeito e ambiente ocorra. A internalização de alguma alteração ou perturbação no ambiente provocada pelo meio audiovisual não é necessariamente desvinculada da ação individual, mas pode também acontecer à revelia da disposição do sujeito. Uma vez que algum aparelho estiver ligado e algum telejornal começar, estejam a visão e a audição atentamente voltadas à tela ou não, a notícia estará, com suas palavras, sons e imagens, presente no ambiente.
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atrelado aos pontos inicial e final das notícias, mais vinculado à confiança na existência dos noticiários. O aparelho televisor pode estar desligado, mas representa a certeza de que, em determinados intervalos de tempo, as notícias estarão lá. A presença dos organismos noticiosos, assim, amplia-se para além do intervalo em que o evento noticiário acontece. Como se a espera ou a expectativa fosse já uma presença. Se assim for, e acredita-se que de fato o é, o tempo comungado entre indivíduo e notícia passa a ser não apenas aquele em que estão frente a frente, mas o tempo como um todo. Uma garantia de existência se solidifica. As notícias estão lá e vão continuar a estar. Basta aguardar a hora certa. Os meios noticiosos audiovisuais, mais do que meros provedores de notícias, como que adquirem uma onipresença. Mesmo fora dos horários em que efetivamente exibem seus noticiários, estão presentes. A notícia, motivação primeira, adquire um caráter subalterno. Enquanto existem sem ocupar espaço físico algum, exceto aquele reservado a seus respectivos aparelhos receptores, os meios audiovisuais se tornam onipresentes no tempo. As notícias, quando ocupam um ambiente, são apenas a manifestação comprobatória dessa existência contínua, presença ininterrupta.
2.2.5 O sentido do tempo
Autores citados acima permitem já que se trabalhe com o entendimento de que mudanças no sistema ambiente podem levar a trocas entre um sistema aberto e o ambiente, agora alterado, que o envolve. Sendo a internalização de tais mudanças o centro da questão aqui debatida, e tendo sido mencionada como elemento concernente à discussão a atenção do sujeito às notícias audiovisuais, da concisão do seguinte trecho advém um aspecto que se considera interessante e peculiar na relação notícia-indivíduo:
A sensibilidade do sistema, ou seja, seu nível de abertura, faz com que, a partir das interações com o ambiente, as intensidades das propriedades do sistema mudem no tempo, provocando mudanças de estados. E tais mudanças podem provocar a referida internalização das relações (SANTAELLA e VIEIRA, 2008, p. 86).
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do sujeito. De qualquer modo, é possível ao espectador algum controle sobre o nível de atenção que dedicará a flutuação ambiental que dele se aproxima. A própria opção entre se colocar como espectador (sentando-se diante de um televisor) ou fazer outra coisa enquanto há um televisor ligado (conversar, ler, cozinhar) é já um indicativo da predisposição e da sensibilidade do indivíduo. A mudança de estado que experimentará é, em alguma medida, voluntária – assim como a eventual internalização subsequente à alteração que o sistema constituído pela pessoa percebe no ambiente quando há notícias presentes.
Internalização registrada e que, através da função memória, pode mudar as propriedades do sistema aberto do indivíduo e levá-lo a um novo estado – alteração que é também um indicativo da passagem do tempo. E mais do que isso. Internalizada uma relação, conforme Uyemov, é inviável desfazê-lo. O sistema alterado por uma mudança no ambiente que o envolve não possui condições de voltar atrás e readquirir sua característica anterior. A consequência dessa assimetria entre sistema e ambiente é explicitada pelo autor através da noção de colapso relacional:
O colapso relacional significa que depois que as coisas entram numa certa relação elas atingem um tal estado (resultante do efeito desta relação) que elas não podem se livrar de sua relação a não ser abolindo sua existência como coisas dadas (UYEMOV, 1975, p. 61).
A impossibilidade de retorno ao estado inicial, qualquer que seja esse estado, define, para Uyemov, a orientação para onde, ou por onde, segue o tempo. Assim, a internalização das relações constitui-se não só em registro da passagem do tempo, como também aponta um sentido para a flecha do tempo: “o tempo flui na direção que corresponde à transição de
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2.2.6 A linearidade do tempo
As observações acerca de uma ideia de apreensão do tempo surgida do estanque e do imóvel, de eventos e intervalos originalmente fixos numa cronologia anterior ao homem, entretanto, aparentam conter algum desacordo com o pensamento de Bergson. O ordenamento sequencial dos eventos pressupõe que estejam fixos, presos a uma linearidade onde a duração é tida como mero intervalo insípido entre eles. A representação espacial como geradora do conceito humano de tempo parece deixar de lado aquilo que se sente e vive entre os eventos. Quase como se o tempo inexistisse caso algum conceito não atestasse e referendasse sua existência. A passagem do tempo seria, assim, nada mais que o infinito sobrepor de intervalos dispostos sobre uma linha. A linha do tempo, é verdade, mas tomar essa representação como a imagem plena do tempo possa ser, talvez, exagerada sistematização de uma experiência tão rica e profunda que sequer dispomos de linguagem e dimensão apropriadas para descrevê-la.
A própria menção a uma existência do tempo é pobre naquilo que quer transmitir –
existir pressupõe dimensão, fisicalidade, volume. O tempo como coisa palpável e tangível não existe, sequer talvez se possa dizer que esteja presente, mas o sentimos e nele vivemos. Seu representar linear e unidimensional – como grandeza física espacial, enfim – é-nos útil como ferramenta e instrumento coletivo. Mesmo aquém daquilo que tenta espelhar, ajuda-nos com um certo mensurar da verdadeira duração, essa em que o passado se mantém ativo e continuamente pressionando o avanço do presente. Para Bergson, não sem ironia, o tempo como nada mais que o intervalo entre eventos é o tempo do matemático: desinteressado do
que ocorre “dentro” do intervalo, interessam-lhe apenas as condições que permitam “calcular o estado do sistema” em qualquer instante de qualquer intervalo (1998, p. 22, tradução nossa). Por menor que seja esse intervalo, e mesmo que o instante escolhido esteja dentro do intervalo considerado, esse será ainda, observa Bergson, um momento estático, desprovido do real fluir do tempo.
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continuamente alcançar, o lidar unidimensional com o tempo assegura o apreender de alguma coisa que, mesmo deficitária, represente o tempo. “A ideia de um eixo orientado do tempo é uma metáfora”3 – a concisão de Vieira é esclarecedora. E essa representação, por sua vez, é funcional para as demandas e a organização do dia-a-dia individual e coletivo. Enfim, independentemente do modo como cada um vive e sente a duração real, Denbigh parece ter razão ao expor sua contrariedade diante de uma coisificação do tempo.
O „tempo‟ não está „lá fora‟ como uma coisa substancial como um rio a fluir; é mais uma entidade abstrata, uma construção. As coisas que estão„lá fora‟, sobre as quais a construção do tempo é baseada, são os objetos materiais e seus eventos e processos (1981, p. 3, aspas e grifos no original, tradução nossa).
O conceito de tempo como o conhecemos não foi elaborado a partir das notícias, mas a partir de eventos, e muito anteriormente a qualquer especificação do que vem a ser a ideia de notícia como a reconhecemos hoje. As notícias, entretanto, adquiriram a condição de eventos em si mesmas, contendo tanto a indicação do sentido da flecha do tempo (através da internalização daquilo que transmitem) como reiteram o próprio conceito de tempo unidimensional que coletivamente adotamos (através da sequência linear em que são transmitidas). Imateriais, não são objetos, mas se referem a eventos reais e se convertem elas próprias em eventos reais, sendo geradoras e participantes de processos que sucessivamente reconstroem e reafirmam o fluir desse tempo que, quando tomado como linear, podemos de alguma forma deficitária dominar.
2.3 Memória linear
All I've got is some memories / Stuck in an old shoe box
Mick Jagger and Keith Richards, It Won't Take Long
A relação entre a memória do indivíduo e as notícias exibidas pelos meios de comunicação audiovisuais é de fundamental relevância para a presente discussão. Tendo em mente o notório, intuitivo e estreito vínculo da percepção do tempo com a memória, a relação notícia-tempo-indivíduo poderia quase ser expressa como notícia-tempo-memória. Ou seja, a